As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 03, 2017 7:48 pm

- Assim espero.
Enquanto dizia isso, o delegado abriu as celas.
Roberto e Selma puderam se abraçar e chorar um no ombro do outro.
E, assim, abraçados, saíram da delegacia.
Quando chegaram do lado de fora, encontraram Carlos sentado na escada que havia em frente, conversando com Fabiana.
Assim que viu os pais, levantou-se e correu para eles, que o abraçaram com muito carinho.
- Agora, podemos ir para casa, meu filho.
- Que bom, mamãe!
Eu estava desesperado sem saber o que aconteceria comigo.
- Vai ficar tudo bem, Carlos.
Eu e seu pai somos inocentes e vamos provar.
Fabiana, que estava distante, mas que podia ouvir o que falavam, ficou olhando a felicidade deles.
Selma, assim que a viu, abriu os braços.
Timidamente, Fabiana se aproximou e abraçaram-se.
Selma, emocionada, enquanto a abraçava disse:
- Obrigada por ter ficado ao lado de Carlos, Fabiana.
Em horas como essa é que mais precisamos dos amigos.
- Não tem o que agradecer, dona Selma.
Eu gosto muito do Carlos e da senhora também.
Ainda bem que foram soltos.
- Graças a Deus!
Tudo o que aconteceu foi um terrível engano.
- Tenho certeza disso, dona Selma.
Acredito que tudo vai ser explicado e resolvido.
- Assim espero.
Em seguida, Selma olhou para os outros e disse:
- Agora, vamos para casa?
Lá poderemos conversar.
- Desculpe-me, Selma, mas não poderei ir.
Preciso ir para casa e conversar com algumas pessoas que poderão me ajudar a esclarecer o que aconteceu.
- Embora ache uma pena que não possa ficar aqui, também estou feliz por tê-lo ao nosso lado, José Luiz.
Nem sei como agradecer por ter vindo até aqui e ter nos libertado.
Sei que seu trabalho e tempo são valiosos; portanto, quando quiser, nos mande a conta.
Não temos muito dinheiro, mas prometo que pagaremos por todo o seu trabalho.
José Luiz sorriu:
- Não se preocupe com isso.
Você é minha amiga de infância e irmã do meu melhor amigo.
Além do mais, o trabalho ainda não terminou.
Vou reunir algumas pessoas e vamos descobrir o que aconteceu.
Assim que tiver algo, voltarei aqui e conversaremos.
Por enquanto, vocês não podem sair da cidade.
- Não sairemos, José Luiz.
Precisamos ficar aqui e provar a nossa inocência.
José Luiz apertou a mão dos outros e se afastou.
Assim que saiu, foi até ao ponto de táxi que havia em frente à delegacia e conversou com o motorista, que ficou contente.
Entrou no carro, acenou com a mão e partiu.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 03, 2017 7:48 pm

Assim que o carro saiu, Selma voltou-se para Marília e Berta:
- Vocês vão para minha casa?
- Desculpe-me, Selma, mas estou muito tempo fora do orfanato.
Preciso voltar para lá, mas qualquer coisa que precisar e eu puder ajudar me procure.
Enquanto isso, vou investigar e tentar entender o que aconteceu, e como o dinheiro foi roubado e por quem.
- Também preciso ir para casa, Selma.
Lourenço deve estar curioso para saber o que aconteceu.
Selma abraçou as duas:
- Obrigada por acreditarem na nossa inocência e pela amizade.
- Fique calma, amiga!
Vamos descobrir o que aconteceu, e os verdadeiros culpados serão castigados.
Elas se afastaram.
Selma e Roberto começaram a caminhar em direcção à rua onde moravam.
Carlos e Fabiana foram para a praça e sentaram-se em um dos bancos.
Selma e Roberto caminhavam.
Ela percebeu que ele estava em silêncio, coisa que nele não era comum, pois era sempre muito falante.
Sabendo o motivo daquele silêncio, disse:
- Sei que você está decepcionado comigo.
Sinto muito, mas fiquei com medo de contar.
Sentia muita vergonha daquilo que havia feito e no que tinha me tornado.
- Não é por isso que estou decepcionado, pois, por mais que tente imaginar não consigo ver, em você, aquela mulher que descreveu.
Sempre foi uma óptima esposa e mãe, e também muito dedicada ao orfanato.
O que me decepcionou foi por não ter confiado em mim e me contado antes.
Por que não acreditou no meu amor por você, Selma?
- A princípio segui o que Etelvina pediu.
Ela achava que seria melhor que ninguém soubesse quem eu era para poder recomeçar minha vida aqui nesta cidade.
Realmente ela tinha razão, pois logo consegui um emprego no banco.
Depois, quando nos envolvemos, fiquei com medo de contar e você não aceitar.
O tempo foi passando, nos casamos, Carlos nasceu e tínhamos uma vida perfeita.
Mas hoje sei que nada fica escondido por todo o tempo e que, em algum momento, tudo vem à tona.
Sei que está magoado, mas sei também que nossa vida vai fazer com que tudo passe.
Nunca pensei que um dia poderia ver minha mãe tão triste e nervosa.
Embora ela tenha tentado disfarçar, percebi sua tristeza e seu sofrimento quando contei que havia sido a responsável pela morte de Mário Augusto.
Além de ter sido orgulhosa, egoísta e covarde em ter desaparecido da maneira como fiz, sem nada dizer ou ao menos ter mandado notícias durante todo esse tempo.
Hoje, como mãe, imagino o que eu sentiria se não soubesse onde Carlos estava.
Ficaria louca.
Hoje ela está magoada, mas quando tudo isso passar vou fazer o possível e o impossível para que ela me perdoe.
Espero conseguir que isso aconteça.
- Você tem razão.
Temos uma vida em comum, que por sinal tem sido muito boa; portanto, o tempo vai se encarregar de colocar tudo em seu lugar.
Quanto à sua mãe, ela me pareceu muito orgulhosa e pedante, mas também percebi sua tristeza e sua revolta.
Porém, acredito que mais cedo ou mais tarde vocês vão se entender.
Ele pegou sua mão e continuaram caminhando.
Apesar de tudo o que haviam passado naqueles dias, estavam juntos e sabiam que, enquanto estivessem assim, nada de mal poderia lhes acontecer.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 03, 2017 7:48 pm

Nunca deixe para amanhã
Enquanto dirigia o carro, Josias olhou pelo retrovisor e viu que Alda tirava da bolsa um pequeno espelho.
Enquanto se olhava e colocava alguns fios de cabelo no lugar, disse:
- Não entendo!
Como Selma pôde fazer o que fez e ainda querer colocar a culpa na maneira como foi criada e por ter tido tudo na vida?
Isso não está certo, Josias. Não está!
- Fique calma, dona Alda.
Tudo isso vai passar, e a senhora e Selma poderão se reconciliar.
- Reconciliar? Nunca, nunca!
Ela matou meu filho por um motivo banal!
- Ela era muito jovem e não sabia bem o que estava fazendo, dona Alda.
Como eu disse, tudo vai passar.
- Como vai passar, Josias?
Nunca vai passar!
Meu filho não voltará nunca mais!
Ele está morto e por culpa dela!
Eu a odeio com todas as forças do meu coração!
- Nunca diga isso, dona Alda!
O ódio nada resolve, e a senhora sofrerá mais com ele.
O perdão sempre é o melhor caminho que temos para seguir.
- Perdão? Como alguém pode perdoar isso que Selma fez?
Josias continuou dirigindo e, olhando pelo retrovisor, viu que Alda, embora nervosa, olhava em um espelho e arrumava os cabelos.
Depois, guardando o espelho, muito nervosa, disse:
- Não estou me sentindo bem, Josias.
Estou enjoada.
Pode parar o carro por um instante?
Assim que terminou de falar, deitou-se no banco do carro.
Assustado, Josias parou, abriu a porta, saiu do carro e, abrindo a porta de trás, vendo que ela estava muito branca, começou a chamar:
- Dona Alda, dona Alda!
Ela não respondeu.
Percebendo que alguma coisa estava acontecendo, pois ela além de transpirar muito estava branca como cera.
Josias, desesperado, entrou no carro, olhou para o relógio que estava em seu pulso e viu que fazia apenas quinze minutos que estavam na estrada.
Pensou:
O melhor a fazer é voltar para a cidade, lá deve ter algum hospital.
Dona Alda não está nada bem.
Olhou para os dois lados da estrada e viu que não vinha nenhum carro.
Rapidamente fez a volta, acelerou e saiu em disparada.
Alguns minutos depois, entrou na cidade.
Perguntou a um senhor que passava:
- Senhor, tem algum hospital aqui nesta cidade?
Hospital não tem, só um pronto-socorro.
Quando o senhor chegar ao fim desta rua, vire à direita e logo vai vê-lo.
Enquanto falava, o senhor apontou com o braço.
Josias agradeceu e dirigiu rapidamente.
Seguiu a instrução e chegou ao pronto-socorro, que parecia ser pequeno.
Parou em frente, desceu, correu e entrou.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 03, 2017 7:48 pm

Logo depois, voltou acompanhado por dois enfermeiros que traziam uma maca.
Juntos, tiraram Alda do carro, a colocaram sobre a maca e entraram correndo.
Josias, muito nervoso e assustado, ficou esperando sentado em um dos bancos.
Algum tempo depois, o enfermeiro voltou:
- O médico quer falar com o senhor.
Ele está ali naquela sala.
Josias se levantou e caminhou em direcção à porta que o enfermeiro havia mostrado.
Assim que entrou, percebeu que o médico estava preocupado.
Olhou para ele, que disse:
- Sente-se, por favor.
Sentou-se e o médico, tentando sorrir, disse:
- A senhora sofreu um derrame cerebral e seu estado é grave.
Neste pronto-socorro, infelizmente, não temos muitos recursos.
Vamos dar o primeiro atendimento, mas ela precisa ir para um hospital.
Aqui, só temos uma ambulância que não pode sair da cidade.
O senhor tem como providenciar o transporte dela?
Contratar uma ambulância na cidade vizinha?
- Eu não, mas ela tem recursos.
Preciso localizar sua filha, que mora aqui na cidade.
Ela encontrará uma maneira de socorrer a mãe.
Enquanto eu procuro pela filha dela, ela pode ficar aqui aos seus cuidados?
- Claro que sim.
Ela está sendo socorrida e por algumas horas não poderá ser removida, talvez até por um dia.
Vai depender da sua evolução. Vá tranquilo.
Josias saiu e chegou à rua.
Olhou para os lados e, desesperado, pensou:
Preciso falar com Selma.
José Luiz disse que havia conseguido que fossem libertados.
Como não sei se foram, o melhor a fazer é eu ir para a delegacia.
Se não estiverem lá, ao menos poderei pegar o endereço de Selma, mas não sei onde fica a delegacia.
Entrei tão apressado na cidade que nem percebi o caminho que fiz.
Sei que é perto da rua principal e que fica logo na entrada da cidade.
Não me lembro por onde passei para chegar até aqui no hospital.
Preciso perguntar para alguém.
Um casal chegava apressado.
A moça estava com uma criança no colo, iam entrar no hospital.
Josias parou na frente:
- Desculpem, parece que estão apressados, mas preciso de uma informação.
Poderiam dizer onde fica a delegacia?
- O senhor precisa ir por esta rua.
Quando chegar à terceira travessa, vire à esquerda.
A delegacia fica na esquina da rua principal.
Josias agradeceu, entrou no carro e foi por onde o rapaz havia ensinado.
Como estava no meio da cidade, não pôde correr, mas dirigiu o mais rápido que pôde.
Finalmente, chegou em frente à delegacia.
Parou o carro e, enquanto estava descendo, ouviu uma voz:
- Josias! Por que voltou?
Onde está dona Alda?
- José Luiz!
Pensei que estivesse indo embora.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 03, 2017 7:49 pm

- Eu estava, mas vi seu carro voltando e, como não vi dona Alda dentro dele, calculei que havia acontecido alguma coisa e pedi ao taxista que retornasse.
Onde ela está?
- Está no hospital, sofreu um derrame.
Vim até aqui para ver se encontro Selma.
- Derrame? Como pode ser?
Ela estava bem!
- Não sei, José Luiz.
Ela estava muito nervosa.
Disse que estava passando mal, deitou-se no banco do carro e desfaleceu.
Como ainda estava perto da cidade, achei melhor voltar.
Vamos entrar e conversar com Selma?
- Eles não estão mais na delegacia, Josias.
Só fui embora depois que saíram.
Mesmo assim, vamos entrar e perguntar onde fica a casa deles.
Além de ter o endereço, o delegado deve saber onde fica a rua, para não precisarmos procurar.
- Vamos fazer isso, José Luiz.
- Primeiro vou dispensar o taxista.
José Luiz pagou e dispensou o taxista e depois entraram, Josias contou ao delegado o que havia acontecido e terminou dizendo:
- Precisamos do endereço de Selma e uma indicação de como poderemos chegar lá.
- Sinto muito pelo que aconteceu com a senhora.
Vou pedir ao soldado Tiago que os acompanhe até lá.
- Obrigado, delegado.
O delegado olhou para o soldado que estava ali e disse o que ele precisava fazer, no que foi atendido imediatamente.
O soldado abriu a porta e eles saíram.
Assim que chegaram à rua, viram que Carlos e Fabiana vinham na direcção do carro.
O menino estava nervoso:
- O que aconteceu, por que voltaram?
Não vão dizer que meus pais vão ser presos novamente!
- Acalme-se, Carlos.
Seus pais estão bem e por algum tempo ficarão livres.
Espero que consigamos provar a inocência deles e, assim, nunca mais serão presos.
Voltamos porque sua avó passou mal e está no pronto-socorro.
- Passou mal, como assim?
- Não sabemos, precisamos falar com sua mãe.
Foi bom que chegaram, assim poderão nos levar até sua casa.
- Claro! Vamos?
- Entrem no carro.
Seguindo a orientação de José Luiz, os dois entraram no carro.
Carlos sentou-se no banco da frente para que pudesse indicar o caminho.
Fabiana e José Luiz sentaram atrás.
Alguns minutos depois, pararam em frente à casa de Selma.
Carlos desceu rápido, entrou correndo pela porta da sala e chamou:
- Mãe! Mãe!
Selma e Roberto, que estavam na cozinha enquanto ela preparava um lanche, se assustaram com o grito desesperado de Carlos.
Ela secou as mãos no avental, ele levantou-se da cadeira e ambos correram para a porta que dava para a sala.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:18 pm

Ela perguntou:
- O que foi, Carlos?
O que aconteceu?
Antes que ele respondesse, viram Josias e José Luiz, que entravam atrás de Carlos.
Ao vê-los, Selma sentiu seu corpo estremecer:
- O que aconteceu?
Por que vocês voltaram?
Josias contou o que havia acontecido e terminou dizendo:
- Agora precisamos providenciar um transporte para levar sua mãe a um hospital com mais recursos.
- Como vamos fazer isso, José Luiz?
Deve ser muito caro e não temos dinheiro.
- Não se preocupe com isso, Selma.
O importante é que você vá até o hospital para autorizar a remoção dela.
- Claro! Vamos agora mesmo!
- Pegue seus documentos, Selma.
Os documentos dela já apresentei no hospital.
Estavam na sua bolsa.
- Obrigada, Josias.
Vamos, Roberto?
Você, Carlos, se quiser, pode ficar aqui em casa com Fabiana.
Assim que tudo estiver resolvido voltaremos para contar a vocês tudo o que aconteceu.
- Não, mamãe!
Eu quero ir porque, apesar de não ter gostado de mim, ela é minha avó.
Selma sorriu:
- Está bem, filho. Então vamos!
Saíram da casa e entraram no carro.
Assim que todos se acomodaram, Josias também entrou, deu a partida e acelerou.
Enquanto ele dirigia, Selma, aflita, perguntou:
- O que aconteceu com minha mãe, realmente, Josias?
Quando ela saiu da delegacia parecia estar bem.
- Você conhece sua mãe, Selma.
Ela sempre soube disfarçar o que sentia.
Quando comecei a dirigir e assim que chegamos à estrada, percebi que ela, embora tentasse, não conseguiu disfarçar seu nervosismo.
Começou a ficar inquieta, a arrumar os cabelos e a olhar no espelho sem parar.
Estava nervosa por você ter dito que a educação que ela deu a você foi errada.
Sabe que sua mãe nunca gostou de ser criticada.
De repente, disse que estava passando mal, deitou-se no banco e desfaleceu.
- Percebi que ela estava decepcionada e magoada, mas assim que pudermos conversar vou pedir que me perdoe.
É minha mãe, sei que vai me perdoar.
- Vocês poderiam ir morar com ela.
Com a morte do seu irmão e do seu pai e a sua ausência, ela se modificou muito.
E aquela casa ficou muito grande.
Ela quase não sai de casa nem recebe ou faz visitas.
Está sozinha.
A única coisa que a distrai são as suas orquídeas, que cuida com carinho.
- Fica sempre em casa?
- Só sai duas vezes por semana e vai sempre de táxi.
Nunca quis que eu a levasse.
- Para onde ela vai, Josias?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:19 pm

- Não sei, Selma.
Ela proibiu que eu a seguisse.
- Não, Josias.
Não poderei voltar a morar naquela casa com tantas lembranças ruins.
- Porém, teve também bons momentos.
Pense sobre isso, Selma.
Garanto que ela vai ficar muito feliz.
- Não vai, não, Josias.
Ela não aceitou bem o meu casamento, meu marido e, principalmente, o meu filho.
Você a conhece muito bem e sabe o quanto ela sempre foi preconceituosa.
- Eu gostaria de morar em uma casa grande, mamãe.
Pelo que entendi, ela tem muito dinheiro, poderemos viver como ricos!
- Não se iluda, meu filho.
O dinheiro não traz a felicidade; pelo contrário, ele pode nos trazer muita tristeza.
- Tudo bem, mas será que a pobreza nos faz felizes?
Vamos nos mudar, mamãe.
Vamos tentar e, se não der certo, pelo menos tentamos.
- Carlos tem razão, Selma.
Além do mais, esta cidade é pequena e todos se conhecem.
Por mais que consigamos provar a inocência de vocês, nunca mais serão aceitos como antes.
A dúvida sempre permanecerá.
Você, Roberto, talvez nem consiga outro emprego.
- Agora, o mais importante é que minha mãe tenha todo o atendimento necessário e que possa me perdoar e voltar para sua casa.
O resto, veremos depois.
Chegaram ao hospital.
Assim que Josias estacionou o carro, todos desceram.
Selma saiu correndo e foi a primeira a entrar e falar com a recepcionista:
- Boa tarde! Estamos aqui para ver uma senhora, o nome dela é Alda.
Ela foi internada agora pouco.
A moça olhou em um papel e disse:
- Espere um momento, por favor.
O médico vem aqui conversar com a senhora.
A moça saiu de trás do balcão e entrou por uma porta.
Selma, aflita, ficou olhando para a porta.
Roberto, tentando acalmá-la, disse:
- Fique tranquila, Selma.
O médico deve falar a respeito da remoção dela.
Embora tentasse, Selma não conseguia tirar os olhos da porta e parar de tremer.
Alguns minutos depois, a moça voltou, acompanhada do médico, que olhando para todos perguntou:
- Quem é o parente?
- Sou eu! Sou a filha!
- Sinto muito informar, mas ela teve duas paradas cardíacas e não resistiu.
Faleceu há dez minutos.
- Faleceu? Como assim?
- Tentamos de tudo, minha senhora, mas ela não respondeu ao tratamento.
Selma sentiu que o chão havia desaparecido e que toda a energia de seu corpo se esvaía.
Começou a chorar, desesperada, cambaleou e foi socorrida por Roberto, que a abraçou e a encaminhou para um banco.
- Acalme-se, minha querida.
Nada mais pode ser feito.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:19 pm

- Sei disso, Roberto, mas não podia ter acontecido!
Ela não podia ter morrido, não antes de eu conversar com ela e pedir perdão por tudo o que fiz.
O médico, percebendo que sua presença não era mais necessária e por já estar acostumado a ver aquela cena, despediu-se com a cabeça e saiu.
A moça da recepção fez um sinal para José Luiz que, assim como os outros, estava abismado.
A moça entregou um papel para ele, dizendo:
- Com esse papel, o senhor precisa ir até a funerária para providenciar o enterro.
- Está bem, obrigado!
Com o papel na mão, foi ao encontro de Josias e disse baixinho:
- Precisamos ir até a funerária.
- Antes, precisamos conversar com Selma, para ver onde ela quer que sua mãe seja enterrada.
- Deixe que eu faço isso, Josias.
Aproximou-se de Selma e perguntou:
- Selma, precisamos providenciar o enterro.
Você quer que ela seja enterrada aqui ou no mausoléu da família?
- Com certeza ela iria querer ser enterrada ao lado do meu pai e de Mário Augusto.
Porém, nem eu nem Roberto poderemos ir ao enterro, o que vai ser muito triste.
- Por que não poderão ir, Selma?
- Claro que não, José Luiz.
Você se esqueceu que estamos proibidos de sair da cidade?
Ele olhou para o relógio que estava em seu pulso.
- Ainda não são seis horas da tarde.
Vou até o fórum ver se encontro o juiz.
Em um caso grave como esse, com certeza ele irá permitir que vocês saiam da cidade.
- Faça isso!
Acredito que o juiz Eduardo, que é marido da minha amiga e me conhecendo como conhece, não vai deixar de atender a esse pedido.
Ele sabe que assim que ela for enterrada nós voltaremos.
Acredito que vou conseguir, Selma.
- Faça isso, por favor, José Luiz.
Enquanto isso, vou conversar com a recepcionista e tentar ver minha mãe.
- Está bem. Depois, seria melhor que fôssemos para sua casa.
Deixaremos vocês lá e, quando tudo estiver resolvido, eu e Josias iremos até lá e pediremos ao juiz para conceder a permissão.
Carlos, ao lado de Fabiana, perguntou:
- Mamãe, posso acompanhar Fabiana até sua casa?
Depois irei para a nossa.
- Vá, meu filho.
Logo mais estaremos lá.
Selma e Roberto se dirigiram até o balcão.
Ela, ainda chorando muito, disse:
- Poderia ver minha mãe nem que seja por apenas alguns minutos?
A recepcionista pegou o interfone, conversou com o médico e respondeu:
- O doutor disse que ela ainda está no quarto e que poderão vê-la, mas apenas por pouco tempo.
Josias e José Luiz resolveram não entrar.
Selma agradeceu a moça e, ao lado de Roberto, entrou pela mesma porta que o médico havia entrado e apontada pela recepcionista.
Deram em um pequeno corredor, e uma enfermeira mostrou qual era o quarto.
Trémula e com passos lentos, Selma entrou e, ao ver sua mãe ali na cama, muito branca, sentiu seu corpo estremecer e se jogou sobre ela.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:19 pm

- Desculpe-me, mamãe, por eu não ter sido a filha que a senhora imaginou.
Desculpe-me por ter sido tão má e covarde.
Preciso do seu perdão.
Sei que sou a culpada da sua morte, assim como fui da de Mário Augusto, de Ariete e de Matilde, assim como a de papai. Perdoe-me!
Ela chorava desesperada.
Roberto, vendo que ela não sairia dali, esperando por um perdão que não teria como receber, segurou-a pelos ombros e fez com que se levantasse:
- Vamos embora, Selma.
Nada mais temos a fazer aqui.
- Não posso ir embora, Roberto!
Preciso que ela me perdoe.
- Isso não vai acontecer nem aqui e nem agora.
Vamos para casa.
Lá, você vai ter tempo para conversar, em pensamento, com ela.
Ela não se moveu, então ele foi obrigado a segurá-la com força e tirá-la dali.
Josias e José Luiz estavam esperando do lado de fora do hospital, perto do carro.
Assim que saíram, Josias abriu a porta traseira do carro para que pudessem entrar.
Em seguida, entrou no carro, ligou o motor e saiu.
Assim que chegaram à frente da casa de Selma, ela e Roberto desceram e eles seguiram para o fórum.
Selma, ainda chorando muito, foi conduzida por Roberto até seu quarto.
Lá, ele fez com que ela se deitasse, dizendo:
- Tente descansar um pouco, meu bem.
Vou preparar um chá.
Depois, vamos esperar que eles regressem e nos contem o que o juiz decidiu.
- Obrigada, Roberto.
Não sei o que seria de mim sem você aqui ao meu lado.
- Não pense em mais nada.
Vou separar algumas roupas para três ou quatro dias, pois mesmo se o juiz der a permissão não será por mais tempo que isso.
Ela ficou calada.
Encolheu-se na cama na posição fetal e continuou chorando e pensando em como fora sua vida até ali.
Assim que chegaram ao fórum, José Luiz e Josias foram informados por um senhor que o juiz havia acabado de sair.
Eles contaram o que havia acontecido e José Luiz terminou dizendo:
- Como o senhor pode ver, preciso muito falar com o juiz.
Meus clientes não podem sair da cidade, mas o enterro vai ser na cidade onde a senhora que faleceu mora.
Precisamos do endereço do juiz.
- Não estou autorizado a dar essa informação.
- Por favor!
A esposa dele é amiga da minha cliente, ele a conhece e, com certeza, vai dar a autorização.
O senhor pensou por um tempo, depois disse:
- Vou dar o endereço, mas, por favor, não diga ao juiz que fui eu que dei.
José Luiz sorriu:
- Fique tranquilo, não direi.
Muito obrigado!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:19 pm

O Senhor anotou em um papel o endereço e disse:
- É uma casa em frente a praça, não vai ter como errar.
- Mais uma vez, obrigado, senhor.
Com o endereço em mãos, entraram no carro e se dirigiram para a praça.
Lá, não tiveram dificuldade para encontrar a casa.
Assim que pararam em frente Josias tocou a campainha.
Uma moça com uniforme apareceu na porta.
- Pois não?
- Por favor, preciso falar com o juiz, é urgente.
- O juiz não recebe ninguém aqui em casa.
- Sei disso, mas é urgente mesmo.
Posso, também, falar com a esposa dele.
- O senhor quem é?
- Sou amigo e advogado de Selma, e é sobre ela que preciso falar.
- Um momento, por favor.
A moça entrou e logo depois Marília apareceu na porta.
Ao vê-los, os reconheceu imediatamente.
Surpresa, perguntou:
- O que aconteceu?
Pensei que tivessem ido embora.
- Fomos mas tivemos que voltar.
A mãe de Selma faleceu.
- Como? O que aconteceu?
Ela passou mal no caminho e faleceu no hospital.
Nervosa e surpresa, Marília ficou algum tempo parada, depois disse:
- Entrem, por favor.
Meu marido está no banho, mas vai atender os senhores.
Eles entraram e ela fez com que se sentassem em um dos sofás que havia na sala.
Eduardo, ao sair do banheiro, ouviu vozes que vinham da sala.
Ainda vestido com um roupão, foi até lá.
Admirado em ver José Luiz ali, perguntou:
- O que o senhor está fazendo aqui?
O caso de Selma já não está resolvido, pelo menos por hora?
Ao verem que ele chegou à sala, José Luiz e Josias se levantaram:
- Desculpe-me, Excelência, por vir incomodá-lo aqui em sua casa, mas aconteceu uma tragédia e preciso de sua ajuda.
- Que tragédia?
- Íamos começar a contar para sua esposa.
A mãe de Selma faleceu.
Surpreso, olhou para Marília, que demonstrou, com um gesto, nada saber, e disse:
- Eles estavam começando a me contar.
Eduardo, intrigado, sentou-se ao lado dela:
- O que aconteceu e no que posso ajudar?
José Luiz contou o acontecido e terminou dizendo:
- Como pode ver, preciso que tanto Selma como Roberto sejam liberados para poderem comparecer ao enterro.
- Sabe que não é esse o procedimento, doutor.
Está tudo caminhando muito rápido.
Deveria estar falando com o delegado.
Ele ainda está na fase de tomar depoimentos.
- Sei disso, mas como é um caso urgente e sua Excelência conhece o casal, tentei vir aqui para ver se poderia abreviar o caso.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:20 pm

- Eu conheço o casal, mas nem por isso posso atropelar a lei.
É necessário seguir os trâmites legais.
- Mas é urgente, Excelência.
Não temos tempo para seguir todos os procedimentos.
Eduardo olhou para Marília, que o olhava suplicante.
- Está bem!
Como eu os conheço e minha esposa confia neles, vou telefonar para o delegado e perguntar a quantas andam as investigações.
Dizendo isso, entrou pela mesma porta que havia saído e voltou alguns minutos depois:
- Conversei com o delegado e ele disse que se o doutor se responsabilizar e se comprometer a trazê-los em três dias de volta para a cidade, como se trata de um momento excepcional, não vai se opor.
- Claro que me comprometo, Excelência.
Conheço Selma desde criança e sei que ela não cometeu esse crime.
- Sendo assim, vou expedir um alvará de soltura por três dias para que possam ir ao funeral.
Mas não se esqueça de que deverão estar de volta nesse prazo.
- Pode ter certeza de que estarão aqui, Excelência.
Eduardo olhou para Marília, que sorriu agradecendo.
- Esperem um momento, por favor.
Levantou-se, foi para o escritório e lá redigiu a autorização.
Voltou e entregou a José Luiz.
- Aqui está o salvo conduto.
Eles podem se ausentar por três dias e, quando voltarem, precisarão se apresentar.
José Luiz e Josias levantaram-se e estenderam a mão para Eduardo, que a apertou:
- Espero que tudo corra bem.
- Obrigado, Excelência.
Agora, precisamos ir até a funerária para podermos liberar e trasladar o corpo.
Obrigada, senhora.
- Não acho que agora seja um bom momento para visitar Selma.
Diga a ela, por favor, que estou com ela em pensamento e oração.
- Direi, senhora.
Partiremos hoje mesmo, assim que toda a documentação ficar pronta.
Saíram dali e, rapidamente, foram para o fórum.
Depois de tomar o chá, Selma continuou deitada, chorando sem parar.
O remorso e o sentimento de culpa não a deixavam em paz.
A única coisa que queria era dormir para nunca mais acordar.
Todas as lembranças do que havia feito vieram a sua mente, e Ariete se divertia, dizendo ao seu ouvido:
- É isso mesmo que precisa sentir, muito remorso e sentimento de culpa.
Você destruiu as nossas vidas e vai ver a sua também destruída.
Sem se dar conta da presença dela ali, Selma sentia mais vontade de chorar.
Carlos, após deixar Fabiana em sua casa, retornou e, ao entrar, viu duas maletas na sala.
Curioso perguntou:
- O que essas maletas estão fazendo aqui, papai?
- José Luiz foi conversar com o juiz, e é quase certo que consiga fazer com que ele permita irmos ao enterro.
Separei algumas roupas para mim e para sua mãe.
Separe algumas para você.
- Eu preciso mesmo ir, papai?
- Claro que sim, Carlos!
Foi sua avó quem morreu.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:20 pm

- Ela não gostou de mim nem do senhor, papai.
Não sei por que temos de ir ao enterro.
- O que ela sentiu ou falou não importa pois, apesar de tudo, ela é a mãe da sua mãe e não podemos deixar sua mãe sozinha nesse momento.
- Está bem, mas eu não quero ir.
Mesmo assim, vou separar algumas roupas.
O senhor acha que vamos ficar quantos dias lá?
- Não sei, talvez três ou quatro no máximo, depois, precisamos voltar.
Carlos foi para seu quarto e Roberto voltou a se sentar em um sofá e a ficar à espera de José Luiz e de Josias.
Algum tempo depois, Selma ouviu o barulho do carro parando em frente a sua casa.
Cansada e com os olhos vermelhos levantou-se e caminhou até a sala onde sabia que Carlos e Roberto estavam.
No momento em que chegou à sala, Roberto abria a porta da frente e ansioso, dizia:
- Ainda bem que chegaram.
Não estava mais aguentando tanta ansiedade.
- Fique tranquilo, Roberto, está tudo resolvido.
O juiz deu três dias para que possam ir ao enterro, e na funerária está tudo certo também.
Eles vão conduzir o corpo de dona Alda para sua casa.
Agora, podemos ir embora. Avise Selma.
Selma colocou a cabeça por detrás do ombro de Roberto:
- Estou aqui, José Luiz, e ouvi o que disse.
- Está tudo certo, Selma.
Agora, podemos ir embora e esperar que o corpo chegue para o velório.
Selma voltou-se e olhou primeiro para Roberto, depois para Carlos e perguntou:
- Podemos ir?
- Eu preciso mesmo ir, mamãe?
- Claro que sim, meu filho.
Primeiro porque ela é sua avó e, segundo, não pode ficar aqui sozinho.
Carlos abaixou a cabeça e pendurou nas costas uma mochila onde havia colocado algumas roupas e ficou esperando.
Roberto pegou as maletas, saíram e entraram no carro.
Josias ligou, acelerou e foram embora.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:20 pm

O retorno
Alguns minutos depois, o carro entrou na estrada.
Todos estavam calados, imersos em seus próprios pensamentos.
Incomodado com aquele silêncio, José Luiz disse:
- Telefonei para minha mãe e pedi a ela que comunicasse a todos os nossos conhecidos para que fossem ao enterro, Selma.
Sua mãe era muito conhecida e, com certeza, muitas pessoas comparecerão.
- Obrigada, José Luiz.
Você sempre foi um grande amigo.
Emocionado com o que ela disse, continuou falando:
- Josias também telefonou para sua casa e pediu aos empregados que preparassem tudo.
- Minha casa, José Luiz?
- Claro que é sua casa, sempre foi, Selma.
- Há muito tempo saí dali e não pretendia voltar nunca mais.
Minha casa hoje é na minha cidade, ao lado do meu marido e filho.
- As coisas mudaram, Selma.
Agora, aquela casa e tudo o que pertence à sua família são seus.
Não tem como evitar isso.
- Não estou interessada em nada disso.
Só quero voltar para minha casa e provar a nossa inocência.
- Ainda é cedo para falarmos sobre isso.
Quanto a provar a inocência de vocês não se preocupe, meu pessoal já está trabalhando nisso.
Selma tentou sorrir e, com um lenço, limpou as lágrimas que insistiam em cair por seu rosto.
Carlos, embora insatisfeito com aquela viagem, como nunca havia viajado para lugar algum ficou encantado com a paisagem que passava e não tirava os olhos da janela do carro.
Roberto seguia calado, não tinha o que falar.
Estava preocupado com sua situação e pensava:
Não consigo acreditar no que está acontecendo.
Minha vida estava em ordem, vivíamos com tranquilidade.
De um minuto pro outro tudo se transformou e estamos aqui, indo para um lugar que não conheço, e eu arriscado a ser preso por algo que não cometi.
Por que será que tudo isso está acontecendo?
Algum tempo depois, já se podiam ver os prédios que surgiam à frente.
Não eram muitos, mas suas luzes pareciam chegar ao céu.
Carlos ficou encantado.
Logo depois, Josias saiu da estrada e entrou em uma avenida.
Carlos não conseguia desviar o olhar, pois para ele tudo era muito bonito e diferente.
Aos poucos a paisagem foi mudando e o carro começou a passar por ruas onde as casas eram enormes e distantes umas das outras.
Após alguns minutos, Josias parou em frente a um grande portão e desceu para abri-lo.
Carlos, calado, seguia todos os seus movimentos.
Após abrir o portão, Josias voltou ao carro e entrou por uma alameda cercada por uma ramagem baixa e colorida.
Parou em frente a uma porta com alguns degraus de escada.
Todos desceram do carro, menos Selma, que parecia paralisada.
Roberto, ainda surpreso por ver uma casa tão linda e diferente de todas nas quais havia morado e que Selma relutava em entrar, foi até a porta do carro e pegando sua mão disse:
- Desça, Selma. Não tem como fugir.
Vamos ficar aqui por poucos dias, depois voltaremos para nossa casa e, se Deus quiser, tudo vai voltar a ser como era antes. Venha.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:20 pm

Selma começou a descer, quando a porta da sala se abriu e por ela saiu Flora que, tentando sorrir, disse:
- Selma, minha querida, que fatalidade.
Ao vê-la, Selma voltou a chorar, saiu do carro e abraçou-se à amiga:
- A culpa foi minha, Flora.
- Não diga isso, Selma.
Tinha de acontecer, a hora dela chegou, assim como vai acontecer com todos nós, e não havia como evitar.
Não se esqueça de que somos suas amigas e que vamos estar sempre ao seu lado.
Selma olhou em direcção à voz e viu Esmeralda, que também sorria.
Soltou-se de Flora e abraçando Esmeralda disse:
- Não, Esmeralda, eu sou culpada por todo o tempo em que não dei notícias e por ter deixado que ela ficasse muito nervosa.
Eu devia saber que ela já tinha idade e que não podia passar por emoções tão fortes.
- Nada acontece fora do seu tempo nem por acaso; e nada disso, agora, tem importância, minha filha.
Agora, só podemos pedir a Deus que ela seja bem recebida no céu.
Vamos entrar, mandei preparar o jantar para vocês.
Esmeralda, que estava com a cabeça junto à de Selma, abriu os olhos e viu Carlos e Roberto olhando para ela.
Soltou-se de Selma e, entusiasmada, perguntou:
- Quem são esses, Selma?
Antes de Selma responder, Flora disse:
- Eu não disse a você que Selma havia se casado, Esmeralda?
Não os conheci, mas devem ser seu marido e seu filho, não é, Selma?
Selma voltou-se e, olhando com carinho para os dois, respondeu:
- São, sim. Este é meu marido, Roberto.
Este menino lindo é meu filho, Carlos.
São os tesouros da minha vida.
Esmeralda, sorrindo, abriu os braços e envolveu os dois.
Roberto correspondeu ao abraço, mas Carlos ficou meio sem reacção, pois, na realidade, estava impressionado com o tamanho da casa.
Flora sorrindo e pegando na mão de Selma fez com que entrassem.
Assim que entraram, Carlos, ao ver o tamanho da sala, não conseguiu se segurar e exclamou:
- Mãe! Esta sala é maior do que a nossa casa inteira!
Essa escadaria parece aquelas que aparecem nos filmes!
Foi aqui que a senhora nasceu e morou?
- Foi sim, meu filho, mas isso não quer dizer que esta casa me trouxe felicidade.
Sabe tudo o que aconteceu aqui e que só comecei a ser feliz quando conheci seu pai e, mais ainda, quando você nasceu.
- Impossível que alguém possa não ser feliz aqui!
Selma olhou para a escada e lembrou-se de Ariete descendo, feliz, e de Mário Augusto.
- Eu não fui feliz, filho.
- Não diga isso, Selma.
Tivemos muitos momentos felizes aqui.
- Verdade, Flora.
Mas teve um momento muito ruim.
Esmeralda interferiu:
- Vamos deixar essa conversa para depois.
Agora, está na hora de se prepararem para o jantar.
- Já estou com as maletas deles, dona Esmeralda.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:21 pm

- Obrigada, Josias.
Pode levar para o quarto de Selma e para o de hóspedes, que fica ao lado dele.
Roberto quis ajudar, mas Josias se recusou e, com as maletas nas mãos, pediu licença e passando por eles subiu os degraus da escada.
Carlos, encantado, o acompanhava com o olhar.
Selma olhou mais uma vez para a escada e lembrou-se de Ariete e Matilde quando desciam rindo e brincando.
Não pôde evitar que lágrimas descessem por seu rosto.
Roberto e Esmeralda perceberam a emoção dela e disse:
- Subam logo.
Precisamos jantar.
- Vamos logo, mamãe!
Estou querendo ver como são os quartos.
Devem ser lindos!
- São, sim, filho. Vamos.
Amparada por Roberto e Carlos, Selma subiu e entrou no seu antigo quarto.
Parou na porta e, para sua surpresa, estava tudo exactamente como havia deixado.
Emocionada, pensou:
Por que será que minha mãe manteve meu quarto assim?
Será que ela esperava que eu voltasse?
Acredito que sim. Meu Deus!
Como pude deixar de dar notícias?
Antes de entrar no quarto, ela e Roberto acompanharam Carlos até o quarto que seria dele.
Abriu a porta e Carlos, entusiasmado, quase gritou:
- Pai! Olha o tamanho desse quarto!
É quase do tamanho da nossa casa!
Roberto olhou para Selma, que sorriu:
- É verdade, filho.
Mas garanto que, quando se deitar, vai dormir igual dorme no seu quarto, lá em casa.
Quando dormimos não sabemos onde estamos.
Carlos, parecendo não ouvir a mãe, entrou no quarto e, sentando-se sobre a cama, disse:
- Pode até ser, mas dormir em um quarto como esse e nessa cama tão macia deve ser muito bom.
Roberto, feliz em ver o entusiasmo do filho, sorriu:
- Tem razão, filho, mas penso como sua mãe.
Qualquer quarto é um bom lugar para se dormir.
Difícil deve ser para aquele que, além de não ter um quarto não tem sequer uma cama.
Você vai ter a oportunidade de sentir a diferença.
Vai dormir esta noite e amanhã também.
- Sei que vou gostar, pai!
Ser rico é muito bom!
- Você acha, Carlos?
- Claro que sim, mamãe!
- Então, vamos nos preparar para o jantar.
- Preparar, como?
- Tomar banho, trocar de roupas.
- Precisa mesmo?
Tomei banho e coloquei esta roupa pela manhã!
- Precisa trocar.
Não acha que é bom ser rico?
Para isso, precisa seguir algumas regras e essa é uma delas.
Precisa estar impecável para se sentar à mesa de refeições.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:21 pm

Prepare-se que vamos fazer a mesma coisa.
Carlos não gostou da ideia, mesmo assim olhou para Selma e sorriu.
Depois, ela e Roberto entraram no antigo quarto dela, onde dormiriam.
Roberto, sorrindo, disse:
- Ele está muito espantado, Selma.
Confesso que também estou.
Enquanto você contava a sua história e dizia que era rica, não imaginei que fosse tanto.
Também nunca estive em uma casa como essa e nem imaginei que existisse, a não ser nos filmes.
- Existem muitas, Roberto.
Mas como eu disse ao Carlos, fazemos aqui o que fazemos em qualquer lugar.
Depois de todos esses anos vivendo ao seu lado e de Carlos, não sinto falta de nada disso.
Acredito que, se tivermos paz, podemos ser felizes em qualquer lugar.
Agora, vamos nos preparar.
Selma abriu as portas de um armário e apareceram muitos vestidos, saias, blusas e sapatos.
- Todas essas roupas eram suas, Selma?
- Eram e são, Roberto.
São muitas e algumas nem cheguei a usar, comprava só por comprar.
Hoje, ao me lembrar de quantas pessoas têm uma vida difícil e ver aquelas crianças do orfanato, sinto pena de todo o dinheiro que gastei em coisas supérfluas, como muitas dessas roupas e sapatos.
Ninguém precisa de tanta roupa e tanto sapato.
Aprendi que precisamos de pouco para vivermos e sermos felizes.
- Você não teve culpa de ter nascido nessa família.
Talvez, por nunca ter sido rico, acredito que podemos, sim, ter dinheiro e usar na medida em que quisermos para sermos felizes.
- Verdade, Roberto.
Ter dinheiro não é um mal.
O mal está na maneira como o usamos, está na ilusão de que ele pode comprar todas as coisas, pessoas e suas consciências, como eu fiz.
Com dinheiro, podemos nos ajudar e ajudar a muitos que tanto precisam.
Agora, vamos nos preparar para o jantar.
- Vai usar um desses vestidos?
- Não. Não pertenço mais a este mundo.
Vou usar um dos que você colocou na minha maleta.
Não colocou?
- Sim, Selma.
Escolhi os seus melhores, mas nenhum chega perto desses que estão no armário, e não sei se são adequados para esta ocasião.
- Não se preocupe com isso, são os que uso agora.
Prepararam-se, saíram e foram para o quarto onde Carlos estava.
Roberto, por saber que se tratava de um enterro, trouxe sua melhor camisa e calça, e também um paletó.
Carlos, que não havia se interessado muito por aquela viagem, estava vestido com uma calça simples e uma camiseta.
Ao vê-lo, Roberto disse:
- Ele não pode se apresentar vestido dessa maneira, Selma.
Essa roupa não é adequada para ser usada em um lugar como este!
- Não pode por que, Roberto?
Nós não pertencemos a este mundo e devemos nos vestir de acordo com nossas possibilidades.
- As pessoas vão comentar, Selma!
- Não devemos nos preocupar com comentários maldosos e nem desejarmos ser valorizados pelas roupas que vestimos.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:21 pm

Nossas qualidades não se demonstram por nossas roupas.
Eu já dei valor a essas coisas e, por isso, me tornei uma pessoa má.
Quero que meu filho seja e aceite a maneira como nasceu e foi criado.
Ele tem que se destacar por suas atitudes e não por suas roupas.
Roberto ficou calado.
Selma, olhando para Carlos, sorriu:
- Está lindo, filho!
- Sei disso, mamãe.
Eu me olhei naquele espelho grande.
Pai, já viu um espelho daquele tamanho?
- Não, Carlos.
Também estou surpreso com tudo o que estou vendo aqui.
Sorrindo, desceram a escada e chegaram à sala de jantar, onde Esmeralda e Flora já estavam esperando.
A mesa estava posta, com louça em porcelana, taças de cristal e talheres em prataria.
Esmeralda apontou os lugares em que deviam se sentar.
Carlos sentou-se e o jantar foi servido em travessas de prata.
O menino, ao ver tudo aquilo com que não estava acostumado, pois em sua casa comiam em um só prato e utilizavam somente um garfo e uma faca e copos de vidro, preocupado, olhou para a mãe, que sorriu.
Selma entendeu a situação do filho e de Roberto, que também nunca tinha visto uma mesa como aquela, e tranquilamente começou a se servir.
Eles seguiram tudo o que ela fazia e, em pouco tempo, todos estavam comendo.
Em dado momento, Flora perguntou:
- Vai ficar morando aqui, Selma?
Esta e todas as propriedades de sua família e o dinheiro agora são seus.
- Não tenho essa intenção.
Aprendi a viver sem toda essa riqueza e, mesmo que quisesse, não poderia ficar.
Eu e meu marido estamos sendo investigados pela polícia e não podemos sair da cidade, só estamos aqui porque o juiz permitiu, mas teremos de voltar.
- Investigados?
Como assim, o que aconteceu?
- Não vamos falar sobre isso, agora.
Após o jantar conversaremos.
- Está bem, desculpe-me.
- Não tenho o que desculpar, Flora.
Pensei que José Luiz havia comentado.
- Não, ele somente nos comunicou da morte de sua mãe.
Eu não tinha ideia de que estavam sendo investigados.
Estou curiosa para saber o que aconteceu.
Selma sorriu e continuou comendo.
Carlos estava preocupado em como deveria comer.
O que queria, realmente, era pegar um garfo e uma faca ou até comer com as mãos.
Selma observava o filho e, por dentro, sorria.
Sabia que ele estava incomodado, mas naquele momento nada poderia fazer.
Assim que todos terminaram de comer, levantaram-se e foram para a sala ao lado.
Sentaram-se e uma moça entrou trazendo um carrinho com café e licor.
Selma olhou para ela e pensou:
Não conheço essa moça e nenhum dos empregados, somente Josias e sua esposa são meus conhecidos.
Os outros devem ter sido despedidos por mamãe.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:21 pm

Após algum tempo, Flora, ansiosa, disse:
- Por favor, Selma, conte o motivo da prisão de vocês!
Selma sorriu e começou a contar.
Terminou dizendo:
- Foi isso o que aconteceu.
Apesar de sermos inocentes, fomos presos e, provavelmente, responderemos a um processo.
- Vocês são inocentes, mesmo, Selma?
- Claro que somos Flora, e ninguém melhor do que você para saber disso.
- Eu? Por que está dizendo isso, Selma?
- Desde que tudo isso aconteceu, pensei em quem teria motivo para nos comprometer dessa maneira.
Como não tenho inimigos, cheguei à conclusão de que somente você teria motivo para me odiar e dinheiro para planear e fazer acontecer tudo isso.
- Como pôde pensar isso, Selma?
- Você me odeia por eu ter praticamente matado Ariete.
E, infelizmente, preciso concordar com você, pois, embora não fosse essa a minha intenção, realmente planeei, só que em momento algum pensei que chegaria aonde chegou.
- Não fiz isso, Selma!
Não posso negar que fiquei revoltada quando soube que você havia sido culpada pela morte de Ariete, Matilde e Mário Augusto, mas nada fiz contra vocês.
- Não fez mesmo, Flora?
- Não, Esmeralda!
Confesso que pensei muitas vezes em uma maneira de me vingar de você, Selma.
Fui até a sua cidade apenas para isso, mas depois que conversamos naquele dia, Esmeralda, e que você me fez ver que a vingança só poderia fazer mal a mim mesma e que eu havia perdido um tempo enorme somente pensando nela, é que resolvi vir embora.
Depois que chegamos aqui, de volta para casa, pensei muito a respeito e cheguei à conclusão de que você tinha razão.
Foi quando resolvi que iríamos viajar.
Eu precisava ficar longe e tentar recomeçar a minha vida, sem desejar vingança.
Não fui eu, Selma! Não fui eu!
- Desculpe-me, Flora, mas você é a única pessoa que pode ter motivo para me odiar.
Sei que errei, mas, por favor, me perdoe.
Meu filho e meu marido nada têm a ver com aquilo que fiz.
Eu me arrependi profundamente, mudei minha vida e recomecei do nada.
Hoje, não tenho riqueza alguma e só quero viver em paz.
- Não fui eu, Selma.
Pode acreditar nisso.
- Está bem, Flora.
Só espero que José Luiz consiga descobrir o que aconteceu.
Ele disse que vai me ajudar.
- Ele pode fazer isso.
Tem um escritório com detectives particulares.
- Como somos inocentes, tenho certeza de que ele vai conseguir.
Quando acontecer, poderei respirar em paz e retomar minha vida.
Carlos bocejou.
Selma sorriu:
- Está com sono, Carlos?
- Estou, mamãe.
Esmeralda também sorriu:
- Vamos embora, Flora, eles precisam descansar.
Além do mais, amanhã terão um dia muito tenso.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:21 pm

- Tem razão, Esmeralda. - Flora disse, levantando-se.
Despediram-se.
Selma, Roberto e Carlos subiram para os quartos.
Cansados, deitaram-se.
Carlos e Roberto dormiram imediatamente, Selma ainda ficou algum tempo pensando em como sua mãe havia morrido e sentindo-se culpada por isso também.
Depois de algum tempo, com os olhos inchados e vermelhos, adormeceu.
Flora e Esmeralda saíram da casa e entraram no carro.
O motorista ligou o motor e saíram.
Durante o trajecto ficaram em silêncio, cada uma presa em seus próprios pensamentos.
Quando chegaram a casa e o carro parou, desceram e entraram.
Assim que cruzaram a porta, Esmeralda, furiosa, perguntou:
- Como pôde fazer tanta maldade com Selma, Flora?
- Não fui eu, Esmeralda!
Não fiz coisa alguma!
- Como não, Flora!
Desde que descobriu a participação de Selma naquela tragédia, jurou que ia se vingar!
Foi para aquela cidade apenas para fazer isso e parece que conseguiu!
- Não fui eu, Esmeralda!
Você tem razão, eu sempre disse que ia me vingar, fui até aquela cidade somente para isso, mas depois daquele dia em que fomos à creche e você conversou comigo, fiquei pensando no tempo enorme que havia perdido e resolvi que não valia a pena.
Selma estava fazendo um lindo trabalho com aquelas crianças, e nem Mário Augusto ou Ariete voltariam mais.
Foi por isso que resolvi voltar e viajar para o exterior.
Foi o que fizemos e só voltamos agora.
Você esteve o tempo todo ao meu lado.
Quando tudo aquilo aconteceu com Selma e o marido, estávamos longe daqui.
Você precisa acreditar no que estou dizendo.
- Não sei como você fez, mas tenho certeza de que foi você.
Selma também pensa assim, ela deixou isso bem claro.
Quem arquitectou tudo isso deve ter muito dinheiro para comprar as pessoas que participaram dessa mentira!
Deve ter também poucos sonhos, a não ser o de se vingar.
Somente você, Flora, tem esse dinheiro e muito ódio por Selma.
- Não fui eu, mas vou descobrir quem foi para poder ajudar Selma!
- Está bem, Flora.
Tomara que esteja dizendo a verdade.
Agora, vamos dormir.
Amanhã será um dia de muita tensão.
- Vou provar a você e a Selma que estou falando a verdade.
Vamos dormir, sim.
Porém, acho que vou demorar a pegar no sono.
Preciso pensar em uma maneira de descobrir o que aconteceu realmente.
Boa noite, Esmeralda.
- Boa noite, minha filha, durma bem!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 04, 2017 7:22 pm

Despedida
No dia seguinte, acordaram cedo, desceram e foram para a sala de jantar onde havia uma farta mesa de café da manhã.
Os olhos de Carlos se arregalaram quando ele viu tanta coisa na mesa.
Além de pão, havia também bolos e doces variados.
Ele, porém, já havia entendido que não poderia demonstrar todo o seu entusiasmo.
Sentou-se em uma cadeira que Selma apontou e começaram a comer.
Estavam ali, comendo em silêncio, quando, acompanhado por uma das empregadas da casa, chegou José Luiz:
- Bom dia!
- Bom dia, José Luiz.
Sente-se para tomar café connosco.
- Vou me sentar, Selma, mas apenas tomarei uma xícara de café preto.
Tomei café completo em casa ao lado de minha mãe.
Esta noite, dormi na sua casa.
Daqui a pouco ela, o corpo de sua mãe e outras pessoas estarão chegando para o velório.
Sabe como sua mãe era querida e respeitada pela sociedade.
Selma sorriu:
- Sei, sim. Ela sempre se comportou muito bem com todos, além de ter sido benemérita.
- Verdade. Ela sempre preparou jantares e almoços beneficentes.
Disse Esmeralda, que acabara de chegar ao lado de Flora.
José Luiz, ao ouvir a voz dela, levantou-se, sendo seguido por Roberto.
Selma e Carlos continuaram sentados.
- Sentem-se e nos acompanhe no café.
- Obrigada, Selma.
Vamos nos sentar, sim.
Esmeralda tinha pressa de chegar e nem tomamos café. - Flora disse, sorrindo.
Estavam conversando e comendo, quando a mesma empregada entrou na sala:
- O carro da funerária está aí.
José Luiz, levantando-se, disse:
- Vou conversar com eles.
Ele saiu da sala.
Os demais se olharam, mas ficaram calados.
Logo depois, ele voltou:
- Já estão colocando o corpo na sala.
Vocês querem ir até lá, Selma?
- Vamos sim. - Selma disse, levantando-se e sendo acompanhada pelos demais.
Carlos olhou para a mãe, querendo ficar ali, pois embora houvesse tantas coisas gostosas não conseguira comer tudo o que já havia comido com os olhos.
Selma entendeu o que o filho queria:
- Você não precisa ir agora, Carlos.
Continue comendo.
Saíram. Entraram na sala no exacto momento em que a urna funerária estava sendo aberta.
Selma, sem conseguir evitar, começou a chorar.
Roberto abraçou-a e permaneceu ao seu lado.
Carlos chegou logo depois e colocou-se ao lado da mãe.
Ele nunca tinha ido a um enterro.
Olhou para o rosto de Alda, estremeceu e pensou:
Não consigo sentir coisa alguma por essa mulher, ela não me pareceu ser uma boa pessoa.
Não gosto dessas velas, esses tecidos roxos nas paredes e esse cheiro de flores.
Todo esse sofrimento me faz muito mal.
Logo depois, as pessoas começaram a chegar.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 6:59 pm

Foi um verdadeiro desfile de modas.
Cumprimentavam Selma, que vestida como estava, não lembrava nem de longe aquela que conheceram.
Olhavam para Roberto e Carlos e, sem nada dizer, simplesmente os ignoravam.
Depois se retiravam e ficavam cochichando enquanto olhavam para eles.
Roberto e Carlos perceberam, ao contrário de Selma, que apenas recebia as condolências e chorava.
Após algum tempo, Carlos, não suportando mais aquele clima de tristeza, resolveu sair e, do lado de fora da casa, caminhou em direcção a um banco que havia ali.
Sentou-se e viu que os carros entravam pelo grande portão, seguiam pela alameda que rodeava a casa, paravam em frente à porta de entrada, onde os motoristas paravam, desciam e abriam a porta do carro para que as pessoas pudessem descer.
Em seguida, voltavam ao carro, continuavam pela alameda e saíam por outro grande portão que ficava ao lado da casa.
Ficou algum tempo olhando os carros e se admirando com todos eles e ainda mais com o porte das pessoas que deles desciam.
Nunca, em sua vida, havia visto pessoas como aquelas.
Quando estava olhando, viu Josias que, com um pano, tirava a poeira do carro que ele sabia ser o de sua avó e que estava parado ao lado da garagem.
Josias, que o acompanhava com os olhos, e viu quando ele se sentou, largou o pano sobre o carro e foi até ele.
Aproximou-se e, sorrindo, perguntou:
- Está tudo bem com você, Carlos?
- Na verdade, não.
Estou me sentindo muito mal e triste.
- A morte sempre causa tristeza na gente, ao contrário do que acontece quando uma criança nasce, que é só felicidade.
- Não é pela morte dela que estou triste.
Eu não a conhecia e confesso que não gostei dela, assim como ela não gostou de mim.
- Ela não era uma má pessoa, apenas orgulhosa.
Isso aconteceu por ter sido criada assim.
Nasceu em uma família muito rica e aprendeu que o dinheiro pode comprar tudo e todos.
- E não pode?
Josias sorriu:
- Pode até comprar coisas e pessoas, mas isso não significa que pode comprar a felicidade.
Ela, embora tenha tido muito dinheiro, perdeu o filho e sua filha foi embora.
Morreu sozinha.
Só eu estava ao seu lado, e agora deve estar enfrentando a verdade.
- Que verdade?
- Que o dinheiro e a posição social são ilusões.
Pois um dia, tanto ricos como pobres terão o mesmo destino, a morte, e perante Deus não existe diferença alguma.
Não importa se ricos ou pobres, todos teremos de responder por nossas acções.
- Responder? Não entendo muito bem o que está falando, Josias.
- Não precisa entender isso agora, você é ainda muito jovem.
Mas com o tempo, vai entender.
Agora, me diz o motivo da sua tristeza, já que não é pela morte da sua avó.
- Quando cheguei, achei que morar aqui seria muito bom; mas agora, depois de conhecer essas pessoas, acho que não vai ser tão bom assim.
Sinto que este não é o meu lugar.
Eu e papai, por sermos negros, não fazemos parte deste mundo.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 7:00 pm

- Você não deve jamais se deixar abater por causa da sua cor de pele, ela nada representa.
O que importa é você ser uma boa pessoa, sonhar e ir em busca dos seus sonhos.
Precisa apenas entender que as pessoas estão curiosas em saber o que aconteceu com sua mãe, que desapareceu por tanto tempo.
Não sabem o que aconteceu, por que ela fez isso.
E durante todo esse tempo, imaginaram uma porção de coisas.
Agora que ela voltou acompanhada do marido e do filho, que são negros, é natural que estejam comentando, curiosas, pois isso é algo que jamais imaginariam já que sua mãe, assim como sua avó, era uma pessoa muito orgulhosa.
- Não sei se quero ficar aqui.
Quando vi esta casa fiquei espantado, pois ela é enorme e luxuosa.
Mas depois que vi como as pessoas olham para mim e para meu pai, não sei não.
Na minha cidade, embora não sejamos ricos, temos uma boa vida.
Eu tenho muitos amigos na escola e no time de futebol, todos me conhecem e eu conheço a todos.
Sei que agora, com a prisão dos meus pais, tudo vai mudar, mas mesmo assim já não sei se gostaria de morar aqui e conviver com essas pessoas.
Custo a acreditar que minha mãe foi uma pessoa assim tão má como ela contou.
Você conhece minha mãe desde que ela era pequena, ela foi mesmo tudo aquilo que contou e fez todas aquelas coisas ruins?
- Sim, conheço sua mãe há muito tempo, e ela foi exactamente da maneira como contou.
Mas, assim como não podemos julgar ou condenar ninguém, também não podemos condenar sua mãe.
Ela foi criada de uma maneira diferente daquela que está criando você.
Acredito que todos nós estamos no lugar e com as pessoas que precisamos para o nosso aprendizado.
Sua mãe teve uma educação rígida, com muitas regras, as quais precisou seguir e aceitar; mas, quando percebeu que estava tudo errado, mudou completamente e hoje é a mulher que você conhece e que ama muito a você e ao seu pai.
Todos nós podemos, a qualquer momento, mudar nossa vida tanto para o bem como para o mal.
- Está dizendo que minha mãe está perdoada pelo que fez?
- Ela, assim como todos nós, é criação de Deus.
Ele é um pai amoroso que perdoa sempre e nos dá todas as chances para repararmos nossos erros; porém, também é justo.
Agora sua mãe teve a chance de se redimir e aproveitou.
Está ajudando a cuidar de muitas crianças, tentando dar a elas um futuro melhor e mais tranquilo.
É uma óptima mãe e esposa, mas terá, de alguma maneira, que resgatar o que fez.
- Como ela pode fazer isso?
Os três já morreram!
- Não se preocupe com isso.
Você é ainda muito jovem para entender.
Com o passar do tempo, tudo vai se ajeitar.
Agora, tem de ficar ao lado de seus pais, pois precisam provar a inocência disso que foram acusados para, depois, continuarem a vida.
Por mais que estejamos passando por um momento ruim, a vida não para e precisamos seguir em frente, caminhar ao seu lado.
Por mais que vocês estejam tristes e abalados por tudo o que está acontecendo, muitos momentos bons estão chegando.
Falando em chegar, olhe quem está vindo para cá.
Carlos olhou para onde Josias olhava e sorriu.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 7:00 pm

Roberto se aproximou, colocou o braço sobre o ombro de Carlos e deu um beijo em seu rosto:
- Ainda bem que eu encontrei você, meu filho.
Quando vi que não estava na sala, fiquei preocupado.
- Não aguentei mais ficar lá dentro, pai, com aquele cheiro de vela, de flores e as paredes cobertas de roxo.
E também as pessoas cochichando e olhando pra mim e para o senhor daquele jeito.
Roberto olhou para Josias, que sorriu.
Depois disse:
- Estamos aqui por causa da sua mãe, Carlos.
Daqui a pouco vai acontecer o enterro e poderemos voltar para casa e continuar a nossa vida como sempre foi.
- Não podemos continuar a nossa vida como era, papai!
Tudo mudou!
- Sei disso, meu filho, mas tenho fé em Deus que tudo vai ficar bem.
Agora, continue aqui conversando com Josias, não precisa entrar mais.
Vou porque preciso ficar ao lado da sua mãe, mas daqui a pouco tudo isso vai terminar.
Beijou o rosto do filho e se dirigiu à casa.
Lá dentro, Selma estava com os olhos fundos, vermelhos e exausta.
Enquanto as pessoas passavam pelo caixão e conversavam, ela pensava:
Sei que todos nós vamos morrer, mas a morte sempre é triste, mamãe.
Eu estou sofrendo muito por tudo o que fiz e, mais ainda, por não termos conversado.
Sei que culpei a senhora por aquilo que me tornei, mas sei também que isso não é verdade.
Eu gostava de ser como era, gostava de humilhar as pessoas e comprar o que quisesse com o meu dinheiro.
Hoje sei que estava errada, por isso tenho feito tudo o que posso para ser uma pessoa diferente daquela que fui.
Sei que hoje não sou mais daquela maneira.
Roberto aproximou-se dela e ficou ao seu lado, enquanto as pessoas continuavam conversando e olhando para eles.
Algum tempo depois, José Luiz se aproximou e, colocando a mão sobre os ombros de Selma e de Roberto, disse:
- Está na hora de fecharmos o caixão.
Vocês podem se despedir.
Selma olhou para o rosto da mãe e, chorando, pensou:
Mamãe, não sei o que acontece depois da morte, nem sei onde a senhora está agora.
Desejo que esteja em um bom lugar e só peço que me perdoe.
As outras pessoas também se aproximaram, olharam, choraram e foram saindo.
O caixão foi fechado e levado para fora da casa.
Depois de colocado no carro funerário saiu e foi acompanhado pelos demais.
Selma, Roberto e Carlos foram no carro da família.
Depois do enterro, voltaram para a casa.
Selma, ainda muito abatida, disse:
- Está tudo terminado.
Podemos voltar para nossa casa.
- Não precisam fazer isso hoje, Selma.
Podem ir amanhã pela manhã.
Selma olhou para José Luiz, que chegou logo depois dela e, sorrindo tristemente, disse:
- Não adianta ficarmos aqui, José Luiz.
Precisamos voltar para nossa casa, e eu preciso estar lá para poder pensar em toda a minha vida, naquilo que poderá acontecer e o que eu posso fazer.
- Está bem, já que deseja assim.
Mas terá de voltar, pois esta casa e todos os bens da sua família agora pertencem a você.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 7:00 pm

- Sei disso, mas hoje não quero nem posso pensar a esse respeito.
Primeiro, precisamos provar a nossa inocência, depois pensarei nisso.
Enquanto eu não puder voltar para resolver o que fazer, por favor, cuide da casa e de tudo.
- Está bem.
Já que deseja assim, que seja feito.
Não se preocupe com o processo.
Hoje, pela manhã, antes de vir para cá fui até o meu escritório, contei o que está acontecendo e já começaram a investigação.
Flora está muito interessada em provar a inocência de vocês e vai ficar ao meu lado, tentando descobrir o que aconteceu.
- Flora, José Luiz?
- Sim, Selma.
Ela está muito preocupada com tudo isso que aconteceu e o facto de você achar que ela pode estar por trás de tudo.
- E você acredita que ela não está, José Luiz?
Só pode ter sido ela, ninguém mais.
- Mas ela insiste que não tem participação nenhuma nisso.
- Está bem, José Luiz.
Faça o que achar melhor.
Confio em você.
- Obrigado, Selma.
Pode confiar que, se depender de mim, tudo vai ser esclarecido.
Carlos e Roberto apenas acompanhavam a conversa.
Estavam conversando, quando uma empregada da casa entrou na sala onde estavam:
- A mesa do lanche está servida.
Olharam-se, levantaram-se e foram para a sala ao lado.
Sentaram-se e tomaram o lanche.
Quando terminaram, Selma, olhando para Carlos, disse:
- Vá até o quarto e pegue sua bagagem.
Eu e seu pai vamos fazer o mesmo.
Precisamos ir embora.
José Luiz levantou-se e, colocando a mão sobre a aba do chapéu, sorriu:
- Também estou indo embora, Josias irá levar vocês.
Fiquem tranquilos que, assim que eu tiver alguma notícia, eu comunico.
Assim que chegarem lá, não se esqueçam de se apresentarem ao delegado para que ele comunique ao juiz que voltaram.
- Não esqueceremos.
Até mais, José Luiz.
Tenho certeza de que estamos em boas mãos.
Ele sorriu e foi embora.
Assim que ele saiu, foram para os quartos e pegaram as malas.
Antes de sair, Selma olhou para aquele quarto que trazia tanta recordação.
Desceram e, quando chegaram à sala, Josias já os esperava.
Pegou as maletas e todos foram para fora da casa onde, na porta, o carro já os aguardava com as portas abertas.
Entraram, ele ligou o carro e saiu.
Quando chegaram já era noite.
Assim que entraram, Carlos foi para seu quarto e Selma, voltando-se para Josias, disse:
- Já está tarde, Josias.
Não quer passar a noite aqui e voltar amanhã pela manhã?
- Obrigado, Selma, mas não precisa.
Não é tão longe assim.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 7:00 pm

- Obrigada por tudo, Josias. - Selma disse, sorrindo.
Ele sorriu, apertou a mão de Selma e de Roberto e saiu.
Assim que Josias saiu, Selma olhou para Roberto e, notando que ele estava preocupado, perguntou:
- O que está acontecendo, Roberto?
- Carlos não está bem.
- Por quê? O que ele tem?
Ele contou o que havia conversado com Carlos e terminou dizendo:
- Hoje ele sentiu, pela primeira vez, o preconceito e não está lidando bem com isso.
- Embora devia saber que isso aconteceria, eu não notei, Roberto!
Como pude não notar?
- Você estava envolvida em muita dor.
Também não conversei com ele, mas agora precisamos conversar.
Eu já passei por muitas situações parecidas e hoje já consigo me proteger do sofrimento, mas ele é muito jovem, Selma.
- Vou conversar com ele.
Quer vir comigo?
- Sim, acho que devo.
Foram ao quarto de Carlos.
Ele estava deitado de costas olhando para o tecto.
Assim que entraram, Selma perguntou:
- Está tudo bem, Carlos?
Ele olhou para eles e, deixando que lágrimas caíssem de seus olhos, respondeu:
- Não, mamãe, não está nada bem.
- Por que, meu filho?
- Quando vi a casa onde a senhora morou e soube que era rica fiquei muito feliz e empolgado, mas hoje eu me senti muito mal vendo as pessoas conversarem baixinho e olharem para mim e para o papai de um jeito como se a gente estivesse em um zoológico.
Selma olhou para Roberto que, acenando com a cabeça, confirmou.
- Elas olharam daquela maneira, mas não foi por vocês, Carlos.
Elas não me viam há muito tempo e se admiraram por eu estar casada e tão diferente daquela que conheciam.
- Josias me falou isso, mas mesmo assim fiquei mal e não quero voltar nunca mais àquela casa.
- Não se preocupe com isso, filho.
Não vamos voltar lá.
Temos uma vida diferente de tudo aquilo.
Sempre vivemos aqui felizes e vamos continuar a ser.
- Como, mamãe?
A senhora e o papai podem ser presos e não sei o que vai acontecer comigo!
- Vamos provar a nossa inocência e nada de ruim vai acontecer com você.
Agora, vamos dormir.
Estamos cansados por tudo o que aconteceu.
Amanhã será outro dia.
Beijou sua testa e o cobriu com um cobertor.
Carlos sorriu.
Selma e Roberto também e saíram do quarto.
De volta à sala, Selma, olhando com carinho para o marido, disse:
- Vou também tentar dormir, Roberto.
Sei que vai ser difícil, pois muita coisa aconteceu.
Ainda não aceitei que minha mãe não está mais aqui e que ela morreu sem que eu pudesse dizer tudo o que sentia e pedir perdão.
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