A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Página 8 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... 7, 8, 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:46 am

Fiquei sem entender, pois onde estava o vestido?
Cristine quebrou o silêncio, dizendo a Cozette:
Irmã, você sempre foi talentosa, mas desta vez se superou.
Pode cobrar de Albert um preço bem caro por esta peça, pois é única!
Quando Lautrec me explicou o que queria, inicialmente fiquei escandalizada, mas depois entendi melhor, pela iluminação e os efeitos.
E os bordados farão o seu papel respondeu Cozette.
Cristine me olhou com aqueles olhos de gata:
- Edite, pegue para mim um tablete de cada, que as dores estão começando e eu preciso me concentrar.
Depois, vá lá fora esperar Adele e a leve à mesa de Gastón.
Sabe como ela é provinciana, quero que evite qualquer gafe.
E mantenha René longe deles!
- Mas eu sempre vesti madame!
Não quer que a vista desta vez? - perguntei, preocupada, já que só via véus e nenhum vestido, - respondeu sorrindo -, e mande um recado a Gastón.
Diga que gostaria de vê-lo depois do espectáculo, que sinto falta de conversar com ele.
A essa resposta, feliz como um passarinho que encontra a liberdade, passei pela porta aberta por Pierre e até dei um sorriso a ele, que me olhou meio espantado, sem saber se sorria de volta ou não.
Passando por corredores mal iluminados e um tanto estreitos, que eu já conhecia bem, entrei no salão principal e me deslumbrei com as mudanças feitas para a noite:
até a parte do cassino fora transformada para a apresentação.
No público tinha algumas pessoas conhecidas, Albertine mesmo estava lá, com algumas de suas meninas mais belas:
a mais velha não devia ter dezoito anos, todas ricamente trajadas.
As cortesãs mais famosas de Paris estavam todas lá, acompanhadas de seus pares, em mesas ornamentadas, num cintilar de jóias que reluziam com os candelabros acesos.
Lautrec parecia desesperado, entrava e saía detrás das cortinas, falava com os músicos, cumprimentava um e outro.
Albert conversava com o conde, numa mesa de frente para o palco, como velhos amigos que eram.
Vendo o gerente do lugar, lembrei do pedido de Cristine e o chamei para um canto discretamente.
Ele veio, com um ar preocupado:
- Aconteceu algo?
Ela está mal?
- Fique tranquilo respondi.
Cristine está bem.
Seu número entrará para a história da cidade, mas ela me fez um pedido:
quer que mantenha René longe do conde.
Arranje um lugar para ele o mais distante possível, está bem?
Ele franziu as sobrancelhas:
- Ainda quer proteger aquele moleque infeliz?
Vai se entender as mulheres.
Respondi zangada:
- Não seja tolo.
Ela não quer é aborrecer Gastón.
Ela e René não têm mais nada há tempos.
Ele ficou ainda mais preocupado:
- E ainda assim vai fazer as apresentações?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:46 am

- Diferente daquele tratante, ela tem palavra.
Se ela tratou, ela cumpre, mesmo porque adora sua dança.
Só não era preciso o trato estapafúrdio de ele ficar na casa dela...
- Essa ideia não foi minha, Edite respondeu ele.
Sempre tive simpatia e admiração por Cristine.
Pode deixar. René ficará bem longe de Gastón.
Isso me deixa muito feliz.
Com um problema resolvido, voltei meu olhar para a porta do salão, a tempo de ver a espalhafatosa Adele entrar, com os cabelos, antes castanhos, agora avermelhados pela tintura, no vestido vinho que eu providenciara, com o xale de tule bordado em pedrarias, o colar e os brincos de esmeraldas falsos, emprestados de Cristine.
A cinta que usava fazia bem o seu papel, e de longe se via o clarão de seus olhos entre o azul e o verde.
Maquilhada em excesso, o que daria desgosto a Cozette, de longe fazia uma bela figura.
A seu lado René, de peruca,
maquiado como ditava a moda, segurando um lenço de cambraia que ressaltava seus dedos amarelados pelo uso do cachimbo de ópio.
As mãos tremiam tanto, que de longe se percebia.
Ao me ver, deu um meio sorriso de desprezo:
- Edite, sabe onde Albert reservou nossos lugares?
Tive que pensar rápido:
- Não sei onde Albert reservou seus lugares, mas o conde pede que sente à sua mesa, Adele.
Albert está logo ali, René, tenho certeza de que lhe indicará um lugar.
Afinal, não fosse você, esse número não aconteceria.
Ao ouvir falar no conde, a felina Adele se eriçou:
- O conde me chamou para sua mesa?
Meu Deus, que honra!
Finalmente vou conhecê-lo.
Nunca imaginei que um dia me sentaria num lugar tão refinado com um membro da nobreza da França!
Onde está ele, Edite?
René ficara pálido ao ver que Adele o dispensava com tanta facilidade.
Pensei em tirá-la rápido dali, e a encaminhei para a mesa de Gastón, que se levantou ao me ver, com o sorriso feliz de bom amigo.
Depois, ao ver ao meu lado aquela dama extravagante, agiu com seus modos habituais de cavalheiro, dizendo-me de forma mais fria, porém cortês:
- Seria essa a irmã de nossa adorada Cristine?
Reservei um lugar para a senhora.
Encantado, sou o conde de Laureac, Gastón de Laureac.
A mesa do conde era sem dúvida a melhor da casa, e a mais ampla também.
O salão estava apinhado de gente, e pensei que nunca vira tantos brilhantes falsos e verdadeiros juntos.
Fascinada com a figura do conde, elegante nos seus cinquenta anos, sem a beleza física de René, mas com um magnetismo natural e uma aura de poder que só os bem-nascidos possuem, Adele portou-se como a camponesa que era:
fez uma reverência exagerada, derrubando duas cadeiras atrás dela, causando um barulho que foi abafado pelo burburinho natural do salão (sendo um cabaré e não a corte, não comportava aquele tipo de cerimónia).
Discreto, Gastón corou; enquanto eu levantava as cadeiras, ele colocava Adele erecta novamente, puxando-a pelos braços:
- Ora, vamos, senhora, não é preciso tanta cerimónia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:46 am

Afinal, creio que seremos amigos!
Um tanto confusa, mas faladeira, ela respondeu:
- Amigos? Ah, sim, mas claro!
Muito me honra, excelência!
Educadamente, Gastón puxou-lhe uma cadeira, e disse:
- Pode me chamar de Gastón.
Os amigos me chamam assim.
E Adele, não?
Adele de Besançon.
Faltava apenas essa irmã para eu conhecer.
Edite, mon petite, venha, guardei para você essa cadeira, assistirá desta vez daqui, ao meu lado.
Ordens de Cozette.
Esse número parece bem misterioso, não?
Lembrando dos véus, respondi:
- Nem me fale.
Lautrec esmerou-se.
Duas bailarinas, três bailarinos, músicos...
Cheio de ideias.
Sabe como sempre amou a dança, dessa vez parece que haverá um roteiro.
Gastón olhou-me com certo espanto:
- Então não sabe ao certo corno será?
Respondi com sinceridade:
- Vi alguns ensaios, mas não todos.
Madame e Lautrec ficavam falando em voz baixa.
Acho que imaginavam que eu poderia comentar come senhor.
De qualquer forma, nunca fui indiscreta com madame.
Ela sempre me contou apenas o que quis contar.
Disse apenas que seria algo "inovador e ousado.
Ele ergueu as sobrancelhas um tanto surpreso.
O palco fora aumentado, a iluminação estava diferente, e algumas tochas foram espalhadas.
Lembrei-me do recado:
- Madame pede que depois do número o senhor vá até a casa dela, que quer vê-lo.
Homens são transparentes, às vezes.
Sua expressão anterior, de preocupação, mudou para a de felicidade.
- Quer ver-me? Sério?
- Contente com a felicidade dele, perguntei:
- E o senhor irá?
- Mesmo que estivesse com as duas pernas quebradas, eu me arrastaria até lá.
Não fui antes por falta de convite.
Sabe como nossa situação é delicada.
- Quem sabe, senhor, as coisas finalmente não melhorem?
Ele não teve tempo de responder.
A voz aguda de Adele chamou nossa atenção:
- Não sabe como me sinto honrada, excelência, quer dizer, Gastón, de finalmente conhecê-lo.
Não o imaginava tão jovem!
Imaginava-o um senhor!
Olhando de perto aquela senhora emperiquitada, em quem as rugas tinham sido evidenciadas pelo pó branco em excesso, ele respondeu elegantemente:
- Pois olhe, madame, devia ter-me visto há um ano e meio atrás.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:46 am

