As chances que a vida dá / Elisa Masselli

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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:25 pm

Roberto voltou-se e viu que quem falava era uma moça que ele havia contratado há algum tempo atrás.
- Você sabe, Maria?
Maria escreveu algo em um papel e entregou a ele, dizendo:
- Sei. Ela mora com a tia na rua onde moro.
Faz pouco tempo que ela chegou à cidade. Aqui está o endereço.
Roberto pegou o papel e saiu sorrindo e dizendo:
- Obrigado, Maria, e que Deus a abençoe.
Com o papel na mão, Roberto, apressado, quase correndo, caminhou em direcção à rua que estava marcada nele.
Chegou a uma casa simples.
Não havia campainha e ele bateu palmas com muita força.
Uma senhora apareceu no corredor e ao vê-lo, curiosa, perguntou:
- Posso ajudar o senhor?
- Pode sim.
Sou o chefe de Margarete.
Preciso muito conversar com ela.
A senhora poderia chamá-la?
- Ela não está.
Ontem, pela manhã, disse que precisava ir embora da cidade.
Fez sua mala e foi para a rodoviária tomar um ônibus.
- Ônibus? Para onde?
- Voltou para casa.
- Onde ela mora?
- Na Capital.
- A senhora tem o telefone ou o endereço?
- Sou irmã do pai dela.
Eu tenho o endereço, mas é o antigo.
Meu irmão se mudou recentemente e não me deu o endereço novo.
Só quem tem é Margarete.
Roberto ficou desesperado:
- Meu Deus do céu!
O que vou fazer?
A senhora, preocupada e intrigada, perguntou:
- Nossa, moço!
O senhor está muito nervoso!
O que foi que Margarete fez?
Roberto olhou para aquela mulher simples e que, provavelmente, era a única pessoa da cidade que não sabia o que havia acontecido no orfanato.
Percebendo que não adiantaria prolongar aquela conversa, respondeu:
- Não se preocupe, senhora.
Vai ficar tudo bem, obrigado pela atenção.
Sob o olhar curioso e preocupado dela, ele se afastou.
Enquanto caminhava, nervoso, confuso e sem saber o que fazer, pensava:
Ela era a única pessoa que poderia me inocentar.
Não sei o que fazer.
Selma nunca vai acreditar em mim e eu não tenho como me defender.
Ao seu lado, sem que ele imaginasse, caminhavam a mesma entidade e seus companheiros que tinham estado com Selma desde o dia em que encontrou, pela primeira vez, Flora em frente à loja de festas e que, feliz, ria e dizia:
- Isso mesmo, você não sabe o que fazer?
Não sabe e nem vai saber!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:25 pm

Melhor é tomar uma bebida, ficar bêbado, pois só assim vai se sentir melhor.
No mesmo instante, ele pensou:
Vou tomar uma bebida para me acalmar e poder pensar.
Caminhou mais um pouco e chegou ao bar, onde costumava parar quando ia buscar Carlos na escola.
Sempre passava ali e, antes do almoço, tomava uma bebida.
Entrou e disse:
- Bom dia, seu Euclides.
Pode me dar uma dose?
O dono do bar, Euclides, ao vê-lo àquela hora ali e sabendo o que havia acontecido, estranhou.
- Bom dia, seu Roberto, mas não está muito cedo para o senhor beber?
Não são nem dez horas da manhã.
- Pode ser cedo, mas estou com vontade, agora.
O senhor pode me servir ou não?
Euclides estranhou mais ainda a resposta e o tom de voz de Roberto.
- Está bem, vou servir, mas não precisa falar assim comigo.
Sempre fomos amigos e não é porque o senhor fez uma bobagem que vou deixar de ser.
Sou homem e sei como essas coisas funcionam.
É difícil, para nós, os homens, conseguir resistir aos apelos de uma mulher, ainda mais sendo tão jovem e bonita.
Roberto ficou furioso e gritou:
- Eu não fiz coisa alguma com aquela moça, foi tudo uma armadilha!
- Calma, seu Roberto!
Armadilha? Porquê por quem?
- Não tenho ideia, mas foi uma armadilha.
Estou desesperado por não conseguir provar minha inocência!
- O senhor parece estar sendo sincero.
- Claro que estou!
Eu jamais trairia minha esposa e meu filho!
A entidade, feliz por ele ter ouvido a sua intuição, falou:
- Pare de falar e tome logo a bebida.
Você precisa dela!
- Por favor, me dê logo essa bebida!
Enquanto Euclides pegava a garrafa, Roberto colocou as mãos sobre o rosto e, sem conseguir se conter, começou a chorar.
Euclides, ao ver o desespero dele, disse:
- Não chore, Roberto.
A verdade sempre aparece.
Quer mesmo beber tão cedo?
- Claro que quero, Euclides.
Não sei mais o que fazer.
Perdi minha mulher e talvez até meu filho.
Minha vida está destruída e não encontro uma saída.
- Fique calmo, com o tempo tudo se resolve.
Quando Euclides estava terminando de colocar a bebida no copo, Selma entrou no bar e, ao vê-lo bebendo, perguntou:
- Roberto, o que está fazendo aqui?
Ele, que ia pegar o copo, ao ouvir Selma voltou-se e respondeu:
- O que acha que estou fazendo, Selma?
Estou bebendo, porque é só isso que me resta fazer.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:25 pm

Selma olhou para Euclides e disse:
- Senhor Euclides, vamos nos sentar lá fora.
Por favor, sirva-nos dois refrigerantes.
Euclides sorriu, largou o copo sobre o balcão e foi pegar os refrigerantes.
Selma conduziu Roberto até uma mesa, dentre as várias que existiam do lado de fora, e fez com que ele se sentasse.
Euclides se aproximou, abriu as garrafas e despejou o líquido em dois copos.
Depois se afastou.
Roberto começou a chorar e a dizer:
- Sou inocente e não consigo provar, Selma!
- Sei disso.
- Sabe, como?
- Estamos casados há muito tempo e nunca tive queixa alguma a seu respeito.
Você sempre foi um óptimo marido e um pai carinhoso.
Ontem, eu estava nervosa e disse uma porção de coisas.
Quando Carlos chegou e não te encontrou em casa, saiu à sua procura mas não o encontrou.
Onde você passou a noite?
- Na casa do padre Victor.
Ele foi o único que me acolheu.
- Foi por isso que Carlos não o encontrou.
Quando voltou para casa e, ao me ver desesperada, conversou muito comigo.
Embora ainda seja uma criança, falou como gente grande e me fez lembrar os anos de felicidade que vivemos e também me fez acreditar que você não poderia ter feito algo como aquilo.
Por isso, agora, eu estava indo para o seu trabalho para conversarmos e dizer que você pode voltar para casa.
Não imaginei que o encontraria aqui e bebendo, Roberto.
- Sei que está errado, mas estou desesperado e não sabia o que fazer.
Não adiantaria você ir para o meu trabalho.
- Por quê?
- Hoje pela manhã, quando cheguei, o doutor Tavares me demitiu.
- Demitiu? Por quê?
- Ele disse que sua esposa não quer que eu continue trabalhando na empresa pois ela não aceita traição.
Não tenho como provar, mas não traí você, Selma!
Como vamos viver sem meu trabalho?
- Fique calmo, vamos encontrar uma solução.
Temos algum dinheiro guardado, o que vai fazer com que pelo menos por alguns meses possamos seguir a nossa vida.
A verdade vai aparecer e tudo vai ser esclarecido e resolvido.
- Está difícil, Selma!
Depois que saí da empresa fui procurar Margarete, porque ela é a única pessoa que pode me inocentar.
Mas quando cheguei na sua casa, a tia dela me falou que Margarete, ontem, pela manhã, disse que precisava ir embora e foi.
- Porque ela foi embora dessa maneira?
- Não sei, a tia dela também não sabe.
- Isso é muito estranho, Roberto.
- Também achei, mas não tenho como encontrá-la.
- Tudo isso vai ser esclarecido.
Agora, vamos pra casa e lá pensaremos em uma maneira de esclarecer tudo isso.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:26 pm

- Não vamos conseguir, Selma.
- Talvez não agora, mas com o tempo conseguiremos.
Agora não adianta ficarmos aqui.
Vamos embora e, juntos, eu, você e Carlos, vamos encontrar uma saída.
Terminaram de beber o refrigerante, levantaram-se e, abraçados, saíram do bar.
Euclides, ao vê-los sair juntos, sorriu e pensou:
Ainda bem que ela chegou na hora certa.
Eles formam uma família linda, não podem se separar.
Sinto que ele é inocente.
O vulto de mulher, agora nervosa, e que havia ficado o tempo todo ao lado de Roberto, tentou se aproximar mas não conseguiu porque o amor dos dois criou uma névoa branca que os envolveu totalmente.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:26 pm

O pior acontece
Caminhando abraçados, chegaram à rua onde moravam.
Assim que dobraram a esquina, viram que diante da casa estava uma viatura da polícia.
Assustados, apressaram o passo.
Ao chegar, encontraram Marília ao lado de três policiais.
Ela chorava muito.
Assustada, Selma perguntou:
- O que aconteceu, Marília?
O que está fazendo aqui com esses policiais?
- Juro que não consigo acreditar, Selma, mas este policial, logo pela manhã, foi ao orfanato e disse que o delegado recebeu um telefonema anónimo dizendo que você havia roubado o dinheiro do orfanato que estava na minha gaveta e que está aqui na sua casa.
Não acreditei e fiquei muito nervosa.
Fomos até o meu escritório, abri a gaveta e o dinheiro não estava ali.
O delegado fez com que eu viesse até aqui com estes policiais para que eles pudessem procurar o dinheiro.
Selma, nervosa, quase não conseguia falar.
Depois, chorando, perguntou:
- O que você está dizendo. Marília?
Você me conhece, sabe o quanto trabalhei pelo orfanato e que jamais faria qualquer coisa para prejudicá-lo.
- Eu disse isso ao delegado, mas ele respondeu que diante da acusação é obrigado a revistar sua casa.
Eu disse que sou a única pessoa que tem a chave da gaveta, mas ele disse que diante de uma denúncia é obrigado a investigar.
Eduardo teve de concordar com ele e autorizou.
Podemos entrar na sua casa para que esses policiais procurem pelo dinheiro?
- Claro que podem, Marília.
Não tenho coisa alguma a esconder.
Eu jamais faria isso!
Com sua chave, Selma abriu a porta e entraram na casa.
Os policiais começaram a revirar a casa toda.
Roberto, calado, ficou com o braço sobre o ombro de Selma, dando a ela segurança, afeição e amor.
Depois de procurar por todos os lugares da sala e do quarto do casal, foram para o quarto de Carlos e, embaixo do colchão, encontraram a caixa.
Abriram e lá estava uma quantidade enorme de dinheiro.
Selma olhou para Roberto que, assim como ela, estava surpreso.
Ela, chorando, olhou para Marília e disse:
- Não pode ser, Marília!
Eu não peguei esse dinheiro!
Marília, diante do que viu, só pôde dizer:
- Juro que em momento algum julguei que você poderia fazer algo assim, mas, diante do que estou vendo, só posso acreditar que fez.
Como pôde ter feito isso, Selma?
Eu sempre confiei em você!
- Eu não fiz, Marília!
Não sei como esse dinheiro apareceu aqui em casa, mas não fui eu quem trouxe!
Nervosa, Marília, chorando muito, ia se afastar, quando Péricles e Zenaide se aproximaram e, com as mãos, jogaram luzes sobre ela.
No mesmo instante, Marília, que já estava indo embora, voltou-se e disse:
- Sinto muito, Selma, mas evidências não deixam dúvidas.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:26 pm

Embora me custe, não consigo deixar de acreditar no que estou vendo.
Jamais poderia imaginar que você seria capaz de fazer uma coisa como essa.
Estive ao seu lado durante muito tempo e sei o quanto trabalhou pelo orfanato e pelas crianças.
Sinto muito.
Selma, chorando ainda mais, disse:
- Está bem, Marília.
Eu e Roberto vamos conseguir provar a nossa inocência.
- Espero que consigam.
Dizendo isso, Marília se afastou.
Selma ficou ali ainda não conseguindo entender o que havia acontecido.
Olhou para Roberto e, chorando, disse:
- Eu não fiz isso, Roberto.
Juro que não fiz.
- Sei disso.
Não entendo o que está acontecendo, mas acho que estamos sendo colocados em uma situação da qual não temos como nos defender.
Selma não sabia o que dizer ou falar, somente chorava.
- Um dos policiais se aproximou, dizendo:
- Sinto muito, mas a senhora precisa me acompanhar até a delegacia para conversar com o delegado.
- Eu não fiz coisa alguma!
Não roubei o dinheiro!
- Até acredito no que está dizendo, mas é preciso que vá até a delegacia.
- Minha esposa vai.
Ela não tem coisa alguma a esconder.
Vamos, Selma, vou com você.
Abraçados, caminharam ao lado dos policiais.
Precisavam percorrer quatro quarteirões até chegar à delegacia.
Selma escondia o rosto no ombro de Roberto que ao ver o que ela fazia, nervoso, disse:
- Levante a cabeça, Selma.
Você nada fez de errado.
- As pessoas estão olhando, Roberto.
- Isso não deve incomodar você, Selma.
Eu e você sabemos que somos inocentes e que nada fizemos para nos esconder.
Não foi você quem me disse que tudo ia ficar bem?
Pois acredito que vai, mesmo!
Péricles olhou para Zenaide e disse:
- Para Marília está sendo muito difícil, Zenaide.
Ela está tão magoada e triste que não aceita a minha intuição.
Vamos esperar que, com o tempo, ela mude de ideia e ajude sua grande amiga.
- Verdade, Péricles.
Precisamos estar ao lado deles para que continuem a sua vida em paz.
Nesse momento, outra entidade se aproximou.
Assim que o viu, sorriram.
- Seja bem-vindo, Mário Augusto.
Neste momento, precisamos tentar fazer com que eles encontrem o caminho da verdade.
Dívidas de muito tempo estão se confrontando, e é preciso que elas cheguem ao fim agora, pois, se isso não acontecer, poderão criar mais dívidas para o futuro.
Sabemos que a solução é de difícil conclusão, porém pode ser feita. - Péricles disse com muita emoção.
- Para isso estou aqui, Péricles.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:26 pm

Agora, precisamos envolvê-los com muita luz para afastarmos essas energias ruins que estão se aproximando em maior número.
No momento certo, tudo vai se resolver, mas precisamos permanecer ao lado deles.
Imediatamente, todos estenderam os braços em direcção aos dois.
No mesmo instante, Selma, que continuava chorando, parou de chorar, levantou a cabeça e caminhou firme ao lado de Roberto e dos policiais.
Assim que passavam pelas pessoas que se aglomeraram nas ruas, percebiam que elas riam ou cochichavam umas com as outras.
Chegaram à delegacia.
O delegado os recebeu com educação, mas sem deixar de demonstrar que estava chocado com o que havia acontecido.
Com a mão, mostrou duas cadeiras que estavam em frente à sua mesa e disse:
- Por conhecer os senhores, já que somos amigos do juiz Eduardo e sua esposa, nunca imaginei que um dia eu os teria sentados à minha frente como estão neste momento.
Nunca imaginei que a senhora, dona Selma, seria capaz de fazer algo como isto de que está sendo acusada.
E jamais pensaria que o senhor pudesse fazer o que fez com aquela moça que, por não ter feito queixa alguma, não me permite que o senhor seja investigado e preso.
Esta situação é, para mim, muito difícil.
O que a senhora tem para me dizer sobre essa acusação?
O que aconteceu, dona Selma?
- Eu não sei o que aconteceu nem como esse dinheiro foi parar na minha casa.
- Dona Marília é a única pessoa que tem a chave da gaveta, e não acredito que ela teria feito uma coisa como essa.
Ela é de família rica, casada com um juiz, não precisa de dinheiro e jamais faria algo assim.
Ela fundou o orfanato, deu sua casa para que ali pudesse receber várias crianças.
A senhora, ao contrário, vive do trabalho de seu marido e não tem posses.
A senhora, sim, precisa de dinheiro.
- Claro que Marília não faria isso, assim como eu também não faria.
Eu não fiz isso, delegado.
Trabalhei muito com as meninas para que a exposição fosse um sucesso e, com o dinheiro arrecadado, pudéssemos construir uma nova ala para atender mais crianças.
Eu jamais faria isso.
Não precisamos de mais dinheiro do que temos.
Com o salário do meu marido, vivemos muito bem, não com luxo, mas nada nos falta.
Sempre achei que poderia viver com pouco, mas com tranquilidade, e essa tranquilidade tínhamos até ontem.
Não entendo o que está acontecendo.
- Chego até a acreditar no que a senhora está dizendo, mas diante dos factos a senhora terá de ficar aqui até que tudo seja esclarecido.
- O senhor vai me prender?
- Não tenho alternativa.
O dinheiro foi encontrado na sua casa.
- Eu não fiz isso!
Por favor, não me prenda.
- Minha esposa é inocente, delegado!
- Talvez seja, mas eu preciso cumprir a lei.
Ela vai precisar ficar aqui até que tudo se esclareça.
Só não entendo uma coisa.
- O quê, delegado?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:27 pm

- Como a senhora conseguiu a chave da gaveta?
- Não posso responder a essa pergunta, simplesmente porque não peguei a chave!
- Está bem. Quero acreditar na senhora, por isso preciso investigar.
Também quero que o senhor investigue e descubra o culpado para que possamos voltar para nossa casa. - Selma disse, ainda chorando.
- Entendo o que está sentindo, senhora, mas neste momento a única coisa que podem fazer é contratar um advogado e conseguir um habeas corpus com o juiz Eduardo, mas duvido que isso seja possível, afinal foi sua esposa quem foi roubada.
- Roberto, vá conversar com Marília.
Peça que ela venha até aqui!
Sei que ela saiu daqui muito nervosa, mas ela me conhece, não pode acreditar que eu teria coragem de roubar o orfanato!
Vá até lá, vá.
- Está bem. Vou falar com ela.
Fique calma.
Vamos conseguir provar a sua inocência.
Em seguida, beijou o rosto da esposa e saiu apressado.
Assim que ele saiu, a pedido do delegado, um soldado levou Selma para uma cela que ficava nos fundos da delegacia.
A cidade era pequena, por isso quase não havia ocorrência policial e, por esse motivo, a cela estava vazia.
Assim que se viu sozinha, Selma olhou à sua volta e continuou chorando.
Sentou-se sobre a cama feita de cimento, com um colchão de palha, e pensou:
Meu Deus do céu, como pude chegar a este lugar?
Minha vida estava tão boa e, em poucas horas, se transformou nessa loucura.
Quem pegou o dinheiro e por que me envolveram nessa história toda?
Mário Augusto, que estava ao seu lado, estendeu as mãos sobre ela e enviando-lhe uma luz branca disse:
- Tudo acontece como tem de acontecer, Selma.
A hora de acertar contas sempre chega, mas fique calma.
Tudo vai acontecer como tem de ser.
A verdade sempre aparece.
Sem imaginar que ele estivesse ali, Selma sentiu-se muito bem, parou de chorar e deitou-se sobre a cama e o colchão de palha.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:27 pm

Desespero total
Roberto chegou ao orfanato.
Marília, ainda confusa e se recusando a acreditar que Selma havia roubado o dinheiro pelo qual havia trabalhado tanto, o recebeu.
- O que você quer aqui, Roberto?
- Marília, Selma ainda está presa.
Você sabe que ela não pegou o dinheiro.
- Não sei o que pensar, Roberto.
A única coisa que sei é que o dinheiro foi encontrado na sua casa.
Guardei o dinheiro e tranquei a gaveta.
Só eu tenho a chave.
Selma sempre teve acesso a qualquer lugar aqui no orfanato.
O que espera que eu pense ou faça?
- Selma não fez isso, Marília!
Ela estava entusiasmada com a exposição e com a possibilidade de vocês poderem fazer mais uma ala aqui no orfanato.
- Também acreditei nisso, Roberto.
Ela é a minha melhor amiga.
- Ela é inocente e pediu que você fosse até a delegacia para que pudessem conversar.
Somente o seu marido poderá ajudá-la a sair de lá para que possa provar sua inocência.
- Não vou até lá e não posso me intrometer no trabalho de Eduardo.
Contrate um advogado e, se ela for inocente, a verdade vai surgir.
- Precisa acreditar em Selma, Marília!
- Como quer que eu faça isso?
Ela roubou o dinheiro do orfanato, Roberto!
- Ela não fez isso, Marília!
- Assim como você não fez aquilo com aquela moça?
- Claro que não fiz aquilo!
Não sei como aquelas fotos foram tiradas.
Não estou entendendo o motivo de tudo isso estar acontecendo.
- Eu também, além de não entender, por mais que tente não consigo acreditar na inocência de vocês.
- Precisamos de ajuda, Marília.
Eu e Selma não temos parentes e também não temos dinheiro para contratar um advogado.
Sabe que do meu salário não sobra quase nada.
Não sei o que fazer.
- Deveriam ter pensado nisso antes de cometerem esses crimes.
- Por favor, Marília.
- Desculpe-me, Roberto.
Não tenho como ajudar.
Agora, acho que deve ir embora, pois está perdendo seu tempo aqui comigo.
Roberto, vendo que não conseguiria ajuda, começou a se afastar, quando Marília disse:
- Selma tem uma amiga que é muito rica, procure por ela, talvez ajude.
- Que amiga?
- Selma não contou a você?
Seu nome é Flora e é muito rica.
- Não, Selma nunca me falou a respeito dessa amiga.
- Por que será que ela nunca falou sobre isso, Roberto?
- Não sei, mas vou agora mesmo na delegacia conversar com Selma.
Dizendo isso e intrigado, ele foi para a delegacia e, assim que chegou, o delegado o recebeu com o olhar raivoso e, ríspido, disse:
- Ainda bem que chegou, senhor Roberto.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:27 pm

Estava esperando que chegasse, e se demorasse muito eu ia pedir ao soldado Raimundo que fosse procurar pelo senhor.
- Como assim?
Não estou entendendo.
Por que está falando comigo dessa maneira, delegado?
Procurar por mim, por quê?
O senhor me parece tão nervoso.
- Estou muito nervoso, sim!
Este senhor chama-se Octaviano, ele é o pai da Margarete, aquela moça que o senhor desonrou.
Ele está aqui e prestou queixa.
Por isso, diante das fotografias e de tudo o que ele disse, só me resta prendê-lo.
Ela é menor de idade.
- Vai me prender?
O senhor não pode fazer isso!
Não fiz coisa alguma com aquela moça, ela está mentindo!
- Mentindo? Por que faria isso?
- Não sei o motivo, mas ela fez e inventou tudo isso!
- As fotografias também foram invenção?
Como pode ser?
O senhor nunca pensou que seria pego, mas foi e agora vai ficar aqui até que seja julgado!
- Não posso ser preso!
Selma já está presa e nós temos um filho que não pode ficar sozinho!
- Margarete é minha filha e me contou, em detalhes, o que o senhor fez com ela!
Vai ter de pagar pelo seu crime!
Não sabia que ela é menor de idade?
Claro que sabia, mas o senhor é um doente e merece ficar na cadeia pelo resto da sua vida!
- Eu não fiz coisa alguma com sua filha, senhor!
Isso tudo é um grande engano!
Ela não pode ter dito que eu fiz alguma coisa!
- Ela disse que o senhor a ameaçou e que se contasse alguma coisa o senhor a mataria!
Por isso ela fugiu ontem pela manhã!
O senhor tem sorte de eu ser um homem de bem, se não eu o mataria!
Não foi para isso que criei minha filha com tanto carinho!
- Está tudo errado, não sei como provar, mas não fiz coisa alguma com sua filha!
Não entendo o porquê de ela ter inventado uma história como essa!
Ao ouvir aquilo, Octaviano, com os punhos fechados, caminhou em sua direcção, mas foi impedido pelo delegado que falou:
- Não faça isso, senhor Octaviano.
Ele está aqui e vai ficar preso por muito tempo.
Já tenho seu endereço, por isso pode voltar para sua cidade e, quando chegar a hora do julgamento, o senhor receberá um telegrama e poderá voltar para assistir.
- Eu não posso ir embora assim, delegado!
- Não pode, por quê?
- Minha filha está grávida e disse que ele é o pai!
Roberto se desesperou:
- Eu? Ela está mentindo!
Nunca, em momento algum, eu toquei na sua filha!
- Como pode dizer isso?
Ela nunca teve namorado na vida!
Roberto colocou a mão sobre o rosto e gritou:
- Isso não pode estar acontecendo!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:27 pm

Devo estar sonhando!
Até ontem pela manhã, tudo estava bem em minha casa e na minha vida, agora toda essa confusão!
Como isso pode acontecer e por quê?
- O senhor não está sonhando, não!
Está acontecendo, e para pensar melhor no que fez vai para a cela agora mesmo!
Sugiro, novamente, que contrate um advogado, só que agora será para defender o senhor e sua mulher!
- Não conheço advogado algum e, também, não tenho dinheiro.
- Esse problema é só seu.
Cabo Orestes, pode levar o preso para a cela.
O policial se aproximou e, segurando Roberto pelo braço, o conduziu até os fundos da delegacia e para a cela.
Antes de acompanhar o soldado, Roberto, desesperado, disse:
- Por favor, delegado, não me prenda!
Meu filho está na escola e não sabe o que está acontecendo!
Ele não pode ficar sozinho!
- Devia ter pensado nele antes de fazer o que fez.
Mas não se preocupe, se não tiver um familiar para cuidar dele, vai para o orfanato.
Isto é, se a dona Marília aceitar que ele fique lá; caso ela não aceite, teremos de mandá-lo para outra cidade.
- Não podem fazer isso!
Ele está na escola e é um óptimo aluno!
- Nada mais temos que conversar.
Vou entrar em contacto com o advogado Josias.
Impotente, Roberto acompanhou o policial e foi para a cela.
Assim que entrou no corredor, Selma viu que ele chegava e, alegre, perguntou:
- Conseguiu me libertar, Roberto?
Antes que Roberto respondesse, o policial abriu a cela ao lado da dela e fez com que Roberto entrasse.
Selma, inconformada, perguntou:
- O que está acontecendo, Roberto?
Por que está sendo preso?
Ele se aproximou da grade e, pegando a mão dela, chorando, disse:
- Nossa vida está uma loucura, Selma!
Não entendo o que está acontecendo nem por quê!
Contou a ela o que havia acontecido.
Ela o ouviu em silêncio.
Quando ele terminou de falar, chorando e desesperada, perguntou:
O que vai acontecer com Carlos?
- O delegado disse que se não tivermos parentes ele vai ser enviado a um orfanato, e se Marília não o aceitar, irá para outra cidade.
- Carlos não vai entender e vai ficar desesperado, Roberto!
- Sei disso, mas também não sei o que fazer.
Não entendo o motivo daquela moça ter inventado uma mentira como essa, Selma!
Juro a você que nunca toquei em um fio de cabelo dela.
Tudo aconteceu como eu contei!
Ela provocou aquela situação e eu não consegui evitar.
- Depois de ter sido incriminada, não posso deixar de acreditar em você, Roberto.
Precisamos falar com Marília para que aceite Carlos no orfanato.
Embora seja só para meninas, ela, se quiser, poderá abrigá-lo.
Ele não pode ser enviado para outra cidade.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:27 pm

Aqui ele tem a escola, os amigos.
O que vai acontecer com ele se, perder tudo o mais que ama?
- Não adianta pensarmos em Marília.
Fui lá para conversarmos mas ela quase não quis me ouvir.
Está muito nervosa e revoltada, não vai nos ajudar.
- Não entendo como ela, apesar de me conhecer tão bem, tenha acreditado que eu seria capaz de roubar o orfanato.
- As provas contra você são muitas, Selma.
Só não entendo o motivo de tudo isso estar acontecendo.
Quem planeou tudo isso e quem telefonou dizendo que você estava com o dinheiro?
- Eu também não e não consigo acreditar nisso que está acontecendo.
- Não sei como nem o motivo, mas está acontecendo.
Só estou preocupado com Carlos.
O que vamos fazer?
Não temos sequer um familiar para pedirmos que cuide dele.
Selma ficou olhando para o horizonte e ia dizer alguma coisa quando Carlos, desesperado e acompanhado pelo mesmo policial, entrou no corredor chorando.
Chegou junto às duas celas e perguntou:
- O que aconteceu?
O delegado me disse que vão ficar presos e que eu vou para um orfanato!
Não pode ser!
Papai, mamãe, não quero ir para um orfanato!
Tenho minha casa e tenho pais, não sou órfão!
Não deixem isso acontecer.
Agora, Carlos chorava desesperadamente.
- Infelizmente, filho, nada podemos fazer, estamos presos.
Não temos família que possa nos ajudar.
Carlos, ao ouvir o que o pai disse, não conseguiu parar de chorar e, mais desesperado ainda, disse:
- Eu não quero ir para o orfanato! Não quero!
Ao ver o desespero do filho, Selma, também chorando, disse:
- Você não vai para o orfanato, não precisa.
Tem família, sim.
Roberto e Carlos, admirados, olharam para ela.
Ele perguntou:
- O que está dizendo, Selma?
Ela, parando de chorar, com o rosto ríspido, respondeu:
- Desculpe-me, Roberto, deixei de contar a você como foi a minha vida antes de nos conhecermos.
- Ainda não estou entendendo.
Selma não respondeu, apenas olhou para o policial que estava ali e presenciava toda aquela cena:
- Por favor, diga ao delegado que preciso telefonar e que é urgente.
O policial, também curioso e intrigado, saiu dali e foi falar com o delegado.
Assim que ele saiu, Selma, beijando a mão de Carlos, que estava junto à grade, voltando a chorar, falou:
- Não se preocupe, meu filho.
Existe alguém que, se quiser, poderá cuidar de você e nos ajudar a sair.
Estou fazendo algo que nunca pensei que, um dia, faria.
- O que significa isso, Selma?
Quem é essa pessoa?
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:28 pm

- Depois que eu falar com ela, vou contar tudo a vocês.
- Nunca pensei que você tivesse segredos, Selma.
- Agora vejo que foi um erro, mas, na época em que nos conhecemos, achei que seria o melhor.
- Vai falar com Flora, sua amiga?
- Flora? O que sabe sobre ela?
- Nada. Apenas que é muito rica e sua amiga.
- Como soube isso?
- Foi Marília quem me contou.
Por que não me disse que tinha uma amiga e que era rica?
- Porque nunca achei que isso fosse importante e, também, por ela fazer parte do meu passado, que eu queria esquecer.
Assim que eu der um telefonema, volto aqui e conto tudo o que quiserem saber.
Agora, não há mais por que eu esconder qualquer coisa.
O policial voltou e, enquanto abria a cela, disse:
- O delegado disse que a senhora vai poder telefonar da sala dele.
- Obrigada.
Sorrindo com tristeza, olhou para eles e acompanhou o policial.
Pai e filho, com os olhos, a acompanharam até que desaparecesse no fim do corredor.
Assim que entrou na sala do delegado, ele, apontando um telefone que estava sobre sua escrivaninha, disse:
- Pode usar o telefone; porém, preciso ficar aqui.
Ela, tentando sorrir, disse:
- Pode ficar.
Agora, nada mais importa nem há nada a esconder.
Selma pegou o telefone e, tremendo muito, discou um número.
Do outro lado, uma voz de mulher atendeu:
-Alô!
- Sou eu, Selma.
-Selma! Meu Deus do céu!
Tenho procurado você por tanto tempo!
Onde você está?
- Estou morando em uma cidade a pouco mais de cem quilómetros da senhora.
-Tão perto e não a encontrei!
Por que foi embora daquela maneira, minha filha?
Durante todos esses anos, estou procurando por você e sofrendo muito!
- Perdão, mãe.
Hoje entendo que agi mal, que não devia ter feito o que fiz.
Mas com isso também aprendi muito!
-Estou muito feliz e aliviada por ter telefonado!
- Mãe, estou casada e tenho um filho de treze anos.
Ele e eu estamos precisando da senhora e de sua ajuda.
-Um filho, Selma?
Como pôde deixar de me avisar que eu tenho um neto?
- Perdão, mãe, mas eu queria deixar o passado para trás.
-Até agora, não entendi o porquê de você ter feito o que fez e o que precisa deixar para trás.
- Perdão, mãe.
Logo teremos tempo para conversar e, assim, poderei contar o motivo de eu ter saído de casa e ter vindo para cá.
Porém, agora preciso de sua ajuda.
Eu e meu marido estamos presos e, se não encontrarmos algum familiar para ficar com nosso filho, ele irá para um orfanato e isso nem ele nem nós queremos.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:28 pm

Ele é um bom menino e não merece isso.
-Presa, Selma?
O que você fez?
- Nada, mãe.
Eu e meu marido não fizemos coisa alguma.
Fomos envolvidos em um trama terrível e precisamos da sua ajuda.
-Estou feliz que tenha telefonado, mas não posso acreditar que alguém esteja preso sem motivo algum.
Para os dois estarem presos devem ter feito algo muito sério.
- Está bem, mamãe.
Agora, não tenho tempo para contar para a senhora tudo o que aconteceu.
Só preciso saber se a senhora pode vir até aqui e nos ajudar.
- Claro que vou.
Você é minha única filha e tive bastante tempo para entender tudo o que aconteceu.
Além do mais, um neto meu jamais irá para um orfanato!
Passe o endereço.
Vou anotar e estarei aí o mais rápido possível.
- Obrigada, mãe.
Após passar o endereço, Selma olhou para o delegado que, surpreso pelo que tinha ouvido, perguntou:
- Está tudo bem?
- Está, delegado.
Agora, tudo vai ficar bem.
Como o senhor ouviu, minha mãe está vindo para cá e vai cuidar do meu filho.
Por favor, permita que ele fique comigo e com meu marido até que ela chegue.
Tenho uma longa história para contar aos dois.
- Está bem. Ele pode ficar por hoje.
Mas, se ela não chegar até as seis horas da tarde, serei obrigado a enviá-lo para o orfanato.
- Ela virá, delegado. Ela virá.
Olhou para o policial que também estava ali:
- Agora, já posso voltar para a cela.
O senhor me acompanha?
O policial, desconcertado com aquela atitude, sorriu e, com a mão, apontou o caminho que deveria seguir.
Estavam saindo, quando Selma voltou-se e disse:
- Delegado, como eu disse, tenho uma longa história para contar ao meu marido e ao meu filho.
Ele está do lado de fora da cela, será que o senhor permitiria que ele entrasse comigo na cela para que pudesse se sentar e, assim, ouvir a história que preciso contar?
O delegado pensou por alguns segundos:
- Está bem.
Já que a senhora disse que sua mãe vai chegar e ficar responsável por ele, não vejo inconveniente algum.
Olhando para o policial, continuou:
- Pode deixar que o menino entre na cela.
Assim que saíram, Mário Augusto, que esteve ali o tempo todo e que agora estava acompanhado de outra entidade de mulher, disse:
- Alguns momentos difíceis precisam acontecer, não é?
A outra entidade de mulher, sorrindo, respondeu:
- É verdade, Mário Augusto.
Na maioria das vezes, esses momentos nos obrigam a tomar uma atitude da qual temos medo ou queremos evitar, mas que precisam acontecer para que possamos continuar a nossa caminhada, pois, se não fizermos o que precisamos fazer, essa caminhada poderá se tornar bem mais difícil do que o necessário.
- O medo e o apego, não só de coisas, mas principalmente o apego a pessoas, podem nos prejudicar muito.
Agora, vamos ver o que Selma vai contar.
Vamos acompanhar o seu momento de libertação.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 28, 2017 7:28 pm

Selma conta sua história
Selma, ao chegar ao corredor que levava às celas, viu que Carlos estava sentado no chão, do lado de fora da cela, segurando a mão do pai, que também estava sentado, só que do lado de dentro.
Assim que ele viu Selma, levantou-se e foi ao seu encontro.
Ela, abraçando-o, disse:
- Você não vai precisar ir para o orfanato.
Sua avó está vindo para ficar com você.
- Avó? O que significa isso, Selma?
- Significa que tenho mãe e que ela está vindo para cá.
Ela pode nos ajudar a conseguir um bom advogado lá da Capital e vai ficar responsável pelo Carlos.
Está tudo bem, Roberto.
- Como está tudo bem?
Você me enganou durante todo esse tempo!
Sempre disse que não tinha família!
- Eu não o enganei, apenas omiti o meu passado.
Hoje entendo que não devia ter feito isso, mas na época me pareceu ser o melhor a fazer.
Porém, agora, a vida está me obrigando a contar a vocês tudo o que aconteceu para que eu tivesse omitido essa parte da minha vida.
O policial abriu a cela.
Selma, ainda abraçada ao filho, disse:
- Entre, filho.
Você vai ficar ao nosso lado até que minha mãe chegue, e vou aproveitar para contar tudo o que me aconteceu e quem eu era antes de vir para esta cidade, conhecer você, Roberto, nos casarmos e termos esse filho maravilhoso.
Intrigado, Carlos acompanhou a mãe e sentou-se ao seu lado.
Roberto levantou-se e também sentou-se em sua cama.
Assim que se sentaram e o policial se retirou, Selma começou a falar:
- Nasci em uma família rica e tradicional.
Meu pai, avô e bisavô foram diplomatas.
Meu irmão, quatro anos mais velho do que eu, assim que nasceu já estava destinado a ser diplomata também.
Eu, sendo mulher, teria pouca chance para seguir carreira, por isso meus pais resolveram que, como até hoje ainda acontece com as mulheres, me criariam e me preparariam para ser esposa de um diplomata ou político e, para que isso acontecesse, teria de ter uma óptima formação.
- A senhora era rica, mamãe?
- Sim, meu filho. Muito rica.
Tão rica que você nem pode imaginar.
Ela disse rindo e continuou:
- Sendo assim, eu e meu irmão sempre tivemos professores que iam a nossa casa para nos ensinar vários idiomas.
Aprendemos a falar e a escrever, fluentemente, inglês, espanhol, italiano, francês e alemão.
- A senhora fala todos esses idiomas?
Como conseguiram?
- Falo, filho, mas o único que preciso é o nosso, pois é com ele que consigo falar com você e seu pai, que são as únicas pessoas com quem quero conversar.
- Como conseguiu aprender a falar tantos idiomas?
Eu tenho muita dificuldade com o inglês.
- Criança aprende tudo, Carlos.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:47 pm

Quando aprendi a falar, meu irmão já tinha professores desses idiomas e que conversavam com ele.
Eu também fui aprendendo com eles e nem percebi a diferença.
Para mim, era normal e engraçado falar em várias línguas.
Além dos idiomas, precisávamos aprender também a nos vestir, a nos comportar à mesa e em todos os lugares.
Meus pais queriam que a nossa educação fosse esmerada.
Para isso, contratavam os melhores professores e professoras que existiam.
Meus pais tinham uma vida social bem intensa e, por isso, quase não os víamos.
Desde pequenos tivemos uma babá que cuidava de nós com muito carinho.
A minha chamava-se Etelvina.
Roberto, curioso, perguntou:
- Etelvina?
- Sim, Roberto, Etelvina.
Disse sorrindo e continuou:
- Um dia, quando comecei a entender e vi que era negra, perguntei:
-Por que sua mão e seu rosto são diferentes dos meus?
- Foi Deus quem criou a gente.
Ele criou cada pessoa de um jeito.
Tem aquelas que têm cabelos claros, outras escuros.
Umas são altas e outras são baixas; tem gente que é branca, assim como você, e tem gente que é negra, assim como eu.
Tem ainda os índios, que são vermelhos, e os asiáticos, que são amarelos.
Embora sejamos diferentes na cor, somos muito amados por Ele.
Assim como eu amo você?
- Ela me abraçou e, hoje sei que estava emocionada, respondeu:
-Assim mesmo, minha menina, igual eu amo você.
Quando existe amor, a cor não tem importância alguma.
- Realmente, para mim, não tinha importância.
Eu amava aquela mulher.
Quando fiz sete anos, já falava fluentemente todos os idiomas, e chegou a hora de aprender a escrever.
Meu irmão já tinha professores desses idiomas e eles começaram a me ensinar também.
Novamente, percebi que as palavras que eu conhecia também eram escritas de maneiras diferentes, mas não tive problema algum.
Enquanto eu estava estudando, Etelvina cuidava das minhas roupas e da minha comida.
Tudo ia bem e eu estava feliz.
- Eu queria ter essa facilidade para aprender.
- Você está aprendendo, Carlos, na hora e no tempo certo. - Selma disse, sorrindo, e continuou:
- Etelvina cuidava de mim com muito carinho, contava histórias e, como meus pais quase nunca estavam em casa, era ela quem me colocava para dormir, sempre contando histórias e cantando alguma música.
Ela falava sobre castelos, príncipes e princesas e sempre terminava dizendo:
-Você é uma linda princesa e vai ser muito feliz.
- Minha mãe era ausente, ficava quase o tempo todo fora participando de compromissos sociais e, quando estava em casa, estava sempre com costureiras ou cabeleireiras.
Ela não tomava parte de nossa vida.
Meu pai, por causa do seu trabalho, viajava muito e, quando estava em casa, ficava no seu escritório sempre envolvido com livros.
Minha mãe era quem cuidava da nossa educação.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:47 pm

Em uma noite, quando Etelvina estava sentada em uma poltrona que havia no meu quarto, e eu sentada em seu colo, ela disse:
-Hoje, vou contar uma história diferente para você, Selma.
Não vai ser sobre príncipes ou princesas, mas sim sobre alguém muito especial para todos nós.
-Conte, Etelvina!
- Ela sorriu e começou a contar:
-Havia uma criança que ia nascer para ser um rei.
Ele poderia nascer em um rico palácio, mas resolveu nascer em uma manjedoura.
-O que é manjedoura, Etelvina?
- É o lugar onde, nas fazendas, os animais comem.
- Por que ele quis nascer em um lugar como esse?
- Ele queria ensinar a todas as pessoas que, para a gente ser feliz, não precisa ter muito dinheiro.
Quis ensinar, também, que a Terra, esse mundão que Deus nos deu, tem tudo o que precisamos para viver.
Depois que ele nasceu na manjedoura, e durante sua vida, ele quis ensinar para todas as pessoas que uns devem ajudar os outros porque somos todos irmãos, não importando se somos ricos ou pobres.
- O que são pobres, Etelvina?
- Ela, rindo, ia responder, quando minha mãe entrou no quarto e, raivosa, disse:
-O que você está fazendo, Etelvina?
-Estou contando a história de Jesus para ela.
- Minha mãe ficou mais nervosa ainda e gritou:
-Selma, saia do colo dela e vá se deitar!
Etelvina, saia do quarto!
Depois vamos conversar!
- Assustada, pulei do colo de Etelvina, fui para minha cama e me cobri toda com o lençol.
Etelvina também saiu do quarto.
Assim que ela saiu, minha mãe se aproximou da cama, levantou o lençol que estava sobre meu rosto e muito nervosa quase gritou:
-O que estava fazendo no colo dessa mulher?
- Estava ouvindo a história que ela me contava. - Respondi, tremendo e assustada.
- Nunca mais, em sua vida, sente-se no colo dela e de ninguém igual a ela!
-Por que, mamãe?
-Você não viu que ela é diferente de você?
-Diferente como?
-Ela tem a pele negra, Selma!
-O que tem isso, mamãe?
Etelvina disse que todos nós fomos criados por Deus e que Ele ama a todos igualmente.
-Mentira, Selma!
Você acha que alguém feio como ela pode ser amada por Deus?
Isso os pobres e negros dizem para se sentirem melhor, mas não é verdade!
Deus criou somente a nós brancos que somos bonitos!
- O que é pobre, mamãe?
-São aquelas pessoas que Deus criou para nos servir, assim como Etelvina, apenas isso!
-Eu gosto dela, mamãe.
-Nunca mais repita isso, Selma!
Gente como ela serve apenas para preparar o seu banho, ajudar você a se vestir e pentear os seus cabelos, somente para isso!
Não pode ser sua amiga e você não pode gostar dela!
Pessoas como ela são sujas e podem transmitir doenças muito graves!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:47 pm

- Após dizer isso, ainda nervosa, ela saiu do quarto.
- Ela falou isso, mamãe?
- Falou, Carlos.
- O que ela disse não é verdade, mamãe!
Tenho muitos amigos que são pobres e nós também não somos ricos.
Quanto a negros, não tenho problema algum e nem poderia, não é?
Selma, rindo, respondeu:
- Claro que não, filho.
A cor da pele ou sua condição não deve nos importar, pois temos pessoas boas em qualquer condição, ricos, pobres ou negros.
Conheço seus amigos e também gosto muito deles, mas não pode se esquecer que eu tinha apenas sete anos e, por isso, era muito impressionável.
- A senhora acreditou no que ela disse?
- Acreditei mais ou menos, mas fiquei com medo de pegar uma doença.
- O que aconteceu depois?
- Com medo, comecei a me lembrar de todas as vezes em que estivera no colo de Etelvina e, por isso, demorei muito para dormir.
No dia seguinte, a babá do meu irmão entrou no meu quarto.
Ela também era negra.
Assustada, perguntei:
-Onde está Etelvina?
-Ela foi embora e, enquanto não vier outra babá, vou cuidar de você.
-Embora por quê?
-Não sei. Depois você pergunta para sua mãe.
- Eu não tinha muita intimidade para perguntar qualquer coisa a ela.
Sem entender o que havia acontecido, fui para o jardim e vi Josias, que lavava o carro, e me aproximei:
-Josias, você sabe por que Etelvina foi embora?
- Ele, com o pano que secava o carro nas mãos, me olhou nos olhos:
-Ela precisou ir, Selma.
-Foi para onde?
-Acho que foi para o interior, viver com sua família.
- Ela nunca me disse que tinha família.
- Tem, sim. Uma irmã e uma filha.
-Ela tem uma filha e não cuidava dela, só cuidava de mim?
- Ela não podia cuidar da filha.
Precisava do dinheiro que recebia da sua mãe para poder sustentar a filha.
-Eu não entendo isso.
Como uma mãe pode deixar de criar sua filha para cuidar de outra criança?
- É a vida, menina. é a vida.
- Saí dali e fiquei pensando em Etelvina, inconformada e sem entender como ela pôde deixar a filha e ter vindo cuidar de uma criança que não era dela.
Pensei nela por alguns dias, depois deixei de pensar.
Ela não voltou mais para casa.
Fiquei muito triste e não conseguia acreditar que aquilo que minha mãe havia dito fosse verdade.
Eu gostava tanto de Etelvina que não aceitava que ela fosse diferente de mim e nem me lembrava de que a cor dela era diferente da minha, mas, depois que soube que ela tinha uma filha, e que a tinha abandonado, tentei não pensar mais nela.
Meu irmão tinha um amigo, seu nome era José Luiz.
Tinham a mesma idade.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:47 pm

Eu só tinha, como amigas, duas meninas, Ariete e Flora, elas eram as únicas crianças que minha mãe permitia que frequentassem a nossa casa e nós a delas.
Eram as filhas de uma amiga sua da sociedade.
- O que é isso, mãe? Sociedade.
- Deveriam ser todas as pessoas que vivem aqui na Terra; mas, para alguns, são aquelas pessoas que têm dinheiro e poder.
Mas não vamos falar sobre isso porque é complicado.
Essa amiga era muito rica, somente por isso é que minha mãe estava sempre com ela.
- Entendi mais ou menos.
- Está bem, Carlos.
Agora, vou continuar:
- Continue. Estou ansioso para saber o resto da história e porque a senhora largou toda a riqueza e veio morar aqui.
Selma voltou:
-Ariete e Flora eram gémeas e tinham a mesma idade que eu, que nasci um dia antes delas.
Eu, meu irmão, elas e José Luiz sempre brincávamos juntos.
Elas também, assim como eu, eram muito ricas.
Achei que Flora e Ariete seriam minha amigas para sempre.
Assim como eu, elas também estavam sendo preparadas para se casar com homens ricos e de uma família que tivesse um nome respeitado, assim como a nossa.
Também falavam vários idiomas.
Nossa educação tinha sido praticamente a mesma.
Elas também tinham babás negras.
Naquele dia após o almoço, talvez para que eu não sentisse tanta falta de Etelvina, minha mãe mandou que o motorista me levasse à casa delas.
Meu irmão não pôde ir porque tinha aulas importantes, naquele dia.
Quando entrei no carro, estava feliz por poder ir brincar com minhas amigas, mas também estava triste e com saudade de Etelvina.
Assim que entrei, Josias perguntou:
-O que aconteceu com você, Selma?
Parece que está triste.
- Estou com saudade de Etelvina.
Queria muito saber onde ela está.
- Não fique triste.
Você é ainda muito pequena e não devia estar sofrendo por coisas como essa.
À medida que for crescendo, vai descobrir a verdade e o que interessa realmente.
Deus não criou filho algum diferente, ou melhor, do que outro.
Etelvina tem razão, somos todos filhos do mesmo Deus.
Você é uma criança linda e precisa somente brincar.
Agora, sorria, estamos quase chegando e você não vai querer que suas amigas vejam que você esteve chorando.
- Aliviada com o que ele disse, desci do carro e entrei na casa das minhas amigas.
Assim que entrei, contei para elas o que havia acontecido e o que minha mãe havia dito.
Quando terminei de falar, elas começaram a rir e Ariete disse:
-Você não sabia disso?
- Disso o que, Ariete?
- Que somos especiais?
Que nascemos para ser servidas?
- Não, eu não sabia.
- Minha mãe também sempre disse isso.
Ela disse que, como temos dinheiro, as outras pessoas que não têm precisam nos servir.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:48 pm

- Você acha que isso é verdade?
- Claro que acho, Selma!
Minha mãe disse que se Deus nos criou ricas é porque ele nos ama de modo diferente das pessoas que são pobres.
Ela disse que o dinheiro pode tudo e que por isso podemos comprar tudo e todos que quisermos!
Ao ouvir aquilo, Carlos disse:
- Pode mesmo, não é mamãe?
- Nem tudo, meu filho, nem tudo. - Selma respondeu, com o olhar perdido.
- Claro que pode, mamãe!
Quem tem dinheiro pode morar em uma casa grande, ter carro e roupas bonitas!
- Isso tudo pode sim, mas a paz de espírito e o amor não podem ser comprados.
O dinheiro é importante mas não pode servir para que as pessoa...
Selma olhou para Roberto, que desde que ela começou a contar sua história estava calado, e perguntou:
- Por que está tão calado, Roberto?
- Estou triste com tudo o que está acontecendo.
Estou me sentindo traído, pois sempre pensei que nosso casamento fosse sólido e que não havia segredos entre nós.
Não entendo o porquê de você ter me escondido tudo isso que está contando agora.
- Hoje entendo que você tem razão, mas quando cheguei a esta cidade estava desesperada e sem saber o que aconteceria com a minha vida.
Eu estava fugindo do passado e de tudo o que aconteceu e o que eu havia feito.
Tinha vergonha de tudo isso e quando conheci você senti que minha vida poderia mudar para melhor, e realmente mudou, até agora.
Hoje, vejo que não há como fugir do passado e da verdade.
Preciso que você me perdoe.
Talvez quando eu terminar de contar o que aconteceu, você consiga fazer isso.
Roberto nada disse, apenas olhou para ela demonstrando nos olhos toda a sua tristeza.
Ela, vendo que ele continuaria calado, continuou falando:
- Depois de ouvir o que Ariete falou e vendo que Flora concordava com ela, comecei a acreditar no que minha mãe disse e a achar que ela tinha razão.
Que eu havia nascido para ser servida, pois já que eu era bonita, branca e rica, era uma pessoa especial.
Daquele dia em diante, muitas babás foram contratadas, mas eu não consegui gostar de nenhuma delas e exigia que elas me servissem sempre mais.
Nunca conversava com elas e, quando queria alguma coisa, sempre falava com a voz ríspida.
Por isso, muitas foram embora.
Não suportavam o meu génio, minha falta de educação e minha prepotência.
Na realidade, eu não percebia que agia assim, somente depois, quando tudo aconteceu e vim para esta cidade, é que comecei a relembrar como tinha sido a minha infância.
Estou me lembrando de um dia em que estávamos brincando em minha casa, eu devia ter uns dez anos, quando Ariete, olhando para meu irmão, disse:
-Quando eu crescer, vou me casar com você.
- Ao ouvir aquilo, fiquei nervosa e gritei:
-Você não vai se casar com ele, Ariete!
Não vou deixar!
- Ela, rindo, disse:
-Claro que vou, Selma!
Sei disso desde que era pequena!
-Não vai não!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:48 pm

Meu irmão, rindo, pegou a mão dela, beijou, e olhando para mim disse:
-Vou me casar com ela, sim, Selma!
- Gritei:
-Não vai não! Não vai!
- Eles começaram a rir e eu saí correndo.
Fui para meu quarto e caí em prantos.
- Por que a senhora não queria que eles se casassem, mamãe?
- Não sei, acho que era por ciúmes.
Eu gostava muito do meu irmão e, por saber que Ariete estava interessada nele, não gostava dela.
Não me pergunte o motivo, porque não sei responder.
Até hoje não entendo o motivo de nunca ter gostado dela.
Desde que me lembro, sempre estivemos juntos, eu, ela, Flora e meu irmão.
A ideia de que ela pudesse se casar com ele me deixava furiosa.
Além disso, depois que Etelvina saiu da minha vida, me tornei uma pessoa diferente do que era.
Sem seus conselhos, suas palavras e ensinamentos, fui me tornando fútil e egoísta e agia como minha mãe.
Meu irmão e José Luiz foram para um colégio interno.
Fiquei muito nervosa e triste.
Meus pais disseram que aquilo precisava acontecer para que ele tivesse uma boa formação académica.
Lembro-me do dia em que ele foi embora.
Naquele dia, acordamos bem cedo, estávamos tomando café, quando meu pai disse para meu irmão:
-Hoje você vai começar uma nova vida, vai para o colégio.
Sabe que nasceu para ser alguém importante, por isso precisa se dedicar aos estudos.
-Por que eu preciso ser importante?
Eu não quero ir estudar nesse colégio.
Quero ser como qualquer outra pessoa e quero continuar aqui ao lado de Selma.
Vou sentir muita saudade de casa e da Selma.
- Meu pai, nervoso, disse:
-Nunca mais diga isso!
Você nasceu para ser alguém, não para ser igual a outro qualquer!
Devia agradecer por ter nascido nesta casa!
Você foi escolhido por Deus!
É um privilegiado!
-Também não quero que ele vá embora, papai.
Vou sentir muita saudade.
- Não chore, Selma.
Você também nasceu para brilhar!
Você também é especial! É privilegiada!
- Meu pai, como quase nunca estava em casa, era mais distante do que minha mãe.
Sempre que me lembro dele é com um semblante sério, e acho que nunca o vi sorrir.
Ele continuou falando:
-Selma, para que não fique sozinha, vai para um colégio tradicional.
Estive conversando com Rogério e Judite e resolvemos que você, Ariete e Flora irão para um colégio tradicional, que é frequentado por todas as jovens da sociedade.
Nele, vocês serão preparadas para serem boas esposas e mães.
- Chorei muito quando meu irmão foi embora, mas entendi que não adiantava chorar e que esperaria por ele quando chegassem as férias.
Em seguida, também fui para o colégio.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:48 pm

Ele era, e ainda deve ser, dirigido por freiras.
Eu ficava lá o dia inteiro.
Pela manhã, tínhamos as matérias tradicionais da escola, e à tarde aprendíamos a costurar, bordar e pintar.
Tínhamos também aulas de boas maneiras, etiqueta, economia do lar e tudo o que fosse necessário para que nos tornássemos esposas perfeitas.
Como profissão no máximo seríamos professoras, profissão que todas as moças da alta sociedade tinham.
Nesse colégio só estudavam meninas que pertenciam à minha classe social, todas eram como eu e não tinham a menor ideia do que significava pobreza.
Eram todas fúteis, pensavam somente em costureiras, cabeleireiras e imitavam as actrizes de cinema em suas roupas e cortes de cabelos.
Tratavam os serviçais do colégio como escravos, mas nada daquilo me atingia, pois, para mim, era normal.
A vida continuou e eu cresci.
Eu, Ariete e Flora estávamos sempre juntas e também gostávamos de imitar as actrizes.
Sempre que meu irmão vinha de férias, ficava muito tempo rindo e conversando com Ariete, o que me deixava irritada.
Um dia, abraçado a ela, ele disse:
-Falta pouco tempo para eu me formar.
Assim que isso acontecer, eu e Areete vamos nos casar e seremos felizes para sempre.
- Lembro-me que naquele dia fiquei furiosa e pensei:
Vocês nunca vão se casar!
Não vou permitir!
- Não consigo acreditar que essa é a sua história, mamãe.
Essa moça que a senhora está descrevendo nada tem a ver com minha mãe, que é carinhosa e amorosa não só comigo mas com as crianças do orfanato.
Selma respirou fundo:
- Eu era assim mesmo, Carlos; mas a vida nos ensina e hoje, graças a Deus, sou bem diferente.
- E como aconteceu essa mudança?
- Os pais de Ariete e Flora, assim como os meus, também viajavam muito.
Ele era um coleccionador.
Coleccionava tudo, miniaturas de carros, obras de arte e até armas.
Na casa delas havia uma sala que estava sempre fechada e onde éramos proibidas de entrar, mas sabíamos que era ali que o pai guardava sua colecção.
Por não podermos entrar, claro que a nossa curiosidade era imensa.
Em uma tarde em que estávamos conversando em uma das salas, vimos quando o pai delas chegou e caminhou até uma estante que havia no corredor.
Ele puxou um dos livros e por detrás dele pegou uma chave, abriu a porta e entrou.
Devagarinho, fomos até a porta e ficamos olhando a sala.
Vimos que ele, distraído, e sem nos ver, colocou em uma estante uma peça de cobre que havia comprado em sua viagem ao Japão.
Quando percebemos que ele ia sair, corremos e voltamos a nos sentar no mesmo sofá que estávamos quando ele chegou.
Após guardar a chave no lugar onde havia tirado, passou por nós e perguntou:
- O que as meninas estão fazendo?
- Estamos conversando, papai.
- Já tomaram um lanche?
- Sim, agora pouco. - Flora respondeu.
-Isso é muito bom.
Agora vou me deitar um pouco.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:48 pm

Continuem conversando.
- Ele saiu em direcção ao seu quarto.
Esperamos alguns minutos, olhamos uma para a outra, corremos para o corredor e pegamos a chave.
Fomos até a porta, entramos e ficamos encantadas olhando aquela sala que tínhamos tanta curiosidade.
Ficamos ali, caminhando e olhando aquelas coisas lindas, algumas até diferentes de tudo o que conhecíamos.
Havia peças de cerâmica do mundo todo.
Em outra parede havia quadros, alguns bonitos, outros não, e nem entendíamos o que significavam, mas para estarem ali deveriam ser valiosos.
Cada peça tinha o nome de onde era e quando havia sido comprada ou ganhada.
Muitas pessoas, sabendo que ele gostava, traziam de suas viagens lindas peças, miniaturas de carros, notas e moedas que eram diferentes das nossas.
No meio da sala, esculturas enormes de cerâmica e madeira.
Em uma das paredes havia espingardas e revólveres.
Em outra, facas e até espadas lindas e brilhantes.
Ficamos encantadas e não percebemos que ele havia voltado.
Ao nos ver, sorriu:
- O que estão fazendo aí?
- Ficamos petrificadas, pois sabíamos que aquela sala era proibida.
Flora, gaguejando, respondeu:
- Estávamos olhando para as coisas lindas que o senhor tem aqui nesta sala, papai, mas não mexemos em coisa alguma.
Está tudo como o senhor deixou.
- Está bem, podem continuar aqui e matar a curiosidade.
Eu vou mostrar algumas coisas para vocês.
- Eu e elas nos olhamos, aliviadas.
Ele, sorrindo, abriu uma das gavetas e nos mostrou selos e moedas do mundo todo, dizendo de quando eram e de onde.
Havia vasos e quadros pendurados.
Olhamos para uma das paredes onde estavam as espingardas e revólveres.
Estavam limpas e brilhantes, assim como as facas, adagas e espadas.
Perguntei:
-Essas facas cortam mesmo?
- Ele, rindo, respondeu:
-Cortam, sim, Selma.
Assim como os revólveres e espingardas atiram de verdade.
Para mim, tudo o que está aqui nesta sala é um tesouro incalculável, por isso é que deixo esta porta sempre fechada.
- Por que deixou que entrássemos hoje?
-Vocês vão fazer quinze anos.
Eu sempre soube que tinham muita curiosidade para conhecer esta sala e que encontrariam alguma maneira de entrar.
Por isso, para que não se sentissem culpadas, de propósito, sabendo que me olhavam, peguei a chave para que vissem e entrassem.
- Enquanto ele falava, eu e Ariete estávamos olhando os revólveres e as espingardas.
Ele olhou para nós, pegou um revólver e demonstrando preocupação disse:
-Armas são muito perigosas para quem não as sabem manusear.
Por isso, resolvi que vocês precisam aprender.
Vou mandar colocar um alvo no jardim e vou ensinar vocês três.
Assim, perderão a curiosidade e eu me sentirei mais confiante, sabendo que nunca irão pegar uma destas sem minha permissão.
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:49 pm

- Ficamos felizes e empolgadas, pois ele estava certo.
Tanto eu como Ariete estávamos com vontade de pegar um daqueles revólveres e fazer com ele o que os mocinhos faziam nos filmes.
Ele fez o que disse, colocou um alvo e duas ou três vezes por semana ficávamos por horas aprendendo a atirar.
Eu e Ariete aprendemos rapidamente.
Flora não gostava de mexer com armas, por isso demorou mais.
Depois de alguns meses atirávamos como os mocinhos do cinema.
Quando viu que havíamos aprendido, ele disse:
-Agora que já aprenderam a manusear e a atirar, acredito que não tenham mais curiosidade, por isso nunca mais vou trancar esta porta e poderão vir aqui sempre que quiserem.
- Sorrindo, saiu da sala, e nós ficamos ali por mais algum tempo, olhamos todas aquelas coisas lindas, e depois saímos, para nunca mais voltar.
O mistério da sala e a curiosidade haviam terminado.
A vida continuou.
Eu não gostava de estudar as matérias normais mas adorava bordar e costurar.
Ficava feliz quando via uma roupinha de criança que eu mesma havia bordado e costurado.
Estávamos com quase quinze anos, quando uma menina no primeiro dia do início das aulas daquele ano começou a frequentar a escola.
Assim que a vimos, ficamos encantadas e ao mesmo tempo com inveja, pois ela era muito bonita.
Nesse primeiro dia, ela passou por nós, sorriu e continuou andando.
Como todas nós usávamos uniformes, não sabíamos quem era quem.
Assim que ela passou, Flora, curiosa, perguntou:
-Quem é essa menina e a que família pertence, Selma?
- Não sei, Flora.
Nunca a vi nas festas que comparecemos e em nenhuma reunião social.
-Também nunca a vimos. Ariete.
Você, que é mais despachada, poderia se aproximar e ver se consegue saber alguma coisa.
- Eu, Flora?
-Você sim, Ariete!
Aproxime-se dela e vê o que consegue descobrir.
Será que a família dela é nova na cidade?
- Eu, também muito curiosa, disse:
-Acho que nós três deveríamos nos aproximar e descobrir juntas.
Além do mais, poderemos fazer várias perguntas.
Vamos dar as boas-vindas a ela?
- Elas aceitaram a minha ideia, e caminhamos em direcção à menina, que estava sozinha, sentada em um banco esperando a hora do início das aulas.
Assim que nos aproximamos, ela sorriu.
Seus olhos, azuis e penetrantes, e seus dentes perfeitos nos encantaram.
Flora se aproximou e disse:
-Bom dia!
Hoje é o seu primeiro dia aqui na escola, não é?
- É sim e estou muito feliz por isso.
-Que bom, seja bem-vinda!
Meu nome é Flora, esta é minha irmã, Ariete, e ela é Selma, nossa amiga.
- Eu e Ariete sorrimos e estendemos as mãos para cumprimentá-la.
Ela, apertando nossas mãos, sorrindo e feliz, disse:
-Estou feliz em conhecer vocês.
Meu nome é Matilde!
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Re: As chances que a vida dá / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 29, 2017 7:49 pm

- Eu, que gostava de ser sempre a primeira em tudo, também sorrindo, falei:
-Seja bem-vinda, Matilde.
Estamos felizes com a sua presença.
Sabemos que vai ser muito feliz aqui.
-Obrigada, Selma.
Espero que sim e farei o possível para que isso aconteça.
- Ficamos conversando por algum tempo.
Falamos sobre a rotina da escola e dos professores, dizendo como cada um era.
Rimos muito.
Até que Ariete perguntou:
-Sua família é aqui da cidade?
-É sim.
Sou filha da Mirtes, a cozinheira aqui da escola.
Ela, depois de muito tempo, conseguiu uma bolsa de estudos para que eu pudesse frequentar esta escola.
Minha mãe disse que, se eu conseguir um diploma aqui, terei muitas chances na vida.
- Aquilo caiu como um balde de água fria.
Nós três nos olhamos e pensamos a mesma coisa.
Ela não pertencia ao nosso nível, era filha da cozinheira, como poderíamos ter amizade com ela?
Claro que nunca seríamos suas amigas.
Disfarçamos e nos afastamos, e, sempre que ela se aproximava, fingíamos que não estava ali e olhávamos para o outro lado.
Com o tempo, ela entendeu e nunca mais tentou se aproximar.
Espalhamos para a escola toda que ela era filha da cozinheira.
As outras meninas que foram criadas da mesma maneira que nós três também se afastaram dela.
Sempre que a víamos ela estava sozinha lendo livros.
O tempo passou, e no primeiro mês, quando recebemos as notas, para nossa surpresa, ela tinha sido a primeira da classe em todas as matérias.
Aquilo fez com que ficássemos com mais raiva ainda.
Flora não se conformava:
-Isso não pode ser!
Ela não pode ser tão inteligente assim!
- Por que não, Flora?
- Você não entendeu, Ariete?
Ela, além de bonita, é também inteligente!
- O que tem isso, Selma?
- Isso não pode ser!
Ela é filha da cozinheira, não teve a mesma educação que tivemos!
Ela é pobre e não é especial como nós, Ariete!
-Agora entendi, Selma, mas acho que ela tem tudo o que não temos.
Além de bonita é inteligente.
O que vamos fazer quanto a isso?
- Pensei por algum tempo, depois respondi:
- Podemos usar a inteligência dela a nosso favor, Ariete!
- Como, Selma?
- Simples, Flora.
Já que não gostamos de estudar e de fazer os trabalhos escolares, vamos nos aproximar dela, nos tornarmos suas amigas e fazemos com que ela faça todo nosso trabalho e, quando chegarem as provas, ela poderá nos passar algumas colas. Assim, passaremos de ano com boas notas e nossos pais não nos amolarão mais, como fazem sempre que tiramos notas ruins.
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