As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:15 pm

As chances que a vida dá
Elisa Masselli

Descrição da capa: Apresenta várias cores e mostra uma jovem morena, bonita, sorrindo e que está de perfil e meio corpo próximo a uma janela olhando uma borboleta que está pousada no vidro da janela do lado de fora.
O nome da autora está escrito em preto e na parte superior esquerda.
O título está escrito, também em preto e está no meio da capa, do lado esquerdo.

Sumário
O começo
Uma vida feliz
Rancor desmedido
Tomada de decisão
A história de Marília
A Espiritualidade trabalhando
Início de missão
A paz reina
O inesperado acontece
O dia da exposição
Visita amiga
Em busca de ajuda
Sem saída
O pior acontece
Desespero total
Selma conta sua história
O reencontro
Ajuda necessária
Amigos trabalhando
O amor sempre vence
Nunca deixe para amanhã
O retorno
Despedida
Depressão
Plano perfeito
A força do perdão
Tomada de consciência
Acerto de contas
Reencontro feliz
Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:15 pm

O começo
Selma acordou e, após alguns minutos, levantou-se, tomou café e saiu.
Precisava ir até o centro da cidade, onde compraria algumas coisas no mercado.
Estava casada fazia quinze anos com Roberto e tinha um filho, Carlos, com treze anos de idade.
Saiu de casa e foi caminhando em direcção à rua principal.
A cidade era pequena e todo o comércio estava naquela rua.
Nela também ficava o único armazém que vendia de tudo, desde alimentos até alguns móveis e utensílios domésticos.
Enquanto caminhava, pensava:
Preciso comprar alimentos para preparar o almoço.
Roberto e Carlos saíram cedo e, quando chegarem, estarão com muita fome.
Tranquila, continuou caminhando e pensando:
Estou vivendo uma fase muito boa na minha vida.
Roberto está feliz trabalhando como contador e gerente na empresa de lacticínios, e Carlos também, pois foi escolhido para jogar futebol e está treinando muito.
Apesar de tudo o que aconteceu, consegui reerguer a minha vida e estou muito contente.
Acho que quando não temos o que fazer só nos resta recomeçar.
Caminhando devagar, chegou ao armazém, comprou o que precisava e saiu, carregando uma sacola.
Continuou caminhando e olhando as vitrines.
Não havia muitas lojas, mas mesmo assim, sempre que passava por lá, gostava de apreciar.
Ela conhecia todas as vitrines que quase nunca mudavam, mas gostava de olhar, sempre esperando uma mudança qualquer.
O dia estava quente, tanto que seus cabelos negros que caíam até os ombros, por causa do calor e do suor, começaram a grudar em seu pescoço e rosto.
Ela continuou andando e olhando para as vitrines e parou diante de uma delas onde havia um espelho.
Ao ver a sua imagem reflectida, viu o rosto molhado pelo suor e os cabelos, também molhados, que estavam junto ao pescoço, rosto e testa.
O vestido branco estampado com pequenas flores azuis e rosas também estava molhado junto ao pescoço e nas mangas, e sentiu que a combinação também estava grudada em seu corpo.
Sem maquiagem alguma, percebeu que estava com olheiras.
Ao ver sua imagem reflectida, começou a rir e a pensar:
Imagine se minha mãe me visse assim.
Ela que sempre foi tão preocupada com a aparência, com sua imagem, teria um ataque.
Continuou andando e, ainda sorrindo, parou em frente a uma vitrine que nunca havia visto.
Esta loja é nova, nunca a vi antes.
Na vitrine estavam em exposição três vestidos, lindos, de festa.
Selma parou e ficou olhando.
Olhou por alguns segundos um e depois o outro.
De repente, uma sombra tomou conta do seu olhar e um pensamento surgiu:
Esses vestidos me fizeram lembrar daquela noite e do baile, onde estávamos tão felizes e que terminou de maneira tão triste.
Uma lágrima se formou em seus olhos.
Com a mão, molhada pelo suor, tentou secar as lágrimas e continuou andando.
Não olhou mais para vitrine alguma.
Seu pensamento estava naquela noite de muitos anos atrás.
Caminhou alguns minutos e ouviu uma voz:
- Selma! Selma!
Não pode ser, é você mesma?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:16 pm

Ao ouvir aquela voz, Selma estremeceu e voltando-se, surpresa, quase gritou:
- Flora! Você aqui?
Flora correu para ela de braços abertos.
Abraçaram-se, mas Flora afastou-se rapidamente e, rindo, disse:
- O que aconteceu com você, Selma?
Está horrível!
Já imaginou o que sua mãe diria se a visse assim?
Constrangida, Selma tentou rir:
- Realmente, você tem razão, Flora!
Agora mesmo, quando passei em frente a uma vitrine e vi o meu reflexo nela, pensei exactamente isso.
Minha mãe morreria de tristeza.
- Pode ter certeza.
Eu não sabia que você estava morando nesta cidade.
Quanto tempo faz que veio para cá?
- Mais de quinze anos.
- Tanto tempo assim?
Você está aqui desde aquela noite?
- Sim e não me mudei nunca mais.
- Você se casou, tem filhos?
Selma sorriu:
- Sim, me casei alguns meses depois de ter chegado aqui e tenho um filho com treze anos.
- Que maravilha!
Ainda bem que a sua vida continuou.
Sua mãe sabe que você está nesta cidade?
A mesma sombra que havia passado pelo rosto de Selma quando ela viu os vestidos na vitrine voltou a surgir e uma lágrima quis se formar.
Rapidamente ela respirou fundo, secou os olhos com as mãos e respondeu:
- Não, acredito que não.
- Isso é uma pena.
Mas assim que eu for para lá vou contar a ela.
- Não, Flora!
Por favor, não faça isso!
- Por que, não, Selma?
Já se passou tanto tempo.
Sua mãe deve estar preocupada por não saber onde e como você está.
- Não, não quero! - Selma disse, irritada.
- Está bem, não precisa ficar tão nervosa.
- Desculpe-me, Flora, mas não quero me lembrar daquele tempo.
Estou bem e diria até que feliz aqui, longe de tudo aquilo e de todos.
- Está bem. Nunca poderia imaginar que a encontraria aqui e vivendo dessa maneira!
- Nem eu imaginaria encontrar você.
O que está fazendo aqui nesta cidade perdida no fim do mundo?
- Minha mãe faleceu e eu recebi a herança.
Como sabe, meus pais tinham muito dinheiro e propriedades.
Quando ela morreu, como nunca me casei nem tive filhos e me vi sozinha naquela casa imensa, fiquei triste e percebi que estava começando a me deprimir.
Então resolvi que precisava sair da nossa cidade e procurar outro lugar para repensar a minha vida.
Como não sabia para onde ir, peguei um mapa do estado e coloquei sobre a mesa; fechei os olhos e percorri com o dedo; quando parei, abri os olhos e o meu dedo estava sobre esta cidade.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:16 pm

Sorri e resolvi que precisava conhecê-la.
Cheguei aqui há dois meses, gostei da cidade e resolvi abrir uma loja de vestidos de noiva e roupas de festa.
- Aquela loja nova de roupas de festa é sua?
- Sim. Assim que cheguei aqui vi que não havia nenhuma loja desse tipo.
- Aqui? Não tinha mesmo.
É uma cidade muito pequena, acho que você não vai ter muito sucesso.
Festas são raras, e os vestidos de noiva são todos feitos por uma costureira.
- Foi por ela ser pequena que gostei.
Ela vai crescer e posso crescer junto.
Não preciso de dinheiro, só quero ter algo que seja meu e um lugar, tranquilo como este, para viver.
E agora que te encontrei ficou melhor ainda!
Estou feliz, Selma, por ter encontrado você!
Selma tentou sorrir:
- Também estou feliz por ter encontrado você, Flora.
- Moro naquela casa grande da esquina.
Qualquer dia desses podemos jantar.
Venha com seu marido e seu filho!
Onde você mora?
- Vamos, sim, qualquer noite a gente pode jantar na sua casa ou você pode vir na nossa.
Moro na esquina, mas na rua de trás.
Você está morando sozinha?
- Não, a Esmeralda veio comigo.
Sabe que ela praticamente me criou e não permitiria que eu viesse sozinha.
- Esmeralda ainda está com você?
- Sim. Ela nunca quis me abandonar e confesso que não sei o que seria da minha vida sem ela.
- Ela sempre cuidou muito bem de você.
‘ - De nós, Selma.
Sempre cuidou muito bem de mim, da Aríete e de você.
Novamente a sombra se formou no rosto de Selma, Flora percebeu:
- Nunca entendi o motivo de você ter largado tudo e desaparecido.
Foi muito triste o que aconteceu.
Sempre que me lembro, volto a sofrer, mas não acho que foi motivo para você ter desaparecido.
O que aconteceu realmente, Selma?
- É uma longa história, Flora.
Qualquer dia desses podemos conversar com mais tranquilidade e eu te conto tudo.
- Tem razão.
Agora, morando aqui, teremos mais tempo para conversar.
E você vai poder matar essa minha curiosidade.
Selma sorriu:
- Já conversamos muito!
Preciso ir até a loja e ver como estão as coisas.
Contratei uma moça, mas percebi que ela nada entende de festas e de vendas.
Precisa de treinamento.
- Você é perfeita nesses assuntos.
Sempre gostou tanto de festas!
- Verdade, Selma.
Foi por isso mesmo que abri a loja, porque gosto.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:16 pm

- Também preciso ir embora, tenho de preparar o almoço.
Logo mais meu marido e meu filho vão chegar e eles sempre chegam famintos.
Até mais, Flora!
Flora sorriu e, mandando um beijo para Selma, continuou andando em direcção à loja.
Selma foi andando no lado oposto, pensando:
Ainda bem que ela não sabe o que aconteceu.
Não gostaria de me lembrar do passado, mas pelo visto isso não vai ser possível.
Tomara que possamos continuar convivendo em paz.
Quando chegou em frente à loja, Flora olhou para trás e ainda pôde ver Selma, que dobrava a esquina.
Com os olhos faiscando de raiva e de ódio, pensou:
Vou destruir você e essa sua família linda!
Você vai pagar por tudo o que nos fez, a mim e a Aríete!
Não perde por esperar.
Imediatamente duas entidades se aproximaram, e rodopiando à sua volta, rindo, uma delas disse:
-Isso mesmo, Flora!
Ela merece sofrer muito e nós vamos ajudar você!
Ela pensou que bastava fugir, se esconder neste fim de mundo, e tudo seria esquecido.
Mas isso não vai acontecer!
Ela vai pagar por tudo que fez, ora se vai!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:16 pm

Uma vida feliz
Selma continuou caminhando.
Estava surpresa e preocupada com aquele encontro:
Como isso pôde acontecer?
Depois de tanto tempo, como Flora veio parar aqui nesta cidade perdida e tão longe de casa?
Ela parece bem em relação a mim, mas será que está mesmo?
Eu, durante todo esse tempo, tentei esquecer, embora não tenha conseguido totalmente.
Tentei esquecer e outros problemas da minha vida fizeram com que eu não pensasse tanto nisso.
Nada que eu fizesse poderia mudar o que aconteceu.
Estão todos mortos e eu fui a culpada.
Disso nunca poderei fugir.
Sorriu e continuou pensando:
Devo estar delirando, alucinando.
Flora não teria como saber o que aconteceu.
Como nenhuma das pessoas que estavam naquela festa percebeu.
A vinda dela para esta cidade foi, sim, apenas coincidência.
Olhou para o relógio que carregava em seu pulso:
Estou atrasada para preparar o almoço.
Preciso me apressar.
Acelerou o passo e em poucos minutos estava em casa.
Assim que entrou colocou a sacola que carregava sobre a mesa.
Enquanto tirava da sacola as coisas que havia comprado, pensava:
Como e porque Flora apareceu nesta cidade?
Eu estava tão bem, tranquila, levando a minha vida.
Feliz ao lado do Roberto e do Carlos.
Tenho medo que a presença dela possa fazer com que toda essa tranquilidade desapareça.
Por que o passado voltou?
Depois de tirar tudo da sacola, lavou as mãos e começou a cozinhar e a pensar:
Nunca disse ao Roberto ou ao Carlos quem eu era e de onde vim.
Quando nos conhecemos, inventei uma história e ele acreditou.
Depois nunca mais falamos sobre esse assunto.
Preciso conversar com Flora e pedir que não conte coisa alguma sobre o meu passado.
Só não entendo como ela veio parar aqui.
Esta cidade é tão distante e pequena, nunca pensei que um dia isso poderia acontecer.
Mesmo nervosa e preocupada, terminou de preparar o almoço.
Estava terminando de colocar os pratos sobre a mesa quando eles chegaram, se aproximaram dela e, um de cada lado, a beijaram no rosto.
Ela retribuiu os beijos e, enquanto eles iam lavar as mãos, continuou colocando os pratos.
Alguns minutos depois, voltaram e sentaram-se.
Enquanto comiam, Carlos, feliz, disse:
- Mamãe, já contei ao papai.
Hoje à tarde vou jogar na equipe de basquete!
Como sabem, semana passada fiz um teste, e o técnico hoje disse que fui aprovado!
- Parabéns, meu filho!
Vai se sair bem!
- Também, com essa altura, você só poderia ser jogador de basquete! - Roberto disse, rindo.
Selma e Carlos também riram.
Roberto continuou falando:
- Para que o dia seja perfeito, também tenho uma boa notícia!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:16 pm

Selma e Carlos, com curiosidade, olharam para ele, que continuou:
- A empresa, durante o ano, teve um lucro enorme e resolveu agradecer os funcionários dando um aumento de salário.
Com esse aumento, vamos poder viajar!
Já podemos fazer o roteiro da viagem!
- Que maravilha, papai!
- Parabéns, Roberto!
- Nossa vida está perfeita, não está, Selma?
- Claro que está.
O que mais posso desejar?
Tenho um marido que me ama e a quem eu amo e um filho que só me traz felicidade!
Tenho, sim, uma vida perfeita e só posso agradecer a Deus por isso.
Parou de falar e pensou:
Será que mereço tanta felicidade?
Claro que não.
Depois de tudo o que fiz, não mereço mesmo.
Ele sorriu e continuaram comendo.
Quando terminaram, Roberto, levantando-se, disse:
- Agora preciso trabalhar.
Aumento de salário significa aumento de trabalho, mas que faço com toda a vontade do mundo.
Adoro o meu trabalho e a empresa que tanto já nos deu.
Selma, rindo, também se levantou e, abraçada ao marido, acompanhou-o até o portão.
Lá, ele beijou de leve seus lábios e, rindo, se afastou.
Ela, sorrindo, ficou olhando até que ele desapareceu quando virou a esquina.
Entrou em casa e foi até a sala de visitas, onde Carlos assistia televisão.
Olhou para o filho e, sorrindo, perguntou:
- A que horas você vai treinar, Carlos?
- Às três horas e vou ficar até as cinco.
Estou feliz e nervoso, mãe.
- Nervoso, por quê?
- Não sei. Estou com medo de não conseguir.
- Não pense assim, claro que vai conseguir!
Você foi escolhido porque o técnico achou que tem futuro.
Vá para o treino e faça tudo o que puder e souber.
Você vai conseguir!
- É verdade, mamãe!
Adoro basquete!
- Assim que se fala, meu filho!
Agora, preciso ir ao orfanato, as meninas estão esperando por mim, estamos preparando a exposição de fim de ano.
Elas trabalharam e se dedicaram tanto!
Precisamos fazer com que tudo dê certo.
- Claro que vai dar!
Há quanto tempo a senhora faz esse trabalho?
- Nem sei, há mais de dez anos.
Comecei quando você era pequenininho.
- Então, não sei por que acha que pode não dar certo. Sempre deu!
- Verdade. Nossa exposição a cada ano que passa fica melhor, mas desta vez é diferente.
Eu e Marília estamos esperançosas de conseguir dinheiro para construir mais uma ala e assim podermos atender a mais crianças.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:17 pm

- As mães dos meus amigos gostam da senhora e a respeitam pois sabem da sua dedicação ao orfanato.
- Não me preocupo com isso; só quero que as meninas tenham o trabalho reconhecido, já que foi feito com tanto carinho.
Aquelas meninas precisam desse incentivo.
Agora, preciso ir.
Tenho medo de não terminarmos a tempo.
- Pare com isso, mamãe!
Ainda falta mais de um mês!
Vai dar tempo de tudo ficar pronto!
- Verdade, Carlos, sempre deu.
Agora estou indo.
Depois você me conta como foi o treino.
Carlos sorriu e voltou os olhos para a televisão.
Ela saiu e na rua permitiu que lágrimas caíssem por seu rosto.
Com as mãos secou os olhos e, enquanto caminhava, foi pensando:
Minha vida é tão boa, tão perfeita!
Tenho Roberto, um marido maravilhoso, e Carlos que é tudo na minha vida.
Sei que não tenho motivo para me queixar, não sei por que estou triste, achando que alguma coisa de ruim pode acontecer e toda essa felicidade desaparecer.
Sorriu e continuou andando e pensando:
Pare com isso, Selma!
Nada de mal vai acontecer!
Tudo vai continuar como está.
Vá cuidar das suas meninas.
Depois de caminhar por quinze minutos, chegou a um grande portão, abriu e entrou.
Assim que as crianças a viram chegando, correram ao seu encontro e todas juntas a rodearam.
As pequenas se agarraram às suas pernas, o que dificultava sua caminhada.
Ela, rindo, abraçou a todas e, com dificuldade, conseguiu entrar na casa e foi recebida por uma senhora que também a recebeu com um sorriso.
- Ainda bem que chegou, Selma!
As meninas estão ansiosas pelo dia da exposição.
- Também estou, Marília.
Saí logo depois do almoço, nem lavei a louça.
Vamos para o galpão.
Ela, Marília e as meninas foram para um galpão que havia nos fundos do quintal.
Lá dentro havia duas mesas grandes e compridas e, sobre elas, vários tecidos e linhas.
As meninas sentaram-se nos bancos também de madeira que estavam ao lado da mesa, Selma sentou-se em uma das pontas da mesa e as meninas, uma a uma, foram trazendo suas peças para que ela olhasse.
Selma foi olhando uma a uma, elogiando e corrigindo.
Assim que terminou de olhar todas as peças, Selma se levantou e, sorrindo, disse:
- Vocês sabem que o dinheiro que vamos arrecadar com a venda dessas peças vai ajudar Marília com a manutenção do orfanato e, quem sabe, até construir uma nova ala para que mais crianças possam vir morar aqui.
Por isso, precisam ser feitas com muito amor e carinho.
Enquanto eu não estiver aqui, Sandra, por ser a mais velha, você vai ficar encarregada de ajudar as meninas.
Assim, não perderemos tempo, e as peças ficarão lindas e todas serão vendidas:
- Pode ficar tranquila, dona Selma, vou cuidar de tudo.
Também, se não cuidar, minha mãe vai ficar muito braba, não vai, mãe?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:17 pm

- Claro que se você não ajudar vou ficar preocupada e muito nervosa, Sandra.
Você sabe o quanto dona Marília nos ajudou quando viemos para cá.
Você tinha apenas seis anos e ela nos acolheu, deu estudo, e agora você está se preparando para ir para a faculdade.
Tudo graças a ela.
- Não diga isso, Rita.
Você tem me ajudado durante todos esses anos.
Sem você, provavelmente não teríamos o orfanato.
Marília sorriu.
Após algum tempo, saíram do galpão e foram para o escritório de Marília.
Entraram e sentaram-se:
- Então, Selma, como estão os trabalhos?
Você acha que ficarão prontos na data?
- Ficarão sim.
As meninas estão motivadas.
Elas sabem que, como acontece todos os anos, a exposição trará pessoas que, ao conhecerem o orfanato, ajudarão com algo mais além da contribuição com a compra das peças.
Estou esperançosa, Marília!
- Exactamente o que precisamos, esperança!
Você sabe que desde que você chegou à cidade e ao orfanato tem nos ajudado muito.
Não tem sido fácil, as despesas aumentam todo mês.
- Sei disso, mas não podemos desanimar.
- Você com seu optimismo de sempre, Selma.
- Anime-se, Marília!
Vai dar tudo certo!
Alguma vez você ficou sem dinheiro para cuidar das suas meninas?
- Não. Algumas vezes fiquei nervosa e assustada, mas, de alguma maneira o dinheiro sempre chegou.
Isso aconteceu quando você apareceu aqui querendo conhecer o orfanato.
Selma sorriu:
- Você não me falou isso.
O que estava acontecendo?
- Eu não podia dizer, pois você veio apenas visitar o orfanato.
Estava desesperada sem saber o que fazer.
A comida estava desaparecendo da dispensa.
Acho que você foi enviada por Deus.
- Nunca imaginei que você pensasse isso, Marília, pois eu sempre achei que você tinha sido um anjo na minha vida.
- Eu? Por quê?
- Naquela manhã em que vim aqui, a tia de meu marido, minha grande e única amiga, após ficar por muito tempo doente, morreu.
Fiquei muito triste e me sentia só e desprotegida, mesmo tendo Roberto e Carlos, que ainda era pequeno.
Eu sentia muito sua falta, do seu sorriso e de suas palavras.
Não sentia prazer algum e só chorava.
Naquela manhã, como sempre fazia, fui até a padaria comprar pão e leite para que eu e Roberto pudéssemos tomar café antes de ele ir trabalhar.
Estava aguardando ser atendida quando ouvi uma moça perguntar a outra que também esperava:
-Como estão as coisas lá no orfanato, Rita?
-Dona Marília não comenta, mas ela anda muito preocupada.
Chegaram muitas crianças e é preciso muito dinheiro para manter todas elas.
-Mas dona Marília é rica, Rita!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:17 pm

-Sim, ela mantém o lugar com seu próprio dinheiro, mas não pode assumir tudo sozinha.
Seria preciso que alguém surgisse ou alguma coisa acontecesse para ajudá-la.
-Ninguém ajuda?
-Algumas pessoas sim, mas não é o suficiente.
Todos os dias, venho aqui na padaria buscar pão para o café da manhã.
Seu António já ajuda há muito tempo.
- Ainda bem.
- Eu estava ouvindo a conversa delas, Marília, e nem percebi que havia chegado a minha vez.
Seu António, ao perceber que eu estava distraída, disse:
- Chegou sua vez, senhora.
- Envergonhada, olhei para ele e pedi pão e leite.
Depois, saí apressada sem olhar para as mulheres que conversavam.
- Foi assim que ficou sabendo do orfanato, Selma?
- Foi, sim, Marília.
Saí dali e, enquanto voltava para casa, ia pensando.
Senti uma vontade enorme de conhecer um orfanato, saber como era.
Sabia que existiam, mas nunca me preocupei.
Em casa e enquanto tomávamos café, contei a Roberto o que havia acontecido e terminei dizendo:
-Sempre ouvi falar sobre orfanatos, mas nunca conheci nenhum.
Tenho uma enorme curiosidade de conhecer.
- Roberto, sabendo que eu andava triste, sem vontade de coisa alguma, disse:
-Por que não vai visitar esse orfanato e assim aplacar sua curiosidade?
- Você acha que posso ir?
Será que vão me receber?
-Só vai saber indo.
Vá até lá e, quem sabe, possa ajudar de alguma maneira.
- Será? Ajudar?
- Não sei, mas não custa tentar.
- Vou fazer isso.
Logo depois do café e após dar um jeito aqui em casa, vou com Carlos até lá.
- Terminamos de tomar café, Marília.
Roberto, após me beijar e se despedindo, foi para o trabalho.
Carlos, que ainda dormia, acordou.
Cuidei dele e não entendia o motivo, mas estava me sentindo bem e não tinha mais vontade de chorar.
Depois de cuidar da casa e de Carlos, saí e vim para cá.
O resto você já sabe.
- Sei sim e como sei. - Marília disse rindo.
Selma também riu.
Marília continuou:
- Nunca vou me esquecer daquele dia.
Rita tinha razão, naquele dia eu estava realmente muito preocupada.
As crianças estavam chegando.
Eu já havia gastado uma boa quantia do meu dinheiro.
Meus pais e sogros me ajudavam, mas não podia pedir mais.
Eu havia assumido o orfanato, precisava encontrar uma maneira de cuidar dele.
Quando você chegou e começamos a conversar, senti que poderíamos trabalhar juntas.
Depois de conversarmos por algum tempo, você veio com a ideia de pedir que seu marido conversasse com o dono do lacticínio para quem ele trabalha para conseguir leite e derivados para as crianças.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:17 pm

- Ele conversou e conseguiu.
Não precisamos mais nos preocupar com leite e pão.
- Depois, fomos falar com o dono do armazém e conseguimos alimentos.
Fomos aos sítios e conseguimos ovos e verduras.
Em pouco tempo não precisávamos mais nos preocupar com a alimentação das crianças.
- Verdade, Marília.
Tudo mudou rapidamente.
- Isso mesmo, Selma.
Depois, você veio com a ideia de ensinar as meninas a costurar e a bordar para que fizéssemos uma exposição onde os trabalhos pudessem ser vendidos.
Fizemos isso e hoje é um sucesso.
- Depois daquele dia não tive mais tempo para ficar chorando e sofrendo.
Não que eu tenha me esquecido da minha amiga, mas conhecendo-a como conhecia sabia que estava feliz com o que eu estava fazendo.
- Sabe, Selma, já há algum tempo venho estudando uma doutrina que fala muito da importância de nos doarmos aos outros, da caridade.
- Não foi pensando nisso que vim para cá, apenas tinha curiosidade de saber como funcionava um orfanato, mas acho que o que disse é verdade mesmo, pois foi somente depois de me dedicar às crianças que a minha dor, minha tristeza, passou.
- A doutrina ensina que quando nascemos um anjo amigo vem nos acompanhando e fica ao nosso lado por toda a vida.
Acho que, naquele dia, eu estava em desespero e você sofrendo, então o meu anjo se uniu ao seu e nos aproximou.
O melhor de tudo é que deu certo! - Marília disse rindo.
- Você está falando da Doutrina Espírita?
- Sim. Por que, você conhece?
- Mais ou menos.
Minha amiga também seguia essa doutrina e me falou a respeito da necessidade que temos de fazer caridade.
Disse, também, algumas coisas que não sei se aceito ou não, como reencarnação.
Acho que é difícil aceitar que tivemos outras vidas.
Parece mais ficção científica.
- Bem, qualquer dia conversaremos a esse respeito, Selma.
O que importa é que tenho fé de estarmos fazendo a coisa certa e, por isso, tudo vai dar certo.
- Então, precisamos manter a fé.
O seu trabalho é muito importante.
Ainda tem muito a fazer.
- Estou preocupada, Selma.
- Preocupada com que, Marília?
- Já estou com quase cinquenta anos, Selma.
Estou ficando velha.
- Velha coisa nenhuma!
Você tem ainda muito que trabalhar!
Aliás, nós temos!
Agora vou para o galpão acompanhar o trabalho das meninas.
Dizendo isso, levantou-se e sob o olhar e o sorriso de Marília saiu do escritório e voltou para o galpão.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:18 pm

Rancor desmedido
Enquanto isso, Flora olhou para o relógio e assustada pensou:
Fiquei tão envolvida com as lembranças do passado e em como me vingar de Selma que nem vi o tempo passar e esqueci de ir almoçar.
Esmeralda deve estar preocupada, ela não tem ideia de que encontrei Selma.
Vou agora!
Avisou Nádia, a moça que trabalhava na loja, e foi para casa almoçar.
Foi recebida por Esmeralda:
- Ainda bem que chegou, Flora.
Estava preocupada.
- Preocupada, por que, Esmeralda?
- Já são quase duas horas da tarde e você não veio para o almoço.
- Sabe que a loja está sendo inaugurada e tem muito trabalho para que fique da maneira que eu quero.
- Você já almoçou?
- Não, Esmeralda.
Hoje o dia foi complicado e só agora pouco me dei conta da hora do almoço.
Quero que minha loja seja um sucesso!
- Sei disso, mas sei também que você não veio para esta cidade por causa da loja.
Você tem muito dinheiro, não precisa trabalhar para viver.
- Não vamos mais falar a esse respeito.
Você sabe por que eu vim e o que pretendo fazer.
- Sei sim e estou triste por isso.
O ódio, o rancor e a vingança só fazem mal a você mesma, Flora, e nada vai mudar o que aconteceu e nada, nunca mais, voltará a ser como antes.
Viva sua vida e deixe que Selma viva a dela.
Flora largou a bolsa sobre o sofá da sala e, enquanto caminhava, foi dizendo:
- Não venha com essa conversa.
Estou muito feliz por finalmente estar aqui.
Vou lavar minhas mãos e depois almoçar.
Assim que entrou no banheiro, olhou no espelho e, com muita raiva, pensou:
Achou que ia se esconder de mim, Selma, vindo para esta cidade no fim do mundo, que quase nem aparece no mapa, mas eu a encontrei e você vai pagar por seu crime e por tudo que nos fez sofrer!
Lavou as mãos e voltou para junto de Esmeralda, que já havia colocado a comida sobre a mesa.
- Está tudo bem, Flora?
- Melhor do que imaginei, Esmeralda!
Finalmente, encontrei Selma. - Respondeu sorrindo e com o olhar cheio de ódio.
- Encontrou? Ela está bem?
- Quando a vi custei a acreditar que fosse ela.
Garanto que você também iria se assustar, pois ela nem de longe é a mesma Selma que conhecemos.
Ela estava vestida com roupas simples, com os cabelos em desalinho e uma sacola na mão.
Parecia uma pessoa comum do povo ou uma empregada doméstica.
Disse que ia preparar o almoço para o marido e o filho.
- Ela está casada e tem um filho?
- Sim. Não prestei muita atenção, mas parece que ele tem treze anos.
- Está vendo, Flora?
Ela está casada e tem um filho.
Selma recomeçou a vida, enquanto você ficou parada sem nada construir, dominada pelo ódio.
Ainda há tempo.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:18 pm

Siga adiante e tente recomeçar sua vida.
O que Selma fez está feito e não há como mudar.
- Você sabe o que vim fazer aqui, Esmeralda.
Aliás, o que tenho feito todo esse tempo.
Estive procurando por ela e finalmente a encontrei!
Agora que a encontrei, nada vai fazer com que eu mude de ideia.
Vou fazer com que pague por tudo que nos fez sofrer!
Disse isso demonstrando um ódio profundo nos olhos e na voz.
Não imaginava que, ao dizer isso, as duas entidades que estavam ao seu lado gargalharam e uma delas disse:
- Isso mesmo, Flora!
Você a encontrou, chegou a hora da sua e da minha vingança!
Ela precisa pagar!
- Pare com isso, Flora!
Já disse milhões de vezes que esse desejo de vingança só faz mal a você mesma!
- Pare você, Esmeralda!
Também já disse milhões de vezes que não adianta!
Vou me vingar!
- Você tem dinheiro, poderia ter continuado sua vida, se casado e tido filhos, uma família; mas não fez isso, pelo contrário:
só tem no pensamento essa vingança inútil que nada vai acrescentar à sua vida.
Vamos voltar para casa, Flora!
Livre-se desse mal que está ao seu lado e comece a viver!
- Tem razão, Esmeralda!
Tenho muito dinheiro e, se for preciso, usarei cada centavo para fazer com que a vida de Selma seja destruída!
Por favor, não toque mais nesse assunto, a não ser que seja para me ajudar!
- Está bem. Você sabe que eu jamais faria alguma coisa para ver você sofrer.
- Sei disso e espero que, se não quiser me ajudar, ao menos não atrapalhe!
Agora preciso comer, estou faminta!
Sentou-se e começou a comer.
Enquanto comia, não percebeu que estava envolvida em uma nuvem densa e negra e que as entidades continuavam ali ao seu lado, rindo e felizes, rodopiando à sua volta.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:18 pm

Tomada de decisão
Os dias foram passando.
Selma não queria se encontrar com Flora; queria que seu passado continuasse onde esteve até agora:
guardado, bem guardado.
Por isso evitava ir à rua principal onde estava a loja de Flora e sempre que precisava de alguma coisa fazia uma lista e pedia que Carlos ou Roberto fosse até lá e trouxesse.
Roberto estranhou:
- O que está acontecendo, Selma?
Parece que você não quer mais fazer compras para casa.
Tem algum motivo especial pra isso?
Pega de surpresa por aquela pergunta, ficou algum tempo sem responder.
Depois de alguns segundos, sorrindo, mentiu:
- Não tem motivo algum, Roberto.
Você sabe que o dia da exposição está chegando, temos muito trabalho para que tudo fique pronto.
Preciso ficar mais tempo com as meninas, por isso pedi a vocês que me ajudassem.
Tem algum problema?
- Não tem problema, Selma.
Quando voltar do trabalho passo por lá.
Somente estranhei, você sempre fez as compras, nunca deixou que eu fizesse, dizia que eu não sabia escolher.
Selma tentou sorrir:
- E não sabe mesmo, mas agora estou precisando de sua ajuda.
Pode continuar me ajudando?
Ele não respondeu, sorriu e abraçando-a pela cintura beijou seus lábios e chamou:
- Carlos, vamos embora!
Está na hora!
Carlos, que estava no quarto preparando-se para ir à escola, saiu, ainda passando as mãos pelos cabelos.
Acompanhados por Selma, assim que chegaram ao portão, beijaram seu rosto e foram embora.
Selma ficou olhando até que desapareceram na esquina.
Enquanto olhava, pensava:
Não posso contar a verdade.
Eles nunca me perdoarão.
Como fazia todos os dias, voltou para dentro da casa para pegar feijão e arroz.
Cozinhava pela manhã, antes de sair, e na hora do almoço só fazia a mistura e a salada.
Fazendo isso, poderia ficar mais tempo com as meninas.
Ao abrir o armário, porém, notou que não havia mais arroz.
Preocupada, pensou:
Não posso ir agora fazer compras, as meninas estão me esperando.
Vou até o orfanato e, quando sair, passo rápido pelo armazém.
Chegou ao orfanato, examinou o trabalho que estava sendo feito e, feliz, disse:
- Meninas, os trabalhos estão muito bons!
Vocês sabem que na nossa exposição virão muitas pessoas de outras cidades, futuras mamães e noivas que querem comprar o enxoval.
Tenho certeza de que ao verem essas peças tão lindas vão ficar encantadas e comprarão tudo!
A arrecadação vai ser muito boa!
As meninas, como não poderia deixar de ser, riram felizes.
O tempo passou tão rápido que Selma nem percebeu.
Olhou o relógio e lembrou-se que precisava comprar arroz.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 23, 2017 8:18 pm

Tinha medo de encontrar Flora, mas não tinha como evitar.
Despedindo-se das meninas e de Marília, saiu apressada e pensando:
Já são onze horas, preciso ir ao armazém e preparar o almoço.
Roberto e Carlos chegarão ao meio-dia e meio.
Mas antes preciso ir ao armazém.
Acelerou os passos.
Chegou ao armazém e comprou o que precisava.
Já estava saindo quando encontrou Flora e Esmeralda, que entravam.
Assim que a viram, Flora sorriu e Esmeralda abriu os braços:
- Selma, minha filha, quanto tempo.
Selma, por alguns segundos, ficou sem saber o que fazer.
Depois abriu os braços e as duas se abraçaram com muita saudade.
- Como você está linda!
Ainda parece aquela mesma menina de antes!
- Qual nada, Esmeralda!
Já se passaram quinze anos e o tempo não protege ninguém.
Estou mais velha, sim! - Disse rindo.
- Claro que sim, mas continua linda como sempre foi.
Flora disse que havia encontrado você e fiquei feliz.
- Também fiquei, Selma, mas não nos encontramos mais.
Ficamos de jantar juntas com a sua família, mas você nunca mais apareceu.
- Verdade, Flora.
É porque estou envolvida em um trabalho no orfanato e não tenho tido tempo para coisa alguma.
Quando esse trabalho terminar, poderemos nos encontrar.
- Que espécie de trabalho?
Animada, Selma contou sobre a exposição.
Assim que terminou, Flora, sorrindo, disse:
- Que óptimo, Selma!
Quer dizer que aquilo que aprendemos no colégio está servindo para ajudar essas meninas?
- Está, sim, Flora.
E você se lembra que, apesar de vocês não gostarem, eu adorava bordar e costurar?
- Claro que me lembro, e até hoje não entendo como você podia gostar daquele trabalho!
Ainda bem que eu tinha Matilde para fazer por mim!
Eu achava aquilo uma perda de tempo, nunca teríamos onde usar.
Embora as freiras dissessem que poderíamos fazer o nosso enxoval de casamento e dos nossos filhos, para mim não fazia sentido algum.
Eu sabia que quando isso acontecesse eu teria dinheiro para ir até a Ilha da Madeira comprar um belo enxoval de casamento e um mais lindo ainda para o meu bebé, sem ter de ficar bordando.
- Verdade, Flora, pensávamos assim.
Mas hoje o que aprendi está servindo para ajudar a essas crianças.
- Parabéns, Selma!
Você se tornou uma pessoa muito boa, diferente daquela que conhecemos.
- Mas são elas que me ajudam, Esmeralda.
Depois que comecei a trabalhar no orfanato encontrei um sentido para minha vida e sou, sim, diferente da Selma que conheceram.
Estou muito feliz.
- Não entendo o que está dizendo.
Flora me disse que você está casada e tem um filho.
Eles não preenchiam a sua vida?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:43 pm

- Claro que sim.
Mas quando conheci o orfanato, senti que poderia trabalhar ali e fazer muita coisa.
Esmeralda olhou para Flora e, sorrindo, disse:
- Você pode ajudar também, Flora.
Pode doar uma quantia em dinheiro para o orfanato e, assim, ajudar as crianças.
Quando ajudamos alguém, na realidade estamos ajudando a nós mesmas.
- Claro que sim, Esmeralda.
Vou mandar uma quantia para que você use como quiser, Selma.
- Obrigada, Flora, doações são sempre bem-vindas.
Mas, por favor, antes de dar o dinheiro, quero que vá até o orfanato para conhecer as crianças e o trabalho que estamos fazendo.
Assim, você aproveita e entrega o dinheiro para Marília, a directora do orfanato.
- Vou fazer isso, só que precisa ser esta semana.
- Esta semana, por que Flora?
- Estamos indo embora.
Como você disse, esta cidade não comporta uma loja como a minha, e já estou com muito prejuízo.
Acho melhor voltar para minha casa e pensar em outra coisa para empregar o meu dinheiro.
- Você vai embora, Flora?
- Vou sim, Selma.
Minha loja não tem futuro aqui, sendo assim não tenho mais o que fazer.
Durante esse tempo em que estou nesta cidade não consegui entender como você consegue morar aqui e não entendo como pode estar feliz aqui, depois de ter tido a vida que sempre teve.
- Estou feliz aqui, Flora.
Tenho meu marido, meu filho e o orfanato.
Isso é tudo que preciso para ser feliz.
- Você se conforma com pouco.
Eu quero mais, muito mais.
- A vida me ensinou a valorizar o que realmente tem valor.
- Bom para você.
Só sinto por não ter conhecido seu marido e seu filho, mas não vai faltar oportunidade.
Quem sabe um dia vocês não nos visitam, não é, Esmeralda?
- Verdade, Selma.
Quando for nos visitar convidaremos sua mãe e faremos uma surpresa!
Sei que ela ficará muito feliz!
- Por favor, Esmeralda, não conte a minha mãe nem a ninguém que me encontrou.
Estou bem e feliz aqui longe de tudo e de todos.
- Você contou ao seu marido o motivo de ter vindo para cá?
- Não, Flora.
Ele nunca perguntou coisa alguma a respeito da minha vida e eu não achei necessário contar.
Estamos bem.
- Acho que fez bem, talvez ele não entendesse.
Selma se calou e olhou para Esmeralda, que disse:
- Vamos deixar essa história pra lá, Flora.
De nada vai adiantar lembrar o passado.
Você está bem e feliz, Selma, é isso que importa.
- Tem razão, Esmeralda.
Estou bem e feliz.
Flora, tentando não demonstrar o ódio que estava sentindo, sorrindo, disse:
- Vamos, Esmeralda, temos muito a fazer.
Precisamos preparar a mudança.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:44 pm

Abraçaram-se.
Selma foi embora, Flora e Esmeralda entraram no armazém para comprar algumas coisas.
Depois de comprar e pagar, saíram do armazém.
Na rua, Esmeralda, ainda surpresa, perguntou:
- Vamos embora mesmo, Flora?
- Vamos, Esmeralda.
Cansei de ficar nesta cidade.
- Está dizendo que desistiu de se vingar?
Que perdoou?
Flora soltou uma gargalhada:
- Isso mesmo.
Como você sempre disse, estou perdendo um tempo enorme me dedicando a essa vingança.
Vamos embora e vou retomar minha vida, que parou desde aquele dia.
Selma está feliz com seu marido e seu filho, enquanto eu estou aqui triste e sem ninguém.
- Como estou feliz em ouvir você dizer isso, Flora.
Graças a Deus, você entendeu que vingança não vale a pena e só faz sofrer a quem a deseja.
- Depois de conversar com Selma a respeito do orfanato, tive uma ideia:
hoje à tarde, vamos até lá.
Quero dar um cheque para ajudar essas meninas.
- Vai dar dinheiro para o orfanato?
- Vou, sim, Esmeralda.
Perdi muito tempo, tenho tanto dinheiro que nem sei o que fazer com ele e nada melhor do que se fazer o bem.
O dinheiro que vou dar não vai fazer falta alguma.
- Estou muito feliz por você ter tomado essa decisão.
Agora, vamos para casa.
Depois do almoço vou começar a empacotar as coisas e guardar outras nas malas.
- Isso mesmo e, enquanto isso, vou ao orfanato.
Não quer ir comigo?
- Pensando bem, acho que vou, sim.
Quero ver o que Selma está fazendo.
Parece que é um trabalho muito bom.
- Está bem.
Agora, vamos almoçar, estou morrendo de fome.
Depois, quando voltarmos do orfanato, eu ajudo você na arrumação da mudança.
Só vou levar algumas roupas; os móveis e tudo o mais vou doar para alguém.
- Você mudou mesmo, Flora.
Graças a Deus!
Voltaram para casa.
Assim que chegaram e colocaram as compras sobre a mesa, Esmeralda, preocupada, perguntou:
- O que está acontecendo, Flora?
- Sobre o que você está falando, Esmeralda?
- Sobre essa sua mudança de comportamento.
- Está falando sobre a nossa volta para casa?
- Sim. Como pode, de repente, querer voltar?
Você passou todos esses anos somente pensando em encontrar Selma e se vingar, e agora que a encontrou simplesmente vai embora?
Assim, sem nada fazer?
Está muito estranho.
- Estranho por quê?
Tem razão, passei todo esse tempo só querendo vingança e você tentando me demover dessa ideia, agora que fiz o que sempre me pediu está achando ruim?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:44 pm

- Não estou achando ruim; pelo contrário, estou achando muito bom, só não estou entendendo.
Sempre que eu dizia que vingança não levaria a lugar algum, você ficava nervosa e dizia que só iria descansar no dia em que se vingasse, e agora do nada quer ir embora e deixar que Selma continue sua vida?
- Tem razão, Esmeralda.
Eu ficava braba, quando você dizia que a culpa não era só dela; mas agora, vendo que ela está bem e vivendo uma vida simples que eu nem sonharia viver, dedicando sua vida a cuidar dessas meninas órfãs, acho que ela merece continuar aqui e ser feliz.
Você sempre teve razão.
Eu, realmente, perdi muito tempo; mas agora está na hora de voltar para casa e retomar minha vida.
Por conta dessa vingança nunca me interessei por rapaz algum, não me casei, não tive filhos.
Selma continuou sua vida e tem o que eu nunca tive ou terei.
Agora chega, Esmeralda.
Resolvi fazer o que você sempre disse.
Vou deixar a vingança por conta de Deus.
- Se você estiver dizendo a verdade, fico muito feliz.
Vamos para casa, você vai começar uma nova vida que, vai ver, será só de felicidade!
- Claro que estou dizendo a verdade, Esmeralda!
Por que enganaria a você, que esteve ao meu lado desde criança, que praticamente me criou e sempre soube o que eu sinto?
Quando chegarmos em casa, você vai ver que vou ser outra pessoa.
Cansei de perder tanto tempo somente pensando na vingança.
Entendi, finalmente, que isso só me fez mal.
Esmeralda, feliz, levantou os olhos e disse:
- Obrigada, meu Deus, por ela, finalmente, ter entendido como estava errada.
- Agora vamos preparar as malas, Esmeralda.
Quero me mudar amanhã mesmo.
- Amanhã? Pensei que seria durante a semana.
- A princípio achei que seria assim, mas depois pensei bem e acho que quanto mais rápido nos mudarmos melhor será.
Esmeralda sorriu, beijou o rosto de Flora e foi para seu quarto preparar suas malas.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:44 pm

A história de Marília
Enquanto isso, Selma chegou a sua casa e, rapidamente, preparou o almoço.
Estava tranquila com a partida de Flora, embora um pouco preocupada, com medo que ela contasse a sua mãe que a havia encontrado.
Roberto e Carlos chegaram na hora de sempre, e almoçaram.
Depois do almoço, antes mesmo que eles saíssem, ela se despediu e foi para o orfanato.
Tinha muito trabalho junto às meninas e queria que tudo ficasse perfeito.
Sabia que a exposição era um evento da cidade mas que atraía pessoas de cidades vizinhas.
Sabia que muitas pessoas importantes e com dinheiro viriam não só para comprar as peças de roupas mas também para darem doações que eram importantes para a manutenção do orfanato.
Chegou ao orfanato e, como sempre, foi recebida com muito carinho.
Embora se esforçasse para não se apegar às meninas, não conseguia.
Amava cada uma delas e muitas vezes sofreu quando alguém foi adoptada, mesmo sabendo que para aquela menina era a melhor coisa que podia acontecer.
Estava ali por algumas horas quando, surpresa, viu que Flora e Esmeralda entravam no galpão, acompanhadas por Marília.
Sorrindo, foi ao encontro delas, que abriram os braços, e se abraçou a elas, dizendo:
- Que surpresa, Flora!
Não pensei que, realmente, você viria aqui no orfanato!
- Eu disse que viria, não disse?
Pois bem, estou aqui. - Disse rindo.
Marília se aproximou e deu para Selma um pacote.
Selma o abriu e viu que havia muitos maços de notas.
Surpresa, olhou para Marília e perguntou:
- Que dinheiro é este, Marília?
Quanto tem aqui?
Marília, não conseguindo evitar a alegria e emoção que estava sentindo, respondeu:
- Sua amiga doou para o orfanato.
Aí tem vinte mil!
Selma olhou espantada para Flora, que sorria.
- Vinte mil, Flora?
- Sim. Você sabe que tenho muito dinheiro e que essa quantia nada significa para mim, ao passo que para o orfanato é muito valiosa.
- Você não imagina como!
Com este dinheiro e o que vamos arrecadar com a exposição, vamos poder construir mais uma ala e, assim, poderemos atender a mais meninas, não é, Marília?
Temos quinze meninas e não temos espaço para mais.
Marília estava tão emocionada que sua voz quase não saiu:
- Vamos sim, Selma!
Finalmente, Deus ouviu nossas preces e o nosso sonho vai se realizar!
Selma devolveu o dinheiro para Marília:
- Guarde esse dinheiro, Marília.
Depois da exposição vamos ver quanto temos e planear a nova ala.
Marília pegou o dinheiro e, feliz, se afastou.
Selma disse:
- Entrem aqui no galpão e vejam o trabalho das meninas.
Entraram. Flora e Esmeralda se admiraram com a quantidade de meninas que estavam ali.
As meninas, ao verem entrar aquelas pessoas estranhas, levantaram-se.
Selma, sorrindo, disse:
- Meninas, estas são minhas amigas e estão aqui para conhecer vocês e o nosso trabalho.
- Algumas meninas sorriram; outras, tímidas, abaixaram os olhos.
Acompanhadas por Selma, Flora e Esmeralda se aproximaram da grande mesa e começaram a olhar os trabalhos:
roupinhas de recém-nascidos, colchas e lençóis para noivas com bordados lindíssimos e caprichados.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:44 pm

Elas ficaram encantadas com a perfeição dos trabalhos.
Esmeralda, admirada, disse:
- Estes trabalhos são lindos!
Qualquer noiva ou futura mãe ao vê-los não poderá deixar de querer comprar!
São feitos pelas meninas mesmo?
Elas são tão pequenas!
- São, Esmeralda.
Eu fui ensinando e elas aprenderam com facilidade.
Sabem como é importante para o orfanato termos dinheiro.
- Qual é a idade delas?
- A menina menor tem doze anos.
A maior é Sandra, filha de Rita, tem dezassete anos e já vai para a faculdade.
Marília a mostrou para vocês?
- Mostrou, sim.
Notei que vocês só cuidam de meninas, por quê?
Não há meninos órfãos precisando de abrigo?
- Claro que há, Flora, mas não temos espaço.
Esta casa pertencia a Marília, quando seu marido morreu e como nunca teve filhos, ela doou para que se transformasse em um orfanato.
O sonho dela e agora o meu é construirmos outra ala para que possamos cuidar de meninos também.
Com o dinheiro da exposição e, agora, com o que você nos deu, acredito que esse sonho possa ser concretizado.
- Fico feliz por ter ajudado.
Como vocês fazem para cuidar de todas essas meninas?
De onde vem o dinheiro para manter o orfanato?
- Esta cidade é cercada por fazendas, os fazendeiros nos ajudam mandando alimentos.
Temos carne, frutas e verduras, além do leite que chega todos os dias.
Além disso, algumas pessoas nos doam dinheiro, do qual usamos uma parte para outras despesas e a outra parte guardamos para a construção.
- Pensando bem, Esmeralda, o que acha de mandarmos todo mês uma quantia para ajudar com as despesas?
- Esse dinheiro vai ser muito bem empregado, Flora.
E ajudando as crianças estaremos ajudando a nós mesmos.
- Está falando sério, Flora? - Selma perguntou, entre admirada e feliz.
- Claro que sim, Selma.
O trabalho de vocês é muito bonito e precisa ser ajudado.
Quando eu voltar para casa, vou ao banco ver como andam minhas finanças e reservar um dinheiro para que possa ser doado todos os meses.
Assim, além de construírem a ala dos meninos, terão uma ajuda para poder mantê-los.
- Que felicidade você está me dando, Flora!
Nem sei como agradecer!
- Não precisa agradecer.
Estou vendo que você tem uma vida aqui e que é bem produtiva, se posso ajudar.
- Selma, preparei um chá para tomarmos enquanto conversamos.
Marília retornou e disse sorrindo.
- Que óptimo, Marília!
Olhou para Flora e Esmeralda e perguntou:
- Vamos até a sala?
- Vamos sim. - Flora respondeu, sorrindo.
Saíram do galpão e entraram na casa pela porta da cozinha, que era enorme.
Depois de passarem por um corredor, entraram em uma sala que também era bem grande.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:45 pm

Em um dos cantos da sala havia uma mesa e sobre ela uma toalha branca com um bordado delicado e lindo.
Sobre ela, xícaras e bandejas com pães, bolos e salgadinhos.
Marília apontou os lugares em que deviam se sentar e, depois, sentou-se também.
Depois de sentadas, começaram a tomar o chá e a comer as guloseimas.
Enquanto comiam, Flora falou:
- Selma disse que esta casa era sua e que você a doou para que fosse criado o orfanato, Marília.
- Verdade.
- Por que fez isso?
- É uma longa história, Flora.
- Estou curiosa, não quer nos contar?
- Não sei. É uma história como outra qualquer, sem muita graça.
- Não me parece que seja.
Alguém que doa uma casa para que se transforme em um orfanato não é assim tão comum.
Você deve ter tido um motivo muito sério para fazer isso.
- - Realmente, tive.
- Conte-nos, Marília! Temos tempo.
Só vamos nos mudar amanhã, hoje temos toda a tarde livre.
O olhar de Marília se perdeu no horizonte.
Depois de alguns segundos, voltou a falar:
- Vou contar.
Mas se ficarem cansadas basta dizer que eu paro na hora.
- Acredito que não vamos ficar cansadas, mas se isso acontecer eu mesma peço para você parar. - Flora disse rindo.
- Está bem, vamos lá.
Embora eu e o meu marido tenhamos nascido nesta cidade, só nos conhecemos quando eu tinha dezasseis anos e ele dezassete.
Eu estava indo para a escola e, como estava atrasada, corria.
Ele também, atrasado, corria logo atrás.
Foi quando uma de minhas amigas de classe chamou:
-Marília, espere!
- Ao ouvir a voz dela parei e me voltei.
Ele não teve tempo de parar e nos trombamos violentamente.
Para que eu não caísse, ele me abraçou, rindo, e nos olhamos nos olhos.
Foi olhar e se apaixonar.
Como dizem, foi amor à primeira vista. - Disse sorrindo.
- Que encontro lindo, Marília.
- Verdade! Selma, até hoje, quando me lembro, fico emocionada.
Pareceu que o destino estava esperando aquele momento para que nos encontrássemos.
- Deve ter sido o destino mesmo.
Dizem que ele tem uma maneira própria para fazer com que as pessoas se encontrem.
- Não sei se isso é verdade, Selma; mas que esse encontro foi estranho, foi. - Flora disse sorrindo.
- Continue, Marília!
- Vou continuar, Selma.
Depois de alguns segundos abraçados e nos olhando, eu me soltei e ele perguntou:
-Você estuda aqui?
- Achei aquela pergunta meio boba, pois eu estava correndo em direcção à escola.
Sim, faço o segundo ano de magistério, quero ser professora, e você?
- Estou no último ano do colegial.
Depois, vou fazer faculdade de Medicina.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:45 pm

-Medicina? Mas aqui não tem faculdade.
- Sei disso, depois que me formar vou ter de ir para a Capital.
Depois de seis anos vou voltar.
-Vai mesmo? Não acha melhor morar na Capital?
Esta cidade é tão pequena.
-É pequena, mas é a minha cidade e gosto de morar aqui.
-Por que Medicina?
-Meu pai é médico aqui da cidade, e antes dele meu avô também foi.
- Você é filho do doutor Alencar?
- Sim. Você conhece meu pai?
-Quem não conhece seu pai?
Ele é o único médico da cidade!
- Verdade. Eu, algumas vezes, me esqueço disso.
- Bia, a amiga que ainda estava ali, só que um pouco distante, se aproximou:
-Marília, estamos atrasadas, você não vai entrar?
- Naquele momento, o que eu queria mesmo era continuar conversando com ele, mas sabia que não era possível, então respondi:
-Vamos, sim.
- Quando estava me afastando, ele disse:
-Vou esperar por você na saída.
Precisamos continuar a nossa conversa.
- Ao ouvir aquilo, meu coração bateu mais forte.
Queria ficar ali, mas sabia que não podia.
Apenas acenei com a cabeça dizendo que sim.
- Nesse dia, você conseguiu acompanhar a aula, Marília?
- Claro que não, Esmeralda.
Não consegui parar um minuto de pensar nele e nos seus lindos olhos.
Quando a aula terminou, apressada, saí da sala e nem me lembrei de Bia, que me chamou:
-Marília, espere!
Estou guardando meu material.
-Não dá para esperar, Bia.
Tenho um compromisso!
- Ela começou a rir:
-Sei bem que compromisso é esse.
- Também ri e me afastei quase correndo, precisava saber se ele estava me esperando.
Quando saí pela porta, olhei para o lugar onde tínhamos nos encontrado, mas ele não estava ali.
Fiquei tão decepcionada que quase chorei.
Bia se aproximou:
-Ele não está esperando por você, Marília?
- Olhei para ela e, triste, respondi.
-Não, ele não está aqui.
Acho que estava brincando.
Vamos embora.
- Eu estava de costas para a porta, ela de frente.
Quando eu ia me virar Bia, rindo, disse:
-Ele está vindo, Marília, e correndo!
- Meu corpo todo estremeceu.
Passei a mão pelos meus olhos para que ele não percebesse que eu estava chorando.
Virei a cabeça por cima dos ombros no momento exacto em que ele se aproximou:
-Desculpe-me, o professor atrasou o final da aula.
Faz tempo que está aqui?
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:45 pm

- Não, acabei de chegar.
Estava esperando pela Bia.
Ela chegou e já íamos embora.
- Não sei por que menti.
Acho que estava envergonhada.
Ele não percebeu e perguntou:
-Ainda não sei seu nome.
O meu é Péricles e já sabe que sou filho do doutor Alencar.
- O meu é Marília e sou filha do juiz Lourenço.
- Filha do juiz?
Como nunca vi você antes?
Devemos ter ido a várias festas da cidade!
- Comecei a rir.
-Verdade, mas não me lembro de ter visto você.
Não saio muito de casa, meus pais não deixam.
Só saio com a Bia. Não é, Bia?
- Fiquei surpresa, Bia não estava mais ali.
Eu estava tão envolvida com ele que nem percebi quando ela foi embora.
Ele também não havia percebido e, rindo, disse:
-Vamos embora?
Que caminho você faz para ir para casa?
- Eu moro em uma casa lá na praça, perto do fórum.
-Moro do outro lado, mas posso acompanhar você até em casa?
- Claro que sim!
- Naquele dia começamos a namorar.
Ele me levou até a porta da minha casa.
Durante o caminho foi me contando de suas aulas e como estava ansioso para o dia em que pudesse ir para a Capital.
Eu fiquei ouvindo, mas não conseguia prestar atenção no que dizia.
Estava encantada com aquele rosto tão lindo e aqueles olhos brilhantes.
- Não acredito!
Você está falando a verdade?
Ficou boba mesmo? - Selma perguntou, rindo.
- Fiquei, sim. Não se esqueçam de que eu tinha dezasseis anos.
Marília disse, também rindo, e continuou falando:
- Quando chegamos ao meu portão, ele pegou na minha mão, olhou nos meus olhos e disse:
-Fiquei encantado assim que vi você, e olhe que nunca me interessei por menina alguma.
Meu pensamento sempre esteve só nos meus estudos.
Por isso, quero perguntar a você: quer ser minha namorada?
- Fiquei sem saber o que responder.
Ele voltou a repetir:
-Você quer ser minha namorada?
- Não sei.
-Como não sabe?
- Não sei, nunca namorei.
- Não gostou de mim?
-Gostei, gostei muito, só não sei o que fazer.
- Já que gostou, vamos namorar?
- Não sei, preciso falar com meus pais.
-Eu converso com seu pai.
Acredito que eles permitirão.
- Ele estava segurando minha mão, quando minha mãe saiu da casa e nos viu.
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:45 pm

Ela se assustou, ficou parada e apenas disse:
-Marília! Tudo bem com você?
- Eu, ainda perplexa com tudo o que estava acontecendo, olhei para ela, mas não consegui responder.
Assim que a viu, Péricles, sorrindo, soltou minha mão, abriu o portão e caminhou até ela.
Estendeu a mão e disse sorrindo:
-Meu nome é Péricles, sou filho do doutor Alencar.
Conheci sua filha e desejo começar um namoro sério com ela.
- Minha mãe, assim perplexa como eu, ficou ali, olhando para mim e para ele, mas não conseguiu dizer uma palavra sequer.
Na porta, que estava aberta, meu pai apareceu e, parecendo nervoso, olhou para mim e perguntou:
-O que está acontecendo aqui, Marília?
Péricles se voltou para ele e disse:
-Como já disse para sua esposa, Excelência, meu nome é Péricles, sou filho do doutor Alencar.
Conheci sua filha e desejo iniciar um namoro sério com ela.
Podemos conversar?
- Meu pai, surpreso, olhou para mim e perguntou:
-O que tem a dizer a esse respeito, Marília?
- Fiquei sem saber o que dizer.
Eu queria namorar com ele, mas sabia que meus pais não deixariam.
Ao ver que eu não respondia, meu pai olhou para Péricles e disse:
-Você é atrevido, rapaz.
Entre, vamos conversar.
- Ao ouvir aquilo, respirei fundo.
Conhecia meu pai e soube na hora que ele havia aceitado Péricles.
Entramos e nos sentamos em dois sofás que havia na sala.
Baixou um silêncio profundo que, embora durasse apenas alguns minutos, para mim e acredito que para todos pareceu uma eternidade.
Para quebrar o silêncio, Péricles falou:
-Como disse, conheci sua filha e desejo iniciar um namoro.
- Em seguida contou como foi o nosso encontro e terminou dizendo:
-Sei que o senhor vai dizer que somos muito jovens, mas não se preocupe com isso.
Vou me formar este ano e como quero ser médico igual ao meu pai preciso ir para a Capital.
O senhor sabe que aqui não tem faculdade.
- Meu pai olhou para mim e para minha mãe, sorriu e disse:
-Berta, peça que seja colocado mais um prato na mesa.
Esse jovem vai almoçar connosco.
- Péricles olhou para mim e sorriu.
Eu, embora ainda um pouco nervosa com aquela situação, também sorri.
Meu pai perguntou:
- Vamos almoçar, rapaz.
Logo mais preciso ir para o fórum.
-Desculpe-me, senhor, mas hoje não pode ser.
Minha mãe está me esperando para o almoço e, se eu não chegar, ela vai enlouquecer.
Sabe como é, sou filho único.
- Está certo, mas qualquer dia desses vamos almoçar.
Aliás, vou conversar com seu pai para que ele e sua mãe venham também.
- Ele vai ficar feliz, senhor.
Sempre fala muito bem a seu respeito.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:46 pm

- Levantou-se, estendeu a mão para meu pai e depois para minha mãe e, sorrindo, disse:
-Preciso ir embora, mas à noite eu volto para podermos conversar mais.
- Será bem-vindo.
Marília, acompanhe o rapaz até o portão.
- Eu estava feliz por toda aquela conversa.
Sabia que meus pais haviam aceitado Péricles e que iam permitir o nosso namoro.
Daquele dia em diante começamos a namorar.
Ele me esperava, todos os dias, na saída da escola e me acompanhava até em casa.
Só nos víamos na escola, porque ele estava estudando para prestar o vestibular.
Mesmo assim, a cada dia nosso amor foi aumentando.
O fim de ano chegou.
Eu passei para o terceiro ano e ele terminou o colegial e precisava ir para a Capital.
Foi difícil, mas sabíamos que era preciso.
No dia em que ele foi embora eu o acompanhei até a rodoviária.
Ficamos ali por um bom tempo esperando.
O ônibus chegou e, antes de entrar, ele disse:
- Você sabe que eu, se pudesse, não iria, mas é preciso.
Desde pequeno quero ser médico.
Estou pedindo que tenha paciência, vou escrever todos os dias contando como estou passando e espero que escreva também.
Nas férias eu venho e poderemos ficar mais tempo juntos.
Seis anos passam depressa e eu vou estudar muito para me formar e, assim, poder voltar logo.
Promete que vai me esperar?
- Eu estava tão emocionada e triste que não consegui responder, apenas o abracei e beijei com todo carinho e amor.
Ele entendeu, correspondeu ao meu beijo e depois abraçou meus pais e os dele que também estavam ali.
Entrou no ônibus que, logo depois, saiu devagar e eu fiquei ali, vendo-o desaparecer.
Voltei para casa e chorei muito.
- Ele cumpriu a promessa, escreveu todos os dias? - Selma perguntou:
- Claro que não, Selma.
Foi impossível com tanto para estudar, embora quisesse não havia tempo, mas veio em todas as férias e fins de semana prolongados.
- Perguntei porque achei que ia ser mesmo complicado.
As três riram. Marília continuou:
- Eu me formei no ano seguinte.
Estava animada com a minha festa de formatura e feliz por ter me tornado professora, pois aquele era o meu sonho desde criança.
O dia da festa estava próximo e eu muito feliz porque, além de ser uma noite especial, também estaria com ele.
Mandei fazer um vestido lindo verde-claro.
Ficava me imaginando naquele vestido, na música e eu em seus braços dançando a noite toda.
Em uma tarde, estava em meu quarto lendo quando o telefone tocou.
Como o livro estava em uma parte emocionante não me preocupei em atender.
Depois de algumas chamadas e vendo que ninguém atendia, me levantei e fui até a sala.
Peguei o telefone e atendi:
-Alô.
-Alô, Marília!
Que bom que está em casa!
- Péricles! Não imaginei que fosse você!
Só me telefona aos domingos.
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