Não tinha metade dos fios brancos que possuo hoje.
A senhora tem bela figura, mas não lembra suas irmãs, tão louras, apesar da cabeleira basta, que dispensa essas perucas da moda.
Eram castanhos quando mais jovem, não?
Adele mentiu descaradamente:
- Mas, veja, que idade acha que tenho?
Nossa Cristine tem vinte e oito, como todos sabem, mas apesar de mais velha que ela, vim depois de Cozette, que na realidade é a mais velha.
Acabei de fazer trinta e um e o meu cabelo é assim mesmo, mechas arruivadas.
Coisas da família de meu pai.
Não nota que sou bem mais nova que Cozette?
Assustada com a mentira, calei-me, pensando que seria inútil e tolo discordar, principalmente diante do conde, homem do mundo, acostumado a ver mulheres com tinturas dos mais diversos tipos, usadas na época, educadamente ele respondeu:
- Cozette não tem idade, não é mesmo?
Em Paris não há quem não lhe elogie o corte das roupas e a classe, pois foram as quatro muito bem-educadas.
Mesmo Cristine, aos vinte e oito, impressiona pelo frescor da pele, a alvura dos dentes e o corpo perfeito.
Nada mais poderoso do que uma mulher que soube chegar a certa idade aperfeiçoando seus encantos, ao invés de perdendo-os, não acha?
Não era o caso dela, cujo excesso de peso aparecia e cuja pele mostrava suas falhas.
Mas Adele pareceu achar que o elogio era para ela, e ruborizou-se por baixo da pesada maquiagem, como uma colegial.
Mais nova que Cozette tinha sorte de eu ser discreta...
- O conde entende a alma feminina como poucos!
Na mesa iam chegando outros amigos do conde.
Alguns, para minha Surpresa, marroquinos, negociantes de cavalos árabes; outros, negociantes de vinhos; cortesãs e mulheres bem-vestidas.
Me senti deslocada, com meu vestido simples de camareira, mas ele me apresentou a todos como uma "querida-e prezada amiga", de modo que fui me sentindo obrigada ficar.
Observei Lautrec andando feito um doido por trás das cortinas e virei para o fundo, tentando encontrar René, mas não consegui avistá-lo.
- Albert duas cadeiras atrás de mim e o chamei:
- Onde colocou René?
O gordo e simpático gerente me respondeu:
- Ficou zangado de não ver de perto, e foi para uma sala dos fundos fumar.
Melhor, assim não incomoda ninguém.
Não gosto desse sujeito, não sei o que Cristine pode ter visto nele.
Está cada dia mais instável.
Ainda acho que o fundo do Sena era um lugar mais apropriado para ele!
Arrepiei-me ao pensar na hipótese, sabia de alguns devedores do cassino que tinham "desaparecido", e, por mais que detestasse René, eu o queria longe, mas não no fundo do rio.
- Ora, não diga isso.
Vai ver como algumas dívidas podem lhe gerar bons lucros!
Depois que fuma, ele costuma sossegar, fique tranquilo.
- E bom que sossegue mesmo - ele me respondeu -, faz ideia de quantas cabeças da nobreza tenho aqui hoje?
E ainda por cima estão pagando, Edite!
Nem regatearam o preço!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 9:47 am

Lembrando-me de que os nobres quase nunca pagavam por nada, dei uma nova olhada em volta, e analisei a plateia:
havia mais brilhantes e pedras verdadeiras do que vidro falso, como de costume.
Tentei acalmar Albert:
- Ele pode ser muitas coisas:
canalha, ladrão, preguiçoso, mas não é tão tolo de arrumar confusão num ambiente como esse, ainda mais com você à frente.
Não tive tempo de falar muita coisa, pois um som de violinos começou a sair por trás das cortinas, a luz do público foi sendo diminuída por mãos silenciosas e algumas tochas atrás das cortinas começaram a ser acesas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:02 pm

(Narrativa de Ariel)
Nesse ponto de seu relato, no plano espiritual, Edite levantou-se de sua cadeira, percebendo os muitos pedidos da sala, em pensamento, e nos mostrou a apresentação de Cristine, que descrevo a seguir:
Pôs as duas mãos na pequena lousa de cristal líquido.
Vimos numa tela tridimensional um palco, cortinas de seda vermelhas, um som de violinos pungentes, uma música triste, que mais parecia um lamento.
Duas dançarinas morenas claras, de rara beleza, vestidas num estilo antigo; as cortinas amplas se abriam e elas pareciam se apresentar não para a plateia, mas para alguém no palco; as cortinas terminaram de se abrir aos poucos, e vimos um senhor sentado num trono, também antigo, coroa pesada na cabeça, grossos anéis, tudo parecendo do tempo de Cristo.
As moças dançavam para ele, descalças, em trajes esvoaçantes, ventres nus, mas os corpos parcialmente cobertos.
Era uma sala do trono da Antiguidade, e o velho senhor, em seus cinquenta e poucos anos, obeso, parecia enfadado com o número, como se o visse todos os dias.
Os tambores já soavam de forma uníssona, cadente, para marcar os passos de dança das moças, mas o rei decadente não parecia participar do enlevo da plateia, impressionada com a beleza e a perícia das dançarinas.
Lautrec escolhera bem.
As moças eram artistas sensíveis e bem treinadas, e pareciam tudo fazer para agradar ao soberano, que continuava enfadado.
Elas terminaram o número respeitosamente, curvaram-se diante do rei e, vendo que não o agradavam, saíram cabisbaixas.
Um som de harpa começou a dominar o ambiente, num solo alegre e inocente, e o rei ficou como a meditar, em sua amargura, entre anéis e riquezas.
A música soava inadequada ali, dada a melodia das notas, que lembrava a pureza da infância e do encantamento.
Foi quando um véu imenso, lilás claro, saiu por trás das cortinas como uma terceira cortina, com letras colossais bordadas em prata:
SALOMÉ, e então, exposta por menos de trinta segundos, veio ao chão.
Eram então Herodes e Salomé?
Salomé era apenas uma criança de seus treze a quatorze anos quando, instigada por sua mãe Herodíades, pediu a cabeça do célebre profeta João Baptista por isso a música de infância.
Lautrec era culto, para saber esses detalhes.
Baixado o véu lilás, que ficou no chão do palco sem ser notado, vimos uma figura feminina, vestida de forma árabe, luxuosa, com uma pequena coroa na cabeça, que prendia alguns véus bordados apenas nas pontas, dando um caimento que revelava o contorno do rosto.
Mas à vista mesmo ficava apenas parte dos cabelos, louros, presos, e os olhos esverdeados marcados com um traço negro, mediterrâneo.
Vinha atrás dela uma senhora, também sumptuosamente vestida, que a colocou no meio do palco, iluminado pelas tochas.
Cochichou ao ouvido do rei, sentou-se ao lado dele, enquanto Cristine se mantinha em atitude respeitosa, cabeça baixa, coberta por sua vestimenta de véus.
A impressão que Cristine causava era a de uma mocinha em seus verdes anos, tímida e vestida, embora de forma sumptuosa.
Uma princesa adolescente.
Sabedor da história, como a maior parte da plateia, fiquei curioso com o que veria a seguir.
Pois o gordo rei a rodeou e disse, enquanto a música infantil foi substituída por violinos e violoncelos pungentes: "Dance!".
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:02 pm

Ela olhou para ele com uma expressão desafiante e voltou-lhe as costas, em ostensiva negativa, e ele continuou a rodeá-la, repetindo; "Dance!", até se ajoelhar aos seus pés e suplicar: "Dance...".
Só então a pequena beldade, cercada pelos véus, respondeu: "Ceda!".
Ele sorriu feliz, acenando dom a cabeça, e foi para o palco.
Vimos o sorriso maldoso no rosto da mulher mais velha, e os tambores começarafn’ num ritmo sincopado.
Dois artistas masculinos, em trajes sumários, como os de escravos da época, maquiados de negro, cercaram-na e a ergueram, e ela começou sua apresentação.
Os primeiros véus a serem arrancados foram os dá faca:
um rosto belíssimo, uma boca vermelha, quase sem maquiagem na pele, apenas boca e olhos realçados.
A dança árabe sabe ser sensual como poucas, e a pele dela, alva como a neve, em contraste com a dos bailarinos que a erguiam como se uma pena fosse, dava ao espectáculo ares de coisa proibida, um tabu não expresso, mas não era vulgar.
Súbito, ainda com o vestido de muitos véus sobre o corpo, os bailarinos se retiraram e ela soltou os longos e vistosos cabelos, ficando na cabeça apenas a coroa e pequenos brilhantes espalhados como cristais, que a cada movimento reluziam à luz das tochas.
Os véus dos braços, verdes, num movimento muito feminino foram tirados em seguida, o que causou um frísson na plateia, ao finalmente entender que ela estava se despindo.
A partir daquele momento, a criança fora embora, dando lugar a uma mulher plena e ciente de seus encantos.
A música ora ficava mais lenta, ora mais rápida, sempre os violoncelos, o violino e os tambores, integrados a cada passo dela, que parecia voar pelo palco.
Vimos que estava descalça, apenas com grossas pulseiras de pedras nos tornozelos.
A medida que os véus iam sendo tirados, eram postos aos pés do rei, que expressava êxtase profundo, como boa parte da plateia.
Véu ricamente bordado lhe cobria os seios e dava sustentação a diversos outros, que foram sendo tirados um a um, à medida que a dança se desenvolvia.
Só então notamos as jóias da princesa Salomé, nos dedos, no pescoço, nos braços antes cobertos.
Cristine parecia um sol no palco, coberta de dourado.
Uma espécie de cinto cheio de moedas fazia um barulho característico quando ela chacoalhava os quadris, e por um minuto apenas aquele som foi ouvido, destacando a perícia da bailarina.
A audiência foi ao delírio, com palmas, e se calou quando ela tirou mais um véu, que cobria o seu ventre bem torneado, deixando-o desnudo.
No umbigo, brilhava um rubi, combinando com os lábios vermelhos e cheios.
O número já durava quase meia hora, e estava longe de ser cansativo, quando os tambores começaram a soar num solo, eia começou a rodopiar com maestria e foi arrancando:
o véu que cobria os seios, parte dos véus das saias, virando-se de costas para a plateia e deixando todos com a respiração suspensa, as costas e parte das pernas nuas, e por fim recolheu todos os véus e os colocou aos pés do rei, ainda de costas, escondendo a mudez dos seios.
O rei chorava como um menino; por fim, disse: "Peça!".
Ela virou-se para a plateia, na qual nada se ouvia, seios cobertos por um bordado dourado, espesso, que parecia colado à pele, uma saia com os véus mais ricos, bordados também de dourado, como seus cabelos, longos e louros, soltos em cachos múltiplos, entremeados de cristais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:02 pm

A pequena coroa encimava a cabeça, os braços cobertos apenas por pulseiras de ouro puro, e o cinto de moedas douradas nos quadris.
Caminhou até à borda do palco, com a graça da bailarina, e puxou uma cordinha que parecia invisível, deixando cair uma quantidade de papel vermelho picado em pedaços diminutos e brilhantes como confetes, que cobriram todo o palco, deixando tudo vermelho como sangue.
De braços abertos, como se esperasse pelo sangue falso, fez primeiro uma expressão feliz, como de menina que ganha um brinquedo novo, depois de horror, e a cortina grossa, também vermelha, se fechou.
Observei os amigos do plano espiritual boquiabertos como eu diante da apresentação.
Fiquei imaginando como teria sido ver aquilo ao vivo na França do século XVIII.
Era inegável o talento dos artistas envolvidos, e a beleza de Cristine.
Edite estava cansada, mas parecia feliz de ter conseguido reproduzir a cena com tamanha fidelidade, o que demandou dela imensa quantidade de energia.
Continuávamos atónitos com o que tínhamos visto.
O show foi de extremo bom gosto, algo que muitos de nós julgávamos impossível para uma dança de cabaré.
Apesar de sensual, em nenhum momento foi vulgar ou de mau gosto.
Amparada por Serafim, Edite foi repousar, para refazer suas energias, e recebeu muitos agradecimento por seus esforços.
A experiência tinha sido única; poucos de nós tinham presenciado em alguma vida um espectáculo daquela natureza.
Sentado junto a Esthefânia, que ainda processava algumas cenas na memória, vimos Olívia chegar, radiante como sempre, trazendo Nana, de olhos arregalados, ansiosa para dar suas impressões:
- Minha nossa! Que artistas, hein?
Sabe, tive medo que ela ficasse nua?
Mas é claro que Cozette não deixaria!
Olhei para Nana, bem-humorado:
- Não acho que ficar nua seja o estilo de Cristine.
Na realidade, para os cabarés da época, até que ela ficou vestida.
- Mas ficou um deslumbre, não foi?
No dia seguinte, a audiência tinha ainda mais pessoas para escutar Edite, animadas talvez pelas transmissões, que, segundo Serafim, tinham chamado muita atenção.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:02 pm

XXIII - FIM DE CENA E LEMBRANÇAS DO PADRE ARMAND
IMPOSSÍVEL DESCREVER O silêncio da plateia depois que as cortinas vermelhas se fecharam, tão rápidas como se nada daquilo houvesse ocorrido.
Foram uns vinte segundos de silêncio em que ficamos olhando atónitos para o palco como se esperássemos algo mais, até que uma voz masculina da plateia, forte e inebriada, bradou:
- Cristine, desse Mundo, vens a nós18
O chamado forte me acordou, como ao resto da audiência, que logo o repetia aos gritos.
Lautrec apareceu de mãos dadas com Cristine, coberta por uma capa, e fizeram uma reverência ao público, que ia ao delírio e jogava coisas no palco, de flores a jóias.
De início não entendi isso, já que estávamos em Paris e não no Oriente, mas os árabes amigos do conde tinham trazido pérolas e rubis, que agora estavam no palco, nos pés descalços de minha madame, que as recolheu e agradeceu com um gesto, acenando ao público e se retirando.
Ainda estava cheia de confete vermelho nos cabelos, mas que linda!
O suor lhe cobria a pele, e ao seu lado Lautrec, orgulhoso, ficou sozinho no palco colhendo os louros da fama (merecidos, por sinal).
O conde não cabia em si de espanto. O número fora belíssimo, mas Ousado.
Ele aplaudia, mas não sabia direito o que pensar.
Reparei então em Adele, que aplaudia, mas a contragosto.
A inveja brilhava de forma inequívoca em seus olhos turquesa, e imaginei que, acostumada a ser o centro das atenções, não esperava da meiga Cristine aquele tipo de apresentação, sensual, quente, grandemente artística.
O teatro parecia estar nas veias de minha amiga.
Além de dançarina, havia também uma actriz no palco, e que actriz! E que beleza incomum! O título de "deusa loura" era mais que merecido.
Uma voz interna me disse "onde estará René?", e eu, cão de guarda fiel, olhei instintivamente para trás, tentando encontrá-lo no meio do rebuliço que se formara.
As luzes do salão começaram a ser acesas e eu não tive dificuldade de avistá-lo encostado a uma pilastra próxima, pálido por baixo da maquiagem, olhos avermelhados e injectados pelo ópio.
Não estava a mais de dez passos de distância de mim.
As mãos tremiam perto do rosto jovem e já tão destruído pelo vício, e eu vi lágrimas formando sulcos na maquiagem pesada.
Nunca vira uma imagem tão triste de ser humano, e isso me comoveu.
Sem pensar, me aproximei dele, que me olhou sem se desviar nem esconder a própria tristeza.
- Viu toda a dança, senhor René?
Madame estava linda, não?
Ele me olhou como se tentasse compreender o que eu estava fazendo ali, e disse, como se estivesse falando consigo mesmo:
- Era minha mulher, lembra?
Tratava-me como se eu fosse um sol.
Deu-me tudo, roupas, amparo, dinheiro.
Essa mesma mulher deslumbrante, que todos pagariam uma fortuna para ter, veio para mim sem cobrar nada.
Um tanto ofendida com as palavras dele, retruquei:
- Madame nunca cobrou nada de ninguém, senhor.
Está enganado se pensa assim.
E sempre foi generosa, mesmo com o que ganhou.
Ele riu-se amargamente:
- Nunca conseguirei entendê-la.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:03 pm

Mas sei que a perdi, não sou tolo.
Se é que um dia a tive de facto.
Vê-la assim, solta, livre no palco, uma força da natureza como o sol ou o vento...
Não precisava de nada disso, meus investimentos pagariam a minha conta de jogo com folga, era só ter paciência.
Se o conde não lhe tivesse dado jóias falsas, eu as teria devolvido depois.
Pensei nas jóias verdadeiras, guardadas, mas não ia lhe contar isso.
Ele continuou:
- O senhor Yves disse que o navio deve retomar em poucas semanas, então Cristine dançará apenas para mim.
Vou conquistá-la de volta, Edite. Você verá!
Lembrei-me que o conde deveria visitá-la ainda nesta noite.
- Só lhe peço que se lembre que ela está na casa dela.
Cristine receberá os amigos após a apresentação.
Não crie problemas à madame, que só fez ajudá-lo durante todo o tempo que o conheceu.
Não se fere a mão que o ampara!
Ferido em seu orgulho, ele me respondeu:
- Fique tranquila.
Ficarei em meu quarto, tendo meu fumo como companhia.
Hoje não quero saber de festa, tenho muito em que pensar.
Até mais tarde!
E se foi.
Não gostei da conversa.
Parece que ele finalmente percebera o que tinha perdido com seu comportamento tolo e sua vaidade.
Ia me encaminhando para o camarim de madame quando, passando pela mesa de Gastón, vi uma cena engraçada: um senhor que se intitulava marquês era apresentado a Adele, desmanchada em atenções.
Devia ter seus quarenta anos e batia nas costas do conde como um burguês mal-educado faria.
Curiosa, pensei no que o excesso de vinho fazia a algumas pessoais.
Gastón tentava ao mesmo tempo ser gentil e escapulir, mas Adele segurava o homem pelo braço, entabulando conversa, o que fazia com que o conde, pelas regras da boa educação, ficasse preso onde não queria estar.
Não ficava bem deixar a irmã de Cristine, viúva, sozinha com um homem casado, num cabaré.
Já perguntara pela mulher desse senhor em voz alta, para que Adele ficasse informada, mas, ao que parece, ela não se incomodou com o facto, tentando seduzi-lo de qualquer forma.
Debruçou-se em cima dele de forma escandalosa,
tanto que imaginei se a fogosa Adele não estaria tentando tardiamente a vida de cortesã...
Ao me ver parada atrás da mesa, Gastón me deu olhares de "me ajude com isso!", mas antes que eu tivesse qualquer ideia, o próprio marquês resolveu a situação:
talvez ébrio, com um safanão livrou-se das garras de Adele, dizendo:
- Ora, faça-me o favor e mantenha-se quieta enquanto falo com meu amigo, minha senhora!
Respeito pessoas mais velhas, mas a senhora está sendo inconveniente!
Ela soltou um "atrevido!" e virou-se para o outro lado, chateada.
Ele prosseguiu:
- Gastón, somos parceiros de negócios e amigos há anos.
Sempre fui deslumbrado por Cristine, mas respeitei sua posição.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:03 pm

É verdade que estão separados?
Você se incomodaria se eu lhe fizesse a corte?
Gastón ficou pálido com o atrevimento, mas era do conhecimento de toda Paris que a bailarina e ele tinham rompido havia mais de um ano.
Logo, o amigo estava até sendo elegante ao pedir sua permissão, já que cortesãs não eram propriamente esposeis ou namoradas.
Resolvi intervir - disse em voz alta:
- Senhor conde, não se esqueça que madame o espera hoje em sua casa.
Vou agora para o camarim arrumá-la e vim apenas para lembrá-lo.
Ele me olhou como quem olha a um anjo:
- Claro, Edite.
Diga a Cristine que não me atrasarei, serei pontual, como de costume.
E ergueu-se para o colega:
- O amigo me perdoe, mas nem tudo que circula pelas ruas de Paris é verdade.
Tenho certeza de que Albertine tem novas meninas, já esteve com ela?
Muito sem jeito, o marquês desculpou-se, eu saí para ajudar Cozette a arrumar minha amiga para seu encontro com o conde e rapidamente cheguei ao camarim, não sem antes esbarrar com um bando de marmanjos que queriam falar com madame. Pierre já estava ficando bravo; ao me ver, abriu a porta com alguma dificuldade.
Dentro do camarim, vi Cozette com uma pequena bacia de água morna retirando o véu espesso colado aos seios de madame.
Ela reclamava:
- Lautrec e suas ideias! Está certo que escondeu o que devia, mas que inferno para tirar isso!
Trabalhando com muito cuidado, Cozette respondeu:
- Preferia que caísse no palco?
Sua sorte são esses seios firmes como os de menina.
Em outra mulher isso teria ficado horrível!
Edite; ajude com os cristais nos cabelos!
Se ela dorme com isso, ninguém mais desembaraça os fios!
- Pus-me a procurar os pequenos fios entrelaçados e retirá-los sem danos.
Em pouco tempo peguei o jeito e já não puxava os cabelos de madame, que com razão estava ficando meio irritada.
Comentei com ela:
Sei que está sofrendo, mas francamente:
Lautrec e Cozette são uns génios!
Nunca vi um número tão lindo!
A plateia ficou sem saber como reagir!
- Verdade. Quando ouvi aquele silêncio, eu e Lautrec pensamos:
lá vêm as vaias!
Era tudo tão ousado, misturar teatro e dança...
Mas correu tudo bem, não foi?
farta-o conde não se mexeu na cadeira.
Aliás, ninguém conseguia.
A todo momento acontecia uma coisa nova e deslumbrante.
Madame, que no início parecia uma mocinha, depois virou um sol no palco.
E todo aquele vermelho, parecia sangue mesmo!
Estou orgulhosa, madame, que actriz!
Olhei para Cozette, que finalmente conseguira descolar a renda:
- E que figurino, Cozette!
As outras roupas eram suas também?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:03 pm

- Ela levantou o queixinho, orgulhosa:
- Claro. Assim que Lautrec me deu o tema, eu as desenvolvi.
Mas não foi de graça, Albert pagou cada centavo.
Tive que fechar o ateliê por duas semanas.
Só o traje de Salomé me custou o trabalho de duas bordadeiras por dias.
Ela levantou-se, pegando alguns dos véus da fantasia:
- Claro que comecei a fazer estas peças por minha irmã, que tanto amo, mas este acabou sendo o trabalho que me deu mais prazer.
Liberdade de criação, pesquisa histórica, o material que eu quisesse usar!
É o sonho de qualquer artista. Nenhuma cliente chata para cercear meu bom gosto ou pedir coisas cafonas.
Serão mais nove danças, irmã?
- Depende do facturamento, mas acho que conseguiremos quitar a dívida do farsante com menos.
Depois falarei com Albert.
A discreta loura, que costurava como um anjo, sorriu:
- Pois pode contar comigo.
É uma boa publicidade.
Além disso, a maior parte de Paris sabe que somos irmãs.
As irmãs Besançon!
Cristine veio até mim com uma pequena bolsa de veludo bordado que eu já conhecia usava-a para sair à noite.
Chamou-me num canto junto a Cozette:
Guarde isto aqui, Edite, para aquele nosso "futuro empreendimento".
Cozette sabe, contei apenas a ela.
Peguei a bolsa, espantada com o peso seriam os colares de pérolas e os rubis que jogavam no palco?
Ela sorriu em resposta:
- Adoro os árabes! Tão mais generosos e chiques que os franceses em certas coisas.
Flores são muito bonitas e eu gosto também, é certo, mas morrem tão rápido!
Cozette riu:
- Pois faremos esta generosidade florescer na vida de crianças pobres.
Não sabe como fiquei feliz com a ideia, e vocês vão precisar, além da inteligência de Edite, de um cérebro acostumado a lidar com pessoas do comércio.
Não há ninguém mais indicado que esta sua irmã aqui para lidar com esse tipo de dificuldade.
Pressenti que Deus tinha iluminado Cristine, para colocar Cozette a par dos nossos planos.
O futuro me mostraria como essa decisão de madame seria acertada.
A porta recebeu batidas fortes. Minha patroa deu graças por já estar vestida,
mas quem seria o atrevido que passara por Pierre? Ouvi uma voz grossa e feliz do outro lado, embalada por uns bons copos de vinho:
- Cristine, minha deusa!
Está vestida?
Deixe-me entrar, é Albert!
Rimos as três.
Sem a maquiagem do palco e com roupa comum, Cristine parecia a mesma bela dama de sempre, adornada apenas por jóias discretas.
Pediu que eu abrisse a porta e Albert passou por mim como um furacão, pegando-a pela cintura e dando-lhe dois grandes beijos estalados, um em cada bochecha.
Pouco afeita a demonstrações físicas de afecto masculino, madame, depois de dois rodopios no ar, foi firme e pediu que a colocasse no chão, o que ele fez com cuidado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:03 pm

Ele falava quase aos berros:
- Já cumprimentei Lautr.ec, que génio!
Mas você, não sabia que também podia ser actriz!
A plateia está em êxtase, não vai sair ao salão?
Não sabe quantos nobres já me perguntaram se você está livre, se seu romance com Gastón tinha mesmo acabado.
Nunca uma mulher enfeitiçou tantos em tão pouco tempo.. '
Sabedora de que Albert levava vantagens financeiras com certos encontros entre nobres e cortesãs, Cristine alisou a saia e o fitou de forma séria:
Gastón deve me visitar ainda esta noite, Albert.
E, pelo que me lembro, é seu amigo e cliente dos mais estimados.
Não dê a esses nobres falsas esperanças comigo.
Ele a olhou com admiração:
- Você é única mesmo.
Qualquer outra cortesã teria me perguntado ao menos quem seriam esses nobres, mas você não.
Sabe que qualquer um desses quitaria a dívida de René com facilidade só por ter uma chance com você, não?
- Ela deu de ombros:
Antes de René, tive apenas o conde, e veja que troca malfeita fiz.
Tive meus motivos para romper com Gastón.
Não me importo de dançar para quitar uma dívida assumida por outra pessoa, se isso salva a vida dela.
E depois, o número valeu a pena, não foi?
Você teve lucro?
Ele se fez de desentendido, mas deu-lhe seu sorriso mais verdadeiro.
Gostava dela havia muitos anos e sua admiração só crescia.
Ainda não contabilizei tudo, mas acho que teremos um bom lucro, sim.
Muita gente ficou de fora querendo entrar, e não tínhamos mais mesas.
Como sabe, somos uma casa que preza pelo luxo no atendimento: gente de pé, nem pagando em ouro.
Quando será o próximo?
Daqui a duas semanas?
Ela olhou para o tecto como se fizesse contas, batendo os dedos das mãos, e depois de algum tempo respondeu:
- Pelo menos um mês.
O número não será o mesmo, você sabe:
Lautrec não repete espectáculo.
- Um mês então!
Deixe-os esperando, mas trabalhe como fez desta vez.
Lautrec me custa caro com sua trupe, mas vale cada centavo.
Depois lhe prestarei as contas.
Ela o olhou nos olhos, com ar esperto, como um pequeno tigre:
- Faça uma projecção e veja quantas danças mais serão necessárias para que eu quite a dívida com os credores daquele infeliz.
A um canto, Cozette olhava a cena admirada de ver sua irmã caçula tratar de negócios, e de sua honestidade, dispensando qualquer nobre sem ter nem a curiosidade de saber quem era.
Ser atrevida assim com eles significava que Gastón voltaria para a vida dela?
Cristine completou sua fala a Albert:
- Também Gastón ficará muito grato, tenha certeza.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:03 pm

Passava pela cabeça de Cristine o mesmo que passava pela minha: que diferença fazia na França daquela época ser ou não ser nobre!
Um simples pedido deles condenava ou elevava a vida de uma pessoa: vimos pessoas serem presas sem provas e condenadas morte, por conta da palavra de um nobre; propriedades serem tomadas; e mesmo algumas pobres almas "desaparecerem", sem que os responsáveis tivessem preocupação com as consequências, com a polícia ou as autoridades.
Albert podia tentar trapacear Cristine, mas não trapacearia o conde, uma das fortunas mais sólidas da França e uma das casas mais poderosas junto à coroa.
Gastón era honesto com seus parceiros de negócios e paciente com Cristine, mas tinha fama de implacável quando ofendido.
Criado na França quando criança, mas frequentando a Inglaterra posteriormente, devido ao parentesco da mãe, ele era alegre como um francês, mas sabia ser discreto como um inglês.
Não era de frequentar a Corte com frequência, mas tinha o respeito e a admiração do rei, que o consultava em negócios relativos a cavalos, vinhos e navios mercantes.
Patrono das artes, tinha presenteado sua majestade com quadros que ornavam as paredes do palácio de Versalhes.
Os dois, conde e rei, apesar da acentuada diferença de estilo, tinham estima mútua, coisa rara na corte.
O rei lhe chamava entre paredes de "meu amigo meio inglês", e, mesmo com a rixa entre os dois povos, quem os conhecia sabia que isso era um elogio, pois "amigo" e "inglês" raramente entravam na mesma frase para um francês da época.
Lembrei-me desses comentários feitos por amigos comuns do casal na época.
Tanta coisa havia aprendido servindo o salão ou simplesmente me sentando ao lado de Cristine, como imperceptível dama de companhia, buscando água, vinho ou comida quando necessário, na maior discrição.
A casa tinha sempre um artista ou intelectual, e eu passara muitas horas ouvindo sobre filosofia grega, teologia, piadas um tanto picantes, mitologia (os franceses adoravam na época), arte.
Pensei com certa vaidade que muitos meninos ricos que cursavam escolas caras não tiveram a oportunidade que eu tive de conhecer assuntos tão variados, com pessoas tão inteligentes.
Lembrei-me de um padre muito bonito, vestido em seus trajes simples e austeros, que um dia, muitos anos atrás, bateu em nossa porta procurando por Gastón.
Estranhei um padre na casa de uma cortesã, mas, estando o conde, disse a Clemente que o deixasse entrar.
Ele me deu um belo sorriso, olhando-me com aprovação (eu estava com meu traje de sempre, de camareira, abotoado até o pescoço):
- E aqui então a casa da senhora Cristine de Besançon?
Poderia falar com o conde de Laureac?
Fiz com que entrasse sem mais espera, afinal como deixar um padre esperando?
- A quem devo anunciar senhor?
- Ao padre Armand.
Sou um velho amigo do conde.
Encaminhei-o para a sala, pedi que Paulette preparasse uma bandeja
com chá, croissants e acompanhamentos (dizem que padres sempre estão com fome) e corri a chamar Cristine e o conde, que estavam no quarto do casal.
Bati na porta com vigor, o conde atendeu depois de um tempo:
- Que foi? Estourou alguma guerra?
Fiquei sem jeito, mas nunca um padre tinha aparecido antes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:04 pm

Disse-lhe o nome e ele abriu um sorriso sem igual, dizendo a Cristine que colocasse um bonito vestido.
Ele queria apresentar-lhe um amigo.
Calçando de forma rápida os seus sapatos, mas mantendo seu roupão caseiro ricamente bordado, Gastón desceu a escadaria a gritar o nome do amigo:
- Armand! Está em paróquia próxima?
Meu Deus, quanto tempo faz?
Dez anos ou mais.
Como me achou aqui?
O homem moreno sob a batina abraçou Gastón com gosto.
Paulette apareceu da porta da cozinha com uma grande bandeja, e o conde disse:
- Que boa ideia, Paulette, traga!
Orgulhosa do elogio, ela foi colocando numa das mesinhas do jardim de inverno todas as guloseimas enquanto olhava para mim no andar de cima e piscava um olho.
O conde olhava maravilhado o amigo, que se servia sem cerimónia, elogiando tudo.
Sorria para a cozinheira, que, satisfeita, dizia:
"Ora, coisa tão simples!":
- Depois, para ficar perfeito, me traga um bom presunto e vinho tinto!
Aquele do Porto que trouxe da última vez!
Tem que ver o presunto !que ela faz, coisa do céu!
- Já está na mão, senhor!
- E, muito satisfeita comas palavras carinhosas (e sinceras, devo dizer) ela saiu de peito empinado e queixo erguido para a cozinha, onde Clemente a esperava, orgulhoso.
No andar de cima, madame, ainda de camisola, olhava com o cenho franzido alguns vestidos espalhados na cama.
Depois me olhou:
- Que raio de vestido se usa para ir ver um padre?
Acho que não tenho nada apropriado.
A última vez que fui à missa, minha mãe me vestiu como uma boneca, eu devia ter uns treze anos.
Agora sou uma cortesã!
Gomo é ele? Velho?
Gastón ficou tão animado, que coisa estranha.
Nunca o vi se dar com gente do clero!
- Esse é diferente, madame!
Da idade do conde. Bonito!
Moreno claro, vistoso, voz grossa.
Deve fazer sucesso na paróquia dele.
Mas se veste de forma bem simples, sem nenhuma ostentação clerical.
Só um crucifixo de madeira com um cordão de prata por cima da batina.
- Um padre sem ouro? Jura?
- Pois não é... também estranhei.
Mas é tão distinto que não precisa de jóia mesmo.
A senhora verá: parece que ele brilha.
Ele brilha, Edite?
Como assim?
- Não sei explicar... vi um vestido rosa dela, o mais simples, de cetim coloque esse com o sapato combinando, prenda um pouco esses cabelos, e suas pérolas. Vai ficar linda!
Ela aceitou a ideia e, quando desceu ao salão, parecia um anjo louro com o rosa do vestido combinando com o rosado forte e natural dos lábios e os olhos esverdeados, brilhando como duas estrelas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:04 pm

Um tanto tímida, parou na porta esperando que Gastón a introduzisse, o que não demorou, pois ao vê-la o padre levantou-se, boquiaberto, e abaixou a cabeça num Cumprimento:
- Essa é Cristene, amor da minha vida inteira.
Esse, minha querida, é o meu mais estimado amigo, desde a infância, Armand Dupont disse Gastón, orgulhoso, tomando Cristene pela mão direita.
Ela fez pequena reverência ao sacerdote.
Soubemos depois que o padre crescera em propriedade dos pais de Gastón, e que tinha essa vocação desde muito cedo, tendo sido patrocinado pela família do conde na sua entrada ao monastério.
Estava fazendo um curso em Paris e nos fez várias visitas, durante meses.
Nunca julgou o relacionamento de Gastón e Cristene, era amigo de um bom vinho, mas sem excesso, e apresentou-nos (a mim, Cristene, Paulette e Clemente) ao mestre Jesus e aos seus verdadeiros ensinamentos.
Nunca nos incutiu o medo do inferno, aliás, sempre divulgou o perdão eterno.
Sendo o conde agnóstico e livre-pensador, respeitava sua posição e falava connosco apenas enquanto ele se entretinha com outros convidados.
Era normal, nas festas, ele se sentar connosco na cozinha, e a maior parte dos convidados ir parar lá para ouvir suas doces palavras (mesmo porque, Cristene não saía de perto dele).
Sabendo-o boa influência, por sua moralidade, doçura e compaixão, Gastón, que no início se irritava com a falta de madame na sala, depois notou que ela estava em melhor companhia na cozinha, entre nós.
Uma vez escutei ele dizer a Gastón, surpreendendo-o:
- Sabe, meu bom amigo, conheço sua esposa, a condessa, e conheci agora Cristene.
Sempre o admirei por sua postura e sua generosidade com os menos afortunados.
Hoje posso dizer sem receio que lamentava que certos casamentos fossem arranjados, pois achava que um homem com a sua sensibilidade não deveria ficar só, e é o que esses casamentos fazem.
Como você estava só e amargo Gastón, que bênção foi essa moça em sua vida!
O conde o olhou bastante admirado:
- Ora, vejam só!
Um padre a me dizer isso!
O que foi, a condessa lhe desgostava tanto assim?
- Meu amigo, sou um padre, mas sou também homem, e aprendi com o tempo a observar as pessoas.
Nada tenho contra a condessa, que, se me tratou com desdém por eu ser apenas um padre, e não um bispo, por exemplo, foi devido à criação dela.
Mas é impossível não notar a diferença de gostos entre vocês.
Cada qual com suas qualidades, mas água e óleo de tão diferentes.
Ela tem uma personalidade dominante, não? Matriarcal, mesmo.
- Como sempre, educado...
Ela é uma megera, isso sim.
E como come!
Não é bem-vinda na corte, foi a Versalhes19 apenas uma vez, e isso a irrita profundamente.
Nunca recebe convites, que chegam apenas em meu nome.
Eu a conheci no dia de meu casamento, como bem sabe, e até que tentei que fôssemos amigos, mas hoje a distância é o melhor remédio.
Graças aos céus ela tem arranjado suas "distracções", assim parou de me incomodar.
- E seus filhos?
Eu os vi apenas quando crianças.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:04 pm

Pareciam muito com a mãe, o menino era bastante tímido, e a menina, atrevida. Estão bem?
- Seguem com a vida.
A moça tem um génio difícil como a mãe, e não tem sido fácil com os pretendentes.
Não é como em minha época, que só se conhecia no dia.
Hoje eles se conhecem em bailes, debutam.
Porém, mesmo com minha fortuna, quando ela se interessa por algum, esse a desdenha, e quando algum se candidata, ela não quer.
Já o rapaz, Leon, é tão apegado à mãe que talvez nem se case.
Sabem de Cristine, mas deixei claro que não devem se meter com ela.
Armand sabia de casos que não acabavam bem.
- E eles respeitam isso?
- Desde que eu não faça novos herdeiros, bastardos, tudo ficará bem.
Vi o padre pegar nova taça de vinho e apressei-me em trazer outra garrafa.
Sabendo que eu era de confiança, não interromperam a conversa:
- E pena.
Sei que não acredita no Cristo, Gastón, e longe de mim tentar convertê-lo, mas a única coisa que o mestre condenou foi a hipocrisia, e eu tento não ser hipócrita.
Sua família está onde seu coração fica em paz, logo, sua família está aqui, nesta casa, bem mais simples do que aquela onde mora.
Como padre, escuto muitas confissões e sei mais do que você pensa sobre o que se passa no coração humano.
Dou-lhe um conselho:
essa moça, Cristine, não nasceu para cortesã.
Se você fosse um solteiro, um trabalhador burguês que a enchesse de filhos, você a faria mais feliz do que lhe dando todo o dinheiro do mundo.
Há nela uma pureza que destoa da corrupção da corte.
Caso ela venha a lhe dar um filho, não tire isso dela.
Concordei com ele em tudo que disse, mas naquela época um aborto já havia sido feito, o que nublou o semblante de Gastón.
Ele respondeu, encerrando a conversa:
- Não se preocupe com isso, Armand.
Mas filhos bastardos não estão em meus planos.
Armand nos visitou pelos seis meses de curso, depois voltou para sua paróquia do interior.
Soubemos que também ele vivera um grande amor, mas renunciara a ele pela vida monástica.
Nunca revelou seus sentimentos moça, que também acabou fazendo seus votos para a vida religiosa.
Era bem-humorado, contava-nos sempre uma parábola do Cristo, adorava a comida de Paulette, que nunca cozinhou com tanto gosto.
Armand estimulou em mim e em Cristine o gosto pela caridade, e talvez tenha vindo daí a ideia dela de fundar uma casa para acolher menores abandonados.
Tão bom seria encontrá-lo para que nos ajudasse com isso, quando fosse a hora!
Mas agora tinha que ajudá-la a sair do cabaré e ir para casa, onde o conde já a aguardava, e para onde também iriam Lautrec e uns poucos amigos.
Lembrei-me do bando de gente na porta tentando falar com ela e pensei em Pierre, que teria de abrir caminho para mim, Cozette e madame.
Deus nos ajudaria!

18 - Deusa loira, venha pra cá!".
19 - À época, um dos palácios da família real.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:04 pm

XXIV - REVELAÇÕES
VESTINDO MADAME COM uma capa preta que Albert tirou Deus sabe de onde, com ele na frente, Pierre atrás, Cristine escondida atrás do gigante gaulês, seguida por mim e Cozette, saímos do cabaré por uma entrada lateral, que poucos conheciam.
Pelo barulho que ficou lá dentro, a noite iria ser longa.
Clemente, a postos, ao me ver correu abrir a porta para que entrássemos sem demora.
Protegidas dentro da carruagem, Albert se despediu, mandando-nos um beijo estalado com as mãos:
Agora estão salvas!
Descansem, minhas jóias!
Rindo muito, Cozette, sempre tão séria, despediu-se dele enquanto Cristine despia-se da capa.
Virando-se para nós, a modista disse:
- Nunca imaginei que a noite parisiense fosse tão divertida, irmã!
Que confusão!
- Você viu o espectáculo, Cozette? - perguntei.
- Entre as trocas de roupas, da coxia.
Vi de mais perto que você.
Esse Lautrec mesmo um mago, aquela escolha de canções...
No início, você parecia mesmo uma menina de quinze anos.
Depois, aquele furacão!
Mas, justiça seja feita, irmã, o número jamais seria o mesmo com outra bailarina.
Você parece voar no palco, e que quadris!
Não precisava nem ser tão bela, que já hipnotizaria a plateia.
Olhei para madame, que parecia cansada e com dor, e comentei o que tinha ouvido de uma pessoa na plateia:
Sabe o que ouvi, em sua defesa, madame?
"Jamais quelcju'une comme Cristine"2020.
O conde ficou enciumado, mas orgulhoso.
Quer um de seus tabletes?
- Por favor, Edite!
Um de cada tipo, por favor.
Sabe que tenho que conversar com Gastón, mas as dores estão fortes e o efeito já passou.
- Foram muitas emoções, madame!
É normal que se sinta assim.
Mas lembre-se do que disse o doutor Kayzen, e nada de vinho!
No máximo meia taça, para um brinde.
- Pode deixar. Contanto que essa dor passe, abro mão até do vinho.
Depois de mastigar os dois tabletes com uma careta, ela se deitou e fechou os olhos.
Seria ao menos meia hora até chegar em casa.
Fiz sinal para Cozette para que falássemos baixo e ela descansasse.
- Essas dores são constantes? - ela me perguntou preocupada.
- Sim - respondi em voz baixa -, mas a medicação parece segura, é a única que faz efeito.
Conversei com o médico, ela ficará bem.
Não é nenhuma doença mortal, são só "doenças de mulher", nada que a mate ou a impossibilite de nada.
Ela respirou aliviada.
Cozette amava a irmã.
- Tem certeza disso?
Cristine sempre foi tão saudável!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:05 pm

Que foi que aconteceu?
Resolvi contar a história pelo meio, pois madame já dormia a sono solto.
- Madame teve a desventura de perder um bebé, depois disso as dores começaram.
- Perdeu um bebé? Pobrezinha!
Ela sempre foi louca por crianças!
Agora entendo...
Vou conversar com ela, talvez queira desabafar.
Senti que tinha entrado numa armadilha:
- Não toque no assunto, Cozette, eu lhe peço.
Ela teve uma crise nervosa, e o médico pediu que não se falasse mais nisso.
Comentei porque você é a irmã querida dela.
Ninguém mais sabe, por favor não comente, nem com os serviçais.
Toda vez que ela se lembra é um sofrimento.
Você não sabe o que passamos.
Ela me olhou compreensivamente:
- Fez bem de me contar, Edite, ou eu poderia ser indiscreta qualquer hora, sem intenção.
Eu achava que ela fosse estéril e não me falava por vergonha.
Pobre irmã, tão feminina e boa, e sem filhos!
De nós, apenas Ernestine foi abençoada.
Falando nisso, o conde trará Adele de volta para casa?
Ela gostou do número?
Olhei para ela com ar de cumplicidade, e disse o que pensava:
- Sua irmã não é nada parecida com vocês duas, não é mesmo?
Nem parece que saíram da mesma mãe e pai!
Ela me olhou meio espantada, e pediu-me que contasse o que eu tinha visto.
Contei de seu comportamento com o marquês, de sua insistência em chamar a atenção do conde, também pegando o braço dele (os nobres detestavam isso), e do olhar de inveja que notei ao final do número de Cristine.
Falei que estava preocupada.
De início eu a achei apenas fútil, mas agora tinha uma impressão diferente.
Cozette me respondeu:
I Não gosto dela junto de Cristine, mas é da família, como vamos fazer?
Ela dilapidou o património do marido e agora quer viver às nossas custas, no que terá sucesso com minha irmã e seu coração de seda.
Teremos que ficar de olho nela.
Chegamos em casa e vi com surpresa que o jardim estava todo iluminado.
Era primavera em Paris e tudo florescia, os canteiros de madame, bem-cuidados por Clemente e Paulette, davam suas rosas e seus jasmins.
Mesinhas haviam sido postas do lado de fora e eu vi a carruagem do conde.
Acordei Cristine, e o primeiro rosto que ela fitou foi o de Gastón, estendendo para ela a mão para que descesse o degrau da carruagem.
Pelo vidro, vi o sorriso de aprovação de Clemente, que gostava de nosso querido amigo:
Vamos, minha querida!
Ainda cansada?
Quer descansar um pouco antes de receber nossos amigos?
Ele falava ainda com certo medo de ser rejeitado, mas ela olhou para ele com os olhos cheios de lágrimas.
Parecia que, num passe de mágica, voltáramos aos tempos antigos.
Ao ver os olhos dela marejados, os dele também ficaram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 12:05 pm

Cristine desceu da carruagem, olhou as mesinhas postas no jardim, e sem uma palavra o abraçou longamente, enquanto eu e Cozette olhávamos a cena.
Já estava Sem a capa negra, com um lindo vestido negro, leve.
Gastón a segurou no colo como fazia antes e disse, baixinho:
- Quer conversar um pouco no quarto, então?
Ela apenas fez que sim com a cabeça e ele â carregou porta adentro.
Lautrec, que já chegara e organizara as mesas com a ajuda de Paulette e do próprio conde, ficou boquiaberto com a cena.
Ao vermos Gastón carregando Cristine, que de facto não devia pesar mais do que cinquenta quilos, como quem carregava seu fardo mais precioso, mesmo a faladeira Adele fez silêncio.
Fecharam a porta e por fim todos nos olhamos como se voltássemos à realidade, depois de uma cena de sonho.
Parecia que ela, finalmente, tinha perdoado o conde!
Tinha ele aprendido dura lição, mas estava de volta com o seu amor!
Eu, que o amava tanto, não podia estar mais emocionada nem mais feliz, num misto de sentimentos contraditórios.
Mas não esqueci René, morando no quarto a apenas alguns passos de distância!
Finalmente alguém falou, e foi Lautrec:
- Afe! Até que enfim ela o perdoou!
Sabe que ele não ficou com outra mulher desde que ela o colocou para fora?
Dava pena do pobre homem!
Lembrando como as coisas tinham acontecido, eu disse a ele:
Ela deve ter tido seus motivos.
O coração dos outros é terra estranha, não é?
Aliás, palmas para o grande mestre e para a maior figurinista de Paris!
Nunca um número como este será esquecido!
Os músicos, Adele e os dançarinos aplaudiram comigo a Lautrec e Cozette, que, finalmente relaxados, se serviram de vinho e começaram sua própria festa, devo dizer que muito mais divertida que a do cabaré.
Cristine havia providenciado um bufê de carnes, que Paulette colocou nas
mesas do jardim depois espalhou numa grande mesa dentro da sala, para que se servissem à vontade.
Eu me mantive alerta, para que nada faltasse a ninguém, até que notei um cheiro característico no ar, o cheiro acre do ópio.
A porta do quarto de René tinha sido aberta, e do alto da escada ele observava a cena, convidados e músicos em alegre entretenimento. Um arrepio me chegou até a nuca, num presságio que nunca sentira.
Ele retirara a maquiagem e a peruca, exibindo a cabeleira castanha, quase negra; o rosto escanhoado tinha coloração estranha, amarelada, como se estivesse com o fígado comprometido; os lábios antes tão belos e vermelhos estavam ressequidos, até mesmo com pequenas rachaduras; olheiras circundavam os olhos grandes, e a marca na sobrancelha esquerda, resultado da surra dos credores, agora mal se via.
Não fosse a falta de dois dentes logo depois dos caninos, no lado esquerdo, não se notaria o embate, mas na França da época a falta de dentes era até comum, mesmo na nobreza.
Era vaidoso o pobre rapaz, e eu via pelos punhos de renda molhados de suor que ele fizera um esforço para ficar apresentável para a festa.
Mas o feio vício rapidamente tinha feito seus estragos, que pareciam irreversíveis.
Apesar do mal que nos fizera com seu egocentrismo, tive pena.
Sabia que seu reinado junto à cortesã mais disputada da França findara.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:43 am

Ela estava finalmente nos braços de seu protector, e os dias de René naquela casa estavam contados.
Num segundo, notei que vários olhos também o miravam no alto da escada, e foi Adele que, chateada com sua "estreia" no cabaré, subiu as escadas até ele dizendo, com uma alegria forçada:
Até que enfim o vejo!
Venha juntar-se a nós, meu querido, que a nobreza da França não lhe chega aos pés em porte e educação!
Surpreendido com a atitude dela, que o abandonara no cabaré para sentar-se ao lado do conde, ele ergueu a cabeça como se fosse o senhor da casa e foi cumprimentar os presentes, educadamente, verificando com Paulette se tudo estava como deveria.
Notando que ele se comportava como se fosse o anfitrião, Cozette sentiu um mal-estar tamanho, que se sentou e me puxou para o lado:
Minha nossa!
Tinha me esquecido dele! O tolo acredita que é o dono da casa e se comporta como tal, auxiliado pela tonta da Adele.
Imaginou o mal-estar quando o conde aparecer com Cristine?
Lautrec sorria aos convidados, que chegavam a quase vinte pessoas, contando agora com Albertine, que viera com algumas meninas cumprimentar a amiga Cristine, e alguns senhores da nobreza que eu não conhecia, mas que conheciam Gastón e queriam ver madame de perto.
- Tinha me esquecido de Albertine!
Alguém tem que controlar Adele e René, que agem como se fossem os anfitriões.
Confio em Albertine, mas essas moças são as faladeiras de Paris desabafou Cozette.
Não me importava com as moças nem com qualquer falatório.
Madame sempre estivera acima disso, e se saíra muito bem.
Me preocupava era aquele sujeito temperamental, drogado e que agora tomava uma taça de vinho atrás da outra, estimulado por Adele, que também bebia despudoradamente, enquanto Cristine provavelmente fazia as pazes com Gastón.
Eu conhecia o conde, ele não era de aturar desaforos.
Alguém devia tirar René dali, mas como, se ele se achava o senhor da reunião, como realmente fora algumas vezes?
A providência fez com que me visse e viesse até mim:
- Ora, nossa governanta!
É tão pequena que não a tinha visto ainda.
Achei que estava no teatro preparando a amiga para a saída, mas já está aqui.
Então, onde está Cristine?
Senti Cozette e Lautrec empalidecerem, enquanto Adele deu um meio sorriso, como se achasse graça. Não titubeei:
- Está em seu quarto, senhor.
Ele fez um ar de enfado, e a pena que tinha sentido dele antes desapareceu como por encanto:
- Dores de cabeça de novo?
Já deu os remédios a ela?
Não pode deixar toda essa gente esperando!
Como sempre, preocupava-se muito mais consigo mesmo e com os outros do que com madame.
Madame teve suas dores, como sempre tem, mas já foi medicada.
Está conversando com um velho amigo, tratando de assuntos particulares e não deve ser interrompida.
Não tardará a descer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:44 am

Ele arqueou uma sobrancelha diante da resposta:
- Velho amigo? No quarto?
A biblioteca não seria mais adequada?
Pensei rápido:
- Com esse barulho e essa gente entrando e saindo?
São assuntos particulares, e, como o senhor é hóspede dessa casa, madame espera que respeite o seu espaço, uma vez que tem sido tão generosa consigo!
Eia pediu para não ser interrompida.
Acredito que logo estará entre nós.
Para minha sorte, René nunca foi muito brilhante; já Adele entendeu que o melhor para si era manter a boca fechada, caso quisesse ficar naquela casa.
Ele respondeu:
- Pobre Cristine!
Deve estar com Albert tratando de negócios, não?
A noite deve ter rendido muito, espero que aquele ladrão não lhe passe a perna.
0 senhor Albert não seria tolo a ponto de enganar madame nas atuais circunstâncias, senhor respondi.
Tomando minha resposta como uma afirmativa de que Albert estava lá em cima com madame, ele relaxou e disse:
-É, pode ser.
Dificilmente arranjaria outra estrela como Cristine.
E saiu, enquanto Cozette puxava Adele pelo braço para dizer-lhe:
-Nem pense em dizer quem está com nossa irmã.
Ele está embriagado, e eu não quero escândalos ou algo pior!
Adele soltou-se do braço de Cozette, com os olhos cheios de fúria:
- Acha que sou tola de desagradar ao conde?
Mas Cristine brinca com fogo, isso não há-de terminar bem.
— René é apenas um hóspede, o problema é que não se dá conta disso.
Ela é livre para ficar com quem quiser!
Adele não estava de bom humor, e o vinho estava fazendo seu efeito:
Não vejo o que esses homens vêem tanto em nossa irmã.
É graciosa, de facto, mas já tem quase trinta anos, não passa de um metro e sessenta e parece uma lua de tão clara!
Faz essa dança árabe bem, mas é só.
- Cozette não resistiu:
-Realmente, para uma pessoa como você, deve ser difícil entender a beleza sem par de Cristine.
Não morda a mão que a alimenta, Adele, ou eu mesma me encarrego de você!
Veja se faz algo de útil e entretém esse traste, pois não sei o que acontecerá quando o conde e ela descerem essas escadas.
A festa seguiu seu curso normal, com Albertine interrogando Lautrec sem sucesso para saber sobre o próximo número, e quem Cristine representaria.
Ao final de uma hora, a porta do quarto se abriu e vi madame linda em seu vestido negro de rendas, com um colar de diamantes e brincos combinando.
Ao seu lado, um sorridente Gastón, que parecia ter remoçado dez anos, mão esquerda amparando a direita dela, como se a apresentasse ao salão.
O brilho do colar na luz dos candelabros fazia jus ao brilho dos olhos dela, que pareciam mais verdes do que de costume, e mesmo os músicos pararam a música ao ver o casal no alto da escada.
Gastón era mesmo imprevisível...
Sabia que ia ser convidado à casa dela?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:44 am

Ou comprara o presente na expectativa de uma volta, depois de nossas conversas?
Nunca tinha dado a ela jóia tão sumptuosa.
Para o meu deleite, pareciam estar juntos novamente.
Ao ver o casal descendo as escadas, os amigos ali presentes esqueceram-se do ex-amante, e Lautrec, efusivo como sempre, bradou:
- Um viva ao retomo do casal mais festejado da França!
Enfim Gastón conseguiu sua deusa de volta!
Vermelha como uma rosa, Cristine sorriu e Gastón disse em voz alta:
- Bem-vindos amigos, à casa de Gastón de Laureac e Cristine de Besançon!
As palmas vinham de todos os lados.
A maioria dos presentes amava o casal.
Paulette e Clemente, no canto da sala, estavam felizes, sorriso de orelha a orelha.
Com a volta do generoso amigo, e ninguém se lembrava de René, encostado em uma coluna, pálido como o lenço de cambraia em seu bolso, apenas eu e Adele, que estava ao seu lado.
Ele veio em minha direcção como um raio, pegando-me pelo braço no meio dos presentes, em fúria:
- Então era Albert que estava com Cristine, sua moura mentirosa?
Defendi-me, tentando sair de suas garras, que já me machucavam:
- Em nenhum momento disse que era Albert.
Disse apenas que madame não queria ser interrompida, o senhor supôs que fosse o gerente do cabaré!
- Mas podia ter-me avisado!
- Sou leal à madame, não ao senhor!
E ela não queria ser interrompida!
- Esse patife se verá comigo!
Não pode invadir assim a casa dela depois de tudo que aconteceu!
Temendo por Gastón, e finalmente solta, respondi a ele:
- é bom que se lembre que a casa pertence ao conde, e não a Gristine.
É o único bem que não está no nome dela.
O senhor está hospedado na casa dele!
Ele me olhou com fúria ao ser lembrado desse "pequeno detalhe".
Não podia expulsar um homem, principalmente um nobre, de uma propriedade sua.
Arrumou os cabelos desfeitos com as mãos, as roupas desalinhadas pelo embate comigo (que apenas Adele percebera, dada a confusão de pessoas cercando o casal); percebi que o infeliz descosturara meu casaco no ombro, tamanha a raiva com que tinha me segurado.
Não imaginava René com aquela força em apenas uma das mãos ele se descontrolara.
Efeito da droga, talvez?
Cristine e o conde estavam no meio do salão, trocavam olhares carinhosos um com o outro como há muito tempo eu não via, e aquilo penetrou em René de forma absoluta.
Nunca vi Cristine olhar daquele jeito para o rapaz, e enfim entendi o óbvio:
o conde sempre foi o amor de Cristine, não apenas seu protector.
René encaminhou-se discretamente para os fundos do salão e serviu-se de uma bebida esverdeada e rara que um dos rapazes de Lautrec trouxera: absinto.
Tomou uma pequena taça de licor, e depois mais duas, até que um dos bailarinos lhe disse:
- Cuidado com isso, rapaz.
Não é vinho do Porto!
Meio alucinado, olhou o belo moço que tinha dividido o palco com Cristine e disse:
-Realmente! Onde consegue essa coisa?
Amargo como o fel, mas gostei!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:44 am

Me fez ver as coisas sob uma nova perspectiva.
Entediada de René, Adele acompanhava a cena de longe.
Porém, sentindo-se excluída dos demais, aproximou-se dele e disse:
- Posso provar?
Adoro bebidas exóticas!
O bailarino Olhou para ela, curioso:
- É a irmã de Cristine, não?
Está acostumada com álcool?
Essa bebida é forte.
Um tanto alta pelo vinho tinto, e decepcionada por não alcançar o sucesso imaginado, ela respondeu:
- Ora, rapaz.
Uma moça tem o direito de experimentar coisas novas, não?
A essa resposta, o educado rapaz deu de ombros e serviu uma taça do licor cheia, dizendo:
"Vire de uma vez, é amarga", e assim ela o fez, com uma careta inesquecível e se sentando em seguida, um tanto tonta.
- Tem razão.
O gosto é detestável, mas espalha um calor pelos membros.
Não sente isso, René, meu querido?
René deu um sorriso mais amargo que a bebida:
- Isso é muito mais.
Com um andar estranhamente firme, dirigiu-se ao centro do salão, onde Cristine e o conde estavam de pé, conversando com Lautree, e sem cerimónia pegou o colar de diamantes de madame entre o dedos amarelados de ópio, olhando para O conde e dizendo em voz alta:
- Dando mais vidro para sua preferida, senhor conde?
Até que esses estão bem-feitos, parecem mesmo diamantes.
Gastón era conhecido em toda a corte por sua educação "inglesa", mas era um legítimo francês.
O burburinho pela sala, em conversas amenas, subitamente cessou, como se a cena principal de uma peça estivesse sendo desempenhada.
Embora fosse menor de estatura (uns dez centímetros, não mais), a mão do conde apertou o punho de René com força para que soltasse o colar, e seus olhos foram para os olhos dele, numa fúria de mar revolto.
Quando o rapaz, intimidado, soltou o colar, Gastón disse:
- Quer dizer então que um plebeu como você quer conhecer melhor diamantes do que eu, que nasci cercado deles?
René ficou lívido como uma pomba branca, mas não desistiu do ataque.
- Quer dizer então que nunca deu jóias falsas a essa tola?
Que seu amor por ela era verdadeiro como esses diamantes?
Cristine revidou:
- Cale-se René, é um hóspede nesta casa, mas pode deixar de ser!
O conde me procurou com os olhos e, encontrando-me, chamou:
- Edite, por favor, vá ao quarto de Cristine e pegue um estojo vermelho em cima da cama.
Quero dar uma lição a esse indivíduo.
Sem entender nada, mas rápida como de costume, subi as escadas e achei em cima da cama dos dois um estojo vermelho de veludo, que levei ao conde.
Ele pediu a Cristine que abrisse na frente de todos.
Para surpresa geral, ali estava a cópia exacta do colar e dos brincos que ela usava, mas sem a metade do brilho dos verdadeiros.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:44 am

Em alta sociedade, rapaz, mulheres finas como Cristine devem ter cópias de suas jóias verdadeiras quando saem em público, pois um ladrão qualquer pode tentar se apropriar delas, como aliás já aconteceu com minha amada.
Quando compramos algo de valor, réplicas perfeitas devem ser feitas.
Porém, colocando uma ao lado da outra, percebe a diferença?
E como um cavalheiro de verdade e um homem que tenta parecer um.
Inconfundível, mas apenas para quem sabe ver.
Óbvio que alguém na sua posição não perceberia a diferença.
Nunca mais toque em Cristine ou em algo que lhe pertença.
0 tiro tinha saído pela culatra.
Humilhado quando tentava humilhar, ele disse
algo que eu nunca imaginaria ouvir:
- Pois fique tranquilo, senhor, que sua "deusa loura" não desperta em mim nenhum interesse.
A mulher que hoje fez tremer Paris com sua dança sensual não passa de vulgar imitação da suposta fêmea pela qual me apaixonei como um tolo.
São só dores e mais dores.
Quem a vê no palco, leve e faceira, não sabe que no leito é mais inacessível que um bloco de gelo.
Apenas o ópio a deixava mais acessível, mas ainda assim tinha dores excruciantes!
Vivi ao lado de uma freira todos esses meses, bela como uma deusa nórdica, mas não há uma mulher nela!
Enlouqueci, me viciei tentando esquecer, e ela sempre inacessível!
Brilho falso como o dessas jóias falsas que o senhor me apresentou.
Tem razão, um idiota como eu não soube diferenciar!
Cristine caiu em prantos, ao ver-se assim exposta, e correu escada acima para seu quarto.
Fiquei pasma!
Quer dizer que o canalha a drogava para tentar conseguir algo?
Ela não tinha lhe contado do aborto malfeito, que pelo jeito tivera consequências bem mais graves do que suprimir suas regras mensais?
Expor madame assim no meio de uma festa, na frente do conde!
Dei graças aos céus de ela não ter exposto certas partes de sua vida.
Aquele louco realmente não merecia confiança alguma!
Entendi a falta de ciúme dela, não queria ficar com homem nenhum, e talvez tivesse procurado em René apenas um amigo, ou um amante carinhoso, o que não deu certo.
O conde estava furioso, mas era um homem vivido.
Vendo Cristine subir as escadas em prantos, defendeu a honra de sua amada:
- Nota-se logo que só esteve com meretrizes e mulheres de seu nível.
Acha que uma mulher como Cristine se comporta como elas?
É uma artista, uma deusa!
Não é um homem comum que a desperta!
Veja a cobra que abrigou dentro de seu lar!
O conde lançou mão de sua adaga, mas eu o detive com minha mão em cima da sua, e um olhar mudo.
Vendo que passara de todos os limites, e que as pessoas o olhavam como a um condenado à morte, René tremeu, e disse tolamente:
- Essa festa terminou para mim, vou me retirar para meu aposento.
O conde respondeu prontamente:
- Não, não há mais aposento para você aqui.
Clemente, Joubert, coloquem esse sujeito bem longe daqui, depois decido o que fazer com ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73959
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 8 de 11 Anterior  1, 2, 3 ... 7, 8, 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum