A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:09 am

A ÚLTIMA DANÇA
MONICA AGUIEIRAS CORTAT

PELO ESPÍRITO EDITE

... "Nomes e bens se perderão com o tempo, mas a atitude pura de amparo ao necessitado, essa perdurará sempre.
Nem sempre no coração de quem recebeu a dádiva, mas em seu próprio espírito, que assim se aproximará de Deus".
Serafim

"Cortesã, conforme os usos do século XVI, era termo utilizado para referir-se às amantes que se associavam aos ricos e poderosos nobres que as proviam de luxo e bem-estar, assim como status junto à corte, em troca de sua companhia e seus favores.
A própria palavra cortesã está indissoluvelmente associada à palavra Corte, como sinónimo dos nobres que podiam ter contacto directo com a realeza.
Durante o período da Renascença Europeia, as cortesãs desempenharam papel importante nas classes mais altas, muitas vezes substituindo a esposa legítima em eventos sociais.
Era relativamente comum, naquela época, que maridos e esposas nobres vivessem separadamente, mantendo o casamento apenas por questões de linhagem sanguínea e preservação de alianças políticas, e que os maridos procurassem a companhia agradável e a satisfação sexual nas cortesãs."
Fonte: Wilkipédia a enciclopédia livre

"Cristine não era uma cortesã comum..."
Edite

SUMÁRIO
Prólogo: Breve descrição da vida na Colónia (Narrativa de Ariel)
I - Edite
II - França, século XVIII (Narrativa de Edite)
III - Vida com Cristine
IV - Paulette e a caridade
V - Medicina chinesa no cabaré
VI - Serafim fala... (Narrativa de Ariel)
VII - Cozette (Narrativa de Edite)
VIII - Lembranças e questões domésticas
IX - Investimentos
X - Conselhos de um velho amigo
XI - Sherazade
XII - Um acerto de contas
XIII - Respostas sobre o amor e a riqueza (Narrativa de Ariel)
XIV - Arrumações e café (Narrativa de Edite)
XV - Uma história de sangue e perdas
XVI - Conversa com um velho amigo
XVII - Dúvidas de Nana (Narrativa de Ariel)
XVIII - Adele (Narrativa de Edite)
XIX - O baú de Adele
XX - Banhos
XXI - Clara fala sobre obsessores e o umbral (Narrativa de Ariel)
XXII - A Terra também tinha os seus encantos (Narrativa de Edite)
XXIII - Fim de cena e lembranças do padre Armand
XXIV - Revelações
XXV - Tempos de bonança
XXVI - Reencontro (Narrativa de Ariel)
XXVII - Adele vai à missa (Narrativa de Edite)
XXVIII - A última dança
XXIX - A Casa Besançon
Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:09 am

PROLOGO
Breve descrição da vida na Colónia (Narrativa de Ariel)
VINHA EU CAMINHANDO lentamente para minha pequena morada, um tanto afastada da parte mais habitada da Colónia, que havia adquirido depois de algum tempo de trabalho.
Era pequena, é certo, mas tanto na Terra como no plano espiritual, como é bom ter um lar e voltar a ele depois de dura jornada.
Não existem aqui os percalços terrenos como os assaltantes ou bandidos.
Esses não têm acesso à nossa Colónia: ou impedidos por muro secular, ou por nem nos perceberem, dada sua cegueira espiritual.
Não estão em condições de serem atendidos, pois acreditam ainda em seus maus instintos, afastados de Deus por conta própria, perdidos em seu egoísmo e em sua vaidade.
Não conseguiríamos fazer a eles, nenhum bem, devido aos obstáculos por eles mesmos criados, sendo que poderiam muito perturbar os que ainda aqui convalescem à espera de novas encarnações:
seriam como víboras pequenas e venenosas soltas em meio a um ninho de pássaros recém-nascidos.
O Senhor sabe o que faz, e o tempo pertence somente a Ele.
Assim sendo, a vida na Colónia é de relativa paz, e muito trabalho para quem o procura.
Estranham muito os que aqui chegam que tenham que trabalhar para conseguir alguns benefícios, como moradia própria.
Ninguém fica ao relento na Colónia, pois mãos caridosas sempre hão-de aparecer para quem ainda não possui seu próprio tecto.
Mas é a Terra que imita a Colónia (e não o inverso, pois as Colónias são muito mais antigas que diversas cidades e, por isso, mais evoluídas em diversas coisas).
Impossível, no entanto, descrever a fluidez do ar, as espécies de flores, os animais mansos e belos que por aqui circulam.
Tudo nos mostra a obra de Deus em sua evolução constante.
Se escolhi minha morada um tanto longe de algumas comodidades quotidianas, foi pelas caminhadas que, ao invés de me cansarem, me restituíam o humor, já que às vezes chegava do meu trabalho resgatando irmãos no "umbral" um tanto "carregado".
É verdade...
Ao amigo que me lê pela primeira vez me chamo Ariel, moro nesta Colónia localizada geograficamente em cima da Região Sul do nosso amado Brasil desde 1902, quando desencarnei, vítima de tifo, na encarnação na qual me chamei Álvaro, e actuei como advogado e abolicionista.
Aqui escolhi me chamar Ariel por motivos próprios de encarnações anteriores, e me acompanha nesta Colónia, desde 1922, ano terrestre, minha companheira abnegada e querida de muitas existências: aqui chamada Esthefânia.
Seria perda de tempo tentar descrever a Colónia em detalhes, penso eu, pois os que já estiveram aqui e agora se encontram encarnados, devem guardar dela apenas leve lembrança.
Como explicar a um cego o que é a cor azul, ou ainda as diferentes nuances de um vermelho?
Certas coisas, sem que as vivenciemos, nos parecem simples fantasia, mas nem por isso deixam elas de existir.
Passei pelo nosso portão simples e dei com minha amada companheira na porta com um sorriso nos lábios pequenos, fazendo uma pequena "covinha" nas bochechas muito alvas.
Olhei aqueles mesmos olhos castanhos claros que me acompanhavam há séculos e pensei na sorte que era ter semelhante criatura por companheira.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:09 am

De estatura elevada para uma mulher comum (cerca de um metro e setenta e dois), Esthefânia era esbelta, quase sem busto, cintura fina marcada por faixa estreita e elegante.
As pernas eram longas e bem torneadas como as das bailarinas, e as mãos longas de unhas curtas e bem-cuidadas eram quase que seu ponto mais forte, cheias de personalidade.
À primeira vista dir-se-ia que ali estava uma mulher comum, nos seus vinte e cinco anos, que não chamava muita atenção.
Ledo engano... aos primeiros passos ou à primeira palavra saída daquela boca pequena e de dentes perfeitos logo se via que ali estava uma dama.
0 nariz um "tantinho" comprido, os olhos imensos de cílios fechados, e umas sobrancelhas que calariam um mestre de pintura, de tão bem desenhadas naturalmente:
negras, em contraste com a pele branca.
Discreta, ainda assim destacava-se na multidão, e sua timidez natural desaparecia quando soltava os longos cabelos castanhos lisos e ficava a brincar com as crianças da Colónia, a ensinar os hinos e os ensinamentos do mestre Jesus.
O engraçado era que por duas encarnações consecutivas, embora ela sempre amasse crianças, não tínhamos tido filhos.
- Dia difícil? perguntou-me, ela...
Eu tive que sorrir.
Contava-lhe às vezes de alguns casos que tinha ao passar pelo umbral, no resgate de algumas almas.
- Não mais que o habitual.
E com as crianças, tudo bem?
Chegou alguma aluna nova?
Ela me sorriu de volta, puxando de minhas costas pesado casaco, e pendurando-o atrás da porta.
1 Apareceu-me hoje uma lourinha que mais parecia um anjo!
Os cabelos em cachos, a boquinha rosada, rechonchuda.
Não deve ter mais que quatro anos terrenos, mas já fala com desenvoltura (e como!).
Acredita estar em alguma escola e não desencarnada, o que não era para menos, pois desencarnou há três meses num acidente de automóvel.
Quer de toda forma ver a mãe que ainda se encontra na Terra e chora copiosamente a morte da filha.
A menina se chama Celeste e sei que ali vou ter um longo trabalho de conscientização.
Sabendo como esses casos eram complicados, perguntei:
- Já teve acesso ao arquivo de existências passadas da pequena?
Ela assentiu com a cabeça.
Mas depois, como a lembrar-se de algo, me disse:
- Mas que descuidada sou, Ariel, esqueci completamente! Temos visita!
Franzi a sobrancelha meio contrafeito, afinal ainda não tinha descansado de feroz missão no umbral, e me sentia realmente um tanto exausto.
Ela me apontou a nossa pequena sala de jantar e fui até lá, onde vi sentada em nossa mesa (e não nas cadeiras, como de costume), a graciosa menina-moça, Olívia, a morder uma fruta com gosto.
Luz suave emanava dela, dos cachos castanhos alourados, e do olhar cada dia mais esverdeado.
- Olá disse-me ela que bonita a sua esposa!
Ainda cansado?
A pequena "fadinha" observava-me divertida quando me dei conta de que o cansaço de lidar por horas com entidades inferiores tinha se esvaído como que por completo.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:09 am

Observei seu sorriso e em seguida me perguntei o que aquele ser tão gracioso poderia estar querendo comigo.
- Você brincou ela sempre a me dar nomes:
"anjo", "fadinha", "menina"... é costume na Terra sempre tentarmos "rotular" as coisas 1 as pessoas, não é?
Que tal me chamar de "amiga"?
Somos amigos, pois não?
- Claro. Mas é que...
Ela sacudiu a cabecinha impaciente:
- Sei que temos um nível de desenvolvimento diferente.
Digamos que, apesar das aparências, eu seja um "tantinho" mais experiente.
Mas também, não é nada tão grande assim!
Esthefânia a olhava encantada.
Inteligente como era, sabia perfeitamente não estar diante de nenhuma criança, mas sim de um ser espiritual de uma evolução mais avançada, que ainda assim se travestia de uma aura travessa e encantadora. Vi os pensamentos fluindo de uma para a outra:
gostaram-se mutuamente.
Outra vantagem do mundo espiritual talvez seja essa:
em espíritos mais desenvolvidos, pensamentos são "sentidos" claros como água.
Assim sendo, como pensar em roubar, mentir ou enganar sem ser descoberto e assim levar carinhosa reprimenda de um ser mais evoluído?
Minha mulher sentou-se à mesa com a postura muito erecta (sempre se sentava assim), apoiou a cabeça nas formosas mãos como a indagar se poderia permanecer connosco.
- Claro que é bem-vinda, Esthefânia.
Está com ele há muitas encarnações, não?
Ela corou um pouco:
- Sim. Temos boas histórias para nos lembrar, nós dois.
- Lembra-se de encarnações que ele teve como médico?
Vi minha esposa enrubescer como raras vezes acontecia, ela abaixou a cabeça e respondeu em voz baixa:
- Realmente. Reencarnei com ele duas vezes nas quais ele exerceu a medicina, mas não são épocas das quais tenha particular orgulho.
Sequer boas lembranças.
Abaixei a cabeça um tanto envergonhado.
Tinham sido encarnações difíceis, dado o meu mau génio, em que, apesar da inteligência, sobressaíam também meu orgulho e minha vaidade.
Nas duas a doce Esthefânia tinha sido minha esposa.
Envergonhava-me principalmente de uma na qual eu fora conhecido como "dr. Nestor".
Observando-me com seus olhinhos perspicazes de gato, Olívia colocou sua mão esquerda em meu ombro e, lendo meus pensamentos, disse:
- Acaso acredita que vim à sua casa para lhe trazer tão más lembranças ou entristecê-lo, depois de dia tão duro de trabalho?
Diga apenas um de nós que nunca cometeu um pecado, meu bom Ariel, e eu lhe direi que você não procurou o pecado direito.
As lembranças eram doloridas e meus olhos encheram-se de lágrimas de arrependimento.
As vezes, o bom Deus perdoa melhor que nós mesmos, que não esquecemos nossas faltas com tanta facilidade.
Durante aquela encarnação, talentoso, fechei minhas portas aos pobres que tanto necessitavam de auxílio, apenas aceitando consultá-los quando para expô-los em nossa Escola de Medicina, na qual a maioria aparecia em busca de cura, e terminava assustada diante de uma equipe de profissionais que, sem nenhum respeito, lhes expunham os problemas diante de interessada plateia de estudantes.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:10 am

Que carniceiros éramos!
Tudo em nome da ciência!
As "cirurgias" eram feitas sem a menor assepsia e não era raro sairmos de um paciente para o outro sem ao menos lavarmos as mãos.
Ignorantes, nem desconfiávamos de micróbios e bactérias e a primeira vez que isso foi discutido em um Simpósio foi objecto de escárnio geral.
Que mundo invisível era esse que causava infecções?
Acaso no sangue se escondiam "sujeiras"?
Não sei quantos pacientes levei à morte por pensar dessa forma errónea.
Eu e muitos dos meus, pois essa era a regra geral.
Mas devo admitir que quando atendíamos aos pacientes ricos e importantes, nos lavávamos adequadamente, afinal, como aparecer coberto de sangue diante de um marquês ou um rico comerciante?
Os hospitais eram matadouros, ninguém que pudesse escapar dirigia-se para um deles.
Minha linda Esthefânia brilhava na sociedade e dirigia com esmero a nossa casa, como convinha à mulher de um homem estudado.
Nunca discutia comigo, formada à maneira antiga, e a única coisa que me desagradava nela era a extrema religiosidade.
A igreja católica atrasava-nos em séculos não nos deixando estudar cadáveres para o melhor aperfeiçoamento de nossa profissão.
Tinha horror e asco aos padres gordos e bonachões que visitavam nossa casa e que me vinham pedir, ou dinheiro ou favores.
Era um livre-pensador, e achava tudo aquilo feia pilhéria.
Afinal, se meu dinheiro e meus favores eram bem-vindos, porque se metiam tanto em nossos estudos?
Mas Esthefânia, muito embora não ousasse me contradizer, acabava sempre conseguindo que eu consultasse seriamente algum miserável ou desse alguma contribuição.
Era belíssima nessa encarnação, mas de saúde muito frágil.
Tudo isso me passava pela mente enquanto Olívia me observava sorrindo, respeitando minhas lembranças nada gratas.
Por fim, servindo um líquido doce, Esthefânia me tirou de minhas cismas, e Olívia me perguntou:
- Terminou a sessão de "auto-expiação"?
Já não lhe expliquei o atraso que a culpa causa?
Não somos todos filhos do Senhor, falíveis, e em eterno aprendizado?
Sorvendo o líquido e já me sentindo melhor, disse a ela:
- Não sabe o que se passava naquela época na Europa!
Nem com mil vidas de sacrifício eu poderia sanar minhas dívidas com Deus.
Parecendo muito mais adulta do que aparentava, a linda menina cruzou as pernas e me encarou com firmeza:
- Será que não sei mesmo?
Agiu como a maior parte dos cirurgiões de sua época agiu.
Não tinha um décimo do conhecimento que tem hoje, mas ainda assim foi um início.
E temos que iniciar de alguma forma, não?
Acha mesmo que o bondoso Criador cobra dos seres humanos, primeiros passos perfeitos, sem nenhuma espécie de tropeço?
Podia ser, mas lembranças ruins me turvavam a mente.
Lembrei-me do ópio usado em larga escala na nossa amada Coimbra do século 17.
Além disso, o éter já caminhava entre nós, ainda que modestamente.
Perdi a conta de quantas vezes receitei opiáceos a ricas senhoras que me chegavam com queixas de falta de sono, ou ainda tristeza e melancolia.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:10 am

Tornaram-se viciadas em pouco tempo, muitas com o aval dos maridos que se intoxicavam com o álcool que tinham à disposição.
Deus os livrasse de mulheres bêbadas, muito malvistas.
O ópio era um segredo que podia ser bem guardado, escondido em ricos consultórios.
Não foram poucas as vezes em que Esthefânia viu entrar, em nossa casa, mulheres ricas à procura de receitas, nas mais diversas horas.
Pagavam em ouro, e sem regatear, o que a deixava curiosa embora não entendesse todas aquelas "urgências".
- Que têm elas?
Vir à casa do médico a estas horas?
Só pode ser um motivo gravíssimo!
Criada por família tradicional e sem vícios, não quis chocá-la:
- Sentem fortes dores e necessitam de alívio.
Eu faço o que posso.
Mas a maior parte dessas dores não tem cura.
Lembro-me de uma vez que ela me olhou, fechando o quimono de seda que lhe cobria a camisola larga e ao me ouvir falar em dores ela logo se apiedou:
- Pobrezinhas!
Não reclamarei mais de abrir-lhes a porta nesse horário, pois que coisa mais horrenda é sentir dor sem alívio.
- Assim é a vida do médico, querida.
Aborrecimentos sem fim.
Sorvendo seu chá de camomila ela nunca mais me questionou, e adormeceu a meu lado profundamente.
A pesquisa atraía-me a passos largos, mas aqueles pequenos inconvenientes é que me garantiam a vida farta que levávamos.
Quanta vergonha tenho disso ainda! Olívia, impaciente com a leitura de meus pensamentos, finalmente me disse:
- Não se julgue tão duramente.
Lembre-se que na época o ópio era permitido, e não ilegal.
Só depois de muita observação constatou-se que os males por ele provocados podiam ser irreversíveis.
Todos temos os nossos percalços, Ariel, ainda assim o mundo evolui.
Apesar do medo e da ignorância humana, descobertas são feitas.
Isso sempre tinha me irritado sobremaneira e me feito quase um ateu.
Como acreditar num Deus que proibisse a evolução do aprendizado humano?
Olívia me sorriu com paciência, e retrucou:
- Hás-de entender que todas as religiões têm seus erros e seus acertos, afinal são feitas por humanos na sua tentativa de entender o Altíssimo.
A humildade sempre é necessária e frequentemente é esquecida.
Alguma vez ouviste o mestre Jesus ser contra a evolução dos conhecimentos humanos?
Nenhum mestre de nenhuma religião prega o ódio, o orgulho e a intolerância.
Mas, ao que eu saiba, na Terra esses valores não foram praticados apenas por religiosos.
Médicos, políticos, e até mesmo simples lavradores não escaparam deles.
São serpentes que devem ser extirpadas do coração humano, visto que só trazem dor.
Minha doce Esthefânia sorriu:
É verdade. Minhas reencarnações como mulher muito me ajudaram a observar isso, tornando-me mais dócil e humilde do que era antes.
Fiquei assim mais próxima de Deus.
Quanto orei por você, meu amado, quando o via irado com seus assuntos e pronto a subverter a ordem estabelecida em nome de sua curiosidade.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:10 am

Entendia a importância de seus estudos, mas que medo tinha!
A menina Olívia pôs-se de pé à minha frente:
Pois então.
Aqui o conhecimento nos aproxima de Deus, e acho que a história de duas mulheres, nascidas na França do século XVIII, será interessante para seus leitores.
Uma delas infelizmente caiu na armadilha do vício com consequências terríveis.
A outra está já aqui connosco há um bom tempo.
Quer ir conhecê-la?
- Aqui? Na Colónia?
Ela me sorriu:
- Sim. Trata-se de um espírito muito iluminado que já passou por grandes dores.
Seu nome na Terra foi Edite, o de sua amiga, Cristine.
Trabalha junto a um núcleo de idosos recolhidos há pouco do umbral, que ainda sentem no perispírito os achaques físicos das doenças que tinham.
E de se ver como ela tem acentuado o "dom de cura" pela imposição das mãos e orações.
Pensei que era um dom abençoado, mas que dependia de grande conhecimento e desprendimento, pois não era tarefa fácil para espíritos ainda em estágio não avançado de evolução. Esthefânia estava curiosa:
- E a amiga, também está connosco, na Colónia?
Olívia a olhou com um de seus sorrisos misteriosos:
- Embora tenham estado juntas por mais de uma existência, trilharam caminhos diferentes.
Na medida do possível você saberá de Cristine.
Minha amada Esthefânia sorriu para ela.
"Cativante" foi a palavra que lhe veio à mente, olhando para a menina de aparentes doze anos terrestres.
Disse-lhe:
- Você é uma alma muito antiga, não?
Acredito que não pertença a este plano.
Na aparência, lembra as crianças com quem trabalho, mas está longe de ser o que aparenta, não é?
Ariel já tinha me falado de você, mas você superou todas as minhas expectativas.
Olívia riu-se, brincalhona:
- Pois ora... ainda não viu as minhas asas prateadas?
Franzindo as sobrancelhas ela levantou-se como se fosse olhar as costas da menina, que riu-se:
- E verdade. Quis o Criador que eu já tivesse acesso a diversos planos depois de algum aprendizado.
Estou ainda muito longe da sabedoria dos seres iluminados do universo, mas me esforço, como todos vocês, para ir-me aperfeiçoando com o tempo.
Vale lembrar também que, quanto mais encarnações tivemos, mais pecados podemos ter cometido, logo, a humildade é naturalmente um dever.
A culpa não leva a lugar nenhum.
Pior que ela, só mesmo culpar os outros pelos nossos próprios delitos.
Ao ver Esthefânia encantada, olhou-a com carinho e disse:
- Não pode a querida irmã se abster de alguns trabalhos para vir conhecer Edite e sua história?
Muito agarrada às suas crianças, ela pareceu pensar por algum tempo, depois decidiu:
- Acredito que um aprendizado novo muito poderá me ajudar com elas no futuro.
Principalmente com uma "curadora".
É um privilégio que não posso recusar.
Quando vamos vê-la?
Olívia pareceu ouvir o vento por uns segundos:
- Agora me parece uma boa hora, ela está em seu período de descanso.
Podemos ir?
Vendo o nosso assentimento e a nossa aprovação, e eu me sentindo sem nenhum cansaço apesar das horas passadas em resgate difícil no umbral, ela nos segurou as mãos, e lá fomos os três.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:10 am

I - EDITE
NUM ÁTIMO DE segundo nos vimos transportados à entrada de grande edifício perto dos portões da Colónia.
A locomoção dos espíritos pode ser simples: pelo pensamento.
Nada há de mais forte que o pensamento e a vontade humana, esses sim são as centelhas de Deus em nós, e não um corpo que parece sólido e firme, mas que apodrece e torna ao pó.
Mas, não são todos os espíritos que controlam esse tipo de locomoção, muitos de nós caminham, outros se arrastam em dores, existem ainda os que se utilizam de transportes.
Tudo depende do grau de desenvolvimento do próprio espírito.
Eu mesmo caminho a maior parte do tempo quando estou na Colónia, e me sinto bem assim.
Era um hábito que já cultivava na Terra e que sempre me fez bem.
Não raro escutamos um espírito dizer que foi "levado" para este ou aquele lugar como que por mágica.
Na realidade, na maior parte das vezes, ele foi para aquele lugar por se sentir atraído para lá, por isso tantas vezes distâncias imensas são percorridas dessa forma.
Alguns sequer andam, atrasados e teimosos, quando acreditam que não possuem mais essa habilidade.
Outros ainda parecem "flutuar", como o caso de Olívia, que num universo incorpóreo para os mortais, parece ainda mais fluida do que ele.
Reconheci logo um dos pontos mais antigos de atendimento e socorro da Colónia, que já possuía vários espalhados por seu território e protegidos por seus altos muros.
O edifício era cheio de plantas, flores na entrada, um caminho feito de pedras muito semelhantes às da Terra, mas num calçamento sem entraves.
Floreiras ladeavam o edifício de dois andares, muito amplo, deixando no ar um cheiro indescritível de limpeza e paz.
Ao meu lado Esthefânia olhava Olívia indo à nossa frente, cumprimentando ora um, ora outro conhecido, e notou nos cabelos da menina um brilho já meu conhecido.
Perguntou-me:
- Que cabelos mais lindos ela tem, castanhos claros, cacheados.
Mas que é aquilo que brilha às vezes?
Parecem pequenas flores...
- São margaridas cultivadas num plano superior.
Olívia adora flores.
E lá ia ela, abrindo caminho até que chegamos a um pequeno pátio, um jardim interno dentro do "hospital".
Sentada num dos confortáveis bancos de madeira, vimos uma senhora de luz suave, calma, nos cabelos alguns fios prateados, a pele morena clara com pequenas rugas.
Trajava roupas da Colónia, num amarelo claro quase branco, e sandálias delicadas ornavam-lhe os pés pequenos e bem feitos.
Não tinha mais que um metro e sessenta de altura, e não era de uma beleza tradicional, mas emanava meiguice.
Os olhos eram imensos e doces, o nariz pequeno.
Os lábios um tanto cheios, mas sem sensualidade.
Não sei por que ela me lembrou as mulheres árabes, talvez por conta dos traços mouros e olhos escuros como as azeitonas pretas do mediterrâneo.
Sorriu ao ver Olívia, que a abraçou e, lendo meu pensamento, me respondeu:
- Na Terra era de descendência espanhola.
Mas sinto-me lisonjeada.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:11 am

Sempre admirei as mulheres árabes.
Meu nome é Edite, o senhor é Ariel?
Pego assim de surpresa, assenti com a cabeça.
- Sim. Trabalho no resgate de almas do umbral.
Olívia me disse que a senhora trabalha aqui, no hospital, fazendo "curas".
Ela me sorriu:
- Sou apenas um instrumento, senhor Ariel.
Sabemos muito bem que quem cura é o Criador.
Apresentei a ela Esthefânia, que me disse em pensamento que ela muito lhe lembrava nossa amada Clara, companheira minha de trabalho.
Observei que eram praticamente da mesma altura, e embora Clara fosse branca, tinham as duas os mesmos olhos escuros e a mesma meiguice.
Edite sorriu:
- Conheço bem Clara. Fizemos juntas alguns cursos, e tenho por ela grande admiração.
Estou descansando um pouco, pois hoje tive um caso realmente difícil:
uma pobre alma de homem já estava há dias no hospital, e tendo perdido a visão na Terra, nada o convencia de que aqui poderia enxergar perfeitamente.
Boa pessoa, mas intransigente como ele só!
A esse comentário deu sonora risada.
Esthefânia perguntou-lhe qual tinha sido a maior dificuldade.
Edite sorriu leve e nos disse:
- Nasceu em família abastada na Terra, e estava já há algumas décadas no umbral.
Nessa última vida não vi nele nenhum crime nefando, terrível ou algo assim, mas gostava de ostentar sua posição, e era intransigente com as mulheres, a quem julgava como se fossem seres inferiores em inteligência e força.
Esthefânia riu-se:
- Ora, vamos... quando encarnada, difícil eram os que nos julgavam iguais.
Soubessem eles da multiplicidade de existências e das inúmeras vezes que somos uma ou outra coisa, seriam menos tolos.
Ou ao menos, mais humildes.
Edite continuou sua narrativa, concordando com ela com a cabeça:
- Pois nem me fale.
Essa pobre alma, na cidade onde viveu, ganhou até uma rua com seu nome depois de sua morte.
Foi um político influente que perdeu a visão aos quarenta e cinco anos, vitimado por uma catarata, que à época não tinha cura e que muitos dissabores lhe trouxe.
Era casado com uma senhora de aparência bonita, mas que quando ele enxergava já o traía bem debaixo de seu nariz, na sua própria casa.
Com a cegueira, ficou ainda mais corrompida.
Várias vezes foi alertado por criadas, que eram dispensadas em seguida.
Morreu envenenado lentamente por essa senhora com quem se casou, aos sessenta e dois anos.
- Nossa! exclamou Esthefânia que triste!
Olívia observava em silêncio, como se já soubesse o desfecho.
Edite, não negando a origem espanhola, simpática e falante, continuou:
- Triste foi depois da desencarnação, quando ele resolveu se fixar na residência, cego, ouvindo perfeitamente a conversa dos amantes e dos criados.
Não teve filhos, não deixou dependentes, apenas uma viúva rica a quem o tempo e a dissipação dos costumes já estavam deixando suas marcas.
Quem antes era bonita moça, agora se tornava feia matrona, com carnes em excesso, e um vício em vinhos que não lhe convinha.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:11 am

Descobrindo assim a verdade, resolveu assombrá-la, embora não soubesse como.
Com o tempo entidades vingativas lhe ensinaram alguns truques torpes, e a desventurada quase enlouqueceu, com visões, barulhos de bater de portas, objectos caindo sozinhos, enfim, todo tipo de sortilégio.
A narrativa de Edite me deixava também curioso.
Então Olívia interveio:
- Conte a eles o que aconteceu com a esposa, Edite.
E triste, mas explica as décadas de umbral dele com clareza.
Ela assentiu:
- A pobre mal fez cinquenta anos e atirou-se do terraço de casa, caindo de uma altura considerável, tanto ele a instigou para o suicídio.
Não morreu imediatamente, foi socorrida e teve dores imensas, pelas fracturas, e durante o tempo todo só falava o nome do falecido.
Na cidade então pensaram que ela amava tanto o marido que não aguentou de solidão e tentou matar-se.
Morreu depois de três dias de sofrimentos terríveis, em que alternava entre a consciência e o desvario.
Impossível descrever a alegria do marido quando a sentiu no umbral, mas ela logo se afastou dele, e desde então, não se viram mais.
Ela ainda continua por lá; assim que tiver uma oportunidade, reencarnará.
- "A vingança pertence ao Senhor" é uma frase bíblica.
Outro ditado bom é aquele que diz:
"Quando começares uma vingança cave logo duas covas, a tua e a de teu inimigo" terminou Olívia.
Um silêncio se interpôs entre nós e nossas lembranças de passados longínquos.
Há muitas existências eu já reencarnava como homem, pois achou o Criador que assim me desenvolveria melhor, mas em minha última encarnação, por nenhum momento subjuguei a alma feminina.
Muito ao contrário, sempre tive pelo sexo oposto grande admiração e respeito.
Mesmo por minha adorada Esthefânia, além do amor que eu tenho por ela, há uma admiração imensa por seus gestos harmoniosos, sua candura, a delicadeza com que trata as pessoas, independente de sua posição social ou intelectual, sua sabedoria nata quanto ao carácter do próximo.
Em nossa última encarnação, sempre prestava atenção e se ela não simpatizasse com alguém, me afastava, pois os problemas de certo apareceriam. Nunca falhou.
Sempre achei que por ser mais forte fisicamente, tinha o dever de protegê-la, nunca de aproveitar-me disso.
Olhei para ela com carinho e vi em seu olhar as mesmas fagulhas de sempre.
Calados, pois palavras às vezes são desnecessárias, nos demos as mãos.
- Homens como o senhor ainda são raros na esfera terrestre disse-me Edite e essa pobre alma que não consigo ajudar está muito longe de partilhar de seus sentimentos para connosco, Ariel.
Mas, tenhamos fé que as coisas se resolverão.
Não acabam se resolvendo sempre?
Era verdade.
Pena que demore tanto para alguns por culpa deles mesmos, pensei eu. Edite nos olhava com bondade e curiosidade:
- Olívia me contou que já foi médico na Terra, e que tem interesse em contar nossas histórias...
Acho que teremos muito assunto e que seremos bons amigos, nós três.
Lembrando-me dos livros psicografados, criei coragem e pedi a ela:
- Se importaria de contar sua história em nosso Centro de Literatura?
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:11 am

Acredito que assim como eu, Olívia concorda que sua história possa passar ensinamentos aos irmãos encarnados, e dirimir dúvidas.
Edite corou um pouco, mas respondeu:
- Olívia já tinha me falado disso, mas não sei... falar com o senhor e sua esposa é uma coisa, mas em público?
Sou tímida.
Esthefânia adiantou-se:
- Estará apenas entre amigos e não se sentirá desconfortável.
Pense nas almas que ajudará a entender certos mistérios, nos corações que pode confortar.
Se isso ajuda, pedirei a Clara que nos acompanhe enquanto Ariel faz suas anotações.
- Não sei... por mim falaria tranquilamente, mas há minha amiga, Cristine, que não está entre nós na Colónia.
E nossa história é tão entrelaçada... ouvi dizer que o Centro fica cheio de pessoas a ouvir as histórias Ainda que não tenha do que nos envergonhar, não sei se posso expô-la assim.
Olívia aproximou-se dela, pegando-a pelas mãos bem tratadas e olhando-a nos olhos disse:
- Nada aqui é obrigatório, existe o livre-arbítrio, como bem o sabe.
Mas nenhum de nós que aqui está veio para esse plano sem pecados ou faltas, logo, como julgar?
Lembre-se de que está na Colónia e não na Terra, onde pensamentos maus podem ficar ocultos.
Acredita que permitiríamos a alguém que prejudicasse a uma nossa irmã, que tanto necessita de nossa compreensão?
Confie em Deus e depois nos dê sua resposta, Edite.
Já é amada aqui pelos seus dons de cura e pela sua abnegação, nada deve a ninguém de nenhuma forma.
Mas pense no benefício que pode fazer a tantas almas desconhecidas e que se tornarão amigas.
Ela levantou-se, cruzou os esbeltos braços em frente à túnica clara, afastou-se de nós alguns passos, e senti que estava em oração por alguns minutos.
Preparávamos nossa saída silenciosa quando ela se virou:
- Que assim seja. Desculpem minhas dúvidas, mas precisava de uma orientação.
Será bom também para Cristine.
Pode marcar o começo das obras, Ariel.
E Esthefânia, tendo oportunidade, leve a nossa amada Clara!
Esthefânia sorriu.
Clara não perderia por nada outra história a ser contada, principalmente por conta de Nana, sua grande amiga, que, encolhida no canto do salão, escutava com interesse.
A pedido meu, uma lousa seria colocada para auxílio de Edite, que nos mostraria imagens de suas lembranças, tornando a história mais vívida para nossos amigos.
Não imaginava o que viria dali por diante, nem os ensinamentos que receberia.
O Senhor é mesmo sábio e nada como o tempo para nos preparar surpresas.
Depois de uma semana, nos reunimos no salão onde contávamos as histórias.
Discreto público de amigos já esperava a nossa querida Edite, que tinha passado seus últimos dias aprendendo com Serafim a usar a lousa para nos passar as imagens.
Por fim chegou ela, em seu traje habitual, amarelo claro, os cabelos longos e anelados, presos em delicado coque atrás da cabeça.
Parecia pequenina e um tanto assustada, com o olhar a procurar algo, e ao me ver com Esthefânia, pareceu acalmar-se e sorriu.
Então, começou a sua história com uma voz de contralto suave, que nos embalaria ainda muitas vezes.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:11 am

II - FRANÇA, SÉCULO XVIII
(Narrativa de Edite)

QUANDO ME PEDIRAM que aqui viesse, o irmão Serafim veio me auxiliar, pois em minha natureza, o ouvir sempre veio antes do falar.
Perguntei a ele como começaria minha narrativa, e ele me disse:
"Do início".
Franzi o cenho como a me perguntar o que ele poderia querer dizer com aquilo, mas ele não me deu mais nenhuma outra resposta.
Longo suspiro me embargou a fala.
De qual início falava?
De qual existência?
Sim, pois para explicar algumas de minhas atitudes para com minha querida Cristine, assim como algumas atitudes dela, fazia-se mister que se desvendassem alguns mistérios.
Quantas vezes estranhamos atitudes com nossos companheiros de jornada que se tornam facilmente compreensíveis se levarmos em conta as outras encarnações que tivemos juntos?
Antigas simpatias e antipatias podem ser razoavelmente bem explicadas, assim como a tolerância e o perdão.
Dívidas antigas podem ser resgatadas, e nisso está a sabedoria de nosso amado mestre Jesus, que dizia, quando perguntado sobre quantas vezes se deve perdoar alguém: "perdoa não só uma vez, mas setenta vezes sete".
Não é preciso que me alongue demais no tempo, mas a primeira lembrança de minha amiga vem da França de meados de 1700.
Cristine já era artista e cortesã famosa por sua beleza, brilhando no palco na arte da dança árabe e cativando os cavalheiros que a cobiçavam pelo corpo curvilíneo e o rosto de beleza única.
Conheci-a quando eu tinha vinte e poucos anos terrenos, eu sim, pouco provida de encantos femininos, de pele mais escura, moura, calejada de torturas que a miséria e o tempo me impunham, pois tinha nascido em meio paupérrimo, sem conhecer pai e abandonada pela mãe.
Apesar disso, tinha aprendido a sobreviver trabalhando bastante e sem reclamar, pois sabia que não teria uma vida fácil.
A prostituição nunca havia me atraído, e tinha um carácter que me mantinha afastada do roubo ou de qualquer crime.
Contudo, que vida difícil! Desde pequena prestando serviços numa estalagem nas cercanias de Paris, levantava-me antes do sol, e dormia apenas quando terminava o serviço com os hóspedes.
Amarga matrona tinha me garantido a sobrevivência por longos anos, católica devota, fez-me aprender as rezas em latim, e usava de meu trabalho implacavelmente.
Não recebia salários, e roupas velhas eram a minha recompensa, assim como as sobras das mesas dos hóspedes.
Não me queixava.
A fome naquela época era dura realidade, e apesar das dores na coluna, de tanto carregar peso, dava-me por feliz, pois ao menos sabia que tinha um tecto sobre a minha cabeça e refeições diárias.
Não houve sonhos de moça naquela época.
Assim como não houve mimos na infância, uma palavra de carinho ou gentileza.
Era só, mas os afazeres eram tantos, que não me queixava:
não havia muito tempo para isso.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:12 am

Madame era áspera, mas de moral rígida, o que mantinha longe de mim qualquer malfeitor que pensasse em se aproveitar.
Assim se passou minha juventude, sem que eu soubesse sequer quantos anos tinha, até que minha patroa um dia deixou escapar que eu já estava com ela há vinte e três anos.
Como sabia que tinha aparecido por lá aos dois ou três anos e tinha sido abandonada na porta por um "bando de ciganos mouros!", fiz as contas e sentei-me assustada:
com que então eu devia ter ao menos vinte e seis anos!
Senhor! Estava já "uma velha" e tudo o que conhecia eram as paredes grossas da estalagem.
Pensei tristemente que um dia morreria dentro daquelas paredes da mesma forma que havia vivido lá:
sem que ninguém me percebesse.
Numa das raras vezes da minha vida, chorei em silêncio.
E dias depois, eis que vejo chegar duas carruagens elegantes, e salta de dentro de uma delas linda moça de cabelos louros e cacheados, presos num chapéu encantador.
O vestido com o decote ousado era vermelho, num veludo que transbordava riqueza, mas o que me chamou a atenção foi a pele da moça, branca, sem manchas.
O rosto bonito abrindo-se num delicado sorriso.
Nem que mil anos se passem hei-de esquecer minha primeira visão de Cristine, pois nunca havia visto moça mais bela.
Estava eu com enorme tacho nas mãos, encaminhando-me para o poço onde lavava as panelas da estalagem, e parei a observar tão formosa criatura.
(Assim falando, Edite colocou a mão direita sob um sensor fino e uma imagem formou-se nitidamente na tela atrás dela, mostrando-nos uma Cristine nos seus vinte e poucos anos de idade, que pareciam ser no máximo dezassete, dado o
frescor da pele que dispensava artifícios.
O vestido vermelho, de decote generoso, deixava ver um colo belíssimo, ornado de pequenas pérolas.
Os cabelos louros como o sol, presos em parte, soltavam pequenos cachos e os olhos iam de verdes a castanhos claros, conforme a luz.
A pele muito branca ressaltava a boca formosa e delicada, de um rosa nacarado, parecendo uma pintura.
O porte era delicado, mas a postura era de rainha.
Nada nela parecia afectado, ou falso.
Olhávamos ainda embevecidos, quando a voz de Edite nos despertou da visão.)
"Que moça mais linda" pensei "deve ser maravilhoso ser bonita assim...".
Cercada por amigos risonhos, ela entrou na estalagem saindo, enfim, da minha vista, e eu me lembrei de minhas tarefas apressando-me a cumpri-las.
Quem era?
Seria uma princesa?
Assim pensando entrei no salão da estalagem pelos fundos e pude observá-la, enlevada.
Não tive inveja dela, embora tivesse motivos para isso.
Ao contrário, admirei-a francamente e senti por ela um carinho que não podia entender.
Por mim, ela seria feliz, tão feliz quanto pudesse ser.
Mas notei que, ao lado dela, as outras mulheres do grupo pareciam ofuscadas, e embora a tratassem com cortesia, não escondiam seu aborrecimento.
Acostumada que estava com as agruras da vida, notei que ser tão bela devia também ter suas desvantagens.
Assim absorta estava, quando uma voz masculina, mas de timbre um tanto feminino, gritou comigo do meio do salão:
- Ei!!! Moura!
Trabalha aqui?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:12 am

Vendo que falava realmente comigo, assenti com a cabeça.
- Pois então erga-se e nos traga vinho! Mas não queremos esse vinho barato da casa, traga-nos coisa boa!
Observei o rapaz que se dirigia a mim e estranhei, pois ele estava usando maquiagem feminina, e tinha no canto da boca uma pinta falsa ressaltada pela tez artificialmente branca.
Nunca tinha visto um tipo daqueles, mas antes que eu fizesse qualquer juízo a respeito, a dona da estalagem me olhou feroz e resmungou baixo: "ande, que é gente de dinheiro!
Trate de pegar o vinho lá embaixo na adega e prenda esses cabelos num lenço limpo.
A estalagem está cheia, vou precisar de seus serviços no salão".
Sem discutir, obedeci.
Não era costume eu servir mesas, mesmo porque não tinha boa figura, mas a estalagem se encheu quando as pessoas do local viram entrar aquela clientela de gabarito.
Eram curiosos, e queriam ver que gente era aquela, tão bem-vestida.
Corri até o pequeno quarto junto à adega onde eu dormia e procurei um lenço limpo.
Olhando-me num latão, coloquei-o à cabeça de forma que ficasse apresentável e corri lavar os braços e o rosto que estavam um tanto suados da lida.
Sentindo-me limpa, peguei de uma bandeja de madeira e fui servir uma bonita garrafa de vinho, ao que o rapaz afeminado disse:
- É o melhor que tem? Então pode servir.
Observei de perto a peruca branca que usava e, encantada, vi que também ela estava empoada de fino pó branco.
Na mesa falavam com gestos espalhafatosos, e eu, armada de taças e da garrafa, me senti desconfortável no meio de todo aquele rebuliço.
A única a ficar calada era a bela moça loura, que ouvia com enfado as risadas altas do rapaz à mesa.
Tinha colocado apenas umas duas taças cheias à mesa quando o infeliz, a contar uma de suas histórias para os amigos, virou-se abruptamente fazendo virar em cima dele a minha bandeja, já com cinco taças de vinho cheias até a borda.
O silêncio que se seguiu no salão foi logo cortado pelo som do cristal se quebrando em mil pedaços, e eu observei atónita três taças irem para cima dele, despejar seu conteúdo, para depois serem atiradas ao chão.
Senti um frio na espinha ao lembrar de minha patroa, que tanto ciúme tinha daquelas taças, e empalideci.
Apenas duas taças estavam intactas em cima da mesa, mas seu conteúdo havia banhado as calças brancas e justas do rapaz, que, agora com uma peruca ridiculamente ruiva de vinho, me olhava com ódio.
- Sua louca! Me ensopou inteiro com esse vinho ordinário!
Veja minha peruca (e tirou-a da cabeça, nos deixando ver a cabeça luzidia, com poucos fios de cabelo), ficou imprestável!
Vou ter que mandar fazer outra... quem pagará pelo meu prejuízo?
A mistura do vinho com o pó branco que o envolvia o deixara com a aparência lastimável, deformada com a maquiagem pesada.
Encolhi-me a um canto quando ouvi, no meio do silêncio, suave risada cristalina, e vi a moça loura primeiro a tentar em vão conter o riso, depois a dobrar-se de rir, para a fúria do homem.
O riso é coisa que parece contagiosa, pois em breve eis que todo o salão, lotado de pessoas locais e dos visitantes riam a não mais poder da situação do pobre senhor, e mesmo eu, encolhendo-me ainda mais, não pude deixar de tentar abafar o riso cobrindo minha boca com uma das mãos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 05, 2017 8:12 am

Madame Pointier, a dona da estalagem, não achou a menor graça, principalmente ao ver suas raras taças de cristal no chão e o cliente aos berros pelo prejuízo de ter sua peruca ensopada.
Veio ao meu encontro e me puxou, agarrando-me pelo braço com força, aos gritos:
- Edite! Sabia que não devia deixá-la no salão!
Só serve mesmo para dar comida aos porcos!
Mil perdões, senhor.
Essa inútil irá para a rua hoje mesmo, que a minha caridade com essa imprestável chegou ao fim!
Caridade? Desde que me lembrava de existir tinha trabalhado sem descanso nem salário para madame Pointier, maltratada sem descanso.
Ainda assim, a estalagem era o único abrigo que conhecia e o frio da noite me dava um medo aterrador.
Isso sem falar na fome; ali, apesar de não ser bem alimentada, pelo menos comia duas vezes por dia.
O que seria de mim, ignorante, feia e sem família, abandonada nas cercanias de Paris?
Lágrimas desceram pelo meu rosto, e eu pensei no Deus de que ouvia falar, às vezes, em conversas na estalagem e nas rezas de madame:
se existia mesmo, quem sabe não me ajudaria?
Fechando os olhos fiz minha primeira prece, pois o medo do abandono me congelou.
Foi quando ouvi a voz da moça loura pela primeira vez, e ela veio justamente em minha defesa:
- Ora vamos, senhora!
Antoine é temperamental e foi ele mesmo quem derrubou as taças.
A pobre menina não fez nada de errado.
Ao ver-se interpelada justamente pela moça mais rica do grupo, madame Pointier estacou:
- Vejo que além de bela e rica, é bondosa, mas não deve deixar-se enganar!
Edite está comigo desde que foi abandonada pela mãe, mulher de poucos princípios.
Tentei educá-la, mas como vê, não fui bem-sucedida.
E preguiçosa e vive cheia de dores e febres.
Agora ainda me quebra três taças do meu mais puro cristal e ofende dessa forma um cliente como esse.
Arrume suas coisas, Edite!
Não a quero mais aqui!
Finalmente entendi que madame achava que eu não seria mais lucrativa agora que estava com a coluna danificada e ainda por cima com as dores, que rendiam febres nocturnas.
As taças não passavam de cruel desculpa.
A bela moça me olhava com simpatia e piedade, e dirigiu-se a mim com uma educação que até então eu não conhecia:
- Seu nome é Edite? Tem para onde ir?
Meus olhos estavam cheios de lágrimas, e eu só pude responder que não com a cabeça.
- Sabe cuidar de roupas, costurar, lavar, engomar?
É verdade que eu sabia, acostumada que estava a costurar os vestidos de madame Pointier.
E minha vista ainda era muito boa.
Assenti com a cabeça.
- Pois estou mesmo precisando de uma camareira, quer ir comigo?
Ela é honesta, não é, madame?
Vendo-se acuada, madame só pôde responder:
- Sim. Honesta é. E costura.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:37 am

Mas não sei se posso dispor dela assim.
Notando que madame parecia recuar, intrometi-me na conversa:
- Ficarei muito feliz de servir à senhorita, e serei fiel até o final de meus dias se me permitir ir consigo.
Não se arrependerá.
Ela me sorriu, e eu vi os dentes perfeitos e alvos na boca rosada.
- Pois pegue suas coisas, Edite.
De agora em diante trabalhará para mim.
Meu nome é Cristine.
Cristine de Besançon.
Ela era então apenas uma jovem adulta, mas já era famosa em toda Paris como artista da dança árabe, em teatros e casas de show pela cidade.
A beleza estonteante, realçada por uma iluminação de velas, e os trajes diáfanos de seda que compunham seu número deixavam seus fãs extasiados.
Diziam que Cristine não caminhava como as mulheres comuns, mas "flutuava".
Apesar do corpo exposto mais do que o comum, o número não tendia para a vulgaridade, e o som das harpas, violinos e tambores compunham seu coro habitual.
Saiu comigo em seguida da estalagem, levando todo o seu séquito consigo e
deixando formidável gorjeta para pagar com sobra pelas taças de cristal quebradas.
Perguntou-me se tinha algo de valor para levar comigo, e eu pensei em levar minhas duas mudas de roupas sobressalentes, ao que ela respondeu:
"Ora, ma chérie1’, se elas estão iguais a esta que está usando, deixe-as para trás.
Temos praticamente o mesmo corpo e tenho roupas antigas em casa que lhe ficarão bem melhor".
Era verdade, as duas éramos magras, mas Cristine era mais alta e tinha mais curvas.
Combinou comigo, para meu espanto, um salário mensal, deu-me logo uns seis vestidos e uns quatro pares de sapato (ela tinha por costume não repetir muito as roupas que usava) e instalou-me num quarto bom e confortável, numa casa aprazível de três quartos, larga sala, biblioteca, cozinha e pátio interno com jardim de inverno, além das dependências para os criados.
Um piano de cauda estava na sala de assoalho brilhante e ela tinha, além de mim, simpática empregada para a cozinha e uma arrumadeira que vinha três vezes por semana.
Eu cuidaria das roupas, perucas e outros acessórios de "madame Besançon".
Paulette era a cozinheira.
Uma figura única: pele muito branca, cabelos negros e bem anelados, já com alguns fios brancos (tínhamos a mesma idade) que iam até a cintura, mas mantinha-os presos, pois "Deus me guarde de cair cabelos na comida de madame!".
Braços fortes de quem trabalhou duro desde cedo, busto farto, cintura fina e quadris bem largos com pernas fortes, deixando-a da altura de madame.
O rosto não exactamente bonito, mas as sobrancelhas negras bem delineadas e os olhos também muito negros faziam contraste com a pele branca e o tornava interessante.
Era a perfeita imagem de "uma francesa do povo", e nos tornamos amigas.
Quem me visse um mês depois, não me reconheceria, de tão limpa e até perfumada de lavanda, com vestidos que eu tinha tornado mais sóbrios.
Notando minhas dores nas costas, Cristine mandou-me a um profissional que tratou de mim com unguentos e um colete apropriado.
Cristine fez isso por mim: tirou-me do inferno e levou-me a uma vida digna e produtiva.
O salário que religiosamente me pagava, eu guardava todo ele, pois me achava cercada de tal luxo que nada me faltava.
Depois de uma semana em sua casa conheci finalmente o senhor que lhe dava substancial "mesada" para "seus alfinetes", como ela mesmo dizia.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:37 am

Era um conde famoso em Paris por suas posses e seu casamento tradicional.
E era apaixonado por ela.
Tinha cerca de quarenta e cinco anos, era elegante, bem-educado, e se acostumou com minha presença na casa, me tratando com uma educação que me fez entender que quem tinha realmente berço não maltratava seus serviçais.
Mimava Cristine de todas as formas, cercando-a de presentes e atenções, comparecendo à sua casa todas as noites, com excepção dos finais de semana.
Nos sábados ia para sua propriedade, um palácio fora de Paris, ficar com os filhos e a mulher, que tinha idade mais avançada que a dele, e fortuna também sólida.
Na França daquela época, era comum e até mesmo aceito socialmente que homens de poder tivessem suas cortesãs.
Os casamentos, feitos pelas famílias, eram acima de tudo tratos comerciais, e ter uma "amiga" linda e de renome como Cristine era abrilhantar o próprio nome, afinal, não era fácil manter uma mulher daquele nível:
linda, culta, inteligente e artista.
A casa dela vivia quase sempre cheia de escritores, poetas, damas da noite refinadas, aventureiros, intelectuais de todos os tipos.
Afeminados também apareciam, atraídos por sua riqueza e glamour, que coleccionava jóias como uma criança coleccionaria brinquedos.
Lembro-me de um dia, quando ganhou de seu conde um colar com brincos de esmeraldas que achou um tanto exagerado; piscando um olho me disse:
- Não pretendo usar mais que uma vez semelhante "monstruosidade", mas esses brilhantes e essas esmeraldas garantirão nossa velhice, minha boa Edite.
É preciso nos precaver, pois amantes não têm vida longa, e já estou com quase vinte e cinco anos.
Era verdade.
Vistoso baú com jóias de variados tipos me contava que a velhice dela estava mais do que garantida.
Uma vez me contou sua história, embalada por um vinho que lhe fazia ter lembranças dolorosas.
- Minha família não era pobre, sabe?
Vivíamos até com relativo conforto em um sítio de meu pai, que comercializava cabras e fazia queijos.
Eu e minhas irmãs crescemos com simplicidade, mas nossa mesa era farta.
E minha mãe amava-nos muito.
- Tinha muitos irmãos?
Ela riu-se, saudosa:
- Só meninas.
Éramos quatro, e eu era a número três.
Quase todas alouradas como eu.
Meu pai nos chamava de princesas, e até os meus dez anos, fui muito feliz.
Ele nos ensinou o ofício de fazer os queijos desde cedo, tinha clientes certos e até fama em seu meio.
Mas nada que é bom dura para sempre, não é mesmo?
Meu pai estava perto dos cinquenta anos quando adoeceu seriamente e veio a falecer em menos de três meses.
Problema de fígado, nos disse um doutor... o facto é que minha mãe, já quarentona, ficou com quatro meninas para criar e um pequeno sítio.
Um bom homem faz muita falta em uma família, Edite!
Eu a ouvia em silêncio.
Nunca tinha tido uma família, nem irmãs, mas imaginei que devia ter sido difícil perder o carinhoso pai.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:38 am

Perguntei se continuaram com o negócio da família, e ela sorriu:
- Minhas irmãs mais velhas auxiliavam a minha mãe, que já não tinha a saúde muito boa, e íamos levando a vida com um pouco de dificuldade.
A verdade é que sem meu pai o produto decaiu um pouco e perdemos clientes.
Mas, o pior não foi isso:
um irmão de meu pai apareceu, vindo de Paris, e mostrou-nos papéis que provavam que o sítio não era só de meu pai, mas também dele, e que na falta de meu pai, ele era o herdeiro.
Não é preciso dizer do desespero que se abateu sobre
minha mãe quando ele pediu que desocupasse as terras... não tínhamos para onde ir!
A família de minha mãe era, além de pobre, distante.
Ficaríamos expostas ao tempo e à sociedade!
Servi-lhe um pouco mais de vinho, e notei nos olhos claros um misto de mágoa e raiva:
- Acha-me bonita, Edite?
- É linda, madame, e sabe disso.
Ela deu uma risada amarga.
- Gostaria que tivesse conhecido minha irmã mais velha, a única de cabelos castanhos e olhos bem claros.
Ela, sim, era a mais bonita de todas.
Esse meu tio interessou-se por ela fazendo a minha mãe uma oferta de casamento.
Minha mãe recusou, mas minha irmã, talvez por medo da pobreza, talvez por ambição, aceitou-lhe a corte.
Esse meu tio era bastante rico, mas de hábitos avaros.
Apesar disso cobriu-a de jóias, mas exigiu que se afastasse da família, o que, para desespero de minha mãe, ela fez.
Soltou um profundo suspiro, como se a lembrança doesse.
- Ficamos eu, minha mãe e duas irmãs com nossos poucos pertences amontoados numa carroça, com um velho cavalo, e seguimos para Paris.
Aqui chegando vendemos o cavalo e a carroça para pagar seis meses de aluguel em modesto quarto de porão, em bairro afastado.
Sem saber o que fazer, minha irmã Cozette, de quinze anos, arrumou emprego numa estalagem e trazia para casa algum dinheiro, mas mal dava para as despesas.
Eu, na época com treze anos, minha mãe e a pequena Ernestine fazíamos pequenos consertos de costura, mas mal dava para a comida.
No inverno, o porão ficou húmido e perdemos minha mãe, por conta de uma pneumonia.
Eram tempos difíceis.
Minha mãe foi enterrada como indigente, e Cozette, agora no comando da família, não sabia mais como nos sustentar.
Sentada aos pés de sua cama, observava o bonito rosto à luz bruxuleante das velas, o dourado dos cabelos sedosos e cacheados, e imaginei como ela seria aos treze anos.
Ver-se no mundo só com as duas irmãs, sem nenhum dinheiro e sem os pais para sua protecção, justo na época em que começava a se fazer mulher, devia ter sido bastante complicado.
Minha aparência física, apesar de desditosa, tinha as suas vantagens:
moças pobres e bonitas não raro acabavam por sucumbir à prostituição, devido aos avanços dos rapazes e dos homens, casados ou não.
Minha aparência, que passava despercebida a todos, tinha me poupado de sérios problemas, muito embora na adolescência eu me entristecesse por ser tão sem atractivos.
Ela me sorriu, por trás da taça de vinho, e continuou:
- Apesar de não ser bela, Cozette era esperta e não fugia ao trabalho.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:38 am

O aluguel estava vencendo e logo não teríamos onde ficar, por isso, conversou com seu patrão e conseguiu para mim um lugar de ajudante na cozinha.
Ernestine ajudava também descascando legumes e limpando o chão.
Ele não nos pagava quase nada, mas nos cedeu pequeno quarto, perto de armazém onde guardava
mantimentos, e ao menos tínhamos comida e um tecto.
Minha irmã caçula tinha dez anos então, e eu não me conformava em estarmos passando por tamanhos suplícios.
Um dia, na estalagem, o dono decidiu me fazer servir as mesas, por achar um desperdício "menina tão formosa escondida na cozinha".
Sofri todo tipo de assédio por parte dos clientes.
Sabe como são os homens com pessoas indefesas, não é, Edite?
Mas, então, conheci um senhor que realmente foi gentil comigo.
Tinha trinta e cinco anos na época e eu mal ia fazer quinze, mas me tratava com muita gentileza, e estava tão bem-vestido que me impressionou.
Mesmo assim o achava velho demais, e tentava não deixá-lo se aproximar muito.
Não adiantou.
Levantou-se, erguendo os braços e prendendo os cabelos num gesto mimoso:
- Ele tanto fez que o dono da estalagem veio falar comigo e com Cozette.
Disse que se tratava de um conde, pessoa de muito prestígio e que suas intenções eram sérias.
Muito correta, Cozette não achou graça, e disse que minha mãe e meu pai jamais aprovariam que eu me tornasse a amante de alguém, ainda mais tão jovem.
O dono da estalagem brigou, ralhou, contou das vantagens que eu teria, que minha educação e meu futuro ficariam garantidos.
Nada disso convenceu a minha irmã mais velha, que já o olhava enraivecida.
Foi quando ele olhou para mim, que estava encolhida num canto, e me perguntou:
"E você, mocinha? O que acha?
Com um partido desses poderia inclusive dar uma vida melhor a Ernestine!
Ou a quer ver sempre no chão de cozinhas alheias?".
Pensei que minha patroa e amiga era mesmo uma boa contadora de histórias, pois conseguia enxergar toda a cena.
- Que fazer então?
Ernestine era minha paixão, e eu mal sabia o que de facto acontecia entre um homem e uma mulher.
Cozette não permitia sequer que se falasse em namoros, quanto mais em coisas mais sérias.
Pensando em nos tirar da miséria, mas sem ter a menor noção do que teria que fazer, eu disse que aceitava o conde.
Esse mesmo que nos visita ao menos três vezes por semana.
Sem conseguir conter a curiosidade, perguntei:
- E Cozette? E Ernestine?
Ela sorriu:
- O conde é o cavalheiro que conhece: pagou para Ernestine a melhor escola de moças e ela se casou muito bem com um pequeno comerciante do interior.
Até mesmo providenciou-lhe um "dote".
O dinheiro compra tudo, ma chere atnie2, e mesmo Cozette, que ficou sem falar comigo por dois anos, eu consegui ajudar.
Hoje tem uma oficina de costura e também faz lindos chapéus e roupas para as damas mais refinadas.
Pobre irmã, sempre se esforçou tanto por nós!
Pelo menos agora desfruta do conforto de seu próprio trabalho.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:38 am

Vejo-a pouco, mas nos gostamos muito.
Já a mais velha, que nos abandonou, leva uma vida confortável, mas sem luxos com nosso tio, que tem um génio terrível.
Não a invejo.
Pensei na figura do conde, sempre tão educado, e perguntei:
E o conde não fica enciumado com as suas apresentações?
Ela sorriu deixando ver os dentes claros e perfeitos:
Gastón é um liberal, sempre foi.
A família dele é um poço de tradição, mas seu real meio é entre os artistas e os intelectuais.
Eu devia ter uns dezoito anos quando apareceu por aqui uma bailarina romena que me ensinou alguns passos.
Depois disso, interessei-me pela dança e nas viagens que fizemos ao Marrocos aprendi coisas intrigantes.
Foi engraçado, pois parecia que tinha nascido lá.
Na volta da viagem, reunimos alguns amigos e ele me pediu que dançasse para eles.
Coloquei uma roupa marroquina com véus, arrumei as velas e, acompanhada por tambores, fiz a dança.
Foi um sucesso!
Os amigos começaram a pedir mais e mais apresentações.
Quando vi, estava nos palcos.
Gastón de início divertiu-se, depois ficou um tanto amuado com o interesse das pessoas.
Temia me perder, creio eu.
Mas quando viu que eu estava feliz e que me apresentava apenas para um público selecto, permitiu.
Hoje é meu maior incentivador.
Nesse breve relato de sua vida conheci melhor essa minha amada e alegre amiga, que tinha me tirado de uma vida tão difícil e amarga para compartilhar com ela de conforto e segurança.
A verdade é que Cristene ganhava muito bem com suas apresentações, e gastava menos do que ganhava.
Não era tola a minha amiga.
O conde era seu maior amigo e protector, mas a paixão viria bem depois na vida da dançarina.
Antes não tivesse vindo, pois tão feliz era ela até então.
Pudesse eu afastar minha amiga dos reveses da vida, ela, que tanto bem me tinha feito, e que era minha segurança e conforto, tudo eu faria.
Gastón era um homem de extrema educação, humor refinado, coração bondoso.
Elegante, protegia Cristene de possíveis dissabores sem que ela mesma percebesse.
Notou de imediato a amizade entre nós duas, e a confiança que ela depositava em mim, e sendo um bom juiz de carácter, tratava-me também como uma velha amiga.
Não raras vezes me perguntava se não havia algo que estivesse faltando na casa, ou se Cristene tinha algum desejo escondido, apaixonado que era pela sua “déesse blonde"3, como ele a chamava.
Cristene gostava dele, de sua companhia, mas nutria por ele uma mágoa difícil de ser esquecida.
Mais para frente vocês entenderão.
René surgiu numa de suas apresentações num teatro de luxo, onde ela brilhava como atracção principal. O cheiro doce do almíscar parecia já impregnado na pele de minha amiga, e contava histórias de terras doces e nunca antes visitadas.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:38 am

Os longos cabelos muito louros estavam semi-presos numa tiara de brilhantes e pérolas, deixando longos cachos a cair pelas costas, e como vestimenta, os véus costumeiros, a mostrar e esconder suas curvas com maestria.
Notei quando o jovem alto parou no meio do salão, inebriado com os passos de dança ritmado pelos tambores e violinos de Cristine.
O jogo de luz que as múltiplas velas faziam no palco, a pele clara...
Tudo convidava ao enlevo, e o rapaz, que não devia ter mais de vinte e poucos anos, parou no meio do teatro a olhar fixamente para ela.
"Hipnotizou outro fã", pensei comigo mesma, e sorri.
Não era raro que isso acontecesse.
Cega pela iluminação do palco, Cristine raramente notava as reacções da plateia, concentrada em seu próprio ritmo.
O silêncio no salão só era quebrado pelo som dos instrumentos, e mesmo os passos da bailarina pareciam leves como plumas ao vento.
Onde teria aprendido a dançar com tamanha leveza, eu sempre me perguntava.
Aquilo não podia ser ensinado, só podia ser um dom natural.
Súbito, o corpo dela dobra-se como fino arco, ela abraça os joelhos por alguns segundos, e em seguida levanta-se, graciosa e livre, braços abertos, estendidos em reverência ao público, à espera das palmas.
O corpo branco molhado por minúsculas gotículas de suor transparente, brilhando na luz das muitas velas, parecia a mais bela das deusas pagãs.
A plateia prende a respiração e em seguida as palmas chegam vigorosas, e os gritos de aprovação varrem o pequeno mas elegante teatro.
Baixam-se as cortinas e ela vem correndo para o meu lado:
- Fui bem, Edite?
O número não ficou longo?
Sorri para ela:
- Claro que não foi longo!
Não vê os gritos para que retorne ao palco?
Ela retornou, e num costume da época flores foram atiradas ao palco.
Algumas ela pegou, e agradecendo de novo à plateia, veio finalmente a seu camarim, na parte dos fundos do teatro.
Mal tínhamos entrado, eu estava ajudando-a a se despir, quando ouvimos bater na porta:
era o dono do teatro, querendo saber se podia entrar e apresentar um novo admirador.
Não sei bem por que lembrei do moço bem-vestido que tinha visto na plateia, mas o pensamento não foi auspicioso.
Cristine pediu-lhe que viesse num outro dia, pois estava cansada e tinha que ir para casa.
Assim que transmiti o recado ao homem, ele pareceu ficar irritado.
Notando que qualquer insistência não seria bem-vinda, pediu-me o endereço para mandar flores, e eu disse que ela as receberia no teatro mesmo.
Senti nos seus olhos uma raiva contida, mas ele se foi depois de alguns minutos.
Já trocada com seu vestido de noite, Cristine pediu-me que chamasse logo Clemente, o cocheiro, pois realmente estava com um cansaço acumulado, e não conseguia mais dormir durante a noite, a não ser embalada por um bom vinho. Logo estávamos em frente à sua acolhedora casa, numa alameda cercada de jardins.
Os postes da rua tinham pouca ou quase nenhuma iluminação nas lâmpadas de gás, e a noite sem lua não tornava as coisas mais fáceis, mas ainda assim pude notar em frente à porta de entrada a figura de um homem bem-vestido, magro e alto. O cocheiro deixou-nos na porta como que a perguntar que sujeito era aquele, e eu expliquei que era um admirador da patroa, que tinha vindo visitá-la sem sua permissão.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:38 am

Empregado pelo conde, e com grande apreço por Cristine, notei nele a intenção de colocar o atrevido para correr, quando minha patroa disse:
Não se preocupe com isso, Clemente!
Depois de tantos anos acha que não sei como tratar meus admiradores?
Era esse que tentou me ver no camarim?
Fiz que sim com a cabeça. Ele inclinou-se, num cumprimento elegante, e vi de mais perto as feições iluminadas pela lanterna da porta.
Era um bonito rapaz, de facto.
Moreno claro, cabelos lisos abundantes, bem-vestido, rosto alongado de feições finas.
Se fosse uma moça, teria sido deslumbrante, tal a delicadeza de seus traços, mas era, sem sombra de dúvida, um homem.
Bonito demais, pensei eu.
E acredito que minha amiga também, pois quando notei, lá estava ela no mais belo de seus sorrisos, a escutar suas desculpas e a convidá-lo para entrar.
Eu já estava com ela há pelo menos seis anos, e nunca a tinha visto interessar-se por outro homem que não fosse o conde.
Tratava seus admiradores com educação, mas sempre com gélida indiferença, o que havia lhe dado fama de "mulher séria", numa época em que "mulheres sérias" naquele meio eram praticamente inexistentes.
Seu relacionamento com o conde já durava mais que uma década, e na França da época era perfeitamente explicável.
Famílias de renome só se casavam entre si para assim garantirem seu património eram casamentos por conveniência.
A esposa do conde, gorda senhora de origem espanhola, vinda de longa linhagem de proprietários rurais, gostava da vida no campo, e se comprazia em cuidar dos dois filhos e da casa enquanto o marido cuidava de seus interesses comerciais em Paris.
Não se falava em divórcio, e Cristine sabia que seria sempre a concubina, nunca a esposa.
No entanto, a pequena e loura bailarina era a menina dos olhos do conde, que tudo tinha feito para garantir-lhe o futuro:
imóveis, jóias, e até mesmo um pequeno sítio em Lyon (região da França afastada de Paris) tinha lhe comprado.
Era carinhoso e atencioso com ela, vendo-a pelo menos três vezes por semana, viajando três ou quatro vezes por ano para lugares lindos e exóticos.
Além disso, era um homem com um conhecimento admirável da natureza humana, amante da literatura, um livre-pensador.
Fez com que ela aprendesse diferentes idiomas, e infundiu-lhe um gosto pela leitura que se tornou inestimável, dada a vida que levava, sem filhos e nenhuma outra ocupação.
Cristine ensinou-me a ler e a escrever, elogiava-me, dando-me incentivo.
Quando a conheci cercada de pessoas, a imaginei cercada de amigos, mas, como estava enganada!
No séquito que a seguia existiam, sem dúvida, bajuladores, pequenas actrizes e dançarinas, todos eles cercando Cristine como a uma rainha, mas amigo mesmo, nenhum!
Mais de uma vez a senti solitária, ainda que estivesse no meio deles, e notei neles olhares maldosos para com minha amiga.
Chamavam-me de "a moura", por conta de minha tez azeitonada e meus cabelos escuros, e diziam que eu era leve como um gato.
Era verdade.
Esse meu "passo macio" fez com que eu ouvisse muitas vezes as conversas que aconteciam longe de Cristine, e ali eu conheci a inveja como nunca tinha conhecido antes.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:39 am

Não notavam como era boa e generosa, antes a chamavam de "tola".
A sua fidelidade ao conde diziam ser "frieza".
Isso sim era tolice: ela era alegre com ele.
Apenas não era ligada a relações carnais como seus companheiros de noite o eram.
O conde tinha sido o único homem de Cristine, e ela nunca havia dado espaço para outros.
Inteligente, ela a tudo isso notava e aos poucos foi se afastando de tais companhias.
Em sua vida, uma única coisa a entristecia: gostava de crianças, mas, como ter uma se o conde era terminantemente contra?
Ele dizia que a única coisa que tinha prometido à sua família era não ter filhos fora do casamento, e que ele mesmo não acharia justo com a criança ser criada como filho ilegítimo.
Com isso, dois abortos foram feitos ao longo desses dez anos, o último com imensa dor física e emocional para ela.
Tinha presenciado apenas um desses acontecimentos que tanto a marcaram, e sabendo da alma nobre de minha amiga, compartilhei sua dor.
Não era raro quando passeávamos ou íamos às compras que ela olhasse as crianças que passavam com os olhos meio marejados, às vezes.
Assim que isso acontecia, eu logo tentava lhe chamar a atenção para outra coisa qualquer:
um chapéu novo, tecidos interessantes...
Agora o conde estava em viagem para Marselha tratando de um carregamento de vinhos e a deixaria só por alguns dias.
E lá estávamos nós, com aquele moço em nossa sala, bonito como o pecado, mas perigoso como só eu pressentia.
Perguntado por ela, ele disse seu nome:
René, madame, a seu dispor para o que preferir.
Eu me calei, mas pensei comigo mesma que o preferia bem longe dali.

1 - Do francês: minha querida.
2 - Minha querida amiga.
3 - Deusa loura.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:39 am

III - VIDA COM CRISTINE
(NESSE PONTO DA narrativa, a amável Edite colocou sua mão direita sob delicado sensor, às suas costas, na tela, e pudemos ver bonita figura de homem, cabelos um tanto compridos, cortados à moda da época, colarinho alto, casaco bem cortado azul escuro, sobrancelhas grossas bem desenhadas, olhar penetrante, nariz aquilino e lábios finos.
Ali estava o belo René.
Altivo, notava-se nele certa petulância, e a boca pequena sorria de modo um tanto irónico.
Ela continuou com sua narrativa.
)
Ele tornou-se figura constante na casa de minha amiga, que de início permanecia fiel a Gastón, mas que já começava a se envolver com ele.
Nas noites em que o conde aparecia, Cristine o dispensava, mas na manhã seguinte lá estava, nas primeiras horas, com rosas ou outras flores.
O conde não era exactamente bonito.
Não era tão alto, nem tão forte, mas tinha o magnetismo natural dos homens bem-nascidos e cultos.
O grisalho dos cabelos bem penteados ficavam-lhe muito bem e tinha uma elegância natural, por anos de discrição e educação esmerada.
Um cavalheiro nos mínimos detalhes.
Mesmo aos empregados da casa tratava com distinção e comigo tinha especial carinho, chamando-me de ma petite maure4, pois sabia da adoração e da fidelidade que eu tinha à sua amada.
Já de René eu chamava menos atenção que um vaso de decoração comum, e eu tinha certeza de que, mesmo depois de semanas frequentando a casa, ele mal sabia meu nome.
Descobri por conversas com Cristine que ele não era de família nobre como nosso bom amigo, mas tinha um tio que era abastado comerciante, na casa de quem viera para concluir os estudos.
René queria ser advogado, mas não era muito amigo das letras, preferindo a boa vida dos salões parisienses.
Tinha vinte e quatro anos, dois a menos que Cristine, embora parecesse um pouco mais velho do que ela.
Vestia-se bem, mas de modo um pouco chamativo, e sempre com as mesmas peças, embora limpas e bem passadas.
Entendi logo que se tratava de moço sem muitos recursos, mas que dava grande valor à sua imagem.
Era divertido e fazia Cristine rir com seus comentários.
Certa vez, no meio da tarde, o conde veio à casa de Cristine procurar certos documentos e encontrou os dois em animada palestra na sala de visitas.
Como estava sentada a um canto da sala, em pequena cadeira num serviço de costura para a casa, notei quando ele entrou e estacou ao ver a cena, os dois rindo muito, afáveis, Cristine corada diante de uma mesa de chá com René, como se já fossem íntimos.
Franzindo as sobrancelhas, Gastón chamou-a:
Cristine? Temos visitas?
René levantou-se imediatamente, cumprimentando o conde com uma curvatura, e ela apresentou os dois, um tanto corada.
Muito educado, ele se retirou dizendo que só ia procurar uns documentos e tinha que sair em seguida, mas fez um sinal para que eu o seguisse.
Mal cheguei ao corredor, longe das vistas dos dois, Gastón perguntou-me há quanto tempo tais visitas ocorriam.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:39 am

Sem saber o que responder, disse que era um admirador que a vira no teatro, e que ela se sentia muito só às vezes.
O conde não era de índole ciumenta, mas dessa vez não ficou nada satisfeito com a presença do rapaz.
Para encerrar nossa conversa, disse-me em tom baixo:
Edite, não é minha intenção vigiar Cristine, mas gostaria de ser informado das visitas deste sujeito.
Sabe que não me intrometo na vida social dela, mas esse rapaz me deixou com uma impressão ruim.
Não quero que nada de mal aconteça à nossa Cristine!
Olhando-o de perto, notei as rugas de preocupação na testa e pensei no quanto compartilhava dos mesmos sentimentos dele, embora por motivos diferentes.
Não conseguia gostar de René por mais que Cristine se encantasse com ele!
Respondi que o informaria se achasse que ela corria algum perigo, e ele pareceu sossegar.
Saiu pela porta dos fundos, sem ser visto na sala, e de repente pareceu um pouco mais encurvado pelos anos.
A observar meu querido amigo, senti um aperto no peito.
Cristine era livre para ter quem quisesse, pois assim se sentia desde que tinha sido convencida a não ter os filhos que gerou.
Desde os abortos, sua relação com Gastón nunca mais tinha sido a mesma, sentia dores intensas na fronte, estava quase sempre indisposta.
Muito embora ele fosse gentil e atencioso com ela, tinha ela aprendido:
filhos ele só teria com alguém de sua mesma classe social.
O sofrimento tinha sido intenso demais, e nem todos os presentes do mundo restituiriam a ela o afecto que um dia sentira por ele, e assim comunicou-lhe que não mais lhe devia exclusividade ou fidelidade.
Se não estou à altura sequer de lhe dar um filho, como pode desejar que eu seja somente sua?
Não acha que tenho o direito de procurar alguém que me ache digna?
Essas palavras de Cristine calaram fundo em Gastón, que não conseguia enxergar sua vida sem a dançarina.
Só então ele entendeu a extensão da dor que causara, mas pensou erroneamente que com o tempo e alguns presentes teria de volta a sua amada.
E ela realmente permaneceu fiel ainda por dois ou três anos, até que René apareceu.
Ao final de algumas semanas de visitas, minha amiga estava apaixonada.
Observei a admirável mudança pelo brilho nos olhos, o interesse por novas roupas, pelo novo número que apresentaria no teatro, e pelos presentes que comprava para o novo amante:
casacos finos feitos em alfaiates famosos, sapatos de couro alemão, tudo elegante e caro.
René a tudo aceitava, dizendo que quando fosse um advogado famoso a recompensaria.
Independente financeiramente, Cristine resolveu se separar de seu protector, apesar de meus conselhos para que pensasse melhor, que não abandonasse o conde por semelhante paixão que com o tempo acabaria.
Nada adiantou!
Disse se tratar de amor verdadeiro, e que não seria honesto ficar com o conde pensando em outro homem.
Fui obrigada a concordar.
Gastón saiu de cena elegantemente, como tudo que fazia.
Deixou claro que continuaria seu amigo, e que ela poderia recorrer a ele quando quisesse, mas Cristine disse-lhe que seu novo amor era ciumento demais, por isso se manteria afastada.
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