REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Página 3 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:41 am

- Não te encontras, acaso, em permanente comunicação com aqueles que te designaram? - perguntou o recém-desencarnado ansioso de auxílios novos.
- Fui ajudar-te, comprometendo-me a não cessar o intercâmbio com esse amigo generoso que me acolheu e proporcionou trabalho nas tuas reuniões - esclareceu o cooperador humilde -, no entanto, davas-me tantas preocupações e tantos encargos sobre pessoas, negócios, vilas e bairros diferentes, que, quando tentei receber novas instruções, não mais achei o caminho.
Sentindo-me só, tratei de unir-me mais e mais contigo e acreditei dever esperar-te, já que me prendeste tanto em tua própria senda.
Catarino experimentou a surpresa angustiosa de quem encontra o fundo do abismo.
Somente aí, compreendeu que os ignorantes não permanecem exclusivamente na Terra e que o pobre Aquiles não passava de servo confiante da indolência que lhe assinalara a última experiência terrestre.
Movimentando-se tardiamente, inclinou o companheiro a meditar na gravidade da situarão e, à maneira de bandeirantes da sombra, puseram-se a caminho, das trevas para a luz.
A jornada penosa realizava-se à custa de lágrimas e desenganos.
Quanto tempo durou a procura de uma voz abençoada que lhes ensinasse a saída do labirinto imprevisto?
Não poderiam responder.
Chegou, todavia, o momento em que Boaventura sentiu a presença de generoso amigo ao lado de ambos.
Bradou o reconhecimento que lhe vibrava no coração, quis ajoelhar, oscular os pés do mensageiro que lhes vinha ao encontro.
Não pôde, contudo, fixar o emissário, mas a voz que os cercava ergueu-se brandamente e fez-se ouvir com emoção:
- Catarino, Jesus nunca desampara os que se propõem firmemente à rectificação.
Reconheces, agora, que a vida em todo plano da Natureza pede esforço, trabalho, compreensão.
Como pudeste acreditar que Deus ligasse a esfera visível à invisível, na Terra, tão-só para subtrair o homem aos problemas e labores necessários?
Cada dia, no mundo, levava-te ao coração abundante celeiro de oportunidades que nunca soubeste aproveitar.
Aprendeste que os desencarnados são igualmente trabalhadores e nem sempre são missionários iluminados e redimidos.
Quando a Providência permitiu que se encontrassem os irmãos de uma e outra esfera, não foi para estabelecer inércia e sim desenvolver, mais intensamente, a cooperação, a fraternidade e o espírito de serviço.
Uns e outros são portadores de necessidades e problemas próprios, que a diligência e o amor recíprocos podem resolver.
Entretanto, transformaste o pobre Aquiles em muleta dos teus aleijões mentais.
Fugiste aos problemas, abandonaste o trabalho, renunciaste às possibilidades que o Senhor do Universo depositou em teus caminhos!...
Calando-se a voz por momentos, Boaventura implorou, afogado em pranto:
- Dai-me um guia por amor de Deus!...
- Um guia? - perguntou o mentor invisível para quê?
De que modo caminharás neste plano, se não quiseste aprender a caminhar nas estradas do Globo?
Não posso atender-te agora ao desejo; todavia, Jesus não te deixará ao desamparo...
Vamos, segue-me!
Regressarás à Terra para aprender que desencarnados e encarnados têm realizações que precisam efectuar conjuntamente.
Não desdenhes o desenvolvimento das faculdades próprias!
Vamos, Catarino, e não esqueças nunca que a dificuldade, a luta, o obstáculo e o sofrimento são guias preciosos que ninguém poderá dispensar na marcha para Deus.
E Boaventura, de mãos dadas com Aquiles, por sua vez perplexo, seguiu, cambaleando, a grande luz que rompia as sombras, voltando ao mesmo lugar donde viera, a fim de recomeçar a lição da vida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:41 am

18 - NARRADOR APENAS
- Terminara a leitura - continuou Armando Botelho, na palestra eventual, em casa dos Velosos - e entrei a meditar profundamente, quando o vulto penetrou no quarto, de leve.
Fixei-o surpreendido e reconheci minha mãe a mostrar-me o sorriso meigo de outro tempo.
Não disse palavra, nem se aproximou muito de mim; todavia, pude identificar-lhe as mãos rugosas, o olhar carinhoso e vivo, os cabelos brancos.
Enquanto o narrador distinto se calava bruscamente para acender outro cigarro, a nobre senhora interrogou:
- Mas, se conseguiu verificar fenómeno tão belo, como pode duvidar da comunicação dos Espíritos desencarnados?
Revelando maneiras apuradas no trato social, Botelho utilizou o cinzeiro, sorriu discretamente e sentenciou:
- Apesar disso, tenho minhas dúvidas.
Quem me diz que a visão não era reflexo de minha própria mente?
Durante o dia eu pensara em minha mãe, fitara retratos, relera velhas cartas dela.
Nada impossível que meu subconsciente padecesse determinadas excitações.
Aliás, estes casos são comuns. Nosso problema psíquico é mais transcendente do que se pode imaginar.
A Ciência de hoje relaciona observações indiscutíveis.
- Não compreendo bem - atalhou o respeitável Libório, hóspede da casa - neste passo, o subconsciente nos levará a ilações mais inacreditáveis e mais difíceis de exame.
- Sim - voltava Botelho, evidenciando falsa preocupação -, precisamos cuidado na investigação de fenomenologia tão extensa e complicada.
Além disso, possuímos recursos ignorados e é possível enganarmo-nos a nós mesmos.
- Concordo - explicava o interlocutor, judiciosamente -; todavia, em qualquer esforço é indispensável fugir ao absurdo teórico.
A conversação chegava a termo sem que ninguém estivesse de acordo.
Armando não cedia.
Contudo, ao transpor a porta, depois das despedidas, surgiam comentários discretos.
- Se Botelho é favorecido com tamanha protecção espiritual, por que não se modifica para melhor? - dizia a Sr. Peçanha recostada no sofá - é incrível que homens, assim, se entreguem a tantos escândalos na vida particular.
- Ora, ora - alegava o marido, instalado na cadeira em frente -, por que se deixará ele incomodar com Espíritos, quando tem vida folgada e dinheiro para esbanjar nos cassinos de luxo?
A mulher ainda agora recebeu nova herança.
Nessas condições, qualquer homem, ainda que visitado pela Corte Celestial, preferirá falar em ciência e faculdades ocultas.
Retrucava, entretanto, a companheira tomada de boa intenção:
- Nem tanto. Há capitalistas generosos, ricos devotados ao bem dos que sofrem.
Conhecemos amigos abastados, convertidos inteiramente a Jesus.
O marido tomou uma expressão brejeira e, arrancando riso dos presentes, respondeu sem hesitar:
- Mas estes, Raimunda, são os missionários.
Continuaram a destilar o fel da maledicência.
De alguma sorte, porém, Armando Botelho fazia jus a referências tão ásperas.
Desde muito tempo, a velha e amorosa mãe o chamava do plano invisível.
Intimamente, ele reconhecia o carácter real das manifestações, mas, amolecido pelo dinheiro, assumira condenáveis atitudes mentais.
Se o coração começava a ceder, os vícios falavam mais alto dentro dele e punham- no em fuga, através de noitadas alegres, onde o jogo, o vinho e as mulheres desenhavam- lhe quadros deliciosos.
Óptimo narrador, prendia os ouvintes com a fraseologia espirituosa, relatando fenómenos que o rodeavam; todavia, se algum amigo buscava incliná-lo a ilações religiosas, Botelho se revoltava.
Citava cientistas e filósofos, observações e experiências.
À religião que consagra e define responsabilidades, preferia sempre a vaidade, que liberta os instintos inferiores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:41 am

Comparecendo, certa vez, a humilde reunião espiritista, foi surpreendido com pequena mensagem maternal.
Aquela, que lhe fora carinhosa genitora no mundo, pedia-lhe caminhasse na senda do bem, procurando a inspiração de Jesus e valendo-se da fé na estrada humana e contudo, enquanto os amigos se rejubilavam, Botelho pôs-se em guarda e declarou:
- Não posso aceitar como idóneo este documento.
Os espiritistas costumam precipitar conclusões.
Quem afiançará que tudo não passa de alucinação telepática?
Pensei na querida morta insistentemente.
Não se daria o caso de transmissão de cérebro a cérebro?
Além disso, a página é excessivamente impessoal.
Minha mãe não se identifica, não se refere aos manos, aos netos, a letra não é expressão fiel.
Debalde, os amigos desapontados tentavam explicar; em vão procurou o médium relatar observações próprias.
- Tudo fragmentário, discutível... - rematava o negador renitente.
Foram inúteis detalhadas elucidações.
Botelho não aceitou.
Chegado a casa, notificou à esposa a ocorrência da noite, objectando-lhe ela docemente:
- Será útil prosseguir observando.
Creio que sua mamãe compartilha dos meus cuidados.
A mensagem requer atenção ao bem.
Não será um apelo justo?
Não representará amoroso convite a que deixe você os falsos amigos e o hábito absorvente do jogo?
Temos filhinhos requisitando dedicação e vigilância.
Essa página tem, pois, extraordinário valor a meus olhos.
Ignora talvez que venho recebendo cartas anónimas denunciando seu proceder, no que se refere a mulheres viciadas.
Não costumo tomar conhecimento de qualquer insulto ao lar; no entanto, acredito que deverá precatar-se quanto a companhias menos dignas, ressalvando o próprio nome.
Revelavam essas palavras tamanha generosidade e delicadeza que o esposo se calou, desapontado e vencido.
O acontecimento, porém, não lhe modificou as atitudes.
Depois de algum tempo, hospitalizou-se para tratamento de inesperada pneumonia.
Ameaçado de morte, Botelho declarou ter fé na intervenção do plano espiritual, implorou a assistência materna, prometeu vida nova à companheira, mas, quando se restabeleceu, não sabia falar senão de saudades dos companheiros levianos, e regressou ao cassino, mais escravizado que nunca.
Continuaram os fenómenos e apelos indirectos, e, todavia, ele prosseguiu examinando teorias científicas mais novas, a fim de reforçar argumentação negativa nas discussões habituais.
Transcorridos dez anos após a estada na casa de saúde, voltou a experimentar violentas dores no pulmão.
Nova profissão de fé, ante ameaças de morte; novas promessas à companheira paciente e humilde.
Restabelecido, porém, não mais se contentou com as extravagâncias nocturnas e incluiu as horas do dia nas dissipações costumeiras.
Apesar de tudo isso, aprimorava cada vez mais as qualidades de narrador fascinante e distinto.
Mais de vinte anos haviam passado sobre a palestra em casa dos Velosos, quando Botelho os encontrou em festividade social.
- Sempre o mesmo! - exclamou o amigo, apertando-lhe as mãos.
- Ainda bem que o vemos de boa saúde! - disse a senhora, gentilmente.
Botelho não disfarçou o contentamento de abraçá-los e, qual acontecia noutro tempo, à conversação caiu no terreno amplo do Espiritismo.
O perdulário relatou as últimas experiências, referindo-se mais vigorosamente à subconsciência e ao animismo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:41 am

