REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:58 am

Dona Rosalina, que tricotava tranquila, sentiu de repente a imaginação perturbada.
Nada ouvia, mas sentia os pensamentos confusos, recordando o companheiro sob impulsos fortes.
A certa altura, aumentaram as impressões psíquicas e ela gritou para o interior:
- Lilica! Lilica!...
Veio a filha mais velha, assustada, explicando-se a genitora aflita:
- Estou a lembrar-me excessivamente de teu pai...
Tenho medo, muito medo!...
Que será isto?
E se Edmundo nos aparecesse?!...
- Que horror, mamãe!... - bradou a moça, muito pálida - tenho pavor do outro mundo!
Aproximou-se o pai, cheio de saudade, e quando lhe tomou as mãos esclarecendo que era o mesmo, que a morte do corpo não o transformara, a jovem alarmou-se e bradou:
- Sinto arrepios! estamos sós neste quarto...
Vou chamar Titina e a empregada.
Saiu a correr, a fim de buscar a irmã e a cozinheira, e as horas restantes da noite registaram cenas penosas, no visível e no invisível.
Figueiroa desenvolveu o máximo esforço para acomodá-las devidamente, e, no entanto, cada gesto de carinho era retribuído com observações rudes e ingratas.
Rezaram em voz alta, cantaram hinos religiosos.
A criada chegou a tranquilizar a patroa, asseverando que, se o patrão aparecesse, teria coragem de mandá-lo para o inferno, e essa declaração sossegou Dona Rosalina e as filhas, que se aquietaram devagarinho.
Tão grande, todavia, foi o sofrimento moral de Edmundo que o desventurado se retirou a um recanto esquecido do quintal, para desabafar à vontade.
A luta, porém, começara e Figueiroa não era Espírito irresoluto.
Longe de atender às inspirações que o bafejavam de Mais Alto, permaneceu firme no reduto doméstico.
Dona Rosalina recorreu a missas, novenas e orações particulares.
Contudo, cada noite lhe renovava os receios sem conta.
Indignado com a situação, Edmundo insistiu energicamente, tentando senhorear o organismo da filha mais velha, ansioso de ministrar esclarecimentos à companheira.
Mas a moça, exibindo singulares perturbações nervosas, apenas lhe assinalava a presença em gritos estentóricos:
- É meu pai, estou a vê-lo!
Oh! Deus, tende piedade de nós!
E, olhar esgazeado de louca, prosseguia com acento impressionante:
- Ei-lo que chega!...
Abraça-me, diz que não morreu...
Tenho medo! Donde vens, papai?
Não estás, porventura, com Deus?
Ah! eu morro, eu morro!...
Dona Rosalina, aterrada, chama o médico, este ministra injecções violentas, aconselhando a internação em Casa de Saúde.
Edmundo vê a oportunidade perdida.
Nada mais conseguiu, senão prostrar a filhinha amada.
A situação complica-se cada vez mais.
O médico, activo, passou a frequentar-lhe a casa, e, quando soube que a viúva Figueiroa era proprietária de algumas centenas de milhar de cruzeiros, passou a fazer-lhe a corte escandalosamente.
Agravaram-se os padecimentos do atribulado Figueiroa.
A maneira do homem invisível de Wells, o mísero passava o tempo a gritar, gesticulando a esmo, sem que ninguém o notasse em casa.
Observando que o segundo matrimónio de Dona Rosalina era facto a consumar-se em breves dias, acentuou-se-lhe a desesperação.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:58 am

Voltou novamente a influenciar a filha, obrigando-a então a recolher-se ao leito, por mais de dois meses.
Nas primeiras crises nervosas, alarmara-se extremamente o coração materno.
Dona Rosalina chamou o padre para exorcizar, e como não bastasse a providência, requisitou as doutrinações do Noronha.
Quanto mais se multiplicavam tais medidas, pior se tornava Edmundo, premido de inenarráveis angústias.
Chegado, porém, o dia das segundas núpcias da viúva Figueiroa, meu velho amigo Cantidiano procurou-me com intimação afectuosa:
- Humberto, providenciemos hoje nova situação para o Edmundo.
Se as coisas continuarem no pé em que se encontram, não sei até onde poderá ir esse infeliz.
Pus-me à sua disposição e acercamo-nos do velho companheiro.
Depois de enorme esforço, conseguimos que o desventurado nos avistasse.
Estava em condições de meter pena ao coração mais endurecido.
Quando deu connosco, correu ansioso ao nosso encontro.
Abraçado a Cantidiano, seu antigo colega de letras primárias, desenrolou as desditas de dois anos de incompreensão.
O amigo escutou-o pacientemente e falou bem-humorado:
- Mas, afinal, que queres?
Rosalina casar-se-á hoje, pela segunda vez; tuas filhas terão padrasto; mas olha que há maridos e meninas sem número, nestas condições.
- Sei, bem sei - replicou Edmundo, lacrimoso -, mas a ingrata da minha mulher teve coragem de chamar o sacerdote para excomungar-me e até o Noronha, veja bem, o Noronha veio doutrinar-me a seu chamado.
Poderá você compreender tudo isto?
E, notando o sorriso manso de Cantidiano, acrescentava:
- Por que não se exorcizou o intruso nem se doutrinou a Rosalina?
O tratante é o diabo em pessoa e minha mulher demonstrou coração endurecido e indiferente à minha dor.
Ambos também são Espíritos e Espíritos excessivamente perturbados.
O companheiro abraçou-o e esclareceu:
- Resigna-te, Edmundo!
A maioria dos nossos amados na Terra não nos podem compreender senão como fantasmas.
Para eles, quem partiu pelo túnel da sepultura não ama, não vibra, não mais sente.
Por enquanto, isso é fatalidade em nossos círculos evolutivos.
Esperemos o crescimento mental das criaturas.
É indispensável conformarmo-nos aos desígnios divinos.
O interpelado meditou aquelas ponderações sensatas e indagou:
- Como esclarecer Rosalina e explicar às filhinhas que eu não morri?
Que fazer para demonstrar minha repugnância ao explorador que me invadiu a casa?
Cantidiano estreitou-o mais carinhosamente nos braços acolhedores e respondeu:
- Sossega!
Irás connosco a esferas diferentes, onde alcançarás trabalho redentor e vida nova.
Quando os amados nos não podem entender, não seria justo recorrer à violência.
É preciso entregá-los à vontade de Deus e partir em demanda de outros rumos.
Teu apego ao lar resultou de louvável dedicação, que Deus abençoa.
Tua casa, porém, não conseguiu continuar ao teu lado, após a morte do corpo.
Dada essa impossibilidade, da qual não tens culpa, tua tarefa de esposo e pai está finda, para começar a de irmão, no « amai-vos uns aos outros».
Compreendeste?
E, para finalizar mais simplesmente, acrescentou sorrindo:
- A mulher, o médico e as filhas serão protegidos de Deus, esclarecidos pela vida e, sobretudo, não te esqueças de que, hoje ou amanhã, eles serão igualmente fantasmas para os que ficarem no mundo.
Pela primeira vez, após a morte física, Edmundo Figueiroa sorriu e, sem mais dizer, seguiu-nos resoluto.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:59 am

26 - ASSISTÊNCIA ESPIRITUAL
Constantino Saraiva tornara-se muito conhecida por suas produções mediúnicas e, embora sua cota de tempo e possibilidades materiais continuassem exíguas, conquistara amizades numerosas, ensejando involuntariamente enormes expectativas em torno do seu nome.
Toda missão útil, porém, encontra obstáculos nos lugares onde a luz não foi recebida pela maioria dos corações, e Constantino, dada a ampliação natural das responsabilidades, tornara-se alvo de forças inferiores, no visível e no invisível.
Companheiros encarnados seguia--lhe os passos, ansiosos por saber se dava testemunho pessoal das verdades de que se constituíra instrumento e as entidades vagabundas, deslocadas do vampirismo pelos Espíritos Superiores, a se fazerem sentir por intermédio dele, anotavam-lhe as mais insignificantes atitudes e não lhe perdoavam a decisão de manter-se firme na fé, apesar de tropeços ou tempestades.
Criou-se, assim, em derredor do médium Saraiva, considerável bagagem de lutas.
É de justiça, contudo, advertir que esse movimento hostil não derivava apenas do psiquismo de Constantino, mas para combater o venerável Fanuel, o Espírito sábio e benevolente que ministrava substanciosas lições por meio de suas faculdades.
Os malfeitores desencarnados desenvolviam todos os recursos de insinuação.
Recebia Saraiva propostas de salários vultosos, convites para mudar de situação; e como não vingasse a sugestão do ouro, tentaram o trabalhador no capítulo do sentimento.
Feriram Constantino nos sonhos mais íntimos do coração; mas, preparado contra os alvitres da luxúria, resignou-se o médium e a máquina de serviços continuou sem perturbações.
Tal serenidade, todavia, não vinha à superfície por conquistas dele próprio, mas porque Fanuel montava guarda activa e permanente, cooperando na integridade e desdobramento da tarefa.
A situação caracterizava-se por notável harmonia, quando os adversários gratuitos prepararam subtil cilada, em que o médium seria vítima das próprias intenções.
Grande número de confrades, de populosa cidade, realizava valioso empreendimento para difusão do Espiritismo evangélico, mas, a ambição e o egoísmo, a breve trecho, acocoraram- se como dois monstros na empresa dos obreiros desprevenidos.
A obra ameaçava ruir.
Amigos da véspera dividiam-se em campos opostos.
Envenenados de personalismo destruidor, brandiam as armas da insídia e da leviandade, através de Tribunais e Secretarias.
A obra generosa transformara-se, pela invigilância da maioria, num grande movimento de ambições comercialistas.
Inegavelmente, havia ali, como em toda parte, trabalhadores honestos e sacrificados, mas, qualquer solução justa só poderia resultar de uma cooperação geral.
No auge da luta, os caricaturistas da zona invisível lembraram o Saraiva.
Não seria chegado o momento de lhe inutilizar as energias desferindo golpes no Instrutor espiritual?
Alguém chegou mesmo a declarar sutilmente:
- Insinuaremos a vinda do Constantino, e se chamarem Fanuel a esclarecimentos, é natural que não possa ele atender à generalidade, onde há tantos descontentes.
Estabelecida a impressão nervosa nos culpados, entraremos a dominar os incautos e promoveremos atritos fortes.
É de esperar que o escândalo tome proporções devastadoras e, em seguida, Saraiva há-de procurar quem lhe exaltou as qualidades de pião.
Riu-se o grupo gostosamente e deu mãos à obra.
Daí a dias, Constantino foi convidado a visitar a grande cidade, onde lavrava a confusão lastimável.
Consultaram o chefe de serviço quanto à licença, e como não houvesse embargos de qualquer natureza, Saraiva poderia partir oportunamente.
Constantino, porém, assoberbado de obrigações diversas, não desejava empreender a viagem estafante - mais de mil quilómetros de via férrea - e manteve-se no retraimento que lhe era peculiar.
Os malfeitores, contudo, desejavam atingir seus fins e sugeriram sutilmente que se oferecesse a Saraiva homenagens espectaculares.
Mais alguns dias e Constantino soube, pelos jornais, que lhe preparavam recepção de grande vulto.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:59 am

Reunir-se-iam os companheiros em preitos honrosos, cada solenidade congregaria número considerável de admiradores e amigos.
Constantino, que não conhecia as tramas e os dramas distantes, comoveu-se ao extremo.
Já que se tratava de movimento tão honroso e distinto, abalançar-se-ia à viagem, sem mais hesitação.
Orou, meditou.
Fanuel aproximou-se e recomendou vigilância.
Não era essa, entretanto, a advertência comum, de todos os dias?
Cheio de emoção, o médium não percebia que fora beliscado na vaidade de criatura falível.
No seu modo de entender, devia sacrificar-se, correr ao encontro dos seus irmãos na fé.
Não se organizavam homenagens em sua honra?
Longe de recordar que semelhantes preitos deviam conferir-se a quem de direito, a começar por Jesus-Cristo, e não a ele Constantino, operário a meio da tarefa, ignorando se lhe chegaria a termo, dignamente, começou por antever as demonstrações de apreço, os aplausos gerais, e iniciou providências imediatas.
Reconhecendo-lhe a perigosa atitude mental, Fanuel procurou socorrê-lo por intermédio do chefe de serviço.
Na manhã em que deliberou em contrário, o rapaz procurou o director de trabalho e pediu humilde:
- Doutor, mudei de opinião relativamente à viagem e desejo o favor de sua licença.
Avisado intuitivamente por Fanuel, o interpelado obtemperou:
- Não me oponho aos seus desejos, mas olhe que as necessidades do serviço também mudaram.
Seria difícil autorizar sua ausência, agora.
Não seria possível adiar o projecto?
- Mas, doutor - considerou o médium -, os companheiros preparam-me grandes festividades para as quais, naturalmente, despenderam recursos e receio passar por ingrato.
Além do mais, creio que precisam de minha colaboração nas dificuldades e sofrimentos que arrastam no momento e não desejo parecer indiferente.
Fixou-o o director e observou:
- Não tenho interesse em desviá-lo de obrigações que considera sagradas, mas sou de parecer que deve ponderar as próprias disposições.
Se pretende viajar em tarefa de auxílio, não esqueça a vigilância.
Onde a razão de festivais e homenagens? o regozijo não mora em companhia da angústia.
O médium fora sacudido pelas forças da Verdade, mas não despertou.
Fanuel fazia o possível para acordá-lo, mas perdia os melhores esforços.
Os dias continuaram registrando a insistência de Saraiva e a natural esquivança do chefe de serviço, até que, notando este a firme resolução do rapaz, não quis parecer tirânico e acabou por dizer-lhe:
- Pois bem, Saraiva, pode ir quando julgar conveniente.
Você é dono de sua pessoa e cada qual deve conhecer as obrigações próprias.
Obtida a permissão, o médium tomou as primeiras providências.
Nesse ínterim, registava-se grande contentamento dos adversários gratuitos e enorme preocupação dos amigos sinceros de Constantino.
A escola de Fanuel, na esfera superior, começou a ser visitada por companheiros esclarecidos, desejosos de informações sobre o assunto.
Um velho amigo perguntou ao respeitável mentor:
- Será crível que Saraiva deite a perder património tão considerável, inclinando-se a aventuras dessa ordem, só por causa de homenagens barulhentas e exaustivas?
- Não é bem isso - explicava o orientador - Constantino sempre confiou em minha assistência.
Tal como a maioria das criaturas, ele não compreenderia nosso auxílio fora da velha ternura terrestre, a exprimir-se em palavras doces.
É claro que ele também é Espírito e tem as suas responsabilidades.
Poderá atender plenamente aos caricaturistas que o alvejam, mas, antes disso, não lhe negarei assistência fraternal.
Talvez não nos entenda de pronto, e, contudo, nossa cooperação segui-lo-á.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 16, 2017 9:59 am

Mais tarde, veio a devotada mãe de Saraiva e inquiriu:
- Fanuel, venho rogar seus bons ofícios.
Creio que a situação é difícil e perigosa.
O mentor generoso tranquilizou a entidade materna:
- Minha irmã pode voltar às suas tarefas espirituais plenamente confiante.
Constantino não ficará sem a nossa colaboração.
No outro dia o velho Jerónimo, também grande amigo de Saraiva, depois das primeiras considerações, perguntou:
- Fanuel, por que não procuras eliminar a dificuldade imediatamente?
O pobre médium não vive isento da ignorância peculiar aos encarnados no mundo.
Não haverá meios de modificar a situação já, já?
O interpelado, com a serenidade de perfeito optimismo, esclareceu:
- Jerónimo, quando viveste na Terra ouviste falar alguma vez de reses estouradas?
- Sem dúvida.
- Pois a mente, quando obcecada pelo impulso do próprio capricho, é como se fora rês estourada - continuou Fanuel, bondoso -, não se pode remediar a situação com êxito, senão a longas distâncias.
O primeiro recurso é a porteira forte; se esta não vinga, recorre-se ao laço, e tudo isso, embora magoe e fira o animal, constitui medida de salvação de morte certa.
Pelas amizades que conquistou, vive Saraiva em pastagem muito extensa.
Para opor-lhe uma porteira, necessitamos longa distância.
Ele pretende viajar mais de mil quilómetros.
Pois bem: não poderei cercar-lhe a mente caprichosa senão a termo do objectivo.
Se falhar a porteira, recorrerei então ao laço, nesse trabalho de assistência.
Jerónimo meditou a explicação sábia e mergulhou em silêncio.
Daí a alguns dias era chamado por Fanuel, que lhe confiava os trabalhos da sua escola activa, esclarecendo:
- Peço me substituas por três dias.
Devo cercar hoje a mente de Constantino.
Levarei Natércio, mesmo porque, segundo já sabes, falhando os recursos iniciais, utilizarei outros mais fortes.
E, sorrindo bondosamente, acrescentava:
- Quantas vezes o encarnado quebra uma perna ou se esvai em sangue de escoriações quando socorrido?
Devemos admitir providências, que tais, no quadro dos serviços comuns.
Assistirei Saraiva em todas as circunstâncias, e talvez me demore.
Com efeito, nessa noite, o médium chegava à grande cidade, depois de rodar vinte e quatro horas a fio, sobre os trilhos.
Antes de atingir a estação dos abraços efusivos e dos aplausos superficiais, um amigo vem vê-lo, trazido por Fanuel, relacionando a ocorrência na série dos casos felizes.
Abraçam-se.
É quase meia-noite; Saraiva, cansadíssimo, aguarda o conforto da cama de hotel.
O companheiro regozija-se e exclama:
- Por aqui, tudo bem.
Algumas dificuldades, mas creio que você gozará horas de entretenimento e descanso.
Tenho a impressão de que numerosos amigos nossos disputam em torno de precários patrimónios materiais, mas isso não turvará o seu horizonte.
Enfrentaremos a situação serenamente.
Natércio, o colaborador de Fanuel, aproxima-se do médium e aconselha a oração.
Era meia- noite, enorme o cansaço, mas Saraiva pede ao amigo que o ajude numa prece.
Não deveria inclinar-se à inspiração do Alto, antes de penetrar o terreno de serviços novos?
O companheiro acedeu e elevaram mente e coração ao plano superior.
Meditaram e esperaram.
Fanuel considerou chegada a hora de opor o impedimento prometido.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:10 am

Tomando a mão de Constantino, escreveu firme:
«Grande é a luta, áspera a discórdia.
Nossos irmãos ignorantes da luz espiritual contendem na ambição e no personalismo destruidores.
Necessitam de bisturi a fim de vazarem o tumor da má-vontade.
Quererias servir de instrumento, meu filho, quando estás sendo utilizado em tarefa superior?
Considera as responsabilidades que te cabem.
E se prezas nossa humilde opinião, regressa a todo pano, antes do amanhecer.»
Fanuel não se estendeu em outras considerações.
Constantino sentia amarguras de derrotado.
E o festival e as homenagens, os amigos incientes da verdadeira fé?
Num átimo, Natércio aplica-lhe fluidos salutares.
Saraiva lê a mensagem em voz alta.
Está muito pálido, desencantado.
Mas os fluidos de Natércio o envolvem inteiramente, atenuando os efeitos dolorosos da volta à realidade e ao dever.
Constantino cria forças e diz:
- Se é assim, vamos voltar.
E ante o amigo admirado, tomou o comboio de regresso, pela madrugada, antes do amanhecer.
Entretanto, somente de volta, cessada a influência cariciosa de Natércio, Constantino verificou que sua mágoa era profunda.
Viajar mais de mil quilómetros, sacrificar-se e voltar sem atingir o menor dos objectivos?
Dias passaram sobre os seus desgostos, e o médium, na primeira reunião, recebeu encorajadora mensagem de Fanuel, que lhe dizia contente:
- Estou satisfeito:
Se não te posso dar boa nota em prudência, concedo-te óptima classificação em obediência.
Não te agastes, Constantino.
Ninguém pode despertar do sono a toque de ternura.
Às vezes, são necessários jactos de água fria.
E quem poderá afirmar que isso não seja assistência amorosa?
Saraiva, mais animado, retomou a luta, mas até hoje talvez ignore que, se não ganhara boa nota em prudência, nem mesmo a obediência lhe pertencia.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:11 am

27 - DOIS COMPANHEIROS
Leonel e Benjamim, dois velhos amigos do plano espiritual, mutuamente associados no erro e na repararão, depois de minucioso exame do passado, decidiram-se a pedir concessão de novas experiências no mundo.
Esposando opiniões diversas entre si, buscaram o orientador, ansiosos da necessária permissão para pronto regresso à luta humana.
Após anotar-lhes as observações, sorriu o mentor amigo e obtemperou:
- E oportuna a solicitação:
Vocês necessitam intensificar o aprendizado, iluminar o entendimento, adquirir sabedoria. Escolheram ambos o mesmo género de provas?
Levantou-se Leonel, explicando:
- Estamos acordes no pedido, mas, não temos a mesma preferência no capítulo das tarefas.
Por minha parte, desejaria a oportunidade de movimentar patrimónios terrestres, nos círculos da fortuna e da autoridade...
Antes que ele terminasse, Benjamim embargou-lhe a palavra e esclareceu:
- Cá por mim, escolhi a condição de pobreza e sofrimento.
Pediria, se possível, a supressão de toda possibilidade de contentamento na Terra.
Encareço problemas de penúria e dificuldades, a fim de valorizar o que hei recebido da Providência.
Estampando no semblante o sorriso sereno da sabedoria, o generoso orientador considerou:
Não posso interferir na liberdade de ambos.
Conhecem vocês a extensão dos débitos contraídos.
De algum tempo, sou testemunha da luta enorme em que se empenharam para o resgate.
Fizeram jus, por isto, a novo ensejo de trabalho e elevação.
Devo ponderar, todavia, que, embora divergentes na escolha, ainda não poderão afastar-se um do outro, na próxima experiência de redenção.
Partilha, no erro, determina partilha de responsabilidades e consequências.
Ser-lhes-ão abertas as portas do serviço santificador.
Não se desunam, pois; nos caminhos da purificação, jamais desprezem a possibilidade de aprender.
Fortuna e pobreza são bancas de provas na escola das experiências terrestres.
São continentes da probabilidade.
Ambos oferecem horizontes largos e divinas realizações.
Que saibam receber as bênçãos de Jesus, são os meus votos.
Leonel e Benjamim ouviram os conceitos judiciosos, renovaram promessas e partiram mais tarde.
Atendendo a própria escolha, nasceu o primeiro na casa farta de rico proprietário rural, que lhe fora muito amado noutras existências.
Daí a dias, velha serva da casa rica era igualmente mãe, fornecendo ao segundo o ensejo de realizar os planos traçados.
Enquanto houve paisagens risonhas de infância, ambos os companheiros, tão unidos pelo coração e tão distantes pelo nascimento, viveram no róseo céu da harmonia; mas, quando Leonel começou a sorver o conteúdo dos livros propriamente do mundo, verificaram-se os primeiros sinais de incompreensão.
Cada vez que o jovem bem-nascido regressava ao círculo doméstico em gozo de férias escolares, assinalava-se maior distância entre ele e o camarada da meninice.
Quando o anel de grau lhe brilhou nos dedos, estava consumada a separação.
Passando a administrar interesses da família nos estabelecimentos do campo e da cidade, era ele o chefe, enquanto Benjamim se classificava no extenso quadro dos servidores.
Nessa zona de testemunho activo, entenderam que deviam proceder como estranhos, absolutamente separados entre si.
No fundo, admiravam-se e amavam-se reciprocamente; contudo, as ilusões terrestres os encegueciam.
Se Leonel se mostrava mais enérgico, atento às responsabilidades de administrador, desfazia-se Benjamim em críticas acerbas e gratuitas, levado pelo despeito.
Se Benjamim aumentava, involuntariamente, a lista de necessidades pessoais, multiplicava Leonel o rigor, levado pelo autoritarismo.
A certa altura da experiência, não mais se saudaram um ao outro.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:11 am

Atritaram-se, trocaram acusações mútuas.
O servo abandonou o trabalho diversas vezes, desejoso de experimentar a sorte em regiões diferentes; todavia, incapaz de iludir o espírito da Lei, voltava sempre, implorando readmissão.
Leonel, por sua vez, renovava a concessão de serviço, embora com agravo crescente de exaspero e tirania recíprocos.
Se o empregado solicitava melhoria de salário, o patrão restringia a remuneração e os benefícios.
Embriagado na visão de lucros fabulosos, Leonel pusera a mente no egoísmo total.
Desvairado de inconformação, Benjamim concentrava-se na rebeldia, daí resultando aumento intensivo de vaidade, orgulho, presunção, ciúme, despeito e indisciplina no coração de ambos.
A Providência Divina, que jamais deixou criaturas em abandono, enviou-lhes socorro através da assistência religiosa.
Mas o patrão, afeiçoado ao Catolicismo Romano, inclinava toda leitura edificante a favor da própria causa, valia-se dos conselhos do sacerdote amigo que o assistia, para justificar os erros e o seu feitio egoístico.
Obcecavam-no o apego ao dinheiro e a ideia de lucros fáceis.
Quanto ao empregado, tornara-se espiritista convicto, porém, cegavam-no a inconformação e a revolta.
Qualquer advertência dos instrutores espirituais era interpretada ao inverso.
Se o amigo do outro lado da vida aludia à paciência, não enxergava ele a informação própria e sim o defeito alheio, ou a insuficiência dos outros.
Se ouvia dissertações sobre a caridade, lembrava os afortunados do mundo, com ironia.
Benjamim era, afinal, desses enfermos que consideram o remédio excelente para outrem, mas, nunca para si mesmos.
Enquanto Leonel se valia das consolações da Igreja Católica para consolidar tradições autocráticas, Benjamim esquecia as lições do Espiritismo, para armazenar indisciplinas e difundir desesperações.
Absolutamente envenenados de teorias mentirosas, terminaram ambos a experiência humana, na posição de inimigos irreconciliáveis.
Despertando na vida real, sentiam-se estranhamente algemados um ao outro.
Cercavam-nos sombras espessas e tristes; e como se houvessem enlouquecido, perdendo a luz da memória, somente a custo de muitos anos conseguiram fixar recordações das existências obscuras.
Quando a lembrança lhes felicitou o espírito abatido, compreenderam a situação, desolados, e puseram-se à procura daquele mentor generoso que lhes havia banhado o coração de sábios conselhos.
Depois de longo tempo, que lhes marcou angústias dilacerantes, foram readmitidos à presença do carinhoso orientador, que, ante as lágrimas de ambos, exclamou serenamente :
- Não estranho a dor que lhes fere o espírito enfermo, à face do tempo perdido e do ensejo malbaratado.
Não lhes faltou inspiração divina para o êxito necessário.
Entretanto, esqueceram, mais uma vez, a lei do uso, internando-se no abuso criminoso, olvidando que pobreza e fortuna constituem oportunidades do serviço divino na Terra.
Os que administram são mordomos, os que obedecem são operários, mas, no coração augusto de Nosso Pai, estamos inscritos indistintamente na categoria de cooperadores de suas obras.
Se era justo obter moderação, paciência, confiança, fé e resistência sublime com os valores da pobreza, e ganhar humildade, ponderação, entendimento, autodomínio, bondade e paz com os valores da riqueza, adquiriram vocês desesperação, rebeldia, vaidade e ruína.
Não posso asseverar que voltaram piores que no passado escabroso, porque ninguém regride na evolução perpétua da vida; mas posso afiançar que voltaram mais sujos.
A crise de ambos é de estacionamento complicado.
Enquanto outros irmãos nossos costumam deter a marcha em jardins ou florestas, preferiram vocês a parada em lamaçal inconcebível.
Valeram-se das sagradas posições de administrar e obedecer, tão-só no propósito de oprimir e menosprezar.
Esqueceram que todo trabalho honesto, no mundo, é título da Confiança Divina.
Não observo qualquer traço de superioridade moral entre um e outro.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:11 am

Ambos faliram desastradamente.
É a dolorosa experiência dos que prometem sem saberem cumprir, é o fracasso do aprendiz pelo descuido próprio.
Não vos declarei que pobreza e riqueza são continentes da probabilidade?
Cultivaram, porém, a terra das concessões benditas, enchendo-a de ervas venenosas e povoando-a de monstros e fantasmas.
Mascararam-se a si mesmos e caíram no pântano.
Que posso fazer, agora, senão lamentar a imprevidência?
Ambos os companheiros de infortúnio ouviam-no em pranto.
Reunindo todo o cabedal de energias próprias, Leonel adquiriu coragem e interrogou:
- Não poderíamos, entretanto, recomeçar juntos a prova da fortuna e da pobreza?
Estou convencido de que venceremos agora.
- Sim - respondeu o instrutor sabiamente -, a medida é possível.
No entanto, segundo observei, vocês regressaram enlameados.
A oportunidade desejável, por enquanto, e a de se lavarem convenientemente, a fim de prosseguir caminho.
Calou-se o mentor amigo.
Leonel e Benjamim entenderam sem dificuldade.
E depois de algum tempo renasciam na Terra, procurando o tanque fundo e vasto do sofrimento.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:11 am

28 - A QUEIXOSA
Benvinda Fragoso tornara-se amplamente conhecida pelas suas queixas constantes.
Quem a ouvisse na relação dos factos comuns afirmaria, sem hesitar, que a infeliz arrematara todos os desgostos do mundo.
Órfã de pai e mãe, vivia à custa de salário modesto, numa fábrica de toalhas, onde fora admitida por obséquio de amigos devotados.
Todavia, se a existência era laboriosa, não faltavam recursos para torná-la melhor.
Não se casara, mas dois sobrinhos inteligentes e generosos faziam-lhe companhia no ambiente doméstico.
Os progenitores não lhe deixaram haveres em espécie, mas sempre legaram à filha o património do lar, edificado ao preço de sublimes sacrifícios.
Benvinda rodeava-se de oportunidades benditas, mas não sabia aproveitá-las.
Cristalizara-se nas queixas dolorosas, aniquilando as próprias energias.
A mente enfermiça desfigurava as sugestões mais belas da vida diária.
- Sou profundamente infeliz - dizia a uma colega de trabalho -, vivo insulada, à maneira de animal sem dono, ao léu da sorte.
Morrer seria para mim uma felicidade.
Diz-se que o fim é sempre doloroso.
Não será, porém, mais agradável alcançar o termo do caminho no seio de tantas sombras e surpresas angustiosas?
- Não digas isso, Benvinda - observava a companheira, com intimidade -, temos saúde, não nos falta trabalho, teus sobrinhos gostam de ti.
Não nos sintamos desditosas, quando a oportunidade de serviço continua em nossas mãos.
Mal-humorada - explodia a queixosa, exasperada:
- Que dizes? a existência esmaga-me e desde a infância há sido para mim pesada carga de sofrimentos.
Referes-te aos sobrinhos, e que significam eles em meu caminho senão agravo de preocupações?
O mundo é cárcere tenebroso, inferno terrível, onde somos convocados a ranger dentes.
Calava-se a colega, ante o transbordamento de revolta insensata.
Na estação do frio, aferrava-se Benvinda em lamentações amargosas; no verão, acusava a Natureza, declarava-se incapaz de tolerar o calor e, se chovia, amaldiçoava as nuvens generosas.
Dispondo de muitas horas no ambiente doméstico, a infeliz nunca soube valorizar o santo aconchego das paredes acolhedoras, onde os pais carinhosos lhe haviam dado o beijo da vida.
Enquanto os sobrinhos, quase crianças, permaneciam no trabalho, Benvinda recorria às vizinhas e, mãos cruzadas em sinal de preguiça, continuava incorrigível:
- Ah! Dona Guilhermina, a vida vai-se tornando insuportável.
Este mundo resume-se em miséria e desengano.
Até quando serei humilhada e perseguida pela má sorte?
- Oh! minha filha! - respondia a interpelada, fixando gestos de mãe compadecida, por ocultar a verdadeira expressão da personalidade habituada à maledicência - Deus é bom Pai. Não desanime.
Tenhamos confiança na Providência.
Tudo passa neste mundo.
A fé pode transformar nossas dificuldades em motivos de vitória e alegria.
- Fé? - replicava Benvinda, exaltada - estou descrente das orações.
Deus nunca me atende.
Quando sonhava, há dez anos, a organização de um lar que fosse somente meu, rezei pedindo a protecção do Céu e meu noivo desapareceu para desposar outra jovem, mais tarde, longe de mim.
Quando meu pai se decidiu à operação, supliquei à Providência lhe poupasse a vida, atendendo a que eu era órfã de mãe, desde os mais tenros anos, e sobreveio a infecção que o levou à sepultura.
Quando minha única irmã adoeceu, recorri de novo à confiança no Poder Celestial e Priscila morreu, deixando-me os filhos por criar, através de obstáculos numerosos.
Como vê a senhora, minha crença não poderia resistir a choques tamanhos.
Estou sozinha, abandonada; sou o cão anónimo, desprezado em desvãos do caminho.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:12 am

Mas, como a assistência espiritual da Esfera Superior se vale de todos os meios para socorrer ignorantes e infelizes, a vizinha, não obstante a má-fé, constituía-se em instrumento de consolação ao bafejo de amigos desvelados do Plano Superior e replicava:
- Entretanto, quem sabe todas as desilusões não resultaram em beneficio?
O noivo, que a enchia de esperança, talvez a envenenasse de desesperação, mais tarde; o genitor teria evitado a operação cirúrgica, mas possivelmente se tornaria dementado, percorrendo hospícios ou convertendo-se em palhaço da via pública; a irmã ter-se-ia curado da pneumonia, mas, viúva muito jovem, talvez lhe amargurasse o coração fraterno, cedendo a sugestões inferiores no caminho da vida.
Em vez de ponderar as observações amigas, Benvinda retrucava:
- Não me conformo:
para mim a vida se resume no drama pungente que aniquila o espírito, ou na comédia que revolta o coração.
A palestra continuava, pontilhada de lamentos e acusações gratuitas ao mundo, até que os rapazelhos chamavam à porta.
A tia, que perdera tempo em lamúria improdutiva, aproximava-se do fogão, apressada.
- Esta vida não me serve! - dizia em voz alta, amedrontando os jovens - até quando serei escrava dos outros, capacho do Destino?
Maldita a hora em que nasci para ser tão desgraçada.
Os sobrinhos miravam-na entristecidos.
- Quando conseguirmos melhor remuneração, titia - exclamava um deles, bondosamente -, havemos de auxiliá-la, retirando-a da fábrica.
Não é a senhora nossa verdadeira mãe pelo espírito?
Benvinda, no entanto, longe de comover-se com a observação carinhosa, multiplicava as impertinências.
- Não creio em ninguém - bradava de cenho carregado -, quando vocês puderem, deixar-me-ão na primeira esquina.
Não pensam senão em diversões e más companhias.
Crêem que resolverão meus problemas com promessas?
Observando-lhe a feição neurasténica, os rapazes esperavam a refeição, sisudamente calados.
Terminada esta, regressavam naturalmente à rua.
O ambiente doméstico pesava.
A lamentação viciosa é força destrutiva.
Benvinda não reparava que as amizades mais íntimas a deixavam sozinha no circulo das queixas injustificadas.
Ninguém estava disposto a ouvir-lhe as blasfémias e críticas impiedosas.
As colegas de serviço evitavam-lhe a palestra desanimadora.
As vizinhas refugiavam-se em casa ao vê-la em disponibilidade no quintal invadido de ervas rústicas.
Os sobrinhos toleravam-na, desenvolvendo imenso esforço.
Nesse insulamento, a infeliz piorava sempre.
Começou a queixar-se amargamente do serviço e a acusar a administração da fábrica.
Enquanto sua atitude se limitava a circulo reduzido, nada aconteceu de extraordinário; todavia, quando resolveu dirigir-se ao gerente para reclamações descabidas, recebeu a ordem inflexível de demissão.
Enclausurada no desespero, não tinha percepção das oportunidades que se desdobram no caminho de todas as criaturas, nem compreendia que não era a única pessoa a lutar no mundo.
Crendo-se mártir, agravou a ociosidade mental e foi relegada a plano de absoluto isolamento.
Nem amigos, nem trabalho, nem colegas, nem sobrinhos.
Tudo fugiu, evitando-lhe a atmosfera de padecimento voluntário.
Depois de perder a casa, em venda desvantajosa, a fim de obter recurso à manutenção própria, passou ao terreno da mendicância sórdida.
Foi nessa situação escabrosa que a morte do corpo a compeliu a novos testemunhos.
Desencantada e abatida, acordou na vida real em solidão mais dolorosa.
Ninguém a esperava no pórtico de revelações do Além-túmulo.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:12 am

Estava só, sem mão amiga.
E os sofrimentos de que se julgara vítima na Terra?
Não esperava convertê-los em títulos de ventura celestial?
Descrera da Providência no mundo, entretanto, no íntimo, sempre acreditara que haveria glorioso lugar para os desventurados e famintos da experiência humana.
Depois de longo tempo, em que se multiplicavam provas ásperas, rogou ao Espírito de sua mãe que a esclarecesse na paisagem nova.
Tinha sede de explicações, ânsias de paz e fome de entendimento.
Depois da súplica formulada com lágrimas angustiosas, sentiu a aproximação da desvelada progenitora.
- Benvinda - murmurou a terna mensageira, carinhosamente -, não te dirijas a Nosso Pai lamentando o aprendizado em que te encontras.
Toda queixa viciosa, minha filha, converte-se em crítica injusta à Providência.
Estás convicta de que sofreste na Terra; entretanto, a verdade é que envenenaste os poços da Divina Misericórdia.
Fugiste às ocasiões de trabalho, desfiguraste o quadro sublime de realizações que te aguardavam a boa-vontade nas estradas da luta humana.
Hoje aprendes que a lamentação é energia que dissolve o carácter e opera o insulamento da criatura.
Não conseguiste afeições em ninguém, não soubeste conquistar a gratidão das criaturas, nem mesmo das coisas mais ínfimas do caminho.
Sofre, minha filha!
A dor de agora é tua criação exclusiva.
Não imputes a Deus falhas que se verificaram por ti mesma.
- Oh! minha mãe! - suplicou a infeliz - não poderei, porém, voltar e aprender novamente no mundo?
- Mais tarde.
Por agora, para que alcances alguma tranquilidade, incorporar-te-ás à extensa falange espiritual que auxilia os rebeldes e inconformados da luta humana.
Reduziste a existência a montão de queixas angustiosas, sem razão de ser.
Trabalharás agora, em espírito, ao lado daqueles que se fecham na teimosia quase impenetrável, a fim de compreenderes o trabalho perdido...
E a queixosa trabalha até agora, para abrir consciências endurecidas à compreensão das bênçãos divinas.
É por isso que muitos homens, em momentos de repouso, são por vezes assaltados de ideias súbitas de trabalhos inesperados.
Criaturas e coisas enchem-lhes a visão interna, requisitando actividade mais intensa.
É que por aí, ao redor da mente em descanso, começam a operar os irmãos de Benvinda, a fim de que a preguiça não lhes aniquile a oportunidade, qual aconteceu a eles mesmos.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:12 am

29 - O DIAGNÓSTICO
Antes da reunião, Tomé Colavida imprimiu a carícia habitual aos bigodes longos, fisgou a médium Dona Eulália com um olhar de prevenção e dirigiu-se ao orientador dos trabalhos, atenciosamente:
- Senhor Martinho, vejamos o caso de meu diagnóstico.
Iniciados os serviços psicográficos, espero que o receitista me não falte com os esclarecimentos técnicos, relativamente aos meus males orgânicos.
Imagine o senhor que já visitei diversos agrupamentos sem resultado satisfatório.
- Não obteve definições precisas? - indagou o bondoso director da reunião, demonstrando fraternal interesse.
- Nunca. Frequentemente, recebo mensagens de Acácio, amorosa entidade que se afirma amigo de outras eras; todavia, suas elucidações não me satisfazem.
E vivo desalentado, aflito.
Desde muito, permaneço arredio da Medicina.
Meu sobrinho Sinfrónio, clínico de renome, aconselhou-me exames detalhadas.
Entretanto, perambulei em vão, através de laboratórios, por mais de dois anos e, de alguns meses para cá, vivo interessado no Espiritismo, procurando, porém, inutilmente, a solução do meu caso, pelas salas mediúnicas.
- Mas, não terá obtido conselhos, receituário, indicações? - inquiriu Martinho, emocionado.
- Sim - esclareceu o doente -, semelhantes recursos não me têm faltado; contudo, que me vale o roteiro sem nomenclatura?
Necessito obter o diagnóstico de minha verdadeira situação.
Creio não andaria bem avisado se usasse remédios, ignorando quais os sofrimentos físicos.
Preciso esclarecimentos exactos, directrizes francas.
Apesar, porém, de minha insistência, os Espíritos nunca traçaram o diagnóstico desejado.
Aconselham-me, atendendo talvez a minha ansiedade, com a panaceia das boas palavras.
Entretanto, isto não serve ao meu temperamento amigo da verdade.
Martinho sorriu paciente e obtemperou:
- Em todas as coisas, meu amigo, há que considerar os desígnios providenciais de Deus.
- Mas não estou contra Deus - objectou o doente, numa expressão de superioridade.
Se é que os desencarnados vêem nossa máquina orgânica, externa e internamente, por que semelhante esquivança aos meus pedidos reiterados?
Sabem acima dos médicos, enxergam mais que os raios X, auscultam além da epiderme.
Donos de tamanhas possibilidades, por que a negação de algumas palavras que me aclarem as dúvidas?
Medicar-se alguém, sem o conhecimento da própria situação, constitui grave perigo.
Simples receituário não satisfaz ao homem observador e inteligente.
O orientador da reunião não quis alimentar a palestra e permaneceu em silêncio, convidando, em seguida, os presentes à oração habitual.
Terminados os trabalhos, a folha de papel que relacionava o nome de Colavida não exibia coisa alguma, além de certas indicações para tratamento.
Nada de explicações técnicas, nada de terminologia científica.
- E o diagnóstico? - perguntou o enfermo, desapontado, fitando a médium, entre a desconfiança e a censura.
- Não recebi qualquer observação, neste sentido murmurou Dona Eulália, humilde e tímida.
- Ora, ora, Sr. Martinho - disse Tomé ao director dos trabalhos - às vezes chego a pensar que este movimento de comunicações com o outro mundo não passa de grosseira mistificação.
Peço definições médicas e respondem-me com apontamentos de alimentação e nomes de tinturas!
Aonde iremos com isso?
Depois de mirar Dona Zulália, de alto a baixo, com ares de zombaria, perguntou:
- Quem receita por seu intermédio?
- É o Dr. João Crisóstomo de Toledo, que foi antigo médico nestes sítios.
Tomé riu, sarcástico, e acrescentou:
- Parece que ele anda desmemoriado e completamente alheio à Medicina.
Este Espírito deve ser um espertalhão.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:12 am

A esta altura, Martinho adiantou-se:
- Mas, Sr. Colavida, nesta casa não temos o direito de insultar benfeitores.
Não somente os Espíritos amigos, mas também Dona Eulália não nos pedem retribuição alguma.
Os mentores espirituais, certamente, sacrificam-se bastante, vindo até nós, e a médium abandona sagradas obrigações domésticas para atender aos nossos apelos.
Não desconheço as nossas deficiências e admito que a nossa tarefa esteja repleta de falhas e erros que a experiência corrigirá; mas, seria justo acusar de embusteiros os que se devotam ao trabalho, com amor e renunciação?
Tomé percebeu o terreno falso em que se colocara, pedindo desculpas, invocou o famoso subconsciente e rogou fosse admitido à próxima sessão, recebendo as melhores expressões de fraternidade por parte dos companheiros ali reunidos.
Na semana seguinte, repetiram-se os mesmos comentários, com a teimosia renitente de Colavida, a boa-vontade de Martinho e a natural timidez de Dona Eulália.
O enfermo estava ansioso.
Solicitava pareceres do médico desencarnado, emitia observações técnicas e, por último, pedia, se possível, o comparecimento de Acácio, o amigo invisível, para maior esclarecimento da situação.
Findos os trabalhos da noite, verificou-se que João Crisóstomo lançara no papel as mesmas recomendações anteriores, sem omitir uma vírgula.
Nada de nomear a enfermidade do consulente.
Acácio, contudo, escrevera-lhe mensagem ponderada e afectuosa.
- « Meu irmão - dizia ele, revelando intimidade e carinho -, não aguardes um diagnóstico que nos seria difícil fornecer.
Vale-te da cooperação do amigo espiritual que te ministrou indicações tão úteis e procura pô-las em prática.
Por que impor condições aos que te beneficiam?
O grande problema não é o de receberes uma frase complicada, à guisa de definição, mas sim buscares a restauração das tuas energias, cheio de boa-vontade.
O diagnóstico, Tomé, nem sempre pode ser perfeito e nem sempre se ajusta às finalidades da renovação orgânica.
O corpo do homem é uma usina de forças vivas, cujos movimentos se repetem no tocante ao conjunto, mas que nunca se reproduzem na esfera dos detalhes.
As dores de cabeça são idênticas nas sensações que proporcionam, mas quase sempre desiguais nas origens.
Como te oferecer um diagnóstico exacto, se amanhã sensíveis modificações podem ocorrer em tuas células mais íntimas?
Não te furtes ao benefício, apenas porque não podes impressionar os olhos mortais com meia dúzia de termos indecifráveis.
Trata-te, meu amigo! o tempo é precioso.
Cuida da maquinaria física, aceita a bondade do Eterno Pai, sem cristalizar o pensamento nas normas secundárias da ciência terrestre.
Lembra que te amamos intensamente e desejamos teu bem-estar.»
Leu Colavida a mensagem afectuosa, volvendo irritadiço:
- Afinal, estou sem compreender coisa alguma.
Sinto-me doente, cansado, peço esclarecimentos que satisfaçam e os invisíveis me dirigem exortações?!
E, fixando o olhar na médium, rematava:
- Francamente, minha decepção é sem limites.
Martinho, na fé serena que lhe assinalava as atitudes, ajuntou tranquilo:
- É o que merecemos, meu amigo.
Desejávamos receber o diagnóstico, mas...
Tomé coçou nervosamente a cabeça e cortou-lhe a palavra:
- Nada de reticências.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 9:12 am

Presenciamos verdadeiros fracassos.
O que lastimo é o tempo perdido a procurar elucidações, quando me asseveravam que o Espiritismo é fonte de verdade.
Onde a franqueza nestas farsas em que venho pondo minhas melhores esperanças?
Em todos os Grupos, apenas encontrei material incompleto, entre médiuns supostamente humildes e doutrinadores pretensamente inspirados.
Estou farto.
Não vim procurar consolações, mas informes necessários.
Estes Espíritos, contudo, devem andar lá no Alto à maneira dos asnos cá em baixo.
Em toda parte é dissimulação, ignorância, fanatismo.
Solicito diagnóstico e lançam-me recomendações estranhas a todo conhecimento de posologia.
Abandonarei minha experiência, convencido de que Espiritismo e mediunidade são duas tolices mundiais.
Os companheiros já se haviam retirado.
Apenas Martinho e Dona Eulália permaneciam ali, suportando heroicamente a neurastenia do enfermo malcriado.
Reconhecendo-lhe a irritação, dispunham-se ambos a abandonar o recinto, em silêncio, quando, ao primeiro gesto de despedida, Tomé procurou retê-los ansiosamente :
- Por quem são! ajudem-me!...
Não desejo sair, experimentando tamanha impressão de abatimento moral.
Quero a verdade, senhor Martinho.
Auxilie-me na consecução deste propósito.
A falta do diagnóstico desejado acabrunha-me.
Sinto que tudo é mentira em torno de meus passos.
E depois de fixar a médium, ansiosamente, concluiu:
Dona Eulália, se esses Espíritos que a senhora diz ouvir e ver são personalidades reais, por que razão me negam a verdade?
Agora que estamos a sós, atendam-me por amor de Deus.
Peçamos directamente aos invisíveis que se manifestem e me esclareçam.
Havia tamanha emoção naquelas palavras, que Martinho e a médium se entreolharam penalizados.
À interpelação silenciosa do director das sessões, a nobre senhora respondeu bondosamente:
- Estou pronta.
Sentaram-se os três.
O orientador orou com lágrimas, invocando a Providência Divina.
Foi então que o amigo espiritual, por intermédio de Dona Zulália, falou em voz triste, mas firme:
- Tomé, em vão temos procurado auxiliar-te na cura.
Atende ao teu caso orgânico, enquanto é tempo, porque teu corpo está dominado pela morfeia nervosa.
Colavida fez-se pálido e esforçou-se por não cair, ali mesmo, fulminado pelo diagnóstico doloroso.
Suspenderam-se as preces, sob forte emoção.
No dia imediato, o doente atormentado procurou gabinetes de pesquisas e especialistas em moléstias do sangue, obtendo a confirmação amarga.
À noite, insistiu para que Martinho e Dona Eulália se reunissem na sua companhia.
Estava desfigurado, em pranto.
Terminada a prece do director da reduzida assembleia, o enfermo exclamou soluçando:
- Oh! benfeitores invisíveis, por quem sois, auxiliai-me no destino cruel!
Que surpresa dolorosa me preparastes, dando-me conhecimento da realidade
terrível!...
Mas, nesse instante, a generosa entidade de Acácio tomou o punho da médium e escreveu:
« Conforma-te, meu querido Tomé!
Não queria a verdade completa, o diagnóstico aproximado de tua situação orgânica?
Não chores.
Lembra-te de que Jesus é o Divino Médico e não esqueças que, se tens agora a lepra do mundo, não estás esquecido pela bondade de Deus.»
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:20 am

30 – MANIA DE ENFERMIDADE
- Vamos Luísa! - exclamava Inácio Penaranda, dirigindo-se à esposa afectuosamente - creio estimarás o tema evangélico desta noite.
Prometem-nos valiosas conclusões, relativamente à mediunidade e seu exercício.
Ao que suponho, os esclarecimentos apresentarão singular interesse para nós ambos.
Luísa apoiou o rosto na mão direita, num gesto muito seu, e disse com enfado:
- Ora, Inácio, achas que posso cometer a imprudência de enfrentar a noite chuvosa?
E a minha nevralgia?
A gripe do Carlos e o reumatismo de mamãe?
Não teria ouvido para as lições a que te referes.
Francamente, não posso compreender tuas boas disposições invariáveis.
Inácio aprimorava o nó da gravata e respondia:
- Compreendo os teus cuidados, mas devo lembrar que há três anos te esquivas à minha companhia.
Naturalmente, devo ser o primeiro a encarecer tuas virtudes de filha e mãe; creio, porém, que exageras o sentido das enfermidades.
Em vão procura interessar-te nos problemas da fé, inutilmente busco inclinar-te a mente para os problemas mais nobres da vida.
Não sabes falar senão de doenças, insânias, ventosas, injecções e comprimidos.
Vives quase esmagada por expectativas angustiosas.
A chuva aborrece-te, o frio te atormenta, o vento leve te atemoriza.
Tudo isso é de lamentar, porque nossa casa não se formou no pântano da ignorância, mas nos alicerces de conhecimentos sólidos.
Nossa fé consagra a iluminação íntima como património mais precioso do mundo.
Porque, então, viver assim, descrente de Deus e de ti mesma?
A Srª Penaranda esboçou um gesto de sensibilidade ofendida e redarguiu chorando:
- Sempre as mesmas exortações ásperas!
Quando me poderás compreender?
Sabe Deus minhas lutas, meus esforços para reaver a saúde perdida!...
- Certamente, Deus não desconhece nossos trabalhos, mas também não poderia aplaudir nossas inquietações injustificadas.
Dona Luísa cravou os olhos no companheiro, extremamente excitada, e bradou:
- Céus! Que infelicidade a minha!
Que mágoa irremediável!
Estou só, ninguém me compreende.
Valha-me Nosso Senhor Jesus - Cristo!...
Após dirigir-lhe um olhar de piedade, o marido despedia-se:
- Não precisas aumentar a lamentação. Até logo.
A companheira torcia as mãos, desconsolada; todavia, escoados alguns minutos, correu à porta de saída a gritar:
- Inácio! Inácio!
Ele voltou a indagar os motivos do chamamento.
- A capa! - explicava a dona da casa, ansiosamente.
Esqueceste a capa...
Lembra-te de que me sinto aniquilada.
Não queiras também arruinar a saúde.
Inácio, resignado, vestiu o capote impermeável e saiu calmamente.
Aquela mania da Srª. Penaranda, contudo, era muito velha.
Dona Luísa não enxergava senão miasmas e pestilências por todos os lados.
Embora as dores que cultivava, grande parte do dia era por ela empregado em esfregar metodicamente o assoalho, receosa do acúmulo de pó.
Nunca permitia que o filho se levantasse da cama antes que o Sol inundasse as dependências da casa; trazia a velha genitora quase totalmente enfaixada num quarto escuro, rodeada de unguentos e caixas de injecções, e para si mesma descobria diariamente os mais extravagantes sintomas.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:21 am

Referia-se a dores nos braços, nas pernas, no rosto.
Dizia-se vitima de todos os sofrimentos físicos.
A imaginação enfermiça engendrava moléstias nas mais ínfimas sensações e, na residência dos Penaranda, nos fins de mês, as contas da farmácia superavam todas as demais despesas reunidas.
Debalde o marido lhe oferecera as luzes do Espiritismo cristão, ansioso por modificar-lhe as disposições mentais.
Dona Luísa furtava-se às observações mais sérias e não sabia viver senão entre sustos, pavores e preocupações.
Raro o dia em que, ao voltar dos serviços habituais, o companheiro não a encontrava afogada em grosso costume de lã, hermeticamente encafuada na alcova, a lamentar o vento, a humidade, a nuvem...
De quando em quando, valia-se Inácio de oportunidades da conversação comum, tentando incutir ideias novas no espírito da companheira, de modo a criar-lhe ambiente diverso.
A teimosa senhora não se resignava a omitir comentários a doenças de toda sorte.
Quando a situação doméstica se tornou mais grave, o chefe da família não se conteve e intimou a esposa a ocupar-se de assuntos mais elevados, compelindo-a a examinar nobres problemas espirituais e a ouvir prelecções evangélicas em sua companhia.
Dona Luísa atendeu, porém constrangidamente, a queixar-se amargurada.
No curso das reuniões a que compareceu forçada pelo marido, causava compaixão a quantos lhe ouviam a palavra lamentosa.
A infeliz criatura não andava; arrastava-se.
Suas considerações sobre a vida eram acompanhadas de suspiros comovedores, como se a sua palestra não devesse passar de gemidos longos.
Não ouvia as dissertações construtivas nem participava das orações no ambiente geral.
Apenas prestava atenção às consolações de Salatiel, o amorável benfeitor invisível que comparecia a quase todas as reuniões.
À maneira de criança viciada a receber carinhos, cheia de noção exclusivista, Dona Luísa agarrava-se às expressões de conforto, completamente alheia aos apelos de ordem espiritual.
Parecia, contudo, tão esmagada de padecimentos físicos, que a Srª. Marcondes, devotada médium do Grupo, se ofereceu voluntariamente a levar-lhe socorros espirituais na própria residência.
A família Penaranda aceitou, sumamente reconhecida.
Enquanto Inácio examinava a possibilidade da renovação mental da esposa, antegozava Dona Luísa o momento em que pudesse conversar com o Espírito Salatiel, quase a sós, para comentar as enfermidades numerosas que lhe invadiam o corpo e lhe assaltavam o lar.
Começaram os trabalhos de assistência, em círculo muito íntimo.
O dono da casa não cabia em si de esperança e contentamento.
Na primeira noite de orações, Salatiel discorreu sobre a Providência do Eterno Pai e as divinas possibilidades da criatura.
O verbo amoroso e sábio da venerável entidade extravasava luz de esclarecimento e mel de sabedoria.
Mas, com enorme surpresa dos presentes, fenda a prelecção, Dona Luísa adiantou-se, interpelando o instrutor invisível:
- Meu caro protector, antes de vos retirardes gostaria de vos ouvir sobre as dores que venho sentindo no braço esquerdo.
Depois de prolongado silêncio, o amigo espiritual, como o homem educado a atender uma criança, respondeu qualquer coisa que a induzia à confiança no Poder Divino.
A consulente não se deu por satisfeita e pediu explicações para a comichão que sentia nos pés; também sobre o abatimento do filhinho e um exame dos órgãos de sua velha mãe.
Sentindo-se crivado de interrogações inoportunas, o benfeitor invisível prometeu alongar-se convenientemente no assunto, na reunião da semana seguinte.
Com efeito, na sessão imediata, compareceu Salatiel e endereçou significativa mensagem à Srª. Penaranda.
- Minha irmã - dizia ele solicitamente -, não construas cárcere mental para as tuas possibilidades criadoras na vida.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:21 am

É razoável que o doente procure remédio, como o sedento se encaminha à fonte amiga que lhe desaltera a sede.
Não envenenes, porém, os teus dias no mundo com a ideia de enfermidades.
Por que esperar a saúde completa, num plano de material imperfeito como a Terra?
Se o planeta é, reconhecidamente, uma escola, é justo não possa constituir morada exclusiva de educadores.
Se a reencarnação é desgaste de arestas, como aguardar expressão de pureza absoluta nos elementos em atrito?
O corpo humano é campo de forças vivas.
Milhões de indivíduos celulares ai se agitam, à moda dos homens nas colónias e cidades tumultuosas.
Há contínuos serviços renovadores na assimilação e desassimilação.
Se isto é inevitável, como aguardar perfeita harmonia orgânica na máquina celular desmontável e perecível?
Lembra-te de que esse laboratório corporal, transformável e provisório, é o templo onde poderás adquirir a saúde eterna do Espírito.
Andaria acertado o crente que se deixasse deter voluntariamente no lodo que recobre as paredes da sua casa de oração, indiferente à intimidade sublime e profunda do santuário?
É justo que as figurações externas requisitem a nossa atenção, mas não podemos esquecer o essencial, o imperecível e o melhor.
Pondera minhas despretensiosas palavras e liberta a mente encarcerada nas sombras transitórias, recordando o ensinamento de Jesus quando asseverou que nosso tesouro estará sempre onde colocarmos o coração.
Dona Luísa, porém, continuou impermeável às admoestações nobres e elevadas.
Não valeram conselhos de Salatiel, com amorosas interpretações do marido e dos irmãos na fé.
Os anos agravaram-lhe preocupações e manias, até que a morte do corpo se encarregou de atirá-la a novas experiências.
Qual não lhe foi, porém, a surpresa dolorosa ao ver-se sozinha, abandonada, sem ninguém?!
Guardava a nítida convicção de haver transposto o limiar do sepulcro, mas continuava prostrada, experimentando vertigens, dores, comichões.
Tomada de pavor, observava os pés e mãos singularmente inchados, a epiderme manchada de notas gangrenosas dos derradeiros dias na Terra.
Orava, e contudo as suas orações pareciam sem eco espiritual.
Quanto tempo durou esse martírio?
Luísa Penaranda não poderia responder.
Chegou, no entanto, o dia em que pôde lobrigar o vulto de Salatiel, depois de muitas lágrimas.
- Oh! venerável amigo! - exclamou a desencarnada, agarrando-lhe as mãos - por que semelhantes sofrimentos?
Não é certo que deixei a experiência terrestre?
Não ouvi muitas vezes que a morte é libertação?
Enquanto o generoso emissário a contemplava, compadecido, a infeliz continuava:
- Onde a justiça de Deus que eu esperava?
Nunca fui má para os outros...
A essa altura, o benfeitor espiritual tomou a palavra e esclareceu:
- Sim, Luísa, nunca foste má para os outros, mas foste cruel contigo mesma.
Não sabes que toda libertação ou escravização podem começar na Terra ou nos círculos invisíveis?
Sepulcro é mudança de casa, nunca de situação espiritual.
A morte do corpo não elimina o campo que plantamos.
Aliás, é a sua mão que nos oferece a colheita.
Preferiste a ideia de enfermidade, cultivaste-a, alentaste-a.
É natural que teu campo aqui seja o da enfermidade.
Não existe outro para quem, como tu, não quis pensar noutra coisa.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:21 am

E, ante o olhar assombrado da infeliz, Salatiel rematava:
- Existe o Reino de Deus que aguarda a glorificação de todas as criaturas, e existem os reinos do «eu», onde nos internamos pelas criações do próprio capricho.
Abandonemos os reinos inferiores das nossas ilusões, minha boa amiga!
Procuremos o Reino de Deus, infinito e eterno!...
A Srª. Penaranda sentiu arfar-lhe o peito, alucinada de esperanças novas.
- Leva-me contigo, generoso Salatiel!
Livra-me destes dolorosos padecimentos!...
Ensina-me o caminho da Liberdade!...
O mensageiro lançou-lhe um olhar fraterno e, fazendo menção de retirar-se, acentuou:
- Posso, como outrora, convidar-te, não, porém, arrastar-te.
O problema pertence ao teu foro individual.
O trabalho é do teu campo.
Arranca-lhe a erva daninha e semeia-o de novo.
Vem connosco, Luísa. Ajuda-te.
Se te sentes verdadeiramente cansada da escravidão em que tens vivido, recorda que para a libertação do Espírito todo minuto é tempo de começar.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:22 am

31 - O DOUTRINADOR RIGORISTA
Palavra vigorosa e inflamada, o pregador espiritista alongava-se na exposição de sempre:
- Nunca haverá acordo entre o mundo e nós outros.
Fujamos desta Babilónia incendiada, onde a perdição corrompe o carácter e perverte as melhores energias.
Neste pântano terrível, as víboras peçonhentas do crime rastejam em todas as direcções.
Salvaguardemo-nos, à distância, das sombras densas do pecado.
Observai o abismo sob vossos pés! Trevas por todos os lados...
Nas mais ínfimas estradas, a visão invariável de poeira e lama, pedras e espinhos, desencoraja o viajor anteriormente dominado de idealismo e esperança.
Revelemos nossa repugnância, diante do mundo criminoso e perdido.
Recordemos os santos magnânimos que iluminaram o quadro das civilizações, nos dias mais escuros.
Todos eles fugiram ao Planeta perverso!
É que, neste lamaçal imenso, as melhores aspirações do Espírito se perdem na borrasca do mal, longe de Deus!...
Macário Barroso era, assim, rigorista e implacável.
Dirigindo considerável agrupamento espiritista, sua atitude desconcertante alcançava a comunidade inteira, dilatando preocupações e tristezas e fazendo escassear alegrias.
As jovens colaboradoras, nos seus trabalhos de difusão doutrinária, não deveriam manifestar os júbilos próprios da mocidade cheia de sonhos e as gargalhadas infantis, chilreios de pássaros felizes nos galhos fartos da vida, considerados por Macário como impulsos inconvenientes da meninice, requisitando repreensões ásperas.
- Não concordo com traço algum que nos recorde as perdições do mundo.
Simplifiquemos tudo, combatamos a falsidade de certos princípios que escancaram a porta aos pecados miseráveis.
Não reconhecia, porém, o orientador, que simplicidade não significa violência, e que os enganos de concepção tanto podem permanecer naquele que se atira à irreflexão, como no homem que deseja amadurecer o fruto quando a fronde verde apenas oferece flores tenras.
Macário, todavia, apresentava fenómeno singular.
Extremista de opinião, impressionava favoravelmente a quantos lhe ouvissem pareceres, porque, no fundo, era homem devotado e sincero.
Não concedia a si mesmo nenhum entretenimento, nenhum prazer.
Sacrificara-se quase totalmente aos princípios de que se tornara emérito pregador.
Revelava gestos de profunda nobreza aos companheiros na fé, e a sinceridade é sempre sedutora, onde quer que permaneça.
Por isso mesmo, a psicologia de sua individualidade brilhante apresentava situações de enorme complexidade.
É que o prestigioso orientador não sabia identificar as necessidades alheias senão através dos prismas que lhe eram peculiares.
No seu modo de observar, todos os casos deveriam estar afinados pelas características do que lhe era próprio.
Porque guardava escabrosas impressões do passado individual, em virtude de experiências cruéis na luta humana, criara padrão exclusivo e erróneo para julgar os outros.
Pintava a negro qualquer paisagem do mundo, condenava seu tempo, não tolerava os amigos que se decidissem ao trabalho da colectividade em ambientes até agora estranhos à expressão religiosa, quais a Política, a Ciência, a autoridade administrativa e o círculo das Finanças.
Compreendia à sua maneira que Jesus não poderia partilhar trabalhos diferentes da actividade puramente mística em si mesma, e se algum companheiro manifestava propósitos de cooperar nesses sectores, Macário exibia profunda admiração e observava;
- Não concordo. Semelhante atitude é o escândalo da volta ao mundo, que deveremos detestar.
Se, em plena rua, alguém lhe mostrasse uma casa de desporto ou algum recanto de alegria popular, Barroso afastava-se intencionalmente, baixava os olhos e tornava outro rumo, esclarecendo:
- São remanescentes de Sodoma e Gomorra, redutos do crime, que o fogo consumirá algum dia.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:22 am

Furtava-se deliberadamente a toda palestra em que houvesse preocupação, embora correta, pelos problemas da vida social, e fugia à conversação onde o bom humor estivesse amenizando as agruras do caminho comum dos homens.
Apesar de bondoso e sincero, isolou-se aos poucos, afastando-se de amigos, de companheiros e de afeições.
Cheio de preocupações salvacionistas, era sempre fecundo em apelos, conselhos e advertências, onde quer que estivesse, sem a necessária selecção de valores, lugares e situações.
O que definia, no entanto, como intenção regeneradora, não era mais que a imposição das ideias próprias, com o esquecimento de que, para beneficiar com proveito, deveria dirigir-se à esfera mental de cada um dos irmãos na luta, sem obrigá-los a procurar o plano em que se mantinha.
Debalde a carinhosa mãe lhe observou os perigos da situação.
Inutilmente os amigos solicitaram-no à transformação precisa.
Macário foi implacável.
Preferiu a solidão, a necessidade, o abandono.
Declarava-se amedrontado do mundo, onde a bagagem de seus erros se tornara volumosa e exigia que todos os companheiros exteriorizassem receios iguais aos dele.
Via monstros em todos os recantos, perversão nas alegrias mais inocentes.
E foi assim, rígido e inflexível, sem ceder absolutamente a ninguém, que o bondoso doutrinador regressou à esfera espiritual.
Desprendera-se da zona carnal, quase sozinho, como preferira viver, no radicalismo dos princípios pessoais.
Muita gente passou a catalogá-lo na relação dos santos, tais os supostos sacrifícios que Barroso revelara na existência terrestre, os quais, na realidade, não passavam de imposições de sua personalidade intransigente.
Todavia, enquanto reduzido grupo erigia ao desencarnado um mundo de homenagens, o doutrinador passou às surpresas inesperadas na esfera diferente de acção.
Fundamente desapontado, não encontrou a paisagem que aguardava.
Achou-se sem ninguém, exclusivamente sozinho.
Que região era aquela constituída de montanha gelada?
Contemplava a distância os vales que a neblina convertia em quadros cinzentos e indefiníveis.
Frio cortante dilacerava-lhe o coração.
Como interpretar a novidade constrangedora?
O pobre amigo chorou amargamente, implorando elucidações da Providência Divina.
Não fora combatente implacável dos erros e mentiras de seu ambiente e de sua época?
Decorrido muito tempo na expectativa dolorosa, foi visitado por benevolente emissário que lhe estendeu auxílios carinhosas.
- Ah! meu amigo! que fiz por merecer tamanhas flagelações? - perguntou Macário, após agradecer-lhe a presença amorosa - cumpri meus deveres, não olvidei obrigações assumidas...
O mensageiro contemplou-o afectuosamente e falou, tomando-lhe as mãos num gesto paternal:
- Ó meu filho, quanto lastimo o teu desentendimento.
Não posso negar-te o esforço e a boa vontade, entretanto...
- A que incompreensão vos referis? - interrogou o ex-doutrinador conturbado - acaso não me afastei do mundo para servir a Deus?
A bondosa entidade fixou um gesto significativo e esclareceu:
- Esta simples afirmativa demonstra o teu engano fatal.
Como poderia o servo atender ao senhor que lhe contratou a actividade, abandonando a zona de serviço confiada ao seu esforço?
Reconhecendo a Terra integrada na criação de Deus, como cumprir os desígnios do Pai, fugindo-lhe aos serviços?
Enquanto Macário denunciava intraduzível angústia no pranto que lhe borbulhava dos olhos, o amigo continuava:
- Muitas vezes procurei restituir-te o coração ao verdadeiro caminho, falando-te através de familiares e amigos prudentes, mas cristalizaste os raciocínios, cerrando as portas do plano mental aos meus apelos.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:22 am

- É que o mundo sempre me pareceu insondável abismo, de crimes sem conta... nunca pude contemplá-lo sem mágoa e condenação - exprimiu-se o recém-desencarnado, lacrimoso.
- Procedeste qual homem tirânico que intenta violentar quantos lhe cruzam os caminhos, obrigando-os a partilhar o resgate das dividas que lhe são próprias.
Por estares endividado com a Terra, pretendeste doutrinar orgulhosamente, impondo aos outros inquietações e pesares que te pertencem ainda.
Porque tamanha aversão à escola benfeitora?
Acaso, meu filho, não te alimentavas do mundo, não te vestias dele?
Não foi o mundo que te ministrou os primeiros conhecimentos, que te proporcionou a bênção do corpo, a possibilidade de renovação individual, o reencontro de afeições divinas?
Desejarias insultar a Terra, porque te concedeu a dedicação dos pais, o templo da reencarnação, a tepidez do lar, o olhar amigo dos que te amam?
Recebeste com abundância as inspirações de ordem superior, mas preferiste a solidão com a teimosia de quem não sabe renunciar aos caprichos próprios.
Pregaste a palavra em nome de Jesus, convocando os ouvintes a receberem imposições, olvidando que o Mestre Divino não esperou pelas criaturas, na esfera de sua glória, mas veio até nós, ajudando-nos a cada um.
Valendo-se da pausa intencional que o mensageiro imprimira à alocução, clamou Barroso, desalentado:
- Amedrontavam-me os antros de perdição!...
- Por que pavor e não piedade? - inquiriu o sábio, serenamente.
Não te interessavas pelos enfermos do corpo?
Como desprezar cheio de asco injusto os doentes da alma?
Não te aproximavas carinhosamente dos mutilados físicos?
Por que a repugnância para com os aleijados espirituais?
Não há lugares desprezíveis para o cristão fiel, porque, em toda parte, é possível praticar o bem com Jesus.
Macário, muito triste, arregalava os olhos.
Começara a entender a amarga situação.
Tentando, porém, a derradeira justificativa, exclamou:
- Seduzia-me a lembrança dos santos...
No entanto, antes que se alongasse em considerações novas, o mensageiro acrescentou:
- Não conheces, todavia, os santos de Júpiter ou Saturno.
Tens notícias apenas dos que se glorificaram na Terra.
Forçoso, pois, é reconhecer que, do mundo que detestaste, saíram os Simão Pedro e os Paulo de Tarso que tanto admiras.
Deste modo, claro está que o mundo somente será perverso para quem o fixe nutrindo intenções ou reminiscências dessa natureza.
Macário Barroso experimentou tremendo choque. Entendera, enfim, o equívoco ruinoso de suas antigas concepções, caindo em amargurado silêncio.
Daí a instantes, o emissário endereçava-lhe um gesto de adeus.
- Oh! amado benfeitor! - suplicou o infeliz, banhado em lágrimas - por quanto tempo ficarei aqui, abandonado neste monte gelado?
- Esta montanha - esclareceu a generosa entidade - deve representar profundo símbolo ao teu coração.
Não basta subir ao tope da cultura e do conhecimento intelectual; é preciso que haja sol de compreensão e amor que ilumine e aqueça a culminância.
Emocionado, Barroso suplicou ainda:
- Abençoado amigo, mensageiro do Altíssimo, ensinai-me a reparar meus erros, para redenção de minha pobre alma!
Auxiliai-me, não me negueis vossas mãos!...
O benfeitor, prestes a partir, dirigiu-lhe significativo olhar e acrescentou:
- Tens bastante conhecimento para compreender a magnanimidade de Nosso Pai.
Tua questão, Macário, é com o mundo.
Antigamente erraste, enlameando-lhe as estradas; presentemente renovaste o erro, fugindo-lhe aos serviços.
Não tenho outro conselho para teu coração além da fórmula de procurares o credor e conhecer a própria conta.
Quanto ao mais, meu irmão, confia na bondade do mundo e que Deus te conceda acréscimo de misericórdia no resgate justo.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:22 am

32 - A CRENTE INTERESSADA
Dona Marcela Fonseca vivia os últimos instantes na Terra.
Não obstante a gravidade do seu estado orgânico, a agonizante mantinha singular lucidez e dirigia-se à família, com voz comovedora:
- A confiança em Deus não me abandonará...
A Celeste Misericórdia nunca desatendeu minhas rogativas...
O Mestre Divino estará comigo na transição dolorosa...
Alguns parentes choravam, em tom discreto, buscando, em vão, reter as lágrimas, no amarguroso adeus.
- Não chorem, meus amigos - consolava-os Dona Marcela - o Espírito de minha mãe, que tantas vezes há socorrido minh'alma, há-de estender-me os braços generosos!...
Há mais de trinta dias, sofro neste leito pesado de tormentos físicos.
Que representa a morte senão a desejada bênção para mim, que estou ansiosa de liberdade e de novos mundos?!...
Se me for permitido, voltarei muito breve a confortá-los.
Não esquecerei os companheiros em tarefas porvindouras.
Creio que a morte não me oferecerá dilacerações, além da saudade natural, por motivo do afastamento...
Sempre guardei minha crença em Deus, não só na qualidade de católica e protestante, como também no que se refere ao Espiritismo, que abracei tomada de sincera confiança... com o mesmo fervor de minha assistência às missas e cultos evangélicos, dei-me às nossas sessões esperando assim que nada me falte nos caminhos do Além...
Devemos aguardar as esferas felizes, os mundos de repouso e redenção!...
Os familiares presentes choravam comovidíssimos.
Dona Marcela calou-se.
Depois de longos minutos de meditação, pediu fossem recitadas súplicas à Providência Divina, acompanhando-as em silêncio.
Suor gelado banhava-lhe o corpo emagrecido e, pouco a pouco, perceberam os circunstantes que a agonizante exalava os últimos suspiros.
Qual sucede na maioria dos casos, portas a dentro da sociedade comum, a câmara mortuária transformou-se imediatamente em zona de prantos angustiosos, onde os que não choravam se referiam em voz alta às virtudes da morta, e, em surdina, aos seus defeitos.
A desencarnada, contudo, não mais permanecia no ambiente de velhos desentendimentos e reiteradas dissimulações.
Sentira-se bafejada por sono caricioso e leve, após a crise orgânica destruidora.
Branda sensação de repouso adormentara-lhe o coração.
Sem poder, todavia, explicar quanto durara aquele estado de tranquilidade espiritual, Dona Marcela despertou num leito muito limpo, mas extremamente desguarnecido de conforto.
A seu lado, uma velhinha carinhosa abraçava-a, chorando de júbilo, a exclamar:
- Até que enfim, querida filha!
Marcela, minha adorada Marcela, que saudades do teu convívio!...
A filha correspondeu às manifestações afectivas, porém, depois de fixar detidamente a paisagem nova, não disfarçou o desapontamento que lhe dominava o espírito voluntarioso.
Já não era a mesma criatura, que revelava tamanha humildade na agonia corporal.
Estava agora sem o influxo das dores.
Experimentava plena liberdade para respirar e mover-se.
Não mais o suor incómodo, nem a martirizante dispneia a lhe torturarem o organismo.
Não mais a agonizante vencida, mas a Dona Marcela da estrada comum, atrabiliária, exigente, insatisfeita.
Embora o impulso natural de prosseguir beijando a carinhosa mãezinha, não sopitou o orgulho ferido e perguntou:
- Mamãe, explique-me.
Por que permanece nesses trajes?
Que significa esta choupana sem conforto?
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:23 am

Que região de vida é esta, onde a vejo tão fortemente desamparada?
Será crível que seja este o seu lugar?
Não foi uma crente sincera, no curso das experiências terrestres?
A velhinha, com o olhar sereno de quem não mais teme a verdade, acentuou resignada:
- Estamos no mundo de nossas próprias criações mentais, minha filha.
Segundo nossas reminiscências, fui católica fundamente arraigada aos meus velhos princípios; contudo, não podes negar minha antiga preocupação de descansar nos esforços alheios.
Recordas como torturava os servidores de nossa casa?
Lembras minha tirania no lar, nos serviços de teu pai, nos atas da igreja?
Quando acordei aqui, meus sofrimentos foram ilimitados, pois minhas criações individuais eram péssimas.
As feras da inquietação, do remorso e do egoísmo observavam-me de todos os lados.
Foi quando, então, roguei a Deus me permitisse destruir os trabalhos imperfeitos, para reconstruir conscientemente de novo.
E aqui me tens.
Tudo pobre, humilde, desvalioso, mas para mim que já desacertei demasiadamente, ferindo o próximo e desprezando as coisas sagradas, esta choupana paupérrima é a bênção do Pai, no recomeço de santas experiências.
A recém-desencarnada contemplou a escassez dos objectos de serviço, fixou a miserabilidade das peças expostas, arregalou os olhos e exclamou :
- Meu Deus! quantas situações estranhas!
Mamãe, sempre a julguei nas esferas felizes!...
- Esses planos começam em nós mesmos - retrucou a genitora, com a tranquilidade da experiência vivida.
Recordando as inúmeras manifestações religiosas a que emprestara o concurso de sua presença, a senhora Fonseca redarguiu:
- Não me conformo com a miséria a que a senhora parece andar presentemente habituada.
E o meu lugar próprio?
Visitei milhares de vezes os templos de fé, no mundo.
É impossível que esteja esquecida de nossos guias e benfeitores.
Onde estão Bernardino e Conrado, os amorosos directores espirituais de nossas reuniões?
Preciso interpelá-los relativamente à minha situação.
A velhinha bondosa sorriu e informou:
- Ambos prosseguem na abençoada faina de orientar, distribuindo benefícios; mas, as reuniões continuam na esfera do Globo e nós nos achamos em círculo diferente.
Que seria dos trabalhos terrestres, minha filha, se os servos de Deus
abandonassem suas tarefas, apenas porque uma de nós fosse chamada a nova expressão de vida?
Marcela entendeu o profundo alcance daquelas palavras e observou:
- Qualquer outra autoridade espiritual pode servir-me.
Necessito receber elucidações directas, a respeito de minha actual posição.
A velhinha carinhosa fixou na filha o olhar afectuoso e compadecido, explicando-lhe prudentemente:
- Poderei conduzir-te à presença do generoso director da nossa comunidade espiritual.
Da bondade dele, recebi permissão para buscar-te no mundo.
Creio, pois, que a sabedoria de nosso benfeitor será bastante aos esclarecimentos desejáveis.
Com efeito, na primeira oportunidade, foi Marcela conduzida por sua mãe à presença do venerável amigo.
Recebeu-as o sábio, com espontâneo carinho, o que a Srª. Fonseca interpretou como subalternidade, sentindo-se livre de manifestar as mais acerbas reclamações, a lhe explodirem da alma revoltada.
Após minuciosa e irritante exposição, concluía lamentando:
- Como sabeis, minha crença foi invariável e sincera:
Na igreja católica, no templo evangélico, como no grupo espiritual, fui assídua nas manifestações de fé e nunca alvitrei a devoção.
Não me conformo, portanto, com este abandono a que me sinto votada.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 9:23 am

O orientador solicito, que ouvira pacientemente a relação verbal da interlocutora, acentuou a essa altura:
- Não se encontra, porém, desamparada.
Autorizei sua mãe a buscá-la nas zonas inferiores, com o máximo de carinho.
- Mas a própria situação de minha genitora, a meu ver, merece reparos especiais - clamou a Srª. Fonseca, intempestivamente.
Sorriu o bondoso mentor ao verificar-lhe o nervosismo e explicou em seguida:
- Já sei. Sente-se ferida no amor à personalidade. Entretanto, talvez esteja enganada.
E, chamando um auxiliar, recomendou:
- Traga as anotações de Marcela Fonseca.
Daí a instantes, o portador reaparecia, sobraçando um livro de proporções enormes.
Curiosa e inquieta, a visitante leu o título:
- «Pensamentos, palavras e obras de Marcela Fonseca» .
- Quem escreveu esse volume? - perguntou aterrada.
- Não sabe que este livro é de sua autoria? - perguntou o mentor tranquilamente - é um trabalho de substância mental, que sua alma grafou, em cada dia e cada noite da existência terrena, pensando, falando e agindo.
A interessada não sabia disfarçar a surpresa; mas o orientador, abrindo as páginas, acrescentou:
- Não posso ler todo o livro em sua companhia.
Vejamos, porém, o resumo de suas actividades religiosas.
Fixando a mão em determinada folha, o sábio esclareceu:
- Conforme se vê, assistiu no mundo a seis mil e setecentas e cinco missas, a duas mil e quinhentas cerimónias do culto protestante e a sete mil e doze sessões espiritistas.
No entanto, é curioso notar que seu coração nunca foi a esses lugares para agradecer a Deus ou desenvolver serviços de iluminação interior, ou fora do eu circulo individual.
Seu único objectivo foi sempre pedir ou reiterar solicitações, esquecendo que o Pai colocara inúmeras possibilidades e tesouros no seu caminho.
Recitando fórmulas, cantando hinos ou concentrando-se na editarão, somente houve um propósito em sua fé - o pedido.
Mudou rotulagens, mas não transformou seu íntimo.
Ante o assombro de Marcela, o sabia continuava, delicado:
- É justo pedir; entretanto, é preciso igualmente saber receber as dádivas e distribuí-las.
A própria Natureza oferece as mais profundas lições neste sentido.
Deus dá sempre.
A fonte recebe as águas e espalha os regatos cristalinos.
A árvore alcança o benefício da seiva e produz flores e frutos.
O mar detém a corrente dos rios e faz a nuvem que fecunda a terra.
As montanhas guardam as rochas e estabelecem a segurança dos vales.
Somente os homens costumam receber sem dar coisa alguma.
Mas... - concluiu o sábio orientador - não disponho de tempo para prosseguir na leitura.
Finda esta, restituirá o volume aos arquivos da casa.
A Srª. Fonseca iniciou o serviço de recapitulação das próprias reminiscências e só terminou dai a cinco meses.
Extremamente desapontada, restituiu o livro enorme e, após encorajadora advertência do magnânimo director espiritual, explicou-se humilhada:
- Sempre fui sincera em minha crença.
- Sim, minha filha, mas a crença fiel deve ser lição viva do espírito de serviço.
Sua convicção é incontestável.
Sua ficha, contudo, é a dos crentes interessados.
Com enorme tristeza a lhe transparecer dos olhos, a recém-desencarnada começou a chorar.
O dedicado mentor abraçou-a e disse paternalmente:
- Renove suas esperanças. Seu pesar não é único.
Existem colectividades numerosas nas suas condições.
Além disso, há fichas muito piores que a sua, em matéria de fé religiosa, como, por exemplo, as dos simoníacos, mentirosos e investigadores sem consciência.
Anime-se e continue confiando em Deus.
Reconhecendo a própria indigência, Marcela recebeu o acolhimento pobre de sua mãe, como verdadeira bênção celestial.
Todavia, a nota mais interessante foi a sua primeira visita ao círculo dos irmãos encarnados.
Em plena sessão, contou a experiência comovedora e relacionou as surpresas que lhe haviam aguardado o coração no plano espiritual.
Sua história era palpitante de realidade, mas todos os presentes lembraram a velha Dona Marcela Fonseca e concordaram, entre si, que a manifestação era de um Espírito mistificador.
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Ave sem Ninho

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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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