A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:58 am

Preciso muito de você hoje!
Vendo Clemente ainda acordando, Paulette o socorreu:
- Madame, não acha melhor ele comer antes?
Ele me parece meio pálido.
A linda loura voltou sobre os próprios passos e olhou Clemente como
se o examinasse, depois sorriu, levou-o para a mesa e o sentou no banco:
- Mas é claro, Paulette! Pobrezinho!
Coma bastante, que vai precisar de energia!
Temos muito que fazer hoje!
Paulette a olhou um tanto preocupada:
- Madame, não comeu quase nada!
Não quer realmente um brioche, ou um amanteigado?
Fiz ainda ontem, estão frescos!
Não pode ficar só tomando esta bebida doce.
- Pois saiba que o café é a nova moda da Corte!
E me enche de disposição!
Comerei algo mais tarde, mas por enquanto, Edite, coma alguma coisa, pois precisarei muito de você.
Sentei-me com Clemente e comi apressadamente um brioche com chá.
Gostava do cheiro da bebida de madame, que a consumia com bastante açúcar, o que a deixava disposta.
Era "a sensação" na França, e se a deixava feliz e sem sono, por mim tudo estava bem.
Tendo visto pouco o senhor René nos últimos dias, perguntei-lhe:
- Madame, o senhor René está bem?
Ontem à noite mal o vi, mas parece que agora se tornou adepto da maquiagem.
Nem parece o mesmo!
Ela riu, mas depois pareceu entristecer-se um pouco:
- Ele precisa da maquiagem, mon amiel
A surra lhe deixou sem alguns dentes e com uma falha na sobrancelha.
De início pensei, "bem-feito!", afinal de contas tinha me roubado, mas agora me dá tristeza toda vez que olho para ele!
Parece um galo sem as penas!
Não conseguia ter pena do tratante, mas conhecendo o bom coração de madame, entendi o sentimento.
Ainda assim perguntei:
- Ele anda fumando muito aquelas ervas, não?
O quarto ficou com o cheiro.
- E verdade.
Quebrou umas costelas na surra e reclama muito da dor.
Começou a fumar por diversão, mas agora não fica mais sem o cachimbo.
O cheiro é forte, não é?
O remédio faz passar mesmo as dores, Edite, não sei o que faria sem ele.
Mas René tem tomado doses muito altas.
Não gostei daquilo.
Aliás, não tinha gostado do doutor Kayzen desde o início, mas o que sabia eu?
Disse a ela:
- Acredito que quando as dores passarem ele deixará o cachimbo, madame.
Mas, me permite uma opinião?
Ela olhava ao longe, distraída, mas me respondeu com um sorriso:
- Claro, querida.
- Não fume o cachimbo.
O cheiro é horrível, e madame é tão cheirosa!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:58 am

Não combina, definitivamente!
E depois, os tabletes têm outros efeitos, indesejados, não têm?
Ela me arregalou os olhos esverdeados:
- O cachimbo me deixa com cheiro?
"Aquele" cheiro?
Eu assenti:
- Claro, madame.
O preparado é forte.
Não combina com a senhora!
Vaidosa como sempre, ela me tranquilizou:
- Graças a Deus pelas amigas verdadeiras!
Se o cachimbo me deixa com aquele cheiro, nem no meu quarto entra mais!
Só os tabletes de agora em diante.
Demora mais pra fazer efeito, mas uma dama não pode cheira® mal.
Nem em sonhos!
Sabia que meu comentário faria aquele efeito.
Ao contrário da maior parte das francesas de sua época, Cristine era obcecada por limpeza e por cheirar bem.
No frio inverno francês eram três banhos por semana, numa banheira cheia de sais, e depois um ritual de óleos vegetais perfumados espalhados pelo corpo, enquanto suas conterrâneas ficavam o mais longe que pudessem da água, chegando a tomar apenas um ou dois banhos por mês, contentando-se com a higiene de toalhas.
No verão, dia sim, dia não, lá íamos eu e Paulette encher a banheira, onde ela passava pelo menos meia hora mergulhada, feliz como um peixe.
Eu achava meio cansativo aquela história de carregar baldes, mas Clemente ajudava, e depois, madame ficava tão feliz!
Paulette, por sua vez, exclamava:
"Não sei como consegue se manter tão linda!
Todo mundo sabe que banho demais gasta a pele!".
Mas o cheiro que ficava no segundo andar, de óleos aromáticos misturados com flores exóticas, perfumava a casa inteira.
Assim que terminei o meu brioche, ela pegou-me pela mão e arrastou-me até a sala, apontando para os móveis e me dizendo que quase todos seriam retirados.
Arqueei as sobrancelhas, dizendo:
As salas vão ficar nuas, madame!
Como vai receber os convidados?
Ela me deu um sorriso irresistível:
- Ao estilo árabe, minha querida!
Vamos até o sótão.
Subimos três lances de escada, ela com uma energia, que mais parecia uma criança, eu arfando atrás.
Chegando ao espaçoso sótão ela me apontou para uma pilha de tapetes e almofadas que trouxera de sua última viagem à Argélia com o conde, havia mais de um ano.
- Vamos precisar de todos esses tapetes.
São todos tecidos à mão, lembra-se?
As almofadas também.
Vamos precisar de espaço, senão, como ensaiaremos?
- Mas, não vai ensaiar no cabaré, como fazia antes?
- Tentando sacudir um tapete de dois por três metros, ela me respondeu:
- De jeito nenhum!
Cada novo número será uma surpresa!
Albert não me queria como estrela de novo?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:58 am

Antes ele fiscalizava os números, mas agora exigi carta branca!
Quem mandou depenar René? Morveux11!
Fiquei na dúvida sobre a quem ela se referia:
- Quem? Albert?
Ela bateu as mãos no quimono, tirando a poeira que saía do tapete:
- Não! Albert é uma raposa, mas gosto dele!
Refiro-me a René e repetiu: Morveux
E daí por diante foi assim que passou a chamar René, entredentes.
Nunca na frente dele, embora tivesse muito pouca paciência com ele.
Engraçado como, quando a paixão acaba, e enxergamos os outros como realmente são, nos aborrecemos com a simples presença da pessoa.
O rapaz já não dormia no quarto com ela, e o trato era que depois da dívida paga ele teria que ir embora.
Duvidava que fosse, mas sabia que Clemente apenas aguardaria a ordem e a situação estaria mais do que resolvida, e se isso não bastasse, eu iria até Gastón.
É certo que não estavam mais juntos, mas ele adoraria tirar o morveux dali.
Para mim constituía-se um mistério a presença dele ainda na casa.
Ela me disse que o tio não o aceitara de volta, e que ele tinha implorado, chorado, dizendo que se mataria, usando de todas as formas possíveis de inspirar piedade.
Seu estado físico também não era dos melhores depois da surra, e com isso madame se viu compelida a abrigá-lo pelo menos por um tempo.
Não adiantava, eu não conseguia sentir a menor pena!
- Não consigo entender por que o mantém aqui, madame.
Ela me olhou com os olhos um tanto tristes.
- Vou lhe contar algo, mas não quero que comente com ninguém mais.
- Não comentarei, madame.
E que me causa surpresa que fique por aqui depois de tantos aborrecimentos!
- Quando fui negociar com os credores por sua vida, muitos eram os que o queriam no fundo do Sena.
Não fez muitos amigos, como bem sabe.
Enfim, acertei com Albert os números de dança, mas a palavra de uma cortesã não é aceita como a de um nobre.
Aceitaram, mas tiveram medo que ele fugisse.
Então, o único jeito que vi foi ele ficar como meu "hóspede" até o fim da temporada, para que eu não desistisse de dançar e também não o deixasse escapar dos credores.
René na realidade é um refém de suas dívidas, de sua própria estupidez! ela disse de forma amarga.
Fiquei boquiaberta, mas fazia algum sentido.
Sem a protecção do conde, Cristine perdia muito de seu poder de barganha.
- Mas por que a senhora aceitou isso?
Será que ele merece?
- E você concordaria em ver o cadáver de um rapaz tão moço inchado e boiando no rio?
Nenhuma de nós deixaria isso acontecer com alguém.
Eu conheço bem para saber que faria da mesma forma.
E depois, serão dez números.
Passará depressa!
Esperava que sim.
O biltre levantava-se depois do meio-dia, dava ordens como se fosse um príncipe (como dizia Paulette, tivéramos um conde em casa que nunca nos dera trabalho... para nos causar aquele desconforto, só mesmo se fosse da realeza), e ainda tínhamos que vigiar a prataria da casa, depois da história das jóias, nenhuma de nós confiava nele.
Só mesmo madame com aquele coração de santa para abrigar tal criatura!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:59 am

Lembrando-me destes fatos enquanto descia as escadas, chamei Clemente e Paulette para ajudarem a descer os tapetes (numerosos) e as almofadas.
O cocheiro desceu a carga, bem-humorado como sempre, e chegando à sala, perguntou a Cristine:
- E onde quer que coloque tudo isso, madame?
É para doação?
- Não, Clemente, é para a sala, aqui mesmo.
O cocheiro olhou para a sala cheia de móveis, confuso.
- Mas, madame... não há espaço...
- Não há, mas terá! e apontando para um conjunto de namoradeiras de madeira, estofadas com almofadas de cetim, disse:
Quero isso e todos aqueles móveis bem acomodados no barracão de madeira atrás do estábulo.
Vá até a praça e contrate alguns carregadores, mas faça chegar esses móveis sem um arranhão até lá e depois os cubra bem com uma lona grossa, para que não arranhem, nem se sujem, entendido?
- Sim, madame foi a resposta do cocheiro, muito educado para comentar algo sobre se desfazer de tão belos móveis para colocar tapetes e almofadas...
Assim que ele saiu, ela começou a marcar com um giz os móveis que seriam levados, e só então lembrou-se de algo:
- Edite, acabo de me lembrar: temos dinheiro para os carregadores?
Eu sorri, lembrando-me das moedas que tinha insistido em entregar a ela e que ela me devolvera.
- É claro, madame.
Ela colocou a mãozinha branca sob o queixo e me disse:
- Pois pague e me anote quanto foi.
Assim como os gastos de Paulette na cozinha hoje e nos dias que se seguirem, meticulosamente.
Tudo isso eu vou cobrar de Albert!
Afinal, são as despesas e ele vai lucrar muito, não é justo que eu também tenha que arcar com custos.
Olhando-a admirada, respondi, já procurando minha caderneta:
- É claro, madame!
Cristine não era tola, mas seu raciocínio estava bem mais rápido.
Talvez aquela bebida que deixava as xícaras de porcelana todas manchadas de um pó marrom escuro fosse boa para algo, afinal.
Como era mesmo o nome?
Ah, sim... café!
Depois de muitas idas e vindas de carregadores, notei madame meio agastada, mão direita na testa, sinal das dores que chegavam.
Pegando uma pequena caixa de dentro do quimono, ela tirou um dos tabletes e o mastigou fazendo uma "careta" e resmungando:
"Coisa amarga", me pedindo um copo de água com bastante açúcar.
Estranhei, pois antes ela apenas engolia os tabletes.
- Por que não os engole como antes, madame?
- Kayzen me disse que triturados eles fazem efeito mais rápido. E engraçado.
Antes, um por dia fazia a dor passar, mas agora tenho que tomar dois ou mais.
Ele disse que é normal, que o corpo se acostuma ao remédio.
Não gostei nada daquilo.
Parecia que o remédio também lhe tirava o apetite, e embora madame estivesse belíssima, precisava comer bem se quisesse dançar como antes!
A dança despendia muita energia, embora ela parecesse flutuar nos movimentos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:59 am

Lembrei-me também do sono que os remédios provocavam:
- Mas esses remédios não lhe dão muito sono, madame?
Ela sorriu, misteriosa.
- E verdade.
Mas existem outros preparados que tomo, feitos por ele mesmo, que fazem o sono evaporar quando quero.
Esse doutor é um sábio! Minha vida mudou com ele.
Mas agora estou cansada.
Vou me deitar um pouco.
Quando terminarem de retirar os móveis, coloque os tapetes que depois decidiremos tudo.
Subiu as escadas e meu coração se apertou por ela.
Pobre Cristine!
Ao menos parecia mais animada com aquela agitação.
Olhei para os tapetes jogados num canto e lembrei-me das viagens em que a tinha acompanhado com Gastón.
Eram países de clima quente, gente ainda mais morena do que eu, de mulheres que andavam pela rua completamente cobertas.
Saíamos as duas sempre acompanhadas pelo conde, com roupas típicas do lugar, cabeças cobertas para não chamar a atenção.
Principalmente madame, com aquela pele branca e os cabelos louros como o sol.
Isso não nos impediu de ir aos mercados, comer as frutas açucaradas, e nos deslumbrar com a quantidade de jóias expostas.
Os árabes amavam o ouro, e trabalhavam suas jóias como ninguém!
Mas o que deslumbrou Cristine foram as tapeçarias.
Escondidas dentro de tendas, mulheres cobertas teciam à mão longos mosaicos coloridos, de olhos negros acentuados com kajal, única parte do corpo que víamos além das mãos, morenas e muito limpas.
Jóias ela tinha em quantidade, mas as almofadas e os tapetes deixaram madame quase que hipnotizada.
Ela sentou-se na frente de uma das mulheres e descobriu o rosto, dando-lhe um de seus sorrisos mais bonitos.
A mulher, ao ver a outra tão linda e rica, sorrindo para ela com tal meiguice, descobriu o rosto também, já que só havia mulheres na tenda, e nos mostrou um belo rosto árabe de uns cinquenta anos, quase sem rugas ou marcas, olhos imensos e dentes perfeitos, brancos.
Tomou a mão de Cristine e a fez deslizar sobre a tapeçaria, o que ela fez, fechando os olhos de prazer, sentindo a trama, em plena cumplicidade.
Gastón entrou na tenda e a mulher árabe se cobriu imediatamente.
Ao ver sua amada tão feliz junto aos tapetes, comprou quantos ela quis, e agora eles ali estavam, com as almofadas compradas em outras tendas.
Na época ele riu muito e comentou com ela que aquilo em nada combinava com a decoração da casa.
Ela argumentou que arte sempre tinha lugar, que qualquer hora ela usaria.
E não era mesmo verdade?
Meu querido conde gostaria de saber que sua generosidade finalmente estava sendo apreciada comentara comigo que os tapetes (pelo menos uns oito) custavam mais caro do que jóias.
Estranhei, e ele me explicou o porquê:
- Alguns levam meses, às vezes mais de ano para serem feitos.
A lã é tecida de forma a não desbotar com o tempo e, se você notar, ela tem a textura da seda, mas uma resistência notável.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:32 am

Os corantes usados nas tapeçarias são segredos seculares, e nossa Cristine tem bom gosto, escolheu a tenda de uma das artesãs mais afamadas do país.
Samara é uma artista.
Cada peça dela vale o preço de uma jóia rara.
São únicas, não existe uma que seja igual à outra.
- Foram tão caros assim, senhor?
- Está estranhando que eu comente o preço de um presente, não é?
E tem razão, nunca fiz isso.
Mas vou lhe dizer.
Sentou-se comigo e disse em tom amigo:
Essas peças são mais frágeis que as jóias que dou a ela.
Cuide para que não fiquem expostas ao tempo ou se incendeiem.
Nas mãos certas, mesmo na França, podem tirar você e Cristine de uma dificuldade futura.
São obras de arte tecidas, não deixe que se percam.
Sabe que sou bem mais velho e não quero descuidar do futuro de vocês.
Fiquei emocionada ao me ver incluída nos planos dele, com Cristine.
Ele continuou:
Quanto ao preço, não se preocupe.
Não me custou dez por cento do lucro que terei nesta viagem com o comércio desses magníficos cavalos.
Sabe que não sou exactamente "pobre", não é?
Enrubesci.
Falar de dinheiro com o conde!
Só mesmo sendo muito atrevida! Vendo minha falta de jeito ele me piscou um olho, divertido* e foi ter com sua amada, linda com os cabelos louros ao sol.
Faria o que ele me disse:
guardaria bem aquelas peças.
E, assim que chegamos a Paris, depois que Cristine decidiu que queria um tempo para pensar onde as colocaria, acomodei-as em um canto seco do sótão, longe das traças, perto do sol.
Agora, ali estavam os tapetes.
Madame desceu lá pelas três da tarde* vestindo uma túnica de seda larga de tom verde esmeralda que usava para ensaiar; comeu seu lanche, bem disposta, e arrumamos os tapetes no espaço já limpo.
Almofadas foram espalhadas por todos os lados, e ela sugeriu o uso de velas.
- Claro, madame. Desde que não as coloquemos perto dos tapetes
Não vamos querer um incêndio por aqui, não é mesmo?
Lembrando dos convidados, disse:
- Nem pensar!
Coloque-as em lugar seguro, que você conhece os rapazes do Lautrec!
Conhecia, é claro.
Três rapazes dos quais eu nunca conseguia lembrar o nome:
dois morenos um louro, bailarinos incríveis, que davam ao número um ar ainda mais exótico.
Eles eram delicados como moças adolescentes, mas no palco o que se via eram três homens de aspecto e gestualidade viril.
Paulette os olhava encantada toda vez que entravam:
de início, educadíssimos, até terceira ou quarta taça de vinho tinto, depois, como por alguma magia, a voz deles ficava mais alterada, os movimentos mais "artísticos" e amplos não raro resultando em taças quebradas e candelabros peio chão.
Velas perto deles? Nem pensar!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:32 am

Lautrec era o coreógrafo, iluminador, cenógrafo, figurinista, enfim: o faz tudo.
Imaginava os cenários, coordenava os músicos, conversava com Cristine até a exaustão sobre a coreografia dela.
Era um senhor de seus quarenta e cinco anos, cabelos encaracolados em que o grisalho se misturava ao louro.
Olhando os dois de longe, podia-se pensar que ele fosse parente de madame.
Magro, esguio, apreciador de um bom vinho, ele só bebia quando todo o trabalho acabava.
Também não era um "apreciador do belo sexo", como se dizia na época, mas amava Cristine como a uma irmã.
Embora não fosse "afectado", quando se irritava nos arrancava risos, pois tinha uma língua afiada como poucos.
As dançarinas mudavam sempre, Lautrec as escolhia conforme a necessidade do número, mas nunca passavam de quatro.
Não as escolhia pela beleza do rosto, mas pela leveza, já que não tolerava "mulheres de passo pesado".
Já os músicos eram a "parte comportada" da trupe, geralmente simpáticos:
um violinista, um violoncelista (ocasional), percussionistas (tambores, guizos)... tudo dependia do número apresentado.
Lembrei-me uma vez de ter se apresentado connosco uma harpista de grande talento.
Pena ela não estar mais em Paris!
Eles chegariam às cinco da tarde.
Eu e Paulette aproveitamos a mesa grande e dispusemos nela diversos petiscos frios, queijos, pães, frutas.
Sabíamos do gosto de madame, e isso não nos foi difícil.
Deixamos prontos também, no fogão aquecido, água para chá e o já famoso café, coqueluche entre os nobres, e separamos alguns doces em compota.
A sala ficou ampla e colorida com os tapetes deslumbrantes e as almofadas tecidas à mão, dispostas pelos cantos, e eu imaginei que reacção teria Gastón se visse a morada de Cristine, que ele considerava seu verdadeiro lar, transformado de forma tão radical, mas tão maravilhosa!
Parecia a luxuosa tenda de um marajá, só que muito mais bonita:
os quadros continuavam nas paredes, assim como os cristais nos móveis encostados, as cortinas pesadas indo ao chão e Cristine descalça nos tapetes, os cabelos louros espalhados pela túnica verde, dando seus últimos toques como boa anfitriã.
Como ele gostaria de ver sua Sherazade!

11 - Imprestável.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:32 am

XV - UMA HISTÓRIA DE SANGUE E PERDAS
0 ENSAIO CORREU bem, era divertido ver artistas reunidos, e a ampla sala de madame serviu perfeitamente.
Um único incidente marcou a noite, quando, lá pelas seis horas da tarde, René desceu as escadas:
mais magro, maquiado, sem a peruca, entediado.
Observei a sobrancelha esquerda, que tinha ficado com feia falha, embora ele tentasse disfarçar com kajal, e pensei que, para um rapaz de no máximo vinte e cinco anos, ele parecia bastante debilitado.
Como ficara no quarto o dia inteiro, olhou com certo espanto para a sala modificada e me perguntou:
Onde estão os móveis?
Cristine enlouqueceu?
Aquelas mobílias valiam muito dinheiro... ela as vendeu?
Deu-me muita vontade de dizer que madame tinha vendido tudo para sanar dívidas dele, mas segurei a língua.
Também tive receio de que, sabendo onde estavam os móveis, ele se aproveitasse e sumisse com alguns, então eu disse:
Estão no sótão, bem guardados.
Deixamos a chave com Clemente.
Foram retirados para o ensaio.
Ele olhou as longas escadarias da casa pensando provavelmente em como seria difícil retirar móveis tão pesados do terceiro andar, depois olhou para Clemente, que ao lado de Paulette se divertia muito vendo os ensaios.
Nosso cocheiro impunha respeito.
Não havia chance de ele tentar conseguir as chaves do sótão para pegar os móveis que, na verdade, estavam atrás da estrebaria, no barracão de madeira.
Eu podia ser simples, mas não era tola:
não seria fácil para ele roubar madame de novo!
Tendo sua resposta, ele se empertigou o mais que pôde e foi cumprimentar Lautrec, que respondeu rapidamente, mais preocupado com a marcação de seus rapazes.
Tinham decidido, em conjunto com Cristine, abrir mão das dançarinas, e elas fariam apenas um número inicial, sem ela.
Logo, não precisariam participar dos ensaios na casa.
Duas delas, no entanto, tinham ficado, admirando o luxo de tudo e comentando desde os tapetes até as cortinas.
Eram bonitas as duas, uma loura e outra morena clara, de olhos verdes, mas não gostei delas ali.
Olhavam madame, pelas costas, sem respeito, e a tratavam com exagerada cortesia pela frente; senti a picada da inveja e pensei em pedir a Lautrec que as mantivesse longe da casa.
Notei René indo para a cozinha de mau humor, como se a música o incomodasse.
Paulette foi servi-lo e eu resolvi acompanhá-la, tinha que avisar a Clemente de minha história sobre os móveis, antes que René perguntasse algo.
Enquanto ele se servia de pães e carnes frias, fui para perto de Clemente, chamando-o a um canto:
- Clemente, caso ele pergunte algo, os móveis estão no sótão, e você está com a chave!
Ele arqueou as sobrancelhas com surpresa para mim:
- No sótão?
Mas estão atrás da estrebaria, no barracão, bem cobertos... quer que leve para o sótão?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:33 am

Notei que ele tinha ficado preocupado com a perspectiva de subir três andares com pesados móveis de marchetaria e madeira maciça nas costas, e disse:
- Não seja bobo!
Disse isso a ele para que não se atreva a pegar nenhum móvel de madame!
Se ele souber que estão aqui embaixo, bem que pode ter algumas ideias.
Você não quer isso, quer?
Ele me olhou, tentando entender:
- Então é mesmo verdade que esse malandro anda roubando madame?
Achei que fosse exagero de Paulette!
Ele respirou fundo, tentando absorver a informação:
- Não entendo como madame o mantém aqui.
Tão linda, podia ter o homem que quisesse!
Pode deixar, vou cobrir com mais uma lona pesada e espalhar feno por cima.
Esse cretino não vai chegar nem perto deles.
E por mim, os móveis estão no sótão.
Satisfeita com sua atitude, fui saindo, e ainda o ouvi resmungar:
- Bom mesmo era o conde voltar!
Aquilo sim era um cavalheiro.
Mas, vá se entender as mulheres.
René ali era mesmo um mistério para nós três.
Nem eu, nem Clemente e muito menos Paulette entendíamos o que fazia ali aquele rapaz que só desgosto trouxera.
A cozinheira dizia que ela podia ter "uma pequena queda" por ele, e eu quase acreditava, até que naquela mesma tarde presenciei algo que me tirou da dúvida.
O ensaio estava no fim; Cristine, cansada, sentada sobre várias almofadas nos
tapetes; Lautrec, na mesa principal tomando vinho.
As dançarinas que tinham ficado conversavam em voz baixa com René, sentados na escada principal.
Os músicos já haviam sido dispensados e voltariam dali a dois dias, quando outro ensaio se realizaria.
Paulette e Clemente, na cozinha, começavam a lavar as taças e os pratos usados.
A morena de olhos verdes, curvilínea, de seus dezoito anos, bonita, mas de uma forma comum, encantava-se com René e sussurrava coisas ao seu ouvido, enquanto este olhava para Cristine com um ar de satisfação, por ser alvo da atenção descarada da moça dentro da casa de madame.
A outra moça, nessa hora, já tinha se despedido.
Eu observava a cena pensando: se eu fosse minha patroa, atiraria na tratante algum objecto próximo, uma xícara ou uma taça.
Eu nunca a vira com ciúmes de René, mas já presenciara uma cena em que ela jogou chá no rosto de uma mundana por suas atenções "exageradas" com o conde.
Por isso, achei que a situação não acabaria bem.
A postura dos dois era indecorosa.
Apesar de educada, Cristine não aturava falta de respeito.
"Certas pessoas só entendem esse tipo de linguagem, Edite", tinha ela me dito depois de a mulher atingida com o chá se levantar dando pulinhos e sair da sala rapidamente.
O conde ria disso com frequência, desde que madame não estivesse por perto.
Gastón também não era nenhum tolo.
Muito me surpreendeu quando ela levantou-se do chão com graciosidade, esticando-se como uma garça, passou ao lado de René e da dançarina como se não os tivesse visto, e sentou-se em frente a Lautrec, que sorriu com aprovação diante da atitude dela.
Começou a conversar com ele sobre alguns aspectos do número, entre uma taça de vinho e outra, até que o amigo não se conteve e perguntou:
- Como estão as coisas entre você e esse rapaz, minha querida?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:33 am

Ela colocou os cotovelos na mesa e apoiou o rostinho nas mãos:
- Não estão.
Enganei-me redondamente com ele, não era nada do que eu imaginava.
Sabe do motivo pelo qual estou voltando a dançar, não?
Lautrec recostou-se na cadeira de espaldar alto:
- Paris inteira comenta que você sacrifica-se para pagar as dívidas de jogo dele.
Imaginam que deva estar imensamente apaixonada!
Falam também que Gastón a enganou por anos, dando-lhe jóias falsas.
Ela me olhou enquanto eu retirava a mesa e os ouvia, e me disse:
- Sente-se Edite.
Deixe que mais tarde ajeitamos tudo.
Quero que fique aqui comigo.
Sentei-me sem demora.
Que absurdo estarem falando aquilo de Gastón!
Olhei para ela um tanto irritada.
Ela disse ao coreógrafo:
- Paris adora uma boa história, e quanto mais desoladora melhor!
A cortesã enganada pelo nobre e explorada pelo amante! - ela riu.
O que eu lhe contar, já que somos amigos, ficará aqui?
Lautrec empertigou-se na mesa.
Eu sabia o quanto ele gostava de madame:
- Ora, Cristine!
Não precisa nem pedir.
Há quanto tempo lhe conto meus segredos?
Mesmo assim, ela não lhe contou a verdade completa:
- Pedi a Edite que ficasse, pois é minha amiga mais querida e sabe a verdade.
Gastón nunca me enganou.
O património que ele me deixou é muito mais em imóveis que em jóias.
As cópias das jóias, fui eu quem mandou fazer.
Não gosto de investir em coisas que podem ser tão facilmente roubadas, meu querido.
E depois, vidro também brilha!
Jóias eu tenho, claro.
Mas são apenas as essenciais.
Lembrei-me da caixa de madeira no meu quarto e sorri com a mentira.
Ele a olhou meio assombrado:
- Mas não as deu a René para pagar as dívidas?
- Claro que não!
Tentar enganar credores astutos com imitações?
Não sou tão tola!
Ele as roubou achando que eram verdadeiras.
- Roubou? Mas que patife!
Ela olhou o rapaz, que continuava em conversa baixa com a morena na escada:
- Agora está lá querendo me fazer ciúmes.
Não é um tolo? Quem é a moça?
- Chama-se Justine.
Tem um rostinho bonito, mas é tola como uma menina de cinco anos.
E adora dinheiro!
Faz bonito no palco, mas nunca será uma estrela.
É só uma figurante.
- Adora dinheiro?
E acha que René tem algum? Por favor, Lautrec, avise a moça... as roupas caras dele podem enganá-la.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:33 am

Não tem onde cair morto, nem o tio o quer de volta!
Eu o deixo ficar por aqui como um favor!
Lautrec, que com seus mais de quarenta anos já conhecia a noite parisiense de longa data, virou-se para ela com um sorriso malicioso:
- Então realmente não o quer mais?
Mas, quem diria... o comentário geral é que você está loucamente apaixonada!
Ela baixou os olhos, tirou de pequena bolsa um de seus tabletes e mastigou-o com uma pequena careta.
- Gastón machucou-me muito.
Agarrei-me a René mais para esquecê-lo do que qualquer outra coisa.
Agora sinto pena dele! E tão imaturo!
Sequer sabe manter uma conversação de nível.
Não é engraçado que antes o que parecia ser charmoso, com o tempo, torne-se enfadonho?
Eu o trouxe para um mundo onde ele queria entrar, mas que não pertence a ele.
A noite parisiense não é para qualquer um.
Agora ele tentava chamar a atenção de Cristine exagerando nas risadas e nos trejeitos com Justine.
Lautrec, bem mais realista que minha amiga, retrucou:
Pois deixe que se encante com Justine.
Quem sabe ela não lhe arranja um quarto onde ficar?
Afinal, apesar da falta de alguns dentes, ele ainda tem uma boa estampa.
- Quem me dera!
Assim pelo menos me resolveria um problema.
Na realidade, não é apaixonado por mim, mas pelo luxo que me cerca.
Quanto à dança, é certo que o ajudo, mas também me ocupo e me divirto!
Continuei a retirar a mesa enquanto os dois discutiam detalhes a respeito do figurino, um completando a ideia do outro.
Davam-se bem,-mas Cristine só confiava em mim, e mesmo assim não era tudo que me contava.
Quando voltei da cozinha, depois de ter ajudado Paulette com a limpeza da prataria, os dois ainda estavam recostados, tomando-vinho, madame visivelmente embriagada.
Imaginei que fosse efeito do remédio com o álcool e fiquei por perto.
Tinha medo que passasse mal.
Vendo-a assim fragilizada, Lautrec, que também já estava "alegre", disse-lhe:
- Sabe que tenho estado muito com Gastón?
Ele vai ao cabaré pelo menos três vezes por semana.
Ela o olhou com interesse:
- Já tem uma nova preferida?
Gastón ainda é jovem, mal tem cinquenta anos.
E o dinheiro é um charme extra.
- Não faltam candidatas, querida.
Chega a ser ridículo:
se amontoam aos pés dele, que pede bons vinhos, paga a conta e se retira sempre sozinho.
Não acho que a tenha esquecido, e, como sabe, ele detesta vulgaridade.
Ela levantou-se, cansada de ficar sentada.
Mas, com muito sono: para se manter erecta, deitou-se languidamente nas almofadas, a boca rubra de vinho, os olhos esverdeados mirando-o tecto.
Lautrec sentou-se nos tapetes, perto dela, que lhe confidenciou:
- A maior parte das pessoas acha que fiquei com Gastón apenas pelo dinheiro.
Nada mais longe da verdade.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:33 am

No início, eu em meus quatorze anos, tinha por ele um pouco de medo, que logo foi dissipado por uma inegável simpatia.
Depois, ele sempre foi tão gentil que a admiração veio, e acabei me apaixonando.
O amigo recostou-se numa coluna para ouvi-la melhor, em seu olhar eu via simpatia e curiosidade.
Ela continuou:
- É claro, havia a condessa.
Mas eles são como água e óleo de tão diferentes... e os filhos.
Ele me diz que sempre tentou se aproximar dos filhos, mas que eles herdaram o temperamento e o gosto da mãe.
Assim, sentia que seu verdadeiro lar era aqui, junto de sua cortesã.
Fui a mulher dele por mais de dez anos, acompanhei-o em viagens, dormi ao seu lado, e homem nenhum na França ou em outro lugar pode dizer que me teve em seus braços.
E por um tempo fui feliz com ele, não posso negar.
Pensei em levá-la para o quarto, mas parecia feliz ali com o coreógrafo, que a escutava enlevado.
Deitou-se ao lado dela como só amigos chegados ® fazem e segurou sua mão:
-Querida, é óbvio que ainda se amam.
Por que não volta para ele?
E uma perda de tempo tão lamentável!
O amor é um luxo raro, Cristine, e não vem de graça.
Alguns sacrifícios são necessários, entre eles o perdão.
Os olhos de Cristine encheram-se de lágrimas, e ela pareceu recordar:
Ele disse que me daria tudo que eu quisesse, menos filhos.
Desde o nosso primeiro beijo, deixou isso claro como água.
Eu era tão jovem, então...
Ele é que se ocupava de evitar crianças; com o tempo, porém, mesmo eu aprendi certos métodos.
Mas olhava as crianças na rua, Lautrec, tão lindas!
Não queria mais jóias, nem propriedades: queria um filho!
Ele se manteve em silêncio, ela continuou:
-A primeira vez que engravidei tinha dezanove anos.
Não foi planejado: aconteceu.
Esses métodos, como você bem sabe, às vezes falham, e quando ele viu, eu estava tonta de tantos enjoos e sem ter a menor ideia do que estava acontecendo.
Uma criada minha da época me alertou que eu devia estar grávida, foi um choque para mim.
Não sei de onde veio a vontade de ter o bebé.
Gastón me visitou naquela mesma tarde, e eu pedi, implorei.
Pela primeira vez ele me negou algo.
Disse que eu era muito nova, e que ele tinha prometido ao pai não ter filhos fora do casamento.
Que tinha eu com as promessas que ele fizera ao pai?
Lautrec a olhou com espanto:
- Ele deu a palavra ao pai?
No meio de suas lágrimas, vi um olhar de raiva contida:
- Sim. Parece que o pai tivera um irmão ilegítimo, que quase desgraçou a família.
Gastón então jurou a ele que não colocaria os filhos em risco, e se empenha em manter a palavra.
Mas eu queria tanto o bebé!
- Cristine, entre famílias antigas, palavra é coisa séria.
Não se rompe promessa dessa forma, por isso ele lhe prometeu tudo, menos filhos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:34 am

Ela me pediu um café, que eu fui providenciar.
Quando voltei, mada* me continuava com o rostinho inchado, molhado de lágrimas, Lautrec á segurar sua mão.
- Da primeira vez foi fácil, meu amigo.
Mal tinha dois meses de gestação, tomei um preparado e as regras desceram no dia seguinte, com muitas cólicas, mas tudo se normalizou.
Ainda assim demorei a esquecer a mágoa.
Ele me levou a viagens, me encheu de mimos, ainda assim não conseguia esquecer.
A dança apareceu na minha vida nesta época, e me entregando a ela, consegui superar.
Ela me olhou, num olhar cheio de carinho:
- Alguns anos depois, Edite chegou em minha vida!
E tem sido» um anjo da guarda desde então.
Jurei que não engravidaria mais, tinha parado de chorar quando via Crianças, mas de repente, aos vinte e três, notei novamente os sintomas, e disse a ela.
Sentei-me ao lado de Cristine, recordando a época de então.
- Achei que ela fosse apoiar o conde, mas concordou comigo.
Eu tinha dinheiro, por que não ter o bebé?
Gastón, depois de certo tempo, concordaria; não sabia viver sem mim.
Era o que achávamos.
Escondemos-minha barriga ó máximo possível, com faixas que não apertassem demais, até que um dia Gastón me viu saindo da banheira, aos cinco meses de gravidez.
Vi no rosto dela, pupilas dilatadas, pálida como uma boneca de porcelana, o ódio pelas lembranças:
- Impossível descrever o que ele me disse.
Edite ouviu apenas o final, mas nunca, em toda a minha vida, sonhei em ouvir tamanhos insultos.
Imaginou que eu queria mantê-lo preso, tirar a herança de seus filhos, como se isso fosse possível.
Me fez sentir como uma rameira, justo a mim, que nunca tinha sequer olhado outro homem.
O "gentil" Gastón parecia tomado de fúria, disse que me mandaria uma parteira no dia seguinte, e que eu não criasse dificuldades.
Que eu me lembrasse de quem ele era, e de que podia tornar minha vida o pior dos calvários.
Lembrava-me das últimas palavras e do conde furioso, inclusive comigo, que tinha acobertado o segredo, apoiando Cristine.
Nobres como ele, naquela época, tinham um poder de vida e morte sobre gente comum, e ele deixou claro o que aconteceria caso ela insistisse.
Impossível esquecer aquela noite e o dia posterior.
- Chorei o tanto que podia assim que ele saiu.
Edite pensou em fugirmos para uma de minhas propriedades mas eu sabia que isso seria inútil, que ele nos acharia.
Tomei tamanho asco por ele que comecei ali mesmo a rejeitar o bebé em meu ventre:
tal homem não merecia um filho meu!
Que ficasse com os seus filhos legítimos!
Lautrec custava a acreditar no que ouvia:
- Mas quem diria:
Gastón sempre foi tão gentil contigo!
Nunca imaginei que a trataria assim.
- Acostumado com pessoas que só estão com ele por dinheiro, acreditou que eu o estava enganando, que queria mais dinheiro.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:34 am

Sentiu-se traído e matou o que eu sentia por ele.
No dia seguinte chegou uma senhora de seus cinquenta anos, muito asseada, mas de tez amarelada.
Pediu a Edite toalhas e água quente, e aos prantos eu permiti que me fizesse o aborto.
Pensei no quarto com os lençóis empapados de sangue.
Como esquecer os gritos de Cristine, os ferros finos como agulhas de tricô com pequenos e assassinos ganchos na ponta, que a senhora usara, e o medo que tive de que ela não sobrevivesse?
Naquele dia eu mesma odiei Gastón, que apareceu à noite para saber se tudo "tinha corrido bem".
Respondi a ele a verdade, que sua amada tinha passado por dores excruciantes, perdido para sempre a possibilidade de ter filhos, e estava lutando entre a vida e a morte, com febre e hemorragia.
Não conseguia olhar para ele, disse que se perdêssemos Cristine eu não o perdoaria.
Pensei nas roupinhas de criança que madame já tinha começado a comprar, nos planos que fazíamos juntas, e desatei num choro baixo.
Caindo em si pela primeira vez desde o seu desatino, ele perguntou:
- Ela está entre a vida e a morte?
Olhando-o finalmente, eu respondi:
- Ela disse que quer morrer.
Ela viu o bebé quase "pronto", era uma menina, como ela desejava.
Foi cortada por dentro, teve o útero em pedaços.
Faz ideia das dores?
Ela quer morrer!
Achei que ele fosse entrar pela casa até o quarto dela, mas equivoquei-me.
Saiu pela rua desatinado, entrou na carruagem e voltou quarenta minutos depois
com um senhor de aparência séria, que me disse ser um médico experimentado.
Esse senhor ficou com Cristine por mais de uma semana, estancando o sangue na primeira noite, e levando dias para baixar a febre.
Foi por esses dias que consegui perdoar Gastón.
Não comia, não dormia e não podia entrar no quarto dela, pois, quando entrava, ela pedia ou gritava que ele se retirasse.
Ficou como uma sombra pela casa, esquecendo-se de compromissos sociais, mulher, filhos, qualquer outra coisa.
Cochilava em cadeira dura do lado de fora da porta do quarto dela, atento aos gemidos de dor que ela dava, perdido em seus remorsos.
Na terceira noite cheguei perto, ajoelhando-me para falar com ele, que estava sentado na cadeira já havia três dias.
- Senhor conde - disse-lhe -, sei que se preocupa, mas parece que a febre de madame está baixando.
Vamos para o quarto de hóspedes, que a cozinheira preparou uma canja.
O senhor precisa se alimentar.
Ele me olhou como se não me enxergasse:
E ela, já está comendo?
Menti um pouco, pois ela se alimentava mal e ainda vomitava:
- Sim, senhor.
Hoje mesmo tomou dois pratos de sopa.
Ela vai melhorar, senhor!
Saiu da cadeira com alguma dificuldade, dado o incómodo da posição por muitas horas, mas finalmente se dirigiu para o quarto de hóspedes.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:34 am

Eu trouxe uma bandeja com a canja que ele tomou sem apetite, sem poder me olhar nos olhos, e depois me disse:
- Como pude dizer aquelas coisas a ela, Edite?
Que tipo de demónio se apossou de mim?
Me senti tão enganado...
Disse desde o início que lhe daria tudo, menos filhos!
Se tivesse me dito no começo da gravidez, nada disso teria ocorrido!
Não quis responder nada.
A injustiça me doía ainda.
Estavam perdidos os planos que nós duas tínhamos feito para a menina.
Homem tolo! Cristine nunca lhe pediu nada, ele é que a cobriu de presentes durante toda a vida!
Não sabia diferenciar uma rameira de uma mulher como madame?
Achava que tinha sido o único nobre a se interessar por ela?
Ofertas nunca faltaram, mas ela sempre dissera "não", fiel a Gastón, como sua mulher verdadeira nunca tinha sido.
Ele me perguntou, de olhos baixos:
Acha que ela se recuperará, Edite?
Com certeza, senhor.
O baque foi duro, mas madame é jovem.
Pena que não poderá mais ter filhos.
A essa minha resposta, ele soltou uma lágrima:
- E me perdoará?:
Lembrei-me do sangue no quarto, dos gritos de dor dela, do desespero ao ver a criança mutilada, e não consegui mentir:
- Com o tempo, senhor... quem sabe, não é mesmo?
Mas desde então ele nunca mais conseguiu tocar em Cristine.
Ele continuou visitando-a, trazendo presentes que ela devolvia, pagando as despesas da casa, dormindo no quarto de hóspedes.
Ela conversava com ele, o tratava bem, mas deixou claro que já havia se machucado o suficiente:
se ela não era digna de ter filhos dele, não o queria em sua cama, e ponto final.
Aí começaram as dores de cabeça, fracas no início, com o tempo, cada vez mais fortes.
E depois, desesperada por Gastón não se afastar dela, resolveu envolver-se com René, aquele mesmo rapaz que agora estava ao pé da escada flertando com a bonita morena para impressionar Cristine, mas que já olhava desconfiado para o nosso trio, sentado no tapete.
Foi quando Lautrec, secando suas lágrimas, abraçou-a colocando sua cabeça em seu ombro.
Tão perdida em lembranças dolorosas quanto ela, sequer reparei que o tolo rapaz se encaminhava em nossa direcção, irritado, e com um puxão tirou Cristine dos braços do amigo:
Bem que desconfiava!
Afeminado, pois sim!
Não sabe que Cristine é minha senhora?
Acha que estou aqui só de enfeite?
Madame, que estava um tanto adormecida pelo Temédio, a essa reacção acordou e safou-se das mãos dele:
- Pois trate de me respeitar, René!
Afeminado ou não é meu amigo de muitos anos.
Que foi, enjoou-se de Justine?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:34 am

Aja assim novamente e Clemente terá um serviço extra lhe colocando na rua.
Francamente!
Eu, sua senhora? Já não lhe disse que não estamos mais juntos? Clemente!
Ao ver o cocheiro entrar com um ar nada amigável, ele logo se retraiu.
As surras que tinha levado o tinham deixado receoso.
Pois não, madame.
- Acompanhe seu René até a rua.
É hora dele levar Justine para casa.
Sem entender, Clemente levou René e Justine, os quais, de olhos arregalados, também tentavam entender a cena.
Pela expressão da, moça, vi sua confusão:
não era ele o amante de Cristine?
A casa não era dele?
Lautrec observava tudo divertido, ao final colocou as mãos nos quadris.
- Querida, pobre do conde por ter perdido uma mulher como você!
Gosto de Gastón, mas se preservou tanto a herança dos filhos verdadeiros, espero que eles não o decepcionem.
- Ela lhe deu um abraço apertado.
Ele continuou:
- Sabe que pode contar comigo, não sabe?
E você também, Edite, precisando, é só chamar!
Nos vemos em dois dias!
Ê foi-se.
Coloquei madame, já sonolenta, na cama, e fiquei olhando-a dormir, a respiração fraca, a tez pálida.
Não demorou e ouvi René voltar, batendo a porta, irritadiço.
Gritou com Paulette por comida ou algo mais, pelo jeito o vício do jogo estava falando alto.
Percebi seus passos pelo corredor, senti o cheiro acre do cachimbo e pensei:
pelo menos vai dormir, *
Não achava nada bom aquele moço continuar ali.
Madame não notava, mas a cada dia ele estava mais instável e intratável.
Impedido de jogar, parecia uma fera enjaulada, e trocava sua fome de jogo pelo uso incessante da droga, que já deixava os seus dedos amarelados pelo uso.
Seriam cinco meses de temporada de Cristine no cabaré, não achava boa ideia aquele sujeito por perto até que madame sanasse sua dívida.
Pensei em falar com Gastón, mas Cristine ficaria irritada comigo.
Clemente era forte, mas agia de forma limpa; na taverna onde eu trabalhara, já vira muito bom lutador sucumbir a uma falseta do adversário, e René não era confiável.
Sentia-me vivendo com uma cobra dentro de casa.
Senti uma vontade de rezar, e orei, pedindo protecção para todos nós.
Mais calma, dirigi-me até o meu quarto, fora da casa, e pareceu-me escutar cariciosa voz nos meus ouvidos:
"Todo cuidado é pouco, Edite...".
"Eu sei...", respondi.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:35 am

XVI - CONVERSA COM UM VELHO AMIGO
FALTAVAM POUCOS DIAS para a estreia de madame e começava a primavera em Paris.
Passando pela frente do cabaré, encarregada de levar alguns adereços para o palco, com Clemente, dei com o cartaz que anunciava o evento:
um retrato de Cristine de corpo inteiro, exibindo o rosto de perfil, usando o traje de dança, num fundo lilás escuro.
Em letras grandes e douradas o nome dela.
O cartaz chamava a atenção, primeiro pelo tamanho (muito maior que os normalmente usados), depois por um detalhe especial:
estava envolto num fino véu de seda transparente, que remetia ao Oriente e se levantava quando a brisa batia.
O efeito era de tirar o fôlego.
Imaginei se aquilo não teria sido ideia de Lautrec, inspirado pelos véus usados por madame em seus números.
Ficamos parados eu e Clemente, olhando o artefacto de publicidade um tanto estupefactos, como que enfeitiçados pela beleza da coisa em si, esquecidos dos inúmeros pacotes que tínhamos que levar para dentro do estabelecimento, quando ouvi uma voz conhecida pelas minhas costas:
- Está cada dia mais bela, n'est-ce pas12?
Olhei e vi o rosto de Gastón embevecido pelo retrato de sua amada, ele continuou:
- O tempo tem sido um bálsamo para ela.
Mas para mim, quanta diferença!
Realmente estava abatido o meu amigo, parecia mais magro e ainda mais triste.
Pedi a Clemente que entrasse com os pacotes enquanto eu conversava com nosso querido conde.
- Não fale assim, senhor!
Não sabe como lhe ficam bem esses cabelos grisalhos, e depois, para os homens tudo é diferente!
Enquanto nós mulheres envelhecemos, alguns de vocês ficam apenas mais experientes..
Ele me ofereceu o braço.
Sabendo que o cocheiro demoraria um tempo com Lautrec, aceitei, satisfeita de ter a oportunidade de falar com ele.
Que falta me fazia conversar com Gastón, como as coisas podiam ser diferentes!
Convidou-me a sentar numa confeitaria para conversarmos, o que eu prontamente aceitei.
Puxou-me a cadeira, como se eu pertencesse mesma classe social.
Cavalheiros como o conde eram raros!
- Como está a nossa querida?
Soube que fará longa temporada para pagar as dívidas de jogo daquele homem.
Baixei os olhos, mas já desconfiava que ele soubesse de tudo.
Está melhor, senhor.
Parece que as dores de cabeça dela finalmente estão melhores com os remédios daquele médico chinês, e ela está muito, animada em dançar novamente.
Sabe como gosta de dançar!
Ele me olhou sério:
- Confio naquele médico chinês como confiaria numa cobra.
Mas se você diz que ela está melhor...
O que se comenta é que os pacientes dele estão sempre comprando cada vez mais tabletes, e que não se curam nunca.
Não posso criticá-lo, pois os remédios comuns não aliviavam a dor dela, mas a vigie de perto, Edite.
Esses remédios viciam!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:35 am

Alguns dizem que são piores do que o álcool.
Ouvi o que ele me disse e, embora tenha ficado preocupada, fiquei surpresa.
Cristine vinha tomando cada vez mais tabletes, e agora estava misturando com outras medicações que eu não fazia ideia do que eram.
Uma garrafinha de líquido claro era sua companhia constante, para quando o sono a atingia de forma mais pesada e ela tinha que ensaiar.
Preferi não dizer nada ao conde.
Ele continuou:
- Ela não anda "aspirando" o remédio; não é?
- Não senhor!
Sabe como madame é asseada e detesta mau cheiro.
Ela só toma os tabletes para a dor.
Menos mal. Aspirado pela fumaça ele pode até ser letal.
O rapaz tem cuidado bem dela?
- Lembrei do irresponsável René, que vivia, ele sim, "fumando" ópio durante boa parte do dia, e fiquei na dúvida do que dizer.
Optei por uma "verdade educada":
- Ele, não a agrediu ou foi desrespeitoso com ela, senhor.
Quanto a "cuidar dela", acho um tanto improvável, já que mal cuida de seus próprios interesses.
Gastón suspirou, triste e irritado:
- Não consigo entender o que ela tanto gosta nele! Se fosse inteligente, artista, bem nascido... eu até entenderia!
Não precisaria ter dinheiro, que nunca achei Cristine interesseira.
O que lhe dei de presente ela nunca me pediu, dei porque quis!
Mas ficar com um rapaz que mal sabe conversar, um tolo completo, e ainda viciado em jogo!
Tudo isso só pela aparência jovem?
Calei-me diante daquele desabafo, imaginando que seria a única pessoa com quem ele tinha a liberdade de falar assim.
Ele continuou:
- E ainda por cima lhe dá suas jóias, e arranja um jeito de pagar suas dívidas
de jogo! Deve estar loucamente apaixonada para estar tão cega.
- Lembrando-me de René já há muito no quarto de hóspedes, sem alguns dentes, e da confissão de Cristine de que mal o suportava, eu ri.
Ele me olhou assustado:
- Quer me dizer o que há de engraçado nisso?
Segurei o riso:
- As coisas não são o que parecem, senhor.
Ele me olhou curioso:
- Como assim?
Devia fidelidade à madame, mas ela não havia me pedido nenhum segredo de sua situação, e depois, apesar dos seus erros, sabia que o conde a amava.
Num impulso, resolvi contar:
- Madame não sente mais amor pelo rapaz, senhor, só pena.
Teve uma pequena paixão por conta da fragilidade em que estava, mas, mesmo nessa época, não foi nada tão forte como o senhor pode pensar.
Ele tinha se afastado na cadeira da confeitaria e me olhava com uma atenção que nunca tinha me dado antes.
Continuei:
- Não dirá nada à madame?
Não quero que ela brigue comigo.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:35 am

Gastón se apoiou na mesa, segurando minha mão esquerda com leveza, mas de forma firme:
- Nada sairá desta boca, Edite. Conte-me.
Retirei a mão suavemente, suspirei fundo:
- Paulette diz que o que madame teve foi uma "gripe".
De início achei graça, mas hoje tenho que concordar.
Como um desses vírus que vêm e passam sem maiores consequências.
Lembro-me de Cristine com o senhor, e não era nada parecido.
Ela nunca se interessou em saber aonde 0 rapaz estava ou com quem.
Nunca teve ciúmes.
Achava-o divertido, bonito e até um tanto tolo.
Tinha simpatia por ele, e como estava fragilizada ele se aproveitou.
- Se aproveitou de que forma?
- Ora, senhor!
Ela é bela, inteligente, querida!
E ainda por cima não tem dificuldades financeiras.
Acostumado que estava a seduzir mocinhas tolas, ele se viu com a cortesã mais bela da França, não havia como não se deslumbrar!
Cristine é uma criatura gentil, mas não é tola.
Ele se achou no direito de usufruir de tudo que ela conquistara.
Junte-se a isso a ganância e o vício do jogo!
Gastón estava tentando juntar os factos, entender determinadas coisas.
- Ela deu a ele suas jóias, não foi?
Disseram-me que ele levou uma surra feia.
O que houve?
Não era o bastante para sanar a dívida?
Eu lembrei-me das jóias falsas e da confusão ocorrida.
- Na realidade, ela deu algumas jóias, senhor.
Muito poucas.
Mas, se lembra que o senhor mesmo me aconselhou a fazer réplicas, não?
-Sim.
- Pois as fiz.
Das peças mais valiosas e importantes, sem que madame soubesse, e guardei no lugar habitual.
Ele as pegou sem consentimento, os credores do jogo as avaliaram e descobriram que eram cópias.
Daí veio a surra...
- O conde riu a não mais poder, chamando a atenção dos clientes em volta.
Em voz baixa eu completei:
- Desde que descobriu o roubo, Cristine, que já não o achava tão interessante, colocou-o fora de seu quarto.
Ele só está na casa para garantir aos credores que não fugirá, enquanto ela não paga a dívida.
Ela não comenta isso com mais ninguém, mas sei que esse é o motivo:
por pena dele, que estava ameaçado de morte, aceitou fazer a temporada.
Albert está arcando com os gastos, mas René está desesperado, pois, por conta do roubo, madame o despreza como nunca desprezou ninguém.
Corado depois do acesso de riso, o conde parecia dez anos mais moço.
Olhou-me com simpatia renovada e disse:
- Ah, ma petite mame, parece que há séculos que a vida não tinha algum sentido!
Deus sabe o quanto tenho pago pelos meus erros!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 8:35 am

Olhei para ele em dúvida se não tinha falado demais.
Para que não se iludisse, tive que dizer:
Senhor, não creio que madame queira viver novamente com o senhor.
Que não ama o rapaz, é certo.
Mas, se o senhor quer seu perdão, é um longo caminho de volta.
Ela sofreu demais!
- Os olhos dele se tornaram marejados de lágrimas, que ele não se preocupou em esconder:
- Sei do meu crime, minha querida.
Vivi anos tentando fazê-la feliz, e tive um dia de verdugo atroz.
O que não daria para voltar atrás, mas não posso!
Meus filhos só me dão desgostos, herdaram em tudo o temperamento da mãe, que me detesta e fez com que me detestassem também.
Quem sabe não seria essa menina que matei de forma covarde e sem sentido quem me ampararia na velhice?
É verdade, Edite, a velhice chega para todos nós.
E sempre que vou à casa que devia ser a casa de minha família, sinto solidão, além da impressão de não ser bem-vindo.
Sorvi um pouco do chá com limão, que já estava um tanto frio.
- Lembra-se que durante as semanas em que Cristine esteve entre a vida e a morte, por minha exclusiva culpa, não saí de perto dela?
Isso aprofundou uma ruptura já existente em minha família, mas não me arrependo.
Como somos diferentes, eu e meus filhos!
Pilar é tola e voluntariosa como a mãe, brigam a todo instante.
Tem sido difícil lhe arranjar casamento, apesar da fortuna, pois tem um génio difícil e os pretendentes fogem como ratos assustados.
Sem dizer que está ganhando peso com uma enorme rapidez!
Lembrei-me do comentário de Cristine sobre a aparência da mulher do conde.
Deus quisesse que a filha não fosse pelo mesmo caminho.
Ele continuou:
- Já Leon acredita-se um grande comerciante!
Mas como perde dinheiro!
- Ele também tem o vício do jogo, senhor?
- Graças a Deus, não!
Mas com que facilidade é enganado!
Nunca realizou uma negociação que desse lucro, pequeno que fosse.
Tenho minhas desconfianças, falei delas com a mãe deles, que ficou escandalizada.
Mas esse dinheiro todo perdido na mão de rapazes jovens não me cheira a boa coisa!
Tivemos um caso assim na família, e eu tenho medo até de pensar que a história se repita!
Não sabia dessas particularidades, que ele, aliás, nunca citava em nossa casa.
Cristine uma vez tinha me dito que a casa verdadeira de Gastón era junto dela, e eu agora tinha a confirmação disso.
Mas, se tinha preconceito com o filho, não se podia dizer que discriminasse os amigos de Cristine.
Por exemplo, Lautrec.
Artista de vários talentos (pintava, escrevia, esculpia, entendia como ninguém de dança, Lautrec era inteligente e educado.
Vestia-se à moda masculina, sem grandes afectações, sempre de forma impecável.
Filho de burgueses remediados, tinha estudado com padres até seus dezasseis anos, quando decidiu ingressar nos teatros ambulantes e foi-se tornando actor e dançarino, como se tivesse nascido para a coisa, para escândalo de seus pais, que por um bom tempo o exilaram.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:33 am

O exílio terminou com a viuvez da mãe, que se viu perdida entre inúmeros credores e acabou sustentada pelo único filho, este já bem arranjado financeiramente, que a acolheu com carinho, alugando-lhe aprazível casinha, onde a mantinha com uma criada.
O tempo dá suas respostas.
Fosse Lautrec vingativo, a pobre senhora teria passado fome na velhice.
Mas ele cuidara dela, e agora tinha uma dedicada mãe, que, se antes se envergonhava dele, agora só lhe tecia elogios.
Erudito como poucos, autodidacta, Lautrec e o conde davam-se muito bem> embora este, às vezes, comentasse comigo e com Cristine:
Esse rapaz é mesmo um assombro!
Não fosse pelos seus "gostos estanhos" poderia ser qualquer coisa na vida!
Cristine ria e dizia que Lautrec era exactamente aquilo que queria ser, e era feliz assim.
Tantos pequenos favores prestou ao conde que acabaram amigos, apesar dos preconceitos de Gastón, e agora ele parecia passar pelo mesmo "problema" com o rapaz Leon.
O mundo dá voltas!
A próxima pergunta dele me pegou de surpresa:
- Cristine então pretende viver permanentemente de sua dança, depois do compromisso com os credores?
Não, senhor...
Madame tem outros planos.
Ele ficou curioso:
que planos seriam esses, Edite?
Com a dança ela ficaria mais rica, além de atrair mais admiradores.
Madame ama a dança, isso sempre fez parte dela.
Mas a perda da menina lhe despertou um lado desconhecido.
Disse-me que deseja ir para 0 interior e ajudar crianças desprotegidas.
Fiquei feliz com a ideia, já que adoramos crianças e são tantas as que necessitam!
Gastón pareceu ficar em choque, não esperava isso da dançarina...
Empalideceu com o que me pareceu ser vergonha de sua atitude com ela, ficou uns instantes em silêncio, para depois me dizer:
- Nunca desistirei dela, Edite.
Se quer saber, acho a ideia admirável.
Quem sabe assim não expio um pouco de meus pecados? Me aproximarei dela de novo, aos poucos, e vocês podem contar com mais um colaborador depois da temporada.
Ao menos como amigo, ela me deixará ficar por perto, não acha?
Não sabia se Cristine o veria como amigo, mas valia a pena tentar.
Ele sofrera bastante, e aprendera valiosas lições.
Isso sem falar no morveux René, que estava na casa e me causava medo e desconforto.
Ter o conde por perto talvez o deixasse menos atrevido.
- Aproxime-se mesmo, senhor, aos poucos.
Sabe como madame é..
Estamos tendo ensaios com Lautrec, quem sabe ele não o leva um dia desses?
- Com Lautrec?
Isso facilita bastante!
Clemente vinha chegando, e já me olhava com o ar preocupado de quem estava atrasado para outros afazeres.
Levantei-me e fiz a reverência habitual.
- Não conversamos, lembra-se?
- E claro, pequena amiga!
Apenas nos vimos na rua!
E assim me despedi.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:35 am

Pedi a Clemente discrição e, quando ele perguntou o porquê, expliquei que René não inspirava confiança, e talvez madame precisasse de um velho amigo.
Educado e inteligente, ele assentiu>
- Com aquele lá, todo cuidado é pouco.
Em casa, encontramos Paulette na cozinha "lutando" com uma massa de pão, os cabelos quase negros cheios de farinha.
Ainda assim estava bonita e corada:
- Esse vai ser para o lanche da tarde!
Com tanta visita não há comida que baste!
Notei Clemente interessado num doce de amora que estava no fogão e antes que tirasse meu chapéu ouvi um estrondo que fez com que nós três corrêssemos para a sala.
Cristine estava estirada no chão, em cima dos tapetes, René no primeiro lance de escadas, com o rosto pálido por baixo da maquiagem, e o relógio alemão, imenso móvel de madeira e vidro, estilhaçado no chão, ao lado da dançarina.
Vendo o vidro perto do rosto de Cristine, corri a acudi-la, mas o cocheiro foi mais rápido, levantando-a do chão e colocando-a nas almofadas.
Estava tão pálida, o rosado dos lábios tão branco, que eu achei que ela não acordaria.
_ Que foi que aconteceu aqui? - perguntei a René.
Atrapalhado, ele não sabia o que fazer, se chegava perto dela, ou se corria para seu quarto.
Balbuciando, ele respondeu:
- Não sei, estava descendo as escadas, começamos a conversar e de repente ela ficou branca como a neve, agarrou-se no móvel e caiu!
Três pares de olhos acusadores olhavam para ele, quando Cristine começou a voltar a si.
Olhou-nos como quem não sabia onde estava ou quem éramos, o que me deu uma angústia no peito, uma dor:
Cristine... Paulette, traga água!
Querida, que aconteceu?
Esse bruto lhe empurrou?
Você bateu a cabeça?
Ela colocou as duas mãos na cabeça como se tentasse tomar ciência da situação, olhou-nos e a René, que já ia argumentar contra a acusação, e então falou:
- Calma, ninguém me empurrou.
Ia subir a escada, estava discutindo com ele, mas tenho tomado tantos remédios!
Fiquei tonta e aí me agarrei em algo!
Ela olhou o relógio despedaçado no chão, o vidro ainda espalhado, e tomou com sofreguidão a água oferecida por Paulette:
- São apenas três da tarde.
Quantos tabletes tomou hoje, querida?
Ela me olhou um tanto confusa:
Não me lembro bem, acho. que uns seis!
Paulette me segredou que ela não havia comido nada desde que acordou, ao que ela respondeu:
- É que eles me tiram a fome.
Mas, tem razão!
Me traga alguma coisa, Paulette.
Hoje ainda tenho ensaio, não posso ficar tão fraca!
Traga também café, bem doce!
Bandejas foram trazidas com frutas, queijos, carne defumada, pães e café.
Ela comeu bem, ainda que parecesse estar se obrigando a isso.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:35 am

René olhava tudo sentado em outra almofada.
De cachimbo na mão, pronto para acendê-lo, ela reclamou:
- Nem pense em acender isso aqui!
Não quero esse cheiro na minha sala.
Já chega o tanto que me faz gastar com isso, pelo menos fume em seu quarto!
Irritado, ele saiu.
Notando a animosidade entre os dois, perguntei:
Ele a tem agredido, madame?
- É agressivo, mas não é tolo, Edite!
Quem lhe pagará os luxos caso eu não esteja aqui?
Está irritado porque não tenho ciúmes dele e se sente humilhado.
Mas não se sentiu assim quando me roubou, não é mesmo?
Se Justine o levasse, eu lhe daria um prémio!
As cores voltavam ao seu rosto.
Seis tabletes!
Será que eram seis mesmo?
Lembrei-me de Gristine logo que a conheci; era raro nela um comentário mordaz, ou o humor ácido.
E isso agora estava se tomando uma constante.
Depois de seu sofrimento e do uso do medicamento, ela tinha variações de humor entre a alegria desmedida e a ironia triste.
A alegria eu via quando ela dançava, leve como uma pluma, livre em seus passos.
O mau humor e a melancolia até Lautrec estava notando, muito embora associasse isso ao sofrimento causado pelo último aborto.
Ainda assim continuava encantadora.
Droga nenhuma tiraria dela a bondade natural, a delicadeza no trato com humildes.
Parecia apenas amplificar seus sentimentos:
uma vez rimos muito ao vê-la entrar na cozinha e abraçar demoradamente Paulette, dizendo o quanto gostava dela.
A Cristine de antes demonstrava seu afecto com pequenas delicadezas, a de agora dava "beijos estalados".
A cozinheira ficara vermelha, mas adorara!
Com Clemente ela continuava "mantendo â compostura", fora uma vez em que vimos passar uma pequena menina de cabelos louros, enfeitados por fitas, justo na hora em que eia subia na carruagem, o que eu achava que já era superado voltou; ela teve um choro convulsivo.
O cocheiro ficou muito sem jeito ao lidar com moça tão bela a soluçar em seu ombro.
As pessoas passavam e o olhavam com cara fechada.
Ele, duro como um pedaço de madeira, já que não podia se permitir abraçar madame para consolá-la:
era como se ele a tivesse feito chorar muito, já que ela dava nele "pequenos socos" no peito, como que para se conformar da menina perdida.
Foi um alívio quando ela finalmente entrou no coche.
Algumas pessoas já tinham parado, pensando em tirar satisfação daquele senhor de bigodes!
Por fim, ela secou as lágrimas e falou em outro assunto, o que aliviou nosso desconforto.
Tá com René ela tinha pouca ou nenhuma paciência.
Acostumado com uma mulher apaixonada, o biltre agora tinha que lidar com a linda Cristine a lhe chamar de "imprestável" e "ladrão".
Não que fosse mentira, mas antes ela apenas lhe viraria o rosto.
Finalmente notando que a havia perdido, ele desesperava-se e drogava-se o tempo inteiro, tendo alterações de humor ainda mais profundas.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:35 am

Só que o rapaz não era bondoso como madame e descarregava sua raiva chutando móveis, quebrando objectos e sendo descortês com o resto de nós.
A impressão que me dava é que pouco faltava para que ele um dia a agredisse.
Não concordava com Cristine:
sua falta de juízo era tamanha que um dia poderia atacá-la, e eu temia não estar presente.
Não tinha como controlar a quantidade de tabletes que madame tomava, mas sabia do amor dela por mim, logo usei de outro expediente:
me fiz de triste por umas boas horas, até que ela, notando, perguntou-me: sps1Que tem, Edite?
Parece preocupada.
- E estou madame.
Penso que estou perdendo minha maior amiga!
- Ora, não diga bobagens!
Tudo isso só por conta de um desmaio?
- Não é apenas o desmaio, madame.
A senhora não tem comido quase nada! Sei que é linda, mas como terá forças para sua dança se continuar assim?
Quer tomar os tabletes para aliviar sua dor, tome, mas alimente-se!
Os franceses não gostam de mulheres muito magras, madame!
Ela olhou-me desconfiada e foi se ver no espelho.
A imagem mostrou uma linda mulher, de seus vinte e oito anos, que mal aparentava vinte, mas realmente magra.
Franzindo as sobrancelhas, ela perguntou-me:
Acha que estou feia, Edite?
Preparei-me para exagerar, pois minha preocupação era genuína.
Cheguei perto dela e apertei a roupa sobre seu corpo, mostrando as curvas e às linhas das pernas:
Sejamos francas, madame, pois sou sua amiga: onde estão aqueles quadris arredondados e aquelas pernas longas, mas torneadas?
Continua linda, mas está magra demais.
Sei que o remédio lhe tira a fome, mas lhe dá enjoo?
- Não, querida!
De forma nenhuma! Ao contrário, meu estômago está bem.
Só me esqueço de comer, e depois, não quero ficar gorda como a mulher do conde!
Iluminei seu rosto sem marcas com uma vela, e menti:
- Pois não nota que mulheres magras demais costumam ficar enrugadas cedo? Não vê sua amiga Madeleine?
Referia-me a cortesã famosa que realmente envelhecera cedo pelo uso abusivo do álcool, por doenças e magreza.
Ela colocou as mãos sobre o rosto:
- Deus me livre!
Está certa, minha amiga! Pode deixar que vou voltar a me alimentar bem!
Tenho horror de ficar velha cedo!
Pobre, Madeleine!
E com isso ela voltou a comer ao menos três refeições por dia. Nada como a vaidade para incentivar as mulheres!
Cristine mandava Clemente pegar seus remédios de dez em dez dias com Kayzen no centro da cidade.
Um dia, com a desculpa de compra» aviamentos, fui com ele: queria conversar com o médico, estava preocupada com madame.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:36 am

Só que o rapaz não era bondoso como madame e descarregava sua raiva chutando móveis, quebrando objectos e sendo descortês com o resto de nós.
A impressão que me dava é que pouco faltava para que ele um dia a agredisse.
Não concordava com Cristine:
sua falta de juízo era tamanha que um dia poderia atacá-la, e eu temia não estar presente.
Não tinha como controlar a quantidade de tabletes que madame tomava, mas sabia do amor dela por mim, logo usei de outro expediente:
me fiz de triste por umas boas horas, até que ela, notando, perguntou-me: sps1Que tem, Edite?
Parece preocupada.
- E estou madame.
Penso que estou perdendo minha maior amiga!
- Ora, não diga bobagens!
Tudo isso só por conta de um desmaio?
- Não é apenas o desmaio, madame.
A senhora não tem comido quase nada! Sei que é linda, mas como terá forças para sua dança se continuar assim?
Quer tomar os tabletes para aliviar sua dor, tome, mas alimente-se!
Os franceses não gostam de mulheres muito magras, madame!
Ela olhou-me desconfiada e foi se ver no espelho.
A imagem mostrou uma linda mulher, de seus vinte e oito anos, que mal aparentava vinte, mas realmente magra.
Franzindo as sobrancelhas, ela perguntou-me:
Acha que estou feia, Edite?
Preparei-me para exagerar, pois minha preocupação era genuína.
Cheguei perto dela e apertei a roupa sobre seu corpo, mostrando as curvas e às linhas das pernas:
Sejamos francas, madame, pois sou sua amiga: onde estão aqueles quadris arredondados e aquelas pernas longas, mas torneadas?
Continua linda, mas está magra demais.
Sei que o remédio lhe tira a fome, mas lhe dá enjoo?
- Não, querida!
De forma nenhuma! Ao contrário, meu estômago está bem.
Só me esqueço de comer, e depois, não quero ficar gorda como a mulher do conde!
Iluminei seu rosto sem marcas com uma vela, e menti:
- Pois não nota que mulheres magras demais costumam ficar enrugadas cedo? Não vê sua amiga Madeleine?
Referia-me a cortesã famosa que realmente envelhecera cedo pelo uso abusivo do álcool, por doenças e magreza.
Ela colocou as mãos sobre o rosto:
- Deus me livre!
Está certa, minha amiga! Pode deixar que vou voltar a me alimentar bem!
Tenho horror de ficar velha cedo!
Pobre, Madeleine!
E com isso ela voltou a comer ao menos três refeições por dia. Nada como a vaidade para incentivar as mulheres!
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