Contemplaram-no os Velosos, extremamente desalentados, reconhecendo tratar-se de caso perdido, e sorriram ambos, murmurando evasivas.
- Ainda anteontem - prosseguia Botelho, loquaz - sonhei que me encontrava em largo campo de luz.
Avistei, na paisagem maravilhosa, uma árvore de cujos ramos pendia um único fruto amadurecido.
Notei que minha mãe se aproximou, tentando colhê-lo, mas, quando o esforço ia em meio, apareceu terrível monstro e o fruto, grande e belo, como se houvera criado impulso próprio, lançou-se às garras do animal, em vez de se deixar colher por minha mãe.
Sorriram os amigos, entreolhando-se em silêncio.
- E imaginem que minha mulher - continuou ele - teve a coragem de interpretar o sonho, colocando-me no papel do fruto que, apesar de maduro, preferiu a companhia do monstro ao aconchego maternal.
Já viram contra-senso tal?
Veloso, entretanto, fugindo a discussões estéreis com quem devia saber muito mais que ele mesmo, pelas experiências próprias, acrescentou com ironia intencional:
- As esposas são assim, enérgicas e severas, pelo muito amor que nos consagram.
Não se incomode, porém.
No seu caso, creio que deve recorrer a Freud, com bastante atenção.
- Isso mesmo, tal qual - concordou o interlocutor entusiasmado -, até que enfim vocês também chegaram onde eu queria.
Dai a semanas, contudo, o extravagante Botelho era recolhido à pressa ao hospital, abatido e agonizante.
Desta vez, era o edema pulmonar, irremediável.
Nada valeram cuidados médicos e lágrimas da família.
Enquanto o corpo esfriava lentamente, gritava o excelente narrador, sequestrado agora aos olhos e ouvidos da esposa e dos filhinhos carinhosos:
- Minha mãe, ah! minha mãe!...
Valei-me por amor de Deus!
Ajudai-me neste angustioso transe.
Creio agora na vida triunfante e imortal!...
A genitora, todavia, não apareceu.
E ante o olhar esgazeado do infeliz, surgiu devotado enfermeiro da Espiritualidade que respondeu solicito:
- Acalma-te para exames necessários.
Não chames tua mãe.
Depois de imensos sacrifícios, esperando mais de trinta anos pela resposta de tua alma iludida e ociosa, ela mereceu a bênção de Deus em tarefa superior e diferente.
Como vês, Botelho, agora é muito tarde...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:42 am

19 - QUANDO FELISBERTO VOLTOU
Desde muito tempo, Felisberto Maldonado fizera-se espiritista de convicção profunda, quanto a raciocínios; não pudera, porém, compreender a extensão dos deveres que a Doutrina lhe trazia, quanto a sentimentos.
A reunião íntima no grupo doméstico, onde o intercâmbio entre as esferas visível e invisível se podia efectuar harmonicamente, não lhe dava razões a críticas acerbas, nem questões complicadas à fé.
A esposa devotada era médium falante e, criatura maravilhosamente equilibrada, sabia dividir as obrigações mediúnicas e familiares, demonstrando raro senso nas atribuições que Deus lhe conferira.
Dona Silvana conhecia o lugar de cada pessoa e de cada coisa na vida, e colocava os deveres de mãe acima de todas as situações terrestres.
À vista disso, sua cooperação tornava-se preciosa, fosse onde fosse.
No lar, distribuía afecto e carinho sem preferências egoísticas; nas reuniões doutrinárias, dava a cada companheiro de ideal o que se tornava justo.
Por isso mesmo, os benfeitores da Espiritualidade encontravam-lhe no coração o campo recto, sem inclinações e sem abismos, onde se movimentavam confiantes na gloriosa tarefa da fraternidade e da luz.
Contudo, não acontecia o mesmo ao esposo.
Felisberto esbanjava o tempo disponível a criticar asperamente.
Porque vivia ao lado de pequena máquina espiritista, cujas peças se contavam por cinco a seis pessoas e jamais encontrara dificuldade na sua movimentação, tornara-se inapto a compreender as grandes tarefas.
Descuidoso e rebelde, vivia a deslustrar reputações e a desanimar os fracos, impiedosamente.
Tal disposição convertera-se-lhe em mania tão perigosa, que, mal regressava ao lar, após o serviço, lia o noticiário zelosamente, a fim de inteirar-se das notas escabrosas.
Encontrado o pomo de maledicência, corria ao companheiro mais próximo e comentava:
- Leu a notícia, Amarante?
- Que notícia, homem de Deus?
- Ontem o João Faria compareceu à Polícia, para esclarecer o caso dos vinte contos.
Antes que o amigo se pronunciasse, Felisberto continuava de punhos cerrados e olhos vermelhos:
- Será isso acção de espírita?
Sinto-me revoltado com o descaramento.
Que cinismo! Quem o visse pregar o Evangelho dar-lhe-ia o nome de apóstolo.
Passando eventualmente pelo Grupo, em que esse tratante colabora, sempre fiz questão de me interromper, para vê-lo, carinhoso e solícito, diante dos necessitados e sofredores.
Muita vez, tornei-o por padrão comparativo.
Não é de revoltar os mais tolerantes?!
Aqueles gestos de amparo fraternal constituíam capa imunda.
Agora, temo-la aqui retratado na galeria de gatunos.
Não é isto infâmia e desmoralização sobre todos nós?
- Sim - replicava Amarante prudentemente - o caso do Faria, sem dúvida, é chocante; merece, porém, consideração especial.
Quem sabe não será apenas vítima o pobre companheiro?
Não são frequentes os terríveis enganos?
A quantia desapareceu dentro da repartição.
Ninguém surpreendeu o autor do delito.
Alguns colegas o acusaram e o director julgou procedente a denúncia.
João declarou-se isento de culpa, mas, nada obstante, foi demitido e convocado ao Distrito Policial.
Este o quadro passível de exame aos nossos olhos falíveis.
Analisando-lhe, porém, a vida irrepreensível, quem não se compadecerá do acusado?
Quem sabe não esteja ele suportando voluntariamente a culpa de outrem?
Às vezes, onde nossos olhos suspeitam criminosos, Deus observa missionários de renúncia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:42 am

Maldonado perdia o entusiasmo ardente de acusador, mas objectava renitente:
- Sem embargo da sua tolerância, mantenho cá o meu juízo.
E, incapaz de sentir a grandeza da espiritualidade oculta, rematava:
- Se Faria está sofrendo injustiças voluntariamente, então é porque prefere a mentira à verdade.
Será condenável de qualquer modo.
Antes de tudo é preciso viver às claras.
Não obstante conselhos do plano espiritual e advertências de amigos generosos, não se cansava do odioso fermento de crítica e intolerância.
Acusava sem reflexões, desabridamente.
Se encontrava associação doutrinária, solidamente fundamentada, resistindo aos caprichos de companheiros invigilantes, adiantava-se desapiedado:
- Por que conservam tantos patrimónios em detrimento do bem?
Não será falta grave reter tão grandes economias esquecendo comezinhos deveres de fraternidade?
É isso. Ouvem-se palavras harmoniosas, mas o coração permanece distante.
São todos férteis no aconselhar, negativos no fazer.
Felisberto não se detinha a examinar expressões colectivas, ignorava a luta de velhos companheiros oberados de responsabilidades e preocupações; não sabia que forças necessitavam encontrar por não trair deveres imensos e longe de lhes estender mãos fraternas na colaboração justa, acusava-os de agiotas, velhacos, negocistas.
Se algum amigo menos firme na fé lhe procurava os pareceres de homem experimentado, relativamente a um que outro companheiro estranho ao seu círculo pessoal, respondia sem hesitação:
- Aquele é sepulcro caiado. Não se iluda.
De espiritista só tem a rotulagem, conheço-lhe a vida minuciosamente.
Por vezes, baseava tão áspero critério em mentirosas informações da leviandade popular.
Nas reuniões, ouvia conceitos evangélicos respeitosamente, mas o ensinamento sublime não lhe penetrava o coração.
Arquivava-o no cérebro, apenas, no propósito de exigir alheios testemunhos.
Tão desviada existência terminou, como era natural, em reduzidíssimo círculo de afeições.
Felisberto desconhecera o código da amizade, esquecera a cooperação fraterna, dissipara a força emotiva em acusações e críticas mordazes.
Não edificara obra útil e passara na Terra à maneira de alguém que somente visse lama nos materiais construtivos, que a Providência espalhou em abundância nos caminhos da vida.
Decorrido algum tempo, reconhecendo o íntimo desejo da viúva generosa, o Instrutor espiritual do pequeno grupo anunciou que traria Maldonado na próxima sessão.
Prometeu e cumpriu.
Contrariando, todavia, a ansiosa expectativa de todos, o visitante incorporou-se à médium mais jovem, vibrando em soluços convulsivos.
Não saudou a quem quer que fosse, não se referiu à vida nova e apenas clamava de cortar o coração mais endurecido:
- Ai de mim!
Quem me restituirá o equilíbrio dos olhos?!
Não vejo senão animais horrendos, casas de lama envolvidas em sombra!...
E, após angustiados gemidos, perguntou:
- Quem sois vós que tendes garras em vez de mãos e mergulhais a cabeça entre espinhos?
Observando os benfeitores espirituais que Dona Silvana chorava baixinho, retiraram-no imediatamente e, ante perplexidade geral, o Mentor do círculo tomou a palavra e explicou paternalmente:
- Não vos admireis ante a dolorosa observação desta noite.
Nosso Maldonado vem atravessando a prova justa de quantos se esqueceram de preservar a reflexão e a prudência, que são igualmente dons sublimes, subordinados ao ministério da vista espiritual.
Ele, que jamais quis contemplar o lado útil e o aspecto louvável das pessoas e acontecimentos, colhe hoje os tristes resultados.
Cada ser e cada coisa, nos planos de perfectibilidade em que nos encontramos, apresentam as faces de luz e sombra, quais lagos que oferecem o espelho transparente e o leito escuro, de lodo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:42 am

Felisberto resistiu aos nossos apelos e desdenhou dos amigos vigilantes e dedicados.
Gastou o tempo e fixou a experiência nas zonas sombrias.
É natural que não surja à tona da vida eterna empunhando faróis.
Passando longos anos no fundo do lago, sempre calculando, definindo, medindo e pesando a lama, não poderia esquivar-se à furna sem a lama.
É por isso que ainda não recobrou a visão perfeita.
Munido dos velhos óculos de lodo, vê espinhos onde há dedos, garras em vez de mãos, e sombras onde há bênçãos de luz e sol.
A viúva bondosa enxugava o pranto copioso, até que o respeitável amigo sentenciou afectuosamente:
- Não chore, minha irmã.
Lembre-se de que a perturbação agrava os males e de que a serenidade os resolve.
E, imprimindo singular acento às palavras, afirmou ao despedir-se:
- Sobretudo, que ninguém esqueça a lição preciosa de hoje.
Quando Jesus revelou aos discípulos que a candeia do corpo são os olhos, destacava a importância do nosso desenvolvimento espiritual, pelo modo de ver.
Quem se detenha exclusivamente no mal, apaga a lâmpada e foge à colaboração com a vida; mas, quem vive pelo bem, embora se aproxime do mal, consegue transformá-lo em coisa útil, porque encontrará possibilidades divinas em toda parte, cooperando com o Cristo para a luz eterna.
Em seguida à última observação, fez-se a prece de encerramento.
Os companheiros tinham os olhos molhados e, ao contrário do que se verificava em ocasiões idênticas, ninguém se aventurou a comentários.
Cada qual tomou o seu caminho em profundo silêncio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:42 am

20 - O VALOR DO TRABALHO
Ninguém contestava os nobres sentimentos de Cecília Montalvão; entretanto, era de todos sabida sua aversão ao trabalho.
No fundo, excelente criatura cheia de conceitos filosóficos, por indicar ao próximo os melhores caminhos.
Palestra fácil e encantadora, gestos espontâneos e afectuosos, seduzia quem lhe escutasse o verbo carinhoso.
Se a família adoptasse outros princípios que não fossem os do Espiritismo cristão, Cecília propenderia talvez à vida conventual.
Assim, não ocultava sua admiração pelas moças que, até hoje, de quando em quando se recolhem voluntariamente à sombra do claustro.
Mais por ociosidade que por espírito de adoração a Deus, entrevia nos véus freiráticos o refúgio ideal.
No entanto, porque o Espiritismo não lhe possibilitava ensejo de ausentar-se do ambiente doméstico, a pretexto de fé religiosa, cobrava-se em longas conversações sobre os mundos felizes.
Dedicava-se, fervorosa, a toda expressão literária referente às esferas de paz reservadas aos que muito sofreram nos serviços humanos.
As mensagens do Além, que descrevessem tais lugares de repouso, eram conservadas com especial dedicação.
As descrições dos planetas superiores causavam-lhe arroubos indefiníveis.
Cecília não cuidava de outra coisa que não fosse a antevisão das glórias celestiais.
Embalde a velha mãezinha a convocava à lavandaria ou à copa.
Nem mesmo nas ocasiões em que o progenitor se recolhia ao leito, tomado de tenaz enxaqueca, a jovem abandonava semelhantes atitudes de alheamento às tarefas necessárias.
Não raro discutia sobre as festividades magnificentes a que teria direito, após a morte do corpo.
Ao seu pensar, o círculo evolutivo que a esperava devia ser imenso jardim de Espíritos redimidos, povoado de perfumes e zéfiros harmoniosos.
No grupo íntimo de preces da família, costumava cooperar certa entidade generosa e evolvida, que se dava a conhecer pelo nome de Eliezer.
Cecília interpretava-lhe as advertências de modo puramente individual.
Se o amigo exortava ao trabalho, não admitia que a indicação se referisse a serviços na Terra.
- Este planeta - dizia enfaticamente - é lugar indigno, escura paragem de almas criminosas e enfermas.
Seria irrespirável o ar terrestre se não fora o antegozo dos mundos felizes.
Oh! como deve ser sublimes vida em Júpiter, a beleza dos dias em Saturno, seguidos de noites iluminadas de anéis resplandecentes!
O pântano terrestre envenena as almas bem formadas e não poderemos fugir à repugnância e ao tédio doloroso!...
- Mais, minha filha - objectava a progenitora complacente - não devemos adoptar opiniões tão extremistas.
Não é o planeta inútil e mau assim.
Não será justo interpretar nossa existência terrena como fase de preparação educativa?
Sempre notei que qualquer trabalho, desde que honesto, é título de glória para a criatura...
Todavia, antes que a velha completasse os conceitos, voltava a filha intempestivamente, olvidando carinhosas observações de Eliezer:
- Nada disso!
A senhora, mamãe, cristalizada como se encontra, entre pratos e caçarolas, não me poderá compreender.
Suas observações resultam da rotina cruel, que se esforça por não quebrar.
Este mundo é cárcere sombrio, onde tudo é miséria angustiosa e creio mesmo que o maior esforço, por extinguir sofrimentos, seria igual ao de alguém que desejasse apagar um vulcão com algumas gotas d’água.
Tudo inútil. Estou convencida de que a Terra foi criada para triste destinação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:43 am

Só a morte física pode restituir-nos a liberdade.
Transportar-nos-emos a esferas ditosas, conheceremos paraísos iluminados e sem-fim.
A senhora Montalvão contemplava a filha, lamentando-lhe a atitude mental, e, esganando os móveis, por não perder tempo, respondia tranquila, encerrando a conversa:
- Prefiro crer, minha filha, que tanto a vela de sebo, como a estrela luminosa, representam dádivas de Deus às criaturas.
E, se não sabemos valorizar ainda a vela pequenina que está neste mundo, como nos atreveremos a invadir a grandeza dos astros?
E antes que a moça voltasse a considerações novas, a bondosa genitora corria à cozinha, a cuidar do jantar.
Qualquer tentativa, tendente a esclarecer a jovem, redundava infrutífera.
Solicitações enérgicas dos pais, pareceres criteriosos dos amigos, advertências do plano espiritual, eram relegados a completo esquecimento.
Fervorosa admiradora da vida e obras de Teresa de Jesus, a notável religiosa da Espanha do século XVI, Cecília endereçava-lhe ardentes rogativas, idealizando a missionária do Carmelo num jardim de delicias, diariamente visitada por Jesus e seus anjos.
Não queria saber se a grande mística trabalhava, ignorava-lhe as privações e sofrimentos, para só recordá-la em genuflexão ao pé dos altares.
Acentuando-se-lhe a preguiça mental, vivia segregada, longe de tudo e de todos.
Essa atitude influía vigorosamente no seu físico, e muito antes de trinta anos Cecília regressava ao plano espiritual, absolutamente envolvida na atmosfera de ilusões.
Por isso mesmo, dolorosas lhe foram as surpresas da vida real.
Despertou além-túmulo, sem lobrigar vivalma.
Depois de longos dias solitários e tristes, a caminhar sem destino, encontrou uma Colónia espiritual, onde, no entanto, não havia criaturas em ociosidade.
Todos trabalhavam afanosamente.
Pediu, receosa, admissão à presença do respectivo director.
Recebeu-a generoso ancião, em espaçoso recinto.
Observando-lhe, porém, as lânguidas atitudes, o velhinho amorável sentenciou:
- Minha filha, não posso hoje dispor de muito tempo ao seu lado, pelo que espero manifeste seus propósitos sem delongas.
Estupefacta ante o que ouvia, ela expôs suas mágoas e desilusões, com lágrimas amargurosas.
Supunha que após a morte do corpo não houvesse trabalho.
Estava confundida em angustioso abatimento.
Sorriu o ancião benévolo e acrescentou:
- Essas fantasias são neblinas no céu dos pensamentos.
Esqueça-as, bondosa menina.
Não se gaste em referências pessoais.
E entre-mostrando preocupação de serviço, concluía:
- Por não termos descanso para hoje, gostaria dissesse em que lhe posso ser útil.
Desapontada, lembrou a jovem a bondade de Eliezer e explicou o desejo de encontrá-lo.
O velhinho pensou alguns momentos e esclareceu:
- Não disponho de auxiliares que possam ajudá-la, mas posso orientá-la quanto à direcção que precisa tomar.
Colocada a caminho, Cecília Montalvão viu-se perseguida de elementos inferiores; figuras repugnantes apresentavam-se-lhe na estrada, perguntando pelas regiões de repouso.
Depois de emoções amargas, chegou à antiga residência, onde os familiares não lhe perceberam a nova forma.
Ia retirar-se em pranto, quando viu alguém sair da cozinha num halo de luz.
Era o generoso Eliezer que a ela se dirigia com sorriso afectuoso.
Cecília caiu-lhe nos braços fraternais e queixou-se, lacrimosa :
- Ah! meu venerando amigo, estou abandonada de todos.
Compadecei-vos de mim!...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 14, 2017 9:43 am

Guiai-me, por caridade, aos caminhos da paz!...
- Acalma-te - murmurou o benfeitor plácido e gentil - hoje estou bastante ocupado; entretanto, aconselho-te a orar fervorosamente, renovando resoluções.
- Ocupado? - bradou a jovem, desesperada - não sois instrutor na revelação espiritual?
- Sim, sim, de dias a dias coopero no serviço das verdades divinas, mas tenho outras responsabilidades a atender.
- E que tereis no dia de hoje, em carácter tão imperativo, abandonando-me também à maneira dos outros? - interrogou a recém-desencarnada revelando funda revolta.
- Devo auxiliar tua mãezinha nos encargos domésticos - ajuntou Eliezer brandamente -, logo mais tenho serviço junto a irmãos nossos.
Não te recordas do tintureiro da esquina próxima?
Preciso contribuir no tratamento da filha, que se feriu no trabalho, ontem à noite, por excesso de fadiga no ganha-pão.
Lembras-te do nosso Natércio, o pedreiro?
O pobrezinho caiu hoje de grande altura, machucou-se bastante e aguarda-me no hospital.
A interlocutora estava envergonhada.
Somente agora se reconhecia vítima de si mesma.
- Não poderíeis localizar-me aqui, auxiliando a mamãe? - perguntou suplicante.
- É impossível, por enquanto - esclareceu o amigo solícito -, só podemos cooperar com êxito no trabalho para cuja execução nos preparamos devidamente.
A preocupação de fugir aos espanadores e caçarolas tornou-te inapta ao concurso eficiente. Estiveste mais de vinte e cinco anos terrestres, nesta casa, e teimaste em não compreender a laboriosa tarefa da genitora.
Não é possível que te habilites a ombrear com ela no trabalho, de um instante para outro.
A jovem compreendeu o alcance da observação e chorou amargamente.
Abraçou-a Eliezer, com ternura fraternal, e falou:
- Procura o conforto da prece.
Não eras tão amiga de Teresa? Esqueceste-a?
Essa grande servidora de Jesus tem a seu cargo numerosas tarefas.
Se puder, não te deixará sem a luz do serviço.
Cecília ouviu o conselho e orou como nunca havia feito.
Lágrimas quentes lavavam-lhe o rosto entristecido.
Incoercível força de atracção requisitou-a a imenso núcleo de actividade espiritual, região essa, porém, que conseguiu atingir somente após dificuldades e obstáculos oriundos da influenciação de seres inferiores, identificados com as sombras que lhe envolviam o coração.
Em lugar de maravilhosos encantos naturais, a ex-religiosa de Espanha recebeu-a generosamente.
Ante as angustiosas comoções que paralisavam a voz da recém-chegada, a servidora do Cristo esclareceu amorável:
- Nossas oficinas de trabalho estão hoje grandemente sobrecarregadas de compromissos; mas as tuas preces me tocaram o coração.
Conforme vês, Cecília, depois de abandonares a oportunidade de realização divina, que o mundo te oferecia, só encontraste, sem deveres, as criaturas infernais.
Onde haja noção do Bem e da Verdade, há imensas tarefas a realizar.
Vendo que a jovem soluçava, continuou :
- Estás cansada e abatida, enquanto os que trabalham no bem se envolvem no manto generoso da paz, mesmo nas esferas mais rudes do globo terrestre.
Pedes medicamento para teus males e recurso contra tentações; no entanto, para ambos os casos eu somente poderia aconselhar o remédio do trabalho.
Não aquele que apenas saiba receitar obrigações para outrem, ou que objective remunerações e vantagens isoladas; mas o trabalho sentido e vivido dentro de ti mesma.
Este é o guia na descoberta de nossas possibilidades divinas, no processo evolutivo do aperfeiçoamento universal.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:09 am

Nele, Cecília, a alma edifica a própria casa, cria valores para a ascensão sublime.
Andaste enganada no mundo quando julgavas que o serviço fosse obrigação exclusiva dos homens.
Ele é apanágio de todas as criaturas, terrestres e celestes.
A verdadeira fé não te poderia ensinar tal fantasia.
Sempre te ouvi as orações; no entanto, nunca abriste o espírito às minhas respostas fraternais.
Ninguém vive aqui em beatitude descuidosa, quando tantas almas heróicas sofrem e lutam nobremente na Terra.
Enquanto a voz da bondosa serva do Evangelho fazia uma pausa, Cecília ajuntou de mãos postas:
- Benfeitora amada, concedei-me lugar entre aqueles que cooperam convosco!...
Teresa, sinceramente comovida, esclareceu com bondade:
- Os quadros de meus serviços estão completos, mas tenho uma oportunidade a oferecer-te.
Requisitam minha atenção num velho asilo de loucos, na Espanha.
Desejas ajudar-me ali?
Cecília não cabia em si de gratidão e júbilo.
E, naquele mesmo dia, voltava à Terra com obrigações espirituais, convicta de que, auxiliando os desequilibrados, havia de encontrar o próprio equilíbrio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:09 am

21 - A MOLÉSTIA SALVADORA
Voltara Antonino Tinoco da reunião habitual; entretanto, a palavra amorosa e sábia dos amigos espirituais não lhe aliviara o coração atormentado, como sucedia de outras vezes.
Generosas entidades lhe falaram ao íntimo, da beleza da consciência pura, exalçando a felicidade no dever cumprido, e, contudo, parecia agora inabilitado à compreensão.
Aquele vulto de mulher ocupava-lhe a mente, como se fosse uma obcecação doentia.
Não lhe dera Deus o lar honesto, o afecto caricioso da companheira e dos filhinhos?
Que lhe faltava ao coração?
Agora, sentia-se quase sem forças.
Conhecera-a numa festa elegante, íntima.
Recordava nitidamente o instante em que se cumprimentaram pela primeira vez.
Não tencionava dançar, mas alguém insistira, apresentando-lhe Gildete.
Entendeu-lhe de pronto o temperamento original.
Conversaram envolvidos em simpatia franca, embalados em sons musicais, dentro da noite linda, sob árvores tranquilas e balouçadas de vento descuidoso.
A história de Gildete comovera-o e os dias enlaçaram ambos cada vez mais, em repetidos encontros.
Não valeram explicações, advertências e conselhos de sua parte.
Abandonara-se-lhe a jovem teimosamente, enredando-o em maravilhosa teia de seduções.
Contara-lhe complicado romance de sua vida, que Antonino aceitou com a boa-fé que lhe caracterizava o espírito fraternal.
Gildete, no entanto, vinha de mais longe.
Espírito envenenado de aventuras inconfessáveis, presumia em Tinoco outra presa fácil.
A princípio, encontravam-se duas vezes por semana, como bons amigos plenamente identificados entre si; mas a gentileza excessiva embebedara-o, devagarinho, e não se sentiu surpreendido quando entraram a falar de atracção, desejos, amor. A partir dessa noite, tornara-se mais assíduo e interessado.
De quando em quando, advertia-o a consciência nos recessos do ser.
Seria crível que, integrado no conhecimento de sublimes revelações espirituais, se entregasse inerme a condenáveis aventuras, quando assumira sagrados compromissos de família?
Por vezes, acentuava-se-lhe o impulso de resistência, beijava ardentemente os filhinhos, alegrava a esposa, renovando delicadezas cariciosas; subitamente, porém, lembrava a outra e, qual animalzinho magnetizado, inventava pretextos para ausentar-se.
Gildete obcecara-o.
Cada noite, lia-lhe novas páginas de ternura, que afirmava escritas somente para ele, na soledade do coração.
Dirigia-lhe olhares súplices, lacrimosos, tímidos, de criança ingénua, e que Tinoco interpretava como carícias de primeiro e único amor.
Em vão tentava referir-se à dedicação platónica que lhe competia, aos sagrados compromissos que o prendiam.
A sereia destacava sempre novas possibilidades e descobria diferentes caminhos para satisfação dos criminosos desejos.
Antonino escutava-lhe os apelos, sob emoções fortes, devorando cigarros avidamente.
Em determinadas ocasiões, cedera quase.
Mas no instante preciso, quando a perigosa criatura se julgava triunfante na batalha oculta, algo lhe ocorria ao espírito bem-intencionado, impedindo a total rendição.
Eram lembranças vagas dos filhos queridos, recordações de gestos amorosos da companheira; outras vezes, parecia-lhe escutar de novo as prelecções evangélicas das reuniões espiritistas que costumava frequentar periodicamente.
Gildete exasperava-se, sentindo-se espicaçada pela vaidade ferida.
Mais de um ano decorrera, no qual Antonino perdera energias e tranquilidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:09 am

Emagrecera. Nunca mais se lhe observara o olhar sereno de outros tempos.
Ele próprio não sabia explicar a causa de sua resistência moral, ante a situação complicada e indefinida.
É que o abnegado Ornar, velho companheiro de existências transcorridas, seguia-o espiritualmente de há muitos séculos e permanecia vigilante.
À tirania da mulher inconsciente sobrepunha-se uma influência superior.
Se Gildete emitia conceitos tendentes a desintegrar o carácter de Antonino, oferecia-lhe Ornar pensamentos nobres.
A imaginação do rapaz convertera-se em campo raso de luta.
Naquela noite, todavia, Tinoco revelava-se mais fraco.
Era-lhe quase impossível resistir por mais tempo.
Debalde aproximou-se o benfeitor trazendo-lhe socorro.
Cérebro escaldando, Antonino reflectia: não via tantos amigos, aparentemente respeitáveis, sustentando episódios afectivos longe do lar?
Possuindo recursos financeiros para atender às suas obrigações, como deixar Gildete em abandono?
Afinal, não seria generosidade amparar uma criatura sem arrimo e sem família?
O nosso Antonino aproximava-se da capitulação integral.
Preocupado, nervoso, esperou o dia imediato e, à noite, procurou ansiosamente a perigosa diva.
Depois de trivialidades usuais, penetraram o terreno das considerações afectivas.
Gildete parecia-lhe mais sedutora que nunca.
- O dever é cruz bem pesada - suspirou ele com amargura.
- Mas não se trata de fugir ao dever - tentou ela esclarecer sutilmente - longe de mim a ideia de comprometer teu nome, arruinar tua paz doméstica.
Não achas, porém, que também eu tenho direito à vida?
Sou o faminto atormentado,
junto ao celeiro rico de afectos.
Teus escrúpulos são naturais e respeitáveis e sou a primeira a louvar a nobreza do teu proceder; entretanto, não podes desconhecer minha condição de mendigo batendo-te à porta.
Há quanto tempo suplico migalhas de amor que te sobram no lar?
Encontrando-te, supus-me acompanharam a vida e os pensamentos.
Nossa primeira noite de baile pareceu-me a entrada em paraísos maravilhosos.
Guardei a impressão de que tua voz chegava de longe, do pais delicioso do sonho...
Depois, Antonino, informei-me da tua vida.
Estavas preso a outra, eras pai de filhinhos que não são meus.
A realidade encheu-me de sombras e, não obstante a sorte adversa, nunca desanimei.
Amo-te com ardor sempre novo, esperando-te ansiosa.
E porque o rapaz lhe guardava as mãos entre as dele, a revelar carinho, Gildete tinha os olhos húmidos, brilhando à luz cariciosa e discreta, e continuava:
- Não exijo que sacrifiques teus deveres, não desejo te transformes em marido execrado, mas suplico a migalha de afecto, algo que alivie os pesares imensos desta minha solidão angustiosa...
A essa altura, desfez-se em pranto convulsivo, que Tinoco procurava estancar carinhosamente.
Abraçando-a, comovido, renovou protestos amorosos e tudo prometeu, decidido a todas as consequências:
- Não chores assim; deves saber que vives comigo em toda a parte, no coração e no pensamento.
Ouve, Gildete! Iremos amanhã para Petrópolis, organizaremos nossa vida.
Não posso desprezar a família, mas passarei a manter o lar e o ninho, a mãe de meus filhos e a companheira ideal.
A pérfida criatura exibia gestos de felicidade imensa.
Depois de venturosos votos muitas vezes renovados, separaram-se com a promessa de união definitiva, para o dia seguinte.
Nessa noite, todavia, enquanto Tinoco tentava a custo conciliar o sono, absorvido em projectos de voluptuosa exaltação, Omar, aflito, trazia um nobre amigo da Espiritualidade, mais experiente que ele próprio, a fim de opinar na difícil conjuntura.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:09 am

Anacleto, o venerando guia, examinou Antonino atentamente meneou a cabeça e esclareceu:
- Toda a zona mental está invadida de larvas venenosas.
As zonas de receptividade permanecem fechadas à influenciação superior.
Teu protegido está absolutamente hipnotizado pela mulher que lhe armou o laço de mel.
Abismando-se Ornar em amargurosa tristeza, Anacleto explicou:
- Só há um meio de salvá-lo.
- Qual? - perguntou o generoso amigo.
- A enfermidade grave e longa, algo que, abalando-o nos recessos da personalidade, lhe esgote o terrível conteúdo psíquico.
Trocaram ideias durante alguns minutos e, voltando Anacleto à esfera superior, podia-se ver Omar em agitação intensa.
Alta madrugada, Tinoco despertou de breve sono, experimentando dores agudas.
Levantou-se, mas as cólicas e vómitos incoercíveis obrigaram-no a deitar-se novamente.
A esposa abnegada, depois de mobilizar os recursos possíveis, telefonou inquieta ao médico da casa.
O facultativo atendeu prontamente.
Após minucioso exame, prescreveu banhos quentes e injecções intravenosas de água salgada.
Ao despedir-se, falou à Sr Tinoco em carácter confidencial:
- O caso é muito grave.
Tenho a perfeita impressão da cólera mórbus.
A fraqueza, a algidez, os vómitos e contracções, são sintomáticos.
Voltarei mais tarde para colher elementos necessários ao exame bacteriológico.
Mal clareava o dia e Antonino já apresentava lividez cadavérica.
O dia correu entre inquietudes angustiosas.
À noite apareceu Gildete, acompanhada de amigos, para visita aparentemente sem significação.
Acercando-se do leito, não dissimulou a surpresa profunda ao ver Antonino palidíssimo, ofegante, aguilhoado de cólicas dolorosas.
Não obstante as pesquisas de laboratório e renovação de tratamento, Tinoco piorava dia a dia.
Acabrunhado e lacrimoso, na fase culminante do sofrimento, suplicou a presença da mãezinha querida, que desencarnara dois anos antes.
Evocado com veemência, o Espírito materno não se fez demorado.
Reconhecendo-lhe os padecimentos rudes, a velhinha venerável abraçava-o, rezando. Nesse instante, aproximou-se Omar e lhe falou entre enérgico e compassivo:
- Minha irmã, não implore a Deus providências favoráveis à saúde de seu filho.
- Oh! generoso amigo - objectou emocionada -, acaso não sou mãe afectuosa?
Como poderia ver meu filho atormentado, sem rogar a Deus lhe devolva o equilíbrio indispensável à vida?
- Sim, você foi mãe dele por trinta e cinco anos, mas eu estou em serviço activo pela saúde espiritual de Antonino há mais de quinze séculos.
A moléstia não o abandonará, até que se anulem os perigos.
Enquanto há condensação de vapores, a nuvem não desaparece do céu.
De fato, somente depois de onze meses voltava Tinaco do consultório, fisionomia radiante, ao lado da esposa carinhosa.
O médico afirmara, abraçando-o:
- Você deve orgulhar-se do organismo que possui.
A princípio, alarmei-me com os sintomas da cólera; todavia, embora lhe descobrisse a forma benigna, eram tantas as complicações que cheguei a duvidar da sua resistência.
Na verdade, a Natureza o dotou de reservas vigorosas.
Tinoco, restabelecido, não sabia como agradecer a Deus a bênção da harmonia orgânica, e quando, mais tarde, perguntou por Gildete, soube que a perigosa mulher residia em Madureira, ligada a outro homem.
Só então compreendeu que, se o amor é capaz de todos os sacrifícios, o desejo costuma extinguir-se ao primeiro sinal de falência orgânica, ou de mocidade evanescente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:10 am

22 - O REMÉDIO À PREGUIÇA
Assim que Januário Pedroso encontrou a brecha desejada, empenhou relações prestigiosas, multiplicou empenhos, mobilizou a parentela e enfileirou-se no serviço público, desfrutando um título respeitável.
Na grande transformação ministerial que lhe oferecera a oportunidade, coube-lhe atribuições de ordem técnica, interessante à vasta região do país, onde lhe competia orientar o trabalho de pecuários e lavradores.
Entretanto, ao ver-se revestido de autoridade e lendo seu nome nas tabelas de pagamento do jornal oficioso, voltou à inércia de outros tempos, de que saíra tão-só por conjugar o verbo pedir.
Não era mau companheiro o Pedroso, mas, em matéria de serviço, era de uma negação absoluta.
Assinava o livro de ponto regularmente, sentava-se à mesa de trabalho rodeado de documentos e fichários volumosos; todavia, se o superior hierárquico tardava em aparecer, ele se erguia vagaroso, mãos nos bolsos, e procurava o primeiro colega em disponibilidade para conversações ociosas.
Visitava as diversas seções de serviço, criticava os que trabalhassem, distribuía anedotas insossas, e, quando o chefe se instalava no gabinete, retomava o lugar, de mãos ocupadas e cérebro vazio.
- Januário, poderá informar-me o que há com o processo de construção do Parque Avícola? - indagava o director, preocupado.
- Aqueles papéis que me entregou no mês passado para guardar? - respondia o funcionário pausadamente, em longa frase, complicando o assunto em vez de explicá-la.
- Sim, sim, mas não lhe dei para arquivar e sim para informar.
Pedroso fungava ruidosamente, movimentava a mão pesada no monte de documentos, espraiava o olhar preguiçoso e, muito depois, no segundo expediente, aproximava-se do chefe e esclarecia:
- Eis aqui o processo; no entanto, precisa ser selado.
O director fixava-o entre a piedade e a impaciência, e dizia:
- Pedroso, não ignoro a falta dos selos e creio que, ao lhe confiar o trabalho, referi-me à providência.
- Sim, senhor.
Com estas duas palavras, voltava à mesa e a papelada continuava a esperar solução.
No dia imediato, encontrando-se ambos a sós, o director tornava a palavra com benevolência:
- Você, Januário, necessita despertar na profissão escolhida.
É moço, inteligente, culto; contudo, faltam-lhe iniciativa e diligência.
Não se comove, porventura, ante a perspectiva de serviços que nos requisitam esforço?
Anime-se, mobilize energias.
Dê andamento aos processos, procure interessar-se pelo trabalho activo.
Deve compreender que não estamos aqui para cruzar os braços ou deixar que as circunstâncias nos governem.
O rapaz baixava a cabeça e respondia:
- Sim, senhor.
Ante o silêncio e a humildade postiça, rematava o director bondosamente:
- Pois bem; vamos então pensar e trabalhar.
Traga-me a relação dos núcleos pecuários do Norte.
Dai a pouco, Pedroso vinha dizer que a relação estava incompleta.
Quando ouvia advertências directas do superior, o funcionário mostrava-se tímido, no íntimo, porém, andava cheio de considerações tendentes à rebeldia.
Que era o serviço público, em seu modo de ver, senão o lugar do menor esforço?
Achava-se garantido pelo decreto de nomeação.
Não poderia ser alijado sem rumoroso processo administrativo e recebia, por isso, as advertências da chefia sem maior preocupação.
Concitado energicamente ao dever, curvava-se cuidadoso e prosseguia nos velhos hábitos.
Compreendendo a dificuldade, o superior resolveu observar-lhe as possibilidades de outro modo e enviou-o à zona do Norte, conferindo-lhe honrosas responsabilidades no fomento da produção agrícola e pecuária.
Pedroso demorou-se mais de um ano sem dar notícias de suas actividades.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:10 am

Impressionado, o chefe chama-o à sede dos trabalhos.
- Então, Januário? diga-nos alguma coisa.
Que fez neste ano de tarefas novas? - perguntou bem-humorado.
- Não foi possível realizar coisa alguma - replicou o funcionário preguiçoso -, a região é muito seca.
Sorriu o chefe paciente e explicou:
- Mudará, então, de zona: designá-lo-ei para serviços no Sul.
E assim foi.
Decorrido, porém, um ano, voltou o subordinado informando que o Sul não lhe oferecera elementos adequados.
O chefe tolerante exclamou, antecipando-se às justificativas:
- Compreendo.
Se você encontrou tanta seca no Norte, certo foi surpreendido por água excessiva no Sul; todavia, poderei mudar sua rota.
Irá agora para Oeste.
O funcionário obedeceu, mas, decorridos oito meses, regressava declarando que o Oeste não passava de florestas selvagens.
Nova designação para Leste.
No entanto, após dois anos em que Pedroso apenas remetia notificação telegráfica de ponto, para efeito do pagamento mensal, voltava à sede, alegando que nada pudera fazer, devido às derrubadas extensas e ao espírito ruralista da região, refractário aos métodos modernos de agricultura e criação animal.
O superior olhou-o, consternado, e assentou com resignação:
- Vá ficando por aqui mesmo...
Não queria o subordinado outra coisa, e a velha vidinha continuou entre processos por despachar e obrigações por atender.
Concluiu o director que Pedroso era impermeável a conselhos e esclarecimentos, e, conformado, passou a considerá-lo um mal irremediável na repartição confiada à sua guarda.
O tempo correu e Januário sempre se manteve no mesmo lugar.
Se lhe perguntassem quanto a preferências na vida, talvez respondesse que, acima de tudo, apreciava comer e dormir.
A morte do corpo foi encontrá-la nessa atitude de inércia incompreensível.
Atirado, então, a verdadeiro torvelinho de necessidades espirituais, em vão buscava esclarecimento nas rodas de serviço, onde permaneciam velhos companheiros.
A maneira do idiota que acordasse subitamente, ignorando o verdadeiro caminho para compreensão de si próprio, queria explicações e conselhos.
Agora, porém, os amigos da Terra não lhe percebiam a presença e estavam muito ocupados para recordá-lo com intercessões espontâneas.
Debalde chamou, suplicou, insistiu e não poucos anos gastou na ansiedade penosa.
Somente muito mais tarde, colhido na desesperação, por entidades caridosas, foi conduzido à presença de antigo orientador espiritual em condições de prestar-lhe ajuda eficiente.
Enfrentando o generoso trabalhador da Espiritualidade, queixou-se ruidosamente, exteriorizando as mágoas íntimas.
- Não necessita expor tão minuciosas explicações - exclamou o sábio mentor -, não é você Januário Pedroso, antiga servidor de tarefas rurais no Planeta?
- Pois quê? Conhecem-me aqui? - indagou boquiaberto.
- Esperava-o há muito tempo - tornou o benfeitor - e pode crer que demorou no caminho, porque desejava ainda escorar-se nos amigos encarnados, mesmo depois da transição da morte.
Enumerou Januário as dificuldades, em pranto copioso.
Sentia-se desventurado, sem a dedicação de ninguém. Implorou, ansioso, a renovação da experiência terrestre.
Queria trabalhar, entendia agora o valor do espírito de serviço.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:10 am

O instrutor, porém, depois de ouvi-lo, tolerante, esclareceu serenamente:
- De suas anotações, em meu poder, não consta motivo para tantas lágrimas e sim apontamentos convidando a reflexões muito sérias, de sua parte.
A permanência no mundo não lhe foi senão longa série de repousos, sestas, licenças, férias, abonos.
Poltronas e leitos instruem a história da sua última encarnação.
Assombrado, o ex-funcionário objectou:
- Mas eu trabalhava no serviço público.
- Tal circunstância lhe agrava a situação.
Se houvesse lesado alguém, na esfera particular, a intercessão e a tolerância facilitariam a solução dos seus problemas; todavia, você é obrigado a prestar contas à colectividade, destacando-se uma classe inteira, sobre a qual sua vida pesou como parasita indesejável.
- Não poderei, entretanto, voltar à Terra, para rectificar meus erros? Será crível que se me fechem as portas da renovação?
- Sim, suas lágrimas de arrependimento são dolorosas e sinceras. Não ficará sem recursos.
- Ah! graças a Deus! - falou o mísero.
Regressarei ao mundo, voltarei à minha repartição, compreenderei, agora, os meus companheiros!...
- Isto é que não - explicou o mentor com serenidade - na Terra a senha ainda é: «contra a preguiça, diligência».
Agora, porém, não estamos na esfera do Globo.
Você está enfermo e precisa remédio.
A senha há-de ser diferente...
- Como? - interrogou o infeliz, aterrado.
O magnânimo orientador dirigiu-lhe significativo olhar e perguntou:
- Que indicava você, na qualidade de servidor do campo, quando o fogo invadia a pastagem?
Pedroso, embora intrigado, respondeu:
- Aconselhava o contra fogo.
O generoso amigo esboçou um gesto de bondade tranquila e esclareceu:
- Tenho de partir do mesmo princípio.
A ociosidade invadiu sua vida.
Contra a sua preguiça devo receitar a imobilidade.
Para que aprenda a estimar o trabalho e a criar o sublime desejo de movimentação no mundo, você renascerá paralítico.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:11 am

23 - A SOLUÇÃO CARIDOSA
Raros amigos seriam capazes de compreender a situação de Joaquim Finisterra, homem dos mais pacientes e conformados do mundo.
Pai de sete filhos, rapazes e moças folgazões, Finisterra não encontrava apoio moral nem auxilio material em nenhum deles.
Envergando a roupa surrada de todo dia, engraxando ele mesmo os sapatos, nunca se lhe notava mudança na atitude serena e resignada.
Recebia o ordenado mensal de mil e quinhentos cruzeiros, em funções administrativas no escritório de empresa importante, e o salário se evaporava em casa, como pólvora atirada ao fogo.
Não fossem as consolações do Espiritismo cristão, talvez o nosso homem não resistisse.
A família nunca lhe aceitara de bom grado as tendências espiritualistas.
Entre ela e ele havia singular abismo de incompreensão.
Não que Finisterra fosse insensível ou indiferente. Não.
O velho transbordava de renúncia e dedicação a todos; desfazia-se em carinho paternal; entretanto, carácter nobre e sincero, não podia aprovar a irreflexão dos filhos na vida social.
Nenhum se dispunha ao trabalho encarando responsabilidades e compromissos.
Passavam o dia no leito, pálidos e esgotados, mas à noite, invariavelmente, ostentavam trajes do último figurino, compareciam às festas elegantes, cassinos e pontos chiques.
Alta madrugada regressavam embriagados, ou cansadíssimos.
A princípio, Finisterra tudo fez no louvável intuito de remediar a situação, procurando impor-se pela ternura e autoridade; todavia, a esposa, Dona Mariana, comprometia esse trabalho com a sua feição de mãe ignorante, embora profundamente afectiva.
Se o genitor concitava os rapazes a lhe ouvirem conselhos, surgia-lhe a mulher pela frente, bradando nervosa:
- Cala-te Joaquim!
Não tens vergonha de advertir nossos filhos dessa forma?
Que fizeram os meninos?
Toda esta tempestade porque não voltaram ontem mais cedo?
E se eu quisesse contar quanto já sofri neste mundo por tua causa?
- Ora, Mariana - volvia ele serenamente -, sou pai e não desejaria transformar-me em carrasco dos filhos.
Falo-lhes por amor, procurando integrá-los na esfera dos homens de bem.
A Srª. Finisterra, porém, antes que o marido ampliasse o ponto de vista, atalhava furiosa:
- Já sei. Homens de bem, no teu conceito, são burros de carga que aguentam com o fardo alheio.
Meus filhos não terão esse destino.
Que vivas na escravidão do trabalho, vá lá!
Estamos velhos e inúteis.
Os meninos, porém, não nasceram cativos.
Hão-de viver como bem quiserem, e para isso tenho meus braços fortes, caso te negues ao pão de cada dia.
As duas moças abraçavam-na com ares triunfais, os rapazes sorriam vitoriosos.
Joaquim fixava a cena doméstica, de olhos húmidos, e compreendia a inutilidade de qualquer discussão.
Dilatar o atrito seria tomar o vagão do escândalo e, por esse motivo, recolhia-se ao quarto, a manusear velhos livros ou renovando a Deus o pedido de socorro espiritual.
No princípio de cada mês, as contas enormes choviam em casa. Lojas e armazéns apresentavam débitos quase fantásticos.
Recebia Finisterra o salário e entregava-o pontualmente à mulher.
Frequentemente, contudo, Dona Mariana reclamava:
- Joaquim, com estes pobres vinténs acabaremos nas casas de prego.
Por que não te mexes?
É preciso encarar o futuro.
Parece incrível que um chefe de escritório ganhe esta miséria.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:11 am

Procura o director-geral, expõe-lhe nossa situação, do contrário eu mesma assumirei a responsabilidade dessa iniciativa.
Este mês o dinheiro não chegou para satisfazer às necessidades mais prementes.
Preciso mais novecentos cruzeiros.
- Não tenho - explicava o marido sacrificado.
- Lança novo empréstimo.
Devo pagar antes de domingo os vestidos de Helena e Libertina.
Finisterra, mobilizando os sentimentos mais justos, ponderava receoso:
- Não tenho duvida em pedir nova quantia ao meu procurador; mas tu não achas razoável que as meninas se coloquem dignamente?
Há concursos valiosos para os ministérios públicos e, ainda que elas não alcançassem remunerações compensadoras, ganhariam algo para auxiliar-me no elevado padrão de vida que defrontamos actualmente.
A palavra de Joaquim, de inflexão carinhosa que a caracterizava, era de esclarecer o coração mais inculto; no entanto, a companheira replicava colérica:
- Nossas filhas no serviço? Nunca!
Sempre foste pai desnaturado e indiferente.
Como se haverão as pobrezinhas em face das exigências descabidas do serviço público?
Esqueces que o pai é responsável pelo sustento dos filhos?
- Não é isto - explicava Finisterra calmamente -, trata-se de providência lógica no mecanismo doméstico.
Na juventude não trabalhamos por auxiliar os pais devotados e generosos?
Em que nos tornamos menos dignos?
O trabalho nobilita sempre, aproximando-nos de Deus.
Dona Mariana desfechava-lhe um olhar de feroz egoísmo e rematava:
- Essas teorias são tuas, reflexo do teu Espiritismo inconsequente.
Não reduzirei meus filhos à condição de animais de carga.
Argumentos do esposo tornavam-se inúteis.
A companheira comentava o assunto, desabridamente, com os filhos.
Na semana que Finisterra conversasse sobre trabalho, choviam ditérios, zombarias, observações ásperas e ingratas.
O tempo não remediava a situação, antes agravava os problemas.
Os rapazes tornavam-se mais vadios, as jovens mais ociosas.
Ao atingir sessenta e cinco anos, apresentava-se Joaquim tão recurvado, tão encanecido que aparentava mais de um século de idade.
Foi nessa altura que os negócios da família se complicaram ao extremo.
Atirados ao jogo de azar, os rapazes consumiam somas consideráveis, drenadas do bolso paterno pela falsa ternura maternal.
Completamente bloqueado de dividas vultosas, Finisterra não pôde recorrer a novos empréstimos para atender aos caprichos da esposa e aos desmandos dos filhos.
Multiplicavam-se atritos, discussões e queixas amargas.
Quando a tormenta doméstica atingiu o ponto culminante, com a insolência de cobradores exigentes e atrevidos, à porta, Dona Mariana procurou o refúgio da oração, na noite que lhe pareceu mais cruel.
- Oh! meu Deus - clamava a infeliz - por que nos esquecestes em vossa infinita bondade?
E, mãe cega pelo próprio egoísmo, continuava:
- Meus filhos sofrem injustiças, são feridos pelo destino humilhante.
Acolhei minhas súplicas!
Ajudai-me a levantar as energias do meu desventurado esposo, vencido e desanimado deste mundo!
Inspirai a seus chefes que lhe aumentem o ordenado miserável!...
Estou cansada de exigências, Senhor!
Dignai-vos ajudar-me o coração aflito de mãe, não me abandoneis!
Tende piedade de meus filhos, de meus pobres filhinhos!...
Embargada de lágrimas, soluçou baixinho, terrivelmente desalentada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 15, 2017 9:11 am

Não viu, porém, a forma luminosa que a abraçou de leve, em sinal de assistência e carinho.
A prece de Dona Mariana fora ouvida.
Henrique, dedicado amigo de outras eras, que sempre tentava auxiliá-la inutilmente, depois de ungir-lhe o coração de brandas esperanças, reuniu nessa noite as entidades generosas, cooperadoras assíduas a favor da paz dos Finisterras, e explicou delicadamente:
- Meus irmãos, a súplica de nossa amiga comoveu-me fundamente.
Precisamos auxiliá-la de forma decisiva.
Creio que a solução caridosa e justa será chamarmos o nosso Joaquim à vida espiritual.
Roguemos ao Senhor a permissão de romper os laços frágeis que o retêm nas esferas do Planeta.
Subtraindo-o ao lar, a esposa e os filhos abrirão as portas de receptividade à inspiração superior, curando-se-lhes a cegueira.
Vejo na medida a única providência aconselhável.
Ninguém divergiu do alvitre valioso e a amorosa assembleia, após sincera súplica, foi atendido no propósito de libertar o velho companheiro.
Com efeito, dentro de quatro dias Joaquim Finisterra desencarnava repentinamente num ataque de angina.
Somente nessa hora, reconheceu a família quem era aquele velhinho recurvado, de fisionomia inalterável.
Dona Mariana lamentava estentoricamente a perda irremediável, os filhos soluçavam de dor.
Entretanto, semanas depois, vizinhos e amigos notaram a tirânica Sr. Finisterra exprimindo-se em gestos nobres e humildes, pela primeira vez, e quando recebeu o prémio de seguro deixado por Joaquim, cada filho se encontrava no serviço honesto, consagrando o dia ao suor do trabalho digno, e a noite ao repouso da bênção familiar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:57 am

24 - A ESTRANHA INDICAÇÃO
A moléstia do Acácio Garcia desafiava todos os métodos de cura.
Andava o rapaz desalentado, abatido.
Estampava-se-lhe no semblante dolorosa melancolia, que parecia irremediável.
Não obstante as convicções espiritistas da família, a situação agravava-se dia a dia.
Filho de negociante abastado, não tivera o aguilhão da necessidade a lhe desenvolver amplamente os recursos próprios.
Crescera cumulado de mimos, sem a necessária experiência da vida, e nessa circunstância radicava o agente principal de seu desânimo.
Debalde inventavam os genitores carinhosos viagens, passeios, diversões.
Segregado voluntariamente no quarto, vivia o enfermo a protestar contra o destino e a maldizer o mundo inteiro.
Tudo lhe enfarava o espírito voluntarioso.
Nos dias secos, preferia a umidade e, às refeições, reclamava pratos esquecidos da cozinheira.
Havia dez anos que se manifestara o primeiro sinal da enfermidade estranha.
Acácio, entretanto, não revelava lesão alguma. Examinado por vários médicos, de todos recebera advertências animadoras e os pais chegavam a reconhecer que os facultativos prescreviam medicação mais por gentileza que por necessidade. Referiam-se alguns a depressões nervosas, outros a sífilis hereditária.
E a doente continuava cada vez pior, irritadiço e quase intolerável.
Fechava portas com estrondo, esmurrava mesas à menor contrariedade.
Preocupadíssimos, os pais resolveram tornar ao tratamento psíquico, procurando, dessa vez, o velho Rodrigues, que se notabilizara como doutrinador eficiente, em conhecidas reuniões espiritistas.
Iniciou-se a peregrinação diária, difícil e penosa.
À noite, tornava-se preciso arrancar o doente de casa, a automóvel.
Acácio chorava, debatia-se, resmungava.
A custa de enorme esforço, sentava-se no recinto, ouvindo, silencioso, prelecções evangélicas, ou dissertações mediúnicas.
Na primeira semana, o genitor dirigiu-se ao orientador das sessões e explicou:
- Precisamos trabalhar a favor de meu filho.
A meu ver, a enfermidade do Acácio resulta de tremenda obsessão.
E, passando a mão pela fronte em sinal de cansaço, acrescentava:
- Há dez anos que lutamos desesperadamente.
Médicos, remédios, passes mediúnicos, distracções, sem falar na fortuna que esse tratamento constante me obriga a despender.
Não concorda comigo, quanto à certeza de estarmos sob o assédio terrível de entidades inferiores?
Com a moléstia do rapaz foi-se-nos a tranquilidade para sempre.
Minha mulher não sabe a que atender e eu, de minha parte, sinto esgotar-se-me a resistência...
O velho Rodrigues, olhar comovido, esboçou um gesto de paciência, que lhe era característico, e rematou:
- O senhor tem razão.
Submeterei o assunto aos nossos protectores.
Intensificaremos a devida assistência e organizaremos sessões práticas, destinadas à doutrinação dos Espíritos perversos.
Contudo, se o bom velhinho começava a observar caso tão velho, a providência não era nova.
Os Garcias, desde os primórdios da moléstia, percorriam agrupamentos espiritistas de vários matizes doutrinários.
Ante a afirmativa de Rodrigues, porém, renovava-se a esperança dos pais carinhosos e amigos.
Acácio alimentava-se regularmente, dormia tranquilo, mas, chegada a manhã, explodiam descontentamentos e arrufos.
A aproximação de quaisquer visitas, trancafiava-se no quarto e, à noite, desencadeava-se verdadeira batalha para reconduzi-lo à reunião habitual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:57 am

De regresso a casa, apresentava sempre observações menos justas.
- Não ouviram a prelecção sobre resistência espiritual? - indagava fazendo caretas - tudo aquilo era comigo; mas não sou nenhum ignorante e sei o que significa fortaleza moral.
Aquele velho tolo nunca sofreu o que tenho experimentado, em doenças e dissabores.
Tive ímpetos de atirar-lhe em rosto minhas represálias, fazendo-lhe compreender o seu verdadeiro lugar, entretanto...
A genitora devotadíssima atalhava, carinhosa:
- Oh! meu filho, as dissertações do Sr. Rodrigues destinam-se a todos nós.
Não observaste que ele fala sob viva inspiração do plano superior?
Não te entregues a exageros de sensibilidade.
- Exageros? - clamava o doente, sob forte exasperação - a senhora não conhece a vida.
Como acreditar que um velho tão imbecil seja inspirado por forças divinas?
Não suponha tal coisa:
Rodrigues é bastante astucioso para abstrair-se dos interesses que o chumbam neste mundo e dar-se a contemplações do mundo invisível.
Certamente conhece o que representa o capítulo dos lucros e multiplica advertências e encenações.
Sou, porém, bastante precavido contra vigaristas fantasiados de apóstolos.
- Cale-se, meu filho!
Você não sabe o que diz! - exclamava o progenitor em tom imperativo.
E, fazendo sinal à mulher, obrigava-a a retirar-se discretamente, liquidando a discussão.
De outras vezes, o rapaz interpelava a velha mãe, asperamente:
- Sabe a senhora por que motivo tanto falou papai em boas maneiras, durante o almoço?
Enquanto a genitora se recobrava da surpresa, Acácio prosseguia:
- Aquilo era comigo, referia-se a mim!
Acaso, falta-me educação?
Isso é desaforo.
Vivo doente, desanimado, e meu próprio pai busca pretextos para acusar-me de grosseirão.
Fique a senhora sabendo que, tão logo melhore, sumirei de casa, darei sossego a todos.
A pobre mãe fixava nele os olhos húmidos e esclarecia:
- Por que tamanha susceptibilidade, meu filho?
Teu pai é incapaz de fazer-te acusações.
Juvêncio vive lendo livros educativos.
Não terá direito de comentar connosco as valiosas observações dessas leituras?
O rapaz amuava-se, careteava e sumia no quarto, depois de bater com a porta fragorosamente.
Repetindo-se os trabalhos psíquicos sem resultados positivos, Rodrigues, muito bondoso, aconselhou voltassem ao médico.
Lera o Sr. Garcia, em jornal da véspera, a notícia de que a cidade fora honrada com a visita de notável psiquiatra.
Sentiu-se esperançado e deliberou levar o filho a exame do famoso especialista.
Na inércia de sempre, Acácio não conseguiu furtar-se ao desejo paterno.
Entretanto, o médico, depois de meticulosa auscultação e rigoroso inquérito, definiu o caso em poucas palavras:
- Trata-se de esquizofrenia...
O pai do enfermo, apesar de certa cultura, não estava em dia com a terminologia científica e pediu explicações.
O facultativo esclareceu que aludira à mais difícil das moléstias nervosas e mentais, referindo-se largamente a patologia da loucura e à neurologia, acrescentando, após inumeráveis citações:
- Estamos presentemente, no Brasil, com a cifra apavorante de mais de cem mil esquizofrénicos.
Retiraram-se os Garcias levando a receita cheia de complicadas indicações, mas praticamente, sabiam tanto como ao penetrarem no hotel, o improvisado consultório do famoso psiquiatra.
Nada valeram medicamentos exóticos e injecções raríssimas.
Agravando-se a situação de Acácio, a família voltou ao grupo doutrinário.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:57 am

Como sempre, o velho Rodrigues permanecia no seu posto, atendendo na medida das possibilidades justas.
O enfermo, porém, saía das reuniões mais queixoso do que nunca.
Amaldiçoava dissertações, recusava ensinamentos.
Numa das sessões, todavia, estava-lhe reservada bela surpresa.
Quando menos o esperavam, surge um Espírito amigo, que se dirige ao doente em página comovedora.
Assinava-se «Philopathos».
Depois de aludir aos laços que os uniam, de um passado remoto, prosseguia:
- Lembra-te, Acácio, que recebeste oportunidade santa de trabalhar na Terra em benefício de ti mesmo.
Faz-se indispensável não conceder tamanha importância às impressões nervosas.
Levanta-te do torpor espiritual de tantos anos.
Não te cansaste ainda dessa atmosfera de queixas, insulamento e enfermidade?
Aprende a seguir o dia, cada vez que o dia ressurja!
A vida é um cântico de trabalho e criação incessantes.
Não te detenhas no túmulo das preocupações inferiores.
Busca a convivência dos familiares, dos amigos, dos irmãos de luta, e, sobretudo, não deixes a confiança em Deus fora do coração, recordando que permaneceremos contigo.
A surpresa causou geral satisfação e, no entanto, o enfermo, apesar de profundamente tocado no íntimo, esforçava-se por manifestar as velhas contradições.
Em casa, Juvêncio Garcia, na qualidade de estudioso da etimologia, sentiu-se na obrigação de oferecer alguma definição do mensageiro, e acentuou:
- Deve tratar-se de entidade muito interessante.
Filopatos quer dizer «amigo das doenças» ou «amigo dos doentes».
Os Garcias andavam exultantes, mas o teimoso Acácio repetia a cada momento:
- É preciso ver para crer e eu só poderia aceitar essa mensagem se me encontrasse com esse Espírito.
Entretanto, as manifestações do mensageiro continuaram noutras reuniões.
O doente as recebia de pé atrás.
Decorridos alguns meses, quando a Sr. Garcia exaltava o ensinamento sempre novo das páginas recebidas do emissário solícito, o rapaz explodiu:
- Mas, por que Filopatos não dá logo a indicação necessária à minha cura?
Eu só queria encontrá-la, para exigir que o fizesse, se formula tantos conselhos, por que não formula os remédios de que careço há mais de onze anos?
Entretanto, para aumentar-lhe a surpresa, nessa mesma noite a entidade prometeu que se encontrariam pessoalmente ao primeiro ensejo, durante o sono.
E embora a má-vontade e a preguiça mental, Acácio Garcia sonhou, após uma semana, que se encontrava junto do amigo, em esfera de grande actividade e beleza.
Ante a luminosa auréola que cercava o benfeitor, não sabia explicar o imenso júbilo que o inundava.
O generoso Espírito aproximou-se sorrindo, entregou-lhe um papel dobrado e explicou :
- Aqui tens a indicação necessária à tua cura, meu querido Acácio.
Não a transmiti pelo médium, porque devia entregá-la quando nos encontrássemos a sós.
Lê e compreende!...
Sumamente emocionado, o rapaz desdobrou o pequenino documento e leu maravilhado :
“Indicação:
- Dez horas de serviço activo por dia.
Muitas dificuldades e pouco dinheiro.
Nuvens de preocupação e chuvas de suor."
“Modo de usar:
- Entregar-se ao trabalho de boa-vontade a fim de encontrar o tesouro do espírito do serviço.
Encarar as dificuldades como instrutoras; aprender a alcançar muita espiritualidade com reduzidas possibilidades materiais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:58 am

Aceitar as nuvens de preocupação e as chuvas de suor como elementos indispensáveis à sementeira e à, colheita nas terras da vida.”
Acácio, muito desapontado, não sabia que dizer, Filopatos, porém, abraçou-o e disse :
- Começa o tratamento hoje mesmo.
A fim de criares coragem, inicia o esforço com algumas duchas geladas.
Nesse momento, o enfermo acordou mais a frase « duchas geladas» lhe ressoava no cérebro.
Saltou da cama animado de energia diferente, amanhecia.
Maquinalmente, tomou a toalha de banho e saiu do quarto.
Surpreendendo aquele impulso, que não ocorria há muitos anos, a velha progenitora acercou-se do rapaz e inquiriu aflita :
- Aonde vais, meu filho?
- Vou às duchas.
Esta noite marcou meu encontro pessoal com Filopatos.
E desde esse dia Acácio foi outro homem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:58 am

25 - TRAGÉDIA OCULTA
Nos derradeiros anos da existência, meu velho amigo Edmundo Figueiroa deixara-se absorver por incessante preocupação.
Convencera-se da vizinhança da morte inelutável, desejava conformar-se, mas, doía-lhe fundo a ideia de ficarem a esposa e duas filhas relegadas ao torvelinho das lutas materiais.
Acumulara fortuna sólida, esforçara-se anos e anos por amealhar recursos financeiros, com vistas ao porvir, e conseguira vencer nesse capítulo da experiência terrestre; entretanto, era demasiado sensível para manter-se calmo nas circunstâncias difíceis.
Profundamente aferrado ao ambiente doméstico, não sabia como afastar-se da convivência familiar.
A enfermidade longa dispusera-o a meditações graves e tristes, e embora a companheira fosse pródiga em gentilezas, Figueiroa permanecia intimamente exasperado.
De quando em vez, o velho Noronha, veterano espiritista daquele remoto vilarejo nortista, vinha visitá-lo, interessado em esclarecê-lo.
- Edmundo - dizia solícito -, você deve convencer-se de que a decadência orgânica é caminho indicado a nós todos, neste mundo.
Mais tarde ou mais cedo, precisamos desfazer laços, rectificar atitudes espirituais.
Que é o corpo senão a veste mutável da criatura imortal?
O doente fitava-o atencioso e replicava firme:
- Compreendo a lei inelutável que nos rege os destinos; entretanto, o pai dedicado não poderia abandonar o reduto doméstico sem resistência.
Se somos compelidos à defesa contra os ladrões, por que não combater a morte?
Não será ela, porventura, o derradeiro ladrão a roubar-nos a vida?
Não duvido que as transformações constituam fatalidades necessárias; todavia, mesmo em espírito, continuarei ao lado de minha mulher e das filhas.
O Noronha sorria e explicava situações de além-túmulo, consoante as experiências de várias sessões de intercâmbio com o invisível.
Edmundo escutava e respondia:
- Suas opiniões confortam-me sobremaneira, mas, de qualquer forma, quando me desprender do corpo, velarei no ambiente doméstico, enquanto o Criador me renovar energias.
Não me abandonarei ao desapego em circunstância alguma.
O Noronha percebia que a conversa não deveria continuar naquele tom lúgubre e ensaiava outros temas.
Dona Rosalina, a esposa de Edmundo, relativamente moça ainda, aproximava-se e a conversa tornava-se menos triste.
Falavam então de política, de costumes, de esperanças no futuro.
Os cuidados da companheira, porém, não logravam dilatar a resistência orgânica do enfermo querido e chegou o dia em que Edmundo Figueiroa se transportou para a outra margem da vida, sem qualquer bagagem material, tal como viera ao encarnar.
O quadro doméstico, nessa emergência dolorosa, não podia eximir-se aos gemidos, lágrimas, protestos de eterno amor e saudade eterna.
As coroas preciosas que rodeavam o cadáver davam, à cena, triste tonalidade de apoteose fulgurante.
Ninguém se referia a Edmundo senão com palavras santas e gestos solenes.
Lembravam suas virtudes, os exemplos de carinho e solidariedade.
Até os velhos inimigos da política municipal descobriam-lhe qualidades superiores, até então ignoradas.
Pouco depois dos funerais, Figueiroa acordou tomado de surpresas angustiosas.
Compreendeu, sem dificuldade, a transformação operada.
Atingira outra modalidade de vida, a morte atirara-o a plagas diferentes, mas o apego ao lar era tamanho que não pôde ouvir amigos velhos e atentos, à sua espera.
A retina espiritual não conseguia fixar a nova paisagem afectiva, e como Deus permite experimentarmos nossos caprichos até o fim, desde que nosso impulso não afecte a ordenação da Obra Divina, voltou Figueiroa imediatamente ao ninho inesquecível.
Espantado, surpreso, observou que ninguém dava conta de sua presença nos lugares queridos. Era noite.
Sentou-se ao lado da esposa, que trajava então rigoroso luto, e fazia-lhe pedidos comoventes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum