As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Página 10 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... , 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:32 pm

Não consigo dormir direito e sinto muita falta de Matilde.
Sinto que a vingança não me fez bem, Flora.
- Esmeralda já me disse, várias vezes, que de acordo com sua religião, a morte não existe, é apenas uma pequena separação, pois um dia todos nos reencontraremos.
Não sei se é verdade mas se for vai ser muito bom.
- Já me falaram isso, Flora.
Mas penso que quem acredita nisso é alguém que nunca perdeu um ente querido assassinado, como foi o meu caso.
Não sei se existe vida após a morte e não me interessa, o que sei é que minha filha está morta e não vai voltar.
- Também quis me vingar de Selma pela morte da minha irmã, mas posso garantir à senhora que quando resolvi deixar para lá e continuar minha vida foi a melhor coisa que poderia ter feito.
Hoje estou tranquila, durmo bem e não tenho mais aquele aperto no coração que tinha antes.
- Eu, ao contrário, não durmo bem e não penso em outra coisa que não seja o sofrimento de Selma.
Só sinto que hoje, depois de tudo que consegui, deveria estar feliz e tranquila, mas não estou. - Disse chorando muito.
Péricles olhou para Matilde, que chorava sem conseguir se conter:
- Está entendendo o que está acontecendo com sua mãe, Matilde?
Matilde, que também chorava muito, respondeu:
- Não sei, Péricles.
Estou sofrendo muito por tudo o que está acontecendo com minha mãe.
- Por que está dizendo isso?
- Sei o mal que pode fazer ao espírito o ódio e o desejo de vingança.
Aceito que Selma foi cruel, mas ela me pediu perdão muitas vezes, desde aquela noite, e eu a perdoei.
Ela se modificou, está dedicando sua vida a ajudar aquelas crianças, não é nem de longe a mesma de antes.
Por isso, estou vendo que a única prejudicada tem sido minha mãe.
Ela, que era vítima, depois do que fez se tornou a culpada e está rodeada por energias ruins que não percebe.
E o pior, mesmo depois de ter conseguido se vingar, percebeu que nada mudou e que tudo foi inútil.
Ela não está bem, Péricles.
Não teve culpa alguma de tudo o que me aconteceu.
Eu sou a única culpada, bem que ela tentou me alertar mas eu não quis ouvir.
Agora ela é quem está arcando com toda essa dor.
Está pagando pelos meus erros.
- Essas lágrimas e esse sofrimento dela reflectem, além da própria frustração, o que você está sentindo, Matilde.
Sua mãe está recebendo as energias do seu sofrimento que, aliada à insatisfação de ver que a vingança não trouxe a paz que ela tanto anseia, faz com que chore dessa maneira.
- Está dizendo que ela está chorando por eu estar triste e sofrendo, Péricles?
- Sim. Você precisa se acalmar e conversar com sua mãe e poderá sentir que ela, depois que começou a contar o que havia feito, está melhorando e as energias que estavam ao seu lado estão se afastando.
Dizendo isso, Péricles sorriu, estendeu os braços, um em direcção a Matilde e o outro para Mirtes:
- Converse com ela, Matilde.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:32 pm

Matilde parou de chorar e muito emocionada começou a falar:
- Perdoe-me, mamãe, por tudo que a fiz passar.
Porém, agora, tudo terminou, estou bem e feliz.
Para que minha felicidade seja completa só é preciso saber que a senhora está bem.
Todos nós cometemos erros, mas todos teremos uma nova chance para a nossa redenção.
Pare de chorar, mamãe.
Embora Mirtes não tivesse ouvido o que Matilde disse, sentiu um bem-estar que há muito não sentia.
Parou de chorar e, olhando para Flora e José Luiz, emocionada disse:
- Depois de tudo o que fiz e vendo que nada adiantou para que eu me sentisse bem, acredito que aquilo que Esmeralda disse a você, Flora, seja verdade.
Por isso, vou me preparar e ir conversar com o delegado para contar tudo o que fiz.
Flora, abismada, olhou para José Luiz que, também surpreso, disse:
- A senhora sabe que se fizer isso, Selma e o marido serão libertados e a senhora poderá ser processada e até presa.
É isso mesmo o que quer?
- Sim, mas sinto que Matilde quer que eu faça isso.
- Está bem, senhora.
Quer que esperemos até que se apronte?
- Sim, obrigada, doutor.
Não vou demorar.
Fabiana e Margarete ao ouvir aquilo se assustaram.
Margarete, demonstrando muito medo, quase gritou:
- Tia, não pode fazer isso!
Quando o delegado souber o que todos nós fizemos para ajudar a senhora, vamos ser presos também!
José Luiz olhou para Fabiana e viu que ela também chorava muito.
- Tudo o que fizeram foi errado e, mesmo sem conhecer Selma direito, fizeram com que fosse incriminada.
Claro que merecem um castigo, mas, levando-se em conta tudo o que aconteceu e o envolvimento de dona Mirtes, vou conversar com o juiz para que leve isso em conta e aplique uma pena bem leve.
Não tem como, somos livres para escolher mas também para responder por nossos actos.
- Obrigada, doutor.
São crianças e, realmente, foram envolvidas por mim, pelo meu ódio e meu desejo de vingança.
- Está bem, dona Mirtes.
Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance.
Margarete e Fabiana, chorando, saíram da sala.
Mirtes foi atrás delas.
Assim que saíram, José Luiz apertou a mão de Flora, que olhou para ele e sorriu.
No mesmo instante em que se olharam, sentiram uma espécie de corrente eléctrica passando por seus corpos.
Constrangidos, sem que cada um soubesse que o outro havia sentido o mesmo, retiraram as mãos.
- Está quase na hora do almoço, Flora.
Vamos conversar com dona Mirtes, dizer que vamos almoçar e que depois voltaremos para acompanhá-la. - José Luiz falou, um pouco confuso.
Flora, ainda emocionada pelo aperto de mão e com o que tinha sentido, apenas consentiu com a cabeça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:32 pm

Minutos depois, Mirtes voltou:
- Conversei com as meninas, elas não querem me acompanhar.
Estão com medo de serem presas.
Tem algum problema, doutor?
- Talvez não tenha problema.
Vamos conversar primeiro com o delegado e depois, se precisar, com o juiz, mas acredito que seja um bom momento para que elas aprendam alguma coisa.
- Não estou entendendo o que o senhor está dizendo.
Aprender o que e como?
O que elas fizeram foi por minha culpa.
- Sim, a senhora tem razão, foi sua culpa.
Mas elas precisam aprender que não podem se deixar envolver pelos problemas de outras pessoas e assim cometerem um crime, pois, se minhas investigações não tivessem me trazido até aqui, Selma e o marido poderiam ser condenados por algo que não cometeram.
Elas precisam, de alguma maneira, responder pelo que fizeram.
- O senhor tem razão.
Vou conversar com elas e fazer com que entendam o que o senhor me falou.
Elas vão nos acompanhar e estar à disposição das autoridades, mas vou fazer questão, se for o caso, de sempre dizer que fui a culpada de tudo o que aconteceu.
- Com a senhora fazendo isso, acredito que em breve tudo será resolvido e todos nós poderemos respirar em paz.
Mirtes ficou calada.
Flora, feliz pelo rumo que as coisas estavam tomando, olhou para José Luiz e disse:
- Antes de irmos, preciso ir até em casa, pois Esmeralda já deve estar preocupada pela minha demora.
Você a conhece, sabe como ela é.
- Está certa, Flora.
Voltaremos daqui a duas horas, dona Mirtes.
Está bem para a senhora?
- Está sim.
Quando voltarem estaremos prontas.
Eles despediram-se e saíram.
Péricles olhou para Matilde, que chorava e ria.
- O que aconteceu, Matilde, você está chorando ou rindo?
- As duas coisas, Péricles, só que é de felicidade.
Graças a Deus, minha mãe encontrou o caminho da paz.
Quando vi aquelas entidades se afastarem dela, percebi que agora ela vai ficar bem e é somente isso que desejo.
- Sim, Matilde, graças a Deus.
Vamos continuar aqui, ao lado de sua mãe.
Ela vai precisar de toda a luz que pudermos mandar.
- Obrigada, Péricles.
Só podia esperar isso de você.
Eu não teria coragem de abandoná-la em um momento como este.
Apesar de tudo o que ela fez, preciso entender e também assumir minha culpa.
Péricles apenas sorriu.
Assim que saíram, Flora e José Luiz despediram-se e foram para a casa dela contar a Esmeralda o que havia acontecido.
- Nunca pensei que fosse isso que tivesse acontecido!
Pensei em você, Flora, e até em você, José Luiz, mas nunca na mãe de Matilde.
Eu a vi algumas vezes na cantina do colégio, mas não a conhecia muito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:33 pm

- A senhora pensou em mim, dona Esmeralda, por quê?
- Todos sabíamos que você era apaixonado por Selma e também o melhor amigo de Mário Augusto.
Ao saber o que ela havia feito, talvez quisesse se vingar dela.
- Eu nunca desconfiei nem imaginei que Flora tivesse alguma coisa a ver com aquela tragédia.
Só tomei conhecimento quando fui à delegacia com dona Alda.
Quando Mário Augusto morreu sofri muito e por isso me afastei de todos.
Depois me casei, e só visitava dona Alda para cuidar de seus negócios.
- Fiquei feliz por não ter sido nenhum de vocês.
Agora, precisamos rezar para que tudo isso termine logo.
Vamos almoçar?
Flora e José Luiz sorriram e começaram a comer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:33 pm

A força do perdão
Em casa, Selma terminava de preparar o almoço.
Carlos ia chegar da escola e Roberto tinha saído cedo para ver se encontrava um emprego.
Dali a alguns minutos ele chegou.
Selma olhou para ele e percebeu que estava abatido:
- Como foi a entrevista, conseguiu o emprego?
- Não, Selma.
Acho que assim que terminar o julgamento e, queira Deus, conseguirmos sair livres, vamos precisar nos mudar para outra cidade.
Esta cidade é pequena e não tem muito emprego, além de todos saberem o que aconteceu com a gente.
Estou preocupado, pois já faz mais de dois meses que estou desempregado e nossas reservas estão acabando.
- Como diziam Etelvina e Marília, tudo tem hora certa para acontecer.
Não vamos sofrer antes do tempo, a qualquer momento vai aparecer um emprego.
Você é honesto e um óptimo profissional.
Tenho fé que tudo vai ser esclarecido.
Sabemos que somos inocentes e isso já deve nos bastar.
- Ainda bem que você pensa assim.
Eu já perdi minha fé.
- Venha me ajudar a preparar a salada.
Carlos já está chegando e ele precisa se alimentar.
Vou conversar com Marília e dizer que, embora adore trabalhar com as crianças, preciso procurar um emprego e, se encontrar, vou ser obrigada a abandonar o orfanato, o que é triste mas necessário.
Roberto a abraçou e beijou.
Estavam ainda na cozinha, quando Carlos chegou e puderam começar a comer.
Carlos, embora triste por Fabiana ter ido embora, estava empolgado com o campeonato da escola.
Assim que entrou, falou:
- Preciso almoçar rápido porque hoje tenho treino.
- O almoço já está pronto, filho.
Ajude seu pai a colocar a mesa enquanto levo a comida.
A mesa foi colocada e sentaram-se para comer.
Estavam comendo quando a campainha tocou.
Olharam-se, surpresos.
- Quem será, Roberto?
- Não sei, vou ver. - Disse, levantando-se.
Abriu a porta e ficou surpreso:
- Doutor Tavares, o que está fazendo aqui?
- Precisamos conversar.
Posso entrar?
- Claro que sim.
Estamos terminando de almoçar, o senhor está servido?
- Não, obrigado.
Embora ainda não tenha almoçado, não estou com fome.
Termine que depois conversaremos.
- Está bem. Sente-se e fique à vontade, já estou terminando.
Tavares sentou-se no sofá e Roberto voltou para a cozinha.
Assim que entrou, olhou para Selma e Carlos que, assim como ele, não entendiam o que Tavares estava fazendo ali.
Com os olhos ele fez um sinal de que também não estava entendendo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:33 pm

Tentaram terminar de comer mas não conseguiram.
Estavam tensos e muito curiosos para saber do que se tratava.
Alguns minutos depois, os três se levantaram.
Carlos foi para seu quarto e Selma sentou-se em outro sofá, ao lado de Roberto, que falou:
- Terminamos de almoçar, doutor Tavares, já podemos conversar.
- Como podem perceber, estou muito nervoso.
Briguei com minha esposa e vim para cá.
Vim para pedir que volte a trabalhar no lacticínio, Roberto.
Surpreso, Roberto olhou para Selma, que fez uma força imensa para não demonstrar sua curiosidade.
- Não estou entendendo, o senhor me despediu.
- Sim, é verdade, e foi a pior coisa que já fiz em minha vida.
Foi esse o motivo pelo qual briguei com minha esposa.
Eu disse a ela que iria tentar recontratar você e ela não aceitou.
Tive de dizer que a empresa está toda bagunçada e que estou perdido.
Não sei conversar com os fornecedores e menos ainda com os clientes.
Estou tendo prejuízo e perdendo para os concorrentes.
Preciso que volte a trabalhar comigo, Roberto.
- Estou surpreso por sua decisão, pois pedi que não me demitisse.
- Sei disso e lhe devo milhões de desculpas.
Nunca deveria ter acreditado que você fosse capaz de fazer algo como aquilo.
- Ainda não consegui provar minha inocência e estou sendo processado.
- Isso não me importa.
Sei que é inocente e isso para mim já é o suficiente.
- O senhor sabe que, embora eu esteja respondendo em liberdade, poderei ser preso a qualquer momento.
- Sei disso, mas não acredito que isso vá acontecer.
Preciso de você e vou colocar um advogado para cuidar do seu caso.
- Obrigado, mas não será preciso.
Já tenho um óptimo advogado.
- Para que aceite o meu pedido, vou dobrar o seu salário.
- Dobrar o meu salário?
Tantas vezes pedi um aumento e o senhor nunca me deu.
Sempre disse que não podia, que não tinha condições.
- Algumas vezes é preciso perdermos alguma coisa para darmos valor.
Sem você tenho tido muito prejuízo.
Durante esse tempo que está afastado percebi como é importante para a empresa.
Por favor, volte.
- Quando quer que eu comece, amanhã? - Roberto disse, olhando para Selma, que sorria.
- Eu gostaria que, se pudesse, fosse agora mesmo comigo.
Tem muito trabalho a ser feito.
- Está bem.
Vou pegar meu paletó e poderemos ir.
- Entendo que precise falar com sua esposa.
Estou indo agora e espero por você logo mais.
Dizendo isso, Tavares estendeu a mão para Roberto, que a apertou sorrindo.
Tavares saiu e Selma abraçou Roberto sorrindo e feliz.
- Não acredito que isso esteja acontecendo, Roberto!
Agora pouco você estava triste e desesperado.
Eu disse que era um bom profissional e agora isso foi confirmado.
- Verdade, Selma.
Agora, só falta provarmos nossa inocência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:33 pm

- Tenho a impressão de que tudo vai melhorar, Roberto.
- Tomara que sim, mas por enquanto estou feliz.
Vou pegar meu paletó e, graças a Deus, voltar ao meu trabalho.
- Faça isso. - Selma disse, com os olhos brilhantes de felicidade.
Roberto pegou o paletó e Selma, como sempre fazia, o acompanhou até o portão e ficou olhando até que ele desaparecesse.
Selma entrou em casa.
Começou a recolher a louça que ainda estava sobre a mesa, levou-a até a pia e começou a lavar.
Preciso deixar tudo em ordem para que, quando voltar do orfanato, possa preparar o jantar.
Estou ansiosa para contar a Marília o que aconteceu.
Carlos saiu de seu quarto e feliz perguntou:
- É verdade mesmo que papai vai voltar a trabalhar no lacticínio, mamãe?
- Sim, meu filho.
O senhor Tavares veio para isso e ainda dobrou o salário.
Ele reconheceu o valor de seu pai.
- Sempre soube disso, mamãe!
Agora, preciso ir treinar.
- Vá, meu filho.
Tenho certeza de que vocês serão os campeões!
- Vamos tentar, mamãe, vamos tentar!
Carlos saiu e Selma, rapidamente, terminou de arrumar tudo e foi para o orfanato.
Assim que chegou contou a Marília o que havia acontecido e terminou dizendo:
- Até agora não acredito que realmente aconteceu, Marília!
- Pois eu não me admiro.
Vocês são pessoas boas e merecem tudo de bom.
Aprendi que tudo o que é nosso por direito de uma maneira ou de outra chega às nossas mãos.
- Eu não mereço, Marília.
Errei tanto.
- Errou, sim, mas quem não errou e ainda vai errar?
Estamos aqui para aprender e, muitas vezes, através dos erros é que aprendemos.
- Você sempre com palavras boas.
É uma santa!
- Deixe disso, Selma, não sou santa.
Assim como você, também estou aprendendo.
Agora, vamos ao trabalho?
A construção está adiantada e logo teremos mais uma ala e poderemos atender a mais crianças, que, infelizmente, estão precisando.
- Vamos, sim.
Precisamos fazer uma programação e ver que materiais precisamos comprar para prepararmos a exposição do ano que vem!
- Vamos fazer agora mesmo.
Sente-se, Selma.
Começaram a fazer a programação.
Por volta das quatro horas da tarde, a campainha tocou.
Rita foi atender e, para surpresa delas, voltou acompanhada por Flora e José Luiz.
Ao vê-los, Selma se levantou.
- O que estão fazendo aqui?
- Estamos com saudade e viemos ver como você está, Selma!
Fomos até sua casa, e como não tinha ninguém imaginamos que estaria aqui.
Como você está?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:34 pm

- Estou muito bem, melhor do que poderia imaginar que estaria, só não estou entendendo o motivo da visita de vocês.
- Estamos aqui para trazer uma óptima notícia para você.
- Óptima notícia?
Não vai dizer que conseguiram descobrir o que aconteceu?
- É isso mesmo.
Descobrimos e vocês já estão praticamente livres.
- Quem planeou tudo isso e por que, José Luiz?
- Vou contar e você, assim como aconteceu connosco, vai ficar surpresa.
José Luiz contou como conseguiu, depois de muita investigação, chegar a Mirtes.
Quando terminou de falar, Selma, estarrecida, disse:
- Nunca pensei que fosse dona Mirtes quem tinha feito isso.
Embora, hoje, entenda seus motivos.
Onde ela está?
- Está na delegacia confessando ao delegado.
- O que vai acontecer depois?
- Provavelmente ficará presa.
- E as meninas?
- Como são menores de idade, ainda não sei como vai ser resolvido.
Mas isso agora não importa.
O que importa é que vocês foram inocentados, Selma!
Selma olhou para Marília e percebeu que ela estava pensativa e triste:
- O que aconteceu, Marília?
- Estou me perguntando como Sandra teve coragem de fazer isso, Selma.
Eu praticamente a criei como se fosse minha filha e até já conversei com Eduardo a respeito de mandá-la para uma faculdade.
- Ela é jovem, Marília, e está apaixonada.
Sabemos que nessa idade podemos fazer coisas das quais mais tarde nos arrependemos.
Embora esteja pensando o mesmo a respeito de Fabiana.
Ela enganou não só a mim mas, o pior, ao Carlos.
Ele, quando souber, vai ficar arrasado.
- Com licença, dona Marília.
- Entre, Rita.
O que foi que aconteceu?
Parece preocupada.
- Estou sim, dona Marília.
- Por que, o que aconteceu?
- Sandra acabou de me contar algo horrível que fez.
Como estão todos aqui, vim contar e ver o que a senhora quer fazer com ela.
O que fizer, vou entender.
- Não precisa contar, Rita, já sabemos.
- Sabem, como?
Ela acabou de me contar e ainda não tinham chegado.
Quando eu ia conversar com a senhora, eles chegaram e esperei um pouco para contar algo tão terrível.
Ela contou antes da nossa chegada?
- Sim, disse que não conseguiu mais ficar calada e ao ver que Selma, mesmo depois de tudo, ainda voltou para trabalhar aqui, resolveu contar.
- José Luiz descobriu tudo.
Dona Mirtes e as meninas estão na delegacia.
- O que vai acontecer com Sandra?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:34 pm

- Sinto muito, Rita.
Sabe o quanto gosto de você e de Sandra, mas ela também deverá ser levada para lá.
Como sabe, embora ela seja ainda uma criança, precisa ser repreendida de alguma maneira.
- Tudo o que a senhora fizer, embora com o coração despedaçado, estarei de acordo.
Ela merece ser castigada.
- Espere, Marília.
Sei que aquilo que fizeram foi horrível e que se José Luiz não tivesse descoberto e Sandra não tivesse confessado, eu e Roberto poderíamos ser presos, mas não posso deixar de dizer que eu, somente eu, sou a culpada, pois se eu não tivesse feito o que fiz nada disso teria acontecido e essas crianças não estariam envolvidas.
- Sinto muito, Selma, mas um erro não justifica o outro.
Sempre que cometemos uma acção devemos esperar por uma reacção.
- José Luiz está certo, Selma, até na minha doutrina aprendemos isso.
Somos livres para escolher, mas também responsáveis por nossas escolhas e suas consequências.
- É justamente isso que está acontecendo.
Eu escolhi errado, Marília, e preciso responder pelo que fiz.
- Está dizendo que quer que todos fiquem livres, Selma?
- Sim, José Luiz, se for possível ficarei muito feliz se isso acontecer.
Vou comunicar ao promotor e ao juiz o que você deseja e propor uma sentença e, se eles aceitarem, tudo ficará bem para todos.
- O que vai propor, José Luiz?
- Não posso dizer ainda, Selma.
Não sei se eles vão aceitar.
- Dizendo isso, José Luiz olhou para Rita, que chorava sem parar:
- Dona Rita, por favor, chame sua filha.
Ela precisa me acompanhar até a delegacia para confessar o que fez.
- Ela vai ser presa, doutor?
- Não sei mas, seguindo o desejo de Selma, vou tentar fazer com que não seja.
- Obrigada. Ela é minha filha única e sonhei uma vida diferente para ela, doutor.
- Precisamos falar com seu marido, Selma.
Ele também precisa concordar com seu desejo, pois também foi prejudicado.
- Ele está no trabalho.
Seu antigo patrão veio hoje em casa pedir que voltasse com o dobro do salário.
Ao ouvir aquilo, Flora começou a rir.
- Por que está rindo, Flora?
- Porque se alguém me contasse o que está acontecendo eu diria que não pode ser, que parece um filme ou uma novela.
Este país é imenso e você veio para esta cidade que quase nem está no mapa, onde se encontra toda a família da sua vítima, Selma?
Com tanto lugar no mundo?
Isso só acontece nas novelas ou em livros de ficção!
- Como pode ver, Flora, algumas vezes a ficção acontece na vida real.
- Estou vendo e por isso volto a dizer que se alguém me contasse eu não acreditaria.
Na minha doutrina também aprendi que, quando existe a possibilidade de redenção, de perdão, as forças de luz se unem para que tudo dê certo e o bem vença.
Mas, infelizmente, o mesmo acontece quando há a intenção de fazer o mal, as forças das trevas também se unem para que o mal aconteça, e só não acontece quando a pessoa que é dirigida sem intenção não mereça.
No seu caso, Selma, as forças de luz se uniram e graças a Deus conseguiu fazer com que o bem vencesse, o perdão surgisse e houvesse o resgate.
- Essa sua doutrina parece que tem resposta para tudo, Marília.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:34 pm

- Tem mesmo, Flora.
Por isso continuo estudando e aprendendo.
- A conversa está boa mas precisamos decidir o que você quer fazer, Selma.
Ir até a delegacia ou esperar por mim aqui.
Volto quando tudo estiver resolvido.
- Quero ir à delegacia, José Luiz.
Preciso conversar com dona Mirtes.
- Está bem, então vamos?
Precisa apressar Sandra, Marília.
Marília sorriu e, quando ia saindo da sala, Rita entrou com Sandra que, chorando, ficou com a cabeça baixa sem coragem de olhar para eles.
- Selma, quer passar no trabalho de Roberto para que ele vá connosco?
- Não, José Luiz.
Ele deve estar atolado de trabalho.
Depois, quando chegar em casa, conto tudo o que aconteceu.
Saíram. Sandra, sem coragem de encarar os demais, ficou calada o tempo todo.
Quando chegaram à delegacia, Mirtes, Fabiana e Margarete estavam na sala do delegado e Selma, ainda parada na porta, olhou para Mirtes que, no mesmo instante, também a olhou.
Assim que seus olhos se encontraram, Selma, entre lágrimas, disse:
- Perdão, dona Mirtes.
Todos e principalmente Mirtes ficaram calados e surpresos por alguns segundos com essa atitude totalmente inesperada de Selma.
Mirtes, que agora também chorava, disse:
- Sou eu quem precisa pedir perdão, Selma.
Fui eu que, com todo o ódio que sentia, quis me vingar e usei essas crianças para me ajudarem.
- A senhora só fez isso porque eu fui cruel e traiçoeira com Matilde.
Usando o poder que julgava ter, enganei e envolvi sua filha.
Nunca imaginei que tudo terminaria como terminou, mas, de qualquer maneira, fui a culpada por aquela tragédia.
Tenho certeza de que se não tivesse feito o que fiz, hoje não estaríamos aqui.
Selma, agora chorando muito, abriu os braços e começou a andar em direcção de Mirtes que, lentamente, começou a caminhar ao seu encontro.
Chorando, abraçaram-se e as lágrimas se misturaram e nada falaram.
Não foi preciso, pois aquele abraço significava a redenção das duas.
Nenhum dos que estavam ali conseguiu conter as lágrimas, sem imaginar que ali também estavam Matilde e Mário Augusto também abraçados, chorando.
Péricles que, mais discreto, apenas acompanhava a felicidade de todos, falou:
- Graças, meu Deus, por este momento de redenção e de amor.
A estrada do ódio, da mágoa e do arrependimento foi longa, mas graças à Sua luz e Seu amor, estão libertos de todos os sentimentos ruins e estão sob a Sua protecção infinita.
Obrigado, Senhor, por ter permitido que eu estivesse aqui neste momento.
Ao ouvirem aquilo, Matilde e Mário Augusto não se contiveram e o abraçaram também.
Tomado de surpresa, Péricles também os abraçou e permitiu que uma lágrima caísse por seu rosto.
Em seguida, os três estenderam os braços sobre todos e, de suas mãos, luzes brilhantes caíram sobre eles e a sala ficou iluminada em uma beleza jamais imaginada.
A luz atingiu até Joel e Roberto que chegavam, naquele momento, acompanhados por um soldado que o delegado havia ordenado para buscar Joel.
Roberto também chegou, pois, quando o soldado chegou, teve de falar com ele para que Joel fosse até a delegacia.
Claro que ficou surpreso e curioso, acompanhou o soldado e Joel.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:34 pm

Quando chegaram, ao verem aquela cena, ficaram parados, sem conseguir dizer o que sentiram, só sabiam que era muito bom.
Roberto viu Selma abraçada àquela mulher que não conhecia e todos os outros, também abraçados.
Sob a influência da luz, Marília olhou para Sandra e viu que ela chorava sem parar.
Segurou sua mão e puxando-a para perto a abraçou com muita força.
Rita, ao ver aquilo, abraçou a filha e Marília e choraram sem conseguir parar.
Selma, por trás do ombro de Mirtes, viu Fabiana chorando, abraçada a outra moça.
Selma deduziu que fosse Margarete.
Com a mão, fez um sinal para que elas se aproximassem.
Receosas, mas ao verem o sorriso dela, se aproximaram e se abraçaram entre muitas lágrimas.
Flora e José Luiz, felizes por tudo ter sido esclarecido, também se abraçaram.
Péricles, ainda enviando luz, disse:
- Esta delegacia que, normalmente, é carregada com energias ruins, densas e pesadas, neste momento se transformou em um templo de luz que só o amor pode conseguir.
Este é um encontro de amigos que caminham juntos há muito tempo e que estiveram sempre uns ajudando os outros em suas quedas.
Bendito seja, Senhor!
O delegado, por trás de sua mesa, sem entender o que estava acontecendo ali e tentando não demonstrar sua emoção, disse, nervoso:
- Não sei o que está se passando aqui, mas estão prejudicando um depoimento.
Queiram se comportar!
Todos se afastaram e olharam para ele, que continuou:
- Esta senhora estava confessando que foi ela quem planeou tudo o que aconteceu com a senhora e seu marido, dona Selma.
Selma, que só nesse momento viu Roberto, foi até ele e segurando sua mão disse:
- Já tomei conhecimento de tudo o que aconteceu, delegado, e desejo retirar a queixa.
- A senhora não está entendendo, não há queixa; o que há é um processo em andamento, em que seu marido e a senhora são réus.
- Sei disso, mas, com a confissão de dona Mirtes, somos inocentados.
O senhor nos libera e vamos embora.
- Não é assim que funciona, dona Selma.
Não posso simplesmente libertar a senhora e, principalmente, dona Mirtes.
Houve um crime e, para que sejam liberados, existem trâmites legais.
Preciso indiciar todos e enviar ao promotor, somente ele poderá decidir o que vai ser feito.
Por ora, a senhora e seu marido continuarão como estão, esperando o julgamento, mas os outros precisarão ficar aqui.
Ao ouvir aquilo, as meninas e Joel ficaram assustados e olharam para Mirtes que, desesperada, disse:
- Por favor, delegado, a única culpada sou eu, as crianças não têm culpa alguma.
- Podemos conversar a sós, delegado?
O delegado olhou para José Luiz, que havia feito a pergunta.
- Sabe que isso não é normal, doutor.
- Sei, sim, mas este é um caso especial.
Acredito que tenho uma ideia que pode ajeitar as coisas.
- Está bem, vamos até aquela sala.
Assim que entraram na sala, José Luiz disse:
- O doutor já percebeu que aqui é um problema de vingança.
Selma assume que dona Mirtes teve razão e não quer que ela fique presa.
Esta cidade é pequena e todos se conhecem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:35 pm

Dona Mirtes e as crianças são pessoas simples e não pensaram nas consequências de seus actos.
- Isso não é desculpa, doutor.
A ignorância não pode servir como desculpa para que um crime seja cometido.
Todos precisam arcar com as consequências do que fizeram.
Dona Selma e o marido poderiam ser condenados por algo que não cometeram.
- Entendo sua posição, sei que tem toda razão, mas este caso é diferente.
O senhor poderia deixar que todos fossem embora, com a condição de que quando intimados todos se apresentarão.
- Não posso fazer isso, pois não moram aqui na cidade e poderão ir embora, doutor.
- São pessoas honestas e estão com muito medo de serem presas.
Garanto que, sempre que forem intimados, estarão aqui.
- O doutor garante?
- Sim, delegado.
Eu mesmo os trarei.
- Está bem, doutor.
Confiando na sua palavra, vou tomar o depoimento de todos eles e depois serão liberados.
Voltaram para a sala e o delegado, muito sério e sem contar o que haviam conversado, disse:
- Vamos continuar.
Tomou o depoimento de todos, ficando bem clara a participação de cada.
- Agora podem ir, mas com o compromisso de se apresentarem sempre que forem intimados.
Preciso deixar claro que o doutor, aqui, se responsabilizou por todos vocês. - Falou, ainda sério, olhando para todos.
Aliviados, saíram e despediram-se.
Selma e Roberto seguiram para casa, Flora e José Luiz entraram no carro e foram embora.
Mirtes e as meninas, ao lado de Joel, foram caminhando em direcção à casa de Carolina.
Todos tinham muito o que conversar.
Selma e Roberto caminhavam pela rua:
- Sabe, Roberto, apesar de tudo o que passamos, estou aliviada por tudo o que aconteceu.
- Aliviada, Selma?
Quase fomos presos nem sei por quanto tempo!
- Sinto muito por ter sido envolvido em algo que eu cometi, mas, mesmo assim, estou aliviada, sim.
Durante todos esses anos tenho levado minha vida, mas sem nunca esquecer de Matilde, de Ariete e de meu irmão.
A culpa, por muitas noites, não me deixou dormir.
Esconder de você o meu passado também me fazia sofrer.
Agora, depois de tudo esclarecido, estou tranquila e podendo respirar.
Parece que tudo vai voltar ao normal.
Você recuperou seu emprego que tanto gosta e eu posso continuar ajudando no orfanato.
Aquelas crianças, depois de você e de Carlos, são tudo na minha vida.
A única tristeza que ainda carrego é não ter podido pedir perdão à minha mãe, antes que morresse.
Mas, segundo Marília e sua tia, a morte não existe; por isso, acredito que ainda me encontrarei com ela.
- Espero que sim e, falando em trabalho, preciso voltar para o lacticínio, há muito trabalho por lá.
Talvez eu tenha de trabalhar até mais tarde.
Chegaram à esquina e despediram-se.
Selma seguiu para sua casa e Roberto foi para o trabalho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:35 pm

Etelvina, que os acompanhou durante a caminhada, sorriu, mandou um beijo e foi para junto de Mirtes, que também caminhava ao lado de Margarete, Fabiana e Joel:
- É muito triste o que está acontecendo.
Nunca deveria ter envolvido vocês no meu ódio e desejo de vingança.
Com tudo o que aconteceu, aprendi que esses sentimentos só nos fazem sofrer.
Vocês são jovens e acredito que no final tudo vai ficar bem, mas, por outro lado, aprenderam que não podem se deixar levar por outras pessoas para fazerem o mal nem mesmo por alguém de quem gostem e em quem tenham confiança.
- Também estou com medo, tia, mas o que mais me faz sofrer é ter enganado Carlos.
Ele é um menino muito bom e não merecia.
Vou tentar conversar com ele e pedir perdão.
- Faça isso, Fabiana.
Sinto que pedir e dar o perdão só nos faz bem.
- Também estou preocupado com Sandra, tia.
Ela mora no orfanato e é muito querida por sua mãe e por dona Marília.
Não sei como vai ficar a situação dela.
- A cada palavra de vocês, fico mais triste, arrependida e me sentindo culpada.
Se for preciso vou conversar com a mãe de Sandra e a senhora do orfanato.
Elas me pareceram ser pessoas de bem.
- São, sim.
Mas o que Sandra fez, por minha culpa, foi muito grave.
Parecendo adivinhar o que conversavam, Rita, Marília e Sandra, que estava com a cabeça abaixada, também caminhavam.
Rita, embora não quisesse, não conseguia parar de chorar.
Sandra, escondendo o rosto, também chorava:
- Dona Marília, não sei como me desculpar pelo que Sandra fez.
Sei que não tem perdão, por isso só peço alguns dias para encontrar um lugar para ir.
Não posso continuar no orfanato, pois sei que a senhora nunca mais vai confiar em mim e na minha filha, e com razão.
- Não diga isso, Rita, você sempre esteve ao meu lado!
E você, Sandra, foi criada como minha filha.
Sei que só fez isso por estar apaixonada, mas espero que tenha servido de aprendizado e nunca mais faça algo que poderá prejudicar outra pessoa.
Com nossos erros é que aprendemos.
Por mim, vai continuar tudo como antes.
Você, Rita, que nada tem a ver com o que aconteceu, continua com toda minha confiança, e você, Sandra, também.
Meus planos para você continuam os mesmos, só vai depender da sua vontade e de seu empenho.
Marília disse, abraçando as duas, que choravam sem parar.
- A senhora vai me perdoar, dona Marília?
- Já perdoei, Sandra.
Todos nós erramos, e é para isso que renascemos.
No momento em que você confessou, antes de saber que tudo havia sido descoberto, demonstrou que estava arrependida.
Sei que poderá cometer outros erros, mas igual a este nunca mais, acredito que tenha aprendido.
Agora, vamos para o orfanato, tem muito trabalho para ser feito.
Sorrindo, continuaram caminhando.
Péricles, que estava ali, sorriu.
Marília sentiu sua presença e pensou:
Obrigada por estar sempre ao meu lado, Péricles.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:35 pm

Flora e José Luiz também conversavam no carro a respeito de tudo o que havia acontecido, relembrando-se do tempo em que estavam juntos e eram felizes.
Com muita saudade, ele disse:
- Sinto muita falta de Mário Augusto, ele era meu melhor amigo e quando morreu fiquei muito mal, ainda mais da maneira como foi.
Mas hoje, não sei por que, estou bem.
Sinto que depois de tudo esclarecido, ele está bem e feliz.
- Também acredito nisso, a respeito de Ariete e de Matilde.
Sinto que, finalmente, estão bem.
Durante todo esse tempo tenho vivido para minha vingança e nunca senti a paz que estou sentindo hoje.
Esmeralda sempre teve razão quando me dizia que o ódio e o desejo de vingança faziam mal só a mim mesma.
Estou pensando na doutrina que ela segue.
Sinto que é por tudo o que aprendeu com ela que Esmeralda é uma pessoa que transmite e vive em paz.
Continuaram conversando.
Quando chegaram diante da porta da casa de Flora, José Luiz parou o carro.
Olharam-se:
- Não quer tomar um chá, José Luiz?
Esmeralda toma todas as tardes.
- Obrigado, Flora, mas preciso ir para o escritório.
Estou terminando os documentos de dona Alda.
Embora não tenha sobrado muito do património, há ainda o carro e um pequeno apartamento.
Preciso ver como está tudo e comunicar à Selma, para que ela tome posse.
- Mas ela não disse que não quer nada que foi de sua família?
- É verdade.
Mas, mesmo assim, tudo precisa ser documentado.
- Está bem.
Quando puder, venha me visitar.
- Claro que sim.
Ele saiu do carro, deu a volta, abriu a porta para que Flora descesse e pegou em sua mão para ajudá-la.
Assim que as mãos se tocaram, ambos sentiram, novamente, aquilo que haviam sentido antes e se olharam, só que desta vez de uma maneira diferente, e ficaram constrangidos.
José Luiz, tentando sorrir, disse:
- Gostaria muito de voltar a ver você, Flora, só que de uma maneira diferente.
- Diferente como, José Luiz?
- Não como amigo, mas, se você aceitar, como seu namorado.
- O quê? Como namorado? - Perguntou ela, rindo.
- Por que não?
Nós nos conhecemos há tanto tempo.
- Sim, mas como amigos, José Luiz.
- Sinto que sempre gostei de você, Flora, só que sempre a considerei como amiga.
Mas agora esse sentimento está bem claro, acho que podemos tentar nos conhecer de uma maneira diferente.
Vamos tentar?
Ela demorou um pouco para responder.
Depois, sorrindo e feliz, disse:
- Claro! Por que não?
- Sendo assim, vamos jantar esta noite?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 7:35 pm

- Vamos, sim.
No mínimo, teremos uma noite agradável.
- Posso vir às vinte horas, está bem para você?
Quase sem conseguir esconder a emoção que estava sentindo, tremendo por dentro, respondeu:
- Está bem, estarei esperando.
Ele, sorrindo, beijou de leve os lábios de Flora, entrou no carro, acelerou e foi embora.
Ela, tremendo de emoção, entrou em casa.
Assim que entrou, começou a cantar e a dançar.
Esmeralda, surpresa ao ver aquilo, curiosa, perguntou:
- O que aconteceu, Flora?
Parece que viu passarinho verde!
- Eu vi passarinhos de todas as cores, Esmeralda. - Flora disse suspirando.
- O que aconteceu para que ficasse assim, Flora?
Para onde você e José Luiz foram?
Ainda suspirando, segurou os braços de Esmeralda e, mesmo sem música, saíram dançando pela sala.
- O que é isso, Flora?
Não estou reconhecendo você!
Flora parou de dançar, abraçou-a e, conduzindo-a até um sofá, fez com que se sentasse e contou o que havia acontecido:
- José Luiz se declarou, Flora? - Esmeralda perguntou, levantando-se.
- Sim e vamos jantar esta noite!
Preciso me preparar!
- Sempre soube que vocês se amavam.
Estou muito feliz e já posso morrer tranquila.
- Morrer coisa nenhuma!
Você vai ficar ao meu lado por muito tempo!
- Embora entenda o motivo, não consigo acreditar que a mãe de Matilde foi quem planeou tudo, Flora.
- Também custei a acreditar.
E pensar que você achou que tinha sido eu!
Posso garantir que nem eu teria tido uma ideia como essa para me vingar de Selma, mas agora que está tudo bem vou me preparar para meu encontro com José Luiz.
Estou tão contente!
Dizendo isso e, suspirando, subiu a escada que a levaria para seu quarto, onde ia escolher o vestido que usaria naquela noite tão especial.
Péricles olhou para os outros, que sorriram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:17 pm

Tomada de consciência
Alda abriu os olhos.
Estava deitada.
Levantou-se, olhou à sua volta e assustou-se:
- Que lugar é este?
Onde está Josias?
Por que ele me largou aqui sozinha?
- Josias! Josias!
Josias! - Gritou sem parar.
Depois de gritar várias vezes, olhou para seu vestido e viu que ele estava empoeirado e amarrotado.
Para ouvir a própria voz naquele silêncio extremo falou:
- Como cheguei aqui a este lugar tão horroroso?
Passou as mãos pelo rosto e cabelos.
- Nossa! O que aconteceu comigo?
Eu e Josias estávamos voltando da delegacia.
Eu estava nervosa por encontrar Selma, depois de tantos anos, atrás das grades, presa como uma marginal e ainda casada com aquele homem!
Um dia horrível como esse e agora isso?
Josias me largou aqui sozinha?
Mesmo sem um espelho posso sentir que meus cabelos estão desalinhados e o meu vestido está amarrotado e sujo!
Olhou para ver se encontrava sua bolsa, onde sabia que tinha um espelho.
Procurou, mas não a encontrou.
Olhou para o pulso para ver as horas no relógio, mas ele também não estava lá, nem seu colar, os brincos e o anel.
Raivosa, começou a gritar:
- Josias! Josias!
Você, além de levar meu carro, levou minha bolsa e minhas jóias também?
Isso não tem perdão!
Não sei por que você me largou aqui, mas quando voltar eu vou despedi-lo!
Olhou e viu que o lugar era deserto.
Havia apenas uma longa estrada poeirenta, da qual ela não conseguia ver o final em nenhum dos lados, e não havia casa ou árvore.
- O que vou fazer?
Josias, Josias!
Gritou, xingou e blasfemou.
Depois, cansada, voltou a se sentar e a esperar.
Esperou por muito tempo, nem conseguia calcular quanto.
- Estou com fome e sede.
Daria tudo o que tenho por um copo com água e algo para comer.
O que será que me aconteceu, por que não me lembro?
Tornou a se levantar e a olhar para a longa estrada.
- Não tem como, não posso mais ficar esperando.
Preciso seguir a estrada e ver se encontro algum lugar ou alguém que possa me ajudar.
Começou a andar.
Andou por um longo tempo e mesmo assim não conseguia ver o fim da estrada ou algum lugar em que pudesse parar e obter ajuda.
Estava exausta, seus pés doíam e sentia muita fraqueza.
Desesperada, começou a chorar e a chamar por Josias, que não aparecia.
Ia se sentar novamente quando viu que um vulto se aproximava.
De onde estava não conseguia distinguir se era de homem ou de mulher.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:18 pm

Respirou fundo e começou a andar em direcção ao vulto, que caminhava vagarosamente.
Assim que se aproximou, Alda notou que era um homem que estava mal vestido e trazia em uma das suas mãos uma sacola.
Tomara que ele possa me ajudar, embora com essas roupas que está vestindo demonstre que está precisando de mais ajuda do que eu.
O que será que tem naquela sacola?
Talvez tenha alguma comida e água.
Assim que o homem chegou mais perto, ela, desesperada, disse:
- Boa tarde, senhor.
Por favor, estou perdida e precisando de ajuda.
- Bom dia, senhora.
São só dez horas da manhã.
- Desculpe é que estou sem relógio.
- Não ligo não.
Eu não preciso de relógio, basta olhar para o céu e ver onde o sol está. - Disse, enquanto continuava andando.
- Por favor, senhor, estou com muita fome e sede.
O senhor não teria algo que eu pudesse comer ou água para eu beber?
- Tenho sim, mas não posso dar, estou levando para uma família pobre.
Família pobre?
Quero ver, se eu oferecer dinheiro, se ele vai me dar ou não o que preciso. - pensou, sorrindo por dentro.
- Por favor, senhor, tenho muito dinheiro e posso pagar muito bem.
Tanto que poderá voltar e comprar mais para essa família!
- Não vai dar não, senhora.
Só para saber, onde está o seu dinheiro?
Não estou vendo sua bolsa e no seu vestido não tem bolso.
- Meu motorista me abandonou aqui e levou tudo o que eu tinha, mas juro que tenho muito dinheiro e prometo ao senhor que, assim que chegar à minha casa, eu mando o que quiser pelo correio, basta só me dar seu endereço!
Por favor!
Estou desesperada!
- Desculpe-me senhora, mas onde moro não tem correio, nem preciso de dinheiro não.
Também não tenho endereço.
Sou andarilho e ando por esta estrada ajudando quem precisa.
- Pois então, eu estou precisando de ajuda.
Tenho muito dinheiro, sim.
Pertenço à nata da sociedade, e onde moro todos me conhecem e sabem o que faço.
As pessoas que me conhecem têm dinheiro e poder também!
Por favor, me ajude!
Garanto que não vai se arrepender.
- Não dá, não, senhora.
Preciso continuar o meu caminho!
As pessoas para quem estou levando esse alimento e essa água estão esperando por mim.
São muito pobres.
A senhora sabe o que é pobreza?
- Claro que sei!
Sempre tratei muito bem a todos. - mentiu.
- Sendo assim, entende que preciso ajudar essa família.
Até mais, não posso me atrasar, eles precisam muito de minha ajuda.
- Também estou precisando de ajuda.
O que o senhor está fazendo não é justo!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:18 pm

- Nem sempre agimos com justiça, senhora.
Para mim, hoje, a justiça é eu levar ajuda para essa família.
Vendo que nada ia conseguir com ele, arriscou:
- Então, leve-me com o senhor.
- Ainda falta muito para eu chegar.
O melhor que a senhora tem a fazer é seguir pelo caminho que estava indo.
Logo mais vai encontrar abrigo.
- O senhor tem certeza?
- Tenho, sim.
Conheço esta estrada como ninguém.
Vivo nela há muito tempo ajudando a todos os que passam por aqui.
- Todos os que passam por aqui?
Mas estou andando há muito tempo e não vi ninguém!
- A senhora vai encontrar.
- Já que ajuda as pessoas, por que não me ajuda?
- Tenho uma missão para cumprir e não posso me desviar.
Continue e logo vai encontrar outros que a ajudarão.
Dizendo isso, continuou andando.
Alda, desesperada, viu ele se afastando.
Tentou ir atrás, mas ele começou a andar rapidamente e logo ela o perdeu de vista.
- Bem, agora só me resta caminhar.
Ah, Josias, quando eu o encontrar, vou matá-lo por ter me abandonado dessa maneira!
Continuou andando, mas não por muito tempo.
Estava sem forças para continuar.
Encontrou um tronco de árvore caído que mais parecia um banco, sentou-se nele e ficou olhando à sua volta e ao horizonte de um lado e de outro:
- Nada, não estou vendo coisa alguma, e esse silêncio está me matando.
Preciso falar alto para ouvir a minha própria voz, pois não suporto este silêncio aterrador.
Vou ficar aqui até que Josias apareça.
Sei que vai aparecer.
Não entendo como aquele homem teve a coragem de me deixar sozinha nesta estrada sem me dar nem um pouco de água.
Como alguém pode agir assim, ver outro sofrendo e não ajudar?
Eu nunca deixei de ajudar ninguém.
Sempre ajudei aqueles que precisavam, promovendo festas, jantares e almoços, e o dinheiro arrecadado foi sempre para ajudar alguma instituição.
Parou de falar e ficou se lembrando das várias vezes que fez isso.
- Bem, para ser honesta, na verdade eu pouco estava me preocupando com o que as pessoas sofriam ou se eram pobres.
A distância entre mim e os pobres era imensa.
Eu queria apenas poder mostrar às minhas amigas minhas roupas e jóias para que sentissem inveja, e elas sentiam. - Sorriu ao dizer isso.
Sempre fui muito invejada, pois além de muito rica tinha poder e todos aos meus pés imploravam por um pouco de atenção.
Não entendo como pude chegar a este ponto.
Tudo começou a mudar quando Mário Augusto morreu daquela forma trágica.
Jamais poderia imaginar que fora Selma quem havia feito aquilo e causado a morte dele.
Meu filho, que era meu orgulho e tinha uma vida linda pela frente, morrer daquela maneira!
Depois Selma desapareceu, meu marido morreu e eu fiquei sozinha.
A única coisa que me fez continuar foram os meus jantares e almoços beneficentes quando eu podia desfilar minhas roupas e jóias.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:18 pm

Depois veio o jogo, onde eu passava horas me distraindo, sem ter tempo para me lembrar da tragédia que havia acontecido em minha vida.
Joguei sem me preocupar, pois sempre achei que meu dinheiro não terminaria nunca, mas terminou e não sei como vai ser minha vida daqui para a frente.
Sentiu uma dor imensa no peito.
Colocou a mão, fez uma massagem e disse desesperada:
- Que dor é essa que estou sentindo?
Está muito forte!
Preciso mesmo da ajuda de um médico!
Não posso morrer aqui sozinha neste lugar horrível!
Como é difícil não ter ajuda quando precisamos.
Nunca tive esse problema, pois sempre tive o mundo aos meus pés.
Nunca precisei sair de casa para ser consultada por um médico, sempre tive o doutor Silveira à minha disposição que vinha em minha casa.
Agora aqui sozinha sinto como é preciso ter alguém que nos ajude.
Para ser sincera e pensando bem, realmente nunca me preocupei com os pobres ou com ninguém.
Hoje, sinto que poderia ter ajudado a muitas pessoas, mas quando eu voltar para casa vai ser tudo diferente.
Vou ajudar a todos que precisarem.
Como vou fazer isso se não tenho mais dinheiro?
Joguei tudo o que tinha.
A dor do peito passou.
Ela respirou fundo e continuou falando baixinho:
- Ainda bem que a dor passou.
Que dor será essa?
Assim que chegar a minha casa preciso providenciar minha mudança.
Não sei como viverei em um apartamento pequeno como aquele.
Perdi tudo sem perceber.
Agora, preciso continuar a andar para ver se encontro algum lugar ou alguém para me ajudar.
Levantou-se, mas não conseguiu andar.
Estava muito cansada, com fome e sede.
Suas pernas tremiam pela fraqueza:
- Não consigo dar mais nem um passo, estou muito fraca.
Preciso comer alguma coisa e beber água.
Nunca dei valor à comida ou à água, pois sempre tive muito.
Agora daria tudo o que tenho por apenas um gole de água e um pedaço de pão.
Aquele homem disse que muitas pessoas passam por aqui.
Vou continuar sentada neste tronco, pelo menos ele tem uma altura que me faz sentir um pouco confortável.
Alguém vai aparecer, precisa aparecer.
Voltou a se sentar e a relembrar como sua vida havia sido até lá.
Em sua mente surgiam momentos e pessoas que ela havia deixado de ajudar e que muitas vezes, por um simples prazer, para mostrar o seu poder, prejudicou.
Percebeu que o sol estava baixando:
- Logo vai escurecer.
O que vou fazer sozinha neste lugar?
Preciso de ajuda!
Sei que nunca fui de rezar.
Nunca precisei e não tinha tempo.
Meu Deus, por favor, preciso de ajuda. - Disse com lágrimas escorrendo por seu rosto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:18 pm

Assustada, com muito medo e desesperada rezou, rezou muito, mas nada nem ninguém apareceu.
A noite caiu rapidamente e logo ficou escuro.
Alda começou a ouvir sons estranhos e terríveis.
O medo tomou conta dela totalmente.
Assustada, sentou-se no chão e encostou-se no tronco.
Encolheu-se, colocou a cabeça entre os joelhos, fechou os olhos e tentou ficar quieta para evitar que os bichos que estavam fazendo aquele som horrível não a encontrassem, mas o som foi ficando cada vez mais forte e próximo.
Ela ficou ali tremendo muito e vendo toda sua vida passar por seu pensamento.
Lembrou-se das várias vezes em que ofendeu e humilhou seus serviçais, um garçom ou uma vendedora de alguma loja de roupas ou de sapatos.
Lembrou-se, também, do homem que havia se recusado a ajudá-la:
Por que ele se recusou a me ajudar?
Como alguém pode deixar outro abandonado à míngua, com fome e com sede, como ele fez?
No mesmo instante, lembrou-se do que fez com um garçom:
Uma vez por semana, eu e algumas amigas tomávamos o chá da tarde em uma confeitaria.
Era uma oportunidade para conversarmos, rirmos e, claro, desfilarmos nossas roupas e jóias.
Estávamos sentadas conversando e rindo, quando um garçom se aproximou com uma bandeja com copos e água.
Ele estava colocando a água nos copos, quando algumas crianças que brincavam entre as mesas passaram correndo e o empurraram.
Ele perdeu o equilíbrio e a água que estava nos copos e em suas mãos caiu sobre a mesa e nos molhou.
Fiquei furiosa com o homem:
- Não sabe o que está fazendo?
Não tem condições de trabalhar em um restaurante como este!
Chame o gerente!
Quero falar com ele!
- Por favor, senhora, desculpe-me!
Não tive intenção, foi um acidente!
- Não me importo se foi acidente ou não!
O senhor deveria tomar mais cuidado!
Vou falar com o gerente e exigir que ele o despeça!
- Não faça isso, senhora.
Tenho três filhos e vai ser difícil encontrar um novo trabalho!
- O problema é seu!
Eu cuido dos meus filhos, o senhor que cuide dos seus.
Quero falar com o gerente! - Gritei.
-Por favor, senhora.
Prometo que isso não vai acontecer novamente!
- Quanto mais ele pedia, mais poderosa eu me sentia, e aquele sentimento me fazia muito bem.
O gerente, ao ver a confusão, se aproximou.
Exercendo o poder que eu sabia que tinha, pois o gerente sabia que se eu não voltasse à confeitaria ele perderia muitos clientes com dinheiro, fiz com que ele despedisse o garçom, que saiu desesperado.
Depois que ele saiu, ri muito com minhas amigas.
Meu Deus, o homem que não se importou que eu precisasse de ajuda e se recusou a me ajudar era aquele garçom?
Ele está se vingando daquilo que fiz?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:19 pm

Como poderia imaginar que algum dia eu o encontraria em uma estrada deserta e precisando de ajuda, sem poder algum?
Nunca me preocupei com as outras pessoas e suas dificuldades.
Para mim, eram apenas pobres e não mereciam a minha atenção.
Todos aqueles que ela havia humilhado e usado seu poder foram passando por seu pensamento.
Quanto mais se lembrava, pior se sentia.
Aquele som que a assustava aumentou.
Ela fechou os olhos com mais força e apertou a cabeça sobre o joelho.
Sentiu um medo imenso por estar ali, sozinha, no meio daquela escuridão, sem ter quem a ajudasse.
Naquele momento lembrou-se do dia em que havia despedido Etelvina:
Etelvina chorou muito e implorou dizendo que não tinha para onde ir ou passar a noite, mas eu não me importei.
O que será que ela fez naquela noite, onde dormiu?
Como pude fazer aquilo?
Eu, tomada pelo orgulho e poder, a despedi somente porque ela contava para Selma a história do nascimento de Jesus e a diferença entre brancos e negros.
Selma me acusou de tê-la criado de uma maneira errada, agora entendo que talvez ela tenha razão.
Eu também fui criada da mesma maneira que a criei, mas assim como ela poderia ter mudado, ter sido mais humana.
Nunca me imaginei em uma situação como esta, pois sempre fui rica e isso me tornava poderosa e superior às demais pessoas que não tinham dinheiro.
Mesmo com tanto dinheiro, perdi meu filho, minha filha foi embora me odiando e meu marido também morreu.
Fiquei sozinha. Quanto tempo perdido!
Quanto eu poderia ter feito de bom!
Ai, meu Deus, se eu pudesse voltar, faria tudo diferente.
Quanta ilusão que o dinheiro pode trazer!
Tudo isso que estou passando está servindo para me mostrar o quanto errei na vida.
Preciso e vou ter outra chance.
Sei que vou.
Sei que Josias, a qualquer momento, vai chegar e me levar para casa.
Quando isso acontecer, não serei mais egoísta e prepotente do jeito que fui.
Vou procurar por Etelvina e pedir que me perdoe.
Não sei o que aconteceu com sua vida, nunca me preocupei, mas vou conseguir encontrá-la.
Preciso, também, conversar com Selma e seu marido que, embora não o conheça, me pareceu ser um bom homem e que a ama realmente.
Como pude fazer o que fiz com aquele menino tão bonito, meu neto?
Como pude agir e falar com ele da maneira que fiz?
Assim que o reencontrar vou abraçá-lo, pedir perdão.
Não tenho mais dinheiro para dar a ele, mas darei todo o meu amor.
Agora chorava, soluçando.
Não só por estar com medo, mas por ter, enfim, entendido o que havia feito com sua vida.
O remorso a atormentou mais do que o medo da escuridão.
Chorou, chorou muito, sem conseguir se controlar.
Não conseguiu evitar que do fundo do seu peito gritos de dor surgissem e gritou muito, pedindo perdão por tudo que havia feito.
Mário Augusto e Matilde, que estiveram o tempo todo ao seu lado, sorriram.
- Enfim, ela acordou, Mário Augusto.
- Sim, Matilde, e agora que tomou consciência de tudo o que fez, precisamos ajudá-la.
Ainda bem que Péricles permitiu que ficássemos ao seu lado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:19 pm

Vamos ajudá-la, sim.
É para isso que estamos aqui.
Estenderam os braços em direcção a Alda, que não conseguia parar de chorar.
De suas mãos saíram raios de luz que a envolveram totalmente.
Ela não viu a luz, mas sentiu um bem estar profundo e adormeceu.
Quando abriu os olhos, ainda estava na estrada.
O sol já havia nascido.
A fome, a sede e, agora, o medo também estavam lá.
Não estava mais preocupada com sua roupa ou seu cabelo.
Queria somente encontrar alguém ou algum lugar para que pudesse obter ajuda.
- Quero muito voltar para minha casa.
Quando chegar lá, vou mudar minha vida totalmente.
Além de procurar as pessoas que prejudiquei e que fiz mal, vou ajudar muitas outras, voltar à cidade onde Selma está, pedir perdão a ela, ao marido e ao meu neto.
Vou mudar totalmente! - Disse em voz alta para poder ouvir a própria voz.
Olhou para o horizonte mas ainda não conseguia ver o final da estrada.
- Não posso continuar aqui, Josias não vai voltar, preciso continuar andando.
Começou a andar, mas agora devagar, porque estava muito fraca.
Andou por várias horas.
Parava, sentava no chão, mesmo com toda aquela poeira, mas nada mais importava.
Não encontrou ninguém.
Por mais que andasse, não conseguia ver nenhuma casa, ninguém ou o fim da estrada.
A noite estava chegando e ela ficou apavorada, pois tinha medo da noite, do escuro, quando não podia ver o que acontecia à sua volta.
Olhou para ver se encontrava um lugar onde poderia se encostar, como havia acontecido na noite anterior, mas não havia coisa alguma, somente a estrada poeirenta e solidão.
Quando escureceu totalmente, sentou-se na margem da estrada e, colocando a cabeça sobre os joelhos, fechou os olhos e ficou aguardando os ruídos e sons que tanto a haviam aterrorizado na noite anterior, porém eles não voltaram.
Tentou dormir, mas não conseguiu.
A fome e a sede, e agora o frio, não permitiam.
Passou o dia todo se lembrando de tudo o que havia feito na sua vida e, agora, continuava a pensar.
Lembrou-se de quando Mário Augusto e Selma eram pequenos e do que dizia a eles sobre o dinheiro e o poder que tinha sobre as outras pessoas.
Quando se lembrou disso, chorou com mais força.
- Meu Deus, como errei!
Selma tem razão, fui eu que fiz que ela fosse como é.
Preciso conversar com Selma, dizer que reconheci todo o erro que cometi e dizer que estou feliz por ela, depois de tudo o que aconteceu, ter conseguido se redimir.
Dizer também que estou feliz por ela ter me dado um neto lindo.
Mário Augusto, meu filho amado, não sei se existe vida após a morte, nunca me preocupei com isso, mas, se tiver, e você puder me ouvir, quero pedir perdão por tudo o que fiz.
Hoje sei que errei muito, mas já é tarde, você está morto e fui culpada por isso.
Ensinei a Selma que o dinheiro podia tudo, e ela, usando do dinheiro, envolveu Matilde e fez o que fez.
Perdão, meu filho, e se puder, me ajude a voltar para casa.
Matilde abraçou Mário Augusto, que chorava:
- Não fique assim, Mário Augusto.
Ela está se redimindo.
- Sei disso, Matilde, e estou chorando de felicidade.
Ela, agora, está no caminho da redenção.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:19 pm

Estou chorando não por tristeza, Matilde, mas por entender exactamente isso.
O que me deixa triste é saber que ela perdeu essa reencarnação.
Deixou de cumprir o que havia prometido, antes de renascer, que era nos criar de uma maneira diferente, dando o justo valor ao dinheiro, mas nunca usá-lo para prejudicar outras pessoas.
- Mesmo assim, você nunca foi como Selma e sua mãe, Mário Augusto.
- Sei disso, mas não posso deixar de ficar triste.
Sei que minha mãe precisa passar por tudo isso, numa tentativa de que ela repense e se arrependa, e isso ela está fazendo.
Depois, quanto tudo passar e Selma e Flora retornarem, vamos ver o que poderemos fazer para uma próxima encarnação e como os enganos desta podem ser redimidos.
Estamos todos envolvidos, Matilde.
Cada um de nós tem um pouco de culpa nos acontecimentos.
- O bom é saber que teremos outra chance, Mário Augusto.
Mário Augusto sorriu e voltaram o olhar para Alda, que continuava com a cabeça sobre os joelhos, chorando, e não conseguia parar de pensar.
Meu Deus eu preciso de uma nova chance.
Preciso voltar para casa e consertar tudo o que fiz de errado.
Mário Augusto, se puder me ajude, filho.
Você era muito bom, diferente de mim e de Selma.
Voltou a chorar com mais força e dor.
Mário Augusto, embora em lágrimas, sorriu.
Olhou para Matilde e ambos estenderam os braços sobre Alda e jogaram luzes brancas sobre ela.
No mesmo instante, Alda levantou a cabeça, abriu os olhos e viu, bem longe, uma pequena luz, trémula, que se aproximava.
Percebeu que os sons terríveis e que tanto a assustaram haviam cessado.
- Que luz é aquela que vem se aproximando?
Parece a luz de uma tocha ou de um lampião.
Finalmente, alguém apareceu.
Tomara que me ajude.
Preciso voltar para minha casa e tentar consertar tudo o que fiz de errado na minha vida.
Assim que chegar, a primeira coisa que vou fazer é conversar com José Luiz e pedir que me ajude a encontrar Etelvina.
Sei que ele tem meios para isso.
Depois, vou procurar as pessoas que prejudiquei e ajudá-las no que for possível.
À medida que a luz se aproximava, ficava maior.
Quando chegou perto de Alda, ela não conteve o grito, que saiu alto:
- Etelvina? É você mesma?
Eu estava pensando em você e decidi que, assim que voltasse para casa, ia procurá-la para pedir perdão por tudo o que fiz!
Dizendo isso, abriu os braços e, chorando, abraçou Etelvina, que correspondeu.
Alda ficou agarrada em Etelvina e não a soltava.
Etelvina, com esforço, conseguiu se afastar.
- Como foi que você apareceu aqui, Etelvina?
Estou sozinha, perdida nesta estrada, com fome, sede e muito medo.
Estou rodeada de bichos que, embora eu não os veja, sei que estão por aqui.
Sei que não deveria pedir ajuda a você, pois não mereço, mas será que você poderia me arrumar ao menos um pouco de água? - Perguntou, chorando e soluçando desesperada.
- Como a senhora chegou aqui, dona Alda? - Etelvina perguntou, afastando-se do abraço.
- Não sei, quando acordei me vi aqui nesta estrada sem fim.
Estava com Josias e ele me abandonou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:19 pm

Por favor, Etelvina, me ajude. - disse, chorando.
- Fique tranquila, dona Alda.
Não tenho o que perdoar, o importante é que a senhora reconheceu o que fez.
Já está amanhecendo e aqui bem próximo tem uma casa onde a senhora poderá ficar até se restabelecer.
- Obrigada, Etelvina.
Sei que não mereço, depois de tudo que fiz a você, mas prometo que vou recompensá-la.
- Como, dona Alda?
- Não tenho mais dinheiro, mas encontrarei uma maneira de ajudá-la.
Darei tudo o que você quiser e precisar.
O que você está precisando, Etelvina?
Etelvina sorriu:
- Nada que a senhora possa me oferecer, dona Alda.
Estou bem.
Durante esse tempo em que está caminhando por esta estrada descobriu alguma coisa?
- Sim, Etelvina.
Descobri que a morte de Mário Augusto, de Matilde e de Ariete foi culpa minha.
Fui eu quem ensinou Selma que tendo dinheiro poderia comprar a tudo e a todos.
- Realmente a senhora teve uma parcela de culpa, mas não pode se culpar pela atitude dos outros.
Cada um de nós é responsável por nossas acções.
Quando criança, Selma poderia se deixar envolver e influenciar pela senhora, mas, quando se tornou adulta pôde escolher o que queria e optou por continuar a ser orgulhosa, prepotente e egoísta.
Nessa história, além de orgulho, prepotência e ciúme, houve também apego não só a coisas como a pessoas, por isso todos terão de reparar seus actos.
- Não estou entendendo, reparar como?
- Tudo a seu tempo, dona Alda.
Agora já está amanhecendo, podemos seguir a estrada.
Alda estava muito fraca para andar.
Etelvina colocou o braço em sua cintura e as duas foram caminhando devagar.
Estavam caminhando já há algum tempo, quando viram, ao longe, um vulto se aproximando.
Etelvina parou e fez com que Alda também parasse.
- Quem será que vem se aproximando, Etelvina?
- Assim que se aproximar mais, saberemos.
Ficaram paradas esperando.
O vulto se aproximava cambaleando, parecendo ser alguém que estava muito cansado.
Alda, curiosa, ficou olhando e esperando.
Assim que o vulto foi se aproximando, Alda não se conteve:
- É Ariete, Etelvina?
Não pode ser!
Está muito diferente!
O que aconteceu com ela?
- Assim como aconteceu com a senhora, dona Alda, ela está passando por momentos de reflexão e para isso teve de ficar sozinha nesta estrada.
Aqui, está tendo mais uma chance de aprendizado e a oportunidade de arrependimento.
- É verdade.
Foi aqui que pude reconhecer o que havia feito na minha vida e na dos meus filhos, principalmente com Selma.
Estou muito arrependida, Etelvina.
- Sei disso, mas graças a Deus a senhora entendeu a tempo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:20 pm

Ariete se aproximou e, quando estava chegando, Alda ficou impressionada mais ainda pelo seu estado:
- Ariete, o que está fazendo aqui?
O que aconteceu com você?
Para sua surpresa, Ariete não as viu, e cambaleando, continuou andando.
- Ela não nos viu, Etelvina?
- Não, dona Alda.
Ela está vivendo momentos difíceis.
- Ela está muito fraca e assustada, Etelvina.
Está precisando de ajuda!
Precisamos ajudá-la!
- Embora possa não parecer, Ariete está tendo uma ajuda preciosa.
Vamos conversar com ela, dona Alda.
Assim dizendo, estendeu os braços em direcção a Ariete, que já havia dado alguns passos à frente.
Luzes saíram de suas mãos, que Etelvina jogou sobre ela:
- Pare, Ariete.
Precisamos conversar.
Ao ver aquela luz, Ariete, muito assustada, parou e se voltou.
Ao ver Etelvina, gritou:
- Graças a Deus, a senhora apareceu!
Será que pode me ajudar?
- O que está fazendo nesta estrada?
- Não sei.
Acordei aqui e, sem saber o que fazer, comecei a andar procurando ajuda.
- Encontrou?
- Não. Andei muito.
Estou cansada, com muita fome, muito frio e também com muito medo.
Precisei me esconder de alguns monstros que apareceram.
Nunca vi coisa igual, nem sabia que existiam.
Ainda bem que a senhora apareceu.
Pode me ajudar?
- Não precisa me chamar de senhora, Ariete.
Aqui não existem essas formalidades.
Além do mais, eu não pertenço ao seu meio social.
Como pode ver, estou vestida com roupas simples e sou negra.
Sempre houve uma separação entre pessoas como você e como eu.
- Isso foi no passado.
Hoje, depois de ficar muito tempo aqui sozinha, pude reflectir em como foi minha vida e em quanto tempo perdi com preconceitos.
- Sobre o que mais pensou, Ariete?
- Não sei se a senhora sabe, mas eu cometi uma loucura que não tem volta.
Matei Mário Augusto e Matilde e, pior, depois me matei.
- Sei sim, e é por isso que estou aqui.
Estou ao seu lado o tempo todo em que está na estrada e só não apareci para você porque precisava ficar sozinha.
- Eu nunca vi a senhora.
Pensei que estivesse sozinha. - Disse, chorando muito.
- Embora possa parecer, nunca estamos sós, Ariete.
Agora, chegou a hora de conversarmos.
O que aconteceu com você?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73043
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 10 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... , 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum