As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:49 pm

- Que óptima ideia, Selma!
Vamos fazer isso.
- Vocês acham que ela vai querer ser nossa amiga depois de tudo que fizemos?
- Claro que vai, Ariete!
Ela quer ser igual e uma de nós!
- Está bem, Selma.
Vamos fazer isso.
Carlos e Roberto, calados, ouviam o que Selma contava e não conseguiam acreditar no que estavam ouvindo.
Selma, perdida no seu passado, não percebeu que eles estavam chocados e continuou:
- Naquele mesmo dia, durante o recreio, como sempre ela estava lendo.
Nós nos aproximamos:
-Que livro você está lendo, Matilde?
- Ela levantou os olhos e, parecendo surpresa, olhou para mim e respondeu:
-O livro de ciências.
Preciso estudar muito ciências, tenho um pouco de dificuldade.
- Eu me sentei ao seu lado e fiz com que Flora e Ariete também se sentassem.
-De ciências, Matilde?
Como consegue ler um livro de ciências?
- Não estou lendo, Selma.
Estou estudando a matéria que a professora passou.
Como já disse, tenho dificuldade nessa matéria.
- Dificuldade? Como pode ser?
Você foi quem tirou a nota mais alta da classe!
- Sim, mas para isso tive de estudar muito.
O que querem de mim?
Por que estão aqui?
Por que não quiseram a minha amizade?
Fiz alguma coisa que as desagradou?
- É exactamente por isso que estamos aqui tentando falar com você.
Queremos pedir desculpas pela maneira como nos comportamos.
Pensamos bem e achamos que não agimos como boas pessoas.
Você consegue nos desculpar?
- Ela olhou para Flora e Ariete, que não tiraram os olhos dela, e respondeu:
-Não tenho o que desculpar.
Minha mãe me avisou que isso poderia acontecer.
Que eu poderia ser desprezada por todas as alunas da escola, por ser sua filha e por pertencermos a uma classe social diferente.
Disse também para eu não me preocupar nem deixar me abater, pois essa é a minha chance de me formar em uma boa escola, o que seria muito bom para o meu futuro.
- Eu nem ouvi o que ela disse.
Nossa única intenção era podermos nos aproveitar da sua inteligência.
Deixando que uma lágrima surgisse em meus olhos e caísse pelo meu rosto, disse:
-Erramos muito, Matilde!
Você é inteligente e vai conseguir se formar e conseguir o que tanto deseja.
Não existe problema algum em não pertencer à nossa classe social.
Nós nos arrependemos e queremos que seja nossa amiga.
Você nos aceita?
- Notei que um brilho surgiu em seus olhos.
Percebemos que ela ficou feliz, pois sabíamos que era tudo o que mais queria, ser nossa amiga.
Daquele dia em diante ela, para nos agradar, tornou-se praticamente nossa escrava.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:49 pm

Fazia tudo o que queríamos, desde nossos trabalhos escolares até as colas para as provas.
Começamos a tirar notas boas, o que fez com que nossos pais ficassem felizes.
Para agradá-la, dávamos vestidos e sapatos que tínhamos usado somente uma vez e que não usaríamos mais.
Carlos olhou para o pai.
Roberto, assustado e revoltado com o que estava ouvindo, disse:
- Não acredito, Selma, que tenha feito isso!
Como pode, usando o dinheiro, tratar uma pessoa dessa maneira?
- Tem razão, Roberto, mas não podemos nos esquecer de que éramos quase crianças, íamos fazer quinze anos.
Também não podemos inocentar Matilde.
Ela se deixou usar por não se aceitar como era e por querer ser aquilo que nunca poderia ser.
- Talvez você tenha razão, mas isso não a inocenta do que fez com ela.
- Hoje entendo isso, mas naquele tempo ainda achava que o dinheiro podia comprar tudo.
Não me sinto inocente, pois isso foi o mínimo que fiz com ela.
O pior veio depois.
- Pior? O que você fez, Selma?
- Hoje, preciso e vou contar tudo o que aconteceu, Roberto, e quando eu terminar, você, filho, vai entender o motivo de eu ter vindo para esta cidade.
Roberto, andando de um lado para outro da cela, nervoso e decepcionado, disse:
- Continue, Selma.
Acredito que nada do que você vai dizer poderá me deixar mais decepcionado.
- Garanto que vai, sim, Roberto.
Vou continuar.
Respirando fundo, pálida e tremendo muito, ela continuou:
- Faltavam dois meses para completarmos quinze anos, e nossos pais resolveram que fariam a nossa festa no mesmo dia.
Ficamos felizes e, imediatamente, começamos a pensar nos vestidos e nas jóias que iríamos usar na festa.
Todas as famílias da alta sociedade foram convidadas e ficaram felizes, pois meu pai tinha, agora, um alto cargo político.
Todos os rapazes dessas famílias disputavam o privilégio de serem nossos pares.
A única coisa que me deixava triste e com raiva era saber que meu irmão seria o par de Ariete, mas como sabia que seria só por aquela noite e envolvida com os vestidos e as jóias que usaria no baile, deixei de pensar nisso.
Eu ficava pensando em todos os rapazes, mas não conseguia me decidir por nenhum deles.
Um dia, eu estava entrando na sala da casa delas, quando ouvi Flora falando:
-Já sei quem vou escolher para ser meu par, Ariete!
-Quem?
-José Luiz!
- Ele está no colégio interno!
Como vai fazer?
- Ainda não sei, mas vou encontrar uma maneira!
- Ao ouvir aquilo, saí de mansinho para que elas não me vissem e fui, apressada, para casa.
Assim que cheguei, olhei para o relógio, sabia que naquela hora meu irmão não estaria estudando.
Disquei os números e fiquei esperando.
Uma mulher atendeu.
Era Noélia, secretária do colégio que já me conhecia, pois todas as semanas eu pedia que minha babá mandasse uma caixa de chocolates para ela com uma cartinha com belas palavras e perfumada.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:50 pm

Por isso, não importava a hora que eu telefonasse, ela chamava por ele.
Eu aprendera o poder que o dinheiro tinha e que, com ele, poderia conseguir tudo o que quisesse.
Ao ouvir minha voz, ela disse:
-Boa tarde, Selma.
Já sei: quer falar com seu irmão, acertei?
- Isso mesmo, senhorita.
Será que poderia, por favor, chamá-lo?
- Vou, sim. Aguarde um momento.
- Feliz, sorri.
Sabia que ela não colocaria empecilho algum.
As caixas de chocolate eram muito pouco para ter aquela mulher a meu serviço.
Sempre pedia que a minha babá mandasse chocolates para ela.
Enquanto Selma contava o que havia acontecido, a todo instante enxugava as lágrimas com as mãos e continuava falando:
- Alguns minutos depois, ouvi a voz do meu irmão:
-Selma, que felicidade!
Estou morrendo de saudade!
- Eu também, só estou menos triste porque sei que virá para minha festa!
- Estou contando os dias, Selma!
- É por causa da festa que estou telefonando.
- Da festa, por quê?
- Quero muito que José Luiz seja meu par.
Você acha que ele aceitará?
- Acredito que sim.
Ele sempre me fala da sua beleza e educação.
Sabe que, quando éramos crianças, quando estávamos brincando juntos e havia alguma discussão entre você e as meninas, ele sempre ficava do seu lado, mesmo que no meu entender você não tivesse razão.
Acredito que ele vai ficar muito feliz.
- Quase não consegui esconder a minha satisfação ao ouvir aquilo.
-Que bom!
Converse com ele e, se aceitar, peça que telefone para seus pais, diga que quer ser meu par e peça que eles telefonem para papai, está bem?
Nem eles nem ninguém pode saber que fui eu quem fez o convite.
- Ele deu uma gargalhada e disse:
-Está bem, maninha.
Vou conversar com ele e prometo que não comentaremos com ninguém.
Porém, não pensei que já estivesse interessada em rapazes.
- Senti que meu rosto ficou vermelho, porque até aquele dia eu nunca havia pensado em nenhum rapaz e só estava fazendo aquilo para deixar Flora com raiva.
Um pouco envergonhada, disse:
- Não se trata disso, só preciso de um par para a minha festa.
- Está bem.
Não se preocupe, sei que ele vai aceitar.
Agora, preciso desligar, já vai começar a minha aula.
-Está bem.
Um beijo e até o dia da sua festa.
- Agradeça a senhorita Noélia por ter chamado você.
- Vou agradecer.
Até o dia da festa.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:50 pm

- Rindo e pulando de alegria, desliguei o telefone.
Estava feliz e só me restava aguardar o dia em que meu pai viesse me comunicar que José Luiz seria meu par.
Eu não contaria para Flora e Ariete e só faria isso no dia em que fosse confirmado.
Durante a semana, a maioria dos dias passávamos na minha casa, mas todos os sábados eu ia para a casa delas.
No sábado seguinte, fui para lá.
Estávamos falando sobre um livro que tínhamos lido e que seria tema de uma peça teatral na escola - Romeu e Julieta. Ariete falou:
-Eu seria capaz de me matar por um homem, ainda mais se fosse traída!
Não suporto traição!
- Eu e Flora, admiradas, olhamos para ela.
Flora, nervosa, disse:
-Está louca, Ariete?
Como pode dizer uma coisa dessas?
-Não sei por que tanta admiração.
O amor é sublime, e a única coisa que tem importância nesta vida.
-É sublime, mas não se pode pensar em morrer por ele, além do mais existem muitas outras coisas importantes na vida!
-Precisamos levar em conta que existem muitos homens, não é Flora?
- Claro que é, Selma!
Essa minha irmã tem alguns pensamentos que não entendo.
Imagine se eu vou morrer por causa de alguém!
Nunca, mesmo!
- Ariete, com o olhar distante, ficou calada e continuamos falando sobre o livro.
Logo depois aquele assunto fúnebre foi esquecido.
Estávamos rindo sobre outro assunto qualquer, quando minha mãe entrou e, rindo, falou:
- Selma, o Atílio telefonou e disse que o José Luiz quer ir ao baile com você, como seu par.
- Eu fingi surpresa, me levantei e, quase chorando, falei:
-Eu não quero José Luiz como meu par, mamãe!
Não gosto dele!
- Disfarçando, olhei para Flora, que estava branca como cera.
Ao ver seu rosto, fiquei feliz e fiz um esforço enorme para que ela não percebesse.
Minha mãe, como eu esperava, disse:
-Você não pode fazer isso, Selma!
O Atílio e sua família são muito importantes e têm muito dinheiro.
Ele é amigo de nossa família e, além disso, tem muita influência política, que é o que seu pai mais precisa no momento!
Você precisa aceitar esse convite para se aproximar mais de José Luiz, pois ele é um óptimo partido.
-Não quero aproximação alguma com ele, mamãe!
Já disse que não gosto dele!
Só vou me casar com um homem que ame verdadeiramente.
Com um príncipe encantado!
- Não tem jeito, eu não vou causar constrangimento entre a nossa família e a dele!
Você vai e está resolvido!
Quanto ao príncipe encantado, só se ele pertencer a uma família tradicional e com muito dinheiro!
- Assim que minha mãe saiu, fingi estar nervosa:
-Eu não vou ao baile com ele, não vou!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:50 pm

- Flora, que acompanhou a conversa em silêncio, respirou fundo:
-Você precisa ir, Selma.
Não viu como sua mãe falou?
Vai ter de ir.
- Não! Vou falar com meu pai.
Eu não quero ir com José Luiz!
- Talvez consiga convencer seu pai, mas eu não acredito.
Ele deve pensar como sua mãe e quer cuidar de seus interesses.
- Hoje eu me envergonho, mas naquele dia eu me julguei a pessoa mais feliz do mundo.
Tinha conseguido vencer Flora mais uma vez.
Depois de alguns minutos, visivelmente triste, ela se levantou dizendo:
-Vamos embora, Ariete.
Vou telefonar para mamãe mandar o Gilberto nos pegar.
- Já, Flora?
Ainda é cedo. - Perguntei, fingindo tristeza.
-Estou com dor de cabeça, Ariete.
Acho que vou ficar gripada.
Vamos embora, vamos.
- Está bem. Vá telefonar.
- Assim que Flora saiu da sala, olhei para Ariete e perguntei:
- O que deu nela, Ariete?
Ela estava bem, não tinha dor de cabeça alguma.
- Estava bem, Selma.
Mas gripe é assim mesmo, chega de repente.
- É verdade. Amanhã ela vai ficar bem.
Agora, precisamos pensar no nosso baile.
Vai ser lindo, mesmo eu tendo de ir com José Luiz.
- Não entendo por que está tão nervosa, Selma.
Ele é muito bonito.
-Você acha, Ariete?
- Eu acho, e tem mais:
Flora queria ir com ele, até ia pedir ao nosso pai que o convidasse.
- Fingi surpresa.
-Não, Ariete! Não diga isso!
Jamais poderia imaginar.
Ela nunca disse que gostava dele.
- Flora não gosta de falar sobre isso.
Só me disse uma vez que queria ir com ele.
Deve ter ficado triste quando ele escolheu você.
- Eu não sabia, Ariete.
Agora tenho um argumento para me recusar a ir com ele!
Vou conversar com meus pais.
Eles precisam entender que Flora é minha amiga e não quero que ela fique magoada.
- Não faça isso, Selma.
José Luiz quer ir com você e Flora precisa aceitar isso.
Ela não pode saber que te contei!
-Você acha que ela vai ficar furiosa?
Claro que vai!
Você sabe como ela é orgulhosa e jamais aceitaria José Luiz, depois que você o recusou.
- É, acho que você tem razão.
Mas, por favor, não conte que eu sei que ela gosta dele.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:48 pm

- Claro que não vou contar!
Ela não me perdoaria nunca!
- Elas foram embora e eu fiquei muito feliz.
Assim que saíram, fui para o meu quarto, comecei a pular na cama e a rir sem parar.
Carlos, que até aqui estava calado, levantou-se e disse quase gritando:
- Mamãe! Não consigo acreditar que a senhora tenha sido tão ruim!
Como pôde fazer isso?
Ela era sua amiga!
A senhora foi muito má e sempre me disse que eu precisava ser leal, amigo dos meus amigos e que eu não devia ter preconceito algum!
- Sempre disse e é verdade, meu filho.
Você precisa ser leal, e se um amigo seu precisar você deve ajudá-lo de todas as formas possíveis.
Não deve ter preconceito algum! Nunca!
- Mas se a senhora não fez isso, como pode querer que eu faça?
A senhora foi muito má!
- Hoje sei disso, mas naquele tempo eu era uma menina mimada que nunca havia sido contrariada e que achava que podia ter tudo o que queria, sem me preocupar a quem estava prejudicando.
Sei que errei e ainda não contei tudo o que fiz, mas paguei muito caro por isso.
- Está bem, mamãe. Continue.
- Depois daquele dia, a minha única preocupação era a nossa festa.
Matilde um dia chegou e disse:
-Eu gostaria muito de ir à festa de vocês, Selma.
- Por que não vai?
- Infelizmente, não pertenço a uma família tradicional para ser convidada e também não tenho um vestido.
- Não pertencer a uma família tradicional é um problema, mas daremos um jeito.
Quanto ao vestido, não precisa se preocupar.
Vou dar um dos meus.
-Vai permitir que eu vá e ainda vai me emprestar um vestido?
-Claro que sim, afinal somos amigas.
Só tenho uma condição.
-Que condição?
Pode pedir o que quiser que eu sempre farei tudo por você!
-Quero que continue me ajudando com os meus trabalhos escolares e se, algum dia, eu precisar de sua ajuda, tem de prometer que vai me ajudar.
-Claro que vou continuar fazendo os trabalhos de vocês e farei tudo o que pedirem!
Estou muito feliz em poder ter vocês como amigas!
- Nem sei o porquê de ter pedido aquilo para ela, pois sabia que eu a teria sempre em minhas mãos.
O dia da festa chegou.
Depois de muito conversarem, meus pais e os pais delas resolveram que o melhor local para a festa seria a nossa casa, por ser maior.
No dia da festa, as portas da minha casa foram abertas para todos os convidados.
A imensa sala da casa foi decorada de uma maneira maravilhosa.
Eu, Flora e Ariete estávamos vestidas com vestidos cor-de-rosa, que era a cor de toda a decoração.
José Luiz foi o meu par e, enquanto dançávamos, eu olhava para Flora e podia ver o descontentamento em seu rosto e aquilo me deixou feliz.
A única coisa que me desagradou foi ver meu irmão ao lado de Ariete.
Ficaram o tempo todo conversando e dançando.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:48 pm

Aquilo me irritou muito, mas como era minha festa resolvi deixar pra lá, sabia que teria muito tempo para separá-los.
Naquela noite, foi tudo perfeito e eu estava feliz, muito feliz.
José Luiz tentou me fazer a corte.
Eu sabia que ele gostava de mim mas não estava interessada nele e em nenhum outro rapaz, eu me achava boa demais para qualquer rapaz que conhecia.
Acreditava em contos de fadas e sabia que o meu príncipe apareceria a qualquer momento.
Matilde desfilava no meio dos convidados, e quem não a conhecia jamais poderia imaginar que não pertencia ao nosso mundo.
Ela, embora estivesse com um vestido simples, o mais feio que eu julgava ter e que havia sido um presente de minha avó, por sua beleza chamava atenção, e todos os rapazes disputavam o momento de poderem dançar com ela que, sorrindo, dançava com todos.
O único que não fazia isso era meu irmão.
Para ele só existia Ariete, o que me irritava profundamente.
Depois daquela noite, José Luiz e meu irmão voltaram para o colégio, e eu nunca escrevi para ele ou respondi suas cartas.
O tempo foi passando e nós continuamos com nossa vida de sempre.
Todo tempo livre era usado em visitas a costureiras, cabeleireiras e joalharias.
Comprávamos coisas que nem sempre usávamos, mas que nos faziam felizes somente em comprá-las.
Continuamos estudando e, graças a Matilde, sempre tirando boas notas.
Em um sábado, estávamos em minha sala conversando, faltavam poucos meses para a nossa formatura.
Eu não tinha vontade alguma de ensinar.
Só havia frequentado o colégio por ordem dos meus pais.
Queria ser alguém com fama, com sucesso, não perderia meu tempo ensinando crianças.
O mesmo pensavam Flora e Ariete.
A única que tinha essa vontade era Matilde.
Para ela, ensinar era uma bênção e uma maneira de ganhar um salário e ajudar os pais.
Nós três, por termos sido criadas com tudo, não imaginávamos o que significava isso.
Naquela tarde, Ariete estava muito feliz e disse:
-Recebi uma carta de seu irmão, Selma!
Ele disse que virá para a nossa formatura e que, nesse dia, vai conversar com meus pais e me pedir em casamento, e assim que ele terminar a faculdade vamos nos casar!
Estou tão feliz!
- Ao ouvir aquilo, senti como se uma flecha houvesse me atingido bem no coração, mas disfarcei:
-Ele disse isso, Ariete?
- Disse, e eu não vejo a hora que ele chegue!
- Matilde foi a única que ficou feliz e ao mesmo tempo triste, e disse:
-Parabéns, Ariete.
Você tem muita sorte, pois ele, além de muito rico, é também muito bonito!
Eu queria ser você!
- Nós três olhamos para ela ao mesmo tempo.
Ariete, furiosa, gritou:
-Não se atreva a olhar para ele!
Sei que você é muito bonita, mas é de mim que ele gosta e é comigo que vai se casar!
-Calma, Ariete!
Sei disso, falei por falar.
Vocês vão se casar e serão muito felizes!
Jamais faria qualquer coisa para atrapalhar seu casamento.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:49 pm

- Naquele instante em minha mente encontrei uma maneira de separar os dois.
Meu irmão não se casaria com Ariete nem com ninguém!
- A senhora tinha muito ciúme de seu irmão, por que, mamãe?
- Não sei explicar.
Eu gostava de Ariete, mas não podia imaginar nem aceitar que ela se casasse com ele.
- Tivemos o baile de formatura, e como não poderia deixar de ser estávamos deslumbrantes.
Os pais de Matilde, embora não tivessem muito dinheiro, fizeram questão de comprar o seu vestido e, como sempre, ela brilhou no baile.
Meu irmão veio e ficou o tempo todo abraçado e dançando com Ariete.
No dia seguinte, enquanto tomávamos café, ele, de repente, disse:
-Como devem saber, eu e Ariete nos gostamos desde a nossa infância.
Vou me formar no ano que vem e depois vou para a Inglaterra fazer um estágio na embaixada e quero que ela vá comigo, como minha esposa, por isso estou pedindo a sua mão em casamento.
- Aquelas palavras me fizeram estremecer.
Embora eu soubesse que aquilo poderia acontecer, não poderia aceitar, nunca!
Mas ainda que não aceitasse fingi estar feliz.
Teria um ano para pensar em uma maneira de impedir aquele casamento; porém, ao contrário de mim, meus pais ficaram encantados com a notícia.
Minha mãe levantou-se e andou em volta da mesa e, quando chegou perto dele, abraçando-o, disse:
-Que bom, meu filho!
Ariete, além de ser uma moça linda, foi praticamente criada aqui em casa e eu a considero como filha.
Estamos muito felizes com a sua decisão.
- Não suportando mais aquela situação, levantei-me e gritei:
-Você não vai se casar com ela nem com ninguém!
- Saí correndo dali e fui para o meu quarto.
Roberto, que estava sentado sobre a cama, levantou-se e, muito nervoso, disse:
- Não consigo acreditar que você seja essa pessoa, Selma!
- Não sou mais, Roberto!
Eu mudei! Hoje, sou essa pessoa que você conhece.
- Por que não me contou tudo isso quando nos conhecemos e nos casamos?
- Eu não poderia, Roberto.
Estava com medo e envergonhada por tudo o que havia feito.
E também sua tia achou melhor que ninguém soubesse para que eu pudesse recomeçar minha vida aqui nesta cidade.
- Está muito difícil, para mim, continuar ouvindo o que está contando, Selma.
- Sei disso, mas não tem outra maneira.
Preciso contar tudo o que aconteceu e o motivo de eu estar nesta cidade.
Por favor, continuem me ouvindo.
Carlos estava sentado no chão com os joelhos dobrados e com a cabeça entre eles, sem conseguir olhar para a mãe, que continuou:
- O ano passou rapidamente.
Eu, Flora e Matilde continuamos a nos encontrar como antes.
Ariete quase não nos acompanhava mais.
Estava preocupada somente com seu casamento e enxoval.
Matilde não era mais útil ou necessária para nós mas como eu havia planeado que ela me ajudasse a separar Ariete de meu irmão, continuei e fiz com que elas continuassem com sua amizade.
Ela não frequentava mais nossa casa como antes, mas ainda ia até lá de vez em quando e queria a nossa amizade, pois assim poderia conhecer rapazes de classe social diferente da dela e conseguir um bom casamento.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:49 pm

Eu ia completar vinte e um anos.
Meu irmão ia se formar naquele ano e, para nossa surpresa, telefonou e disse:
- Não quero continuar aqui até o baile de formatura, mamãe.
Quero voltar para casa assim que terminarem as aulas e eu estiver formado.
-Por que, meu filho?
- Estou cansado de ficar longe de casa e com muita saudade de todos.
-Não faça isso, meu filho!
Estamos nos preparando para ir até aí para o baile.
-Sei disso, mas quero voltar e ficar o maior tempo possível, antes de seguir para a Inglaterra e continuar estudando.
- Está bem, já que é isso que quer vamos ficar felizes, pois também estamos com muita saudade.
- Na semana em que chegou, foi uma festa em casa.
Eu estava muito feliz em ter meu irmão de volta.
Depois dos abraços ele disse:
-Agora, vou até a casa de Ariete.
Precisamos conversar com seus pais para marcarmos a data do casamento.
Não pode demorar muito, pois dentro de três meses preciso ir para a Inglaterra.
-Faça isso, meu filho.
É triste saber que vai partir novamente, mas sabemos que é preciso para que possa ter uma carreira brilhante, e sabendo que vai com Ariete, ficamos mais tranquilos.
- Ele saiu e voltou algumas horas depois.
Estava acompanhado por Ariete e Flora.
As duas estavam felicíssimas.
Ariete, assim que me viu, correu e me abraçando disse:
-Estou muito feliz, Selma!
Finalmente vamos nos casar, daqui a dois meses!
Meus pais concordaram e disseram que daqui a duas semanas, no sábado, farão uma grande festa para o nosso noivado e para comunicar e convidar a sociedade.
- Ao ouvir aquilo, percebi que o casamento ia mesmo se realizar e que precisava encontrar uma maneira de impedir.
Fingindo uma alegria que não estava sentindo, disse:
-Fico feliz em ter você como minha cunhada!
- Saiba que esse é o meu sonho, desde pequena, Selma!
- Ficamos aquela tarde toda conversando, rindo e fazendo planos para a festa do sábado.
Nós três combinamos que iríamos à nossa costureira para fazer três lindos vestidos.
Quando foram embora, fui para o meu quarto e chorei muito.
Depois de chorar, sequei os olhos e pensei:
- Eles vão se casar mesmo.
Preciso encontrar uma maneira de impedir!
Não quero que meu irmão se case nunca!
Nem com ela, nem com ninguém!
- Foi aí que tive a ideia que mudaria toda minha vida.
No dia seguinte, logo pela manhã, pedi a Josias que me levasse até a casa de Matilde.
Eu não sabia o que havia acontecido com ela, pois desde a nossa formatura nunca mais a vi.
Ela veio em casa algumas vezes, mas eu sempre mandei dizer que não estava.
Ela não servia para ser minha amiga, era pobre.
Assim que cheguei, ela, surpresa, me recebeu com todo carinho e alegria:
-Selma! O que está fazendo aqui tão cedo?
- Eu, fingindo alegria também, a abracei e disse:
-Vim visitar você.
Desculpe eu ter vindo sem avisar.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:49 pm

Tem algum problema?
- Claro que não, Selma.
Estou dando aula em uma escola para crianças, mas vai ser por pouco tempo.
Prestei um concurso e vou trabalhar em uma escola do Estado.
Vou ser funcionária pública e dar aula para crianças pobres.
Esse sempre foi o meu sonho!
- Para mim, aquilo nada significava.
Eu nem sabia muito bem o que era ser funcionária pública, muito menos o que era criança pobre.
Sorri e menti:
-Estou muito feliz por você, Matilde, e pelas crianças.
- Só estou curiosa em saber o porquê de você ter vindo em um dia de semana, Selma, ainda mais levando em consideração que faz muito tempo que não nos vemos.
- É verdade, Matilde, mas estou precisando da sua ajuda e espero que não me falte.
- Claro que ajudarei sempre que precisar!
Você é minha amiga, mesmo eu não sendo da sua classe social sempre me tratou com muito carinho.
- Eu ri por dentro e pensei:
Será que ela nunca percebeu que nós só a aceitamos porque era inteligente e poderia nos ajudar com as notas no colégio?
- Vendo que ela faria tudo o que eu quisesse, perguntei:
-Você sabe que meu irmão vai se casar com Ariete?
- Sabia que iam se casar, mas não quando. - Disse sorrindo.
-Já marcaram o dia.
Vai ser daqui a dois meses!
- Tão rápido! Seu irmão já se formou e voltou para casa?
- Sim, e combinou com meus pais e os de Ariete que se casariam daqui a dois meses.
Por isso, os pais resolveram dar uma festa daqui a duas semanas para comunicar e convidar as pessoas da sociedade.
- Uma festa? Que bom!
E você está aqui para me convidar?
- Isso mesmo!
Você não poderia deixar de ser convidada!
É nossa amiga de tanto tempo e sei que adora festas!
- Obrigada, Selma.
Estou muito feliz por ter se lembrado de mim!
- Estou aqui para dizer que, se você me ajudar, vou comprar um vestido só para você.
Desta vez não vai usar vestido meu ou das meninas!
Ele será só seu.
- O que está dizendo, Selma?
- O que ouviu, Matilde!
Vou ainda comprar sapatos e pedir ao nosso cabeleireiro que faça um lindo penteado em você!
- Isso que está dizendo é verdade?
- Claro que é!
Você só precisa participar de uma brincadeira!
- O que preciso fazer?
- Percebi que seus olhos brilhavam muito!
Sentindo que ela faria qualquer coisa que eu quisesse, continuei:
-Nós estamos pensando em fazer uma brincadeira com Ariete no dia da festa, mas para isso precisamos da sua ajuda.
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:49 pm

- Que brincadeira?
- No sábado, durante a festa, meu irmão irá para o jardim e você irá em seguida.
Assim que se aproximar dele, você irá abraçá-lo e beijá-lo.
Ariete será levada até lá e verá vocês se beijando.
- O que está dizendo, Selma?
- O que você ouviu, Matilde!
Vamos enganar Ariete somente para ver sua reacção e podermos rir muito!
- Isso não vai dar certo, Selma!
Sabemos como Ariete é ciumenta, vai ficar possessa e é capaz de me bater na frente de todos os convidados!
- Aí é que vai estar a graça, Matilde!
Quando ela ficar braba, todos nós entraremos e diremos que era somente uma brincadeira!
Ela, vendo todos rindo e aliviada em saber que não foi traída vai rir também.
- Será que ela vai entender e aceitar, Selma?
- Claro que vai!
Como pode duvidar vendo todos nós dizendo que é mentira?
Ela vai rir muito, como todos nós!
- Não sei, não, Selma.
Estou com medo.
- Percebendo que ela não aceitaria minha proposta, pensei rápido e falei:
- Você pode ir amanhã comigo até a loja para comprarmos os tecidos para mandar fazer os nossos vestidos?
- O meu também?
- O seu também, Matilde!
Quero que fique bem bonita!
Você merece!
- Você vai amanhã?
- Sim. Para que dê tempo de ficarem prontos, Matilde!
Depois de escolhermos os tecidos, poderemos também escolher os sapatos.
Quer ir comigo?
- Ela ficou me olhando parecendo que pensava e respondeu:
- Está bem.
Você tem certeza de que vai sair da maneira como está pensando?
Que não vai ter problema algum?
-Claro que não vai ter problema algum, Matilde!
Nós vamos dar boas risadas!
- Não comente com ninguém a respeito do que conversamos.
Combinei com Flora que ia conversar com você e, se aceitasse, eu falaria com ela.
- Não vou comentar, mesmo porque não tenho como me encontrar com elas nem com ninguém antes do dia da festa.
Sabe que trabalho e preciso preparar as aulas, por isso não tenho muito tempo.
Além do mais, Flora e Ariete, depois que terminamos o colégio, nunca mais me procuraram, até tentei entrar em contacto com elas, mas não consegui.
-Isso aconteceu por falta de tempo.
Depois da formatura, muita coisa aconteceu e ficamos ocupadas.
- Sei disso e não me importei.
Gosto de vocês e sei que também gostam de mim.
- Saí da casa dela feliz, pois sabia que meu plano daria certo.
Assim que Ariete visse meu irmão com Matilde não suportaria e largaria dele para sempre.
Estava tudo certo.
A vontade de Matilde em ser como uma de nós faria com que fizesse aquilo que eu quisesse.
Ao ouvir aquilo, Roberto colocou as mãos sobre o rosto e se afastou um pouco.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:49 pm

Selma, ao ver que ele se afastou, perguntou:
- O que está acontecendo, Roberto?
Por que se afastou?
Ele olhou para ela e demonstrando todo o desespero que estava sentindo, quase chorando, respondeu:
- Como pode me fazer essa pergunta, Selma?
O que acha que estou sentindo ao ver que a mulher boa e carinhosa e óptima mãe pôde um dia ter uma mente tão perversa?
Estou enojado com tudo isso!
Ela que, enquanto contava a história havia parado de chorar, voltou a ficar com os olhos cheios de lágrimas:
- Tem razão.
Sei que errei muito e nem posso dizer que era criança, pois não era; mas eu mudei, Roberto!
Eu sou, agora, essa que você conhece!
Precisa me perdoar!
Somos uma família e amo vocês dois!
- Desculpe, estou muito nervoso com tudo isso que está acontecendo, vendo que nossa família está desmoronando e que na realidade ela nunca existiu, foi tudo uma mentira!
- Não fale assim.
- Papai tem razão.
Mamãe, a senhora deveria ter contado a ele, assim que o conheceu.
- Hoje entendo isso, mas naquele tempo fiquei com medo de perdê-lo, Carlos.
Eu tinha e tenho consciência de tudo o que fiz e sei que não mereço ser feliz.
Preciso que me perdoem por tudo que ainda não contei.
- Está bem. Eu amo a senhora.
É minha mãe muito querida, e acho que se fez algo de ruim se redimiu.
Continue contando.
Selma olhou para Roberto que, lentamente, voltou para onde estava e ficou olhando para ela, esperando que continuasse a contar o que havia acontecido.
Ela continuou:
- No dia seguinte, logo pela manhã, eu estava em frente à casa de Matilde.
Ela, sorridente, atendeu a campainha que Josias tocou.
Entrou no carro e fomos para uma loja de tecidos.
Deixei que escolhesse aquele que queria.
Depois, fomos até a costureira e ela escolheu o modelo e também os sapatos que seriam confeccionados com o mesmo tecido do vestido.
Pela primeira vez eu estava fazendo isso sem a companhia de Flora e de Ariete.
Sempre que havia uma festa comprávamos os tecidos e escolhíamos os modelos juntas.
Depois da costureira eu disse:
-Agora o Josias vai me deixar em casa e levar você até a sua, Matilde.
Quando chegar vou telefonar ao cabeleireiro para que venha no sábado à tarde nos fazer um lindo penteado.
- Nem estou acreditando que tudo isso está mesmo acontecendo, Selma!
Pela primeira vez, vou usar um vestido só meu, que eu escolhi!
Estou muito feliz, parecendo a Cinderela!
- Está vendo como contos de fadas podem se tornar realidade?
Quem sabe nesse baile você encontre o seu príncipe encantado?
- Ela começou a rir:
-Quem sabe. Embora eu já tenha um príncipe encantado, mas ele nunca me olhou.
Tomara que no baile ele me olhe.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:50 pm

- Tem um príncipe?
Quem é? Eu conheço?
- Ela, com os olhos brilhantes, respondeu:
-Conhece, sim, mas não vou dizer quem é.
-Agora me deixou curiosa, quem é ele?
- Promete que não vai rir e me achar louca?
- Claro que não vou rir.
Só estou curiosa e quem sabe eu possa ajudar você!
- Você me ajudaria, Selma?
- Claro que sim, Matilde, você é minha amiga!
- Desde que o conheci me apaixonei por ele, mas sempre soube que ele nunca se interessaria por mim.
- Quem é ele, Matilde?
- José Luiz.
- José Luiz?
Não pode ser, Matilde!
Ele é nosso amigo e você nunca demonstrou que gostava dele!
-Nunca demonstrei e não vou demonstrar agora.
Só estou rezando para que ele olhe para mim com olhos diferentes dos de um amigo.
Estou com muita esperança que isso aconteça na festa!
- Vou conversar com ele.
- Não vai contar, vai?
-Não. Fique calma.
Só vou dizer que você está linda e fazer com que olhe com interesse.
Vou pedir que a convide para dançar e daí para frente fica por sua conta. - eu disse, piscando um olho.
- Ela sorriu. Quando o carro ia entrando no portão da minha casa para me deixar em frente à porta, eu disse:
-Não entre, Josias.
Matilde está atrasada para ir à escola.
Leve-a rapidamente.
- Está bem, senhorita.
- Desci do carro e, enquanto ele saía, acenei com a mão dando adeus.
Matilde, deslumbrada com tudo o que estava acontecendo, também acenou.
Fiquei olhando e, quando desapareceram, voltei-me, entrei e comecei a andar em direcção à porta.
A distância era de mais ou menos vinte metros.
Enquanto caminhava pensava:
José Luiz? Como pode?
Quem é ela para querer um rapaz como ele?
- Eu nunca havia pensado em José Luiz a não ser como amigo, mas naquele instante tive um pensamento diferente a seu respeito.
Jamais permitiria que ele se interessasse por ela ou por ninguém.
Sempre soube que ele me amava e muitas vezes demonstrou isso, mas sempre o desencorajei.
Ele não era o rapaz que eu sonhava.
Eu queria alguém diferente dele mas, naquele momento, comecei a achar que poderia namorá-lo, mesmo que fosse apenas por algum tempo, somente para mostrar a Matilde que ele nunca seria dela.
Roberto e Carlos olharam para ela ao mesmo tempo.
Ela, entendendo o que estavam pensando, disse:
- Sei o que estão pensando e hoje entendo.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:50 pm

Eu era muito mimada e sempre tive tudo o que queria.
Por isso, não poderia permitir que alguém tivesse aquilo que eu julgava ser meu.
Hoje aprendi que, quando temos muito, queremos sempre mais e nos julgamos superiores a todos os outros.
Mas, naquele dia, eu estava disposta a não permitir que José Luiz se interessasse por ela.
- Não consigo me conformar que você era assim, Selma.
- Nem eu, papai.
Essa pessoa não pode ser minha mãe.
- Entendo e aceito o que estão pensando e dizendo.
Não existe desculpa para tudo o que fiz, mas fiz e procurei me redimir, sendo uma boa esposa, mãe e ajudando as crianças do orfanato.
Sofri muito para entender isso e consegui.
Podem ter certeza de que nunca mais serei aquela novamente.
- Está bem, Selma.
Mas continue, por favor.
Quase não estou conseguindo ficar aqui e só não vou embora por estar preso.
- Eu poderia ir embora, mas não vou, papai.
Preciso ouvir toda a história.
O que aconteceu na festa, mamãe?
- Durante os dias que antecederam a festa, eu e Matilde saímos quase todas as manhãs e à tarde eu me encontrava com as meninas na minha casa ou na casa delas.
Uma vez, Ariete estava toda feliz nos mostrando o enxoval que havia mandado fazer.
Era tudo muito bonito.
Ela pegou um jogo de lençóis brancos, todo bordado a mão.
Achei lindo.
Ela, percebendo o meu olhar, disse:
-Este fui eu mesma que bordei, Selma!
- Você bordou por que, Ariete?
-Este é especial, vai ser usado na nossa primeira noite!
Quero que ela seja inesquecível!
Ao ouvir aquilo, Flora começou a rir:
-Você não tem nem casa, Ariete!
Está indo para a Inglaterra!
- Sei disso, Flora, mas vamos passar a primeira noite em um hotel.
Papai disse que, enquanto estivermos viajando, ele vai nos comprar uma casa grande e linda para que quando voltarmos tenhamos a nossa própria casa.
- Papai também disse que quando eu me casar vai me dar uma casa.
Espero que seja perto da sua.
- Ariete sorriu e beijou o rosto de Flora, que retribuiu.
Elas eram muito apegadas e se adoravam.
Fiquei calada.
Estava com muita raiva daquela conversa.
Fiquei mais convencida de que precisava fazer tudo para impedir aquele casamento.
Sem imaginar o que eu estava pensando, Flora perguntou:
-Por que o mistério com o seu vestido, Selma?
Não estou entendendo.
- Fui pega de surpresa e levei alguns segundos para responder:
-Não está entendendo o que, Flora?
- Sempre compramos os tecidos e escolhemos os modelos juntas, mas, desta vez, você está fazendo tudo sozinha, por quê?
- Minha mãe cismou de escolher comigo.
Achei que vocês não iam querer sair com ela, por isso não contei.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:50 pm

Querem sair com ela?
- Claro que não, Selma!
Sua mãe é muito chata! - respondeu rindo.
- Depois de algum tempo, fui embora.
Eu e Matilde continuamos a nos encontrar todos os dias.
Eu precisava fazer com que ela entendesse todos os detalhes do meu plano para que nada desse errado.
No dia em que fomos fazer a segunda prova dos vestidos, e assim que ela o vestiu, percebi que havia ficado perfeito.
A beleza natural de Matilde, com aquele vestido, sobressaiu muito mais.
Tirei da bolsa um colar e brincos que havia comprado para dar a ela.
Eram de esmeralda e combinavam com seus olhos verdes e com o vestido, verde também.
Ela, ao colocar o colar e os brincos, começou a rir como uma criança que ganha um brinquedo.
-São lindos, Selma!
Prometo que vou cuidar deles muito bem e devolver no dia seguinte da festa!
- Não precisa devolver, Matilde.
Eles são seus.
Comprei para que combinassem com seu vestido e com seus olhos.
-Meus, Selma?
Mas são muito caros!
- Podem ser caros para você mas, para mim, nada representam.
Tenho muitas jóias e tudo o que quero.
E você vai ficar linda!
- Enquanto se olhava no espelho com o vestido, o colar e os brincos, disse:
-Minha mãe está preocupada com tudo isso que você está fazendo por mim, Selma.
- Preocupada, por que, Matilde?
- Depois que meu pai morreu, ela criou, sozinha, eu e meus dois irmãos.
Sempre disse que, se quiséssemos crescer na vida, precisávamos estudar e nos preparar.
Ela sempre se preocupou muito com a nossa educação e conseguiu a bolsa para que eu estudasse no colégio.
Ficou feliz, só que muito preocupada, pois nunca aprovou a minha amizade com vocês.
- Por quê?
- Ela sempre disse que pessoas ricas não se preocupam e nem têm amizade com os pobres.
Disse que elas só têm amizade quando podem tirar algum proveito.
Por isso, pediu que eu tomasse muito cuidado.
- Você acha isso também?
- Ela, sorrindo, respondeu:
-Sempre soube que vocês se aproveitaram de mim.
Sempre fiz os trabalhos escolares, pois sabia que aquela era a única maneira de vocês me aceitarem, mas nunca me importei com isso, eu gostava e ainda gosto de vocês.
- Pensou isso, Matilde?
- Claro que sim, Selma.
Vocês mesmas sempre disseram que eu sou inteligente, como poderia deixar de perceber o que faziam comigo?
- Naquele momento me envergonhei, não pelo que tínhamos feito, mas por saber que ela sempre soube e que não éramos tão inteligentes assim, então disfarcei:
-Sempre gostamos de você, Matilde.
Claro que podendo nos ajudar foi melhor, mas mesmo que não tivesse nos ajudado a nossa amizade seria a mesma.
- Ela sorriu com ironia.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:50 pm

Eu continuei:
-Agora, precisa tirar esse vestido.
Amanhã é o grande dia.
Venha para minha casa logo pela manhã.
Marquei com o cabeleireiro.
- Ela, olhando para o relógio, disse:
-Estou atrasada, Selma!
Ajude-me a tirar o vestido!
- Você não vai levar o vestido, Matilde?
- Não, Selma!
Minha mãe não aceitaria um presente como esse!
Ainda mais se eu disser que foi você quem me deu!
-Você já usou e ganhou muitos vestidos e sapatos meus e das meninas!
- Eu sempre disse que vocês me emprestaram e estão guardados na casa de uma amiga minha.
Por isso, para que ela não brigue, o melhor a fazer é você levar o vestido para sua casa e amanhã eu me visto lá e vamos juntas para a festa.
Vou dizer a minha mãe que é aniversário de uma professora lá da escola.
- Vai mentir para sua mãe?
- Preciso fazer isso. Ela não aceitará.
Tem medo de que algo ruim possa me acontecer.
- Está bem. Faça como quiser.
- Tudo certo, eu estava confiante.
No dia seguinte, Matilde chegou cedo.
Ela estava animada.
Os vestidos e sapatos foram entregues.
Passamos o dia nos preparando.
Meu irmão estava feliz com toda aquela animação, mas não nos interrompeu, ficou a tarde toda em seu quarto.
Finalmente a hora de sairmos de casa chegou.
Embora eu soubesse que Matilde era linda, naquele dia ela me surpreendeu.
Estava mais linda do que nunca.
Meu irmão, assim que a viu, não se conteve:
-Você está linda, Matilde!
- Ao ouvir aquilo, senti muita raiva, pois ele nem olhou para mim.
Ao chegarmos à casa das meninas percebemos que estava maravilhosa.
Todas as luzes estavam acesas e com uma linda decoração feita com rosas e orquídeas brancas.
Várias mesas estavam colocadas para o jantar que seria servido.
José Luiz chegou logo depois e, ao nos ver, se aproximou e estendeu a mão:
-Boa noite.
Você está linda, Matilde!
- Ela sorriu e percebi que seus olhos brilharam.
Eu estava ao lado dela e ainda assim ele pareceu não me ver.
Com muita raiva e ao ver que todos me ignoravam, me afastei, achando que estava na hora de colocar meu plano em prática.
Olhei à minha volta e vi que Ariete e Flora, como sempre, também estavam lindas.
Meu irmão conversava com alguns amigos, e Ariete ria muito conversando com alguns convidados.
Caminhei em direcção ao meu irmão.
- Vá até o jardim.
Alguém está esperando por você.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:51 pm

- Quem?
-Não posso dizer, é surpresa!
- Ele, rindo, caminhou em direcção ao jardim.
Rapidamente, fui para o lado de Matilde:
-Está na hora, Matilde.
Ele já está no jardim!
Vá para lá e faça da maneira como combinamos.
-Agora?
-Sim, precisa ser antes do jantar.
Espere alguns minutos, enquanto eu aviso Flora e os outros.
Vamos dar muitas risadas!
-Está bem, estou indo.
- Assim que ela se afastou fui para junto de Ariete e, puxando-a pela mão, disse baixinho em seu ouvido:
- Vá para o jardim, vai ter uma surpresa.
-Surpresa, Selma?
Que surpresa?
- Se eu contar vai deixar de ser surpresa!
-Está bem, já vou.
- Ela foi para o jardim e eu fiquei distante, mas em um lugar de onde poderia vê-los.
Vi Ariete caminhando em direcção ao jardim e, assim que chegou, de longe viu Matilde e meu irmão se beijando.
Ela parou, ficou branca como cera e, para minha surpresa, se afastou e saiu correndo sem nada dizer.
Eu me aproximei e pude ouvir quando meu irmão, afastando-se de Matilde, perguntou:
- O que está fazendo, Matilde?
-Estamos fazendo uma brincadeira com Ariete.
-Que brincadeira?
- Ela olhou à sua volta me procurando e, ao me ver, gritou:
-Selma!
- Eu ia me aproximar para conversar com meu irmão, mas fui empurrada para o lado por Ariete, que voltou correndo e ao se aproximar deles levantou um revólver que estava em sua mão e atirou em Matilde, no meu irmão e depois em sua própria cabeça.
Foi tudo tão rápido que ninguém conseguiu evitar.
Por ela ter aprendido a atirar, o tiro foi certeiro.
Eu era quem estava mais próxima, mas fiquei parada e em choque sem conseguir dar um passo ou dizer qualquer coisa.
- Agora, Selma voltou a chorar copiosamente.
Roberto e Carlos levantaram-se ao mesmo tempo.
Roberto gritou:
- Meu Deus do céu!
Foi isso que você causou?
A morte de seu irmão e dessas duas moças?
Você planeou uma armadilha que deu errado, Selma?
- Mãe! Não consigo acreditar que tenha feito isso!
- Algumas vezes nem eu consigo acreditar, Carlos.
Foi terrível, e sei que nunca poderei me perdoar.
Roberto, inconformado, voltou a se sentar.
Selma, quase sem conseguir falar, continuou:
- Somente naquele momento, ao ver meu irmão caído ao lado de Matilde e Ariete na frente deles, pude entender a extensão do meu acto.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:51 pm

Quando vi todas as pessoas correrem para lá e começarem a gritar e achando que todos estavam me acusando saí correndo.
Estava desesperada e não sabia o que fazer, pois se estivesse em minha casa, correria para o meu quarto, mas não estava.
Precisava me esconder das pessoas para poder chorar e pedir perdão.
Estava uma correria, as pessoas olhavam para os corpos, choravam, andavam de um lado para outro e abraçavam-se inconformadas.
Corri para a porta dos fundos da casa e me sentei sobre a grama que, por ser noite, estava húmida, mas não me importei por estar sujando e molhando meu lindo vestido.
Nada mais tinha importância.
Ali, sozinha, fiquei relembrando tudo o que havia acontecido.
Lembrei da minha infância, daquilo que minha mãe sempre havia me dito:
-Você é especial, Selma!
Nasceu para conseguir tudo o que quiser na sua vida e para ser servida.
- Enquanto me lembrava de tudo o que havia acontecido na minha vida, apenas conseguia chorar, nada mais.
Nem sei quanto tempo fiquei ali, chorando e sozinha, quando Flora, também chorando, se aproximou e ficou em pé, parada na minha frente:
- Selma! Como isso foi acontecer?
O que será que deu em Ariete para ter tomado uma atitude desesperada como essa?
- Senti que naquele momento era hora de eu dizer o que havia feito, mas fiquei com medo, pois, além de ter perdido meu irmão, Ariete e Matilde, sabia que perderia a amizade de Flora.
Por isso me calei e apenas me levantei, a abracei e chorei muito.
Estávamos assim quando Esmeralda, a mulher que havia criado as duas desde pequenas, foi até nós:
-Flora, Selma, procurei vocês por toda parte.
A polícia já chegou e o delegado quer falar com todos que estavam na festa.
Vocês precisam entrar e ir falar com ele.
- Ao ouvir aquilo, estremeci.
Fiquei com muito medo de ser presa, pois sabia que embora não houvesse apertado o gatilho eu era a culpada de tudo aquilo e outra vez me calei.
Mesmo não querendo e tremendo muito, fui obrigada a acompanhar Esmeralda e Flora.
Assim que chegamos à sala, vimos um senhor que conversava com alguns policiais.
Eu tremia e chorava muito.
Assim que me aproximei, ele, olhando firme para mim, perguntou:
-Por que está chorando e tremendo dessa maneira, moça?
- Novamente, senti que deveria contar o que havia acontecido, mas outra vez fiquei com muito medo de ser presa e não consegui dizer uma palavra.
Esmeralda foi quem respondeu:
- Ela é irmã do rapaz e amiga das moças.
Está muito nervosa.
- Ele continuou me olhando de uma maneira que me causava mais medo ainda:
-Sabe o que aconteceu ou qual foi o motivo dessa tragédia?
- Não conseguindo falar e soluçando, apenas acenei com a cabeça dizendo que não.
-Está bem.
Você está muito nervosa, mais tarde voltaremos a conversar.
- Ao ouvir aquilo, saí e voltei para o lugar onde estava, sentei-me no chão e continuei chorando sem conseguir parar.
Meus sentimentos estavam desencontrados.
Chorava porque meu irmão havia morrido, mas mais ainda pelo medo que sentia de ser presa.
Mário Augusto e Matilde estavam lá acompanhando tudo o que Selma dizia.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:51 pm

Matilde, com lágrimas nos olhos, disse:
- Ainda hoje, mesmo após sabermos o motivo de tudo, ainda é difícil nos lembrarmos desse dia, não é, Mário Augusto?
- Verdade, Matilde.
Levei muito tempo para entender e aceitar o que Selma havia feito.
Matilde ia dizer alguma coisa, quando uma névoa negra envolveu a delegacia e uma voz disse, gritando:
- Pois eu ainda não perdoei você, Selma, e nunca vou perdoar!
Merece tudo o que está acontecendo e ainda vai acontecer!
Agora, está dando uma de santa, dizendo que está arrependida, mas isso não vai fazer com que eu volte e recupere minha vida que você tirou!
Agora, quer meu perdão, mas nunca vai conseguir!
Vou destruir sua vida como destruiu a minha, a de Mário Augusto e a de Matilde!
Demorei muito para encontrar você e não vou sair do seu lado até que tenha me vingado totalmente!
- Não faça isso nem fale assim, Ariete.
A lei é justa e tudo vai acontecer como tem de ser.
Hoje ela está arrependida e pretende mudar tudo o que fez.
- Arrependida? Arrependida coisa nenhuma!
Ela só está pensando no que fez porque está em uma situação ruim!
Durante todos esses anos viveu sua vida e construiu uma família, o que evitou que acontecesse comigo e com Mário Augusto!
Eu a odeio e vou odiar para sempre!
- Quando você voltou para a Espiritualidade não quis ouvir o que todos tinham a dizer e o que havia acontecido no passado.
Preferiu voltar para destruí-la, e isso nada de bom trouxe para você.
Olhe-se, Ariete, e veja como está.
Toda suja, descabelada e com as roupas rasgadas.
Você sempre foi linda e agora parece uma mendiga.
Ainda há tempo, venha connosco.
O lugar para onde vamos levar você é lindo e vai se sentir muito bem.
Deixe que a Lei de Deus faça sua justiça para com Selma.
- Quem são vocês?
Eu não os conheço e, com certeza, também não me conhecem!
Não existe Lei de Deus alguma, pois se existisse Ele não teria permitido que ela tirasse nossas vidas e ficasse impune como ficou!
Ao ouvir aquilo, Matilde olhou para Mário Augusto:
-Ela não está nos reconhecendo, Mário Augusto?
- Não, Matilde.
Como sente muito ódio, atraiu para si essa nuvem densa e pesada, o que a impede de nos ver.
Precisamos tentar fazer com que ela remova esse sentimento ruim, para que assim possa nos ver e ser ajudada.
- Precisamos conseguir, Mário Augusto.
Precisamos levá-la connosco.
Voltando-se para Ariete, disse:
- Deus existe, sim, Ariete.
A lei dele também é justa.
Venha connosco.
Ao ouvir o que Matilde falou, Ariete, com os olhos vermelhos e faiscando de tanto ódio, gritou:
- Não sei quem é você, só sei que não tem nada a ver com a minha vida!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 30, 2017 6:51 pm

Cuide da sua que eu cuidarei da minha!
Não vou a lugar algum!
Não vou sair do lado de Selma nem por um minuto!
Só não entendo o que vocês estão fazendo aqui, tentando ajudar essa traidora.
Matilde, sorrindo, respondeu:
- O ódio não nos leva a lugar algum, Ariete.
Venha connosco e vai encontrar a paz que tanto procura.
- Nunca, nunca!
Estou indo embora porque a luz que está saindo de vocês me faz mal, mas voltarei trazendo alguns amigos.
Isso que está acontecendo com ela é pouco!
Ela vai perder tudo, assim como fez connosco!
Antes que Mário Augusto ou Matilde tivessem tempo de dizer alguma coisa, Ariete desapareceu.
- Infelizmente, ela não quis nos ouvir, Matilde, e isso vai fazer com que continue perdida e sofrendo muito.
- Verdade, Mário Augusto.
Precisamos orar por ela e pedir ajuda, pois quando ela voltar vai ser difícil controlá-la.
Enquanto isso, Selma continuava a contar o que havia acontecido no seu passado:
- Fiquei sentada ali por muito tempo.
Senti que meu vestido estava molhado por causa da grama, mas pela primeira vez não me importei.
A dor e o medo que sentia eram imensos.
Não conseguia acreditar que aquilo havia acontecido.
Nem por um minuto pensei que Ariete seria capaz de uma coisa como aquela.
Estava ali pensando e chorando, quando minha mãe se aproximou.
Continuava com a roupa e os cabelos no lugar.
Apesar de tudo o que acontecera, ela continuava como se tivesse chegado naquele momento na festa.
Aproximou-se e com aquela voz de reprovação que eu conhecia muito bem perguntou:
- O que está fazendo sentada aí no chão, Selma?
- Sem responder, levantei-me e, chorando, tentei me abraçar a ela, que me afastou com as mãos.
-Não se atreva a me encostar com esse vestido molhado e sujo!
Está horrível!
Vá para o banheiro, lave o rosto e arrume esse cabelo.
Se estivéssemos em casa, poderia trocar esse vestido por outro lindo, mas como não estamos tente ficar da melhor maneira possível!
- Mamãe, elas morreram e o Mário Augusto também. - eu disse chorando.
- Sim, morreram.
Estou arrasada, ele é meu filho.
Estou sofrendo tanto que nem sei como explicar, mas nem por isso as pessoas precisam me ver chorando ou desarrumada!
O que sinto só diz respeito a mim!
Ande, vá se recompor!
- Naquele momento odiei minha mãe por tudo o que era e o que me havia tornado.
Não entendia como, em um momento como aquele, ela podia ainda estar pensando na sua aparência.
- Está dizendo que sua mãe foi culpada pelo que você fez, Selma? - Roberto perguntou, indignado.
- Naquele momento, sim, Roberto.
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 31, 2017 8:27 pm

Hoje entendo que a única culpada fui eu, mas naquele dia eu precisava encontrar um culpado.
- Acredito que, embora ela tenha criado você dessa maneira, depois que cresceu você poderia ter mudado sua maneira de pensar.
Você não era mais criança quando tudo isso aconteceu, já era adulta.
Desculpe-me, Selma, mas não entendo sua atitude.
Você sempre gostou de ser especial, poderosa.
Não entendo como pôde mudar tanto e se transformar na pessoa que é hoje.
Será que continua a mesma e durante todo esse tempo esteve disfarçando?
- Não, Roberto!
Eu mudei quando conheci você e me completei quando você nasceu, Carlos.
Finalmente, ao lado de vocês encontrei a paz que tanto precisava.
Eu jurei que dedicaria minha vida fazendo com que vocês fossem felizes e praticando caridade de todas as maneiras que conseguisse.
Por isso, fiquei muito feliz quando conheci Marília e vi que poderia ajudar aquelas crianças que tanto precisavam.
- Como a senhora chegou a esta cidade e se tornou pobre, mamãe?
- Depois do que minha mãe disse, fui ao banheiro e me arrumei da melhor maneira possível, pois sabia que ela não me perdoaria se não a obedecesse.
Quando saí do banheiro, vi Flora e sua mãe, que também estavam com as roupas e os cabelos impecáveis.
Olhei para a sala, todas as pessoas que ali estavam conversavam, provavelmente sobre o acontecido, mas de uma maneira educada e sem muito alarde.
Sentindo-me mal com tudo aquilo, aproximei-me de meu pai que, ele sim, estava muito abatido e conversava com alguns amigos, e disse:
-Papai, não estou me sentindo bem.
Posso pedir ao Josias para me levar para casa?
- Ele olhou nos meus olhos, que estavam vermelhos de tanto chorar, e beijando minha testa respondeu:
-Claro que pode, filha.
Se eu pudesse também iria, mas não posso.
Peça ao Josias que leve você e depois volte para nos pegar.
- Ia saindo, quando vi Mirtes, a mãe de Matilde, entrando, chorando e gritando.
Passou por mim, mas não me viu.
Aos prantos perguntou:
- Onde está minha filha?
- Alguém apontou para o jardim.
Ela entrou correndo, ia se jogar sobre Matilde, mas foi impedida por um policial.
Não podendo se aproximar, começou a falar:
-Eu sempre disse a você, filha, que essa amizade com essas moças ricas seria muito ruim!
Olhe o que aconteceu!
Você nunca pertenceu ao mundo delas!
Tenho certeza que elas foram culpadas de tudo isso, vou descobrir tudo!
- Ao ouvir aquilo, embora soubesse que ela não teria condições ou dinheiro para descobrir qualquer coisa, mas com medo, saí correndo dali sem olhar para ninguém.
Assim que saí pela porta da frente da casa, vi Josias, que estava em pé ao lado do carro conversando com outro motorista.
Quando me viu, abriu a porta para que eu entrasse.
Assim que entrei, ele fechou a porta, entrou no carro, ligou o motor e saiu.
Depois que saímos e entramos na rua que nos levaria para casa, ele perguntou:
-Sei que a senhorita está muito triste, mas não adianta chorar dessa maneira nem ficar triste.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 31, 2017 8:27 pm

Os três já estão sendo recebidos no céu.
Fique tranquila, eles vão ficar bem.
-Não me chame de senhorita, Josias.
Você me conhece desde que eu era criança.
- Por conhecê-la desde criança é que preciso chamá-la por senhorita.
-Embora saiba que nem sempre correspondi, sei que você sempre foi meu amigo.
Estou desesperada e não sei o que fazer.
-Tem motivo para ficar desesperada, mas nada precisa fazer, apenas esperar, pois cedo ou tarde tudo se resolve.
- Nervosa e achando que ele havia descoberto o que eu havia feito, quase gritei:
-Acha que tenho motivo, por quê?
-Como, por quê?
Seu irmão e suas amigas morreram, qualquer pessoa ficaria nervosa.
- Naquele momento, percebi que ele não sabia de coisa alguma do que eu havia feito e continuei:
-Não suporto mais esta vida, preferia ter morrido no lugar do meu irmão e das meninas.
-Não diga isso!
Tudo está sempre certo nesta vida e tudo acontece como tem de acontecer.
-Nem tudo acontece como tem de acontecer, Josias.
Algumas vezes as coisas são planeadas.
-Acha que houve algum planeamento para que tudo terminasse assim?
- Quem, eu? Não!
Só estou um pouco atordoada.
-Neste momento, você não precisa chorar por eles, apenas rezar para que estejam bem.
Eles não precisam de lágrimas, precisam de oração para que aceitem o que aconteceu e sigam em paz.
-Não entendo o que está dizendo, Josias.
Primeiro diz que não posso me desesperar e agora diz que não posso chorar?
- Ele começou a rir:
-Está vendo como nada do que pensamos é o certo?
Somos livres para escolhermos o destino que queremos e somos, também, responsáveis por nossas escolhas.
Por isso, se quiser chorar, chore.
- Eu não entendi o que ele estava dizendo, mas não me preocupei.
Queria chegar logo em casa, ir para o meu quarto e chorar muito.
Josias tinha razão.
Nada que eu fizesse poderia mudar o que aconteceu, por isso só me restava chorar e pedir perdão.
Naquele momento, me lembrei de Etelvina.
Sabia que Josias a conhecia e que gostava dela.
Ele acompanhou tudo o que aconteceu, quando minha mãe a despediu.
Emocionada, disse:
-Sabe, Josias, queria que Etelvina estivesse lá em casa para que eu pudesse chorar em seu colo.
Sei que ela me abraçaria sem se preocupar se meu vestido ou meus cabelos estão em ordem.
Naquele tempo eu era tão feliz.
Por que tudo teve de mudar?
- Tudo tem um tempo certo para acontecer.
Etelvina ensinou a você as primeiras coisas que deveria levar para o resto da sua vida.
- Estou com muita saudade dela e sentindo sua falta.
Sei que se ela estivesse aqui muita coisa teria sido evitada.
Eu não seria assim como sou.
Onde será que ela está?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 31, 2017 8:28 pm

- Quando sua mãe a despediu e falou mal dela para suas amigas, ela não conseguiu mais encontrar emprego.
Voltou para a cidade onde nasceu e onde estava sua família.
- Você sabe onde fica essa cidade?
- Sei, mas por que está perguntando?
- Estou pensando em ir me encontrar com ela.
Estou precisando muito dela.
- Já faz muito tempo, Selma.
Você era apenas uma criança quando ela foi embora.
Como pode estar sentindo saudade dela?
- Não sei, fazia muito tempo que não me lembrava dela e não sei por que estou sentindo isso agora.
Você tem o endereço dela?
-Tenho sim.
Durante todos esses anos, nunca deixamos de nos corresponder.
Vou pegar um dos envelopes de suas cartas e vou dar a você.
- Vocês ainda se comunicam?
-Sim. Sempre escrevemos um para o outro.
- Contou a ela o que me tornei?
- Claro que sim.
Ela sempre quis saber a seu respeito.
- O que disse a ela?
-Que você se tornou uma moça linda.
- Só isso?
-O que queria que eu dissesse mais?
Você é mesmo uma moça linda!
- Não disse que eu me tornei egoísta, fútil e ruim como minha mãe?
- Eu devo ter comentado, mas ela já sabia pois conhecia sua mãe e sempre me dizia que não importava a maneira como você fosse criada, por dentro você era uma menina maravilhosa.
- Não sou, Josias! Não sou!
Sou uma pessoa horrorosa!
- Sempre é tempo de mudar as coisas e parece que você está mudando.
- Chegamos e assim que descemos ele disse:
-Espere um pouco.
Vou ao meu quarto, buscar o endereço de Etelvina.
Estou fazendo isso porque acredito que será muito bom para você conversar com ela.
Sinto que está precisando.
- Foi para o seu quarto e voltou trazendo um envelope.
-Aqui está o endereço, escreva para ela.
Sei que vai ficar muito feliz.
- Vou fazer isso.
Obrigada, Josias.
- Com o envelope na mão, entrei na casa e ele voltou para a casa de Flora.
Meus pais continuavam lá e, a qualquer momento, precisariam voltar para casa.
Selma ia continuar, quando um policial abriu a porta que dava para as celas e falou:
- Dona Selma, o delegado pediu que eu viesse aqui e avisasse que chegou uma senhora e um advogado que querem falar com a senhora.
Ela disse que é sua mãe.
Como a senhora e seu marido estão sob custódia, eles precisam entrar aqui.
Ao ouvir aquilo, Selma estremeceu.
Havia adiado por muito tempo aquele reencontro, mas agora não teria como fugir.
Olhou para Roberto e depois para Carlos e disse:
- Está bem.
Por favor, peça que entrem.
O policial saiu e Selma, voltando a olhar para o marido e o filho, tentou sorrir:
- A fera chegou, estejam preparados.
Só estou fazendo isso por você, meu filho, não quero que vá para um orfanato.
Como você disse, não é órfão.
Todo esse engano vai ser esclarecido e logo poderemos voltar para casa.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 31, 2017 8:28 pm

O reencontro
O policial voltou logo depois, acompanhado por um homem e uma senhora.
Selma, tremendo muito, ficou olhando para a senhora sem conseguir falar.
- A senhora olhou em seus olhos, depois para Carlos e Roberto, e demonstrando descontentamento, perguntou:
- Selma, o que você fez com sua vida?
Olhe no que se transformou!
Além de estar presa, o que é uma vergonha, está vestida com essas roupas horríveis, que provavelmente foram compradas na feira, e com esse cabelo horroroso!
- Também estou feliz em rever a senhora, mamãe, e a você também, José Luiz.
Mas o que está fazendo aqui?
Quem respondeu foi Alda, sua mãe:
- Ele, embora tivesse sido preparado, não quis ser político ou diplomata; resolveu ser um simples advogado.
A única coisa boa é que ele é o melhor advogado que conheço e está aqui para tirar você dessa situação!
- Boa tarde, Selma.
Embora esta não seja uma situação em que eu quisesse reencontrar você, estou feliz por vê-la.
Sua mãe pediu que eu viesse para ver o que consigo fazer para ajudá-la.
Preciso que me conte o que aconteceu e, ao contrário do que sua mãe disse, acho que você está muito bem.
- Obrigada, José Luiz, obrigada!
Também estou feliz em revê-lo mas triste por ser nesta situação.
Vou contar o que aconteceu, mas, antes de qualquer coisa, quero que saiba que eu e meu marido somos inocentes das acusações.
- Tenho certeza que sim, Selma.
- Assim que ele conseguir tirá-la daqui, você vai comigo para casa!
Em seguida vai ao cabeleireiro e depois vai mandar fazer vestidos decentes!
José Luiz pode dizer o que quiser para te agradar, mas na realidade você está horrível!
José Luiz olhou para Roberto e Carlos e sorriu.
Selma, ignorando a presença deles, disse raivosa:
- Não vou para casa, mamãe.
Minha casa é aqui ao lado do meu marido e do meu filho.
Este é Roberto, meu marido, e este é Carlos, meu filho.
Alda olhou para os dois e, demonstrando horror no rosto, disse:
- Esses?
- Sim, mamãe, esses, e eu os amo muito.
- Definitivamente, você enlouqueceu!
Como pode, Selma?
Esqueceu-se de quem é?
Ainda bem que seu pai morreu, senão morreria aqui e agora de tanta vergonha!
Como pode fazer isso, Selma?
- Meu pai morreu?
Quando e como?
- Morreu, sim, e ainda bem; não está vivendo este momento horroroso!
Ficou doente e morreu dois anos depois que você foi embora.
Selma começou a chorar.
- Eu não sabia e nunca pensei que isso pudesse acontecer.
Ele era um homem tão forte e saudável.
- Depois que seu irmão morreu e você desapareceu, a vida para ele não teve mais sentido.
Entrou em depressão, ficou muito doente e morreu.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 31, 2017 8:28 pm

Embora tenha sido atendido pelos melhores médicos, nada pôde ser feito.
Mas isso é o que menos importa; ele morreu, mas eu estou aqui presenciando algo que jamais poderia imaginar que fosse acontecer!
Ver você atrás das grades, casada com esse homem e mãe desse menino!
- Sou feliz, mamãe, e é isso que importa.
- Esse homem é negro e está preso também!
E esse menino é mulato!
Selma olhou para Roberto, que parecia não entender o que estava acontecendo e estava abismado pela frieza daquela mulher.
Olhou para Carlos, que tentava evitar que lágrimas caíssem por seu rosto.
Com muita raiva, disse:
- Esse homem é meu marido e esse menino é seu neto, e foi somente por ele que eu a chamei, mas se não quiser aceitá-lo a sua vinda até aqui não tem propósito algum.
José Luiz interferiu:
- Precisamos nos acalmar.
Neste momento, nada disso tem importância.
Preciso que me conte o que aconteceu, Selma.
Selma, através das grades, segurou a mão de Roberto e abraçou o filho.
- Obrigada, José Luiz.
Jamais pensei que o reencontraria em uma situação como essa.
- Não se preocupe com isso, Selma.
Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que seja feliz com a vida que escolheu.
Selma começou a contar o que havia acontecido com Roberto e com ela desde que conheceu o orfanato.
Enquanto Selma contava, Matilde disse:
- Sua mãe, apesar de todo sofrimento, não mudou em nada, Mário Augusto.
Continua orgulhosa, perdida na ilusão do dinheiro e da classe social.
Ainda não entendeu que nada disso tem importância alguma.
- Verdade, Matilde, e isso me traz um grande sofrimento.
Ela teve mais uma chance de se redimir por todo o mal que nos causou no passado, mas não soube e não sabe aproveitar.
Renascemos para ajudá-la, mas de nada adiantou.
Tomara que consiga, um dia, redimir-se dos seus erros.
- Tomara, Mário Augusto, tomara.
Mas, por enquanto, vamos esperar e continuar ao lado dela, tentando ajudá-la.
Selma terminou de contar tudo o que havia acontecido e por fim disse:
- Não entendo o porquê de tudo isso ter acontecido, mas tanto eu como meu marido somos inocentes.
Acredito que alguém tenha planeado tudo isso, só não sei qual foi o motivo.
Vivíamos tranquilos, com uma vida igual a de todos desta cidade.
- Estou achando tudo isso muito intrigante.
Vocês têm algum inimigo aqui na cidade?
- Não, José Luiz.
Como disse, somos pessoas comuns e amigos de todos.
- Vou entrar com um habeas corpus para tentar fazer que consigam responder em liberdade.
Também vou contratar um investigador que conheço para tentar descobrir o que está por detrás de tudo isso.
Selma voltou os olhos para a mãe e disse:
- Sinto muito pelo papai e por não ter estado ao lado dele quando ficou doente, mamãe.
Estranho que Flora não tenha me contado quando a reencontrei aqui na cidade.
- Flora esteve aqui, Selma?
- Sim. Ela abriu uma loja de roupas de festa e ficou por mais ou menos três meses.
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