A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:45 am

Joubert, que era o valete do conde, uma espécie de guarda-costas, e tinha um tamanho formidável em seus mais de dois metros, pegou René pela nuca.
Ele começou a gritar por Cristine, que não desceu, envergonhada.
Sabendo que madame não gostaria que ele fosse morto, eu disse a Gastón:
- Senhor, finalmente tem de volta a sua amada e agora sabe que ela sempre foi sua.
Ele tem um tio em Paris, leve-o até a casa dele, mas não o mate!
Deixe que eu pegue seus pertences para que não volte mais aqui. Não magoe madame, que ela detesta violência e ficará se sentindo culpada.
O senhor a quer assim?
Vi o brilho do ódio nos olhos do conde, mas seu raciocínio prevaleceu:
- Tem razão, como sempre, Edite. Minha vontade era esfolá-lo vivo por muito menos já fiz isso.
Mas magoar Cristine novamente está além do que posso suportar.
Vá pegar as coisas dele, o mais rápido possível, enquanto termino com a festa.
Chega de escândalos por esta noite.
Rapidamente subi as escadas com Clemente e coloquei num baú todas às roupas, perucas, cachimbos e as drogas que ele possuía.
Pensei que ia levar anos para tirar aquele cheiro do quarto!
Estava entranhado nas cortinas, nos lençóis.
Lá embaixo, ouvi o conde despedindo-se das pessoas, dos músicos e prometendo a Lautrec uma reunião mais festiva que aquela.
Aquando Cristine estivesse bem.
Pensei nas faladeiras de Paris, teriam assunto para uns seis meses.
Estava quase terminando quando Cristine entrou no quarto, o rosto ainda desfeito pelas lágrimas, e me olhou arrulhando as coisas de René.
- Gastón mandou matá-lo?
Tratei de tranquilizá-la, pois sabia que era cristã:
- Consegui demovê-lo da ideia.
Vai mandá-lo para a casa do tio.
Não se preocupe que tudo vai dar certo.
Gastón está se despedindo dos convidados.
Ela ainda estava bastante magoada:
- Me chamar de jóia falsa, na frente de todo mundo!:
Depois de tudo que fiz por ele.
O pior é que era verdade, Edite.
Aproveitando que estávamos sozinhas, finalmente perguntei:
Mas passava dias com ele no quarto.
Será possível?
- Ele estava muito apaixonado e era manso como um cordeirinho.
Você virgem, por isso imagina coisas, mas só um casal sabe o que se passa na alcova.
Ele ficava feliz de conversar e me olhar, a maior parte do tempo, mas depois começou a ficar desesperado, e veio o ópio.
As únicas duas vezes que conseguiu de facto algo comigo eu estava desacordada e sangrei muito.
Depois disso ele desistiu e se viciou no jogo.
Também tenho culpa, Edite, antes de mim ele não conhecia essa vida.
Foi uma das poucas vezes em que fiquei zangada com ela:
- Ora essa!
Deu a ele uma vida de rei, que ele não tinha antes, foi isso que o viciou!
Como pôde me ocultar essas coisas e ainda se sentir culpada?
Não acha que eu a ajudaria?
Esse tratante a manipulou o tempo inteiro!
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:45 am

Sem falar nas jóias que tive que esconder...
Ela sentou-se na cama e me olhou com os olhos marejados:
- Talvez tenha razão> ele era bom em me fazer sentir culpada.
Olhei para ela com uma nova esperança:
- E o conde sabe que sente essas dores na hora do amor?
- Contei a ele.
Ele disse que se puder ficar ao meu lado, não se importa;
Chorou, disse que a culpa era dele.
Mas prefere ficar comigo, e disse que daríamos um jeito.
Uma ideia me veio à mente:
- Por que não consulta o doutor Kayzen?
Ele deve ter algum lenitivo para isso.
Os olhos dela se iluminaram:
- E verdade. Aquele chinês, quando quer, faz mágica, não é mesmo?
Falarei com Gastón.
Você é mesmo um anjo, Edite!
O baú destinado às coisas de René estava quase cheio.
Quanta roupa Cristine tinha dado àquele paspalhão...
Mas estava quase tudo sujo, já que ele não se dava ao trabalho de pedir que lavássemos.
Adele, tonta pelo absinto, de maquiagem borrada, penteado desfeito, apareceu na porta do quarto, dizendo:
- Esse será o meu quarto agora?
Grande... Que imbecil!
Se tivesse ficado quieto e guardado seus segredos, talvez tivesse uma chance de permanecer nessa boa vida.
Lembrei-me da frase do conde, da "cobra dentro de casa".
Estávamos trazendo outra?
Ela continuou, com a língua destravada pelo álcool:
devia pedir a Lautrec mais algumas garrafas daquilo para quando quisesse saber a verdade de alguém.
- Quer dizer então que a "deusa loura" que enfeitiçou Paris é fria como o gelo?
Quem diria.
Eu sempre fui quente como o fogo, era a principal reclamação de nossa falecida mãe.
Não é engraçado, Edite, que é ela que faça tanto sucesso?
Vi Cristine empalidecer e olhar aquela cópia de mulher, que mais parecia uma paródia de seu próprio fracasso.
Uma beleza que nunca tinha sido grande, destruída por seus próprios excessos.
Gorda, enrugada, pele manchada, longas olheiras.
A velhice chegava de forma triste para Adele, que não se conformava com a beleza e a riqueza da irmã.
Intercedi:
- Madame, acho que hoje o dia já foi bastante exaustivo.
O show foi um sucesso absoluto.
Deve se orgulhar de seu talento!
Mas é hora de descansar.
E assim, antes que Adele a atormentasse mais, me dirigi com ela para o quarto e lhe dei dois tabletes para que dormisse a noite inteira.
Eu sabia o que fazia, ela tinha passado por emoções demais, e acordaria ao lado de seu amado conde, com tudo resolvido.
Ela olhou para mim entre lágrimas, enquanto eu lhe enfiava a camisola e ajeitava a cama de casal, com os tabletes já fazendo efeito:
- É. venenosa minha irmã...
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:45 am

Acha que Kayzen conseguirá me ajudar?
Não quero mais ser fria como o gelo, Edite.
- Tudo se resolverá, madame.
Adele está é zangada, achava que teria alguma coisa com René, mas isso é problema dela!
Não sei quando ele ficaria com ela, só mesmo em seus sonhos.
Não se preocupe com ela, quando vir que ficará com o quarto maior, se esquecerá dele com facilidade.
Agora durma, e qualquer coisa, me chame.
Os convidados já foram, o conde a defendeu perante todos eles.
- Jura? perguntou ela já tonta de sono.
Gastón sabe ser um cavalheiro quando quer!
Não matará René, não é?
- Não. René vai para a casa do tio, de onde não devia ter saído.
- Ela dormiu.
Quando voltei ao quarto, Adele desfilava tal qual um peru tonto, analisando o tamanho do aposento.
Vinho nenhum dava aquela disposição, fiquei espantada com o efeito do absinto.
Ela abria os armários agora vazios, observava os baús, a penteadeira de madeira maciça, tudo com ar de aprovação.
Não parecia sentir o cheiro do ópio que infestava o lugar.
Olhou para mim e comentou:
- Que espaçoso!
E eu a dormir naquele quarto de banhos! Você deve dormir no aposento de empregados, que deve ser mínimo, mas não parece ter muitos pertences mesmo.
Gosta de onde dorme, Edite?
Lembrei-me que aquele tinha sido meu quarto antes de René, mas nada disse.
Quanto aos pertences, recordei do baú de madeira pequeno, forrado de jóias verdadeiras, e disse de forma dissimulada, confesso:
Estou muito bem acomodada ao lado do quarto de Clemente e de Paulette.
Somos bons amigos e lá é bem calmo.
O tamanho é perfeito.
Grata pela preocupação, Adele.
Ela sentou-se ma cama, que estava com lençóis sujos de suor e desfeita, não notando nada daquilo, e perguntou:
Posso dormir aqui mesmo?
Clemente e Joubert entraram para carregar as últimas peças de René e colocar na carruagem do conde, que, ao contrário da de Cristine, graciosa e pequena, contava com seis cavalos negros e era enorme.
Clemente parecia cansado, mas feliz.
Eu o segui até a porta sabendo que o conde continuava lá embaixo com os últimos convidados, no caso, Albertine e Lautrec, tomando uma taça de vinho enquanto a carruagem, não partia.
Perguntei a Clemente.
- Como está René? Criando muita confusão?
Como Joubert já ia na frente, ele parou para conversar um pouco comigo:
- Na saída da casa quis chamar por madame, o insensato.
A fortaleza do Joubert deu-lhe tamanha cotovelada nas costelas (acho que lhe quebrou umas duas costelas) e ele se calou instantaneamente.
Jogou-o dentro da carruagem e contou a ele como em Marselha existem métodos de se esfolarem pessoas vivas quando desejam que se comportem, e que o conde achava que isso sujava um pouco o estofado, mas era eficaz.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:45 am

A partir daí, ninguém mais falou nada.
O sério e grande Joubert subiu novamente as escadas e me olhou com uns olhos que pareciam mortos, mas tentou ser gentil:
- Mademoiselle, deseja que eu leve mais alguma coisa?
Lembrando do esfolamento de Marselha, eu respondi rápido:
- Não senhor, está tudo em ordem.
- Perfeito. O senhor conde pede que providencie um leito no quarto do senhor Clemente, para quando voltarmos.
Ainda não nos apresentamos, mas sei que mademoiselle é Edite, amiga muito estimada de meu patrão, e eu sou Joubert.
Devo acompanhá-lo sempre que ele estiver nessa casa, permanentemente.
Conte comigo para tudo que precisar.
Fiquei mais tranquila ao saber que ali estava um amigo, mas Joubert de início me deu calafrios na espinha.
Paulette, sem papas na língua, ao vê-lo levar René puxou-me para um canto:
Quem é aquele que vai levar o fanfarrão?
Um carrasco?
Eu tive que rir.
- Pois não é que parece mesmo?
É um guarda-costas do conde, vai levar René à casa do tio.
Cristine não permitiria outra coisa.
Ah, arrume um lugar para ele no quarto de Clemente.
- Vai morar aqui?
- Enquanto o conde estiver, sim.
Notei no rosto dela uma tristeza que confirmou algumas de minhas suspeitas.
- Não fique triste, Paulette.
Nada impede que Clemente a visite quando quiser.
Aliás, não pensam em se casar?
Não dei tempo de responder.
Feliz por me ver finalmente livre de René (ou assim pensava), me encaminhei para o salão, despedi-me do conde com um abraço, dizendo que Cristine já dormia o sono dos anjos, e ele me liberou para que eu fosse dormir no meu pequeno e confortável quartinho, sabendo que meu amado Gastón ao menos estaria por perto.

20 - "Nunca alguém como Cristine!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:45 am

XXV - TEMPOS DE BONANÇA
JOUBERT ERA UM sujeito interessante.
Talvez seja melhor descrevê-lo para que não se forme ideia errada dele.
Era de poucas (aliás, pouquíssimas) palavras para pessoas com quem não simpatizasse, mas falava muito e era até bem-humorado quando gostava de alguém.
Devia ter uns dois metros e dez de altura, o que na época era um despropósito.
O conde devia ter um metro e setenta e cinco e era considerado de bom tamanho; René tinha quase um metro e oitenta, logo, bastante alto.
Homens comuns costumavam chegar a um metro e setenta, era a altura esperada.
A humanidade cresceu em altura com o tempo e a alimentação adequada.
Além de sua altura exagerada, Joubert era louro, de um cabelo meio escasso, mas liso, castanho claro com mechas louras, que ele penteava de lado.
Um nariz enorme, mas que nele ficava bem (tudo nele era grande), mas os lábios eram finos e bem desenhados.
Não sei se enxergava bem; eu o vi apertando os olhos castanhos muitas vezes, mas numa distância de dez metros atirava uma faca com destreza admirável, e para cortar lenha nos dias mais frios devo dizer que deixava Clemente, com seu um metro e oitenta, humilhado, pois o louro era muito forte e carregava um tanto de madeira nos braços que o outro colocaria numa mula.
Sem falar nas machadadas.
Paulette não ria, pois não queria humilhar o seu homem, mas eram duas de Clemente e uma de Joubert para o mesmo tanto de madeira cortada.
Os dois competiam?
De início talvez, depois tomaram-se os melhores amigos, a ponto de cumprimentarem-se com grandes abraços e, pasmem, até beijos estalados no rosto.
Estávamos eu e Paulette na cozinha, eu a ajudava, já que o número de hóspedes aumentara.
Paulette gostava da movimentação, e o conde já mandara trazer uma moça para ajudar, que sofria nas mãos da cozinheira:
pequena, sem muita experiência, Jeanne ficava com patos e frangos a depenar, porcos a tostar, que o apetite dos homens e de Adele não era pequeno.
Aos poucos fui sabendo da história de Joubert.
Foi achado nos muros da propriedade dos pais do conde ainda menino na ocasião, acharam que era adolescente, pelo tamanho.
Ele era pobre e faminto.
Vendo a força do rapaz e sua obediência cega (a miséria faz muitos homens obedientes), o pai do conde logo o tomou sob sua protecção e o imbuiu de trabalhos que não entregaria a qualquer um.
Quem desagradava a nobreza costumava "desaparecer", e Joubert era esperto, forte e discreto.
Uma ordem; dada não era discutida.
Depois de servir ao pai, ele serviu ao filho, mas apenas agora era apresentado a Cristine, por quem ele suspirava toda vez que via passar.
Não gostava de falar de seu passado, mas percebi que desdenhava da condessa e de seus filhos, embora discretamente.
Quando perguntei se ele não preferia voltar ao palácio do conde, olhando-me desconfiado, perguntou:
- Mademoiselle prefere que eu vá?
Já não tinha medo dele, mas respondi com sinceridade, pois temia que René voltasse:
- De forma nenhuma.
Me sinto muito tranquila com sua presença aqui.
Quero saber se é bem tratado, se posso melhorar sua estadia.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:46 am

Ele abaixou a cabeça, cortando um pedaço de madeira com a faca e ensaiando um sorriso torto:
- Nunca fui tão bem tratado, mademoiselle.
Sou um servo, mas, se pudesse escolher, ficaria sempre aqui entre os seus.
Principalmente perto de ’mademoiselle, que sempre é tão delicada.
Não são todos que têm o coração como o seu.
Podem até ter dinheiro, mas a alma...
Fiquei rubra como uma rosa vermelha, e acho que ele percebeu, pois se levantou e disse:
- Vou ver se os cavalos têm sede.
Precisando é só chamar.
E se foi com seus passos de gigante.
Paulette e Jeanne, da porta da cozinha, assim que ele se foi, caíram na risada:
Enfim aconteceu disse Paulette.
Arrumou um pretendente!
E que pretendente...
Viu o tamanho do homem, Jeanne?
Li Ainda vermelha, abri caminho entre as duas e entrei na sala, decidindo não responder.
Tinha graça eu, com mais de trinta anos, me engraçando com um senhor daquele tamanho...
Elas que me respeitassem!
Olhei para a sala ainda sem móveis, pensando se os trazia de volta ou não. Tinha
que conversar com madame ou com Lautrec.
Ela faria outro número?
Ou o conde cobriria a dívida com Albert?
O número tinha sido comentado em todos os folhetins da cidade como sensual e de bom gosto, exaltavam a beleza de Cristine, o cenário, o cabaré luxuoso.
Diziam ser um espectáculo digno das casas reais.
Mas eu estava no escuro sobre os próximos passos.
Tinha marcado a consulta com o doutor Kayzen dois dias depois da apresentação.
Ele nos atendeu em particular, abrindo mão das outras pacientes por conta da curiosidade que isso traria.
Entrei com madame num ambiente oriental ventilado e limpo.
Contamos o problema, e ele, que apesar do cabelo e do bigode pintado não maquiava suas rugas, nos sorriu:
- Quer dizer que madame sente tanta dor que fica impossibilitada?
Muito vermelha, Cristene assentiu.
- E o rapaz usou do ópio e fez enquanto a senhora estava anestesiada. Sangrou?
- Um pouco. Mas assim que o efeito do ópio passou fiquei com dores fortes.
Ele baixou a cabeça como se mantivesse os pensamentos para si.
- Se madame fosse minha filha e estivéssemos em meu país, esse rapaz teria sérios problemas.
Espero que não esteja mais em sua vida. Está?
Foi a minha vez de responder:
Não. Ela tem um homem bom agora.
Queremos ver se o doutor pode resolver ou aliviar o problema.
Ele levantou-se.
Vestia um belo quimono oriental:
Sei que isso não é de uso em Paris, mas, sem examiná-la, nada poderei fazer.
A outra moça pode e deve ficar junto, para que madame se sinta confortável.
Não haverá dor, nem deve haver vergonha.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:46 am

E um exame médico, existe apenas a procura pela cura, a resolução do problema.
Cristine me olhou meio apavorada, mas ele já nos encaminhou para outra sala, e pediu que madame também vestisse um quimono, branco, de seda, enfatizando: só o quimono, nada por baixo!
Olhamos uma para a outra, hesitando sobre o que fazer, e eu lhe disse:
Ora, vamos, não pode ser mais difícil que entrar no palco vestida só com aqueles véus!
Cristine me olhou meio zangada, mas mesmo assim assentiu.
Quando voltamos à sua sala, ele tinha uma larga xícara de chá sem pires em sua mão, dentro dela um líquido marrom.
Agora tome isso.
Não a fará dormir, mas a deixará relaxada.
A senhora dormindo de nada serviria.
Mas sua amiga ficará aqui o tempo todo, desde que não me atrapalhe.
Me parece uma moça de fibra; fique ali atrás, e a senhora, deite-se aqui.
Apontou para o canto da sala e eu lá fiquei, sentada numa cadeira, de olho em madame, que se deitava em uma espécie de maca.
É difícil admitir, mas muitos de nós, franceses, tínhamos preconceito com coisas estrangeiras; no entanto, aquela sala do doutor Kayzen era, em todos os aspectos, superior a qualquer sala de hospital parisiense que eu conhecesse.
Era tudo limpo, claro, tranquilo, inspirado para acalmar o paciente.
O chá parecia fazer seu efeito.
Deitada, Cristine sorriu para mim e ele estendeu por cima dela um fino lençol de algodão, e depois disse:
- Madame é dançarina, não?
De dança marroquina? Li nos jornais.
Muito comentada, artista famosa!
Sua dança mexe muito com a pélvis?
- Sim. Na realidade fiz algumas adaptações de dança livre, mas os movimentos pélvicos são a base.
Não sentiu dores ao executá-los?
Ela franziu um pouco as sobrancelhas, como a tentar se lembrar:
- No início, bastante.
Mas seu remédio diminuiu as dores, e eu sempre fui disciplinada com a dança.
Depois de algumas semanas as dores diminuíram, e agora quase não sinto nada, mesmo sem os tabletes.
Os exercícios de uma dançarina desse tipo de dança não são simples, doutor.
Exigem treino e paciência.
- Após ter as dores diminuídas, e não ter mais o efeito colateral do sono, a primeira coisa que Cristine fez foi voltar aos seus exercícios.
Era "viciada" neles, dizia que a faziam se sentir bem, bela e disposta.
Às vezes ficava horas por dia se exercitando, o que resultou num corpo que muita moça pagaria o peso em ouro para ter:
torneado, firme e gracioso, sem falar da postura e do jeito de andar.
Lautrec costumava brincar que Cristine não andava, flutuava.
Eu, que de preguiçosa tinha muito pouco, era avessa a qualquer tipo de exercício daquela natureza, e admirava madame, que só se abstinha da rotina quando o conde exigia, e era raro.
O doutor começou a examiná-la e eu estranhei bastante que ela deixasse um homem vê-la daquela forma; virei o rosto em respeito, e ele riu:
- Mademoiselle Edite é como todos os ocidentais, tem vergonha do próprio corpo.
Se é esta a área doente, é aqui que devo examinar.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:46 am

Um médico não olha o corpo em si, mas o desequilíbrio que ele apresenta.
Não vê que toda ela está coberta, que meu interesse é apenas profissional?
Muito envergonhada, pedi desculpas e ele prosseguiu com o exame, usando umas espécies de varetas para observar melhor dentro dela.
Cristine gemeu um pouco.
Ele disse:
- Sei que é um pouco incómodo, mas sente dores?
MN Não. Apenas um pouco de vergonha.
Mas confio no senhor.
Está tudo bem?
Ele se utilizou de algumas lentes e aparelhos que eu não conhecia, e por fim disse:
- Quem fez o aborto deveria ser preso.
Não é à toa que sentiu tantas dores, não sei como não morreu.
Nunca vi um "serviço" tão malfeito, nem tão desumano.
Mas tenho boas notícias.
Ela ficou animada, e eu também.
Seus exercícios fizeram-lhe muito bem.
Ainda assim, a relação amorosa pode trazer algum desconforto, por isso vou lhe passar uma pomada para usar uma vez por semana, quando for namorar.
Não aconselho a se relacionar mais que isso, ouviu?
Pode voltar o sangramento.
Se usar como lhe digo, seu parceiro ficará feliz, madame não terá dores, e tudo dará certo.
Ela sentou-se na maca, alegre como uma menina.
- Uma vez por semana, jura?
Pensei que, para quem achava que nunca mais seria uma mulher completa, aquilo era uma notícia alvissareira.
Mas, diante da animação dela, ele foi bastante frio, entregando-lhe um vidro com unguento:
- Não mais que uma vez por semana, ouviu bem?
E agora pode ir se trocar!
Como boa francesa, ela se vestiu rápido e lhe beijou as faces, coisa que o deixou muito satisfeito, mas quando quis pagar, ele não aceitou, e disse:
- Não quero dinheiro, quero dois ingressos para sua próxima apresentação.
Pode ser?
E Considere feito!
Descemos as escadas felizes, o unguento bem guardado em sua bolsinha, Clemente sério na frente da carruagem, e nós duas pensando no que dizer ao conde, que não tinha simpatia pelo doutor Kayzen, e a quem tínhamos mentido dizendo ir às compras.
Contei meu receio a ela.
- Não se preocupe com isso, minha amiga.
Ele não pode saber do exame, pois é ciumento demais, mas a partir de hoje garanto que Kayzen vai ter um novo admirador se as coisas derem certo.
- A senhora fará outras apresentações para quitar a dívida de René, madame?
O conde permitirá?
Ela me olhou como se abordasse um assunto difícil:
- Sabe o que sinto por Gastón, Edite, e que sempre evitei contrariá-lo.
Mas a dança é a minha vida!
Depois que eu e Lautrec nos encontramos e ele dirigiu o número, as coisas tomaram um rumo diferente, e o que antes era obrigação de pagar uma dívida se tomou um prazer inenarrável.
A vida de uma artista não é como a vida de uma mulher comum.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:46 am

Sinto falta do palco, do som dos instrumentos, da iluminação, dos aplausos.
Nada é ocasional, tudo exige dedicação, talento, atenção, esmero!
Cozette ficou tão encantada com a confecção dos figurinos que acha entediante fazer outras coisas, e teve um bom lucro, já que Albert pagou muito bem!
Seu trabalho foi finalmente reconhecido pelos periódicos da corte, e ela me diz que já lhe encomendaram pelo menos uns dez trajes de "Salomé", a preço de ouro!
E isso para festas particulares!
r Madame tinha que ver a minha cara e a de Gastón ao descobrir que suas costas estavam nuas, os véus voando em todas as direcções.
Achei que ele ia ter um ataque.
O homem ficou branco como cera!
Até parece que Cozette me deixaria ficar de seios nus no palco!
Aquela cola é que foi um inferno para tirar.
Chegou a machucar.
Brinquei com ela:
- Deve ter sido castigo pelo susto que nos deu...
A plateia veio abaixo!
Ela ria:
- Foi ideia de Lautrec.
De início Cozette queria correr com ele e suas sugestões.
Já achara tirar os véus muita ousadia, mas ele sabe ser sugestivo.
E depois, fiquei mais vestida que a maior parte das bailarinas, não fiquei?
- Ficou. Mas que efeito!
A senhora parecia um sol naquele palco, iluminada por aquelas tochas!
Mas, não me respondeu:
dançará para o grande público novamente?
As dez danças prometidas?
Ela abaixou a cabeça:
- Não. Não as dez danças.
Primeiro porque Albert me disse que a primeira noite deu um lucro tão grande que já cobriu um terço da dívida, mesmo ele pagando as despesas do número, como os gastos no camarim,
0 figurino, Cozette, os dançarinos, músicos e Lautrec.
Foi bastante honesto, apesar da fama de aventureiro.
Disse que nunca vendeu tanto na vida.
Espantada com os números, pois sabia que a dívida de René era bem alta, voltei a perguntar:
- Mais duas danças, então?
Ela baixou a cabeça:
- Gastón queria quitar a dívida, mas eu não deixei.
Brigamos feio por conta disso, até que ele entendeu que eu não queria dançar por conta de René.
Sendo bem franca, pouco me importa o que aconteça com ele, desde que não morra por minha causa.
Não quero esse pecado na consciência.
Tive que concordar com ela, morte na consciência é peso que ninguém precisa.
Ela continuou:
Quero fazer mais um show, mas é por mim mesma, por Lautrec, por Cozette!
Nos divertimos tanto!
Albert ficou tão radiante, e eu gosto muito desse farsante.
Combinei com Gastón que faria apenas mais uma dança, minha última dança para o grande público, depois me dedicaria apenas a ele e a nossa casa de crianças.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 10:47 am

Lembra do nosso sonho?
O conde gostou da ideia, acredita?
Diz que vai ficar muito mais feliz comigo cuidando disso, do que atirando véus ao alto com Lautrec.
- Sua última dança?
Não vai mais dançar depois?
- Tudo tem seu tempo na vida, minha querida, e sair no auge deveria ser o sonho de todo artista.
Vai ser minha última dança, sim, ao menos aberta ao público.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Nosso sonho tinha se adiantado e Gastón estaria incluído nele.
Em minha mente, com o aval de um nobre as coisas seriam mais fáceis, poderíamos localizar o padre Armand, que nos ajudaria com gosto.
Mal sabia eu do pesadelo que se abateria sobre o meu país dentro de algumas décadas.
Estávamos então em 1764.
Fazia já quase duas semanas que a festa se passara, e o conde, ao contrário do hábito anterior, não saiu da casa de madame para ir ter com a condessa.
Acordava lépido, brincava com Paulette, chegava a ir até a cozinha ver o que ela preparava, coisa que nunca tinha feito antes.
Quando chegamos com a carruagem, encontramos ele e Joubert num canto do jardim, perto da ala dos empregados.
O gigante abria os braços e parecia explicar alguma coisa, e Gastón ouvia interessado, mão direita no queixo, como que a medir o terreno com os olhos.
Ao nos ver, os dois vieram rapidamente, Gastón esticando os olhos para ver o que Cristine comprara (afinal, ela disse que ia às compras), e Joubert me olhando meio cabisbaixo, estendendo a mão para que eu saltasse da carruagem, tímido e cortês.
Pouco acostumada a essas gentilezas, estendi minha mão enluvada e ele curvou-se para me ajudar a descer.
Me olhou então com aqueles olhos de um castanho profundo, dando um meio sorriso, que eu retribuí com um rápido "obrigada", e corri atrás de Cristine.
Nunca tinha sido cortejada antes, seria daquela forma?
Com o rosto em brasa, entrei na sala.
O conde perguntava onde estavam os pacotes, e ela, sorrindo misteriosamente, elevou sua pequena bolsa no ar (nela estava a pomada):
- Minha compra está aqui.
Vendo o ar travesso dela, Gastón aproximou-se, curioso:
- Mais uma jóia?
Uma nova essência, talvez?
Demoraram tanto que eu já estava ficando preocupado.
Ela sorriu, misteriosa:
- Muito melhor que jóia ou essência, e a demora foi necessária.
Acredite-me, mon bien-aimé21, a demora vai valer a pena.
E, me pedindo que lhe preparasse um banho, subiu para o quarto, misteriosa.
O conde me olhou ainda mais curioso:
- O que ela comprou dessa vez?
Alguma poção de bruxa?
Tive um impulso de responder:
"de bruxo", mas me contive.
Ele continuava a andar pela sala cheia de tapetes, com umas poucas mesinhas, muitas almofadas e a barra de madeira colocada na parede lateral, onde ela costumava se exercitar.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:22 am

Finalmente me perguntou:
- Não que a sala não esteja bonita, aliás, nunca vi tapetes tão belos.
Quando os compramos não tinha reparado neles direito.
Mas, não usaremos mais os nossos móveis, Edite? Onde estão?
Ela teve que vender?
- Claro que não.
Estão muito bem guardados na estrebaria.
Madame precisava de espaço para os ensaios e não queria usar o cabaré, então pediu que os tirássemos provisoriamente.
Não passamos necessidades sérias, senhor.
Albert custeou as despesas da casa enquanto preparávamos o número e, como sabe, salvei boa parte das jóias e dos alugueis rurais.
Estamos sem dívidas, não precisamos vender nada.
- Não sei o que seria de Cristine sem você por perto.
Eu a considero minha melhor amiga, sabe disso?
Quero muito que seja feliz, Edite.
Não esperando essa efusão de sentimentos, fiquei alegre, mas sem jeito.
- Sou muito feliz por aqui, senhor.
E fico ainda mais feliz com a sua volta.
Também o considero, se me permite, o meu mais precioso amigo, se é que uma simples governanta pode falar assim com um conde.
Ele olhou ao longe, como se filosofasse ou lembrasse coisas passadas.
- Passei dos cinquenta anos, Edite, e isso não é pouco.
A maior parte de meus amigos já se foi, ou nas guerras ou de doenças.
A idade tem suas vantagens, minha querida, quando vem acompanhada de conhecimento.
Na juventude eu achava que a diferença entre as classes era não só obrigatória como sábia.
Nobres eram escolhidos por Deus, o povo pertencia a outra categoria.
Pois quanto mais conheci a humanidade, mais vi o quanto há de tolice nessas ideias.
Fiz coisas deis quais me arrependo, por ter acreditado nesses absurdos, e hoje constato sem nenhum medo que a crueldade que guiou muitos dos meus actos não passou de orgulho e vaidade tola.
Coisas que infelizmente governam a alma de minha esposa e de meus dois filhos.
Senti que ele queria conversar um pouco, tirei minhas luvas e meu pequeno chapéu, colocando-os num pequeno aparador, e ele me encaminhou para uma das mesinhas do jardim.
- Será que não poderíamos tomar um chá, ou um café, como é moda agora?
Pedi a Paulette que providenciasse uma bandeja e levasse para o jardim.
Café para ele, chá de jasmim para mim, que não conseguia dormir quando tomava aquela bebida.
Quase esbarrei com Clemente e Joubert, levando os tachos de água para a banheira de Cristine.
O conde riu muito:
- É um dos hábitos que eu adoro nela.
Sempre cheira como algo exótico, com a pele limpa e fresca.
Joubert tem ajudado bastante, não?
- De início seu tamanho nos assusta um pouco, mas confesso que já não saberíamos o que fazer sem ele.
Virou parte da "família".
É prestativo, segue Clemente e Paulette e vigia a casa melhor do que qualquer cão de guarda.
Sem falar que é um bom homem, gosta muito do senhor.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:22 am

- Sabe que René pode voltar a perturbar sua madame, não?
Um dos motivos de nossa permanência aqui é esta.
Quando eu tiver que viajar, Joubert ajudará Clemente na segurança da casa.
Não confio naquele sujeito, é um viciado.
Quando seu dinheiro terminar, virá buscar mais.
- Acha que ele se atreveria a voltar aqui, senhor?
10 vício, Edite, é o pai de muitos pecados.
E ele tem paixão por Cristíne; agiu de forma tola durante um tempo, mas nunca a traiu.
E olhe que ela lhe deu chances e até incentivou isso, hoje sabemos o porquê.
Conversamos seriamente com o tio dele, um pequeno e próspero comerciante de alimentos.
Ele entendeu o recado, não quer perder o que tem, por isso o aceitou de volta.
Mas não sei como fará para controlá-lo.
Por isso fiquei preocupado com o atraso de vocês duas hoje.
Fiquei aliviada de que alguém além de mim visse o perigo que René poderia representar, mas já fazia quase duas semanas, e a paz reinava.
Quem sabe não tinha encontrado outra mulher de posses para explorar?
Ou talvez o tio o mantivesse.
Não sabia o que pensar, só rezava.
Curiosa, fiz a ele uma pergunta de cunho pessoal, como só os amigos fazem:
- A condessa não ficará zangada com sua ausência?
Sabe como em Paris tudo se comenta.
- Quando eu e Cristine nos afastamos foi que notei o que era de facto o meu casamento.
Sem ter os dias felizes que passava aqui e a companhia de vocês nas viagens, percebi como o mundo pode ser mesquinho e vulgar.
Eu e minha esposa não nos suportamos, Edite, minha permanência no palácio foi desastrosa.
Não é à toa que os nobres possuem casas tão grandes.
- Fiquei com pena dele, e acho que meu olhar o incentivou a continuar:
R Chegamos a dividir a casa em ala esquerda, para mim, e ala direita, para ela.
Mas não deu certo.
Nossos filhos são muito apegados e parecidos com a mãe, e não temos intimidade, por mais que eu me esforce.
Leon é tão afectado e tem tanto gosto por futilidades que não conseguimos nos suportar.
Que desgosto ter um filho assim!
É mimado, cruel com os empregados, promíscuo, não se interessa por negócios, embora se ache um génio em todas as áreas do conhecimento humano.
Está com vinte e cinco anos, mas as noitadas em claro lhe dão a aparência de um senhor de mais de trinta!
Me entristeci com a imagem.
Já tinha escutado falar das orgias frequentadas por Leon, e sabendo que o conde não era dado a esse tipo de comportamento, imaginei que isso o aborrecesse e tentei desviar o assunto do rapaz:
- E a moça?
Chama-se Pilar, não?
Um belo nome espanhol. É bonita?
Dizem que as filhas costumam ser mais afáveis com os pais.
- Quando me casei, minha esposa era uma moça de vinte e dois anos e eu não tinha mais de dezanove.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:22 am

Casamento de conveniência entre famílias nobres.
Meu pai sempre teve loucura por cavalos, e o pai da condessa era um marquês espanhol que também tinha uma formidável colecção de espécimes árabes.
Era filha única, um bom negócio para ambas as famílias.
Aos trinta anos, ela já estava órfã e eu vendi as terras espanholas e comprei mais na França.
Enriquecemos os dois.
Sempre fui bom negociante, Edite, ao contrário de boa parte da nobreza, e sei que no meio em que vivo, o comércio de vinho e cavalos com o mundo turco e o árabe, a palavra é fundamental.
Estou começando agora na importação de café, e tenho tido bons resultados.
Falando na bebida, ele sorveu um bom gole da mesma, sem adoçar, apreciando o sabor.
- Pilar hoje tem vinte e sete anos.
A mãe dela nunca foi bonita, tinha o nariz muito grande, tendência obesidade, génio difícil, uma dificuldade de aprender idiomas que até hoje me impressiona.
Seu francês é de um sotaque carregado.
O francês de Pilar ao menos é perfeito, mas a beleza nunca foi seu forte.
Quando pequena, era tímida, mas até me procurava, sentava-se no meu colo.
Eu, porém, era muito jovem então, tinha uns vinte e cinco anos, e começava a tomar conta dos negócios da família, que não eram poucos.
Pelo olhar, ele parecia lembrar-se de épocas longínquas, e me pareceu se entristecer.
- Casamentos por conveniência podem ser desastrosos, minha pequena Edite.
A condessa e eu não nos acertamos desde o início, parte por culpa minha, parte pelo génio dela.
Demoramos alguns anos até nos entender e conseguir ter filhos.
A felicidade nunca foi uma alternativa entre nós.
Éramos os dois ricos demais, cercados de luxo e privilégios, nos achávamos quase deuses.
Os meninos foram criados nessa ideia absurda, que hoje, com a graça de Deus, é combatida pelos filósofos do iluminismo.
Quando Pilar fez quinze anos, começamos a nos preocupar com pretendentes:
com nossa situação financeira, eles não faltaram, como pode imaginar.
Mas minha filha, que antes tinha um viço de juventude, mostrou desde cedo ser exigente em relação aos rapazes.
Não queria um mais pobre que ela de jeito nenhum!
Imaginei a situação de Gastón, pois ao contrário do que se pensava eram muitos os nobres na Europa, principalmente na França, mas com boas condições financeiras, apenas alguns.
A maior parte estava se afundando em dívidas e aproveitando o seu privilégio da nobreza, mantendo aparência quando podiam.
Cristine costumava brincar que nunca na França se viram tantas jóias falsas, feitas quase que com perfeição, mas que escureciam com o tempo, como tudo que não é verdadeiro.
O conde sorriu com a lembrança.
Começou então um verdadeiro inferno com a vida amorosa de nossa pequena Pilar.
A mãe a apoiava em tudo, incondicionalmente, e os nobres que eram realmente ricos não se interessavam por ela, mesmo com o dote, já que, como a mãe, ela não tinha tantos encantos femininos.
A tendência à obesidade começou a se manifestar logo, e com isso, ei-la ainda solteira.
- Deve ser difícil para uma moça como ela, que sempre teve seus menores desejos atendidos respondi.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:23 am

- Nem me fale!
Voltou-se para a religião, por causa de um bispo espanhol que frequentava nossa casa, e hoje só se veste de preto, raramente usa enfeites, e é extremamente moralista.
- Não gostaria de ser freira, então?
E abrir mão do luxo do palácio e suas regalias? Nem pensar!
Como a mãe, tem uma vida um tanto devassa, só que com discrição.
As duas actualmente dão-se muito mal, uma julgando a outra o tempo inteiro e as duas a me julgar.
Aliás, é só nisso que concordam: que eu não as mereço, e que deveria ser um pai e um marido muito melhor.
Não posso dizer que elas não tenham razão, mas o palácio não é o meu lar, Edite.
Meu lar é aqui, com Cristine, a quem quase acabei matando por preconceitos tolos.
Senti-me feliz por ele finalmente ter voltado e por ter se arrependido de seus erros com madame.
Vimos Adele entrar pela porta principal usando um de seus melhores vestidos.
Ficava atraente de verde, mas Cozette devia ser mais cristã e abrir um pouco as costuras das roupas da irmã.
Ela parecia sufocar em seu traje.
O conde quis ser gentil:
- Como foi a confissão, Adele?
Demorou, já estávamos preocupados.
Ela sentou-se connosco à mesa e deu a Gastón seu mais belo sorriso:
- A igreja estava cheia demais.
Aproveitei para rezar um pouco, pela alma de meu falecido e por nossa família.
Achei estranho a pequena igreja de nosso bairro estar cheia num dia de semana, mas não fiz nenhum comentário.
Não era da minha conta onde Adele passava suas tardes.
Ela comentou:
- Vi o seu gigante fazendo medições no terreno dos fundos da casa.
Vai fazer uma reforma?
- Como pretendo passar mais tempo aqui do que antes, pedi a Joubert que aumentasse a ala dos empregados e fizesse uma adição, uma espécie de pequena cabana bem charmosa, combinando com a casa, na ala dos fundos.
Valorizará a propriedade, e no futuro pode até ser usada como casa de hóspedes.
Adele franziu as sobrancelhas:
- Não pretende me colocar para morar fora da casa, não é, meu "cunhado"?
- Claro que não ele riu.
De início pensei em colocar Clemente e Paulette lá, que parecem desejar se casar.
Será erguida em poucas semanas, assim Joubert terá um quarto próprio.
Fiquei tão feliz por ele ajudar o casal que eu amava tanto, que estranhei a reacção de Adele:
- Bem que minha irmã diz que o senhor é generoso demais!
Assim acabará por estragar esses empregados!
Paulette casar, imagine!
Já deve ter mais de trinta anos!
E ainda ganhar uma moradia nova!
- Cozette realmente tinha razão, Cristine teria de ter cuidado com ela.
O conde se irritou:
- Não sei como tratava seus criados, mas Cristine tem uma política diferente aqui.
Estão connosco há tantos anos que já os considero amigos, e se puder contribuir para o conforto deles, que sempre prezaram pelo meu e o de minha amada, farei com prazer.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:23 am

O pequeno chalé será da casa, e não deles, mas seu comentário me deixou intrigado: não seria bom, como presente de casamento, realmente dar uma casinha para eles, Edite?
Vendo que Adele ficara rubra de irritação, respondi muito satisfeita:
- Acredito que se fizer isso eles ficarão eternamente gratos, senhor.
Mas se a casinha deles for longe do serviço, não seria incómodo?
- Tem razão.
Essa casa tem um terreno amplo, separarei aquele pequeno pedaço de terra e, depois, assim que o casamento se realizar, eu o passo para o nome de Clemente.
Acha que Cristine aprovará?
Assim eles já 'Acordariam dentro do serviço".
Tenho certeza de que madame ficará encantada com sua ideia, senhor!
E depois, essa casa é sua!
Sua generosidade vai agradá-la muitíssimo!
Quanto mais eu falava, mais irritada Adele ficava.
Ela levou as mãos à cabeça e levantou-se, como se não suportasse mais a nossa presença:
- Bom, peço licença conde.
Uma dor de cabeça insuportável está me deixando indisposta.
Espero, senhor, que não se arrependa no futuro de tanta generosidade!
Ele levantou-se para a saída dela, como um cavalheiro, mas eu permaneci sentada, feliz por Paulette e Clemente!
- Q senhor me permite contar a Paulette?
Ela vai dançar por três dias seguidos de tanta alegria!
- De forma nenhuma.
Sinto muito, minha amiga, mas não perderia a reacção dela por nada desse mundo.
Chame Clemente, vamos contar aos dois.
Correndo para a cozinha, dei com o casal junto a Jeanne, que sovava uma massa de pão.
Anunciei que o conde desejava falar com os dois com a cara mais séria possível não queria estragar a surpresa.
Paulette franziu o cenho:
- Que foi? Aquela empoada da Adele andou reclamando com ele de novo?
Já disse a ela que na minha cozinha ela não entra!
- Se eu fosse você iria logo, com Clemente.
Parece coisa séria.
Os dois se entreolharam como se tentassem adivinhar algum erro cometido no passado, ou algo assim.
Rapidamente ela se lavou, arrumou a touca nos cabelos castanhos, alisou o avental branco e entrou na sala com Clemente, que ia ressabiado como ele só.
A cena foi tocante e engraçada ao mesmo tempo:
chegaram os dois cabisbaixos, e Gastón disse que iria construir para eles uma pequena casinha, nos fundos do jardim, desde que, é claro, se casassem.
Paulette primeiro estranhou: uma casinha?
Como assim?
Ao ser informada que seriam os proprietários, a alegre cozinheira deu um gritinho que mais pareceu um uivo, de tão contente que estava, e Clemente desatou a chorar.
O conde riu muito dela, e bateu nas costas de seu empregado:
- Agora não me decepcione, e faça dela uma mulher honesta!
Não pense que não sei de suas "visitas nocturnas" ao seu quarto.
Casaram-se de facto, duas semanas depois, na pequena igreja do bairro.
Ela, enfeitada por Cristine e Cozette; ele, sério e compenetrado como nunca.
A casinha ficou pronta uma semana depois.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:23 am

Era, na maior parte, de madeira; tinha um quarto, uma sala grande e uma cozinha pequena (o banheiro ficava do lado de fora, como na época se fazia), tudo cheirando a novo, muito simples, mas muito bonitinho.
Também eu lhes dei presentes:
alguns móveis simples (uma mesa, cadeiras e um pequeno aparador) mas que deveriam durar bastante.
Com tudo pronto, o conde, ao lado de Cristine, olhou para mim:
- Fizemos nossa parte pelos dois.
Não seria a hora de fazer algo por você?
Queríamos lhe dar um presente, Edite, para que tenha uma velhice tranquila quando chegar a hora.
Uma casinha, talvez?
Emocionei-me com a bondade deles, mas declinei:
- Ora, senhor, não se preocupe com isso.
Ganho bem de madame e nunca gasto com nada.
Com isso, já acumulei uma boa quantia para a velhice.
E depois, tenho certeza de que, se precisar, Clemente adiciona um pequeno quarto na casa dele.
- Meu Deus, uma mulher que poupou para a velhice!
Sabe como isso é raro, minha pequena?
- Cristine saiu-se bem:
Eu não lhe disse, sempre, que ela era um tesouro?
Uma de nós duas precisava ser previdente, não é, minha amiga?
Foram tempos bons aqueles.
Cristine já ensaiava com Lautrec quase todos os dias, e por mais que eu tentasse adivinhar, não descobri que personagem ela faria.
Sabia que não teríamos muitos bailarinos, e um dia chegou em casa, com Lautrec, um homem másculo, moreno, barba aparada, dançarino?", perguntei ao coreógrafo.
- É um actor, minha querida.
Bonito, não?
Tem traços meio brutos, mas faz uma bela figura.
De facto era um senhor atraente, de seus trinta anos no máximo.
O conde não ia ficar à vontade com aquilo, pensei eu.
Como se lesse meu pensamento, Lautrec me respondeu:
- Não se preocupe, minha amiga.
É realmente bem forte, mas vive com um de meus amigos escritores há três anos.
Gastón não corre o menor perigo com ele junto de Cristine!
- O conde ficava uns cinco dias por semana na casa, e teria de conviver com aquele senhor de quase um metro e noventa, moreno e atraente, andando pela sala, junto à sua amada.
Não sei se ia ficar muito feliz.
Olhei para o rapaz e vi ele e Lautrec conversando animadamente, e, de repente, numa das risadas que os dois soltaram, me animei:
realmente, Cristine teria ali, no máximo, mais um bom amigo.
Eram tempos de bonança.
Um arrepio me fez estremecer a espinha: tempestades viriam?

21 - Meu amado.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:23 am

XXVI - REENCONTRO
(Narrativa de Ariel)
NA COLÔNIA, MAIS um fim de tarde chegava com a narrativa envolvente de Edite.
Súbito, uma voz poderosa soou em meus ouvidos internos.
Era Serafim, que, ao lado de Edite, respondia a perguntas de ouvintes:
- Chame Clara, e se possível, também a Nana.
É urgente!
- Clara, com seus cabelos lisos e castanhos, estava sob suave brisa que vinha de grande janela do Auditório do Centro de Literatura.
Ela ergueu os olhos castanhos,
deparou com os meus e perguntou com a mente:
- Urgente?
Será o que penso?
Sem mais o que dizer, pois não sabia do que se tratava, eu a vi se aproximar de Nana e dizer:
- Vamos, Ariel quer nos falar.
B O olhar de minha amiga, sempre tão jovial e puro, chegou até os meus e fomos andando até Serafim, que sorriu para ela:
- Tenho boas-novas, companheira!
Júlia está voltando para casa.
Pensei que você e Ariel gostariam de presenciar sua desencarnação.
Nana vai querer ir junto.
Seria bom se ela visse a babá que a criou por tantos anos.
Estremeci de alegria por minha amiga, que tinha os olhos em lágrimas, de júbilo e agradecimento ao Criador.
A filha que ela deixara na Terra ao desencarnar, com apenas três anos de idade, agora viria finalmente ter com ela.
Clara velara toda sua existência com orações e visitas, que muitas vezes a própria Júlia pressentia.
Ela olhou para Nana, que nunca tinha saído da Colónia e tinha medo do umbral, do qual tantos falavam horrores.
- Quer ir connosco auxiliar à nossa Júlia, que desencarna ainda hoje?
Há décadas na Colónia, Nana a olhou com algum assombro:
- Minha nossa, dona Clara, com que idade ela está? Me lembro da moça bonita de seus dezasseis anos, mas isso já faz tanto tempo!
- Está com mais de oitenta anos, Nana.
Não é incrível o quanto viveu?
Serafim nos ajudará?
- Como sabe, tenho alguns compromissos por aqui.
Mas fique tranquila, além de Ariel, estará com Olívia.
Acha que precisa de mais auxílio?
A pequena Olívia brilhava num sorriso maroto no canto da sala, pés sem tocar o chão, como sempre.
Clara enxugou as lágrimas.
- De forma nenhuma, irmão Serafim.
Olívia indo junto, tudo correrá bem, conforme a vontade do Senhor!
O desfazimento de alguns laços que prendem o corpo ao espírito podia ser doloroso algumas vezes.
Com Olívia junto me senti mais confiante afinal Júlia já era como que uma velha e boa amiga, tantas vezes eu tinha acompanhado Clara à Terra para vê-la.
Queria que sua desencarnação se desse da forma mais tranquila possível.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:24 am

Nana estava esfuziante por ver Júlia, mas temerosa da viagem à qual estariam sujeitos.
Clara tranquilizou-a:
- Não vamos passar pelo umbral que tanto teme, sua tonta!
Vamos só buscar a nossa Júlia!
- E sabe onde está, dona Clara?
Tantas décadas depois!
Está na casa onde costuma visitá-la?
Clara fez um ar triste:
- Não, querida amiga.
Está num hospital.
Sua doença evoluiu rapidamente e ela está só, num quarto isolado.
Não tenha medo, ela ficará tão feliz em vê-la!
Estará protegida e, depois, vamos apenas à nossa querida Terra, da qual você sempre se lembra.
Ajeitando o coque num gesto bastante feminino, Nana deu as mãos a Clara e, comigo e com Olívia, depois de pequeno esforço, fomos a pequeno hospital localizado em Santa Catarina, no nosso amado Brasil.
Assim que chegamos, ri com os olhos assombrados de Nana:
- Ah, é assim que viajam?
Coisa mais simples!
Achei que levava horas.
- O prédio simples, caiado de branco, parecia mais uma casa-grande
que um hospital, ou "Casa de Saúde", como estava no letreiro. Incrível como o ar da Terra era pesado para nós, acostumados com o ar da Colónia, puro demais em comparação.
Ficava em rua estreita de uma cidade do interior, e tinha o movimento típico dos hospitais e clínicas particulares do Brasil; ambulâncias estacionadas, funcionários na maior parte de branco não era um ambiente assustador.
Olívia, mais rápida que nós, entrou no prédio sem se deter com nada disso.
Lá dentro, vimos que era maior do que parecia por fora, com médicos muito ocupados, alguns deles acompanhados de seus mentores espirituais; Olívia sorriu para alguns destes, que nos olharam sem espanto, retribuindo com sorrisos de saudação.
- Esses irmãos abnegados que às vezes acompanham médicos fazem prodigioso trabalho, tanto na cura de pacientes, como no auxílio de seus protegidos, que muitas vezes não percebem sua presença.
Alguns tinham uma luz tão translúcida, que Nana perguntou: ah São anjos?
- Se quiser chamar assim.
São benfeitores abnegados que trabalham muito.
Alguns, de esferas bem superiores às da Colónia.
Não gosto muito é desse cheiro!
Tão pouco auspicioso! Olívia respondeu.
Esfregando as mãozinhas, abriu-as como se quisesse espalhar algo pelo ambiente, e sentimos um suave cheiro de jasmim, típico dela.
- Agora está melhor! Deixe ver se a encontro!
Atravessando paredes e passando por vários ambientes, levou-nos a um quarto com pacientes em camas bem limpas; era o Centro de Tratamento Intensivo da Casa de Saúde.
Estavam lá, separados por pequenos compartimentos para evitar a contaminação, pelo menos oito doentes em estado grave.
Clara abraçava Nana como para transmitir-lhe força, e nos encaminhamos sem dificuldade para um leito específico, onde uma senhora de cabelos brancos, cortados muito curtos, respirava com a ajuda de aparelhos, em estado de semi-consciência.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:24 am

Clara chegou perto dela, olhando-a com carinho e enxugando uma lágrima:
Minha Júlia!
Abençoado seja o Senhor que nos propicia este momento!
Tantas vezes a visitei, minha querida...
Observei os traços finos da anciã, notei as mãos um pouco deformadas pela artrose, mas bem-cuidadas.
Estava magra, mas de ventre inchado devido a um câncer que lhe corroía o estômago.
Soube por Clara que Júlia tivera uma vida difícil, casada com um homem escolhido pela família, abastado, mas nada gentil.
Tivera quatro filhos, educados em boas escolas.
Três deles faziam parte da empresa do marido, que, se não era próspera como antes, pelo menos sustentava bem toda a família.
Ela dedicara amor incondicional aos filhos.
Tivera boa saúde, e conhecera pelo menos seis netos e um bisneto.
O marido faleceu havia mais de vinte anos, e encontrava-se ainda, pelo génio difícil, em uma região do umbral.
Como, por seu comportamento, fez Júlia sofrer muito, Clara não tinha grande simpatia por ele, embora aconselhada pelos mentores a sempre perdoar.
Ela tentara ajudá-lo no umbral, mas, desconhecida para ele, apesar de seus retratos espalhados pela casa terrena de Júlia, ele voltou-lhe as costas, preferindo o ambiente lúgubre, mas de desvarios sexuais, onde estava.
Nana estranhou primeiro que aquela fosse a sua Júlia, que ela deixara aos dezasseis anos, agora transformada pelo tempo em anciã, frágil e deitada em um leito de hospital:
- Como a vida é engraçada, dona Clara!
A menina que deixamos na Terra agora mais parece sua avó!
E que tubos são esses?
A pobrezinha deve estar sofrendo muito!
- São necessários para que não sinta tanto as dores da doença, Nana expliquei, mais familiarizado com ambientes de hospitais.
- Mas fica aqui nessa salinha envidraçada, tão só.
E esses outros aqui em volta, nessas outras salas?
Também estão para desencarnar?
Olívia olhou em volta e viu mais sete salinhas daquelas, ocupadas por pessoas em estado de inconsciência, e respondeu:
- Por enquanto, a maior parte aqui vai se restabelecer.
Vê alguns irmãos espirituais prestando socorro?
Era verdade.
O ambiente, que parecia vazio e insípido, estava tomado de entidades espirituais, algumas nos sorriam em compreensão, outras não eram tão boas assim.
Ao lado de uma mulher também ligada a tubos e que parecia bastante machucada (vinda de um acidente automobilístico, talvez), notamos uma entidade que tentava se esconder de nós, mas que olhava para ela com ódio e satisfação.
Em seus pensamentos víamos os maus sentimentos pela criatura no leito, que parecia bastante inquieta os sedativos estavam perdendo seu efeito.
Nana continuava curiosa:
- E os filhos dela?
São três meninos e uma menina, não? Onde estão?
Ela parece tão abandonada.
- Não pense mal de meus netos, Nana.
Nesse ambiente, apenas médicos e enfermeiros podem entrar.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:24 am

Dois dos meninos e a mais nova, a quem ela deu meu nome, são muito apegados à mãe.
Foram, durante a vida dela, fonte de aprendizado e alegria, embora causassem também os aborrecimentos naturais que os filhos causam.
Apenas o mais velho não tem essa ligação com ela: parecido com o pai, achava que Júlia era tão boa que parecia ser tola.
Esse não sentirá sua falta, mas os outros sim; estão em suas casas, aguardando o horário de visita, não a abandonaram, como pode parecer.
Olívia, quieta para nossa surpresa, e em oração, pedia aos céus que nos amparassem naquele momento de libertá-la do corpo.
Novamente esfregou as mãos uma na outra, olhou séria para mim e disse:
- É chegada a hora, Ariel.
Vou precisar de sua ajuda.
Coloquei-me ao lado em oração e em posição de passe energético, enquanto Olívia, para meu espanto, foi desligando o corpo da alma através dos fios prateados já bem esmaecidos, com facilidade.
Pediu-me com o pensamento que pousasse as mãos na cabeça dela e enviasse pensamentos de paz e boa ventura.
Sentíamos nela o medo natural da morte, mas estava recobrando a consciência para o mundo espiritual.
Minhas palavras pareceram acalmá-la, e Clara, ligada à filha, disse-lhe ao ouvido esquerdo:
Nada tema, Júlia.
A vida continua!
Deus não a abandonaria em momento tão necessário.
Aqui estamos para recebê-la, não se sentirá mais só!
Fenómeno comum observamos enquanto Olívia habilmente a libertava do corpo.
Vimos, pelo pensamento de Júlia, toda sua vida terrena como se fosse um filme de trás para frente:
o tratamento mortificante que fizera cair seus cabelos, as consultas aos médicos, a dor da família, a descoberta da doença.
Vimos Júlia em sua casa, onde também morava sua filha mais nova, seus feitos já na terceira idade, quando trabalhara pelos mais pobres da paróquia onde morava, supervisionando seu abrigo e alimentação.
Clara sorriu:
Júlia tinha o espírito da caridade.
Depois a viu mais nova, na morte do marido, os filhos ainda jovens e a insegurança que sentiu quanto ao futuro deles.
Voltamos então ao período do nascimento das crianças, em que ela, apenas com os criados, cuidava com carinho dos seus peque nos rebentos, enquanto o marido se divertia em casas de prostituição após o dia de trabalho na empresa.
Tanta mágoa e ressentimento ela sentira, bela e jovem cuidando de tudo na casa e escondendo da família os dissabores que o marido lhe dava!
- Não foi feliz no casamento.
Merecia marido bem melhor - disse Nana.
- E quantos de nós tivemos bons casamentos durante a vida na Terra?
Estavam em estado de evolução distintos, e o orgulho dele não ajudou em nada.
Perdeu a rara chance de desfrutar de uma boa e bela esposa e evoluir com ela.
É pena!
Depois, para nosso enlevo, a vimos com Nana na adolescência e na infância, voltando rapidamente para os abraços de Clara.
Entendi no coração o sofrimento de minha amiga:
as lembranças de Júlia a mostravam a sorrir para ela e a acolhê-la nos braços magros, mas macios de mãe.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:24 am

- Na realidade, nunca estive longe, minha adorada Júlia! disse Clara, emocionada.
E agora vamos finalmente poder estar juntas!
Olívia terminou seu trabalho, que se fosse realizado por mim e Clara seria mais
doloroso e demorado.
Júlia deu seu último suspiro na Terra.
Os aparelhos em volta começaram a fazer um barulho incómodo, registando sua parada cardíaca, e logo vimos aparecer um velho médico e uma enfermeira nos seus quarenta anos, ela perguntando se devia proceder à ressuscitação por meio de massagem cardíaca, e ele a olhar o corpo de Júlia, responder com serenidade:
- Não acho que devamos tentar, dona Aurora!
Ela já sofreu tanto, e era tão boa.
Minha amiga Júlia deve estar agora nos braços dos anjos em quem tanto acreditava.
E tínhamos mesmo a alma de Júlia, ainda dormindo, já desligada completamente, flutuando em cima de seu corpo terrestre.
Súbito, ela abriu os olhos e a primeira pessoa que viu foi Clara, a lhe sorrir com encanto, agradecendo a Deus a oportunidade de poder falar directamente com ela, sem que ela duvidasse de seus sentidos:
Nada tema, Júlia.
Viemos buscá-la, pois a vida continua!
A morte não passa de impressão enganosa da humanidade.
Connosco será feliz!
Ela a olhava com espanto:
- Mãe? É mesmo a senhora?
Mais jovem que todos os meus filhos, e que bonita!
- Nana, que estava aos prantos de tão alegre, pronunciou:
- Não lhe dizia sempre que as fotos não lhe faziam justiça, menina Júlia?
Abençoado seja o Senhor por me permitir vê-la novamente!
Sem aqueles tubos, você fica bem mais bonita.
Já de pé ao nosso lado, observando o trabalho dos médicos e das enfermeiras, Júlia deu um grande sorriso ao ver a amada babá e lhe abriu os braços para um grande abraço.
- Nana! Tanto rezei por ti, querida!
Que falta me fez.
Tanto queria ter feito por você, que tanto carinho me desvelou!
E você, mãe!
Tantas vezes a senti por perto, em momentos difíceis...
Às vezes parecia sentir seu carinho na brisa suave do vento, a me levantar os cabelos e me fazer sorrir.
Vejo-a agora tão nova!
Se sinto em deixar os meus, que já estão crescidos criados, imagino o que não sentiu ao ficar longe de mim, estando eu aos três anos de idade!
- Na realidade, Júlia, nunca estive distante.
O bom Deus, que a tudo provê, deixou-me ir visitá-la em muitos momentos de sua vida, e no vento, filha amada, estavam, sim, muitas vezes, minhas carícias e meu amor.
Olívia decidiu intervir:
- Ela precisa de descanso agora, dará.
Deixe-me induzi-la ao repouso.
Ainda sente dores?
- Não muito. Mas sinto cansaço.
Vamos para o céu, minha mãe? Como é lá?
E essa menina, é um anjo? - perguntou, referindo-se a Olívia, cuja luz a diferenciava dos demais.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:24 am

Nana riu e, antes que ela novamente caísse no sono, respondeu:
- E anjo, sim, mas não gosta que falem isso.
E não vá esperando falar com São Jorge.
Já me explicaram que ele é muito ocupado!
Com Júlia em estado de sono profundo, nós a levamos para a Colónia, onde ela ficou por pouco tempo no hospital, graças aos passes curadores de Olívia.
Brevemente teve de volta seu vistoso cabelo branco, e passou a morar com Clara e Nana, em casa perto da nossa.
Minha mulher, Esthefânia, logo se afeiçoou à nova vizinha, ficando as duas muito amigas.
Faziam planos de trabalharem com as crianças, que aqui têm um lugar especial.
Ao ouvir falar das cartas de sua mãe, modo que Clara encontrou de se comunicar com ela, leu-as todas, já que na Terra, sendo católica dedicada, não lia livros espíritas22.
Júlia, interessada e inteligente, logo aprendeu nossos hábitos.
De início, estranhou o trabalho da mãe, de ir comigo socorrer pessoas na Terra e no umbral.
Um dia, chegando a minha casa, dei com ela conversando com minha esposa, comentando filosoficamente:
- Se a morte é a maior das ilusões, a distância é a segunda maior delas.
Nada afasta de fato as pessoas que amamos.
E quando os laços são bons e verdadeiros, nunca estamos sós.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:25 am

XXVII - ADELE VAI À MISSA
(Narrativa de Edite)
FALTAVAM DEZ DIAS para a segunda apresentação de Cristine.
Passando pela frente do cabaré, notei imenso painel pregado em cima da marquise, com uma imagem de Cristine de costas, vestida como da última vez em que se apresentara, rosto de perfil, véus bordados ladeando-o, em singular movimento com o vento.
Em letras garrafais:
"Cristine e Honoré Lautrec 16 de abril", e logo abaixo:
"Entradas esgotadas".
- Albert teria um bom lucro, pensei.
Quem ela interpretaria dessa vez?
Cozette ia sempre a nossa casa, fazendo ajustes num vestido espectacular, bíblico.
Os véus faziam parte da indumentária, mas desta vez tinham uma Coloração ametista bem suave, contrastando com tons de um lilás escuro a um mais claro.
Vendo as duas fazendo as provas, tentei adivinhar o personagem que ela interpretaria:
- Cleópatra?
As duas riram:
Com essa minha cabeleira loura? - disse Cristine.
Mas não deixa de ser uma boa ideia.
Quem sabe no futuro não providencio uma peruca egípcia?
Cozette me olhou como se quisesse dizer algo, e Cristine disparou:
- Está certo, mas nada de contar ao Gastón.
Quero lhe fazer uma surpresa novamente.
Pode contar a ela, Cozette, ou ela vai ficar com esse medo de que eu fique nua no palco.
Cozette riu com gosto:
Desta vez teremos Dalila.
Não desconfiou quando viu o gigante que Lautrec trouxe?
É quem fará o Sansão.
Minha boca abriu-se de espanto:
o rapaz realmente daria um fantástico Sansão.
Três dançarinas tinham sido contratadas, todas morenas para contrastar com madame.
Cozette cuidava também do figurino delas.
Os ensaios com os músicos eram feitos no próprio cabaré, mas isso não impedia que dois deles ensaiassem com Cristine em casa, um violoncelista e um percussionista, por quem Adele mostrara bastante interesse.
Imaginei as jóias que madame usaria e, pensando em ajudá-la a escolher, fui ao pequeno baú que ficava em seu quarto procurar um anel belíssimo de ametista, dado por Gastón certa vez.
Com surpresa, notei a falta dele.
- Madame emprestou anéis para Adele?
Não vejo o anel de ametista e os brincos que fazem par com ele.
Cristine me olhou com espanto:
- Não estão aí?
Não emprestei a Adele, os dedos dela são bem mais grossos que os meus.
Aliás, ela tem a feia mania de me pedir jóias emprestadas e depois não devolver.
Mas olhe direito, deve estar no meio de outras peças.
Procurei exaustivamente, mas nada do conjunto.
Dei por falta também de uma pulseira de pérolas, uma das preferidas de Cristine.
Comentei com ela, que sentou-se na cama ao lado de Cozette:
- Estranho isso.
Se ainda estivesse por aqui, seria René sem dúvida o responsável pelo "sumiço".
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:25 am

Mas agora temos apenas pessoas de confiança, com excepção de Adele, que às vezes pega emprestado e fica com ela.
E Jeanne. Mas a menina nova nunca sobe até os quartos!
Senti que devia defender a pequena Jeanne.
Paulette estava o tempo todo com ela, e notaria caso ela sumisse. Fui ter com a cozinheira.
- Paulette, Jeanne sobe aos quartos às vezes?
Para levar bandejas, ou algo parecido?
Claro que não!
Ela é uma boa menina, mas muito desastrada.
Não a deixaria subir as escadas com a porcelana fina de madame! Porquê?
Tentei desconversar:
Fiquei imaginando se você não estaria com muito trabalho extra.
Sabe como Adele tem mania de pedir que levem coisas em seu quarto.
Querendo, me chame que eu lhe ajudo,
Ela franziu as sobrancelhas, nada convencida:
- Andou sumindo coisas, é?
Pois a menina nada tem a ver com isso.
Se eu fosse ,você, prestaria atenção em Adele, que sai todas as tardes para ir à igreja e de vez
em quando volta com alguns pacotes.
Não estava falida? E que igreja é essa que vende coisas?
Adele estava num de seus passeios misteriosos.
Decidi entrar no quarto dela e fazer uma busca.
Quem sabe as jóias de madame tinham sido esquecidas por lá?
Subi e entrei no quarto de hóspedes, notando a desordem costumeira; ela não tinha uma criada própria.
Ainda assim olhei com cuidado nos móveis, nos porta-jóias (achei ali um brinco de rubis de Cristine, mas nada além disso e das jóias falsas que ela sempre usava), e nada do conjunto de ametistas, nem da pulseira de pérolas.
Franzi a testa tentando deixar tudo no mesmo lugar de antes e ia fechando o quarto quando a própria Adele apareceu na porta:
- Que faz aqui, Edite?
Cristine precisa de algo?
Usava também os perfumes caros de madame podia sentir à distância.
Não me intimidei com ela:
Vim procurá-la para perguntar sobre umas de jóias de madame.
Que bom que chegou!
Ao ouvir falar das jóias, ela se mostrou desconfortável, levando as mãos às orelhas, que estavam nuas.
- Jóias? As poucas vezes que usei, foi com a permissão dela.
Acha que roubaria minha própria irmã, que me acolhe debaixo de seu tecto?
Não esperava aquela agressividade, mas isso me deixou ainda mais desconfiada:
- Não costumo suspeitar das pessoas, Adele.
Foi a própria Cristine que pediu para que lhe perguntasse sobre uma pulseira de pérolas e um conjunto de ametistas.
São irmãs, e é normal a camaradagem de uma com a outra.
Queria saber se você as tinha emprestado, pois não conseguimos achar as peças.
Ao me ouvir falar assim ela empalideceu, mas manteve a pose:
- Tudo que ela gentilmente me empresta, eu devolvo.
Não ando apegada a jóias, como vê.
Estou tentando melhorar meus vestidos e chapéus, não tenho ligado muito para adereços.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 19, 2017 9:25 am

- É bom saber que ainda tem seus recursos, Adele, e faz muito bem aprimorar seu vestuário.
Sabe como madame e Cozette se trajam bem.
Fico feliz de saber que está se cuidando, o estilo parisiense é diferente do interior, não é mesmo?
Ela me sorriu como um gato:
- De fato, uma mulher não deve nunca ficar sem suas economias.
Mas venha ver um chapéu que comprei hoje.
Acho que nem Cozette faria um tão elegante!
E me mostrou a caixa que carregava, com um chapéu vistoso dentro.
Elogiei-a pelo bom gosto e saí do quarto, indo falar com Cristine imediatamente:
- Madame, acho melhor começar a trancar novamente suas jóias.
Mão sabemos o que está acontecendo, e elas podem estar em outro lugar, mas acho que já passamos por experiências desastrosas por não sermos precavidas.
A senhora concorda, Cozette?
Ela me olhou com aqueles olhos claros, entendendo o meu ponto de vista, mas não foi tão discreta:
- Melhor mesmo.
Adele está com roupas novas, mas nada tão caro como essas jóias.
Tem lhe dado algum dinheiro, irmã?
- Não. Ela nunca me pediu dinheiro.
Diz que tem suas próprias economias.
Cozette levantou-se, mãos nos quadris, me olhando séria:
- Pois acho que Edite tem toda razão. Nunca soube de economias de Adele, e sair toda tarde para ir à igreja?
Esconda esse baú ou o tranque muito bem, minha irmã.
Não seria a primeira vez que ela faz algo constrangedor.
Me lembro bem de nossa infância e adolescência!
- Cristine sentou-se na cama com ar aborrecido:
- Mas, que coisa! Ter que trancar e esconder minhas jóias dentro de minha própria casa!
Edite, procure meus brincos longos de esmeralda, veja se ainda estão no baú.
- O facto é que madame tinha muitas jóias, mas aquele brinco tinha significado especial para ela: era um presente de Gastón por dez anos juntos.
A peça não era tão pequena assim que me desse trabalho de procurar no baú, mas, mesmo jogando todas as jóias na cama, não consegui achá-los.
Ela aborreceu-se.
- Absurdo!
Quando foi que me viu negar algo a quem quer que fosse, Edite?
É minha irmã, se for ela, não posso expulsá-la de minha casa!
Se precisasse de algo, era só me pedir.
- Com a desconfiança em mente, fiquei quieta, mas tranquilizei Cristine, dizendo que provavelmente as colocamos no meu pequeno baú, ou em qualquer outra parte.
A diversão do conde era trazer a ela pequenos mimos desse tipo, não passava quinze dias sem que ele trouxesse algo, mesmo de pequeno porte.
Em datas especiais, trazia os conjuntos mais valiosos, e esses estavam todos ali, no baú dela, ou comigo, guardados no meu quarto.
H Além disso, Gastón lhe dava uma "mesada" para o que ela quisesse comprar, além de cuidar das contas da casa.
Dinheiro nunca tinha sido problema.
Ela continuou:
- Não quero que comentem com Gastón nada disso, ele ficaria furioso!
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