As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:20 pm

- Eu não sei por que estou aqui.
Estava ao lado de Selma intuindo dona Alda, na delegacia, quando fui trazida para esta estrada.
- Entendeu o que aconteceu aqui?
Antes de responder, Ariete ficou olhando para Etelvina e exclamou:
- Espere! A senhora não é Etelvina, que foi a babá de Selma?
- Sou eu mesma.
Pensei que não ia me reconhecer.
Quando fui babá de Selma, você era muito pequena.
- Agora, estou me lembrando.
Selma ficou muito triste quando dona Alda mandou a senhora embora.
Ela gostava muito da senhora.
- Também fiquei muito triste.
Tudo passou.
Hoje, Selma está bem, embora passando um momento muito ruim.
Ela está resgatando, através do amor ao próximo, tudo o que fez.
- Sei que ela está bem, o que me causou muita raiva.
Aqui nesta estrada pude reflectir sobre tudo que aconteceu e acho que todos nós tivemos culpa, menos Mário Augusto.
Ele sempre foi diferente.
Neste momento, o que mais quero é ter uma nova chance para poder recomeçar e fazer tudo diferente.
Quero e preciso reencontrar Mário Augusto, o amor da minha vida!
Sei que está em algum lugar, só não sei onde.
- Sempre temos novas chances, Ariete.
Deus nos ama muito e só quer o nosso bem.
- Como posso ter outra chance?
Estou morta!
- Você está morta, Ariete? - Etelvina perguntou, sorrindo.
- Sim, estou.
Demorei muito para entender, mas hoje sei que estou morta, embora a morte que eu conhecia ou ouvia falar não seja dessa maneira.
- Por que está dizendo isso?
- Embora saiba que estou morta, não me sinto assim.
Sinto fome, sede e frio, além de muito medo, coisa que nunca senti antes.
- Do que se lembra antes de se ver aqui, nesta estrada?
- Lembro-me que estava muito feliz.
Eu e Mário Augusto íamos ficar noivos e foi preparada uma linda festa.
Eu estava usando um lindo vestido que foi comprado para aquele dia.
Fui até o jardim, onde Selma disse que ele estava, e o encontrei abraçando e beijando Matilde.
Fiquei muito nervosa, fui até a sala do meu pai, peguei um revólver e atirei neles.
Não sei o que aconteceu.
Quando acordei estava em um lugar apavorante.
Havia um mau cheiro horrível e gritos que chegavam de todos os lados, que me apavoravam.
Pessoas perambulavam, mais parecendo mortos-vivos.
Fiquei com muito medo e tentei me esconder, eles me achavam e me chamavam de assassina.
Senti muito medo e corria de um lado para outro, mas não encontrava saída.
Pensava em minha casa e na segurança que sempre tive lá.
Procurei muito por ela, mas foi em vão.
Não sei quanto tempo fiquei ali, só sei que foi terrível.
A todo instante me lembrava do momento em que cometi aquele acto tão horrível.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:20 pm

Escondida daqueles monstros que me perseguiam, continuei procurando uma saída e por Mário Augusto.
Embora quisesse, não conseguia afastar a imagem de Mário Augusto e Matilde deitados no chão e rodeados de muito sangue.
Também me via deitada ao lado deles.
Aquele pensamento e lembrança me atormentavam.
Eu sabia que havia feito aquela coisa deprimente.
Sentia que se eu encontrasse Mário Augusto, ele me tiraria dali.
Muito tempo depois, eu estava perambulando sem saber o que fazer, chorando e pedindo muito para que alguém surgisse para me ajudar a encontrar o caminho de casa e Mário Augusto, quando um senhor apareceu, não sei
de onde e sorrindo, pegou na minha mão e disse:
-Como você está, Ariete?
-Quem é o senhor, como chegou aqui?
-Meu nome é Péricles e estou aqui para ajudar você.
-Ainda bem, não sei mais o que fazer.
-O que está sentindo?
- Estou com muito medo e me sentindo perdida.
- O que está fazendo aqui?
-Não sei como vim parar aqui nem sei que lugar é este!
Por favor, me ajude a sair daqui!
-Vou ajudá-la.
- Obrigada, senhor, obrigada! - Disse, pegando sua mão e beijando.
Ele afastou a mão e sorriu:
- Vou levá-la para um lugar onde vai encontrar a paz que tanto procura, onde poderá reflectir sobre o que aconteceu e encontrar uma maneira de se redimir.
- Ele me levou a um lugar com muita claridade e paz, muito diferente daquele em que eu estava.
Fui recebida com carinho e em poucos dias eu estava muito bem, mas eu sentia muita saudade de casa, de Flora e, principalmente, de Mário Augusto.
Perguntava, mas só me respondiam que estava tudo bem.
Com o tempo fui ficando ansiosa e irritada.
Alguém me alertou do perigo que eu corria se saísse dali e continuasse com aqueles pensamentos destrutivos.
Disseram também que se eu quisesse partir não podiam me impedir, pois eu tinha meu livre-arbítrio.
Eu ouvia o que diziam, mas não me importava.
Precisava sair dali, precisava encontrar Mário Augusto.
Em um dia, eu estava passeando pelo jardim, que era lindo, quando senti uma irritação muito forte, diferente daquela que sentira até agora.
Foi como uma força que me atraía.
Senti uma vontade enorme de ir até o lugar de onde aquela força partia.
Não sei como, mas de repente me vi na minha casa.
Ela estava diferente.
Sempre foi muito clara e transbordava felicidade, mas o que encontrei ali foi muita tristeza e ódio.
Suas paredes, embora ainda fossem pintadas com cores claras, não conseguiam retirar aquela energia ruim e tudo estava escuro e nebuloso.
Ouvi vozes que vinham da sala.
Correndo, fui até lá.
Encontrei Flora e Esmeralda, que conversavam.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:20 pm

-Consegui, Esmeralda!
Consegui descobrir onde Selma está!
- Não fico feliz com isso, Flora.
Você está há tanto tempo pensando só em sua vingança.
O tempo está passando e continua parada, sem nada fazer da sua vida.
- Não venha com essa conversa novamente, Esmeralda.
Encontrei Selma e ela vai pagar por tudo o que fez com Ariete!
- Nada que você faça vai trazer Ariete de volta, Flora.
- Sei disso, mas Selma não pode ficar impune!
Vou me vingar!
- Flora disse isso com muito ódio na voz e no coração, Etelvina.
Aquele sentimento dela me atingiu totalmente.
Parecendo que Flora sabia que eu estava ali, continuou falando:
- Foi Selma quem preparou aquela armadilha que fez com que Ariete matasse Mário Augusto e Matilde e depois se matasse!
Isso não pode ficar impune, Esmeralda.
Selma precisa pagar!
- Enquanto Flora falava, eu ia me relembrando daquela noite.
Foi assim que fiquei sabendo o que havia acontecido realmente.
Fiquei tomada de ódio por Selma e gritei:
- Ela não pode ficar impune, Flora!
Destruiu as nossas vidas!
Por causa dela fiz aquela loucura e não consigo encontrar Mário Augusto!
Ela é a única culpada!
- Flora, como pretende se vingar de Selma? - Esmeralda perguntou, preocupada.
- Amanhã estou indo para a cidade onde ela mora.
É uma cidade pequena, por isso nunca foi encontrada, mas eu vou encontrá-la!
- Ao ouvir aquilo, fiquei entusiasmada, e me aproximando de Flora, irritada, falei:
- Vou estar ao seu lado, minha irmã, e juntas vamos nos vingar e fazer com que ela confesse o crime e seja penalizada!
- Daquele dia em diante, fiquei ao lado de Flora.
Fomos para a cidade onde Selma morava e a encontramos.
Flora tinha tudo planeado e eu sempre a incentivava mais.
Porém, um dia, Esmeralda a convenceu de que Selma havia mudado e que estava vivendo de uma maneira simples e ajudava aquelas crianças.
A princípio Flora relutou, mas depois, diante dos argumentos de Esmeralda, resolveu deixar tudo para lá.
Veio embora e as duas foram para a Europa.
Fiquei com muita raiva e desesperada.
Saí dali correndo, e na rua vi alguns vultos que caminhavam.
Fui até eles e contei o que havia acontecido.
Eles, que também se julgavam injustiçados, disseram que me ajudariam na vingança.
Aceitei a ajuda e, juntos, ficamos o tempo todo ao lado de Selma.
Eu estava lá, quando dona Alda chegou e fiz com que ela ficasse com muita raiva também.
Estava feliz por ver Selma atrás das grades e por ela ter contado o que aconteceu e reconhecido sua culpa, mesmo assim, eu queria mais.
Queria que ela ficasse presa pelo resto da vida.
Foi quando Péricles voltou e vendo que eu não ia mudar de atitude, disse que eu não poderia ficar mais ali e me trouxe aqui, para essa estrada horrível.
Aqui, sozinha, senti o mesmo medo que antes, naquele lugar tenebroso.
Comecei a pensar em tudo o que havia acontecido e vi que, embora Selma tenha tido culpa, também tive, pois me deixei levar pelo orgulho, ciúme e apego.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:21 pm

Eu sempre me julguei superior às demais pessoas.
Achava que Mário Augusto era meu e que nunca poderia pertencer a outra pessoa!
Aqui descobri que tudo isso não passava de ilusão.
Que somos livres, portanto ninguém pertence a ninguém.
Sinto muito pelo que fiz.
- O que pretende fazer agora, Ariete?
- Quero, se possível, voltar para aquele lugar iluminado e de paz.
Sei que ali, um dia, vou rever Mário Augusto e Matilde.
Preciso pedir perdão a eles.
Pode me ajudar a voltar lá e a encontrá-los, Etelvina?
Etelvina olhou para Alda, Matilde e Mário Augusto, e sorriu.
Ariete, ao vê-los chorando, gritou:
- Mário Augusto?
Está aqui, meu amor!
Procurei você por toda parte!
Preciso que me perdoe.
- Sempre estive ao seu lado, meu amor.
Eu amo você e nunca poderia abandoná-la.
Só não podia me ver porque estava com muito ódio e, por isso, cercada de uma nuvem densa que impedia a nossa aproximação.
Graças a Deus, você entendeu que o ódio não nos leva a lugar algum.
Ainda abraçados, ela, chorando, disse:
- Perdão, meu amor. Perdão.
Olhando para Matilde, sem se afastar, Mário Augusto estendeu a mão, que Matilde apertou.
- Preciso do seu perdão também, Matilde.
Sei que fui má e que a explorei ao lado de Selma e de Flora, mas não sabia o que estava fazendo.
Estava iludida pela minha posição social.
Achava-me superior e poderosa.
Matilde sorriu:
- Todos nós tivemos a nossa parcela de culpa, Ariete.
Ainda bem que você entendeu isso.
Assim fazendo, pode seguir ao nosso lado.
Alda, ao ver o filho, ficou paralisada.
Depois, começou a chorar:
- Meu filho, você está aqui?
Afastando-se de Ariete, ele abraçou a mãe, também chorando:
- Estou, mamãe.
Embora não pudesse me ver, sempre estive ao seu lado.
- Meu filho querido!
Sofri tanto quando morreu!
Não se passou um só dia em que eu não me lembrasse de você.
Eu não entendia por que aquilo havia acontecido e não achava justo.
Você, tão jovem, bonito e com um lindo futuro pela frente, não poderia morrer daquela maneira.
- Sei que sofreu, mamãe.
Por isso, estive sempre ao seu lado.
Sofria mais ainda por ver que a senhora se entregou ao desespero.
Eu não tinha nada que pudesse fazer a não ser ficar ao seu lado.
Ainda bem que hoje está bem, entendeu que o dinheiro, quando mal usado, só pode fazer mal ao nosso espírito e que não passa de ilusão.
Aprendeu, também, que ninguém é superior ao outro.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 8:21 pm

Somos todos caminhantes e aprendizes.
Tudo está sempre certo, mamãe.
Ao ouvir aquilo, ainda chorando, Alda se afastou e ficou olhando para eles, que também a olhavam e sorriam:
- Esperem, se estão todos mortos e eu posso conversar com vocês e vê-los, significa que estou morta também?
Eles sorriram.
Mário Augusto foi quem respondeu:
- Está, mamãe, mas não se assuste.
Estamos aqui.
- Como não me assustar, Mário Augusto?
Não posso morrer agora!
- Por que não, mamãe?
- Agora que entendi tudo o que fiz de errado?
Preciso consertar o que fiz!
Preciso rever Selma, seu marido e filho!
Preciso dizer que quero todos eles ao meu lado!
Voltando-se para Etelvina continuou:
- Preciso recompensar você, Etelvina, pelo grande mal que fiz!
- Terá chance de fazer isso, mamãe.
Sempre temos novas chances, mas não agora. - Disse Mário Augusto.
- Não estou entendendo.
Como morri e quando?
- Isso, agora, não tem mais importância.
O que importa é o que será daqui para frente.
- Dizendo isso, Mário Augusto olhou para Etelvina:
- Agora podemos ir embora, Etelvina?
- Sim, Mário Augusto.
Graças a Deus, está tudo bem.
Seguraram nas mãos de Ariete e de Matilde e desapareceram.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:18 pm

Acerto de contas
O tempo passou.
Quatro meses depois, Selma estava no galpão envolvida com os trabalhos que estavam sendo preparados para a próxima exposição e não viu quando Marília, acompanhada por José Luiz e Flora entraram.
- Olhe quem veio nos visitar, Selma!
Selma se voltou, abriu um sorriso feliz e correu para abraçá-los.
- Que alegria!
Estou muito feliz por estarem aqui, mas aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, Selma.
Vim acompanhar dona Mirtes e as meninas para receberem a sentença do juiz.
- Já foram sentenciados?
- Sim. Estamos voltando do fórum.
Foram condenados a prestarem serviços comunitários.
Como não moram na cidade, deverão, em sete dias, comunicar as entidades que ajudarão.
Isso não é comum, mas, neste caso, o juiz decidiu que seria uma boa sentença.
Assim, eles entenderão o que significa ajudar e poderão pensar a respeito do trabalho que você faz aqui.
- Essa sentença parece ser justa, embora entenda que ela é melhor do que parece.
Só fará bem a eles.
Ajudar sempre nos causa um bem imenso.
Olharam para Marília, e Selma, piscando os olhos para os outros, disse rindo:
- Está puxando a sardinha para o seu lado, Marília?
- Não, Selma!
Realmente achei que foi uma boa sentença. - Marília falou, com o rosto vermelho.
- Estava brincando.
Seu marido é um bom juiz, Marília.
- Também penso assim, Selma, e Eduardo foi um sábio em pensar nisso. - José Luiz disse, também rindo.
- Quanto a Joel e Sandra, que moram aqui, como pagarão?
- Eles terão de trabalhar algumas horas por semana aqui no orfanato.
- Sandra mora e trabalha aqui há muito tempo.
- Não sei o que fazer.
Preciso conversar com o Juiz.
- Ela quer muito frequentar uma faculdade e, depois de ver sua actuação, quer ser advogada.
Com meu dinheiro pessoal, posso pagar a faculdade e um lugar para que fique morando, mas ela precisaria ter um trabalho.
- Advogada! Que bom, é uma óptima profissão. - Ele disse, rindo.
- Acha que podemos ajudar, José Luiz?
- Acredito que sim, Flora.
Sei como fazer.
Se ela conseguir entrar na faculdade, eu dou um emprego de estagiária no meu escritório; assim, além de aprender a teoria, poderá aprender também na prática.
- Nem sei como agradecer a vocês.
Vou conversar com Eduardo e ver como pode ser feito.
- Faça isso e me avise da decisão dele.
Tenho certeza de que vai aceitar.
- Aproveitei para trazer esses documentos para você assinar, Selma.
Como o combinado, o carro de sua mãe foi vendido e o dinheiro da venda usei para indemnizar os empregados da casa.
Ainda sobrou um pouco e tomei a liberdade de trazer para que você use como quiser.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:18 pm

- Eu disse que não preciso do dinheiro da minha família, José Luiz.
O salário do meu marido sempre foi o suficiente para que tivéssemos uma vida tranquila.
Agora que está recebendo o dobro, nossa vida está melhor ainda, além de ele estar feliz no emprego, mas vou aceitar esse dinheiro que trouxe.
Vou dar para Marília, sabendo que ele ajudará ao orfanato e às crianças.
- Imaginei que fosse fazer isso.
Trouxe, também, esta escritura do apartamento para que assine.
Josias ficou muito feliz, emocionado e agradecido.
Disse que qualquer dia vem até aqui para visitar você e sua família.
- Também estou feliz por ele.
Está há muitos anos na nossa família, e desde que eu era criança foi um grande amigo e sempre me ajudou.
Era o mínimo que eu poderia fazer por ele.
Só estou preocupada porque, com a idade que tem, talvez não encontre outro emprego.
- Não se preocupe com isso.
Nosso motorista ficou viúvo e foi morar com a filha.
Eu contratei Josias para ocupar o lugar dele.
- Que boa notícia, Flora!
Não imagina como estou feliz!
- Sabia que ficaria e espero que fique mais ainda com a novidade que vou contar.
- Que novidade?
- Pegue este envelope e abra.
Selma pegou o envelope, abriu e soltou um grito:
- Vocês vão se casar?
Não acredito!
- Pode acreditar!
E estamos aqui não só para entregar o convite mas também para pedir que você e seu marido sejam nossos padrinhos.
- Como isso aconteceu?
Sempre foram só amigos!
- Você foi a culpada.
- Eu, por quê?
- Com a sua prisão nos unimos para tentar inocentá-la e, por conta disso, ficamos nos vendo e conversando quase todos os dias.
Um belo dia, sem saber bem como, descobrimos que o que sentíamos um pelo outro era mais do que amizade e aqui estamos.
- Estou muito feliz por vocês e acho que merecem e terão toda a felicidade do mundo.
Quanto a ser madrinha, não sei, Flora.
- Não sabe? Por quê?
- Não pertenço mais ao seu mundo.
Aquela Selma deixou de existir há muito tempo.
- Sei disso.
Aquela Selma se transformou em uma pessoa maravilhosa, e é essa pessoa que quero para minha madrinha.
- Está bem. Agora só me resta pensar no vestido que vou usar!
- Não se preocupe com isso.
Quando abri minha loja comprei vários vestidos e, quando fechei, fiquei com todos, estão em minha casa.
São lindos, e você poderá escolher qualquer um deles.
- Está bem. Estou muito, muito feliz por tudo o que está acontecendo em minha vida.
- Este convite é para você e seu marido, Marília. Ficaria muito feliz se seus pais e seus sogros fossem também.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:19 pm

- Para mim?
- Sim, você foi o anjo bom na vida de Selma, e pretendo que seja minha amiga também.
- Tenho muito orgulho de ter conhecido vocês, e foi Selma quem surgiu na minha vida e a transformou completamente.
Acredito que nos conhecemos há muito tempo e que nesta encarnação renascemos para aparar arestas do passado.
Estou contente por este final feliz.
Claro que vamos ao seu casamento, Flora.
Garanto que, assim como eu, minha mãe também ficará feliz pelo seu convite.
Vamos aproveitar para ir com Selma até sua casa escolher os vestidos que vamos usar!
Obrigada, Marília.
Estarei esperando por vocês.
Quanto a Sandra, também foi condenada a servir, mas ela já faz isso desde pequena.
Despediram-se.
Flora e José Luiz, não conseguindo esconder a felicidade que sentiam, foram acompanhados por elas até o carro e foram embora.
Assim que partiram, Selma, eufórica, disse:
- Estou muito feliz por eles, Marília!
Agora, só preciso convencer Roberto e Carlos a irem ao casamento.
- Eles irão, Selma.
Você é muito amada pelos dois.
Selma sorriu e, juntas, voltaram para o galpão.
Péricles e Etelvina sorriram e desapareceram.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:19 pm

Reencontro feliz
Na noite anterior ao casamento de Flora, Selma abriu os olhos e ficou espantada:
Que lugar é este?
Ficou olhando e percebeu que estava em um lindo jardim com flores coloridas e brilhantes.
Folhagens verdes por toda parte.
É lindo demais!
Continuou olhando e, para sua surpresa, viu Etelvina sentada em um banco e conversando com Alda.
Não se conteve, correu até elas:
- Mamãe! A senhora está aqui e viva?
Alda, levantando-se, abriu os braços.
- Selma, minha filha!
Como eu queria ver você!
- Perdoe-me, mamãe, por tudo o que fiz e que fez a senhora sofrer!
Fui uma filha horrível. - Selma disse, chorando muito.
- Não diga isso, minha filha.
Aqui, aprendi e entendi que todos somos culpados.
Fracassei como sua mãe que, ao invés de ensinar a você o amor ao próximo, respeito, solidariedade, fiz exactamente o contrário e ensinei o egoísmo, a prepotência e o preconceito.
Errei muito.
- Quando a senhora morreu, fiquei muito triste e estou até hoje por não ter me despedido e pedido perdão.
Chorei não só por sua morte, mas pelo remorso em não ter sido uma boa filha.
Naquele dia, eu estava nervosa e revoltada.
- Não, filha. Não é assim.
Eu fui cruel não só com você, mas também com seu marido e, pior, com seu filho, apenas uma criança.
- Espere, mamãe!
Sei que está morta, então como pode estar aqui?
- Acha que estou morta?
- Não, mas eu enterrei a senhora!
- A morte não significa que tudo acabou; é simplesmente uma mudança de plano.
Deste lado, a vida continua e tomamos conhecimento daquilo que fizemos de certo ou que deixamos de fazer.
- Não estou entendendo muito bem; mas, mesmo assim, estou muito feliz por ter reencontrado a senhora.
Estou aliviada por saber que não guarda mais ódio e rancor por mim.
- Está feliz?
Pois vai ficar mais ainda.
Olhe para lá.
Disse, apontando com o dedo.
Selma olhou para onde ela apontou e gritou:
- Meu Deus! Vocês também estão vivos?
Mário Augusto, Ariete e Matilde, que sorriam para ela, abriram os braços, e Selma correu para eles.
Abraçaram-se e, chorando, ficaram assim por muito tempo.
Não conseguiram dizer uma palavra.
Depois de algum tempo, Selma, ainda chorando, disse:
- Perdão, perdão, perdão.
Fui a culpada do que aconteceu com vocês e tenho sofrido muito por isso.
Eu não sabia o que estava pensando, me deixei dominar pela inveja e pelo ciúme.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:19 pm

Sei que você, Matilde, invejava a vida que eu tinha, mas nunca imaginei que terminaria como terminou.
- Esqueça-se disso, minha irmã.
Todos nós tivemos nossa parcela de culpa.
O importante é que está aqui e que um dia, quando voltar definitivamente, poderemos conversar muito e resolver como será nossa próxima encarnação.
- Encarnação?
O que está dizendo, Mário Augusto?
Quem fala isso é Marília!
- É verdade.
Mas isso, agora, não tem importância.
O que importa é o casamento entre Flora e José Luiz.
Estamos, todos, muito felizes.
Sabíamos que isso aconteceria e que era só uma questão de tempo.
Estamos torcendo para que sejam felizes!
Não é Péricles?
- Péricles?
O senhor é o marido de Marília?
Ela me contou a história de vocês! - Selma perguntou, admirada.
- Sim, sou eu.
Marília foi uma companheira maravilhosa no tempo em que estive na Terra.
- Não sente ciúmes por ela ter se casado com Eduardo?
- Não, Selma.
Aqui, os sentimentos são outros.
Somos todos caminhantes na estrada do conhecimento.
Entre mim e Marília tudo aconteceu como deveria acontecer.
Ela está feliz ao lado de Eduardo, que também faz parte de nossa vida há muito tempo.
Ele é mesmo um homem muito bom.
- Isso é verdade.
Ela está feliz, e ele é mesmo um homem muito bom.
- Que bom ver você por aqui, menina.
Você conseguiu sua redenção e eu estou feliz por isso.
Selma abraçou-se em Etelvina.
- Obrigada, Etelvina, mas tudo o que consegui foi graças a você.
Foram seus conselhos e conversas que fez com que eu tomasse conhecimento do significado da palavra felicidade.
- Todos nós, além de cumprir nossas missões, tínhamos como missão especial ajudar você, estando sempre ao seu lado.
Nunca esteve só.
Sempre teve amigos na Terra e aqui também.
Hoje, todos estamos felizes por termos o nosso dever cumprido.
- Eu amo todos vocês.
Obrigada por nunca terem me abandonado.
Estou tão feliz que não queria mais retornar.
Dizendo isso, Selma acordou, num sobressalto, ainda ouvindo sua própria voz.
O pulo foi tão forte que Roberto acordou:
- O que aconteceu, Selma?
Parece assustada.
- Não sei, Roberto.
Estava sonhando, acho que com minha mãe e todos eles.
Pareciam felizes.
- Que bom, mas por que será que acordou tão assustada?
- Não sei.
Não me lembro muito bem do que aconteceu.
Agora, vamos nos levantar.
Hoje é o grande dia e precisamos nos preparar.
- Não sei como vou me sentir naquela roupa que José Luiz me deu.
- O nome é fraque, Roberto. - Ela falou rindo.
Levantaram-se e foram acordar Carlos, que dormia tranquilamente.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:20 pm

Epílogo
A igreja estava toda enfeitada com muitas flores.
De um dos lados do altar.
José Luiz estava olhando, ansioso, para a entrada.
Do outro lado, Roberto e Selma, também ansiosos, faziam a mesma coisa.
Roberto estava incomodado por estar vestindo aquela roupa que ele só tinha visto em filmes.
Selma se divertia ao ver seu rosto.
- Você está lindo, Roberto.
- Fique quieta, Selma!
Olhe o que estou fazendo por você!
Não só por esta roupa ridícula, mas porque todos estão olhando para nós.
Parece que somos mais importantes que os noivos!
- Não se preocupe com isso.
São pessoas que não têm mais o que fazer além de ficar falando da vida alheia.
Ainda não se conformam que eu tenha mudado tanto; mas, para mim, o que importa é a felicidade de Flora e de José Luiz.
Logo mais tudo vai terminar e voltaremos para nossa casa, para nossa vida.
- É verdade.
Eles merecem toda a felicidade do mundo.
- Olhe como Marília está linda ao lado de Eduardo.
Dona Berta e dona Clara também estão lindas ao lado dos maridos.
Algumas vezes, cheguei a pensar que a felicidade não existia; mas, hoje, sinto que ela pode existir sim.
- Pare de falar, Selma.
Selma começou a rir por entender a situação do marido.
Etelvina, que também estava ali, falou no ouvido de Roberto:
- Você está lindo, meu filho, e estou orgulhosa pelo homem que se tornou.
Roberto não ouviu, mas sentiu uma brisa suave passar pelo seu rosto e, no mesmo instante, lembrou-se da tia e sorriu.
Selma, alheia ao que estava acontecendo, apertou o braço de Roberto e com os olhos fez com que ele olhasse para Carlos, que estava sentado ao lado de Marília, que naquele momento se levantava:
- Para onde ele está indo, Roberto?
- Não sei, Selma.
Acompanharam Carlos e viram quando ele entrou em uma fila de bancos e, para surpresa deles, Fabiana estava sentada ali.
Carlos se aproximou e, sentando-se ao lado dela, perguntou:
- Por que não voltou à minha cidade, Fabiana?
Ela, abaixando a cabeça, respondeu baixinho:
- Por vergonha, Carlos.
Sei que deve estar me odiando e não o culpo por isso.
Fiz somente o que minha tia pediu; mesmo assim estou envergonhada e não sabia como falar com você.
- Confesso que quando tomei conhecimento do que você havia feito fiquei com muita raiva, mas minha mãe conversou comigo e me fez ver que todos nós podemos cometer algum engano, e que todos, também, sempre têm chance de se arrepender.
Apesar de tudo, gosto de você e, quando quiser, pode nos visitar.
Garanto que sempre será bem-vinda em nossa casa.
Fabiana ia dizer alguma coisa, quando começou a tocar a marcha nupcial e todos se levantaram para ver a noiva, que estava na entrada da igreja.
Eles também se levantaram.
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Ave sem Ninho

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 7:20 pm

Flora estava linda vestida de noiva e começou a caminhar com passos lentos ao lado do tio, irmão de seu pai.
Enquanto caminhava, foi distribuindo sorrisos para os convidados.
No altar, José Luiz tremia ao vê-la se aproximando.
Selma, também emocionada, chorava feliz ao ver a felicidade da amiga de tantos anos.
A cerimónia foi linda.
Embora ninguém tenha visto, Ariete, Mário Augusto e Matilde também estavam ali.
Quando o padre começou a falar, Péricles, que estava atrás dele, estendeu as mãos, no que foi acompanhado pelos outros, e luzes começaram a cair sobre o casal e toda a igreja.
Depois da cerimónia, todos foram para a casa de Flora, que estava toda iluminada e florida.
A festa foi requintada, todos caminhavam de um lado para outro e conversavam.
Esmeralda se aproximou de Selma:
- Hoje, estou muito feliz, Selma, não só pelo casamento de Flora, que foi o que sempre desejei, mas por ver você aqui, também linda e feliz.
- Estou feliz mesmo, Esmeralda, pois mesmo tendo feito tanta coisa errada, ainda fui abençoada com um marido e filho maravilhosos.
- Tudo o que conseguimos é só questão de merecimento e, se está feliz, é porque merece.
Alda, que também estava li, falou:
- Tem uma coisa que não estou entendendo, Péricles.
- O que, Alda?
- Mesmo tendo feito tanta coisa errada, no final todos nós fomos perdoados e estamos felizes. Isso é certo?
- Tudo está sempre certo, Alda.
Todos nós, ao renascer, temos a oportunidade de melhorar; mas todos nós também, durante a vida na Terra, cometemos alguns acertos e erros que podem ser resgatados na Terra ou aqui.
Sempre caminhamos juntos, uns ajudando os outros.
Nesta encarnação, você e Selma teriam de encontrar o caminho da luz e da paz.
Foi difícil, mas conseguiram.
Para isso foram muito ajudadas, tanto pelo plano espiritual, como por todos com quem conviveram.
Você, infelizmente, só conseguiu depois de ter voltado; mas Selma, através do amor ao próximo, da humildade e do grande amor, sem interesse, pelas crianças do orfanato, conseguiu encontrar o caminho da redenção.
Todos se olharam e sorriram.
- O que vai acontecer agora que tudo está bem, Péricles?
- Por enquanto, nós voltaremos para o plano espiritual e seguiremos o nosso aprendizado.
Eles continuarão suas vidas.
Vamos continuar torcendo por eles e tentando ajudar se for necessário.
Quando todos retornarem, faremos uma reunião para que os caminhos da próxima encarnação sejam decididos.
Falando nisso, está na hora de irmos embora.
Todos sorriram e, envolvidos em muita luz, desapareceram.

FIM

§.§.§- O-canto-da-ave
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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