A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Página 7 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... 6, 7, 8, 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:55 am

- Tudo na casa de Cristine era imaculado de limpo, arejado até a exaustão, por minha conta e de uma faxineira feroz que vinha três vezes por semana, levantando até mesmo pesados móveis com a ajuda de Clemente para espanar por baixo.
Me senti meio alérgica à poeira e ao cheiro que emanava daquelas roupas:
parecia um suor antigo, surrado.
Pela primeira vez pensei em pedir um aumento paira madame, ninguém devia ser obrigado a mexer naquilo.
Com o nariz vermelho de tanto espirrar e uma dor de cabeça de ver estrelas, finalmente consegui encontrar, no meio de um mar de saias, um pedaço de cetim vinho e um tule lilás em outro vestido que pareciam combinar.
Adele olhava tudo com desânimo até que puxei as duas peças.
-Vista este cor de vinho, senhora Adele.
A cor é deslumbrante.
Era um vestido de corte largo, apertado apenas na parte abaixo do busto, e tinha um leve franzido.
Simples ao extremo, em nada parecido com as outras roupas de Adele.
Esta, ao ver o que escolhi, fez um ar de ironia:
- Deixe de brincadeira, Edite.
Isso é o forro de um vestido velho de minha mãe.
Ao menos explicou a qualidade do tecido e o corte bem feito.
As outras duas Besançon, Cristine e Cozette, tinham a quem puxar parecia um vestido da última moda, ainda que simples.
- Pois vista, que quero ver uma coisa.
Ao me ver falando de modo autoritário, tirou o vestido vermelho espalhafatoso, deixando à mostra um espartilho horrendo de tão apertado umas calçolas de seda já meio desgastadas.
Mas o vestido caiu como uma luva, realçando os seios fartos, disfarçando a barriga, criando uma ilusão de cintura e favorecendo os quadris.
Ajeitei o decote enquanto ela se olhava no espelho grande do quarto de banho, um tanto atónita:
- Veste bem, é certo.
E é do tipo que está na moda agora, não?
Mas é sem graça demais!...
Sem pedir licença, me armei de uma tesoura afiada e cortei o forro lilás de um vestido do qual nada se aproveitaria, tendo assim uns quatro metros de tule.
Arrumei-o como se fosse um xale decotado em torno dos ombros dela e prendi com uma rosa de seda roxa,
- Ton sur ton, parfaitl14
O efeito ficava realmente bonito, o roxo escuro do vestido, o xale rico em lilás claro, Adele prendeu a respiração.
Antes que ela reclamasse de algo, eu disse:
Claro que essa rosa velha será substituída por um broche de esmeraldas, e que um colar enfeitará seu pescoço.
Você tem luvas longas negras de cetim, não tem?
- Claro, estão em algum lugar.
Mas esse xale não está meio sem brilho?
- Eu - sorri, vendo que não escaparia:
Deixe que eu borde uns cristais neles, em pontos seleccionados, e vamos rezar para amanhã fazer sol; colocamos tudo debaixo da luz e assim acabamos com esse cheiro!
Vai ficar maravilhosa, Adele!
Esse tom de vinho fará seus olhos brilharem!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:55 am

Ela me olhou curiosa:
- Agora vejo por que Cristine, a trata como uma irmã.
Vale mesmo ouro, embora pareça uma moura.
Tem certeza de que não vou fazer feio?
Pisquei para ela:
- Absoluta.
De repente ela pareceu simpatizar comigo, e me disse:
- Sente-se aqui.
Já que a doce Cristine me acolheu com sua bondade, gosta tanto de você, sinto que seremos boas amigas.
Acabo de chegar e não quero chatear minha irmã, se importa se lhe fizer algumas perguntas?
Vejo que em Paris os costumes são muito diferentes do interior onde morava.
Olhei para ela, curiosa.
Na realidade, o meio onde madame transitava é que era diferente da burguesia, mais liberal, mas respondi prontamente:
Claro, senhora Adele.
No que puder auxiliar.
Ela fez um ar de enfado:
- Ora, vamos, você está sendo tão gentil e atenciosa, pode me chamar de Adele, esqueça o senhora, Cristine e René realmente não são mais amantes?
E um rapaz tão bonito!
Tem certeza de que ela não o quer mais?
-Sua irmã sempre é sincera, Adele.
Quando diz que não se interessa por ele, é a pura verdade.
- Ela chegou a frequentar a corte?
Lembrei-me de meu adorado Gastón e seus cuidados com ela:
- Como notou, sua irmã e muito bela, e a corte é um lugar de muitas intrigas e jogos de poder.
O conde é rico o suficiente para não precisar bajular o rei, e vai à corte apenas quando solicitado, mantendo com sua majestade uma relação cortês.
Sua irmã foi ao palácio uma ou duas vezes, mas atraiu olhares demais, o que fez com que Gastón, que já não gostava daquele ambiente, o frequentasse cada vez menos.
- Então o conde era ciumento?
Conte-me um pouco sobre ele, só o conheço de fama e me disseram ser muito rico.
Respirei fundo.
Era difícil ser discreta com aquela criatura:
- O conde é um cavalheiro de família muito antiga.
Casou-se, como todos em sua linhagem, por conveniência, e é apaixonado por sua irmã até hoje.
E educado, generoso, liberal, honesto em seus negócios, e de certa forma muito apegado às suas tradições.
Ela não se continha:
- Que idade ele tem hoje, Edite?
- Acredito que pouco mais de cinquenta anos.
- E é muito feio?
- Gastón, feio?
Não tem os traços belos como os de René, é verdade.
Se o olhasse num retrato acharia que é um homem elegante, esbelto.
Tem altura mediana, mãos elegantes e bem tratadas.
Veste-se com discrição, detesta as perucas em moda e jamais se maquiaria como fazem alguns homens da corte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:56 am

Tem bastos cabelos grisalhos, não precisa de adereços.
Fazia um belo par com sua irmã, provocavam inveja em muita gente.
Ela me ouvia extasiada, e não pôde conter outra pergunta:
- Se era assim tão bom, por que Cristine o dispensou?
Traiu-o com René?
Me senti ofendida por madame, que sempre foi honesta:
- De forma alguma.
Sua mãe a educou bem.
Embora seja cortesã, Cristine jamais trairia o conde.
René veio quando já estavam separados, embora o conde tivesse suas esperanças.
Ela calou-se, como que para pensar nas informações recebidas. Exausta, eu aproveitei:
- Amanhã, na estreia de madame, você o conhecerá.
Agora devo deixá-la repousar, pois o dia será longo, e você precisa estar com a pele linda!
- É verdade... ela me disse.
E escapei para o meu quarto o mais rápido que pude.
Como pode uma pessoa juntar tanta tralha, pensei eu...
E o cheiro!
Seria preciso um colar bem grande (cópia, é claro) para disfarçar as rugas daquele pescoço.
Era um truque usado por mulheres de certa idade na França, e que costumava funcionar.
Fiquei feliz por madame estar dormindo, mas pensei na conversa de Adele com René e fiquei preocupada.
Os dois tinham muitos pontos em comum: eram preguiçosos, não muito inteligentes, tinham boa aparência e a usavam para conseguir o que queriam, eram manipuladores, e adoravam dinheiro, embora não soubessem ganhá-lo.
Não eram boas características.
E não era bom para Cristine, que apesar da aparência de "mulher do mundo" era inocente e boa, ter duas pessoas dessa natureza dentro de casa.
René sairia depois do último espectáculo, mas aquela Adele estava com jeito de hóspede permanente...
Ao menos tinha desviado os olhos de Clemente, para alívio de Paulette.
Aliás, tolice dela, pois nunca vira um homem mais fiel:
o cocheiro sequer erguia o olhar para outras moças na rua.
Amava mesmo a sua cozinheira.
Mas precisava dizer isso a ela qualquer hora...
Ri ao me lembrar do rosto de Clemente ao perceber o "charme" de Adele dirigido a ele.
Pudesse, teria saído correndo.
Toda vez que olhava aquela senhora franzia o nariz por cima do bigodão negro, como se ela o incomodasse.
Antipatia natural?
Vão-se explicar essas coisas...
O facto é que, dali em diante, quando ela estava num cómodo da casa, ele prontamente se retirava para outro.
No dia seguinte felizmente fazia sol e eu coloquei as peças de Adele num varal para ver se o cheiro desagradável desaparecia, e dei com ele alimentando os cavalos.
Aproximei-me por trás para brincar com ele, e falei com uma voz fina e esganiçada, imitando Adele:
- O que está dando para esses bichos, Clemente? Ambrosia?
Falei bem junto ao seu pescoço, com uma voz aguda e alta.
Ele deu um pulo de lado, muito engraçado, soltando a alfafa que tinha nas mãos por cima da cabeça e dos ombros.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:56 am

