A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:36 am

A dosagem que preparo para madame de Besançon é uma das mais baixas que já fiz, e tem surtido efeito.
Se quiser, posso aumentar a dose da medicação nos tabletes, assim ela tomará menos cápsulas, mas o efeito pode ser mais devastador.
Um frio me passou pela espinha:
- Prefiro que continue com a dosagem de sempre, doutor.
- Eu poderia colocar, em alguns tabletes, compostos fitoterápicos de menor poder hipnótico.
Não sei se aliviarão por completo a dor dela, mas dormirá.
Diga a ela para tomar no máximo oito tabletes por dia, e tomar muito cuidado com o álcool.
Na realidade, madame não me preocupa.
0 rapaz que vive com ela, sim.
' Refere-se à René?
Mas ele não toma seus tabletes.
- Meus tabletes contêm ópio diluído a um grau infinitesimal.
O que o rapaz fuma é puro.
A fumaça lhe enche os pulmões e lhe atiça o cérebro.
Em meu país, essa droga era usada com parcimónia, apenas em casos medicinais, como os de madame.
Depois tornou-se uma epidemia.
Desde que ela não fume, estará bem, principalmente com o outro medicamento associado, que combate os efeitos do primeiro.
Entendi que falava não com um farsante, como pensara de início.
Notando já há algum tempo o comportamento errático de René, perguntei:
- Esse medicamento, quando fumado, causa agressividade?
Ele levantou-se e pegou dois frascos de cor âmbar no armário; com os tabletes de Cristine.
- Os efeitos podem ser desde agressividade a euforia.
Pode causar alucinações, mas também provoca sensações de bem-estar provisório que iludem o usuário.
Em doentes terminais, pode ser de excelente utilidade, mas em rapazes fortes, que além disso o associam ao álcool, o efeito é imprevisível. O rapaz tem emagrecido?
- Sim. E seu humor é bastante instável.
Antes preocupava-se em ser ao menos
neutro com os criados, mas agora é francamente grosseiro.
Tenho receio dele com madame, que só o suporta devido a compromissos assumidos.
Ele compra as drogas com o senhor?
Kayzen me olhou com seus olhos castanhos quase negros, orientais, como se achasse a pergunta ofensiva:
- Minha clientela é selecta.
Forneci ao senhor René pequena quantidade certa vez, depois de ele muito me pedir, mas não vendo esse tipo de droga, como costumam afirmar na sociedade, a pessoas que não sofrem de dores crónicas ou que não estejam muito mal.
Pelo que sei, ele compra de outro fornecedor, e a procedência dessas drogas não é garantida.
Se eu fosse a senhorita, protegeria melhor sua madame.
Não acho esse rapaz confiável.
Vendo que o tinha ofendido de alguma forma, desculpei-me:
Não era minha intenção ofendê-lo, senhor.
Se assim o fiz, peço que me perdoe.
A droga o tornará uma pessoa má?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:36 am

Sua fisionomia abrandou-se, mas eu nunca mais esqueci suas palavras:
- Uma droga, qualquer que seja, não toma alguém mau ou bom, senhorita.
Apenas amplifica o que já há na pessoa.
Se a pessoa é generosa, pode se tornar perdulária.
Se é ressentido, medroso, orgulhoso ou egoísta, pode tornar-se violento, ou até mesmo assassino.
Se é triste, pode se tornar suicida.
Muitas vezes o alegre torna-se ridículo, o apaixonado, inconveniente, e por aí vai.
Mas um ser humano bondoso não sai a esfaquear pessoas por conta de uso de drogas, a não ser que esteja tomado por alucinações.
O jovem René é imaturo, tolo, mau e agora pode estar tendo alucinações.
Você é uma mulher inteligente, senhorita.
Tire suas próprias conclusões.
Agradeci a ele, vesti meu casaco e, pegando os frascos de Cristine, desci as escadas de sua sala.
Um senhor de aspecto burguês, bem-vestido, aparentando cinquenta anos, aguardava sua consulta, com uma moça que devia ser sua filha, de tão parecidos que eram.
Vendo-me pálida, com os frascos embrulhados em papel de seda, Clemente me olhou desconfiado:
- Então, Edite, foi tudo bem lá?
Pegou os remédios de madame?
Peguei sim. Tinha uma ideia errada do doutor.
Não é mau como pensei.
- Então por que esse ar fúnebre?
Entrei na carruagem, mas antes disse a ele em voz baixa:
- Estou tentando "tirar minhas conclusões"..
- Olhando-me como se não entendesse, ele seguiu.

12 - Não é mesmo?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:36 am

XVII - DÚVIDAS DE NANA
(Narrativa de Ariel)

FORAM VÁRIOS DIAS de narrativa em que Edite nos contava sua história.
Sem que ela desconfiasse, outras pessoas da Colónia também ouviam sua narrativa e as explicações de Serafim, através de transmissores instalados no Centro de Literatura, que os levavam a vários lares dali.
Tímida, não se sentiria bem se soubesse do interesse de tantas pessoas, e nosso irmão achou que era hora dela saber de seus ouvintes anónimos.
Ela arregalou os olhos castanhos, espantada:
- Quer dizer que além dos que nos ouvem pessoalmente, mais pessoas na Colónia nos escutam?
- Não é nosso objectivo, querida irmã, passar os ensinamentos do mestre através de experiências vividas em nosso plano terrestre?
Sei de sua timidez, mas sua história tem feito parte da vida de muitos em nossa Colónia, e muitos aqui já se sentem agradecidos por esse compartilhamento. depois, tudo tem corrido bem, não é mesmo?
Muitas pessoas talvez atrapalhassem o desenvolvimento de seu raciocínio, que tem sido muito claro.
Ela o olhou como se tivesse desvendado um mistério:
- Então é por isso que tantas pessoas me sorriem e me cumprimentam quando eu passo?
Elas têm me ouvido desde o início?
- Praticamente.
Boa parte da Colónia adora ouvir relatos, ainda mais como os seus.
Suas imagens também têm sido precisas e comoventes.
Também aqui aprendemos, Edite, e você tem ajudado muito!
Ela baixou os olhos, envergonhada com o elogio, mas o aceitou.
- Fico feliz de poder auxiliar de alguma forma quem quer que seja, Serafim.
Só espero fazer jus à responsabilidade.
- O bom Deus nos guiará, tenha certeza.
Aproximaram-se de nós Esthefânia, Nana, Clara e Olívia, em animada conversação.
Minha esposa expressava particular encantamento pela nossa "menina-fada", divertia-se com ela, que brilhava sempre um pouca mais que o resto da sala.
Vendo-nos ã sós, Nana, que fora negra em sua última encarnação, e muito reservada, comentou com Edite:
- Mas que coisa, hein?
O conde, tão tradicional...
Quer dizer que o rapaz filho dele era afeminado?
Que choque deve ter sido para ele.
De facto, o rapaz era "afeminado", como diz.
Mas tínhamos muitos amigos assim: no mundo das artes da França, na época, isso não era raro.
Lautrec e seus rapazes também tinham essa característica é nem por isso eram menos respeitados.
Embora o conde fosse preconceituoso, eu e Cristine nunca fizemos esse tipo de distinção.
Nana escutava boquiaberta, pois, embora fosse de natureza bondosa não conseguia entender como "tais coisas aconteciam".
Clara observava a antiga babá de forma divertida, já que também não tinha preconceito, mas alguma curiosidade sobre o tema; Esthefânia teceu um comentário que a deixou ainda mais pensativa:
- Embora meu marido na época não soubesse, tive um amigo que era homossexual.
E assim que se chama Nana:
homossexual, não "afeminado".
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:36 am

Era inteligente, educado, caridoso e sofria intensamente com o preconceito alheio.
Olhei Esthefânia um tanto perplexo.
Não me lembrava de nenhum amigo dela homossexual.
Lendo meus pensamentos, ela me esclareceu:
- Claro que o conheceu.
Não se lembra do Antunes, meu querido?
- Antunes? O jornalista?
É verdade que era mais seu amigo do que meu, mas era só um solteirão, não um homossexual!
- Era uma época difícil é preconceituosa, meu esposo.
É verdade que ele não aparentava, mas também não mentia.
Nunca teve namoradas, nem casou e levou uma vida dupla, como alguns faziam.
Sofreu com essa sua inclinação, a refreou o quanto pôde, mas se apaixonou, como todos nós.
Sofreu muito, tudo calado.
Eu era sua única confidente.
Sabiamente você nunca teve ciúme de nossas longas conversas.
- É verdade.
Embora tivesse o ciúme natural de um marido de mulher bonita, do Antunes nunca me ressenti.
Sentia como se ele fosse seu irmão.
Tem notícias dele?
- Ao que soube, reencarnado.
No nosso Rio de Janeiro, como mulher dessa vez.
Espero que esteja feliz, pois bem o merece.
É uma alma boa.
Nana estava de boca aberta ante essas informações, e Serafim divertia-se observando a cena.
Ele lia as dúvidas no pensamento dela; acompanhei seu olhar a Olívia, que interferiu, brincalhona:
- Ora vamos, Serafim!
Explique logo a Nana antes que ela fique sem dormir ou nos julgue loucos!
Alma simples e pura, criada em sua última existência com valores morais do início do século vinte, era mesmo complicado para Nana, babá de Clara, entender tantas informações.
Serafim resolveu ser claro e paciente para que ela entendesse melhor.
Sabe que o bom Deus nos dá diversas vidas para que aprimoremos o nosso espírito e ingressemos no caminho do bem, que é o que traz a nossa felicidade, não é Nana?
Ela, humilde, e que respeitava Serafim como a um mestre, respondeu:
- Claro, irmão.
Isso já me foi ensinado.
O bom Deus nos dá diversas vidas, como um pai que dá chances a um filho para acertar seu caminho.
- Você não nota, Nana, que há nos homens e nas mulheres características diferentes?
Não que todos os homens entre si sejam iguais, nem as mulheres, longe disso.
Mas espera-se que numa mulher existam qualidades como a paciência, que a faz esperar nove meses pelo filho, a doçura, a meiguice.
Já dos homens é esperada a força física, a bravura, a disposição para o trabalho árduo que proverá a família.
Não era assim em seu tempo na Terra?
Segurei 0 riso com a reacção dela, assim como Olívia e Clara:
- Era para ser, não é?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:37 am

Mas nem sempre isso acontecia disse uma Nana meio irritada.
Cansei de ver mulher impaciente e homem preguiçoso!
Valha-me Deus, irmão!
Tinha que se ter muito jeito para viver na Terra, ainda mais nascendo negra, como nasci.
Não era todo mundo como a menina Clara aqui, bondosa como ela só.
Passei por muita coisa...
- Tudo tem uma explicação, Nana.
Na realidade reencarnamos diversas vezes como homens e como mulheres.
Quem sabe alguns dos "homens preguiçosos" não teriam vindo no sexo masculino justamente para que a família cobrasse deles desde cedo a responsabilidade para o trabalho fora do lar, aprimorando-lhes assim o carácter?
Durante muito tempo isso não foi cobrado das mulheres, o labor fora de casa.
Nana arregalou os olhos redondos com espanto:
- Quer dizer então que são mulheres reencarnadas?
São afeminados?
Foi a vez de Serafim rir, com Olívia, da simplicidade da pergunta:
- Claro que não são afeminados, Nana.
São espíritos preguiçosos, egoístas e indolentes.
Existe na preguiça um egoísmo que independe da condição sexual, pois o preguiçoso muitas vezes não passa de "vampiro" que manipula o outro para sua própria subsistência.
Os "afeminados", ou homossexuais de qualquer género, são uma situação distinta.
Foi a vez de Edite participar da conversa:
- Aliás, entre nossos conhecidos homossexuais raramente vi a preguiça.
Eram todos activos e trabalhavam bastante... inteligentes, também.
No meio artístico da França do século XVIII eram comuns, e aceitos com naturalidade.
Entre a burguesia e a nobreza os valores eram diferentes.
O comum era que se escondessem e se casassem.
Soubemos de muitos escândalos abafados.
Não teve contacto com esses nossos amigos, teve, Nana?
Ela olhou Edite como se tentasse lembrar algo, mas logo respondeu:,
- Fiquei sempre restrita em nosso meio familiar, fui empregada minha vida inteira na família de Clara e lá não tínhamos contacto com gente assim.
Mas ouvíamos falar de uma vizinha que tinha umas preferências diferentes.
Fui donzela minha vida toda, não entendo muito disso, mas não sei como um homem pode preferir ficar com outro homem, ou uma mulher com outra mulher.
Me parece um pecado dos mais sérios!
Vi em Serafim aquela mesma luz prateada, enquanto ele dava um triste sorriso.
Parecia se recordar de tristes histórias em tempos longínquos, e seu breve silêncio nos deixou quietos e pensativos.
Enfim ele falou:
- Pecado, Nana, é tudo aquilo que ofende a Deus.
Nosso mestre Cristo tanto nos pediu que não julgássemos o nosso semelhante, que O amássemos e o amparássemos sempre.
Em sua casa entravam o colector de impostos e a prostituta, e ele tinha para esses, que eram os maiores "pecadores" de seu tempo, uma palavra amiga, um sorriso e um consolo.
Isso causou escândalo em seu tempo, muitos foram os judeus que se afastaram do Messias por conta disso, julgando-o "impuro".
Rechaçaram assim o filho do homem, por seu coração sem preconceitos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:37 am

Admirada com a luz que saía dele, Nana perguntou:
-Não havia afeminados no tempo de Jesus?
Nunca ouvi falar do Cristo com nenhum deles.
- O sorriso de Serafim permaneceu triste:
-Sempre existiram "afeminados", Nana.
Mas a pena para os que se revelavam em Israel era a morte.
Por isso não é de se estranhar que não sejam citados.
Mas deve se lembrar do mestre com outra "condenada à morte" pelas leis judaicas.
Lembra-se da adúltera?
- O rosto de Nana iluminou-se:
Claro:
"Que atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado" disse, orgulhosa de mostrar seu conhecimento.
-E existe alguém sem pecado que possa julgar esses nossos irmãos que nascem de forma tão peculiar, apenas por ser minoria?
Vi no semblante dela uma dúvida:
- Então eles "nascem" assim?
Não "escolhem" ser assim?
A resposta de Serafim veio rápida e simples:
- E acha que alguém escolheria ser discriminado, muitas vezes ofendido, incompreendido?
Nascem dessa forma, minha querida.
Não são nem melhores nem piores que ninguém.
São seres humanos, criações divinas com seus próprios ímpetos, vontades, qualidades e defeitos como qualquer um de nós.
Filhos de Deus muito amados, como todos os seres do planeta, que muitos dos preconceituosos me escutem:
pecado é julgar-se acima de Deus, e condenar suas criaturas.
Que pai gosta de ver seus filhos maltratados por uma simples condição de nascimento?
Ela ainda parecia confusa:
- E se é para sofrer, por que nascem assim?
- E qual de nós não sofreu sobre a Terra, Nana?
Nosso próprio mestre não foi vítima de tantos preconceitos por ser filho de um simples carpinteiro?
Achavam que o Messias devia vir de família rica, ser um rei, como David e depois, por que nascemos ricos ou pobres, feios ou bonitos, saudáveis ou não?
Tudo tem seu motivo.
E alguns desses nossos irmãos, como todos os outros, têm vidas felizes e cheias de realizações, a despeito do falatório alheio.
É uma característica, não um defeito.
No Oriente, e em algumas culturas, eles são bem mais aceites desde a antiguidade
Lembrei-me que em minha última encarnação terrena eles eram vistos com severidade por outros motivos:
- O que acontece na cultura ocidental, irmão Serafim, é que muitas vezes os associam com promiscuidade.
E o facto é que alguns deles levavam uma vida sexual nada regrada, se é que me entende.
Ele me olhou com certo espanto:
- Sabe o meu amigo que a promiscuidade sexual infelizmente nada traz de bom, devido às pessoas que você recolhe no umbral.
O sexo é uma energia poderosa que não devia ser tratada de forma vil.


Última edição por Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:38 am, editado 1 vez(es)
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:37 am

Mas são apenas os homossexuais que padecem desse mal?
Lembrei-me imediatamente de inúmeros casos:
- De forma nenhuma, o amigo tem completa razão.
A maior parte de pessoas que recolhi por males dessa natureza nada tinha a ver com homossexualidade, embora alguns heterossexuais os procurassem para satisfazer seus desejos por curiosidade ou perversão.
As taras, como sabe, independem de sexo, idade ou posição social.
- Ele completou seu raciocínio:
- Ainda assim devemos acolhê-los e tratá-los.
Não acolhemos o homicida que se arrepende?
Quem de nós tem um passado de tantas encarnações sem mácula?
Clara, sempre discreta, citou um caso que nos deixou pensativos:
- Em nosso trabalho no umbral soubemos de uma senhora extremamente preconceituosa, que chegou a arruinar a vida do filho por seu temperamento e que hoje, graças à chance da reencarnação, habita um corpo masculino com tendências bastante femininas.
Sua família espiritual tem tido bastante trabalho para que haja da parte desse espírito a aceitação de sua condição, mas tem sido duro.
Embora homossexual, continua preconceituosa, mesmo vivendo em família de cunho liberal.
Nana olhou Clara inquisitivamente:
Reencarnou corno afeminado? Foi castigo?
- Claro que não, Nana!
Para aprendizado!
Se não continuasse tão prepotente e preconceituosa, já teria tido a oportunidade de uma vida mais feliz, melhor que a anterior?
O engraçado é que o filho que ela expulsou de casa aos treze anos de idade, na vida anterior nunca teve ódio dela, e hoje é seu pai, um homem "normal" que faz tudo para que ela evolua!
Tenho fé de que com o tempo as coisas se resolverão.
Olívia disse:
- É verdade, alguns são mais resistentes.
Mas com o tempo tudo se resolve.
Daqui há uns duzentos anos tudo vai estar bem.
Como já conhecia essa frase dela, não me espantei, mas Nana sim.
- Duzentos anos?
Valha-me Deus, tudo isso?
‘Olívia deu de ombros:
- As vezes um pouco mais, um pouco menos.
Gente teimosa é difícil, sabe?
Notando que era muita informação para a doce Nana, Serafim resolveu encerrar a conversa:
- O que devemos combater, Nana, não é a condição sexual de cada um, mas a maldade, o preconceito, a promiscuidade, o egoísmo e a ignorância.
Esses sim são pecados reais.
E você os verá em muitas criaturas, independente do sexo que vistam no momento.
Não seria muito melhor uma Terra, ou mesmo uma Colónia, sem o orgulho ou a inveja, que tanta tristeza traz?
Que ser humano pode se achar melhor que o outro quando tem ciência de outras vidas e do quanto já errou?
Ante o nosso silêncio ele levantou-se e começou a caminhar, instando-nos a fazer o mesmo:
Bom mesmo é que treinemos o amor ao próximo e a compaixão.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:38 am

Quanto mais puro o coração humano, maior a felicidade.
Enquanto o mau se perde na contemplação das pequenas coisas quotidianas, como os bens materiais e a vida alheia, o bom caminha ciente do quanto ainda tem que aprender, sabendo que as coisas nem sempre são o que parecem e que somos pequenos demais para nos perdermos em julgamentos que pertencem apenas ao Senhor.
E assim, na prática da caridade e do perdão constante, afasta-se naturalmente dos maus, sabendo que um dia retomarão ao seio do pai.
E sorrindo para Olívia, terminou:
Ainda que leve uns duzentos anos...
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:38 am

XVIII - ADELE
(Narrativa de Edite)
QUANDO CRIANÇA, ACOLHIDA como criada, sem salário na estalagem de madame Pointier, algumas vezes chorei durante a noite lamentando o fato de não ter família.
Observava as crianças da vila bem-vestidas, tendo tempo para as brincadeiras, e me perguntava o porquê de não ter tido semelhante sorte.
Nada de mimos, nem de carinhos para a pequena Edite, e eu lamentei isso até os meus vinte anos.
Se não chorei mais foi pelo trabalho ser tanto que, quando me deitava na dura cama de palha, forrada por sacos de algodão, adormecia logo, embora às vezes as costas me doessem por conta do esforço diário.
Cristine me deu uma coisa que eu achava que nunca teria, e que valia muito mais que qualquer estabilidade financeira (que quando mais jovem eu também não tinha).
Com ela, em sua casa, eu ganhei uma família.
Éramos uma família estranha:
um cocheiro de origem portuguesa, bigodes largos e génio calmo; uma cozinheira francesa, quituteira de mão-cheia, alegre e faladeira; eu, uma moura calada e, modéstia à parte, esperta; e uma deusa loura, que às vezes parecia uma criança de tão doce, noutras uma mulher vivida e sofrida, chamada Cristine, irmã de meu coração.
Em nenhuma família de vínculo real eu via uma afeição como na nossa, muito por conta de madame, que nos tratava não como "a criadagem", mas como amigos de longa data.
Tendo apenas Cozette de parente por perto, e vendo-a raramente, acho que ela nos via assim:
Clemente era seu "irmão mais velho", a quem ela sempre recorria quando precisava de protecção.
Confiaria nele cegamente a sua vida, como não confiava a homem nenhum, nem ao conde, com certa razão.
Paulette era servil, humilde até, mas isso nunca a impediu de ser sincera nem de dizer o que pensava.
Ela e Clemente começavam a tomar-se um casal, o que divertia bastante Cristine, que sempre me cutucava quando os via trocando olhares.
Embora Paulette fosse mais velha, acredito que madame a encarava como "uma irmã mais nova", sempre lhe dava um mimo e mais de uma vez comentava comigo sobre garantir-lhe uma casa no futuro, quando ela se casasse com Clemente.
"Um tecto é coisa importante", Cristine me dizia.
E tinha razão.
A cozinheira havia de ficar feliz se soubesse disso, mas esperávamos por um desfecho do romance.
Quanto a nós duas, o vínculo era tão forte que mesmo o conde não conseguia nos enxergar separadas.
Muito embora soubesse de Cozette, Gastón mais de uma vez me disse que eu era "como a irmã mais velha" de Cristine.
Ela confiava a mim sua saúde, seu dinheiro e seus segredos.
Não havia vínculo maior que este.
Se Cristine: era o "coração" da casa, eu devia ser a "cabeça" e ter juízo por nós duas.
Eu achava que nossa vida familiar estava bem alicerçada quando aconteceu algo que mudaria tudo em nossa casa, e começou com um chamado no portão, às três horas da tarde, num dia de chuva fraca:
- Edite! Há alguém na casa?
Reconheci a voz de Cozette, e peguei uma sombrinha e a chave para abrir o portão.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 10:38 am

Junto a ela divisei um vulto de mulher, com quem ela falava:
- Acredito que ao menos Edite esteja.
Aguardemos um pouco,
Mas Clemente adiantou-se e, reconhecendo Cozette, abriu o portão, enquanto eu, sombrinha fechada na mão, abria a porta para a irmã de madame, que entrou correndo com a outra mulher, um tanto molhadas, enquanto o coche de aluguel se afastava.
As sombrinhas que usavam tinham protegido a cabeça, mas não as barras das saias; as botinas de couro fechadas até os tornozelos estavam encharcadas.
Sem saber ainda quem era a mulher com Cozette, abriguei as duas dentro de casa e pedi a Clemente que acendesse a lareira, afinal, era outono, e elas precisariam se secar.
Depois de acomodadas, a irmã de Cristine me olhou:
Onde está minha irmã? Saiu?
Não, senhora, está no banho.
Pensando na estreia de amanhã.
Clemente, peça a Paulette mais toalhas para secar as senhoras!
- Solícito, ele logo me atendeu, saindo.
No banho, hein?
Continua com a mania de três a quatro banhos por semana?
Eu sorri, e disse que sim.
Não sei como tem aquela pele!
Minha mãe sempre disse que sabão demais acaba com a cútis, mas Cristine parece ter no máximo dezoito anos.
Acha que estou exagerando?
Pois você verá, Adele!
Pensei que as espumas e óleos perfumados de madame dificilmente poderiam ser chamados de "sabão", mas finalmente aprestei atenção na senhora ao lado de Cozette.
(Edite colocou as mãos sobre o visor e nos passou a seguinte imagem:
a mulher aparentava quarenta anos, morena bem clara, olhos verdes cintilantes como o jade claro, mesmo naquele clima chuvoso.
O vestido estava justo demais, na cintura e no busto farto, de onde eu via um crucifixo de ouro com um pequeno rubi incrustado.
O tecido era de boa qualidade, mas não era caro.
As botinas eram de couro, mas estavam gastas, precisando de solas, principalmente no pequeno salto, e os cabelos, que originalmente deviam ser castanho-escuros, agora apresentavam mechas arruivadas, que deduzi serem pintura de origem indiana, que as mulheres da burguesia usavam como artificio para “camuflar" os fios, brancos.
Fixando-se no rosto, vimos alguns sinais do tempo, como pequenas rugas, uma certa flacidez, mas percebia-se que devia ter sido bonita moça.)
"Definitivamente burguesa", pensei.
E não estava errada.
Acostumada a ver gente de todas as classes sociais, identificava os detalhes com facilidade.
Apesar de burguesa, devia estar passando por dificuldades, mas com certeza já tivera vida melhor.
Devia ter sido muito bonita quando jovem também, mas nem de longe tinha o refinamento de Cozette, cujos fios brancos se misturavam com o louro dos cabelos-sem tinta alguma, e os cosméticos eram aplicados com comedimento.
A senhora Adele parecia gostar de cores mais fortes; tudo isso pensei em alguns segundos, enquanto ela com razoável espanto pela casa de Cristine, dizia à amiga, sem sequer notar minha presença:
- Meu Deus, Cozette!
Ela está rica de facto!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:37 am

Mas acho que está passando por uma fase ruim, olhe essa sala... quase sem móveis!
Os tapetes são bonitos, é verdade.
Mas móveis, quase nenhum! Será que teve de vender?
Tive que segurar o riso, pois um só daqueles tapetes mobiliaria com folga uma casa de médio porte, dado o seu valor.
Mas, notando que a senhora dava muita importância à aparência das coisas, resolvi intervir:
- Madame estreia amanhã e os móveis foram retirados para que ela ensaiasse seus números de dança.
Estão guardados e voltarão a seu lugar assim que passe a temporada.
Os músicos e dançarinos vêm ao menos três vezes por semana.
Sentem-se melhor assim, com espaço para os movimentos.
Creio que as senhoras ficarão bem acomodadas no jardim de inverno.
Assim dizendo as encaminhei para a sala em frente ao jardim cujo átrio interno recebia a luz do sol.
Era uma novidade arquitectónica da época, que o conde mandara construir, e uma das partes preferidas de Cristine, única parte da extensa sala que tinha ficado com duas pequenas mesas e com cadeiras.
Foram confortavelmente instaladas.
Cozette olhava a estranha com certa reserva, e disse-lhe:
- Os anos não te mudaram tanto, Adele.
Apesar de o físico estar diferente, afinal, todas mudamos.
Mas, em mais de dez anos, continua como mesmo jeito.
Gostou dos tapetes, então?
- Claro... disse ela, examinando-os com certa dificuldade, que eu intuí ser um problema na vista mas parecem coloridos demais!
É moda em Paris, agora?
Cozette sorriu, um tanto esnobe:
- Não, minha querida.
São árabes.
Alguns valem o preço de sua antiga propriedade.
Presentes do conde.
Foi de segurar o riso:
ela levantou os pés de imediato e depois se pôs a examinar o tapete que estava debaixo da mesa.
-E a maluca os usa assim?
Devia trancá-los!
Já tinha ouvido falar, mas nunca tinha visto um desses!
J Pois essa é a forma certa, minha querida.
Ou então usá-los como painéis.
Parecem tecidos por fios de seda, mas são duráveis, duram séculos, mas precisam "respirar" e, olhando para mim, que observava e me divertia, pediu:
Edite, querida, avise Cristine que estou aqui com uma amiga, mas não cite nomes.
Quero fazer uma surpresa à minha amada irmã.
- Com uma leve reverência retirei-me e dei com Paulette, da cozinha, espiando a cena:
- Está bonita, dona Cozette!
Elegante como sempre.
Mas vir aqui com essa chuva?
E essa com ela, quem é?
-Não faço ideia, nunca a vi antes.
Ninguém do mundo artístico.
Eu reconheceria pelas roupas, mas essa parece burguesa.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:37 am

Paulette, sirva uns biscoitos amanteigados e um café com creme.
Não é de bom tom não servir nada.
Vou chamar madame!
Sirva no bule de prata, ouviu?
Ela estranhou eu pedir o bule de prata, mesmo porque não era o preferido de Cristine.
Mas, como achei que Cozette tinha gostado de impressionar a senhora, nada melhor.
O conjunto era de chamar atenção.
Subi para chamar madame, que já devia estar terminando o banho, e passei pela porta do quarto de René, sentindo o mesmo cheiro de sempre.
Estava às voltas com seu cachimbo de novo.
Bati na porta do quarto de banho de madame, um cómodo interessante:
banheira de ferro esmaltado, amplas janelas, biombo, cama de solteiro e algumas cómodas.
Do lado da banheira, prateleiras de madeira maciça expunham diversos vidros de óleos perfumados e pomadas que, esfregadas no corpo durante o banho, formavam uma espuma cheirosa e cremosa.
No meio de toda essa espuma e água quente, estava Cristine, corada com o calor da água, com pequena toalha cobrindo os olhos.
Fiquei até com pena de chamá-la, mas não via outro jeito.
Falei em voz baixa:
- Madame... Cozette está lá embaixo.
Está com uma senhora, deseja vê-la...
Ela ergueu a toalha e me olhou com aqueles olhos esverdeados, cabelos molhados, tentando entender:
- Cozette?
Com essa chuva?
E trouxe uma senhora? Quem?
- Ela disse que quer lhe fazer uma surpresa.
Não conheço a senhora, ela nunca esteve aqui.
- Não disse o nome?
Não querendo estragar a surpresa de Cozette, menti:
- Não ouvi.
Quer que mande esperar mais um pouco?
Pedi que Paulette servisse café e biscoitos.
Curiosa, ela levantou, secou-se atrás do biombo enquanto respondia:
- Fez bem. Acha que é gente de cerimónia?
Devo colocar traje completo?
- Acho que não.
Seu roupão é muito bonito e para receber em casa está
bem. Não me parece alguém da nobreza, parece uma senhora burguesa.
Ela franziu as sobrancelhas tentando adivinhar quem seria, e ia me dizendo enquanto isso:
- Não seria uma chapeleira nova?
Cozette tinha ficado de me arranjar uma...
- Não acredito, madame, não me pareceu uma chapeleira (o chapéu dela não era lá muito novo ou bonito).
- Talvez uma nova modista.
Cozette deve estar cheia de encomendas.
Lembrando o vestido de tecido bom, mas com feitio duvidoso e justo
demais, discordei novamente:
- Não me parece modista, madame.
É melhor ir ver pessoalmente.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:37 am

Intrigada e curiosa, ela enrolou os longos cabelos louros e encaracolados num turbante e vestiu o roupão.
Perfumou-se como de costume, calçou suas lindas chinelas bordadas e saiu do quarto de banho parecendo uma rainha árabe.
Desceu as escadas esticando o pescoço, curiosa com sua visitante misteriosa.
Arrependi-me de não ter lhe contado o nome, pois a reacção dela não foi a que eu esperava.
Vendo as duas sentadas, ela chamou a irmã, que veio sorrindo até ela, mas era um sorriso meio amarelo:
- Sei que estreia amanhã e que hoje tem de descansar.
Mas não tive escolha!
Se não a trouxesse aqui, ela daria um jeito de vir sozinha, então resolvi trazê-la.
- Curiosa, Cristine olhou a mulher sem a reconhecer, estranhando aquela desconhecida lhe abrir os braços, praticamente gritar e correr para ela:
- Cristine! Minha irmãzinha!
Tanto rezei para que nos encontrássemos de novo!
- Tive um choque ao ouvir a palavra "irmãzinha".
Então aquela era a irmã mais velha que tinha se casado com o tio e abandonado o resto da família na pobreza?
Entendi o ar frio de Cozette com ela, mas Cristine tinha me dito que ela era a mais bela da família!
Tinha bonitos traços, é verdade, mas longe de ser bela como madame!
Sem dizer que o excesso de peso e as rugas faziam-na aparentar uma idade que não devia ter.
Mais assustada que eu, madame afastou-se dela a duras penas para poder olhá-la melhor, como se não acreditasse no que via:
- Adele? Mas é você mesmo?
Como está diferente!
Devia ter me avisado, Cozette, prepararia alguma coisa melhor para receber minha irmã mais velha!
No coração de Cristine pelo visto não havia lugar para mágoas, Cozette desculpou-se:
Ela chegou ontem, tarde da noite, não tive tempo.
Mas creio que ela lhe contará melhor sua história.
Ainda se refazendo do susto, ela sentou-se e pediu que a irmã sentasse, chamando Paulette e pedindo um lanche completo.
A mim pediu um de seus famosos tabletes para dor de cabeça, enquanto olhava a irmã como se não acreditasse no que via.
Parecia pálida, a testa contraída em dor, mas mesmo assim
foi gentil:
- Seu marido, nosso tio, veio com você?
- Cozette tinha um olhar frio, enquanto a outra fez cara de choro:
- Estou viúva, minha cara!
Não sabe o que tem sido a minha vida desde que nos separamos... maldito Darcy!
Arrancou-me de minha família!
Mas, agora está com Deus, ou com o que quer que seja!
Nunca vi homem tão mau, não sabe o que sofri.
E nos contou sua triste vida: o marido, trinta anos mais velho, tinha falecido havia algum tempo e ela, sem talento para os negócios, ficou em dificuldades.
Disse que o marido era muito mesquinho, que ficara muito tempo sem dormir pensando na sorte da mãe e das irmãs, mas que nada podia fazer, já que ele trancava o dinheiro a sete chaves.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:38 am

Pediu que as irmãs não a odiassem, pois ela já fora punida em excesso tendo que viver com semelhante homem, que ainda por cima, era violento.
- Violento como? - perguntou Cristine.
- Batia-me por qualquer razão.
Se a casa não estava do jeito que ele gostava, porque a empregada não tinha ido; se eu cumprimentasse algum homem mais jovem; se saísse, ainda que fosse para ir à igreja, e quando ele chegasse eu não estivesse... não sabe o que é viver com um monstro desses!
- E como morreu?
- Dizem que foi do coração.
Um dia, no almoço, enquanto terminava de lanchar, foi ficando azul e caiu de costas.
Fiquei muito assustada, estávamos sem criados naquele dia, apenas o cocheiro nos acudiu.
Mas quando o médico chegou, já era tarde.
Darcy tinha morrido.
Eu, Cristine e Cozette nos entreolhamos sem saber se dávamos as condolências ou a felicitávamos, já que ela parecia detestar tanto o marido.
Antes, porém, que esboçássemos qualquer reacção, ela continuou:
- Era um demónio, achei que finalmente viveria a minha vida.
Pensei até em vir para Paris, mas sempre fui uma tola para questões práticas.
Ao contrário de você, Cozette, sempre tão inteligente, eu era apenas a "beldade da família"
Cozette respondeu à sua maneira:
- Você sempre foi bonita, Adele, com esses seus olhos que ao sol lembram turquesas.
Mas a beldade da família, se me permite, viria depois, Cristine.
Foi engraçado ver madame ruborizar, e Adele finalmente voltar os olhos para examinar melhor a irmã, deslumbrante sem nenhuma maquiagem, num roupão marroquino com os cabelos molhados envoltos num turbante.
Adele levantou-se observando-a de perto, parecia ter dificuldade de enxergar ao longe.
- Realmente ficou bela a minha fadinha!
Lembra-se de como brincava com você lhe dando retalhos para as roupas de boneca?
- Cozette exagera em tudo!
Nunca serei bonita como você, irmã, morena, com esses olhos de siamesa!
Mas me lembro de uns retalhos que Cozette costurava para mim, era você quem dava?
— Eram sobras de vestidos.
Nosso pai sempre quis que a mais velha se vestisse bem.
Queria para mim um bom casamento, pobre pai!
Rejeitei tantos rapazes para acabar nas mãos de nosso tio!
— Parecendo irritada, Cozette levantou-se:
Melhor do que enfrentar o que enfrentamos em Paris, sem dinheiro, eu, Cristine, nossa mãe e Ernestine, que era só uma menininha!
Faz ideia do que sofremos ao perder nossa casa, toda a nossa segurança, apenas mulheres sem nenhum conhecimento vindo acabar em Paris?
— Adele calou-se, parecendo amuada, Cozette continuou:
- Nossa mãe não durou muito.
No início achava que você daria um jeito de nos socorrer, informou a vizinhos onde estávamos, mas a ajuda nunca vinha.
Até no dia de sua morte lamentou sua falta.
Podia ter ficado com nosso tio, Adele, mas ao menos tinha que ter se despedido dela!
Notando o clima tenso, Cristine interveio:
- Não adianta falar nisso agora, Cozette.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:38 am

Mesmo porque estraga a alegria deste reencontro!
Nunca achei que a veria de novo, irmã!
Adele tinha o rosto rubro, parecia contrariada, sem saber o que fazer.
Mas, ainda assim sorriu para Cristine:
-Pois eu fico muito feliz em vê-la, fadinha!
Ainda mais em tão bela casa!
Disseram-me que é companheira de um conde, é verdade?
- Fui. Mas isso são águas passadas.
Gastón foi bom para mim e me deixou independente financeiramente.
Não estou rica, mas não passo por apuros.
Sabia que amanhã começa minha temporada de dança no cabaré mais famoso de Paris?
Chegou bem em tempo!
Tem onde ficar aqui na corte?
Ela enrubesceu pela primeira vez:
- Na verdade, não tenho mais onde viver, minha irmã.
Nem na corte, nem em lugar algum.
Pensei em ficar com Cozette, mas vejo que ela tem apenas um quarto e uma sala no apartamento sobre sua loja.
Mas me arranjarei de alguma forma.
Pela expressão de madame, ela se compadecera imediatamente:
- Mas, como assim?
Não tem mais o sítio?
Nosso tio não tinha outros imóveis e rendas?
Ela baixou os olhos e puxou um lenço rendado como se enxugasse uma lágrima:
- Não sabe como tem sido minha vida, querida irmã!
Não faltam malfeitores para enganar uma pobre viúva.
Perdi tudo aos poucos!
Tudo o que tenho está em dois baús que estão na casa de Cozette.
Cristine não se conformava com a triste sorte da irmã:
- Mas, nem jóias o tratante do tio Darcy lhe deixou?
Ela riu, com amargura:
- Até parece!
Darcy era mesquinho como uma cobra!
Não me dava quase nada, as jóias que tenho são essas poucas que vê.
Pensei que, se eram apenas aqueles anéis, o brinco discreto e o crucifixo,
realmente Adele não estava bem de vida.
Cristine não pensou duas vezes:
- Pois minha casa é a sua casa!
Tenho aqui o meu quarto de hóspedes, mas ainda está ocupado.
Por enquanto ficará no meu quarto de banho, que é bem aprazível, tem cama e armários.
Depois, quando o outro quarto ficar desocupado, passará para ele, que é maior e mais arejado. Importa-se?
É o que posso lhe oferecer no momento.
- Ah, minha fadinha! Depois de ter abandonado minha família, você com esse seu coração de ouro me acolhe!
Ficaria até mesmo na sua dependência de empregados, minha irmã!
Não sei bem por que nessa hora observei Cozette, que olhava as duas irmãs com uma expressão que não pude identificar de imediato.
De início parecia aliviada, pela irmã sair de seu apartamento, mas depois seu semblante se nublou de preocupação e uma fina ruga se formou em sua fronte, Adele e Cristine se abraçaram, madame feliz de poder ajudar a irmã, e eu, por mais cristã que fosse, com um leve aperto no peito.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:38 am

A expressão de Cozette, em quem eu sempre confiei, tinha me deixado apreensiva.
Seria mágoa de a mais velha ter abandonado a família no momento da maior precisão? Talvez...
O mundo dá mesmo voltas, pensei eu.
Menos de quinze anos atrás estavam as duas irmãs mais moças em situação desesperadora, enquanto a mais velha se casava com o tio rico e se esquecia da família.
Agora a situação se invertia, e a terceira irmã acolhia quem a tinha abandonado à própria sorte.
Tolo do ser humano que se acha maior que o próximo, nunca se sabe quando a sorte vai mudar.
Parecendo lembrar-se de algo, Cristine soltou-se do abraço da irmã e a sentou de frente para ela:
- Mas, antes que fique aqui, preciso contar-lhe algo.
Tenho outro hóspede, que não é de fácil convívio.
Foi meu companheiro por um tempo, mas agora apenas mora aqui.
- Adele estranhou, não sabia que Cristine tinha um homem na casa:
- Mas, achei que ainda recebesse visitas do conde em segredo...
Quem é o homem?
- Na vida de uma cortesã, segredo não é muito necessário, chere soeur13.
Ao menos dentro desta casa.
Diferente das mulheres casadas, temos a vida que escolhemos.
Quando disse que nada mais tinha com Gastón, era a pura verdade.
- Ele cansou-se de você?
Que pena!
Cozette riu:
- Gastón cansado de Cristine?
Só se for de ficar longe dela!
É apaixonadíssimo por nossa irmã.
Adele ficou pensativa, depois disse:
- Então arrumou esse outro porque é mais rico.
O que este é, um duque?
Separou-se da família, foi?
Foi a vez de eu e Cristine rirmos:
- René, um duque?
Não, chere soeur, é um plebeu!
Está mais para um pequeno burguês, e de família pobre.
O único com um pouco de dinheiro era o tio, que pagava seus estudos com alguma dificuldade aqui em Paris.
Adele pareceu ficar um revoltada:
- E trocou um conde, ao que eu sei riquíssimo e apaixonado, por um homem desses?
Que tem esse René, afinal?
Cozette calou-se por educação, mas madame respondeu:
- Eu andava muito triste, e ele me divertia.
Era belo como um deus grego, também... e uma conversa!
Mas, tinha um vício muito feio em jogo, o que acaba com qualquer paixão.
Agora, concordei em hospedá-lo até que a dívida que fez nas cartas esteja paga.
- E isso vai demorar muito?
- Alguns meses, não mais que isso.
Madame combinou com Clemente ir com Cozette até a sua loja e trazer os baús de Adele, assim que as duas terminassem o lanche.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:38 am

Olhando para mim com o carinho costumeiro, Cristine disse à irmã:
- Quero que conheça melhor uma pessoa, sem a qual minha vida não funciona: essa é Edite.
Não é só minha camareira ou minha governanta, é minha melhor e mais querida amiga.
Estamos juntas há muitos anos, e não há ser humano mais bondoso, nem mulher mais prestativa.
Quero que a trate muito bem.
Para mim ela é muito mais que uma empregada.
Fiquei bastante sem jeito com aquelas palavras calorosas, e um tanto surpresa com a observação feita por Cozette:
- E bom deixar claro que apenas Cristine dá ordens a Edite.
Lembre-se sempre que você é uma hóspede nesta casa, Adele, e não patroa dos empregados!
Notei os olhos claros de Adele fuzilando Cozette com uma ira contida, mas ela manteve o verniz da educação:
- Ora, Cozette.
Por quem me toma?
Acha que não respeitaria a casa de minha irmã, ou lhe arranjaria problemas com a criadagem?
De onde tirou essas ideias?
Cozette não se deu por vencida:
- Cristine era ainda muito nova, mas me lembro bem de como você era com os caseiros do sítio.
Eles aqui em Paris não são como no interior, falo para o seu bem.
Essas pessoas são como a família de Cristine.
Ao ver as duas já com as mãos nas cadeiras, Cristine contemporizou e chamou Clemente, que veio, solícito como sempre, da cozinha, com Paulette em seus calcanhares, olhando tudo com curiosidade, principalmente a nova senhora.
Engraçado foi ver a reacção de Adele, momentos antes um tanto agressiva com Cozette, agora parecendo frágil e desprotegida diante do enorme cocheiro, dando instruções:
- Não queria dar tanto trabalho, mas como querer que uma pobre mulher como eu transporte pesados baús, não é mesmo?
Ainda bem que nessa casa há um homem forte como o senhor para nos prestar esse serviço.
Tome cuidado com eles, há dentro coisas preciosas para mim.
É tudo que me restou!
Vi Cristine puxando Cozette para um canto e dizendo em voz baixa:
- Irmã, que é isso!
A pobre parece que passou por maus bocados, temos que ter paciência com ela e acolhê-la.
É o que nossa mãe faria!
Puxando seu lenço de seda, e enxugando a fronte que estava molhada de suor, ela respondeu:
- Acho que puxei nosso pai, que se guiava mais pela razão que pelos sentimentos.
Edite, chegue aqui!
Aproximei-me rapidamente, e ela continuou:
- Espero não ter trazido uma cobra para casa de minha irmã mais moça.
Talvez a penúria a tenha mudado, mas não acredito em mudanças tão radicais!
Brigávamos muito quando crianças e quando moças, Adele tinha de dissimulada o que tinha de bonita, muito embora nossa mãe não notasse isso.
Fazer o quê?
Coração de mãe costuma pintar o filhos com as melhores tintas.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:38 am

Cristine tentou acalmá-la:
- Ora, Cozette.
Convivi na corte e no cabaré mais elegante de Paris por muito tempo, acha que não sei me defender caso precise?
Ela olhou Cristine com carinho:
- Antes você tinha Gastón como escudo.
Agora tem Edite.
Tem um coração muito grande, irmã, não vê o mal nas pessoas.
Não quero magoá-la, mas se esquece do que aconteceu com René e do quanto está difícil de resolver?
Meu conselho, como irmã mais velha, que ama muito a você, é que caso sinta que pode se prejudicar, mande-a para um convento ou coloque-a na rua.
Está me entendendo, Edite?
Fiz que sim com a cabeça, o que mais poderia fazer?
No íntimo agradeci pelo aviso, não ia querer ninguém prejudicando madame, bastava René e seus problemas.
Cozette encaminhou-se para a porta, onde a chuva cessara é o cheiro do jardim molhado invadia a casa.
Parou na frente de Adele para despedir-se:
- Eu a acolhi quando chegou.
Sabe que em nossa infância e juventude não nos dávamos bem, mas não lhe tenho rancor.
Valorize a chance que Cristine está lhe dando para recomeçar a vida, e esqueça o que ouviu falar sobre a vida dissoluta das cortesãs:
nossa irmã não é desse tipo.
Só teve dois homens em sua vida, o conde e René, e nunca traiu nenhum dos dois.
Muita mulher casada que conheço não tem a metade da decência dela, por isso o conde a valoriza tanto.
Ela olhou um tanto admirada para Cristine, que estava longe, dando instruções a Paulette sobre o quarto de banho, e não ouvia a conversa.
Adele respondeu admirada:
- É mesmo? Acredito.
Com a educação que nossa mãe nos deu, não podia ter sido diferente.
Mesmo eu sempre fui muito honesta, é coisa de família.
Cozette deu-lhe um olhar frio, mas ao menos não tinha mais rancor:
- Querendo, apareça na minha loja.
Está precisando de uns vestidos; pelo menos uns dois eu tenho que posso arrumar para você.
Essa sua roupa é de boa qualidade, mas não está muito na moda em Paris, e se vai sair com Cristine, precisa estar bem arrumada.
Não quero uma irmã minha vestida como provinciana.
Adele animou-se:
- É mesmo?
Pois vou sim, obrigada Cozette!
Assim que puder apareço na loja.
Agora vou me refrescar um pouco e tentar dormir.
Não consegui pregar o olho ontem, aquele colchão era muito duro!
Feliz por se despedir, Cozette saiu com Clemente.
Vendo Cristine e Adele subirem para o andar dê cima, animadas e conversando, senti minhas pernas doerem de cansaço, afinal, eu tinha ficado em pé durante um bom tempo observando, para ver se nada faltava às visitas.
Resolvi me encaminhar para a cozinha, onde encontrei Paulette com uma machadinha bastante afiada, cortando as costelas de um cordeiro para o almoço do dia seguinte.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:39 am

Minha amiga batia com uma força e uma mira tão certeira que a um simples golpe o osso se partia e ela conseguia ir tirando os pedaços sem muita dificuldade.
Sentei-me na mesa de madeira da cozinha, onde ela fazia suas massas, e observei fascinada a machadinha indo e voltando, fazendo um som parecido com "vupf' quando levantava, e depois "pof" quando batia nos ossos.
Sua expressão estava séria como a de um carrasco.
- Tudo bem por aqui?
Ela ergueu a machadinha acima dos ombros: vupt.
- Claro! Por que não estaria?
Vamos ter uma nova hóspede, então?
- É verdade...
- Vai ficar muito tempo? (vupt).
- Hum... Não tem onde morar, é a irmã mais velha de madame.
É capaz que sim... (pof, pof).
- Como não tem onde morar? Não era casada? (vupt).
- Enviuvou. Parece que perdeu tudo e agora vai morar aqui.
Ela largou por um instante a machadinha e me olhou numa expressão indefinível.
Lembrei do jeito de Adele com Clemente, toda frágil, e me perguntei o quanto a ciumenta Paulette tinha visto.
Minha dúvida foi logo dissipada:
ela pegou de novo a machadinha e continuou o trabalho, só então me dizendo:
- Vida de pobre é difícil mesmo, a gente tem que aturar cada coisa.
E olhou para o tecto da cozinha.
Tinha que ser irmã de madame?
Viu o jeito dela com Clemente?
"Homem forte"... aquele português que se dê ao respeito!
Tentei defender Clemente:
- Ora, Paulette. Está cansada e dependendo dos outros.
E depois, Clemente não lhe deu atenção.
Era verdade, o pobre cocheiro tinha se saído com um sorriso amarelo.
A machadinha tomou a subir, vupt.
- Pois ela que se ponha em seu lugar, ou vai perder mais do que já perdeu!

13 - Cara irmã.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:39 am

XIX - O BAÚ DE ADELE

NO DIA DA estreia de madame acordamos todos um pouco mais tarde, a noite anterior tinha rendido...
Clemente voltou depois de quase duas horas pelejando com os baús de Adele, que eram enormes.
Precisou de ajuda para trazê-los para o quarto de banho.
Fiquei imaginando o que teria acontecido a René, que ainda não aparecera até aquele horário, quase cinco horas da tarde, mas sabendo que em seu quarto ele guardava sempre alguns doces (tinha uma preferência incrível por esse tipo de comida, achava-os até entre seus travesseiros quando arrumava sua cama) e água, além do seu inseparável cachimbo, não me preocupei.
Ele fazia sua toalete em seus aposentos.
Quando desceu para a sala eram sete horas da noite, bem-vestido, perfumado em excesso para disfarçar o cheiro do ópio, e penteado.
Dispensou a peruca e usava o cabelo curto; o feio corte em sua sobrancelha já cicatrizara, ficando apenas uma falha, que, se era aparente, ao menos não o desfigurava.
Trajando a última moda, quem não o conhecesse podia até tomá-lo por nobre, ou um burguês abastado, atraente e um pouco mais magro do que quando Cristine o conhecera, mas isso não lhe ficava de todo mal.
Foi essa figura de homem que Adele viu, no final da tarde, descer a escada e interromper a conversa animada que estava tendo com a irmã.
Olhou o rapas como se estivesse hipnotizada por ele, que, por sua vez, olhou com curiosidade a senhora vestida em brilhante tecido vermelho muito justo, maquiada e com olhos de um verde tão claro que chamavam atenção.
Franziu as sobrancelhas tentando adivinhar quem seria, e custava a se decidir se perguntava ou não à Cristine.
- Ah! disse ela olhando para onde a irmã fixava os olhos imensos.
Esse é René!
René, venha conhecer minha irmã mais velha, Adele.
Ele terminou de descer os degraus elegantemente e abriu seu sorriso mais encantador.
Chegando até Adele, curvou-se elegantemente e disse:
- Encantado, madame.
Está nos visitando em Paris?
Encantada ficou ela, pensei eu.
Rubra, abanando-se com um leque que surgiu Deus sabe de onde em pleno mês de março, ela abriu um sorriso sedutor e eu pensei que, quando mais nova, devia ter sido realmente bela.
Pena que certas mulheres com o tempo percam o viço com rapidez, mas, sob determinada luz, ela ainda podia fazer sucesso.
Respondeu a ele numa voz que eu não supunha ser capaz de tanta doçura:
- É um prazer, senhor.
Não imaginava que ele fosse tão elegante, Cristine!
Não quer se juntar a nós?
Ficaria encantada de ouvir as novidades dê Paris de uma boca masculina, afinal, desde que cheguei, só tenho estado com minhas irmãs...
Cristine se divertia com a cena, e René parecia perguntar com os olhos se devia ficar ou não.
Ele e madame não andavam em bons tempos; ela, nervosa com a estreia e já não suportando a companhia do rapaz, o qual, passada a paixão que sentira por ele, tinha ficado enfadonho como realmente era; ele, esperto e não querendo perder suas regalias na casa; falava com ela o mínimo necessário e com muito jeito.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:39 am

Mas Cristine o surpreendeu desta vez, quando disse, parecendo querer agradar a irmã:
- Sente-se com Adele, René.
Tenho certeza de que se darão bem.
Estou começando a ter uma dor de cabeça bem familiar e vou com Edite para o quarto verificar algumas peças de roupa e depois dormir um pouco
Fiquem à vontade.
Ia me retirando com ela quando a ouvi dizer a Paulette:
- Paulette, providencie qualquer coisa que eles queiram e, voltando-se para a irmã:
Devo dormir um pouco, depois lhe farei mais companhia.
Deixo-lhe com um homem educado.
A última frase soou como um pedido estrategicamente formulado para René, que se empertigou na cadeira.
Segurando o riso, subi com ela, que se atirou na cama assim que chegamos ao quarto.
- Edite, depois a ajude a arrumar o conteúdo daqueles dois baús nas cómodas do quarto de banho.
Vou providenciar mais uns cabideiros.
Viu o tamanho dos baús?
Fiquei com medo que Clemente e o rapaz que subiram com eles caíssem da escada.
Que será que ela traz ali dentro?
- Não faço ideia, madame.
Provavelmente lembranças de toda uma vida.
Não se preocupe que daremos um jeito no quarto dela.
- Ela colocou as mãozinhas na fronte como se quisesse esfregá-la.
- Minha cabeça dói muito hoje, me veja um daqueles meus tabletes.
Já faz mais de três horas que tomei o último.
Não sei se quero acordar para o jantar, devo descansar, que amanhã o dia vai ser puxado.
Que achou de minha irmã?
Dei a ela uma taça de água e o remédio, que ela engoliu rápido.
Não gostei muito da irmã de madame, mas podia estar errada, então respondi:
- Tem uns olhos muito bonitos...
Lembro-me de quando era moça, rapazes faziam fila na porta de nossa casa querendo namorar Adele.
Eu era muito menina, minha mãe a mimava sempre.
Cozette sempre foi bonita também, mas era meio "apagada".
Adele fazia questão das melhores roupas, das fitas mais caras.
Cozette era preocupada em não dar despesas.
Estava esfriando rápido.
Coloquei os pés dela em Cima da cama e os cobri com uma manta.
Ela continuou me contando:
- Papai ficava bravo com ela e mamãe, às vezes, por conta dos pretendentes.
Adele esnobava todos, queria um marido rico.
Papai dizia que o importante é que fosse trabalhador, que riqueza herdada podia ser perdida rápido, mas que a vontade para o trabalho e a inteligência, essas duravam.
Mas mamãe tinha sonhos, queria que a mais velha se casasse com um nobre ou um homem muito rico.
Veja que tolice:
acabou se casando com nosso tio, que expulsou nossa mãe e nem era tão rico assim.
Pensei em Cozette, e retruquei:
IE a nossa querida Cozette, que pensava sempre em economizar e era "apagada", hoje é uma das mulheres mais chiques de toda Paris.
Ela está se tomando uma modista famosa, sabia?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:39 am

Fechei as cortinas para impedir qualquer luz da rua, e ela me disse:
- E como sei!
Faz coisas lindas, não é mesmo?
Mas me disse que não quer costurar para os nobres, prefere ficar com as burguesas, que são suas clientes há anos.
- E mesmo? estranhei; Cozette tinha um trabalho belíssimo.
E por quê?
Cristine deu uma pequena risada:
- Ora, Edite, todo mundo sabe como alguns nobres são terríveis na hora de pagar as contas!
Era verdade.
O rei Luís XV era famoso pela extravagância junto à marquesa de Pompadour, a mais famosa cortesã da história.
As leis na época eram simples: apenas o rei podia punir os nobres, que escapavam assim de quaisquer dívidas adquiridas com os comerciantes (burgueses), tomando a maioria da nobreza muito desonesta.
Joalheiros, modistas, perfumistas, entre eles não eram muitos que apreciavam semelhantes fregueses.
Gastón já nos falara disso algumas vezes e fazia questão de manter seu crédito impecável, pelo simples facto de não ser tolo:
gostava de ser bem tratado, além de ter aprendido com o velho costume árabe:
"Um mau comerciante tem como destino a miséria".
E acontecia mesmo: às vezes levava gerações, mas já não eram raros os nobres pobres e endividados.
Felizmente madame dormiu o sono dos anjos, enquanto René e Adele pareciam se entreter mutuamente na sala, para alívio de Paulette, para quem ela tinha os olhos voltados para Clemente.
O belo René compensava a falta de dentes cobrindo o sorriso com a mão esquerda e um lenço bordado, e falando sempre de cabeça baixa, sua estratégia.
Tendo que terminar alguns bordados na roupa que madame usaria na noite seguinte, pensei em ir ao meu quarto e ficar no meu silêncio adorado, mas qual!
Quando quis me despedir, eis a voz estridente de Adele nos meus ouvidos:
- Edite, por favor, providencie vinho e uns frios para que eu possa conhecer melhor esse hóspede de minha irmã querida!
E venha, junte-se a nós, não fica bem uma dama como eu ficar sozinha com um rapaz!
Senti-me encurralada, como um camundongo preso à parede por um gato de enormes olhos verdes chamado Adele, e não tive jeito senão aceder.
Era a primeira noite dela na casa, não podia fazer feio, desculpei-me para ir ter com Paulette na cozinha, e fiquei com um pouco de inveja dela ê Clemente, conversando amistosamente, enquanto eu ia ter que ficar com aqueles dois na sala:
-Paulette, faça uma bandeja com frios e vinhos, que eu mesma levarei.
Enquanto isso vou pegar um dos véus de madame que precisa de bordado; a estreia é amanhã e devo ajudar Cozette, que tem suas bordadeiras ocupadas com o resto do traje.
Deixe que eu leve a bandeja.
Com que, então, a dama está se entretendo com René, hein?
Será que terá algum sucesso?
Preocupada em correr ao meu quarto, respondi:
Vai saber.
Ao menos ele está livre, não é?
Mas por dentro achava que Adele não teria muita chance, afinal, chegava a Paris falida, e René era um amante da boa vida.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:40 am

Quando voltei, e me sentei numa das cadeiras vagas, munida de um recipiente de pequenos cristais tchecos, agulha, linha e um véu finíssimo de seda, vi a bandeja já posta em cima da mesa, com os frios e vinhos branco e tinto.
Adele ficou encantada com o fino véu:
-Mas que é isso que tem nas mãos?
Que preciosidade!
Vai bordá-lo com cristais?
Mas já não é chamativo o bastante?
- O véu de seda e cor amarela realmente era chamativo e belo, mas expliquei que era uma roupa para apresentação de Cristine, e que os cristais reflectiriam a luz das velas cuidadosamente colocadas pelo palco.
- Minha nossa, vai ficar belíssimo.
E o vestido, como será?
- Amanhã você verá.
Cozette resolveu fazer um presente para a irmã e tem outras bordadeiras trabalhando no traje neste momento.
Tudo sairá a contento.
E assim falando, concentrei-me em meu trabalho, puxando um castiçal para perto e deixando os dois a conversar.
Espertamente, Adele não falou de sua pobreza recente, referindo-se a si mesma apenas como uma viúva solitária que buscava a companhia da irmã em Paris.
René, por sua vez, disse que ele e Cristine estavam apenas "estremecidos", que eram "coisas de mulher" que passariam com o tempo, e que continuava apaixonadíssimo por madame, na espera de que seu "temperamento difícil" cedesse "à paixão que os avassalava".
Reflecti na fragilidade humana dos seres que precisam de posição financeira para se julgarem melhores do que os outros.
René citava o tio como se fosse um abastado burguês, que tudo faria para que o sobrinho voltasse para casa (uma mentira; eu sabia, pelas conversas ouvidas, que o tio não queria nem ouvir falar dele, e que além disso possuía de seu apenas uma pobre loja de secos e molhados, onde trabalhava duramente para seu sustento).
Já Adele falava do falecido marido como se a tivesse deixado muito confortável na vida, a ponto de nunca mais ter que se preocupar com dinheiro.
Ser uma "sombra", uma pessoa que os outros quase nunca notam, é muitas vezes confortável.
Sabiam os dois que eu estava inteirada da verdade de ambos, mas mentir na minha frente não foi para eles nada difícil, confiantes na minha posição de discreta subalterna.
O rapaz citou sua argúcia para os negócios e disse que em poucos meses Cristine teria o seu capital triplicado pelo investimento feito por ele em navios negreiros, negócio de muito lucro, em voga nas colónias americanas.
Adele, ao contrário de Cristine que tinha ficado escandalizada, vibrou com a "esperteza" do moço, e disse:
Acho um desperdício aqui na França não podermos ter esses negros tão úteis.
Eu mesma compraria para mim duas mucamas jovens, para cuidar de meu guarda-roupa e pentear-me.
Nesse ponto, invejo minhas amigas das colónias!
Desde que não me visse como uma escrava, as coisas seriam suportáveis.
Pensei que, se tivessem dito a verdade um para o outro, René se levantaria e trataria logo de assuntos de seu interesse; já Adele, apesar da falta de dinheiro dele, tentaria atraí-lo, pela bela figura do moço, apesar da falta disfarçada de alguns dentes superiores.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:40 am

Ela parecia ter saudade do tempo em que "enfeitiçava" os rapazes de sua pequena vila, e estava deixando o moço alegre e interessado.
As velas afastadas por ela, assim como o vinho que não parava de servir a ele, pareciam apagar as marcas do tempo do rosto da senhora.
Conversaram e bebericaram as bebidas de Cristine por bem umas três horas, quando René retirou-se alegando compromissos inadiáveis (o casino, onde ele agora apenas olhava os jogos).
Adele, dando-se por satisfeita e já tonta com a bebida, curvou-se e despediu-se.
Como num passe de mágica, sua expressão mudou de dama suave para patroa mandona, e ela me disse:
HC*;Agora que o rapaz se foi, vamos subir que tenho que tirar algumas coisas do baú.
Deixe-me ver seu bordado...
tirou de minhas mãos a delicada seda, que brilhava com os pequenos cristais.
É disse-me ela -, sabe mesmo trabalhar nessas coisas.
Venha comigo, quero umas ideias.
Afinal, amanhã é a estreia de minha irmã e não quero fazer feio.
Eu estava curiosa em ver o que estaria atulhando aqueles dois baús tão pesados, que precisavam cada um de dois homens para carregá-los.
Subi com ela, que já estava um tanto trôpega pelo vinho, se apoiando no corrimão da escada.
Quando entramos no quarto de banho ela fez uma cara que me parecia ser de desdém:
É um quarto pequeno demais para uma dama, não acha?
Não achava o quarto pequeno, ainda mais que dava vista para um jardim encantador, mas usei de diplomacia:
Quando o senhor René se for, a senhora passará para um quarto maior.
Isso é apenas provisório.
Quer ajuda?
- Afogueada, ela abriu a tranca de um dos baús e pediu-me que levantasse a tampa de madeira maciça, coisa que fiz com muito custo, pois era de facto pesada.
Dentro, um amarfanhado de tecidos, arrumados como que às pressas, me esperava, com alguns candelabros de metal, que podiam ser de latão, mas que ela me disse serem de prata.
Deixando o cansaço de lado, comecei a tirar vestidos e mais vestidos, alguns de tecidos de boa qualidade, outros nem tanto, mas todos de corte duvidoso, decotes muito acentuados, e enfeites que Cristine nem sonharia em comprar, de tão ordinários e baratos.
Uma coisa tinha aprendido com Cozette:
se for comprar um adereço, é melhor ter um de qualidade do que vários de qualidade duvidosa, e era justamente isso que via ali.
O cheiro de naftalina, sujeira e suor antigo impregnou o ar, e eu sacudia as roupas pensando em colocá-las todas no sol pela manhã, ou o odor se espalharia pela casa, para desgosto de madame.
Enquanto eu tirava os vestidos, ela ia me dizendo:
- Sei que estão um pouco velhos e amassados, mas não são um deslumbre?
Alguns têm mais de dez anos!
Não tenho o costume de jogar nada fora, e sei que você vai me ajudar a deixá-los na última moda, não vai Edite, com essas mãos de fada?
Se soubesse como sou desajeitada com a agulha!
Cozette sempre teve mais jeito com essas coisas.
Alguns tinham a cintura muito fina, e pensei que seria complicado alargar aquelas roupas, já que Adele engordara bastante.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 8:40 am

Os espartilhos também já estavam em condição de miséria, e algumas flores de seda, muito em moda havia vinte anos, não tinham a menor chance de recuperação.
Olhei para elas pensativa e disse:
- Talvez, se as tingíssemos a frio e as bordássemos com linhas de seda e cristais, ficassem bonitas.
Mas isso vai levar muito tempo, senhora.
Pretende usar que traje amanhã?
Já foi a um cabaré francês?
Ela me olhou com os olhos verdes extasiados:
- Nunca! Como é?
Muito elegante?
As mulheres se vestem bem?
- Brilham mais que os candelabros do local.
As parisienses são famosas por sua elegância, e suas irmãs nunca ficaram a dever! - observei com certo orgulho.
Ela pareceu ficar preocupada, franziu a sobrancelha, começou a remexer os baús com fúria e logo me vi envolvida num mar de babados, tules, pérolas falsas.
Tudo com um cheiro estranho de roupa que há muito tempo não via água nem sol.
Mas Adele tinha sido injusta com o marido:
pelo menos de roupas ele a mantinha bem, eram dezenas, embora de gosto duvidoso.
No fundo do outro baú entendi o motivo do peso:
dezenas de vidros Vazios de perfumes baratos.
Porque será que ela guardava aquilo?
A maior parte, suja de gordura ou empoeirada.
Por mim iria tudo para o lixo, mas me contavam a história do passado dela:
era gastadeira.
Não em coisas de valor, mas bugigangas, aos montes.
Pequenos enfeites de gesso, anjinhos barrocos decorados, sapatos gastos com fivelas de variados tipos (â maior parte sem salvação), ê leques, pelo menos uns quarenta.
Desses eu gostei, embora alguns estivessem quebrados ou rasgados (eram feitos de seda ou papel crepom).
De cores variadas e chamativas, deviam ter decorado o seu quarto de casal.
Mas ela estava desesperada era atrás de um vestido que pudesse usar na estreia de Cristine, tanto que foi me dizendo:
- Não posso perder a chance de ver Cristine dançar!
Ela ficaria muito triste!
Mas não vejo aqui nada que sirva ou que esteja à altura da ocasião.
Ela não teria um vestido para me emprestar?
Deve ter muitos.
- Com certeza madame tinha muitos vestidos, e os emprestaria com prazer.
O problema era outro.
- Acredito que a senhora tenha um busto mais avantajado que o de madame, senhora Adele.
Os vestidos não servirão.
Ela me olhou como se eu a estivesse chamando de "gorda", o que de facto era, mas me emendei logo:
- Não são todas as mulheres que nascem dotadas dessas graças naturais, não é mesmo?
Ela riu com a lisonja.
É mesmo verdade, pobre Cristine, a cara até que é bonita, mas meio pálida demais.
E o busto, então, sem graça.
Tem razão, vestidos dela não me servirão.
O que fazer? Me ajude a procurar algo, deve haver algum que preste!
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