As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:46 pm

-Sei disso, mas tenho algo para dizer que, sei, vai deixá-la triste.
- O que aconteceu?
- Não vou poder ir ao seu baile.
-O quê?
-Sinto muito, mas é isso o que ouviu.
-Por que não vai poder vir ao baile? Você prometeu.
- Eu pretendia ir, mas fiquei sabendo hoje que justamente no fim de semana que vai ser o seu baile vai haver um simpósio com vários médicos famosos.
Eu não posso faltar, porque além de receber uma nota por comparecer, ouvir a palestra deles vai ser muito bom para o meu histórico escolar e aprendizado.
Preciso aprender o máximo que puder.
Quero ser um bom médico.
- Mas, Péricles, é a minha formatura!
Estou sonhando e esperando por esse dia.
- Eu sei disso, Marília, mas não posso faltar.
É muito importante.
- O meu baile não é?
-Claro que é. Estou arrasado, mas não tem outra maneira.
Sei que você vai estar linda e que será muito cumprimentada.
Na semana seguinte do baile, vou até aí e poderemos passar horas e horas juntos.
- Ele não veio ao seu baile, Marília?
- Não, Flora.
- Você não ficou braba?
- Fiquei triste, mas não braba.
Eu sabia que, para ele, estudar era muito importante, pois assim não repetiria o ano e poderia voltar mais cedo para casa e para mim.
Marília respondeu sorrindo e continuou:
- O dia do baile chegou.
Embora triste, me arrumei, coloquei o meu lindo vestido e, olhando para o espelho, sorri e me senti linda.
Quando faltava meia hora para eu sair, o telefone tocou e, desejando que fosse ele, corri para atender:
-Alô!
-Alô, Marília!
Já está pronta para o baile?
-Estou, e linda! - Respondi sorrindo.
- Sinto muito por não poder estar aí, mas prometo que, quando nos casarmos, para compensar esse dia vou fazer você muito feliz!
- Sei disso. Vou continuar esperando por você.
- Fui para o baile e, na medida do possível, me diverti.
Apesar de tudo, estava feliz por ter conseguido o meu diploma.
Sabia que o dia em que eu seria feliz ao lado dele estava chegando.
Enquanto comiam e tomavam chá, as três ouviam com atenção Marília contar sua história.
Quando terminou de tomar o último gole de chá, colocou a xícara sobre o pires e os dois sobre a mesa e continuou falando:
- Aquela era a primeira vez em que moças recebiam o diploma de professora, o que para todas nós era muito importante.
Ser professora era o ideal das filhas de pessoas de posses da cidade, era motivo de orgulho para os pais e ainda é.
Foi então que o prefeito, sabendo que haveria muitas professoras no final do ano, resolveu construir mais uma escola, e foi lá que fui dar aula.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:46 pm

- Assim que se formou já foi dar aula, Marília?
- Sim, Selma.
- Era o que eu mais queria, e como não havia muitas professoras porque algumas, assim como aconteceu com Péricles, foram embora da cidade para poderem fazer a faculdade, outras se casaram e também foram embora.
Da minha turma só sobraram cinco professoras que foram contratadas imediatamente.
- Como foi dar aula sendo tão jovem e inexperiente?
- No começo, confesso que foi difícil, Esmeralda; mas com o tempo fui me acostumando e depois de alguns meses não tive mais problema algum.
Ensinar foi o melhor que poderia ter acontecido comigo.
Com tanto trabalho, não tive tempo de me desesperar com a falta de Péricles.
Continuamos a nos ver nas férias e nos fins de semana prolongados e a nos falar todos os domingos por telefone.
- Deve ter sido difícil essa separação, já que se gostavam tanto.
- Foi sim, Flora, mas teria sido pior se eu não estivesse trabalhando.
Além do mais, eu contava os anos, os meses e os dias que faltavam para ele se formar.
O tempo demorou em passar, até que, finalmente, ele se formou.
A nossa alegria foi imensa.
Para o baile de sua formatura comprei outro lindo vestido.
E, ao contrário do que havia acontecido na minha formatura, eu, minha família e a dele fomos para a Capital e participamos do baile.
Eu estava feliz e orgulhosa, porque embora algumas vezes eu tivesse duvidado do amor dele por mim, sempre acreditei que um dia nos casaríamos.
No dia seguinte ao baile, voltamos para cá.
Eu e Péricles estávamos felizes e sonhando com nosso futuro.
Dois dias depois que voltamos, ele pediu que sua mãe fizesse um jantar para mim e meus pais.
Ela atendeu feliz e prontamente:
-Está bem, vou fazer, mas posso saber por que você quer esse jantar?
-Preciso fazer um comunicado e quero que todos estejam presentes.
-Está bem, mas não pode adiantar do que se trata?
- Não, mamãe!
É uma surpresa!
-Surpresa? Espero que seja boa.
- Para mim é muito boa; não sei se vai ser para a senhora, nem sei se vai gostar.
- Não vou gostar, por quê?
-Eu disse que não sei se a senhora vai gostar
Não disse que não vai gostar.
Talvez goste.
-Pare com isso, conte logo!
- Ele, rindo, saiu da sala e foi para seu quarto.
Sua mãe, intrigada, ficou imaginando que surpresa poderia ser aquela.
Conversou com o marido e marcou um almoço para o domingo seguinte.
Fiquei feliz com o convite e, rindo, respondi:
-Domingo é um bom dia, Péricles.
Os meus pais e os seus poderão conversar a respeito do nosso namoro.
O pai de Péricles estaria de folga, embora, como médico, nunca sabia quando ficaria em casa pois poderia ser chamado a qualquer momento.
Ele trabalhava no único e pequeno posto de saúde que havia na cidade.
Conversei com meus pais e disse que não sabia qual seria essa surpresa, e não menti, realmente não sabia.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:46 pm

- Não ficou preocupada, Marília?
Não imaginou que ele poderia querer desmanchar o namoro?
Marília começou a rir:
- Não, Flora!
Nem por um minuto imaginei isso.
Havíamos esperado por tanto tempo que não seria justo se isso acontecesse.
- Pois se fosse eu teria feito uma história terrível na minha cabeça. - Flora disse, rindo.
Marília, também rindo, continuou falando:
- Ainda bem que eu não tenho muita imaginação para criar histórias.
Voltaram a tomar chá e a comer os doces e salgadinhos que estavam sobre a mesa.
Depois, Marília continuou:
- No domingo eu e meus pais fomos para a casa de Péricles, e tanto dona Maristela, a mãe de Péricles, como seu pai nos receberam de forma muito amável.
Dona Maristela havia preparado um almoço delicioso, o que nos mostrou o carinho com que ela havia preparado.
Durante o almoço nos deliciamos e conversamos sobre vários assuntos.
Péricles, que sempre falou muito, contou algumas coisas que havia acontecido durante o tempo em que estudou na faculdade.
Depois do almoço e após comermos a sobremesa, fomos para a sala de estar.
Péricles, sempre muito carinhoso, disse:
-Sente-se ao meu lado, mamãe.
Vou contar a surpresa que a senhora está tão curiosa para saber.
- Não só ela, mas todos nós, meu filho.
- Sei disso, papai, por isso vou ser breve.
Eu e Marília conversamos e resolvemos marcar o nosso casamento para o ano que vem.
- Ano que vem?
Tão cedo, meu filho?
-Eu disse que a senhora podia não gostar, mas já esperamos muito.
Está na hora.
-Mas vocês são ainda tão jovens!
- Ele começou a rir, abraçou e beijou a mãe que, emocionada, disse:
-Sabe, meu filho, não sei o que estou sentindo por saber que você vai sair de casa, mas, ao mesmo tempo, estou tranquila por saber que escolheu a moça certa e que vai iniciar uma nova família.
Espero que vocês sejam muito felizes, a única coisa que me preocupa é que vocês são ainda muito jovens.
-Não somos tão jovens assim, mamãe.
Agora é a hora certa.
- Meus pais também estavam surpresos pela rapidez com que tudo aconteceu:
-Bem, também achamos que vocês são muito jovens e que poderiam esperar mais algum tempo, mas se acham que está na hora, o que vamos fazer?
Gosto de você, Péricles, e sei que vai fazer minha filha muito feliz, e isso é o que importa.
-Obrigado, Excelência, e pode ter certeza de que é isso mesmo que vai acontecer, eu e Marília vamos ser muito felizes.
- Eu também estava surpresa, pois Péricles não havia me dito que faria aquilo.
Olhei para ele, que sorriu.
Também sorri e fiquei calada, pois, no fundo, bem lá no fundo, era isso o que eu queria: me casar e ser feliz.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:46 pm

Péricles segurou minha mão:
-Vamos ser felizes, Marília.
Pode ter certeza disso.
- Aquele ano foi dedicado à preparação do casamento.
Como minha mãe não queria que eu fosse para muito longe, meu pai, que tinha comprado este terreno, conversou com meu sogro e os dois construíram esta casa, que fica na esquina da praça, bem perto da casa de meus pais.
No dia em que fui ver a casa onde íamos morar, me espantei com o tamanho.
-Quatro quartos, papai?
Para que tantos?
E esta sala tão grande, para que, papai?
-Para os meus netos, vou querer muitos e que tenham uma vida feliz e confortável.
Nesta sala, eles vão poder brincar e correr à vontade sem perigo de se machucarem.
- Como nossas famílias eram conhecidas e respeitadas, nosso casamento foi lindo e um acontecimento na cidade.
Nossa lua de mel foi em Paris.
- Vocês foram para Paris, Marília?
- Fomos, sim, Flora.
Foram vinte dias de sonho e de felicidade, que nunca mais vou me esquecer.
- Que maravilha, Marília!
Nunca estive em Paris; aliás, pensando bem, nunca fui para lugar algum.
- Nunca viajou, Flora?
- Não, nunca, Selma.
- Não entendo isso, Flora.
Você sempre teve dinheiro, por que nunca quis viajar, conhecer o mundo?
Esmeralda, demonstrando tristeza, foi quem respondeu:
- Flora nunca se interessou realmente em viajar.
Sempre teve outras coisas para pensar e planear.
- Esmeralda sempre foi exagerada.
Nunca viajei porque nunca senti vontade.
Gosto de ficar em casa, lendo, ouvindo rádio.
Gosto da solidão.
Viajar é muito complicado:
avião, hotel, malas; mas agora estou pensando, talvez eu planeie uma viagem para Paris.
Você vai comigo, não vai, Esmeralda?
- Claro que sim, Flora.
Sempre estive ao seu lado e vou continuar até quando Deus quiser.
Estou feliz por você, finalmente, resolver continuar com a sua vida que está parada há tanto tempo.
- Vou mudar totalmente, Esmeralda.
Você vai ver.
Finalmente, entendi o que você sempre me falou.
Realmente perdi muito tempo.
- Que bom, Flora.
Até que enfim você resolveu começar a viver a vida!
- Bem, continue contando sua história, Marília.
O que aconteceu depois que se casaram?
- Vou continuar, Flora.
Desde que Péricles voltou para a cidade, com seu diploma, começou a atender pacientes ao lado do pai, mas teve dificuldades, porque as pessoas, por ele ser muito jovem, não confiavam na sua capacidade.
Porém, aos poucos, ele foi conquistando clientes.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 24, 2017 7:47 pm

Depois de dois anos de casados eu ainda não havia engravidado, o que chamou a atenção não só minha e de Péricles como também de toda a família, que sempre vinha com aquela pergunta:
-Ainda não está grávida, Marília?
Não quer um filho?
Quando as crianças vão chegar?
- No começo, não dei muita atenção.
Mas, com o tempo, e vendo que não engravidava, aquela pergunta começou a me incomodar.
Resolvemos ir para a Capital para eu me consultar com um colega de Péricles que havia se especializado em obstetrícia.
Depois de alguns exames foi constatado que não tínhamos problema algum e que, a qualquer momento, poderíamos engravidar.
Voltamos para a cidade e continuamos com a nossa vida, eu como professora e ele como médico.
Até hoje não entendi o porquê de nunca ter tido um filho, já que não havia problemas, mas eu e Péricles sempre vivemos muito bem e fomos felizes.
Vivemos juntos por dezoito anos.
Algumas empresas vieram para cá, então a cidade cresceu e passou a não depender mais somente dos fazendeiros que moravam ao seu redor.
Um jovem prefeito foi eleito e mudou a cidade completamente, criando pontos turísticos, o que atraiu muitas pessoas, assim como aconteceu com você, Selma.
- Verdade, Marília.
Quando cheguei aqui estava perdida, nem imaginava o que ia acontecer com a minha vida.
Selma disse isso olhando para Flora e Esmeralda, que também olharam para ela.
Marília, sem imaginar o que havia acontecido na vida daquelas três mulheres, continuou:
- Péricles se dedicava muito ao seu trabalho, porque assim como cuidava dos fazendeiros e de suas famílias, das pessoas de posses da cidade, também cuidava do mais humilde agricultor e de todas as pessoas que o procurassem.
- O que aconteceu com ele, Marília?
Certa manhã, sentiu forte dor no estômago, mas não ligou, disse que era apenas um mal-estar, tomou um antiácido e foi para o posto de saúde.
Durante vários dias a dor voltou e ele não ligou.
Como em casa de ferreiro o espeto é de pau, quando resolveu se consultar e fazer alguns exames já era tarde, estava com câncer no estômago.
Fomos para a Capital para que ele fizesse um tratamento, que não deu resultado.
Depois de seis meses ele morreu e me deixou sozinha.
Sofri muito, fiquei sem chão e não sabia como continuar minha vida sem ele.
A única coisa que eu queria era também morrer para poder ir ao seu encontro.
Não entendia por que um homem como ele, que sempre se dedicou a ajudar a quem precisava, poderia morrer tão cedo.
- Verdade, Marília.
Por tudo o que está nos contando, a morte dele não foi certa nem justa.
- Pensei exactamente isso, Flora.
Ele era muito novo e tinha muito o que fazer.
Por mais que eu tentasse, jamais conseguiria entender.
- Deve ter sido difícil mesmo, Marília.
Não consigo imaginar o que seria da minha vida sem Roberto.
- Foi, sim, Selma.
Tanto que cheguei a pensar que não conseguiria mais seguir em frente.
Não conseguia mais leccionar, coisa que, depois de Péricles, era o que eu mais amava.
Eu me vi nesta casa imensa que tinha sido construída para abrigar crianças que nunca vieram.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:02 pm

Vivia chorando e me revoltei contra tudo, até contra Deus.
Passava as noites acordada e dormia pouco durante o dia.
Quando acordada, sempre perguntava a Deus:
- Por que levou o meu amor?
Logo ele que passou sua vida ajudando a todos que precisavam e o procuravam?
Um homem tão jovem e feliz?
Enquanto outras pessoas, más e egoístas, continuavam vivendo?
Não está certo, não!
- Deve ter sido muito difícil mesmo, Marília.
- Foi, sim, Flora.
Eu não entendia nem aceitava como a vida, para mim, era tão injusta e não queria mais viver.
Todos os meus sonhos e desejos tinham sido enterrados com Péricles.
Fiquei assim por mais de dois meses.
Meus pais tentaram me animar.
Vieram em casa, queriam que eu fizesse uma viagem para me distrair, mas eu não queria coisa alguma.
Queria só chorar e pensar em Péricles sem parar.
Não consegui voltar à escola.
Não sentia mais prazer em leccionar, em preparar as crianças para o futuro, porque sabia que se preparar e estudar de nada adiantaria, pois a qualquer momento elas poderiam morrer.
Aqueles foram dias muito difíceis.
- Imagino como deve ter sido, Marília.
- Pois é, Esmeralda.
A gente tinha tantos sonhos, tantos desejos.
Eu e Péricles havíamos planejado tantas coisas, viagens que faríamos, mas que sempre foram adiadas para depois e que nunca mais seriam realizadas, tantas conquistas para alcançar e, de repente, tudo se acaba e a vida perde o sentido.
- Como eu disse, não consigo me ver sem Roberto e Carlos.
Quanto tempo demorou para você voltar à sua vida normal, Marília?
- Quase seis meses.
Embora eu não quisesse, pois não tinha a mínima vontade de receber ninguém ou mesmo de conversar, mas as pessoas insistiam em me visitar.
Professoras da escola, minhas amigas, preparavam as crianças, que vinham até aqui, faziam versinhos, cantavam musiquinhas; mas nem aquilo, embora eu tenha achado lindo, me comoveu e me tirou daquela situação em que eu me encontrava.
Meu único desejo era ficar ali, quieta, somente esperando a morte chegar.
Muitas pessoas vieram me visitar.
Minha mãe estava sempre ali, tentando me animar, mas, por mais que ela e todos tentassem, nada conseguia me tirar daquela apatia, daquele desejo de ficar sozinha e de só pensar nele.
A única que não veio foi minha sogra.
Eu, quando pensava nela, entendia, sabia que assim como eu ela devia estar sofrendo muito, pois se eu havia perdido o meu marido, ela tinha perdido um filho e, para uma mãe, não existe dor maior e não há como aceitar.
Sabia que se para mim estava sendo tão difícil, para ela era pior.
Ela não tinha como aceitar.
Ela sempre gostou de mim e também me tratou como filha.
Achei que ela não tinha vindo porque não queria que eu a visse sofrendo.
Em uma manhã, eu estava deitada, sem vontade de me levantar, tomar banho ou ao menos sair para o quintal para respirar ar puro, quando a porta se abriu, e ela, minha sogra, acompanhada por minha mãe, entrou no quarto.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:03 pm

Tanto uma como a outra tinham a chave da minha casa.
Eu já estava ali por vários dias, com a janela fechada, pois só queria ficar no escuro, quieta, apenas deitada no lado da cama em que Péricles dormia.
Queria ficar sentindo seu cheiro, sua presença.
Achava que se fizesse aquilo poderia estar ao lado dele.
Quando as vi, estremeci, me sentei na cama e perguntei:
- O que estão fazendo aqui?
-Levante-se, Marília.
Viemos tomar um café com você! Olhe como o dia está lindo!
É um presente de Deus para todos nós.
Quem está feia é você!
Este quarto e você estão com um mau cheiro horrível e precisando de sol, de ar puro!
- Enquanto dizia isso, abriu as cortinas e o sol invadiu meu quarto.
Por estar no escuro durante muito tempo, fui obrigada a fechar os olhos.
Depois, rindo, perguntou:
-Não está feliz em nos ver?
- Na realidade eu não estava feliz, pois não estava disposta a ver ninguém, mas não podia ser mal educada com ela, que sempre me tratou com tanto carinho, como filha.
Antes de responder, com a claridade do sol consegui vê-la perfeitamente.
Fiquei ali, parada, olhando para ela e tentando entender o que estava acontecendo.
Ela estava linda, maquiada, com os cabelos arrumados e com um lindo vestido de uma estampa colorida.
Olhando para ela, pensei:
Essa mulher não pode estar dessa maneira, depois de ter perdido o filho.
Como ela pode estar tão bem?
A dor deve tê-la deixado louca!
- Ela, sem saber o que eu estava pensando, voltou a perguntar:
-Não está feliz em nos ver, Marília?
-Claro que estou, dona Maristela, mas só um pouco intrigada.
- Intrigada com o quê?
- A senhora, desde que Péricles morreu, nunca tinha vindo me visitar.
-Nem você foi me visitar.
Esqueceu de que eu sou a mãe dele e que também poderia estar sofrendo?
- Envergonhada, tentei me defender:
-Ele era meu marido e a senhora sabe como eu o amava.
- Verdade, mas eu sou a mãe e o amo muito também.
-Não estou entendendo, a senhora está falando como se ele não tivesse morrido.
-Na realidade, ele não morreu, somente voltou para o seu verdadeiro lar e está esperando chegar o nosso dia.
A morte não existe, Marília, é apenas uma viagem que todos nós teremos, um dia, de fazer.
- Revoltada, gritei:
-Como a senhora pode estar assim?
- Assim como, Marília?
-Toda maquiada, com os cabelos arrumados e com esse vestido estampado com cores vivas.
Nem parece que perdeu seu filho, assim como perdi meu marido!
- Ela, olhando nos meus olhos, respondeu:
-Eu não perdi meu filho e você não perdeu seu marido.
Ele apenas fez uma viagem para um lugar para onde todos nós, um dia, iremos também.
- O que a senhora está dizendo?
Enlouqueceu?
- Não estou louca, só vejo a morte de uma maneira diferente de você.
Para mim ela é uma ilusão, não existe.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:03 pm

E Péricles continua vivo, só que vivendo em outra dimensão.
Sonhei com ele esta noite, estava lindo e feliz ao lado de minha irmã, Zenaide.
-Por causa de um sonho a senhora acha que ele está vivo?
- Ela sorriu, se aproximou e me pegando pelos braços fez com que eu me levantasse e foi dizendo:
-Venha tomar um banho, vai se sentir melhor.
- Eu me levantei e, sem ter opção, entrei no banheiro, abri o chuveiro e fiquei lá por muito tempo.
Ainda não estava entendendo o que estava acontecendo e pensei:
Preciso fazer o que elas querem, senão não irão embora.
- Quando terminei de tomar banho, realmente, me senti melhor.
Fui até a cozinha e encontrei a mesa posta e as duas conversando animadamente.
Devagar e desconfiada, entrei.
Assim que minha mãe me viu, sorrindo, disse:
-Venha, minha filha, sente-se.
Preparamos o café da maneira que você gosta.
Eu trouxe bolo e pão e Maristela trouxe frutas.
Você precisa se alimentar, está muito abatida.
- Sentei-me, coloquei café com leite na xícara, peguei um pedaço do bolo de laranja que minha mãe sabia que eu gostava e, em silêncio, comecei a comer e a beber.
Eu não entendia o que estava acontecendo, por isso me calei.
Só queria que fossem embora.
Elas, ao contrário de mim, enquanto comiam e bebiam, conversavam alegremente.
Eu continuava sem entender aquela situação que, para mim, parecia sem cabimento.
Minha sogra disse:
-Sabe, Marília, eu e sua mãe estivemos conversando e resolvemos fazer uma viagem por vinte ou trinta dias pela Europa.
Ir até Roma, Paris e, quem sabe, darmos uma escapadinha para Lisboa.
Essas cidades, por coincidência, nós duas adoramos.
Nelas, podemos reviver a História.
O difícil vai ser convencer seu pai e seu sogro.
- É verdade, filha.
Seu pai, apesar de ter se aposentado, não consegue largar os livros e ainda está, de vez em quando, ajudando o juiz Eduardo.
Ele veio da Capital para assumir o lugar de seu pai.
Como ele é ainda muito jovem, algumas vezes tem dificuldade e seu pai sempre o ajuda.
- O mesmo acontece com Alencar, vai ser difícil convencê-lo.
Sempre quisemos fazer uma viagem como essa e sempre adiamos, achávamos que tínhamos bastante tempo.
Agora, acho que está na hora.
Depois que o Hospital da cidade foi construído, vieram novos médicos e ele está atendendo a poucos pacientes.
Vai poder tirar alguns dias para que possamos viajar.
Você não quer ir, Marília?
- Eu estava confusa com aquela situação.
Nervosa, respondi:
-Não! Não quero viajar!
Quero ficar em paz, aqui na minha casa!
Não estou entendendo como podem ficar calmas assim, parecendo que nada aconteceu!
Meu marido e seu filho morreu, dona Maristela!
Será que a senhora não está dando atenção a isso, não está sentindo?
Não gostava de seu filho?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:03 pm

- Para minha surpresa, ela, sorrindo, disse:
-Demonstrar sofrimento, chorar e se lastimar não significa que você gostava dele mais do que eu.
Eu não gostava do meu filho, eu o amei desde o dia em que soube que estava grávida e durante toda sua vida e, agora, eu o amo ainda mais.
Por amá-lo muito é que não fico chorando, sofrendo e me revoltando.
Como sempre quis que ele fosse feliz, agora quero muito mais e isso só vai acontecer se ele souber que estou bem; caso contrário, se souber que estamos sofrendo, que paramos nossas vidas, também sofrerá e não conseguirá continuar sua missão na Espiritualidade.
- Como assim "souber"?
O que a senhora está falando?
Ele está morto!
- Não, ele não está morto, Marília.
Ele simplesmente está vivendo em outro plano e, como eu já disse, está em um lugar para onde todos nós iremos um dia.
-Não estou entendendo.
De onde a senhora tirou essa ideia?
- Já há algum tempo, tenho estudado a Doutrina Espírita e com ela estou aprendendo muitas coisas que estão me ajudando a viver e a entender alguns factos que aconteceram e acontecem e que, provavelmente, ainda vão acontecer na minha vida.
- Doutrina Espírita?
Aquela em que as pessoas dizem que conversam com os mortos?
- Ela, rindo, tirou da bolsa alguns livros e, colocando sobre a mesa, disse:
-Essa mesma.
Porém, não é bem assim como está pensando.
Trouxe estes seis livros.
Como você está se recusando a sair de casa, se quiser, comece a ler.
Seria interessante que começasse por este e depois lesse com atenção, com vontade de entender e de aprender, estes outros.
- Peguei o livro que estava sobre os outros, em minhas mãos, e, olhando para a capa, li: Nosso Lar
- É este que a senhora quer que eu leia primeiro?
Por quê?
- Por que nele você vai encontrar muitas respostas, eu diria até que para todas as perguntas que está se fazendo neste momento.
Depois que terminar de ler, se quiser, poderemos voltar a conversar.
Se ainda estiver interessada em ler e saber mais, leia estes outros cinco.
Eles foram deixados por Allan Kardec.
Neles estão a base da doutrina.
Garanto a você que, quando terminar de ler, vai entender o porquê de eu estar da maneira como estou.
- Coloquei o livro sobre a mesa e, ainda nervosa com tudo aquilo, disse:
-Desculpe-me, mas não vou ler.
Não tenho intenção alguma de mudar de religião.
- Em que momento eu disse que era para você mudar de religião?
Não disse e nem vou dizer.
Você está feliz na sua religião, que bom!
Continue nela.
Só estou pedindo que leia estes livros.
Isso, também, se quiser.
Só posso dizer que, ao ler, vai ter todas as respostas que procura.
Depois, se quiser nos acompanhar, eu e sua mãe estamos indo a um centro espírita.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:03 pm

- Ao ouvir aquilo, olhei para minha mãe e, ainda nervosa, perguntei:
-A senhora está indo a um lugar desses?
-Estou, filha.
Também não aceitei muito bem a morte de Péricles.
Ele era muito jovem e tinha tanto ainda para fazer.
Aliás, nunca entendi ao ver jovens morrerem enquanto velhos que já viveram tudo o que tinham para viver continuarem vivos.
Para mim, isso tudo era muito difícil de compreender.
Conversei com Maristela, que me falou a respeito dessa doutrina e me deu esses mesmos livros para que eu lesse.
Li e, realmente, tive todas as respostas.
Agora, estou indo com ela a esse centro espírita, estudando muito para poder saber mais.
Leia, Marília.
No mínimo, você vai se distrair.
- Não estou em condições de ler.
Sei que não vou conseguir me concentrar.
-Tem razão. Marília.
Realmente é muito difícil.
Porém, se conseguir, vai se sentir muito bem.
Agora, precisamos ir embora.
- A senhora também vai embora, mamãe?
- Preciso ir, seu pai está esperando por mim.
Você sabe que ele não gosta de ficar sozinho.
- Sua mãe deixou você sozinha, mesmo sabendo o quanto estava desesperada, Marília?
- Deixou, Selma.
Mais tarde, depois que tudo passou, elas me contaram que haviam combinado.
Disseram que eu precisava ficar sozinha para me interessar em ler os livros.
- Você leu?
- Depois que elas saíram, fiquei inconformada.
Eu não entendia e não aceitava a atitude de minha sogra e, agora, a de minha mãe.
Parecia que elas não se importavam com a morte de Péricles.
Assim que saíram, sem olhar para os livros, voltei para o meu quarto.
Lá era o único lugar que eu queria estar e onde me sentia protegida, pois lá ainda sentia o cheiro de Péricles.
Claro que isso não era verdade.
Fazia muito tempo que ele já tinha morrido, mas, na minha cabeça, o cheiro dele ainda estava lá.
fiquei por algum tempo deitada e chorando.
Não entendia coisa alguma daquilo que minha sogra havia dito.
Só o que eu sabia era que Péricles havia morrido e que eu estava sem ele.
Não sei precisar quanto tempo se passou, só sei que, de repente, senti vontade de me levantar.
Levantei-me e fui para o quintal.
Olhei para o céu, que estava lindo.
Fiquei ali, quieta, sem nem mesmo pensar.
Estava extasiada com a beleza daquele dia.
Entrei em casa e, quando estava passando pela sala, vi os livros sobre a mesa.
Peguei aquele que minha sogra havia dito que era para eu ler primeiro.
Com ele não mão voltei para o meu quarto, me deitei e, sem muita vontade, comecei a ler.
Aos poucos, fui vendo que ele falava da morte, porém, de uma maneira diferente.
Não consegui parar de ler.
Aquele livro parecia ter sido escrito para mim.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:04 pm

Terminei de ler no dia seguinte pela manhã quase na hora do almoço e, com ele ainda na mão, pensei:
Será que isso é verdade?
Será que aqueles que morrem aqui continuam vivendo em outro lugar?
- Acreditou mesmo no que leu, Marília?
- Confesso que fiquei intrigada, Flora, e pensei que se tudo aquilo que estava escrito naquele livro fosse verdade, a vida seria bem diferente do que aquela que eu conhecia até então.
Nele, estava escrito que somente o perdão pode nos levar até Deus.
Além de que somente nós somos responsáveis por nossos actos e que tudo o que fizermos de bom ou de ruim retornará para nós mesmos na mesma proporção.
- Perdão?
Você acredita que todos nós podemos perdoar o mal que o outro nos fez?
- Acho que em algumas ocasiões é difícil, mas sempre é possível, Flora.
Sinceramente não posso saber porque nunca tive de perdoar ninguém.
Jamais alguém me fez algum mal que, realmente, me prejudicasse.
Mas hoje, depois de ter aprendido e aceitado a doutrina, creio que conseguiria perdoar, sim.
- Eu não sei se conseguiria perdoar alguém que me magoou ou que ainda vai me magoar.
Esmeralda olhou para Selma, que baixou os olhos.
Ela sentiu um arrepio correr por seu corpo, mas Esmeralda conseguiu afastar o mal-estar.
Selma, levantando os olhos, disse:
- A tia do meu marido seguia essa religião.
Ela me disse que temos o livre-arbítrio e com ele podemos fazer nossas escolhas.
Disse também que existe a Lei do Retorno, pela qual tudo o que fizermos de bom ou de ruim retornará na mesma proporção.
Por isso, tudo o que nos acontece será sempre de nossa responsabilidade e o resultado de nossas escolhas.
Não adianta tentarmos culpar outra coisa ou outras pessoas.
- Quer dizer que se alguém fizer algo muito ruim que nos magoe, ofenda e nos faça sofrer, não precisamos nos preocupar nem tentar nos vingar porque esse alguém pagará pelo que fez?
Marília, sem saber o que havia acontecido na vida dela, respondeu:
- Isso mesmo, Flora.
Por isso que em qualquer situação precisamos perdoar para, assim, nós, que éramos vítimas, não nos tornarmos os agressores.
Precisamos deixar que a Lei Divina caminhe, e ela caminha.
Esmeralda, percebendo que aquela conversa estava tomando um rumo perigoso, disse:
- Marília, sua história é linda.
O que aconteceu em seguida?
- Depois de terminar de ler, resolvi que precisava saber mais.
Olhei para o relógio e vi que faltavam quinze minutos para o meio-dia, hora em que na casa da minha sogra o almoço era servido.
Troquei de roupa e fui para a casa dela.
Estranhamente, naquela manhã eu estava com fome.
Era a primeira vez que eu saía de casa desde a morte de Péricles.
Assim que ela me viu, sorrindo, abriu os braços para me receber:
-Marília, que bom que veio!
Parece até que eu sabia que viria.
Pedi que a Neusa preparasse o macarrão que você tanto gosta!
-Que bom! Obrigada, dona Maristela!
Agora, vamos almoçar?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:04 pm

- Depois de muito tempo, foi a primeira vez que comi muito bem.
Após o almoço, conversei com ela sobre o livro e disse que queria saber mais daquela doutrina que até então havia sido tão discriminada por mim.
Ela, rindo, disse:
-Não se preocupe com a discriminação, pois, na hora certa, quem precisa chega até ela.
Agora, se quer saber mais, precisa estudar muito.
Por isso deixei os outros livros.
Com eles você vai ter toda base que precisa.
Porém, se quiser mais, hoje à tarde eu e sua mãe vamos ao centro espírita, se quiser poderá ir connosco.
- Espere um pouco, Marília.
Antes que você continue a contar preciso ir até o galpão ver como as meninas estão.
- Vá, Selma, mas volte logo.
Estamos ansiosas pelo resto da história.
- Voltarei, sim, Flora.
Apressada, Selma saiu.
lora, Esmeralda e Marília serviram-se de mais chá e guloseimas.

1 - XAVIER, Francisco Cândido. Pelo espírito André Luiz. Nosso Lar. São Paulo: FEB, 1944. (N.E.)
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:04 pm

A Espiritualidade trabalhando
Sem que elas imaginassem, duas entidades estavam ali, vestidas com jalecos brancos.
A mulher perguntou:
- Lembra-se desse dia, Péricles, em que eu trouxe você para visitar Marília?
- Lembro, Zenaide.
Nunca poderei esquecer.
Quando acordei aqui não entendi o que estava acontecendo.
Embora soubesse da minha doença e que poderia morrer a qualquer momento, não conseguia aceitar que estava morto, pois me sentia vivo.
Não conseguia aceitar ter deixado Marília sozinha, sabia o quanto ela devia estar sofrendo.
Mas vocês me disseram que eu não poderia me aproximar dela, pois ainda estava muito revoltado.
- Verdade, Péricles.
E, como não aceitava, suas energias fariam mais mal do que bem a ela.
- Você e todos os outros ficaram ao meu lado me confortando e me mostrando o que havia acontecido em outras encarnações.
Eu, Marília e a nossa família sempre estivemos juntos, uns ajudando os outros.
Desta vez, Marília trouxe uma missão importante não só para ela como para outros espíritos que estavam renascidos e que ainda iriam renascer.
Ela escolheu ajudá-los.
Todos nós renascemos somente para ajudá-la e aos outros que ficaram pelo caminho.
Fiquei pouco tempo ao lado dela, porque precisava continuar minha missão, como médico, na Espiritualidade.
- Foi isso o que aconteceu.
Depois de conhecer o passado e saber da importância de sua missão, Marília demorou algum tempo mas aos poucos foi aceitando.
- Lembro-me bem desse tempo, Zenaide.
Via Marília sofrer tanto que só me restava pedir a você que me trouxesse até aqui para vê-la e de alguma maneira poder ajudá-la, confortá-la.
Naquele dia eu estava me sentindo muito mal, porque o sofrimento dela me atingia e fazia com que eu sofresse muito.
Foi quando você chegou, me chamou e disse:
-Chegou a hora, Péricles.
Precisamos nos preparar.
- Intrigado, perguntei:
-Preparar para quê?
Vamos visitá-la?
- Sim. Hoje, você está bem e esclarecido, e Marília está precisando de nossa ajuda.
Está chegando a hora de começar sua missão.
- Aquela notícia era tão boa e importante que custei a acreditar, por isso voltei a perguntar:
-Está dizendo que poderei ir vê-la, Zenaide?
- Sim, Péricles, você está pronto para ficar ao lado dela e ajudá-la.
- Estou muito feliz!
Embora eu desejasse muito, nunca imaginei que este dia chegaria!
- Sei disso.
Eu sempre disse que chegaria o dia e que você precisava ter paciência.
O dia chegou!
- Fiquei muito alegre, me preparei muito.
Queria que tudo fosse perfeito e, antes de sairmos, perguntei:
- Como vai ser feito?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:04 pm

- Vamos falar com Maristela, que foi sua mãe nessa encarnação.
- Minha mãe?
- Sim. Quando você voltou para a Espiritualidade, ela ficou desesperada e encontrou consolo em uma doutrina.
-Que doutrina?
-Doutrina Espírita.
- Eu ouvi falar qualquer coisa a respeito dessa doutrina, mas nunca me interessei em saber mais.
- Foi uma pena, pois se tivesse se interessado, quando chegou aqui talvez não tivesse levado tanto tempo para entender o que estava acontecendo.
- Por que, quando cheguei aqui, nunca me falaram sobre essa doutrina?
- Existem muitas religiões, por isso, não podemos falar de nenhuma.
A maioria das pessoas, quando chegam aqui, trazem suas crenças enraizadas e se assustariam se começássemos a falar sobre uma só, sobre espíritos e reencarnação.
Por isso, damos um tempo.
Cada uma continua seguindo sua religião e, quando entendem que já desencarnaram mas que a morte não existe, chegou a hora de conversarmos sobre a Espiritualidade.
- Foi isso o que fizeram comigo?
- Sim. Hoje você ainda tem muita coisa para entender, mas não vai ser agora nem aqui.
Vamos falar com sua mãe e você vai saber do que estou falando.
- Vamos aparecer na frente dela?
Ela vai se assustar!
- Claro que não.
Vamos falar enquanto ela estiver dormindo.
- Enquanto ela estiver dormindo, como?
- Sim. E quando acordar vai dizer que sonhou.
Quando dormimos aqui ou em qualquer lugar, nosso espírito se liberta e pode ir para onde quiser e puder.
São nesses momentos que podemos falar com quem quisermos.
- Estou curioso para ver isso acontecer, Zenaide.
- Vai ver. Agora vamos?
- Quando chegamos já era alta hora da madrugada.
Fomos directo para a casa dos meus pais.
Assim que entramos no quarto, percebemos que ambos dormiam tranquilamente.
Nós nos aproximamos e você chamou minha mãe pelo nome:
- Maristela, acorde.
- Fiquei assustado porque ela, embora estivesse dormindo, abriu os olhos, sorriu e, parecendo muito feliz, perguntou:
-Filho, você está aqui?
- Emocionado e me esforçando para conter as lágrimas, respondi:
-Sim, mamãe.
Vim visitar a senhora e o papai.
- Que felicidade, meu filho!
Você está lindo!
Está bem? Morro de saudade.
- Estou bem, mamãe.
Só não estou melhor por causa de Marília.
Ela não está bem e precisa da nossa ajuda.
- Sei que ela não está bem, mas não sei como conversar com ela e tirá-la daquela situação.
Ela não aceita sua morte, filho.
- É por isso que estamos aqui, Maristela.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:05 pm

- Só naquele momento, minha mãe viu você e quase gritou:
-Zenaide!
Você também está aqui?
- Estou, minha irmã, e tenho estado ao seu lado durante todo o tempo.
- Minha irmã querida!
Como você está?
E a mamãe e o papai?
- Estamos todos bem e nos preparando para uma nova encarnação.
- Estou muito feliz em saber que está ao lado do meu filho.
Pedi tanto por isso.
Não queria que ele ficasse sozinho.
- Ele não está e nunca esteve sozinho.
Temos muitos amigos aqui.
- Graças a Deus!
Quando você morreu, eu, mamãe e papai ficamos desesperados e demorou muito para aceitarmos.
Você era uma jovem tão linda e tinha tantos sonhos.
- Mas foi também naquele tempo que vocês se aproximaram da doutrina e entenderam que tudo está sempre certo, não foi?
- Foi sim, e como sou agradecida.
Se não fosse por ela, acho que ainda hoje estaria desesperada e mamãe e papai também.
Quando Péricles morreu eu teria ficado louca.
- Como você passou por tudo isso e sabe como é difícil este momento, é que estamos aqui.
Sabendo como é difícil, vai poder nos ajudar a ajudar Marília.
- Claro que sim!
O que preciso fazer?
- Precisa conversar com Berta, e vocês duas precisam ir à casa de Marília.
Deixem alguns livros e peçam que ela os leia.
Conversem com ela, tentem animá-la.
O resto deixe por nossa conta.
Eu e Péricles ficaremos ao lado de vocês e as ajudaremos.
Marília tem uma missão importante e precisa começar.
- Claro que vou fazer isso!
Vou telefonar agora mesmo para Berta!
- Zenaide começou a rir:
-São três horas da manhã, Maristela.
Você e ela estão dormindo.
Vai fazer isso amanhã quando acordar.
- Só naquele momento, Maristela lembrou-se que estava dormindo e, rindo, disse:
-É verdade, Zenaide.
-Feche os olhos, Maristela e, quando acordar, saberá o que fazer.
- Na manhã seguinte, Maristela, ao acordar, achou que havia sonhado com você e comigo, não se lembrava do que havia acontecido nem do que havíamos conversado, mas sentiu uma vontade enorme de conversar com Marília e de pedir ajuda a Berta.
Telefonou para Berta, conversaram e foram para a casa de Marília.
- Lembro-me bem.
Elas foram para lá e nós também.
Maristela, sob sua influência, disse tudo o que Marília precisava ouvir e deu certo.
- Verdade, Péricles.
Olhe, Selma está voltando, vamos continuar ouvindo Marília.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:05 pm

Início de missão
Após alguns minutos, Marília retornou e sentando-se disse:
- Está tudo bem lá no galpão.
Sandra está com as meninas e tem tudo sob controle.
Flora largou sobre a mesa a xícara de chá e disse:
- Pode continuar a contar, Marília.
Como foi que o orfanato surgiu?
- Daquele dia em diante, continuei lendo e estudando a doutrina.
Quanto mais estudava, mais encontrava minhas respostas.
Aprendi, com a doutrina, que todos nós nascemos com uma missão e que, quando menos esperamos e na hora certa, ela aparece.
Sempre gostei de leccionar e achava que essa era a minha missão, por isso voltei a realizar esse trabalho.
Continuei leccionando, estudando a doutrina e vivendo minha vida por mais dois anos.
Hoje, acho que foi o tempo que precisei para estar pronta para minha missão.
Eu sentia que esta casa era muito grande para mim, que vivia sozinha, então pensei em morar em um local menor.
Em um domingo em que eu e meus sogros almoçávamos na casa dos meus pais eu disse:
-Estive pensando em vender a minha casa, pois ela está muito grande para mim, acho que seria melhor eu me mudar para uma casa menor.
-Pode vir morar aqui em casa, minha filha.
- Obrigada, mamãe.
Mas fiquei tanto tempo na minha casa com minhas coisas que acho que seria difícil morarmos juntos.
Eu amo a senhora e o papai, mas prefiro morar na minha própria casa.
- Eu poderia convidar você para morar na nossa casa, Marília, mas acho que tem razão.
Acostumou-se a ter sua casa e suas coisas.
- Ela tem razão, Berta.
Só acho que não é preciso vender a casa.
Temos aquela da esquina que é pequena e fica logo ali.
- Seu pai tem razão.
Morando nessa casa aqui perto será melhor e poderemos nos ver sempre que quisermos.
- Obrigada, dona Maristela.
Acho que será bom mesmo; porém, como a casa está fechada há muito tempo, vou continuar na minha casa até que ela seja reformada.
- Meu pai ficou radiante:
-Que bom, filha.
Amanhã mesmo vou cuidar disso.
- No dia seguinte a essa decisão de me mudar, pela manhã, quando acordei e como fazia todos os dias, saí para o quintal para ver como estava o dia e regar o meu jardim e uma pequena horta.
Estava regando, quando alguém bateu palmas.
Abri o portão e vi uma jovem que segurava uma menina pela mão.
Assim que ela me viu, disse:
-Bom dia, senhora.
Meu nome é Rita e essa é minha filha, Sandra.
- Olhei para a menina, que parecia ter seis ou sete anos.
Voltei os olhos para a senhora, que continuou:
-Meu marido morreu, não consegui pagar o aluguer e fui despejada.
Não tenho para onde ir e levar minha filha.
Alguém me disse que a senhora está procurando uma empregada.
Será que me aceitaria, em troca de casa e comida para nós duas?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:05 pm

- Fiquei chocada pela situação daquela mulher, tão jovem e com um problema tão grave quanto aquele e, embora eu na verdade não houvesse pensado em contratar uma empregada, pois tinha resolvido que deixaria para quando me mudasse para a outra casa, respondi:
-Dentro de no máximo um mês estou mudando de casa, mas para onde eu vou tem dois quartos e um pode ficar para você e essa menina linda.
Além de poder morar lá você receberá um salário para poder comprar o que quiser ou guardar para poder alugar uma casa e morar sozinha.
- Obrigada, senhora!
Eu estava desesperada e achava que não tinha como resolver, como dar um lugar para que minha filha vivesse.
- Fiquei calada, apenas sorri e pensei naquilo que havia aprendido na doutrina.
- E o que foi, Marília?
- Aprendi que nunca estamos sós e que, quando precisamos, a ajuda, de alguma maneira, sempre vem.
Ainda sorrindo, pedi que entrasse.
Ela e a filha estão aqui até agora.
Sandra, sua filha, estudou e está terminando o magistério, vai ser professora.
Eu fiz de tudo para que nada lhe faltasse, sempre a considerei como se fosse minha filha.
Daquele dia em diante, Rita se tornou meu braço direito.
Sempre esteve ao meu lado nos bons e nos maus momentos.
O tempo passou.
A casa para onde eu iria foi sendo reformada.
Aquela manhã, como costumava fazer todos os dias, me levantei e fui para o jardim.
Eu não me importava de mudar de casa, só sabia que sentiria muita falta do meu jardim.
Estava ali, sentada em um banquinho que ficava perto do portão, quando Rita trouxe uma xícara com café.
Como de costume, ela sentou-se ao meu lado, quando ouvimos o choro de uma criança que vinha do lado de fora da casa.
Nos levantamos, Rita abriu o portão e vimos que o choro vinha de uma cesta que fora deixada ali.
Ela foi mais rápida, e surpresa disse:
-Dê uma olhada no que tem nesta cesta, dona Marília!
- Olhei e, também assustada, disse:
-Duas crianças, Rita!
Não sei o que fazer.
- Rita olhou para dentro da cesta e, rindo, disse:
-Vamos levá-las para dentro.
Depois a senhora vai chamar seu sogro.
Ele é médico e vai saber o que fazer.
- Foi o que fizemos.
Ela pegou a cesta e entramos em casa.
Eu, como se fosse também uma criança, apenas a segui.
Fomos para o meu quarto.
Ela tirou as crianças da cesta e vimos um papel onde estava escrito:
Estou doente e não tenho como cuidar das minhas filhas.
Não sou da cidade, mas vi que esta casa é muito grande e que vai ter um lugar para elas crescerem felizes.
Por favor, cuidem delas.
- O papel estava mal escrito, mostrando que a mãe deveria ter estudado pouco.
Fiquei emocionada:
-Duas meninas, Rita? Pobre mulher!
Como deve ter sido difícil para ela abandonar as filhas.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:05 pm

- Deve ter sido muito difícil, dona Marília, e parecem ser recém-nascidas.
Telefone para seu sogro, ele vai saber o que fazer.
- Ainda muito nervosa, telefonei para a casa da minha sogra e, com voz trémula, contei o que estava acontecendo.
Ela atendeu e, depois de me ouvir, disse:
-Não fique nervosa, Marília.
Estamos indo para aí.
- Chegaram logo depois.
Durante o tempo em que os aguardava, resolvi:
-Quero ficar com essas meninas, Rita, mas vou precisar de ajuda.
Não sei como cuidar de crianças recém-nascidas.
- Rita sorriu e disse:
-E o que estou fazendo aqui, dona Marília?
Elas são mesmo muito pequenas, mas, se a senhora quiser, vou ficar aqui e ajudar no que for preciso.
- Meus sogros chegaram.
Ele examinou as crianças e disse:
- Parece que estão bem.
Devem ter no máximo dois dias de nascidas.
Precisamos levá-las ao hospital para que fiquem em observação.
- Quero ficar com elas!
- Como, Marília, o que está dizendo?
- Quero ficar com elas.
Eu não tive filhos e elas me foram dadas de presente.
- Não sei como isso pode ser feito.
O juiz é seu pai.
Enquanto elas estiverem no hospital, converse com ele, que saberá o que fazer.
- Dona Maristela me abraçou e disse:
-Vamos entregar nas mãos de Deus.
Somente Ele sabe o que deve ser feito.
- Levamos as meninas para o hospital.
Assim que elas foram atendidas e internadas, fomos para a casa dos meus pais.
Contei o que havia acontecido e terminei dizendo:
-Quero ficar com as meninas, papai.
Elas são lindas!
- Meu pai, parecendo ter levado um susto, respondeu:
-Não pode ser, Marília.
- Não pode, por quê?
- Você é sozinha e uma criança só pode ser adoptada por uma família constituída por pai e mãe.
Acho que você ainda não está bem.
- Isso é um absurdo!
Elas são um presente de Deus, papai!
Eu não ter marido nada quer dizer, o senhor sabe que tenho condições financeiras para dar uma boa vida para essas meninas, que foram abandonadas tão pequenas.
Elas serão muito felizes se ficarem aqui, comigo.
- Duas crianças vão dar muito trabalho.
Acha que tem estrutura para cuidar delas?
- Tenho. Além do mais a Rita vai me ajudar.
E sei que, se precisar, mamãe e dona Maristela me ajudarão também.
- Olhei para elas, que sorriram e acenaram com a cabeça dizendo que sim.
Poderei também contratar mais uma ou duas pessoas.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:06 pm

Quero ficar com elas.
-Você está se esquecendo de que não sou mais juiz, minha filha.
Precisa conversar com o doutor Eduardo.
Ele agora é o juiz da cidade.
- O senhor pode falar com ele, já o conhece e pode convencê-lo a deixar que elas fiquem comigo.
- Não, não!
Não posso interferir assim.
Somente ele pode decidir.
O máximo que posso fazer é ir com você até o fórum e conversarmos com ele.
Porém, o que ele decidir estará decidido; não vou interferir.
- Desesperada, olhei para minha sogra e para minha mãe, que sorriram.
Entendi que elas estariam ao meu lado.
Meu pai me acompanhou até o fórum, onde o juiz Eduardo acabara de chegar.
Assim que nos viu, veio ao nosso encontro com um sorriso:
-Excelência!
O senhor por aqui?
Veio matar a saudade?
- Meu pai também sorriu:
-Não, não estou com saudade.
Temos um assunto para tratar.
Conhece minha filha, Marília?
- Não, não a conheço.
Prazer em tê-la aqui, senhora.
Disse que tem um assunto para tratarmos.
Vamos entrar na minha sala?
- Entramos. Eu já a conhecia, pois papai por muitos anos a usara.
Não era muito grande.
Tinha uma mesa, três cadeiras, um pequeno sofá e uma estante com muitos livros.
O juiz, antes de se sentar, nos apontou as cadeiras para que nos sentássemos.
Nós nos sentamos, meu pai contou o que estava acontecendo, e eu terminei dizendo:
-Quero muito ficar com as meninas.
- Mas, a senhora é viúva, não é?
- Sim, mas tenho muito amor e boas condições financeiras para cuidar delas.
- Ele pensou por alguns segundos e, olhando para meu pai, disse:
-Sinceramente, não sei como decidir.
Nunca apareceu algo assim para que eu julgasse.
Sabemos que as crianças precisam crescer em um lar saudável, com pai e mãe.
Preciso perguntar:
se essa senhora não fosse sua filha, o que faria, Excelência?
- Provavelmente pensaria muito; mas, sendo minha filha, sei que vai cuidar muito bem dessas crianças.
Porém, a decisão é sua e acataremos.
- Ele voltou a pensar por algum tempo e, olhando para mim, disse:
-Vamos fazer o seguinte.
Como a cidade não tem um orfanato para onde possam ser levadas, elas podem ir para sua casa e, dentro de alguns dias ou meses, vamos ver se ainda quer ficar com elas e se a mãe não aparece.
Voltaremos a conversar, está bem assim?
- Eu não consegui esconder a minha emoção e felicidade.
Agarrei a mão dele com minhas duas mãos e, seguindo um impulso, o abracei e beijei seu rosto.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 25, 2017 8:06 pm

Meu pai, envergonhado e nervoso, disse:
-Pare com isso, Marília!
Está diante de um juiz!
- Ao ouvir aquilo, também envergonhada, só me restou me desculpar e agradecer.
Uma moça entrou na sala e avisou que estava na hora do próximo julgamento.
Sorrindo, ele estendeu a mão, dizendo:
-Espero que dê tudo certo.
Sinto que essas crianças ficarão em boas mãos.
- Pode ter certeza de que farei o possível e o impossível para que isso aconteça.
- Eu e meu pai saímos e fomos para casa.
Minha mãe e dona Maristela estavam ansiosas esperando pela nossa volta.
Assim que entramos, contamos tudo o que havia acontecido.
Como não poderia deixar de ser, elas ficaram muito contentes e dona Maristela, me abraçando, disse:
-Essas meninas vão ser muito felizes.
Para começar, vamos sair e comprar tudo o que elas precisam.
Como aqui não temos uma boa loja para bebés, vamos até a cidade próxima, que é maior.
- Primeiro fomos até em casa para ver como as meninas estavam e contar a Rita o que o juiz havia decidido, o que a deixou muito feliz.
Nos despedimos e saímos.
Meu pai, fingindo estar nervoso, foi o nosso motorista.
Felizes, fomos para a outra cidade, que fica a mais ou menos cinquenta quilómetros daqui, e compramos tudo o que eu ia precisar para cuidar delas, como roupinhas e mamadeiras.
Antes de irmos para minha casa, passamos pela loja de móveis e compramos dois berços e duas cómodas.
Já estava começando a anoitecer quando voltamos para casa.
Passamos pela casa de Joaquim, o pedreiro e pintor da cidade, e combinei com ele para que fosse, no dia seguinte, pela manhã, lá em casa.
Eu queria que ele pintasse um dos quartos, onde elas ficariam.
Estava muito feliz, tanto que, ainda hoje ao me lembrar, sinto o corpo estremecer de tanta emoção.
As meninas ficaram cinco dias no hospital para observação.
Eu, assim que saía da escola, após dar aula, ia para lá e ficava por detrás do vidro olhando as duas.
Sentia por elas um amor muito grande, como se fossem, verdadeiramente, minhas filhas.
No dia em que elas tiveram alta, eu, minha sogra e minha mãe fomos ao hospital para levá-las para casa.
Enquanto isso, Rita deixava o quarto delas impecável.
Naquele dia, nasceu o orfanato.
- O que está dizendo, Marília?
Naquele dia, você teve a ideia do orfanato?
- Não, Selma.
Porém, como a cidade é pequena, as notícias correm e logo todos ficaram sabendo que a filha do juiz tinha pegado duas crianças para criar.
Marília sorriu ao dizer isso.
No começo, tive muita dificuldade para cuidar delas.
Quando resolvi ficar com elas não imaginava o trabalho que teria, que ficaria noites sem dormir e tudo o que qualquer mãe passa para cuidar de um recém-nascido.
Imagine eu, sem experiência alguma, com dois!
Passaram-se dois meses.
Com a ajuda da minha mãe, minha sogra e de Rita fui me acostumando, e a felicidade que eu sentia era tão grande que nem sentia cansaço.
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 26, 2017 7:12 pm

Contratei dona Júnia, uma senhora que morava sozinha, para me ajudar.
Em uma manhã, eu e dona Júnia estávamos cuidando das meninas, quando a campainha tocou.
Dona Júnia foi atender e quando voltou trazia um menino pelas mãos que parecia ter mais ou menos cinco anos.
Ela entrou no quarto, onde eu trocava as fraldas de Célia, uma das meninas, dizendo:
- Esse menino estava sentadinho lá fora.
- Tomei um susto e, sem saber o que fazer, me ajoelhei diante dele e perguntei:
- O que você está fazendo aqui?
-Minha mãe disse que era para eu ficar aqui que uma moça bonita ia cuidar de mim.
É a senhora?
- Ao ouvir aquilo, olhei para Júnia que, assim como eu, estava pasma.
Voltei a olhar para o menino:
-Como é o seu nome?
- Jailson
-Quantos anos você tem?
- Com a mãozinha ele mostrou quatro dedos.
-Onde está sua mãe?
-Ela disse que precisava ir embora mas que a senhora cuidaria de mim, e que um dia, se puder, vem me buscar.
-Como é o nome dela?
- Mamãe.
- Está com fome? - Perguntei sorrindo.
- Estou.
- Júnia, leve esse menino lindo para a cozinha e peça que Rita dê algo para ele comer.
Enquanto isso, vou telefonar para o meu pai.
- Ela ia saindo, quando ele tirou do bolsinho da calça um papel e me deu.
Era um registo de nascimento.
Com o registo na mão, pensei:
O que pode levar uma mãe a abandonar seu filho?
Ainda mais um menino como esse?
- Assim que Júnia saiu levando o menino, terminei de trocar a fralda de Célia e, após colocá-la no berço, saí do quarto e fui telefonar para a casa da minha mãe.
Foi ela mesma quem atendeu.
Contei o que havia acontecido e terminei dizendo:
-Não tem como deixar esse menino na rua, mamãe.
- Outra criança, Marília?
Você está tendo um trabalho enorme para cuidar da Célia e da Celina.
Elas ainda são muito pequenas.
Acha que vai conseguir?
- Preciso conseguir, mamãe.
Ele é tão pequeno!
Para onde pode ir?
- Está bem. Seu pai ainda não se levantou.
Vou conversar com ele e vamos ver o que pode ser feito.
- Ouvi o choro de Celina e fui atendê-la.
Por incrível que pareça, com o tempo conseguia distinguir um choro do outro.
Em seguida, telefonei para minha sogra e contei o que estava acontecendo.
Ela me ouviu e disse:
-Que linda, porém trabalhosa, é a sua missão, Marília!
Independente do que decidir, pode contar comigo.
Ajudarei em tudo o que puder.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 26, 2017 7:13 pm

- Ao ouvir aquilo, fiquei mais tranquila.
Sabia que precisaria da ajuda dela.
Minha mãe telefonou e disse que, como da outra vez, meu pai havia dito que precisaríamos conversar com o juiz Eduardo.
Fomos até ele, que nos recebeu sorrindo.
Depois que contei a ele o que aconteceu e o meu desejo de ficar com Jailson, ele, sério, disse:
-Sei que a senhora está com boa intenção, mas não pode acolher todas as crianças que aparecerem em sua porta.
Isso não é possível, a não ser que transforme sua casa em um orfanato.
Assim, poderá acolher todas as crianças que aparecerem.
- Eu e meu pai nos olhamos.
Ele, preocupado, disse:
-Não pode fazer isso, Marília.
É muita responsabilidade.
- Por que não, papai?
Minha casa é grande.
Nela tem lugar para muitas crianças e eu adoro todas elas.
Deus não me deu filhos mas está me mandando esses para que eu cuide, e eu quero cuidar.
- Não, Marília.
Se quiser, pode ficar com esse menino, mas será o último!
- Está bem, papai.
Prometo que ele vai ser o último.
Tenho condições de cuidar dos três.
- O juiz autorizou e eu, feliz, voltei para casa.
Quando cheguei, Júnia estava brincando com Jailson.
Eu o abracei e disse:
-Pronto, agora você pode ficar aqui.
- A notícia se espalhou.
Crianças e pais que se diziam sem condições de ficar com elas, começaram a aparecer na minha porta, e eu sempre conseguia convencer meu pai e o juiz para ficar com elas.
Em pouco mais de oito meses eu já estava com oito crianças, sete meninas e só o Jailson de menino.
Acho que naquela época só meninas nasceram.
Eu, com a ajuda de Rita, meus pais, sogros e Júnia, pude cuidar delas, continuar leccionando e, uma vez por semana, frequentar a casa espírita.
Certo dia, eu estava saindo da escola, quando uma mocinha se aproximou e disse:
-Bom dia, senhora!
- Olhei para ela e percebi que estava grávida.
Respondi:
- Bom dia!
-Meu nome é Eliete.
Como a senhora pode ver, estou grávida e não tenho onde ficar.
Fui abandonada pelo meu namorado e meus pais que, quando descobriram que eu estava grávida, me expulsaram de casa e da cidade.
Desesperada, saí caminhando e vim parar nesta cidade.
Uma pessoa que disse que a senhora está ficando com crianças sem pais.
Não tenho onde ficar.
- Olhei aquela menina que tinha mais ou menos quinze anos e vi em seus olhos uma tristeza imensa.
Perguntei:
-Não estou entendendo.
Você quer me deixar sua criança?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 26, 2017 7:13 pm

- Não! Não quero dar minha criança.
Quero ficar com ela, só que não tenho como fazer.
Não tenho onde morar.
Queria saber se a senhora podia me aceitar na sua casa até ela nascer.
Eu posso trabalhar, cuidar da casa e das crianças.
- Naquele momento, me lembrei novamente sobre a missão que todos temos e que não precisamos nos preocupar em encontrá-la porque, no momento exacto, ela sempre chega até nós.
Entendi, finalmente, que eu estava cumprindo a missão que escolhi antes de nascer.
- Antes de nascer?
Que história é essa, Marília?
- A doutrina que sigo, Flora, ensina que temos várias vidas.
Que nascemos e renascemos tantas vezes quantas forem necessárias para que, assim, possamos nos melhorar e evoluir espiritualmente.
Ensina, também, que somos nós que escolhemos onde, como e com quem vamos conviver para o nosso melhor aprendizado.
E que todos nós temos uma missão, fiem que seja apenas a de pedir perdão ou perdoar alguém.
- Isso é loucura, Marília!
Como nascer, morrer e renascer?
Perdoar é outra coisa que não aceito!
Nada disso existe!
Como podemos perdoar alguém que só nos fez mal?
Flora falou com muita raiva, olhando firme nos olhos de Selma, que estremeceu.
Esmeralda, percebendo que a situação estava tensa, disse:
- Interessante, Marília.
Vou procurar ler e conhecer essa doutrina.
Eu já ouvi falar alguma coisa a respeito dela, agora vou saber mais.
Continue, por favor.
Marília, que não percebeu o que estava acontecendo, continuou:
- Voltei a olhar para a moça e, pegando-a pelo braço, disse:
- Vamos para minha casa esperar essa criança.
- Fomos para casa.
Eliete, apesar de ainda ser uma menina, limpava a casa como ninguém.
O filho dela nasceu, um menino lindo e saudável.
Sou a madrinha dele.
Como não tinha para onde ir, ela continuou ali trabalhando e me ajudando.
Quando seu filho tinha dois anos, ela conheceu um rapaz, se casou e foi morar com ele, levando o menino, mas ainda trabalha aqui e me ajuda muito.
Crianças continuaram chegando e eu indo falar com o juiz Eduardo.
Algumas eram deixadas na igreja, outras as próprias mães traziam e pediam para que eu ficasse com a criança por algum tempo até que ela se arranjasse e pudesse buscar de volta.
Um dia, o juiz chamou a mim, meu pai e meu sogro e nos disse que havia conversado com o prefeito e sugerido que transformássemos minha casa em um orfanato e que ele aceitou.
Daria algum dinheiro para a manutenção e funcionários para me ajudar a cuidar delas.
Depois de conversarmos muito, meu pai, sabendo que eu ia continuar a aceitar todas as crianças que aparecessem, me convenceu a aceitar.
A casa continuaria sendo nossa.
Não cobraríamos aluguer.
Foi assim que nasceu o orfanato.
Sempre que aparecia uma criança eu precisava conversar com Eduardo para que ele autorizasse.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 26, 2017 7:13 pm

Nessas idas e vindas, acabamos nos apaixonando e nos casamos.
- Você se casou com o juiz, Marília?
Marília começou a rir:
- Foi o que aconteceu, Flora.
Nem sei como foi, mas aconteceu, e hoje estou feliz ao seu lado.
- Estou impressionada com o rumo dos acontecimentos.
Como conheceu, Selma?
- Eu estava casada fazia cinco ou seis meses, quando Selma apareceu na cidade.
Em uma manhã, ela chegou trazendo uma criança no colo.
Pensei que fosse mais uma mãe querendo deixar a criança.
Antes que falasse qualquer coisa eu disse:
-Está querendo deixar sua criança aqui?
Não precisa me dizer o motivo, deve ser muito sério para fazer isso.
- Ela começou a rir:
-Não, senhora!
Estou casada e amo meu filho, não vou deixá-lo aqui.
- Desculpe-me, mas é que todas as mulheres que vêm até aqui com crianças é para deixá-las aqui.
- Imagino que seja assim mesmo.
- Intrigada, perguntei:
-Se não veio para me deixar seu filho, o que quer?
- Não sou desta cidade, vim há pouco tempo.
Conheci meu marido, nos casamos e tenho este menino lindo, só que estou com um pouco de tempo livre e muita curiosidade para conhecer um orfanato e saber se posso ajudar de alguma maneira.
- Curiosidade?
- Desculpe-me, mas é isso mesmo.
Curiosidade.
- Não entendi nem gostei do que ela disse mas, não sei por que, gostei dela e respondi:
-Está bem, vamos matar sua curiosidade.
- Entramos, mostrei todas as dependências do orfanato.
Depois, viemos para esta mesma sala e tomamos chá, como estamos fazendo hoje.
Também não sei o motivo, mas contei a ela a dificuldade que estava tendo para manter o orfanato.
Ela ouviu com atenção e, quando terminei, disse:
-Nunca poderia imaginar que tivesse alguma dificuldade.
Disse que sua família e a Prefeitura ajudam.
- É verdade.
Mas, mesmo assim, falta muita coisa e as meninas não param de chegar.
Preciso construir mais uma ala.
- Não tenho dinheiro, posso ajudar de alguma outra maneira?
-Pode, sim.
Preciso de alguém para me ajudar com a papelada.
Com tudo o que tenho afazer não me sobra tempo e está uma bagunça.
Pode me ajudar?
- Felizmente estudei e acredito que posso, sim.
Olhou para Selma e, rindo, continuou:
- Ela passou a vir aqui todos os dias.
Arrumava a papelada e ficava com as meninas.
Carlos, seu filho, sempre vinha com ela e, enquanto ela trabalhava, ele brincava com as crianças.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 26, 2017 7:13 pm

Depois de algum tempo, ela me chamou e disse:
-Estive pensando, Marília.
Precisamos encontrar uma maneira de conseguirmos mais dinheiro.
- Eu disse isso a você no dia em que chegou aqui.
Já pensei muito e não encontrei nenhuma solução.
- Estive pensando, Marília.
No colégio em que estudei, aprendi a bordar, costurar e a fazer croché e tricô.
Acho que posso ensinar as meninas maiores e, assim, poderemos fazer uma exposição com esses trabalhos, que poderão gerar renda, e as pessoas que ajudarem ficarão felizes em saber que o dinheiro está sendo bem empregado.
Além do mais, quando as meninas tiverem de ir embora, por terem atingido a idade, terão uma profissão para sobreviver.
O que acha?
- Eu acho que até pode dar certo, mas você se encarregaria de ensinar as meninas?
- Claro que sim.
Sempre achei que aprender essas coisas era uma perda de tempo, mas hoje sei que era preciso que eu aprendesse.
Por isso estou muito feliz.
Flora começou a rir.
- Verdade, Selma.
Nunca pensamos que algum dia usaríamos o que aprendemos.
Você ainda gostava, mas eu tinha horror.
Marília, também rindo, disse:
- Ainda bem que Selma aprendeu.
O tempo passou e ela se dedicou a ensinar as meninas.
As primeiras exposições não tiveram muito sucesso, mas Selma nunca desistiu, continuou trabalhando com carinho.
As meninas, diante do optimismo dela, se esforçavam sempre mais.
Com o passar dos anos as pessoas começaram a frequentar a exposição, que hoje é um sucesso, um acontecimento na cidade.
Nunca poderei agradecer a sua dedicação, Selma.
Você chegou na minha vida em um momento em que eu achava que não havia luz no fim do túnel e clareou tudo.
- Pare com isso, Marília!
Eu, sim, que por mais que faça, jamais poderei agradecer o quanto você fez por mim.
Eu, sem um motivo aparente, pois tinha um marido, um filho que amava e uma vida tranquila, estava entrando em uma depressão sem fim.
Quando comecei a trabalhar aqui e ao lado das meninas, me reencontrei e consegui afastar a depressão, não tinha mais tempo para ela.
Quando terminou de falar, sorriu.
Marília, olhando para Selma e Esmeralda, continuou falando:
- Aprendi que tudo na nossa vida acontece como tem de acontecer e que a Espiritualidade nos encaminha para que possamos encontrar e cumprir a nossa missão.
Selma olhou para o relógio que estava em seu pulso e, assustada e levantando-se, disse:
- Nossa, estamos conversando há tanto tempo que nem vi a hora passar!
Preciso ir para casa preparar o jantar.
Roberto, logo mais, vai chegar e Carlos já deve estar em casa.
- Flora, Esmeralda e Marília também se levantaram.
Abraçaram-se e foram acompanhadas por Marília que, quando chegaram ao portão, disse:
- Faça uma boa viagem de retorno para sua casa, Flora, mas não nos esqueça e venha, de vez em quando, nos visitar.
Venha para a exposição.
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