Empalideceu tão rápido que não pude conter a risada:
- Valha-me Deus, senhorita Edite!
Achei que fosse a bruxa!
- Bruxa? A quem se refere?
Acaso temos bruxas nessa casa?
Limpando-se da alfafa que tinha caído em suas roupas, principalmente em seu colarinho, ele me respondeu meio sem jeito.
- Ora, a senhora sabe perfeitamente que sou português.
Se tem uma coisa que minha mãe me ensinou a reconhecer, é uma mulher má.
Tenho visto uma ou outra entrando por aqui, mas coisa pequena.
Mas aquela irmã de madame!
Fica só aqui entre nós, e Paulette, é coisa ruim mesmo!
Bruxa das mais bravas!
Minha mãe era cigana, tenho um pouco da "visão".
E aquela lá não é boa coisa!
Franzi a testa.
O luso não falava mal de ninguém, por isso estranhei.
Eu não gostara da irmã de madame, mas como era da família dela, e como eu não sabia como eram laços de sangue, por nunca os ter tido, dava um crédito à parenta.
- Ora, Clemente, sendo irmã de madame e de Cozette, não pode ser tão má pessoa.
E afectada e fraca, apenas isso.
Ele resmungou algo em português que eu não entendi, mas que me pareceu com:
"Vá acreditando!".
E me respondeu em nossa língua:
Pois não conhece a história de Caim e Abel?
Eram irmãos, não eram?
Ela que pensasse em fazer mal a Cristine!, pensei eu.
Já bastava René, com seus acessos e seus vícios.
Madame não precisava de mais problemas!
Um tanto preocupada, fui à cozinha e dei com Paulette ocupada com suas massas e o almoço.
Ela estranhou meu horário:
- Que foi Edite? Perdeu a hora?
Já passa das dez, você está aqui sempre antes das oito.
Não está doente, está?
Sorri da preocupação de minha amiga:
- Sou forte como um cavalo, apesar de magrinha, e você sabe disso.
E que depois de "fazer sala" a Adele e René, tive que ajudá-la com os baús.
Ela se sentou:
- Aqueles imensos, que Clemente quase quebrou a espinha levando escada acima?
E o que tinha dentro deles?
Jóias e vestidos bonitos como os de madame?
- Jóias falsas, e desgastadas, de qualidade muito inferior.
Vestidos apelativos, que devem ter sido moda há uns quinze anos.
De tecidos bons, só alguns, mas de corte duvidoso.
Dezenas de vidros de perfumes baratos e vazios.
Sapatos surrados...
E o pior não é isso, é o cheiro.
As roupas parecem ter sido guardadas sujas, o que piorou com o tempo e o mofo.
Não sei porque as pessoas juntam tanta tralha ou são tão descuidadas com as coisas que têm.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:57 am

Aliás, Paulette, devo lhe dizer uma coisa que não sei por que não disse antes.
Admirada das coisas que eu lhe contava, ela me perguntou:
- O quê, minha amiga?
Suspirei fundo e sorri para ela, colocando minha mão sobre a dela e a olhando nos olhos, irmãs de alma que éramos:
- Não se preocupe com a fidelidade do amor de Clemente.
Viajamos juntos, lembra-se?
E eu nunca o vi olhar para outra moça.
Quando falava de você, os olhos brilhavam mais do que as palavras.
E depois, com essa Adele, não há mesmo nenhum perigo.
A menção do nome da irmã de madame, ela franziu o cenho:
- E acha que dá para confiar naquela lá, com qualquer homem que seja?
Clemente é bem bonitão!
Levantei-me, pois ouvi Cristine na sala.
- Pode ser, mas ele tem horror a bruxas.
E saí, que madame podia estar precisando de mim.

14 - Tom sobre tom, perfeito!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:57 am

XX - BANHOS
AO ENTRAR NA sala encontrei madame fazendo seus exercícios, frente a amplo espelho de cristal, numa túnica larga que possibilitava seus movimentos.
Não cansava de me deslumbrar com a elasticidade dela.
As vezes me lembrava uma garça, tal a tensão que aplicava aos músculos para alongar-se.
Ao me ver observando-a, não parou os movimentos elevando, a perna esquerda altura de uma mesa e apoiando-se nela, mantendo as duas pernas muito esticadas:
- Olá, dorminhoca!
Acho que é a primeira vez que acordo antes de você.
Adele e René conversaram muito, foi?
Falava de bom humor, rindo e passando de um exercício para o outro numa rapidez impressionante.
- Bastante.
Sua irmã ficou impressionada com a beleza e a educação dele.
- Ele engana bem mesmo.
Mas acho que se eu não estivesse tão magoada com Gastón e com tantas dores, não teria dado atenção a René.
A mágoa, com o desespero, nos faz tomar atitudes estranhas.
Em outros tempos, ele não teria a menor chance comigo.
Ela notou a cicatriz ou a falta dos dentes?
- Não comentou, madame.
Verdade que a luz de velas ajuda, mas René sabe disfarçar bem; e depois, Adele falou bem mais do que ouviu.
Outra risada, outro movimento de exercício:
- Não duvido disso.
Conversaram muito tempo?
Devem tê-la cansado.
- Devem ter ficado falando umas duas horas, mais ou menos, madame.
Depois René foi atrás de seus negócios.
Foi uma conversa interessante, aprendi mais um pouco sobre a natureza humana.
Ela parou um pouco e tomou uma taça de água, enxugando a fronte:
- Incrível como você às vezes me lembra Gastón.
Ele sempre tinha um comentário inteligente sobre as coisas mais prosaicas.
Não importava o quanto comum fosse o assunto, ele sempre via o lado filosófico da coisa.
Calei-me lembrando do meu querido amigo, que tantas saudades sentia daquela casa e daquela mulher tão linda quanto especial.
Ela continuou:
- Sabe que sinto falta dele, às vezes? Gente inteligente e de bom gosto é artigo raro.
Um fio de esperança me passou como uma sensação.
- Quem sabe, madame, agora que rompeu com René, não possam ser pelo menos amigos.
Acredito que o conde compreendeu a extensão de seu pecado, e nas vezes em que o encontrei casualmente ele sempre me perguntou de madame.
Ela me olhou, sentando-se numa cadeira:
- Tem se encontrado em segredo com Gastón, Edite?
Eu falara demais, Cristine não era tola.
Resolvi contar uma meia-verdade:
- Não, madame.
Mas em frente ao cabaré, uma vez que fui levar suas coisas com Clemente, ele me abordou, querendo notícias suas, de sua saúde e do senhor René.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:57 am

Ela aguardava em silêncio que eu concluísse:
Ele estava tão abatido, madame!
Acho que o castigo para o crime de Gastón vem de Deus, mas ele com certeza entendeu a gravidade do que fez, e o remorso o corrói.
A verdade é que durante os anos em que vivemos com ele, nunca, além daquele dia desditoso, o vimos ser mau com alguém.
Ao contrário:
a quantas pessoas Gastón ajudou ou foi generoso?
Vi uma lágrima surgir nos olhos dela:
- E não é estranho que justo comigo tenha feito sua maior crueldade?
Lágrimas vieram aos meus olhos também, pois eu mesma tinha criado ódio dele
por um tempo, mas respondi:
- Lembro-me de quando estávamos no Marrocos e uma velha senhora nos contou, traduzida por Gastón, a lenda do Djim, que é como eles chamam os maus espíritos por lá.
O conde, naquele dia fatídico (sem querer desculpá-lo), parecia realmente possuído por um espírito mau.
Nunca vi um casal mais invejado que vocês.
Há coisas nesse mundo além de nossa compreensão.
Ele não deseja o seu mal, Cristine, e apesar do assédio constante de outras mulheres, não consegue ficar com nenhuma delas.
Deixe-o ao menos ser seu amigo.
Ela pareceu ponderar o que eu dizia.
Francesas são práticas, mas não destituídas de intuição.
- Ele sabe que terminei com René?
- Sabe que não minto, madame.
Gastón estava preocupado, pois o vício e a violência do rapaz andam ganhando fama.
Ela deu de ombros:
- Bobagem. Ele não faria nada comigo.
Não mataria sua "galinha dos ovos de ouro".
Uma pessoa com juízo não faria tal coisa, mas o rapaz se perdia com o uso do ópio.
Parecia que uma voz fazia se ouvir nos meus ouvidos, dizendo:
"Traga Gastón de volta a esta casa", e eu dei ouvidos a ela:
- Acho, madame, que o conde poderia alojar René em outro lugar enquanto a senhora paga a dívida com os credores.
Ela olhou ao longe e depois fixou os olhos esverdeados em mim:
-Tem razão, Edite.
Peça a Clemente que vá ao escritório de Gastón e o convide para minha estreia hoje.
Vou lhe mandar um bilhete deixando claro que o convido como "uma velha amiga".
Nunca dancei em público sem ele por perto.
- Ele iria de qualquer forma, madame.
Mas ficará feliz com o bilhete.
E fui chamar Clemente, que petiscava um pernil na cozinha, flertando com Paulette na maior camaradagem.
Ao saber da novidade, a cozinheira disse:
- Arrume-se logo, Clemente!
Finalmente uma boa notícia!
Passei a tarde bordando cristais no tule cortado do vestido de Adele, que levantou às duas.
Não tinha visto a hora que René chegara, mas continuava a sono solto, e ainda não tinha incomodado.
Cozette chegou às quatro trazendo o traje de Cristine, bordado com fios de ouro e cristais, em sedas de diversas cores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:58 am

A coreografia seria uma surpresa inclusive para mim, mas vi a satisfação estampada na expressão da costureira:
- Nunca, em toda minha vida, vi um traje tão rico e exótico.
Ela fez questão de ter liberdade de movimentos e fluidez, não sabe o trabalho que deu!
Mas é minha obra-prima.
A rainha daria um de seus colares para ter um desses!
Larguei o tule e levei Cozette ao quarto, contando a novidade do convite de Cristine ao conde.
O que ela respondeu me surpreendeu, já que nunca tinha sido simpática a Gastón:
- Quem sabe eles não voltam, hein?
Pelo menos esse René ia embora!
A lógica de Cozette era a do bem:
entre Gastón e René não havia a menor dúvida.
Deixamos o traje no quarto de Cristine e a encontramos no quarto de Adele, pedindo delicadamente licença à irmã, pois era o dia de um de seus banhos, que levava ao menos duas horas.
De início, Adele fez cara de incomodada, mas lembrando-se de quem era dona da casa, respondeu:
- Claro, Cristine.
Longe de mim atrapalhar sua rotina.
Depois posso tomar um também?
Imaginei o pobre Clemente a esvaziar a pequena banheira e carregar escada acima mais água quente em baldes de madeira.
Cristine não queria ser mal-educada:
- Claro, Adele.
Creio que lhe fará bem. Trouxe seus sais de banho, é claro...
Não havia sais de banho naqueles baús de cheiro ruim, mas ela não perdeu a pose:
- Não uso esses sais, irmã.
Confio mais num bom sabão.
Pode me arrumar um, Edite?
Mais tarde vou precisar de um pouco de perfume.
Acredita que os meus se quebraram?
Os perfumes de Cristine eram caríssimos e feitos exclusivamente para ela, assim como seus óleos árabes (tinha um ciúme danado deles).
Ela se lembrou de um perfume que ganhara de um perfumista iniciante; cheirava a rosas e flor de laranjeiras, e ela aceitara por educação, mas nunca usava.
- Pena que se quebraram, mas tenho um aqui, de um perfumista que tem feito relativo sucesso.
E foi buscar o frasco, de tamanho médio, cor de rosa, com uma tampa chamativa e dourada.
Acertou em cheio, Adele adorou:
-Que exótico. Cheira a rosas!
Tem certeza de que posso ficar com ele? Deve ser caríssimo!
De facto, era bem mais caro do que os vidros vazios que ela tivera outrora.
- Claro. Prefiro os orientais.
Feliz da vida, Adele saiu do quarto, borrifando-se com certo exagero, deixando a casa toda cheirando a rosas.
Cozette logo chamou sua atenção:
-Não é uma colónia, Adele. É um parfume15
Usam-se apenas algumas gotas!
Vai incomodar todo mundo se o usar assim!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:58 am

Ela espantou-se:
- Jura? Acha que alguém se incomodaria com um cheiro tão bom?
Sorri da diferença gritante entre as duas irmãs.
Uma naturalmente chic, a outra com tanto mau gosto.
Quanto a mim, que só usava as minhas discretas lavandas, estava feliz assim.
Dei uma busca rápida nas jóias falsas de madame que tinham sobrado do "assalto" de René e consegui salvar um lindo pingente de esmeralda falsa, cercado de brilhantes de vidro, mas de boa aparência.
Com brincos do mesmo conjunto, fariam bom par com a roupa de Adele.
Insegura, mostrei a Cozette o vestido vinho e o tule bordado.
Ela pôs as mãos nas cadeiras analisando com olhar crítico, e depois olhou as outras roupas espalhadas pelas cadeiras e baús do quarto, enquanto Clemente enchia a banheira.
-Minha nossa! - disse ela.
Quanto mau gosto!
Tanto dinheiro gasto em quinquilharia!
Ela disse que o marido era sovina?
Pois mentiu!
-Cozette, semelhantes trajes, alguns até bem antigos, não são tão caros!
Veja, sequer as rendas são boas!
Ela ajeitou os cachos no alto da cabeça, e a sacudiu violentamente:
- Você não foi criada no interior como nós, Edite.
Essas coisas são baratas em Paris, onde são fabricadas, mas lá chegam bem mais caras!
A confecção de um bom vestido lá é rara, principalmente quando a cliente é exigente e pede que o alteremos toda hora.
A verdade é que os vestidos acabam ficando assim:
vulgares, sem forma, e, é claro, mais caros.
Ela continuou mexendo sem dó no conteúdo dos baús:
- Minha mãe, que era mulher de um sitiante abastado, fazia no máximo um ou dois vestidos por ano.
A maior parte desses vestidos é de quando ela era bem mais magra, logo, jovem.
Se ele lhe dava dinheiro para tanto, como nunca pensou em ajudar a mãe e as irmãs, que passaram tanta penúria no início?
Apenas um desses vestidos ordinários nos pagaria o aluguel por alguns meses, e minha mãe não teria se exaurido nas costuras, nem Cristine seria levada a trabalhar tão cedo.
Como se descobre coisas observando o baú das pessoas!
Observei que aquilo lhe trazia mágoa e me questionei se tinha feito bem em lhe mostrar o traje que arrumei para Adele.
- Na verdade não esperava outra coisa dela, não sei porque me assusto!
Desde criança era egoísta e dissimulada.
Deve ter ganhado jóias também, afinal, o que não falta são pérolas falsas, de vidro vagabundo.
Quem sabe o que não fez com as verdadeiras.
Tinha paixão por ostentação.
E olhe esses vidros de perfume vazios:
lá um vidro desses, que por aqui a pequena burguesia faz esforço para comprar, vale o mesmo que uma ovelha.
Ela saqueou o velho sem pena!
E tudo para juntar dois baús de tralhais ,
- Clemente tudo ouvia e ia despejando a água de Cristine.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:58 am

Testei a temperatura da água, e despejei os sais de banho de madame, que espantaram logo o cheiro das roupas velhas de Adele do quarto.
Cozette continuou:
- E ainda por cima relaxada!
Custava lavar as roupas antes de guardá-las? Boa parte dos tecidos se perderam!
Deixe ver de novo o que você conseguiu salvar.
Mostrei o vestido sem detalhe; na verdade fora o forro largo de um dos vestidos de festa da mãe de Cozette.
Vi lágrimas nos olhos dela:
Era de minha mãe.
Bom cetim, muito parecido com seda, não é mesmo?
Minha mãe detestava qualquer coisa que deixasse o corpo â mostra.
Lembrava fisicamente Adele, sabe?
Cristine, eu e Ernestine puxamos a meu pai, que era louro, com os olhos verdes.
A minha avó materna, que eu não conheci, era austríaca.
Por isso saímos tão claras.
Tem razão, o corte sem alteração o salva, e se parece com os vestidos que algumas usam hoje.
O tule é para disfarçar o decote?
Sim, madame.
Ela riu, observou o bordado que eu tinha feito às pressas no tule :e medisse:
- Se um dia Cristine enlouquecer e não quiser você por perto, venha trabalhar comigo.
Aquela víbora não merece tanto luxo, mas não quero uma Besançon malvestida.
Coloque algo no pescoço dela para tapar aquela flacidez e as rugas..
- Achei que um colar falso de esmeraldas ficaria bem.
— Óptimo. Nada de jóias verdadeiras ali, hein?
Se continuar a mesma, ela tem a mania de não devolver nada que pede emprestado.
Pode confiar, madame.
Clemente trouxe o último balde de água, arejei o ambiente, tapei as roupas de Adele com umas colchas perfumadas e chamei Cristine para seu banho.
Adele estava na cozinha, almoçando lautamente, apesar do horário, sob o olhar vigilante de Paulette.
Sem mais, ela perguntou:
Não seria bom levar algo ao senhor René?
Ele deve estar faminto. Paulette respondeu rápido:
- Querendo, a senhora pode tentar.
Mas ele fica furioso quando o acordamos.
- Ela calou-se, concentrando-se no pernil, que estava apetitoso.
Ao vê-la, Cozette chamou a cozinheira para um canto, assim como a mim:
- Como devem saber, banheira é um objecto muito pessoal, e eu não quero Cristine com o cheiro dessa aí.
Assim que ela terminar seu banho, esfreguem tudo com muito sabão e passem álcool sem economia.
Ouviu Edite?
- Sim, senhora Cozette.
Fique tranquila.
- Outra coisa: ela nunca foi de banhos, deve ter meses que não toma um.
Nada de sabonetes caros para ela.
Paulette, dê um desses de cozinha, ou ela pode pegar gosto e o trabalho de vocês triplicará.
E quanto à água do banho, sei que a de Cristine é quente, mas a dela deve ser quase fria, para que ela não goste muito da banheira.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:58 am

Edite, diga que é a última moda para firmar a pele.
Adele sempre foi uma gata preguiçosa, detesta água fria, duvido muito que incomodará de novo.
Vi a aprovação no rosto de Paulette.
Depois das duas horas de banho de madame, procedi como Cozette dissera, enchendo a banheira de água mais para fria, e Adele entrou num roupão como se fosse uma duquesa:
Ah! Nada como um banho para revitalizar a pele.
Não que precise, que minha pele é um pêssego, mas um pouco de sabão não irá gastá-la.
Eu estava discretamente ao lado da banheira, com um balde de água fria como a do riacho no outono.
- É verdade, Adele.
Más, notou a pele de sua irmã?
Para isso ela usa um truque de beleza.
- E, mesmo? E qual?
Me fiz de solícita, pois antipatizava mesmo com ela e não a queria dando
trabalho a Clemente e abusando de madame:
- Para preservar a beleza, é preciso sacrifício.
A água está boa?
- Um tanto fria.
Mas não pretendo ficar muito tempo.
Aproximei-me com o balde de madeira cheio, não conseguia esquecer da maldade dela com a mãe e as irmãs:
- A rainha descobriu uma nova técnica para remoçar.
Afinal, ter que competir com Pompadour16 não é fácil.
Faz isso sempre nos seus banhos.
Está terminando?
A água da banheira já estava ficando gelada, e ela respondeu:
- Estou. Não sei como Cristine passa horas aqui.
Está ficando gelado.
- Pois levante-se, madame, que terminarei o tratamento.
Um último balde de água para tirar o excesso de sabão que realmente estava demais - e fortalecer seus músculos e pele.
- Achando, é claro, que a água estava morna ela disse:
- Pois pode enxaguar.
Quem sabe não lhe lavasse um pouco da alma?
E joguei o conteúdo do balde inteiro de água gelada de uma só vez.
O berro que ela deu acordou pozette e eu corri à acudida com as toalhas para que não se resfriasse.
O que felizmente não aconteceu.
Ela saiu dando pulos da banheira, agarrada às toalhas:
- Cristine faz isso?
Pois é doida!
Nunca mais entro nessa banheira!
Minhas toalhas fazem muito bem esse serviço!
Acalmei-a e a ajudei a se vestir, depois desinfectei a banheira conforme pozette orientara.
Pedi perdão a Deus, mas nunca me senti tão alegre de fazer uma traquinagem.
Após isso corri a ajudar madame, que já estava um tanto nervosa com a apresentação.
Entrei em seu quarto e dei com ela apertando a fronte pela dor de cabeça.
Ungi minhas mãos com seu óleo preferido e lhe massageei o pescoço fino.
Ela suspirou:
Tomei uma pílula para a dor e outra para me manter desperta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:58 am

Estou feliz em dançar de novo.
Acha que terá muito público?
Lembrei-me do imenso cartaz com a figura dela e as pessoas que se juntavam na frente dele comentando sua beleza.
- Não se preocupe com isso, madame.
Serão dez danças, não é?
Depois poderemos levar a vida que escolher.
Mas pode esperar casa cheia.
A senhora é uma artista incomum, madame.
As vezes penso que nem precisava ser tão bela.
Já não disseram que quando dança parece que nos transporta a um lugar mágico, que podia ser o Oriente que conhecemos, mas é bem melhor?
E é verdade.
E O comentário era de Gastón.
Olhamos as duas juntas para o retrato dela vestida de Sherazade.
Vi lágrimas nos olhos de minha amiga, e achava que Gastón podia mesmo estar influenciado por um "espírito mau" quando me fez aquela atrocidade?
Eu não frequentava igrejas.
Quando pequena era pobre demais para isso, e depois, servindo uma cortesã, não seria barrada, mas me sentia incomodada com os olhares curiosos.
Apesar disso, fazia minhas orações ao senhor Jesus com um fervor que era meu mesmo.
Um grande amigo do conde nos passou os ensinamentos do mestre de uma forma que não podia ser esquecida.
E se mesmo o senhor Jesus lutou contra o demónio, que seria de nós, pobres mortais?
Respondi a ela com sinceridade:
Não posso lhe dizer isso com certeza, ma chere amie.
Esperávamos que ficasse zangado, lembra-se?
Mas não daquela forma.
Aquele olhar definitivamente não parecia ser o dele.
Comecei a pentear os longos cabelos dela como fazia todos os dias.
Os cachos caíam, louros, algumas mechas tão claras que pareciam platinadas, pelo meio das costas.

16 - Célebre cortesã francesa da época
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:59 am

XXI - CLARA FALA SOBRE OBSESSORES E O UMBRAL
(Narrativa de Ariel)
AS PESSOAS NA grande sala já estavam curiosas para ver o número de dança de Cristine, mas senti o olhar de Serafim sobre mim e seu pensamento chegou como um raio:
"Talvez seja hora de conversarmos com as pessoas sobre a influência dos obsessores nos encarnados.
Chame Clara, precisarei dos dois".
Edite sentou-se, um pouco cansada da narrativa e de mostrar algumas imagens.
Esthefânia ofereceu-lhe um copo de água ou algum alimento, pois o dia quase que chegava ao fim.
Era bom ver o interesse das pessoas em sua narrativa, fluente, e em alguns pontos engraçada.
Era uma contadora de histórias nata.
- E bem mais fácil quando é a sua própria história, Esthefânia respondeu ela à minha esposa.
Quem sabe um dia não conta a sua?
Esthefânia enrubesceu como criança nova:
- Nem pensar.
Não tenho esse seu dom nem vivi coisas parecidas...
Edite sorriu para ela, bondosa e perspicaz:
- Será? Eu também, naquela encarnação, fui só uma governanta de uma cortesã...
Pensei que seria realmente um milagre se Edite conseguisse fazer com que Esthefânia falasse em público, até que me lembrei de como tivemos também que dissuadi-la para que o fizesse.
Lembrando do pedido de Serafim, busquei Clara com os olhos na audiência e a encontrei ao lado de Nana e Olívia, que já me olhava com seus olhinhos de gato:
- Já vou levá-la até aí, Ariel.
E assim fez, trazendo Clara pelo braço, acompanhada por Nana, que tinha o cenho cerrado de curiosidade: que poderiam estar querendo com a sua eterna
menina?
Para quem não as conhece, minha amiga Clara desencarnou forma rápida e indolor num desastre de automóvel no início dos anos 1930.
Coração puro, foi logo acolhida na Colónia e, por saudades da filha que deixou na Terra em tenra idade, assim que se restabeleceu começou a trabalhar aqui com crianças.
É de pequena estatura, cabelos castanhos longos e lisos, aparenta vinte e poucos anos, embora tenha desencarnado um pouco mais tarde; tem olhos grandes, sobrancelhas mais grossas que o habitual das mulheres, nariz afilado e boca pequena e bem desenhada.
E magra de constituição, e Nana foi sua babá e fiel companheira do seu nascimento até a sua desencarnação, criando a filha de Clara, Júlia, até que ela mesma.
Nana, desencarnou uns quinze anos depois de "sua menina".
Clara é companheira de Marcos, actualmente reencarnado na Terra, e aguarda seu retorno com paciência, mesmo porque ele não deve demorar.
Na Terra, muitas vezes quando morre um jovem há imensa tristeza e incompreensão, mas o verdadeiro lar é aqui:
quisera eu que a família que hoje acolhe o nosso Marcos soubesse quantos aguardam o seu retomo ao plano espiritual.
As saudades de Clara que o digam.
Essa moça, que durante a vida terrena e mesmo aqui só fez o bem, depois de poucos anos de trabalho com as crianças, dedicou-se a resgatar do umbral almas em sofrimento, para reestabelecerem-se na nossa Colónia junto comigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:59 am

Espantei-me no início, pois o trabalho é difícil, o ambiente do umbral é "carregado" de energias negativas, e realmente provocaria medo em uma moça de aparência tão frágil, mas que companheira tem sido!
É bom explicar que não vamos ao umbral sozinhos.
Isso não é considerado adequado nem seguro, logo, ela tem sido o meu par constante.
Amiga de minha mulher, quando esta lhe perguntou se não tinha medo de ir para essas paragens, ela respondeu:
"É meu trabalho, Esthefânia.
E depois, seu marido é um bom companheiro.
- Minha mulher, sabendo de alguns casos feios que eu contava, ainda assim insistiu:
- Ariel é uma alma boa, mas são tantas entidades negativas!
Não tem medo?
Eu mesma me preocupo muito quando ele sai.
- Não é preciso ter medo, querida amiga, quando se tem fé.
Depois disso, Esthefânia tranquilizou-se quanto a meu trabalho, e embora as duplas quase sempre sejam mantidas, toda vez que saio ela me pergunta:
- Vai com Clara?
Se respondo que sim, ela assente com a cabeça, mais tranquila, e me diz:
"Então está bem".
Beija-me a fronte e sai satisfeita.
De início fiquei meio ofendido que ela pensasse que um homem do meu tamanho precisasse da protecção de uma mulher "tão frágil" como aquela.
Mas depois tive que rir de mim mesmo.
A fé de Clara a tomava maior que qualquer escudo.
- Chegando até mim, Clara perguntou, com os seus olhos castanhos um tanto
preocupados:
— Que foi? Alguma missão de urgência?
— Não tranquilizei-a.
Serafim deseja que fique por perto, parece que vai precisar de nós.
Captando como sempre os pensamentos da plateia presente, Serafim levantou-se:
- Quando Edite citou o comportamento violento do conde, sempre tão gentil e amoroso com Cristine, disse também que poderia ter sido influenciado espiritualmente.
Notei que muitos dos irmãos que nos assistem têm dúvidas á respeito da obsessão que os "mortos" podem exercer sobre os que ainda estão encarnados sobre a Terra.
Um senhor de aparência nobre, cabelos grisalhos, olhos verdes, claros como o mar, levantou a mão e pediu a palavra:
- Irmão, acho o assunto importante.
Na Terra fui religioso e testemunha do que alguns desses demónios podem causar aos vivos.
Famílias foram destroçadas, assassinatos cometidos...
Lutei com muitos deles* às vezes com sucesso, outras, sem resultado.
Sempre disse aos meus fiéis que o bom Deus coloca esses demónios em nosso caminho para testar a nossa nossa fé, mas desde minha morte tenho visto tanta coisa nova, que gostaria de saber sua opinião, já que vejo que também é um religioso.
De Serafim emanava uma clara luz cor de prata.
Ele olhou o homem com seus olhos amorosos e profundos:
- Irmão Herman, é bom tê-lo connosco.
Durante a vida foi um luterano fervoroso e um estudioso das doutrinas cristãs.
Viveu boa parte de sua vida em Santa Catarina, não foi?
Feliz de ser reconhecido, mas curioso, o irmão Herman, simpático, respondeu:
- Sim, senhor.
Mas como sabe?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 9:59 am

Serafim sorriu para ele prazenteiramente:
— Ora, irmão...
O que não se sabe nesta Colónia?
Desencarnou em 1850* vítima de uma febre de malária, não foi?
- Nem me fale! Doença horrorosa!
Fui para a vila ajudar e acabei vítima também.
Mas não me queixo.
Deus foi bom comigo, logo fui acolhido por mãos cariciosas, que cuidaram de mim, e por muito tempo supus estar vivo, sabe?
Só depois de um bom tempo me dei conta de que não era um hospital terreno.
As dores cessaram logo, a febre cedeu, e desde então tenho estado aqui na Colónia, na vida que sempre gostei, trabalhando muito e estudando nas horas vagas.
Me espantei com o mundo espiritual, fazia ideia diferente:
mas sabe que é muito melhor do que o mundo que eu pregava em meus sermões?
Nada de harpas, nem anjos com asas* nem julgamentos eternos...
Serafim riu, como boa parte da audiência, da sinceridade do pastor:
E aqui, tem trabalhado onde?
Corado de emoção, ele contou:
— No mesmo hospital que me acolheu.
Fiz muitos amigos por lá e os que chegam trazidos da Terra precisam, além de passes, de palavras amigas e de conforto.
Aprendi com o mestre Jesus a mágica da caridade, que torna os dias melhores, tanto de quem a pratica, como de quem a recebe, e aqui tenho sido muito mais feliz que na Terra.
Ao menos não tenho que enfrentar os demónios que enfrentava, às vezes, perseguindo os meus fiéis.
Serafim deu-lhe um sorriso misterioso, e depois disse:
— O irmão Herman teve uma vida de caridade sobre a Terra.
Foi um bom pastor e aqui todos respeitamos a fé alheia, por motivos que conhecemos bem.
Desde que preguem a paz, o amor ao próximo e a caridade, tudo tem seu tempo e cada religião tem seu mérito.
Mas temos aqui duas pessoas que convivem bastante, por conta de seu trabalho, com essas pobres almas ainda errantes que nosso irmão chama de demónios, e que habitam ora a superfície da Terra, ora o umbral, o qual muitos de nós conhecemos, e muitos temem.
0 silêncio da audiência valia por mil palavras.
Muitos ali já tinham conhecido ou estado no umbral.
Alguns, como eu e Clara, tínhamos socorrido lá, outros temiam voltar para lá,
Alguns espíritos teimosos querem ficar na Terra, mesmo depois de conhecer a Colónia, pela saudade de seus entes queridos.
Mas nunca vi nenhum espírito, depois que ascende à Colónia, querer ficar no umbraL
Os vivos não fazem ideia da vastidão do umbral e de sua complexidade, sendo franco, mesmo tendo ido lá incontáveis vezes, eu mesmo apenas suspeito.
Mas uma coisa notei:
almas com energias similares se atraem mesquinhos atraem mesquinhos, homicidas atraem homicidas e, em alguns casos, pobres vítimas que eles mesmos fizeram e que se julgam cativas deles.
A luxúria tem seus adeptos, assim como o materialismo.
Enquanto na Terra as intenções se escondem, no mundo espiritual elas se tornam mais claras, e os iguais se juntam.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:43 am

Existem ainda os culpados que se julgam sem perdão e assim decidem se perpetuar no mal, uma vez que se acham condenados pela eternidade.
Irmãos, eternidade é um tempo muito longo.
Havendo arrependimento sincero, Deus dá inúmeras chances.
Chegar até esses últimos não é fácil.
E muitas Vezes, há perigo.
Perguntaram-me uma vez como íamos ao resgate de almas, o que nos levava até lá.
Existem irmãos abnegados que saem em patrulhas numerosas, que muitas vezes eu e Clara vemos quando em missão pelo umbral.
Esses, como são em número elevado, levam um grande brilho quando passam por aquelas paragens, e muitas vezes conseguem resgatar vítimas de seus opressores, suicidas de boa índole, que se encontram em estado de dormência, entre outros.
Essas patrulhas são abençoadas e causam alvoroço quando aparecem, pois os habitantes do local não gostam nada delas, pois muitas vezes perdem suas vítimas.
Clara e eu também causamos certo brilho no umbral, onde o campo energético é
escuro e denso na maior parte das vezes (de se espantar mesmo é o brilho de Olívia, que mais parece um pequeno sol quando deseja), mas somos chamados em casos especiais: somos chamados pelas preces, ou dos vivos que se importam com o desencarnado, ou dos desencarnados* que ficam angustiados ao ver um ente querido preso em situação desesperadora.
Ou ainda do próprio ser, que se lembra de Deus, e pede ajuda.
Impossível dimensionar a importância da prece verdadeira, feita em intenção do desvalido, e do benefício que ela traz, da energia que emana.
Se o espírito não abrir seu coração, continuar querendo se punir, preso em sua mágoa, ou ainda desejando o mal alheio, nada podemos fazer.
0 livre-arbítrio é poderoso.
Mas as preces feitas com o coração elevado costumam alcançar imenso êxito, e sê não for conseguido o bem da primeira Vez, não se deve abandonar o escolhido.
A paciência é uma das maiores virtudes, e só o bom Deus conhece o valor do tempo.
Outra senhora, ao lado do irmão Herman, muito simpática nos seus cinquenta anos, loura, e de aparência germânica, perguntou:
Mas o conde estava sob a influência de maus espíritos?
Para minha surpresa, foi Edite quem respondeu:
Não de maus espíritos, mas de um espírito que buscava vingança incessantemente.
Na época eu apenas desconfiava, pois não correspondia à índole de Gastón a brutalidade com que foi feito o aborto, mas depois, no plano espiritual, quando desencarnei, conheci William, meio-irmão do conde, filho de uma moça inglesa, morto por ele em situação de legítima defesa, e que obsidiou o conde em boa parte de sua vida.
Influenciou também a parteira para que causasse a morte de Cristine, mas não era sua hora.
Silêncio fez-se na audiência, ante a revelação.
A senhora fez outra pergunta oportuna:
Mas o conde não poderia ter tomado outra atitude?
A culpa foi somente do ‘obsessor?
— Foi a vez de Serafim responder:
— Muitas vezes, entre o obsessor e o afligido, corre um fino liame de pensamentos.
Mas a "culpa", se assim deseja chamar, foi de ambos.
Tivesse o conde um pouco de fé, ou se mantido longe de pensamentos obscuros, o obsessor não teria encontrado um canal.
Mas quem, na Terra, amado planeta e ao mesmo tempo ambiente tão conturbado, não tem por vezes pensamentos negativos?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:44 am

Orai e vigiai, disse o senhor, mas por vezes é difícil escapar da energia que nos cerca.
Gastón podia ter se rebelado às subvenções que trazia consigo desde a infância e dito "não" às sugestões de William, assim mudando seu destino.
Mas o orgulho e o preconceito de ontem, entraram em sintonia com o ódio do obsessor, formando uma cegueira irresistível, e deu-se a tragédia.
-Notei que o assunto interessava a muitos ali presentes, e que alguns lembravam-se de factos de suas vidas anteriores.
Foi quando Serafim tomou novamente a palavra, e chamou por Clara.
Clara tem como ocupação o resgate de almas no umbral.
Com isso, acaba algumas vezes visitando o plano terrestre, o que pode nos dizer sobre os obsessores, Clara?
Notei-a com o rosto angustiado.
Tanta coisa tinha presenciado desse tipo, que ela me perguntava com os olhos o que poderia dizer, e o que deveria ficar esquecido, mas Serafim logo lhe tirou essa dúvida:
- Não tenha receio.
Pedi que falasse para que as pessoas que aqui estão tivessem uma "visão feminina", logo, mais suave, de ambiente tão carregado de sofrimento.
Mas pode contar sem receios o que viu lá.
Ela respirou fundo, levantou-se e se apresentou:
- Trabalho no umbral já há algumas décadas.
Tive uma vida curta, mas privilegiada, na Terra, cercada pelo carinho de amigos e parentes, nascida em família próspera, filha única e muito amada por meus pais, que sempre afastaram de mim, assim como depois meu marido, todo mal que podiam.
Mas o triste território do umbral foi para mim o maior dos aprendizados sobre o sofrimento humano.
As pessoas pareciam duvidar que aquela moça tão meiga e de aparência tão frágil pudesse ter escolhido trabalho tão doloroso e difícil.
Apta a ler os pensamentos dos presentes, ela respondeu:
- Foi escolha minha mesmo.
Aqui, como se sabe, nada se impõe.
E, se é um trabalho difícil, também é gratificante quando resgatamos alguém de um sofrimento que ele julgava eterno, quando ele percebe que pode contar com o amparo dos amigos da Colónia.
Testemunhar o encontro, deles com parentes angustiados com sua sorte é uma bênção divina, que agradeço ao Senhor todos os dias, e é Ele que me fortalece nessa missão.
Ela olhou para algumas pessoas da plateia que tínhamos ajudado a resgatar, e sorriu para elas, que sorriram de volta.
- Os obsessores citados pelo irmão Serafim caminham por lá livremente.
Muitos dos espíritos nessa situação acabam andando em grupos, e não raras vezes vão à Terra, onde se sentem mais livres.
Chamados demónios por alguns, se Os encarnados pudessem vê-los e ao campo energético que emana de seu perispírito, realmente ficariam assustados.
É preciso entender que a forma do espírito é muitas vezes mais maleável do que a da carne, e alguns desses espíritos, embora imbuídos de maus propósitos, são inteligentes e bastante activos.
Não notam que assim aumentam seu próprio sofrimento, carregando mais dívidas.
Influenciam não só as almas à sua volta, mas também um grande número de vivos, aos quais estão ligados ou por vidas passadas, ou pela vida em curso ou ainda por afinidade de pensamento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:44 am

Ela olhou firme para as pessoas presentes:
Uma das obsessões mais comuns é a do vício terreno em drogas ou álcool.
Não há mais corpo logo, a dependência deveria acabar com o fim do corpo físico, mas não é assim que acontece.
A exemplo do pobre desencarnado que ainda sente as dores que causaram sua morte, essas pobres almas viciadas se aproximam de um encarnado que tem acesso físico a essas drogas e as suga dele.
Com isso, muitas vezes incentivam o vivo a consumir cada vez mais, já que nunca se sentem satisfeitos.
Se têm ligação afectiva ou laços com a vítima?
Às vezes sim, mas isso não é necessário:
simples afinidade do vício pode ligá-los a ele.
Festas muito movimentadas, bares, ambientes sociais das mais variadas classes às vezes têm um número de espíritos maior que o de vivos.
- Lembrei-me de algumas situações em que resgatamos almas no plano terreno, onde elas se encontravam no momento.
Nosso trabalho não se restringia apenas ao umbral, mas ao local onde o irmão (ou irmã) precisando de ajuda estivesse.
Clara continuou seu testemunho com a voz calma e doce:
Livrá-los do vício é difícil, mas está longe de ser impossível.
Na realidade, basta querer:
temos aqui mesmo alguns irmãos que com a imposição das mãos livra o indivíduo da vontade, quando este realmente
0 quer. Se a fé move montanhas, o que não faz com o coração humano?
E embora o perispírito venha carregado de fluidos negativos com a desencarnação, a dependência "física" desaparece, já que o corpo não mais existe.
Todo sofrimento pode ser aplacado, desde que haja vontade, humildade e fé.
Vícios adquiridos no corpo nos preocupam, e muitas vezes perseguem o perispírito, mas o que nos aflige mesmo são os vícios da alma.
O vício do corpo, numa outra encarnação, com o esquecimento necessário um corpo livre de toxinas, se esvai, mas os maus sentimentos, esses às vezes, persistem por séculos.
Havia um grande interesse na plateia.
Pessoas de várias religiões se reuniam para ouvir os ensinamentos.
Vi obsessores influenciarem pequenas e grandes acções maldosas na Terra, como a inveja, a calúnia, o desamparo de inocentes.
Alguns riem muito quando atingem seus objectivos, e sinceramente causavam-me pena, pois assim se afastavam cada vez mais da felicidade verdadeira, causando dor em seus desafectos, ou em pessoas com as quais simplesmente antipatizavam.
A verdade é que, se querem se livrar dos obsessores, o caminho é um só:
lute contra os maus sentimentos, combata a própria inveja, o ciúme, a maldade.
A exemplo das pessoas vivas, eles só ficam perto de pessoas que lhes dão ouvidos.
Quando notam que a pessoa tem bons sentimentos e caridade verdadeira, eles acabam influenciados ou indo embora.
A sabedoria das palavras do mestre está inclusive nisto:
ame ao próximo como a si mesmo, ainda que seja seu inimigo; não prejudique ninguém, que sua vida será melhor e muito mais feliz.
Apenas seguindo os passos do Cristo encontramos a paz e a felicidade.
Serafim sorriu para ela em aprovação.
O irmão Herman tinha uma pergunta:
- Mas não devemos, irmão Serafim, tentar nos aproximar dessas almas que
eu mesmo chamei de demónios para convertê-los ao cristianismo?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:44 am

Serafim expressava simpatia por Herman, mas sua resposta não me causou surpresa, depois de décadas trabalhando no umbral:
- Amado irmão, essas almas, assim como nós, têm seu poder de escolha.
Algumas são bastante inteligentes e estão há séculos na escolha do mal, por gostarem muito dos "pequenos prazeres" que acabam por causar "grandes dores".
Não pense que quando saímos em patrulha não tentamos lhes dar atenção, mas a acolhida não costuma ser boa.
Mesmo os "anjos da guarda" se afastam, temporariamente, quando notam que seu protegido insiste em trilhar um mau caminho.
Esses abnegados guias protectores esperam que seu protegido caia em si e finalmente fique acessível aos bons ensinamentos.
O que acaba acontecendo com a maior parte desses espíritos é a bênção da reencarnação, onde o esquecimento de vidas passadas lhes permite recomeçar em novo corpo, livre de vícios, em ambiente mais adequado ao seu aprendizado espiritual.
A verdade é que 1 maior parte deles só percebe que vai reencarnar quase no momento exacto, embora sintam os efeitos da ligação com a carne já pelo tempo da gestação.
A eles não é dada a escolha de família, já que escolheriam mal, nem o ambiente.
Tudo isso é feito numa esfera superior à da Colónia.
O irmão Herman pareceu estupefacto.
- Reencarnam, então, sem escolha?
- O irmão daria escolha a uma criança que mal sabe o que faz e que insiste em atravessar uma rua e ser atropelada continuamente?
Costumam reencarnar, cada qual em seu caso, para que progrida e consiga, com o tempo, deixar de se ferir e ferir ao próximo.
Não é incomum inimigos reencarnarem na mesma família para assim, com laços de sangue e convivência, sanarem antigas dívidas.
As vezes a animosidade permanece, mas ainda assim costuma ser sanada depois, no plano espiritual.
Essa escolha não deve ser encarada como punição, mas como nova chance de amor e aprendizado.
Guias protectores são indicados para essas novas crianças, que não tinham acesso a ele quando no umbral.
A reencarnação terrestre
é uma bênção difícil de ser medida.
Só mesmo o amor infinito do Criador pode explicá-la.
O irmão Herman ainda tinha algumas dúvidas:
- E nós, aqui da Colónia, teremos todos que voltar ao plano terrestre?
Era uma pergunta que interessava a muitos dali, já que muitos estavam há séculos na Colónia, outros reencarnavam logo, e ainda outros iam para outros planos, como Olívia e Serafim.
- "A casa de meu pai tem muitas moradas", disse o Cristo.
E cada uma delas tem lugar para seus filhos.
O espírito fica onde ele evolui mais rápido e pode auxiliar melhor.
Mesmo sendo muito evoluído, pode voltar à Terra em missão, para ajudar outros a evoluírem, mas nem todos da Colónia voltarão à Terra.
Alguns realizam trabalhos tão necessários que seria tolice realocá-los em outro lugar, outros
atingem tamanho grau de desenvolvimento que podem realizar trabalhos mais complexos e vão para níveis superiores.
Temos moradores aqui de longos séculos, ainda que a maior parte tenha que voltar à Terra para um ou outro aprendizado.
Mas não há motivo para receio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:44 am

Também a Terra evolui, e é hoje um lugar com leis mais justas do que era há trezentos anos.
E da vontade de Deus a evolução dos planetas, assim como a evolução do pensamento humano. Para isso renascem os homens.
Ele olhou para Clara como se pedisse que ela retomasse a palavra:
-Na Terra, quando encarnada, eu muitas vezes olhava um bebé lindo e indefeso como uma página em branco, cuja educação o moldaria.
Hoje sei que está ali um ser que pode ter uma sabedoria infinitamente maior que a minha, ou precisar de supervisão acirrada para que não se perca em maus caminhos como se perdeu antes.
O bom Deus os faz com a aparência de inocência e candura e nos enternecemos com eles.
Isso é sábio e necessário, pois ali está uma nova alma que caminha pela Terra com algum propósito pessoal de aprendizado, ou em missão, para acompanhar um ente querido, fazendo-lhe mais fácil a jornada, ou ainda ajudar ao próximo, conhecido ou não.
Na casa da caridade não existem portas.
A mesma simpática senhora ao lado do irmão Herman perguntou:
Mas, Clara, tive quatro filhos.
Todos criados da mesma forma, dei a eles uma educação rígida, mas amorosa, cerquei-os de todo afecto, dei-lhes bons exemplos.
Um deles, no entanto, o segundo menino, se perdeu.
Enriqueceu na vida, é certo, pois era inteligente, embora um tanto preguiçoso; casou-se com uma moça rica.
Mas como me decepcionou!
Bebia socialmente, não era de jogatina, e diante de todos parecia mesmo exemplar pai de família, mas era mau.
Desde criança notava nele a dissimulação, a crueldade com os pequenos animais.
A mulher, depois da morte dele num desastre, me contou que apanhava em silêncio, que ele era violento com ela e com os filhos.
Em seu enterro tão poucos foram...
Com nenhum dos irmãos se dava, sempre humilhando aquele que trabalhasse em emprego mais simples.
Fora as amantes que descobrimos!
Depois de sua morte as coisas me foram sendo reveladas e eu sofri muito, pois senti que falhei no meu papel de mãe.
Talvez se tivesse sido mais rígida...
Foi Serafim quem respondeu, consolando a meiga senhora:
- Por que pensar assim, dona Brígida?
Não o cercou de afecto e atenção nos seus primeiros anos?
Não lhe deu exemplos de honestidade, paciência e carinho?
Conheço sua história e fico feliz de falar consigo.
Acaso acha que as mães possuem um poder maior que o de Deus, podendo moldar o filho da forma que desejam?
E caso conseguissem, o que esse espírito teria aprendido, se lhe fosse negado o direito de escolha?
Dona Brígida olhou para ele com os olhos marejados e espantados:
- Sabe meu nome, então?
Mas, como?...
Nos conhecemos antes?
Serafim sorriu lá com seus mistérios:
- Vamos dizer que "um anjo soprou nos meus ouvidos".
Não se culpe por algo que estava muito além de seu poder, minha boa senhora!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:45 am

Seu filho Cristiano escolheu caminhos errados por conta própria.
Ele teve sua orientação, assim como a do pai, mas fez seu próprio destino tão logo se tornou um homem.
Pouco amigo do trabalho e vaidoso, casou-se por interesse.
Teve seus vícios, sim, mas bem escondidos e alguns duradouros.
Isso nunca foi culpa da senhora, nem poderia ter evitado.
Milhões de mães passam e já passaram por esse tipo de sofrimento.
Ore por ele, para que enxergue seus erros e aprenda a humildade.
Assim o ajudará.
Mas nunca se culpe.
Acaso, quando criança, o abandonou ao relento?
Faltou algo para o menino?
Então...
Deus está feliz com você, o que prometeu no plano espiritual foi cumprido.
Deixe que com o tempo verá o trabalho que o senhor está realizando nele.
Torno a dizer: ore.
Ele dirigiu o olhar a algumas mulheres da audiência com um imenso amor e um sorriso triste:
- Temos aqui o exemplo de uma boa mãe que se culpa por algo que absolutamente não estava sob seu controle.
Mesmo o bom Deus deixa aos filhos o livre-arbítrio para que cresçam e evoluam.
Protegidos de tudo, isso os atrasaria.
Mas quantas mulheres abdicam ou, ainda pior, desempenham mal esse papel sagrado que lhes é confiado?
O amor materno, tão cantado em verso e prosa, infelizmente não é a regra e, muitas vezes, vem cercado de egoísmo, abandono, preguiça, sensualidade.
Quantas sacrificam os filhos para manter companheiros violentos ou imorais, por motivos que vão desde a preguiça de prover a própria subsistência até o desejo irrefreado?
Enquanto os filhos são pequenos, dependem de vocês, erguem as mãozinhas e os olhos em busca de compreensão e entendimento.
Seja qual for a alma que esteja ali, vocês aceitaram recebê-la.
Cumpram seus deveres com o Criador e as acolham dignamente ou as encaminhem a quem possa, ou o futuro será penoso.
A primeira condição para a maternidade é o amor, e ele deve ser forte, independente e generoso.
Brígida fez tudo isso pelos filhos.
Fiquei feliz de ouvir aquilo.
Tantas vezes tinha visto boas mães se culpando por filhos que escolheram caminhos tortuosos, assim como mães que maltrataram seus filhos...
Dona Brígida sentiu-se reconfortada.
Clara sorria para ela:
- Entendo seus sentimentos.
Eu também fui mãe, mas quem me dera todas as mães que encontrei tivessem sido como a senhora: não existiriam mães no umbral.
Clara olhou para as próprias mãos, como se quisesse se esquecer de algumas imagens, mas resolveu falar:
- Sim, existem mães, pais, avós, todo tipo de gente no umbral.
Até mesmo alguns que parecem ser crianças, mas não são.
A culpa lá é disfarçada por sentimentos de raiva, antagonismo, frustração; alguns até se fazem de vítima com algum sucesso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:45 am

Ingénua de início, ainda sem desenvolver algumas faculdades espirituais, fui enganada por algumas delas, mas por pouco tempo.
Como se sabe, por aqui a mentira só se engana, principalmente se você está diante de um espírito experiente e de inteligência aguçada.
Tive até passagens engraçadas no umbral, com Ariel e meu amado Marcos como companheiros, e aprendi muito.
Mas também vi coisas muito tristes. Uma das coisas que entendi é que nem tudo é como aparenta.
0 olhar dela dirigiu-se ao longe:
- Uma vez, andando com a patrulha para aprendizado, dei com uma senhora cheia de chagas, num ambiente lúgubre, vestida de forma sumptuosa, mas suja e despenteada.
Ela chorava um choro contínuo e lamentoso e parecia esvair-se em dor, tanto emocional como física, e eu me compadeci imediatamente.
Ariel, mais experiente, me tocou no braço como a me dizer que não fosse até ela, mas fiquei tão comovida, que não atendi ao apelo de meu amigo.
Ela suspirou com a lembrança, da qual eu também me recordava bem, e me perguntei se seria adequado contar ali, mas Clara continuou, com a aprovação mental de Serafim:
- Era uma gruta escondida, cercada por vegetação rasteira, terreno lodoso e cheiro nada convidativo.
De perto notei que as vestes da senhora deviam ser do final do século XVIII, que ela tinha os cabelos ainda negros, embora um tanto raiados de branco, mas não devia ter quarenta anos.
As chagas cobriam seus braços, algumas estavam no colo desnudo, onde trazia um colar valioso de ouro amarelo com uma grande cruz.
Devia ter sido rica, pensei.
Vestida da forma simples e clara como nos vestimos aqui, eu tentei conversar com ela, afastando-me do grupo, ficando apenas Ariel na entrada da gruta, que não era funda demais.
Cheguei com o coração cheio de piedade:
"Senhora, por que chora tanto?
Posso ajudá-la?"
Ela me olhou espantada, de cima a baixo, como a querer avaliar quem eu era e o que queria.
Notando meu "brilho diferente", percebeu que eu não pertencia ao ambiente, e resolveu falar comigo:
"Sofro demais!
Sofri tanto em vida, e agora estou no inferno!
Não é justo!
Tantas doações fiz para a igreja, tantos escravos emprestei para a construção de uma nova, toda decorada com ouro, e agora estou aqui!
Não entendo, essas chagas não me deixam, doem e coçam o dia inteiro.
Sempre tive tanto cuidado com a minha pele, sempre tive horror à doença.
Se bem me lembro devo ter morrido do coração, não entendo essas chagas, nem esses demónios atrás de mim!".
Nem eu entendia.
Pela situação dela, parecia ter morrido de lepra ou algo parecido.
As chagas eram feias e cheiravam muito mal.
Notando que eu a observava, ela puxou um pedaço de seu xale rendado e negro e tentou se cobrir:
"Quando viva eu era uma das beldades da região.
Lá vai a bela Eulália, diziam.
Me banhava em leite uma vez por mês, tinha perfumes, tudo muito caro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:45 am

Cresci em berço de ouro, sabia?
Pais da nobreza, não era uma qualquer.
Casei cedo, aos dezasseis anos, com um comendador bem mais velho.
Velho e enfadonho!
Mas me dava tudo que eu pedia, e ai dele se não desse!
Ele que devia estar aqui, cheirava mal, eu detestava ficar perto dele.
Se bem que, graças a Deus, não durou muito:
dez anos de casada e eu já estava viúva.
Viúva e muito rica, ainda que o imprestável tivesse me deixado com três filhos".
Clara prosseguia:
- Das paredes da gruta, ouvi um som que me parecia dizer:
"Adultera... assassina!", os fios do cabelo de minha nuca se eriçaram.
Ela começou a se coçar, mas não pareceu ouvir as vozes.
Das feridas começou a brotar um líquido pastoso e parecido com sangue.
Ela continuou, como se em mim tivesse encontrado uma boa ouvinte:
"Você não é daqui, é?
Como faço para sair?
Tem muitos ladrões por aqui, tenho que me esconder sempre...
Podem levar meus anéis, meus brincos, minha cruz...
Custaram caro, sabe?
Fiz questão de deixar em testamento que me enterrassem com elas.
Tive filhos, lhe contei?
Dois meninos e uma menina.
Quem quiser ter paz na vida que não tenha filhos, mas meu marido queria tanto!
Me arrependi.
Soubesse, não teria tido nenhum".
Ela começou a coçar o couro cabeludo com força, e eu intuí que ali também devia haver feridas.
Entendi o motivo do penteado desfeito.
Parecia que não conversava com ninguém há anos.
E ela continuou:
"Fui amante de um padre.
E por isso que estou aqui?".
Sabendo das leis de perdão, respondi:
"Não creio, senhora.
Não existe punição eterna.
Os arrependidos sempre terão lugar no reino de Deus".
Ela riu amargamente:
"Quer dizer que até nisso o padre enganava o povo?
Nada de punição eterna?
Mas foi um bom amante...
Meio caro, pedia sempre contribuições para a igreja.
Meu filho mais novo era dele, mas durou pouco.
Deixei aos cuidados de uma negra velha e a maldita não olhou direito.
E certo que estava com febre, mas criança não morre assim fácil, não é mesmo?
Acho que ela o matou.
Era invejosa, incompetente.
Eu mandei matá-la depois, no tronco, na chibata.
Era o único filho que eu achava que ia gostar um pouco de mim, pois o resto, nunca nos demos bem".
Clara fez uma pausa, e falou de seu sentimento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:45 am

- Minha simpatia por ela diminuiu bastante.
Lembrei-me de minha amada Nana, babá negra que foi minha mãe protectora durante toda vida.
Ia me preparando para sair quando notei no fundo da gruta dois vultos de pequena estatura, e uma aparência medonha:
pareciam crianças de quatro ou cinco anos, mas eram tão deformados que me chamaram a atenção.
Vendo que eu olhava além dela, Eulália parou de se coçar e olhou por cima do ombro esquerdo, falando baixo para mim:
"Está vendo os dois, não está?
Sabia que não estava louca!
Desde que morri me perseguem.
Jogam-me pedras, puxam os meus cabelos.
E que feios, não?
Não sei quem são, demónios certamente!".
Eram feios, sim, mas pelo ódio que os transmutava.
"Assassina", as entidades pequenas me diziam.
De súbito, uma cena se desenhou diante de meus olhos:
eu vi a bela Eulália nos seus trinta anos, já viúva, dando à luz duas crianças e matando-as assim que nasciam.
Sem saber como fazer o aborto, ou tendo medo de praticá-lo, ela ia para uma chácara longe da cidade, tinha seus filhos ilegítimos e depois os matava, pedindo a uma escrava de confiança que os enterrasse em segredo.
Ela não os reconhecia, mas eles a conheciam bem.
As duas almas me olhavam naquele momento e eu entendi o motivo da visão e a profundidade do crime.
Quem seriam eles antes?
Porque estavam destinados uns aos outros?
Levantei-me:
"Quem pune um pecador acaba por se punir também.
A vingança é uma faca de dois gumes.
Querem mesmo ficar aqui?
Perdem tempo precioso".
Eles voltaram-me as costas, e foram para o fundo da gruta.
Eu sinceramente lamentei.
Olhei para Eulália, que me encarava assustada, sem ter noção de que eu conhecera mais um de seus segredos:
"Quanto a você, Eulália, arrependa-se de seus crimes, ore e peça perdão aos ofendidos, que há um lugar melhor do que esse em que agora está.
Comece por pedir humildade e fé a Deus, que Ele lhe atenderá, e quem sabe um de nossos irmãos não virá ajudá-la.
Não há punição eterna, e todos tiveram seus pecados".
Ela levantou-se, erguendo o queixo:
"Humildade? Pedir perdão?
Porquê? Acaso fiz algo que as mulheres do meu tempo julgassem errado?
Fui uma dama e agora sou vítima desses demónios!
Aquele miserável padre com certeza tem algo a ver com isso!".
Saí da gruta triste, sentindo que falara com o vento.
Mas as duas criaturinhas no fundo da gruta me deram mais pena do que Eulália e seus erros pavorosos.
E falam tanto de 'coração de mãe'...
Pensei na minha doce Nana, que sem me parir tinha enchido meus dias de afecto e atenção, e voltei para a patrulha, amparada por Ariel, que como eu estava pensativo com aquela história.
Ele me sorriu e me disse, com aquela voz que eu conhecia tão bem, a me lembrar:
"Deus não desampara, Clara!".

17 Entrada proibida".
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:46 am

XXII - A TERRA TAMBÉM TINHA OS SEUS ENCANTOS
(Narrativa de Edite)
ERA A NOITE de estreia de madame, e eu fui com ela duas horas antes do espectáculo começar, como de costume.
Passamos pela frente do cabaré às nove da noite e já se formava uma pequena confusão à porta, de pessoas querendo lugares, que já estavam esgotados.
Cristine ficou surpresa:
- E eu que tinha receio de não despertar mais interesse.
Olhei o belíssimo cartaz, agora colocado mais alto, e disse-lhe:
- Agora, aos vinte e oito anos, madame é muito mais bela do que era aos dezoito.
Sem falar na sua arte, que evoluiu.
Albert me disse que muitos nobres pagaram preço de ouro nas mesas.
Arranjar lugar para Adele só foi possível na mesa de Gastón.
Os olhos dela brilharam um pouco mais:
- E ele virá mesmo?
- Ainda que estivesse coxo, viria se arrastando.
Rimos as duas, ela feliz de ter seu conde por perto, e eu contente por isso estar acontecendo.
Tinha tantas saudades da harmonia que reinava Daquela casa
antigamente, e lamentava tanto o miserável René nos infernizar os dias.
Gastón já tinha sofrido as penas do inferno por seu crime, quem sabe ela o perdoasse?
Só então veria o meu amado conde feliz novamente, e isso para mim era o bastante.
Entramos pela entrada lateral do cabaré e fomos directo ao camarim principal, onde o nome de Cristine estava fixado numa plaqueta na porta, embaixo estava escrito:
"Entrée interdite"17, para que nenhum gaiato se achasse no direito de perturbar sem ser convidado.
Um senhor gaulês de aspecto robusto, vestido a rigor, estava ao lado da porta e ao nos ver curvou-se e disse:
- Me chamo Pierre, e estou aqui para servi-las.
Aonde madame for, irei para protegê-la, ordens de Albert, fiquem à vontade.
Cristine, de quem se via apenas o rosto de uma capa de veludo vermelha, agradeceu, e ele abriu a porta.
Teve que abrir muitas outras vezes para Lautrec, que entrava e saía como uma borboleta, agitadíssimo, contando quem estava na plateia, e para Cozette, que veio trazer a roupa da apresentação quinze minutos depois que chegamos e olhou com aprovação para o meu costume de cetim preto, sem decote, com rendas brancas nos punhos e na gola:
- Está muito elegante, Edite.
Não fosse sua cor morena passaria por uma inglesa tranquilamente.
Já lhe disseram que tem porte?
Você precisa ver algumas das damas que estão na plateia, meu Deus!
Por que nem sempre o dinheiro vem com o bom gosto?
Nunca tinha entrado numa casa de shows antes, foi interessante.
Mas o que me chocou de facto foi ver a quantidade de maquiagem e as senhoras de quarenta querendo aparentar quinze!
Nem as luzes fracas conseguem enganar.
Não há peruca por bonita que seja, que esconda essas coisas!
Você, minha irmã, é concorrência desleal...
Quase aos trinta e com essa pele, esse corpo!
Cristine examinava o traje com uma expressão maravilhada.
Era uma quantidade imensa de véus finíssimos, coloridos, todos bordados em pontos estratégicos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 7 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... 6, 7, 8, 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum