A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 9:58 am

Vou trancar esse baú e deixar a chave escondida.
Não tenho outra alternativa.
Cozette ficara irritada:
Pois se eu souber que essa mulher anda lhe dando prejuízos desse tipo, não sei por quanto tempo não contarei a Gastón.
A culpa foi minha, não tinha nada que ter trazido aqui Adele.
Desde pequena ela sempre foi um problema!
Ao menos René desapareceu mesmo desta casa.
Pelo menos desse mal estamos livres.
Com a dor de cabeça se aproximando, pelo aborrecimento, Cristine tomou logo dois de seus tabletes e pediu-nos que a deixássemos dormir.
Tinha as preocupações de seu último número, não queria pensar em nada diferente.
Aborreceu-se pelos brincos de esmeralda, que tinham significado especial.
Algo me dizia que não os veríamos mais:
não estavam comigo.
Fiquei em dúvida se falava
ou não com Gastón.
Adele, quando chegou, só tinha roupas velhas e frascos vazios de perfume.
Aquilo não era coisa de quem tinha economias, pois nem jóias mais possuía, coisa que mulheres precavidas da época guardavam para os tempos difíceis.
Tinha notado, durante a busca, a falta de diversas outras pequenas coisas de valor relativo, mas que somando dariam uma pequena fortuna.
Ela teria que ser muito tola para gastar tudo em umas peças de roupa, que nem pareciam ser tão caras assim...
Não! Esse dinheiro devia estar escondido ou indo para outro lugar.
Saímos juntas, eu e Cozette, que tinha um misto de raiva e preocupação no olhar e me perguntou:
- Essas saídas dela são frequentes?
- Para ir à igreja?
Pelo menos umas quatro vezes por semana.
Às vezes também pede a carruagem emprestada para ir ao centro, e Clemente a leva quando Cristine não está usando, mas nessas ocasiões só vê vitrines e compra algumas coisas em lojas mesmo.
- Adele, religiosa?
Quando criança e moça, minha mãe tinha que obrigá-la a ir à missa de domingo!
Tivemos criação católica, como sabe, mas Adele detestava missas, e ria de quem se confessava.
Chamava-os de tolos!:
Embora compartilhasse da desconfiança dela, tentei desconversar:
- Às vezes as pessoas mudam Cozette.
Ela passou por maus bocados com o marido, segundo nos disse.
Pode ter encontrado a paz na religião.
Bem-humorada, ela me respondeu:
- Não acredito nisso.
Com o comportamento que sempre teve, se estiver indo mesmo à igreja, deve estar tendo é um caso com o padre!
Ri muito, pois imaginei nosso padre do bairro, sisudo e respeitável nos seus sessenta anos, com uma biografia sem mácula (aliás, extremamente moralista), tendo um caso com Adele, a quem ele devia olhar com olhos nada piedosos, devido à forma como ela se vestia.
Ele abominava a moda da época, e pobre da mulher que usasse decotes na igreja.
Devia ser por isso que Adele saía de casa com um xale cobrindo a parte de cima do vestido, muito decotada.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 9:59 am

Não diga isso, Cozette.
Nem que ela fosse a própria Vénus teria chance com nosso padre!
- Chegamos as duas à cozinha.
Jeanne estava no pátio depenando algumas aves, e Paulette, concentrada em sovar uma massa, olhou-nos curiosa, pois vínhamos as duas com o semblante fechado.
- Problemas?
Intuição sempre tinha sido um dos pontos fortes de nossa cozinheira.
Porém, embora eu confiasse nela para qualquer problema meu, não podia expor os problemas da família de Cristine.
Vendo minha hesitação, Cozette resolveu a questão:
- Acredita que Adele vá à igreja todas as vezes que diz?
Ela primeiro parou de sovar a massa e nos olhou, mas isso não durou mais de dois segundos.
Continuando seu trabalho vigorosamente, ela respondeu sem a menor dúvida em sua voz:
- Claro que não!
Mas se isso causar algum problema à madame, pode ser facilmente resolvido.
Olhamos para ela com surpresa, e Cozette perguntou:
- Como?
Continuando seu trabalho, como se estivesse falando de uma receita de bolo ela deu a solução:
Peça a Joubert para segui-la.
Não a Clemente, que meu marido é um bom homem, mas, cá entre nós, para isso é meio desajeitado.
Tenho certeza de que aquele gigante, quando é preciso, se toma mais imperceptível que uma sombra.
Deus guarde sempre a sabedoria das pessoas simples!
Pelo rosto de Cozette vi a aprovação de que necessitava para dar a ordem a Joubert.
Ele estava nos fundos, com Clemente, fazendo reparos na casinha.
Ao ouvir meu pedido, ele não fez perguntas, apenas assentiu com a cabeça, na qual eu vi olhos de repente frios e astutos.
- O conde sabe da desconfiança de madame com sua irmã?
- Ainda não. Mas é para a segurança dos dois.
Acredita que pode fazer isso sem ser visto?
- Claro. Existe apenas um problema.
Achei que as coisas seriam mais fáceis, mas perguntei qual seria o problema, e ele me respondeu:
“Se for algo sério, que coloque a vida do patrão ou a de madame em risco, terei que contar para ele.
- Não se preocupe, Joubert.
Se for algo assim, nós dois contaremos.
Ele não sabia do desaparecimento das jóias, nem eu disse.
Provavelmente presumiu que Adele tinha um amante, ou que jogasse, mas eu achei que, quanto menos eu dissesse, melhor seria.
Veríamos o que ele nos diria.

22 - Referência ao livro Cartas à Júlia, publicado pela Editora EME, onde se conta um pouco da história destes três espíritos: Clara, Júlia e Nana.
Clara, já desencarnada, é a autora do livro psicografado pela médium Mónica Aguieiras Cortat.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 9:59 am

XXVIII - A ÚLTIMA DANÇA
ELE SEGUIU ADELE por três dias consecutivos.
Eu o vi, de capa escura, saindo um ou dois minutos depois dela, nesses dias.
No primeiro, assim que ela voltou ele demorou ainda umas duas horas para retomar à casa.
Não preciso dizer que fui até ele cheia de perguntas para fazer, e ele me calou antes que eu fizesse a primeira, dizendo:
"Ainda é cedo!
Quando eu tiver certeza do que está acontecendo, lhe direi".
Deus me ajudou tanto, que naquela semana ela saiu três dias seguidos, e ao final desses dias, ele me disse que sabia para onde ela estava indo, o que estava fazendo e com quem.
Mas que tinha dúvidas se contava ou não ao conde, embora achasse
que tinha o dever de reportar tudo ao patrão.
Pedi à pequena Jeanne que chamasse Cozette, pois queria ouvir o relato com ela.
A modista veio imediatamente, largando o figurino da irmã, que devia estrear em menos de uma semana.
Levamos Joubert para o jardim, afastado da casa, por não querermos aborrecer Cristine, que se exercitava numa parte da sala com Lautrec.
Joubert sentava-se com dificuldade naquelas cadeiras pequenas.
Mantinha-se com a cabeça erecta nos ombros enormes e um pouco caídos, ainda vestindo a capa que usava para sair.
Ao vê-lo, Cozette comentou comigo:
"Não é de se espantar que um homem desse tamanho tenha seguido Adele e que ela não tenha notado?
Parece impossível!".
Mas eu sabia que não era impossível, não para Joubert.
Mais de uma vez eu entrara numa sala e me espantara por encontrá-lo lá, encostado num canto, silenciosamente a me observar, e eu a arrumar a sala sem percebê-lo.
Madame dizia que ele estava apaixonado, para fazer isso, mas que susto eu levava quando o percebia!
Nessas horas ele me socorria, gentil, pedindo desculpas pelo incidente, dizendo que não tinha dito nada para não atrapalhar meu serviço e justamente para não me assustar.
Mas, muitas vezes, desde então, eu entrara em cómodos da casa observando bem para ver se ele não estava em algum canto.
Nunca me faltou com o respeito, sempre foi gentil e nunca me negou o que fosse.
Gostava dele.
Mas era um amigo querido, apenas isso.
Na casa, todos nós sentíamos que ele morreria para nos proteger de algum inimigo e mataria quem quer que tentasse nos fazer mal.
Logo Paulette o adoptou, junto com Clemente, e estavam sempre a paparicá-lo.
Nem a pequena Jeanne tinha receio do gigante, que matava para ela os patos e os frangos num décimo de segundo, torcendo-lhes o pescoço, e a ajudava sempre que precisava em um trabalho pesado.
Lá estávamos os três, ele sem jeito para começar o seu relatório sobre a irmã de madame, mas Cozette, prática como sempre, deu logo um jeito para que ele perdesse a timidez.
- Não precisa ficar tímido, Joubert.
Como irmã de Adele, sei muito bem que frequentar missas e se confessar nunca foi de seu feitio.
Ande, homem, pode falar sem medo!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 9:59 am

Ele me olhou como se ainda duvidasse, e eu disse:
- Vamos fazer o seguinte, para ficar mais fácil.
Conte-nos como foi o primeiro dia em que você a seguiu.
Ele se aprumou como pôde na cadeira, tomou um pouco de chá, e contou-nos que a seguiu de razoável distância e que ela realmente entrou na igreja, mas depois saiu por uma porta lateral, entrando num pequeno coche de aluguel e indo ao centro de Paris.
Como ao lado da igreja ficam sempre desses coches, ele pegou também um deles e a seguiu, vendo-a entrar numa joalharia famosa e ficar lá dentro por um bom tempo, até ser atendida por um senhor idoso.
Ela tirou da bolsa uma pequena sacola e apresentou algumas peças, que o homem observou com uma lupa de
joalheiro. Tudo isso ele observou da rua, pelas vidraças.
Depois de pequena discussão, Adele pareceu receber algumas moedas de ouro, saiu da joalharia e se encaminhou a pé mesmo para um pequeno hotel às margens do Sena, de aspecto duvidoso, onde ficou por mais de duas horas.
Ele esperou pacientemente do lado de fora para ver com quem ela sairia, mas ela saiu sozinha, caminhou até uma praça, onde novamente pegou um coche de aluguel, foi até a igreja do bairro e dali caminhou até a casa de Cristine.
Cozette estava vermelha como um pimentão e disse o que lhe ia pela cabeça:
-Pilantra! Vendendo as jóias da irmã!
E depois indo ver um amante!
Percebendo que Joubert pensava que as jóias eram de Adele, tentei acalmar as coisas:
- Calma, Cozette! Não sabemos se as jóias não eram dela mesma! Continue, Joubert, o que aconteceu no segundo dia?
Ele ficara pálido com a revelação de Cozette, e disse:
Se a irmã de madame a anda roubando, tenho que informar ao conde, pois o resto que tenho a revelar não é nada bom!
Ele nos informou que no segundo dia ela fez o mesmo trajecto, encaminhou-se para a igreja, tomou o mesmo coche de aluguel (o que ele estranhou, pois os coches revezavam no ponto) e foi ao centro novamente.
Andou pelas lojas da avenida central, nas que vendiam cosméticos e perfumaria, percorreu armarinhos, lojas de chapéus, enfim, todo o tipo de artigos femininos.
Depois de uma hora e meia, cansada e com alguns embrulhos, sentou-se numa confeitaria e, para o espanto de Joubert, lá estava um senhor a sua espera.
Estava de costas para a rua, mas os dois pareciam em franca intimidade.
Depois de uns quinze minutos de conversa, tomaram um chá e se levantaram.
Foi quando nosso amigo viu de quem se tratava: René!
Cozette empalideceu do outro lado da mesa:
Está mais do que explicado onde está indo o dinheiro das jóias de Cristine e o motivo do miserável ter desaparecido!
Adele está sustentando René com as jóias de Cristine!
Não queria acreditar em semelhante coisa.
Argumentei com ela, sabendo o que essa informação causaria em madame:
- Ela pode ter ido conversar com ele apenas para acalmá-lo, Cozette!
Sabe como os dois eram aqui em casa.
E depois, não sabemos se ela roubou as jóias!
Continue, Joubert.
- Para meu espanto disse ele -, ela mesma pagou a conta da confeitaria, coisa estranha, pois cavalheiros não permitem isso.
Escondi-me e achei que ela tomaria algum coche para casa, mas não, foram os dois para o mesmo hotelzinho na margem do Sena.
Assim que entraram, esperei vinte minutos e conversei com o porteiro.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 9:59 am

Estimulado por umas poucas moedas, me contou que eles vinham se encontrando há tempo, pelo menos três vezes por semana, e que o gerente pensava em não recebê-los mais, pois não gostava de viciados em ópio.
Admitia encontros fortuitos, pois era disso que o hotel vivia, mas viciados davam má fama ao local.
Acreditavam que Adele fosse uma burguesa casada que traísse o marido com um homem bem mais jovem, que a usava para saciar o vício.
Deixei claro que não era o marido, nem detective de ninguém.
Pedi que fosse discreto e me retirei.
Ela saiu uma hora depois, com seus embrulhos, pegou seu coche e voltou para casa.
- Parabéns, Joubert!
Você se saiu melhor do que eu esperava, e no terceiro dia?
- Saiu pelo mesmo caminho de sempre, mas não foi ao centro, foi directo ao hotel.
O porteiro não tinha mentido, René estava do lado de fora, furioso com algo.
Parecia que realmente o gerente não os queria mais lá.
Incrível como emagreceu e está amarelo!
Descontrolado, ele gritava desaforos do lado de fora do hotel, enquanto Adele tentava levá-lo para dentro do coche, para irem a outro lugar.
Depois de um pouco de insistência dela e de ele a derrubar sem querer no chão, tamanho seu desespero, ele a socorreu e entrou no pequeno coche, seguindo para uma área pobre de Paris, famosa pela frequência da boémia à noite, mas que é triste de se ver durante o dia.
Pararam em frente a uma velha casa e os dois entraram.
Conheço a casa: é um antro de venda e consumo de ópio, propriedade de um coreano que também dispõe de meninas e meninos para alguns pervertidos.
Quando se trabalha para a nobreza, mademoiselle, a gente acaba conhecendo lugares bastante exóticos.
Este eu não conheci a mando do senhor conde, pode acreditar!
Não era preciso ter me dito isso.
Se Gastón tinha um vício, esse se chamava Cristine.
Abominava exploração de crianças e vícios de qualquer tipo.
Ele continuou:
- Se fosse minha irmã, eu teria uma conversa séria com ela, pois ficaram lá mais de três horas, e quando saíram, ela também não me parecia muito sóbria.
Cozette estava pálida.
Olhava-me como quem queria saber o que fazer, e me disse:
- Se me disser mais alguma coisa que defenda aquela infeliz, vou ficar muito zangada com você, Edite!
Acha que René tem como pagar pelas drogas e esse tipo de divertimento?
Acha que aturaria Adele pelos belos olhos dela?
Acredita que ela tenha realmente guardado alguma economia?
Quando chegou a Paris, queixou-se que não tinha nem como comer!
Temos que falar com Gastón.
Agora que Cristine trancou os baús, pode acontecer algo mais grave!
Joubert, que permanecia sério, opinou:
- Já vi viciados em ópio matarem os pais para conseguirem dinheiro para o vício, mademoiselle.
Ela tem toda razão!
Não sabia o que dizer ou o que pensar.
A estreia de madame era em poucos dias...
Depois de trancadas as jóias, Adele ficara num mau humor de dar medo, e eu não tinha como negar as evidências.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:00 am

Mas não queria aborrecer Cristine.
Talvez falar com Gastón fosse o mais apropriado.
- Obrigada por tudo, Joubert.
Daqui a menos de uma semana é a estreia de madame, e eu não quero aborrecê-la.
Não precisa mais seguir Adele, já sabemos o que é necessário e a casa precisará cada vez mais da sua segurança.
Hoje conversarei com Gastón, e ele decidirá o que devemos fazer, mas vamos poupar madame.
É a última dança dela em público, não imagina a importância disso para ela.
Não quero que nada a atrapalhe!
Estranho como às vezes uma primeira impressão pode ser acertada.
Eu não gostara de Adele desde o início, sentira vulgaridade e falsidade nela, mas não imaginava a que ponto ela chegaria para satisfazer seus instintos, com seu egoísmo e sua falta de gratidão, para dizer o mínimo.
Nem o conde, com toda sua vivência, desconfiaria daquilo.
Gastón sabia da inveja que Adele tinha da boa sorte da irmã, mas dos roubos, nem em sonhos suspeitava!
E tomar-se amante de René depois de todo mal que ele fez a Cristine, era desconcertante!
Gastón chegou durante o repouso de Cristine, depois de seu ensaio, que era estafante.
Despiu-se de sua capa, brincou com Paulette na cozinha e foi para a biblioteca, pedindo-me que providenciasse café e um lanche; precisava fazer umas contas.
Providenciei tudo eu mesma e deixei a bandeja em cima da mesa.
Fiquei em pé, em frente à mesa, esperando que ele me olhasse.
Distraído com seus papéis, ele deu um gole na xícara fumegante e, levantando lentamente os olhos, deu comigo a olhá-lo seriamente.
Recostando-se na cadeira, perguntou:
"Pois não? Algo sério?”
Indaguei se podia me sentar, e ele apontou uma das cadeiras do aposento, que puxei para perto da mesa.
Ele afastou de si os papéis e a pena com a qual fazia suas anotações:
- Que foi, Edite?
Pode falar sem medo.
Também tenho que lhe contar algo importante, mas ia ser mais tarde.
Precisa de algo?
- Preciso, sim, senhor.
De ser leal consigo, e de um conselho.
Estão se passando algumas coisas nesta casa, e como desejo poupar madame, por sua estreia, preciso de sua ajuda, pois temo pelo que possa ocorrer.
Tentando ser sucinta, contei o que ocorrera:
o desaparecimento das jóias, as saídas de Adele, a ideia de Paulette, o empenho e a competência de Joubert, suas descobertas, e deixei a conclusão para o próprio conde, que empalidecia na cadeira à medida em que eu narrava os acontecimentos.
Ele não disse uma palavra até que eu terminei, para só então desabafar:
- Cozette tem toda razão.
Cobra miserável!
Não me enganou nem por um minuto.
Minha raiva é comigo mesmo por não ter imaginado que isso pudesse acontecer.
Mas o resto da família é tão honesta!
Ernestine mesmo, a mais nova, não queria aceitar nem o dote que eu fiz questão de dar!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:00 am

Ele andava pela sala, enfurecido, como se tentasse ordenar seus pensamentos:
- E os idiotas nem pensaram em poupar um pouco!
De repente Cristine tranca o baú de jóias e começa a prestar atenção nas coisas que somem e a fonte seca!
Isso explica uma coisa. Sabe o que aconteceu ontem à noite, Edite?
Lembra que eu disse
que tinha algo a contar?
Claro que me lembrava, mas diante de nossa situação e precisando de seu conselho, já não me lembrava.
Ele continuou, irritado:
- Estive ontem no cabaré.
É hora de saber algumas coisas que devem ficar apenas entre nós.
Não quero que me tome por boémio, por ir ao cabaré sem Cristine.
Acontece que Albert é apenas um gerente, o cabaré e o cassino me pertencem.
- Emudeci. Ele sempre tinha os melhores lugares, o melhor vinho, o melhor atendimento, mas eu achava que era por ser um cliente especial.
Pensei que os contractos de Cristine tinham sido fechados com ele mesmo, tentando ajudar a amada a voltar à dança, assim voltando à vida.
Vendo meu susto, ele se explicou:
- É um excelente negócio, Edite, mas não fica adequado a um conde ter uma casa nocturna, ainda que seja a mais luxuosa de Paris.
Não nota que na casa não há prostitutas, apenas cortesãs?
Que não é permitido lá nenhum tipo de atrito ou confusão, por conta de seguranças discretos, mas fortes e armados?
Em que outra casa de Paris há esse tipo de ambiente?
Nunca tinha ido a outra casa, mas ouvira falar.
Realmente, o cabaré era puro requinte e frequentado por membros da nobreza, alguns do clero (sim, alguns membros do alto clero eram vistos com frequência, já que não era uma casa de prostituição) e a rica burguesia parisiense.
- A boa-nova é que fui recuperando as jóias de Cristine que aquele cretino perdia com tanta facilidade.
Devolverei a ela depois da apresentação, e você as guardará em lugar seguro desta vez.
Ontem ele esteve lá, apesar de minhas ameaças.
Parece que o tio não o conteve, e ele foi falar com o senhor Yves de Valerant, notório velhaco que comercializa escravos com o "novo mundo", as Américas.
Lembrava-me que ele "investira" substancial dinheiro de madame em um lote de escravos, para escândalo dela, que abominava esse tipo de coisa.
Escravos! Pobres negros pegos à força na África para servirem como animais nas Américas!
Esses malditos deveriam apodrecer em prisões.
Em alguns países já se fala em proibir esse tipo de "comércio".
Parece que voltamos à antiga Roma, mas a casa é aberta ao público e o senhor Yves pode entrar e ficar lá, desde que esteja correctamente vestido, pague e se comporte.
René entrou lá bem trajado, é certo, mas amarelo como se estivesse doente.
Um tanto sujo, se é que me entende, e se sentou sem convite na mesa do referido senhor.
De acordo com um dos meus seguranças, o senhor Yves não ficou nada satisfeito com a presença do moço, e disse que o navio se afundara com a carga, que eram "riscos do negócio", e que nada podia ser feito.
Imaginei a decepção de René, que sonhava com aquele dinheiro há meses para provar a Cristine que não era só um aproveitador, mas um "homem de negócios" capaz.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:00 am

- Ele deve ter ficado desesperado, senhor.
O conde suspirou, e eu vi o ódio em seu olhar:
- Desesperado?
Primeiro exigiu que o senhor Yves o ressarcisse, o que não deu certo.
O outro riu em sua cara, disse que agisse como homem e aprendesse que todo negócio tem riscos.
Notando que René sem Cristine não passava de um pobre coitado, pediu ao segurança que o retirasse, não queria ser incomodado.
Conheço bem Yves.
Para ter ficado com o dinheiro de Cristine e trapacear o rapaz pouco custa, já o vi fazer isso.
Mas desta vez ele se deu mal.
- Como "deu-se mal"?
René conseguiu o dinheiro de volta?
- Não. Antes que meu segurança chegasse, com a rapidez de um raio, o infeliz sacou um pequeno punhal e o cravou no pescoço de Yves.
Foi um pandemónio...
Eu, que me orgulhava de nunca ter tido uma briga sequer no cabaré, agora tenho um assassinato!
Ele levou uns dez minutos para morrer, a traqueia destroçada, ninguém pôde fazer nada.
E no meio da confusão, onde estava o bastardo?
René fugiu!
René estava desaparecido, sem dinheiro e desesperado por ópio!
Um frio me percorreu a espinha; aquilo não era bom.
Talvez ele tivesse algum juízo e fosse para o interior.
Para a casa do tio não voltaria, que de tolo não tinha nada.
Com certeza procuraria Adele.
Precisávamos ficar atentos.
- Ele virá aqui senhor, para ver Adele ou tentar tirar algum dinheiro de madame.
Não fica sem o ópio, o senhor não o conhece!
Deve estar desesperado!
Nos olhos de Gastón, vi o ódio sumir e a frieza assumir seu lugar.
' Chame Clemente e Joubert.
Deu ordens aos dois de ficar um em cada porta da casa durante a noite.
No dia seguinte providenciaria mais quatro vigias, até que René fosse encarcerado.
Não esperaria pela polícia para garantir a segurança da casa, confiava mais nos seus.
Em seguida me pediu para chamar Adele.
Cristine, que tinha aparecido e depois subido para descansar um pouco, estava dormindo sob o efeito de um de seus tabletes.
O momento era ideal.
Ao ver-se chamada pelo conde, a senhora me olhou desconfiada:
- Que quer Gastón comigo? Também vai me acusar de roubo?
Tentei amenizar as coisas:
- Nunca foi acusada de roubo, Adele.
O conde só quer lhe dar uma notícia e conversar com você.
Arrume-se e desça, sabe que ele não gosta de esperar.
Sem nenhuma vontade e com visível medo no rosto, ela me obedeceu.
Trajando um vestido verde simples e com uma maquiagem um tanto exagerada, entrou na biblioteca e deu com Gastón curvado sobre uma pilha de papéis, parecendo ocupado.
Ao ouvir seus passos, ele levantou a cabeça e deu um meio sorriso:
- Sente-se, Adele e indicou a mesma cadeira onde eu me sentara antes.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:01 am

Ela me olhou com certa antipatia:
- Ela vai ficar?
- Edite sabe de tudo nesta casa, você mesma vai preferir que ela fique.
Sentei-me mais atrás para não ficar no campo de visão dela e assim não incomodar, mas preferia não ter ficado.
O conde sabia ser prático quando queria.
Primeiro disse que amava Cristine e que, estando ela há poucos dias da estreia, não queria aborrecê-la, mesmo porque ele já lhe dera aborrecimentos demais no passado, coisa que ela não merecia (nisso eu concordava).
Não tocou no assunto das jóias sumidas, mas disse que sabia que ela era próxima de René.
Adele protestou, Gastón se irritou é disse que ela estava sendo seguida há dias.
Ela desatou num choro tão estridente que eu corri a socorrê-la, temendo que acordasse madame no andar de cima.
Passado o choro, Gastón, irritado (ele odiava cenas, Cristine nunca as fizera), tomou à conversa explicando que não se importava de sustentá-la, que isso para ele era indiferente, mas que não admitiria expor Cristine ou alguém da casa a perigo por causa dela.
Contou do assassinato da noite anterior; novo choro de Adele, desta vez menos estridente, e no final, disse textualmente:
- Em outros tempos, na minha juventude, esse rapaz já teria "desaparecido" há muito.
Acredito que a maturidade e a doçura de sua irmã me tenham abrandado o coração.
Caso note a senhora dar qualquer apoio a um inimigo meu, tenha a certeza de que não só não será mais bem-vinda nesta casa, que me pertence, mas terá ganhado um inimigo feroz e silencioso, como nunca sonhou existir.
Edite, você é minha testemunha.
Adele, para Cristine esta conversa não existiu.
Queira se retirar.
Levei-a para o quarto.
Suas lágrimas desta vez eram verdadeiras, lamentando a perda do amante, que parecia definitiva.
- Tão moço e tão tolo, Edite!
Pobre René!
Pobre de mim, pensei eu, de ter que conviver com pessoa tão egoísta.
Pobre Cristine, que acolheu por generosidade um ser peçonhento e traiçoeiro.
No fundo, porém, me deu um pouco de pena dela.
Parecia realmente apaixonada pelo rapaz, que a usara sem a menor vergonha.
Com certeza a procuraria.
Fui firme com ela:
- Adele, o conde parece muito bom, mas sabe ser cruel quando quer.
Não o desafie. Caso René apareça, e ele deve aparecer, nos conte imediatamente!
- Acha que ficou tão apaixonado por mim que se arriscaria dessa forma?
É possível! Pobre René...
Cega! De sua forma doentia, René ainda era apaixonado por Cristine.
Até Lautrec já tinha me comentado isso.
Era dela que ele falava incessantemente quando bebia em sua companhia.
- Não tenha pena dele, aquele lá só gosta de si mesmo disse, tentando convencê-la e do ópio.
- Ele não é viciado, Edite!
Que coisa feia falar assim!
Só usa às vezes, por diversão!
É tão incompreendido, meu pobre René!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:01 am

- Desisti de tentar convencê-la; melhor convencer Joubert a mantê-la sob
vigilância, ou ela nos colocaria em perigo.
Deixei-a em seu quarto e quando passei pelo de madame a ouvi me chamar pela porta.
Entrei e deparei com ela, linda, sentada na cama, num dos trajes de dança marroquina.
Ao me ver, levantou-se e pediu:
Ajude-me aqui com esses laços nas costas.
Gastón janta comigo hoje.
Quero fazer uma noite especial, sem Adele, nem ninguém mais, aqui mesmo no quarto.
Resolvi surpreendê-lo.
Acha que gostará do traje?
Vou fazer um jantar árabe, já combinei com Paulette.
Espalharemos velas e aromas pelo quarto.
Vou dançar para minha plateia preferida: Gastón!
Sorri para ela e corri para ajustar os laços nas costas e acender as dúzias de velas pelo grande quarto.
Perfumamos o ambiente com essências e às usamos em seu cabelo, brilhantes como o óleo de macadâmia.
O conde ficaria feliz, e merecia! Tivera um dia aborrecido.
Comentei com ela:
- Por que não faz uma de suas massagens relaxantes?
Ele parece ter tido um dia difícil com os negócios.
Comentou isso comigo ainda há pouco no escritório.
Ela me olhou, curiosa:
- Gastón está com problemas de dinheiro?
- Não, tolinha!
Só aborrecimentos com empregados.
Ela concordou.
Olhei-a sob a luz das velas e pensei o mesmo que pensara da primeira vez em que a vi:
como seria ser tão bela?
Ela tinha consciência do efeito que causava?
Provavelmente não.
Nunca tive inveja de Cristine, mas a admiração pelos traços perfeitos, a pele branca, o jeito de menina, só fazia crescer com os anos.
Era daquelas mulheres que, quanto mais a gente olhava, mais bonita parecia.
Era um pouco minha irmã, um pouco a filha que nunca teria, apesar da pouca diferença de idade, a mãe que me protegeu e me tirou da pobreza, enfim, minha amiga mais adorada!
Dor excruciante me tomou o peito de repente, num contraste inexplicável e eu a abracei pelas costas enquanto ela se olhava no espelho da penteadeira, sentada, cuidando dos longos cabelos. Ela me sorriu:
E Que foi Edite?
Não que eu esteja reclamando, mas você nunca me abraçou assim antes!
Sentindo-me embaraçada pela súbita demonstração de afecto, ainda assim não me soltei, e disse-lhe baixinho:
B Gosto tanto da madame, minha princesa!
Deus a guarde e que nada de mal lhe aconteça, pois não conheço pessoa mais doce nesta Terra!
Deus a proteja sempre, Cristine!
Não sabe o quanto sou grata à senhora.
Ela levantou-se e me olhou um tanto surpresa.
Ao ver meus olhos cheios de lágrimas, os dela se encheram também:
- Que foi? Teme por mim?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:01 am

Mas sou tão feliz!
Gastón está de volta, sou amada por toda Paris, rica...
Tenho dores, mas há remédios!
Não tive filhos, mas Deus me enviará outros que criaremos juntas, Edite!
Tem algum presságio, é isso?
- Não! apressei-me em dizer, enxugando rapidamente as lágrimas. Ora, às
vezes tenho o direito de ser tola, não tenho?
E desci as escadas, pedindo licença a Gastón para dizer-lhe que agradável surpresa o esperava em seu quarto naquela noite:
ele subiu como se tivesse asas nos pés, com um sorriso no rosto.
No dia seguinte realmente apareceram mais quatro homens fazendo a ronda da casa.
Cristine estranhou e perguntou a ele que homens eram aqueles.
Gastón saiu-se bem, respondendo que seu último número fora um sucesso tão grande que não queria fãs atrapalhando seu sossego antes do próximo número. Ela achou exagerado, mas Lautrec, que já sabia do acontecido no cabaré, achou bastante apropriado.
Ninguém conhecia o paradeiro de René.
Dois dias depois do assassinato, ele tinha evaporado.
Como Joubert me contou, mesmo a zona boémia foi vasculhada sem sucesso, assim como a casa de parentes em Paris e saídas de estradas.
Um tanto surpresa com a eficiência da polícia francesa, comentei isso com ele, que riu e me respondeu:
" Não foi a polícia, mademoiselle, foi o conde!
Não sabe como o dinheiro pode arranjar homens fortes e espertos quando é necessário!".
Faltando dois dias para o número no cabaré, ainda sem saber nada do assassinato e com Adele fazendo o possível para parecer normal (ia às missas, porém menos, e voltava cedo), Cristine me chamou para ir ao ateliê de Cozette fazer a última prova do vestido com o qual encarnaria Dalila no palco.
Que falta faz uma boa comunicação, pensei eu!
O assassinato de Yves sequer saíra nos jornais, devido à publicidade negativa que traria ao cabaré do conde (o dinheiro, novamente, fazendo os seus "milagres"), e Cozette não fazia ideia de que René era agora um assassino fugitivo, ou faria a prova do vestido na casa de Cristine.
Madame estava louca para dar uma volta no centro da cidade, e eu não consegui criar uma situação que a deixasse em casa.
O conde não se encontrava, ainda assim tentei argumentar, dizendo que traria o vestido e ela provaria ali mesmo.
Ela me olhou, contrariada:
- Que foi? Gastón anda tão ciumento que não quer que eu vá ao centro sem ele?
É só o que me falta!
Faz dias que não saio, vamos já, chame Clemente!
- Corri a chamar Clemente e Joubert.
Já que iríamos mesmo ao centro, que os dois fossem juntos.
Vendo ambos sentados na frente da carruagem, ela estranhou:
- Também preciso de guarda-costas agora?
Não bastam os quatro seguranças o dia inteiro rodeando a casa?
Que está havendo, Edite?
René tem aparecido? Feito ameaças?
- Não, mas segurança nunca é demais.
O conde nunca desconfiou de você, mas tem medo de perdê-la.
E René é um viciado, temos receio.
- Tolice! Ele não me machucaria! replicou ela.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:01 am

Vestida num traje rosa claro, ela saltou da carruagem em frente à loja de Cozette, assim que Joubert lhe abriu a porta da carruagem.
O passeio público estava tranquilo, e deviam ser umas dez horas da manhã.
Entramos na loja, fizemos as provas, a roupa estava deslumbrante e quase não precisava de ajustes; apenas
alguns bordados ainda não estavam completos e um arranjo de cabelo que Cristine achou um tanto espalhafatoso.
Lembro da discussão entre as duas irmãs com certa saudade, Cozette a argumentar que, visto de perto "parecia" espalhafatoso, mas que de longe, do palco, ficaria perfeito.
Depois de meia hora de uma e outra argumentar seu ponto de vista, ficou decidido que alguns enfeites seriam substituídos e a paz reinou.
Ao longe, ouvimos estampidos de bombinhas de crianças na rua.
Olhamos então as sandálias, os adereços, divertimo-nos com o traje do Sansão, e então veio o chá, com biscoitos e pães variados, além dos queijos e geleias.
Ao ver aquele exagero, Cristine comentou:
- Quem gostaria de tudo isso seria Adele!
Como come a minha irmã!
- Eu sei, a gente nota! respondeu Cozette.
Acabamos rindo muito.
Realmente, Adele ganhara uns bons quilos desde que fora acolhida por Cristine.
Seria uma daquelas senhoras que na velhice apresentam muitos quilos extras, que nem sempre ficam bem.
Cozette, ao contrário> mantinha o peso com pulso firme, era regrada inclusive nisso.
Quanto a mim, acredito que ter passado fome durante a infância e a juventude me fizeram ser frugal pelo resto da vida.
Não tinha tanto apetite, mas mesmo que exagerasse um pouco, às vezes, não engordava.
Não quisemos comer quase nada, queríamos ir para casa.
Já estávamos lá há quase três horas quando Cristine pediu um de seus tabletes, e o tomou.
Suas dores infelizmente continuavam as mesmas, mas ao menos tinha alívio com a medicação.
Soube então que devíamos voltar logo para casa, pois o sono chegaria.
Levantamo-nos e beijamos Cozette em despedida; descemos a escada estreita de seu apartamento, passamos pela loja quase vazia na hora do almoço e, abrindo a porta da rua, ela, na frente, pôs a mão direita na cabeça, em sinal de que a dor ainda incomodava.
Vi apenas uma capa preta passar por mim e carregar Cristine, arrastando-a pela rua no meio dos passantes.
Desesperada, busquei com os olhos por Clemente ou Joubert, mas não consegui encontrá-los, apenas a carruagem vazia, sem os cavalos.
Onde estavam? Deviam estar ali na porta, a nos esperar, conheciam as ordens do conde!
Numa distância de uns vinte passos, vi Cristine debatendo-se aos gritos de "me larga", e o homem tentando pegá-la no colo para fugir mais rápido.
Comecei a gritar como uma louca por Cozette, Joubert, Clemente, pedir por socorro, enquanto corria atrás dela esbarrando nos passantes, quando finalmente vi uma cabeça por cima de todas as outras, loura e sem chapéu, correndo em nossa direcção:
era Joubert, que nos avistara.
Atrapalhada pelo volume das saias, que não pensei em suspender para a corrida, fui ao chão e só vi o vestido rosa de Cristine ser arrastado para dentro de um beco.
Tentei me levantar o mais rápido possível, mas foi Joubert que me ergueu:
- Que houve?
Onde está madame?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:02 am

Meio sem fôlego, machucada pelo tombo, só conseguia apontar para o beco, a meio quarteirão de distância:
- Um homem a pegou.
De capa preta... está no beco!
Onde está Clemente?
- Foi pegar os cavalos, já vem!
Fique aqui que vou acudir madame!
Correu a passos largos para o beco, mas eu não ficaria longe de Cristine!
Segui no meu próprio ritmo e quando cheguei lá vi, na penumbra do beco sujo, Joubert argumentando com René que, se soltasse Cristine, nada lhe aconteceria, que poderia ir embora.
Segurando madame pela cintura, René estava transtornado, com as marcas do uso de ópio, e dizia a ela em voz alta:
— Mande esse imbecil de volta para casa com Edite!
Não vê que quero só conversar um pouco com você?
Não pode ter voltado para aquele velho só por causa do dinheiro.
Eu consigo dinheiro também, Cristine, é só me dar um tempo!
Irritada por ser forçada a ficar perto dele, Cristine não usou de bom-senso, e ao invés de acalmá-lo tomou a coisa ainda pior:
- Não me importa o dinheiro, René, nunca importou!
Acaso lhe pedi algo? Acha que pedi algo a Gastón?
Tenho minha arte, ganho o meu dinheiro, não preciso disso.
Me solte! Não suporto esse cheiro...
Já não me explorou o bastante?
Atrás de mim ouvi a voz de Cozette, que ouvira meus gritos e nos acudia, mas as irmãs Besançon tinham tal desprezo por René que não percebiam o perigo real.
Cozette gritou com ele:
Solte minha irmã, miserável!
Já não basta o quanto a roubou? Ladrão!
Viciado! Orei todos os dias para que ela enxergasse a pessoa vil que estava com ela.
Gastón vai destroçá-lo se souber que está com as mãos nela.
Vi no rosto de René um ódio que nunca tinha visto antes.
Já vira seu desprezo, seu desespero, todo o tipo de emoção negativa, mas aquele ódio puro e selvagem deformava-lhe o rosto amarelado, fazendo espumar o canto dos lábios, e só então enxerguei em sua mão direita um pequeno punhal, cuja lâmina brilhava de tão afiada.
Parecia um punhal italiano, daqueles que o próprio conde coleccionava em nossa casa.
Olhei o rosto de Cristine; sem ter visto o punhal, estava vermelha de tanto esforço para sair dos braços dele.
Em seguida olhei para Joubert, que viu a arma no mesmo instante que eu; ele ficou quase como um gato, em posição de ataque, e disse em voz baixa, aproximando-se, sem emoção na voz, olhar fixo no punhal:
- Já disse ao senhor:
se soltar madame, o conde nada fará.
Sairá daqui como se nada tivesse acontecido.
Pense direito, é procurado por toda Paris.
Se algo acontecer com ela, não sairá vivo desse beco.
Um pequeno corte que seja, e eu mesmo me encarrego de sua morte.
Pálido, René respondeu:
- É Cristine quem decidirá:
esse conde lhe matou dois filhos, lhe deixou doente.
Mesmo que não deitemos juntos, eu a quero!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:02 am

Arranjo dinheiro, Cristine, eu lhe juro!
Sairemos de Paris, você tem casa em outros lugares, não tem?
Acha que aquele Yves fará falta a alguém?
Bastardo, ladrão sem escrúpulos, achou que ia sair sem pagar. Enganou-se.
Ninguém toma o que é meu!
E você é minha, Cristine. Venha comigo!
Ela ainda não vira o punhal, talvez por isso dizia:
- Nunca! Tentei te amar, René, mas não consegui.
Viva sua vida, mas me solte.
Nunca serei sua, não entende.
Gastón é o homem de minha vida, sempre foi!
Joubert já estava a uns cinco passos de distância, mas não foi rápido o suficiente.
Louco de ódio René desferiu em Cristine três punhaladas sucessivas entre as costelas, aos gritos:
"É minha, sempre será minha, estúpida mulher!
Virá comigo! Sempre!".
Do vestido rosa claro brotou uma rosa de sangue, que rapidamente se espalhou.
O rosto dela, segundos antes vermelho, assumiu uma palidez de morte.
Com surpresa ela olhou a lâmina com seu sangue, e caiu.
Corri até ela sem pensar que podia ser atacada e sem acreditar no que acontecera, Cozette às minhas costas, aos gritos de "maldito, maldito!".
Eu só pensava em tirar Cristine daquele chão sujo do beco.
Ela detestava qualquer tipo de sujeira...
Ah, Senhor! Teria o punhal ferido muito fundo?
Ouvi um estalo e virei para trás.
Sem dizer palavra, o gigante Joubert pegara René na fuga e estava com sua cabeça nas mãos, em estranho ângulo, os olhos já sem vida.
Quebrou seu pescoço sem o menor esforço, quando René tentava fugir, inutilmente.
Jogou seu corpo para o lado sem cerimónia, como se jogasse lenha que acabasse de cortar.
René tombou, de olhos abertos, a boca ainda coberta de branca espuma, expressão de surpresa, como se não esperasse ser pego.
Não tive pena, Deus me perdoasse.
Cristine, viva ainda, começava a golfar sangue, sujando ainda mais o vestido de que ela gostava tanto.
Os olhos esverdeados me falavam de uma dor impossível de ser descrita, e eu disse a Joubert;
- Vamos tirá-la daqui.
Não é lugar para ela.
Cozette, ao lado da irmã, em lágrimas dizia:
- Vamos ao meu apartamento, ela vai ficar boa, vou chamar o médico.
Tem que repousar.
Tem mais tabletes aí, Edite?
Dê uns dois a ela, são bons para dor, não?
Observei Joubert pegar o punhal no chão.
Arma tão pequena, cabo com rubis e esmeraldas lapidadas em cobre e prata, verdadeira jóia; era do conde, sim, estava em nossa casa há poucos dias.
Será que até isso Adele roubara?
Tomou madame no colo com todo cuidado de que era capaz, e ela encostou a cabeça em seu ombro, a boca suja de sangue, embora a limpássemos com um lenço.
O vestido já estava todo manchado.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 20, 2017 10:02 am

Finalmente Clemente apareceu; ao ver Cristine naquele estado, empalideceu como nunca antes e, mesmo querendo chegar perto, manteve distância.
Meu amigo cocheiro chorou copiosamente ao longe, e comecei a aceitar que as feridas eram fatais.
Clemente nunca tinha chorado antes.
Mas, onde estivera?
Porque a carruagem estava sem os cavalos?
Ao chegarmos ao quarto de Cozette a colocamos na cama, de lençóis muito brancos.
Tentei dar a ela os tabletes, mas ela continuava a golfar sangue em
pequenas quantidades.
Tive a ideia de amassar os tabletes, transformando-os em pó, e colocar em sua língua.
Era amargo, mas ela nem agradeceu com os olhos.
Afastei-me da cama para lavar as mãos do sangue e Joubert me disse:
- Mademoiselle, conheço feridas, e essas foram fatais.
Não sei como ela ainda não se foi, mas não deve durar muito mais.
Não sei como diremos ao conde, mas ele está aqui mesmo no centro, é melhor que eu vá chamá-lo.
Cansada de ser forte, caí num choro sentido e disse a ele:
- Tem razão, vá chamar o senhor Gastón rápido.
E voltei para a cama:
- Madame, Gastón já vem, trará o médico e a senhora vai sarar.
Lembra-se que já passamos por maus pedaços?
Esse também vai passar.
Cozette, que limpava o rosto dela com uma pequena bacia de água e um lenço, me olhou triste, mas agradecida.
Passamos água pelos seus lábios, e por algum milagre ela manifestou a vontade de um pequeno gole, que demos.
Então ela falou, com muita dificuldade, quase em sussurros:
- Jóias... crianças... padre Armand... vá com ela, Cozette!
Minha casa em Lyon.
Cozette tentou entender e animar a irmã:
- Quer que montemos já o abrigo para as crianças? Está certo!
Vendo tudo aqui e montaremos juntas.
Sempre quis conhecer Lyon, dizem que o clima é óptimo!
Vamos todas juntas, não é, Edite?
Assim que você sarar vamos achar o padre Armand.
- Não se preocupe com isso, querida.
Tudo será feito como quer.
Já falhei contigo? - disse eu.
Ela me entendeu, e sorriu, tranquila.
Os remédios de Kayzen pareciam ter amenizado a dor, mas os olhos esverdeados se tornavam cada vez mais claros, e a pele cada vez mais branca devido ao sangue perdido.
Tomara que Gastón não demorasse muito.
O escritório não ficava longe, e ele chegou quinze minutos depois.
Pálido, suado pela corrida, o conde estacou na porta com os olhos fixos nela, branca como os lençóis da cama, as pequenas mãos ainda sujas de sangue, que não tínhamos conseguido limpar direito.
As feridas estavam cobertas pelos lençóis, que apresentavam apenas pequenas manchas.
Os cabelos louros estavam espalhados pelos travesseiros, os olhos fechados abriram-se e mostraram um verde nunca antes visto, claros demais.
Ele sentou-se na cama no meio do silêncio geral e pensamos em nos retirar, mas não houve tempo:
Amada, que fizeram contigo?
Tanto que tentei protegê-la, de todas as formas!
Sente dor, Cristine?
O médico já chega, vamos para casa.
Esforço sobre-humano fez com que ela respondesse quase que em voz normal:
Não se queixe, Gastón quantos foram felizes como fomos?
Vê bem, meu abençoado:
minha última dança, foi para ti...
E fechou os olhos verdes em seu último suspiro.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:45 am

XXIX - A CASA BESANÇON
COMO SOMOS DESPREPARADOS para a morte nesta Terra!
Soubesse na época o que sei hoje, teria sentido as coisas de forma diferente, ajudado mais meu querido amigo Gastón, Cozette, Paulette, Clemente e até mesmo Joubert.
Nosso raio de sol tinha partido; Paris perdia uma grande artista, Lautrec, uma boa amiga... enfim, as coisas não seriam as mesmas para nós.
Não tenho ideia do que houve com o corpo de René.
Não apareceu nenhum policial em nossa casa para interrogar Joubert, que não tocou no assunto e continuou sua vida, lamentando apenas não ter atacado antes.
Não se perdoava pela morte de Cristine, assim como Clemente, embora René tenha sido realmente engenhoso ao sequestrá-la.
Naquele dia, ficamos na casa de Cozette por mais de três horas, e eles esperavam lá fora pacientemente, como sempre fizeram.
Quando Joubert foi ao toalete, René, aproveitando um momento de distracção de Clemente (sentado num banco de costas para a carruagem, vigiando a entrada da loja de Cozette), cortou as amarras que prendiam os animais com o afiado punhal, colocou bombinhas embaixo dos cavalos e soltou seus freios.
Ouvimos os estampidos de dentro da loja e imaginamos crianças brincando; os cavalos se assustaram e saíram desabalados pelo passeio público, fazendo Clemente correr atrás deles, surpreso.
Quis o acaso, ou o destino, que madame descesse neste momento, com os cavalos e Clemente já longe, e Joubert ocupado.
Apesar do ópio, René estava alerta e não perdeu tempo.
Mas como sabia da saída de Cristine? Estava foragido.
Não poderia segui-la o tempo todo...
O conde ficou inconsolável, emagreceu, não saía mais da casa onde vivera com Cristine, não importava quantos mensageiros viessem de seu palácio.
Um dia resmungou-me:
"Vivi de aparências minha vida toda, hoje só lamento as horas que não estive com ela.
Aqui é meu lar, aqui fico.
Quem quiser me ver que venha aqui".
E vieram, uma semana após o enterro de madame, que foi simples, realizado pelo padre local.
Cozette e eu ainda iríamos em busca do padre Armand.
A última vontade dela seria feita.
Adele deu um espectáculo à parte no enterro, o que causou mais desgosto ao conde e chamou sua atenção.
Ele perguntou a Joubert se ela não andara novamente se encontrando com René achava suspeito ele saber onde Cristine estaria naquele dia, já que ela raramente saía de casa e ele tinha que se esconder.
Só então Joubert lhe mostrou o punhal que atingira madame; o conde empalideceu:
o cabo da pequena arma, crivado de esmeraldas e rubis, era de sua colecção de armas italianas, de fio duplo, extremamente afiada dos dois lados, apesar de a lâmina não ter mais de treze centímetros.
Como fora parar nas mãos do assassino?
Ele olhou Adele, que se atirava sobre o caixão da irmã, com um ódio de que não o imaginava capaz.
Acompanhando a cena, disse a ele:
- Não derramaria o sangue da família dela, derramaria?
Seu semblante se fizera frio como o gelo:
- O que me sugere fazer, Edite?
- Não sei... mas tenha certeza antes de fazer algo.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:45 am

Cristine não gostaria que a matasse.
Não por ela, mas pelo senhor mesmo.
Era cristã, lembra-se?
- Às vezes você me pede coisas impossíveis, minha pequena moura.
Mas tem razão. Vou me certificar antes.
E assim o fez. Passadas poucas horas do enterro, trancou-se com Adele e Joubert na biblioteca.
Desta vez, para meu alívio, não fiquei lá dentro.
Encaminhei-me para a cozinha, consolar Paulette e Jeanne.
Embora a cerimónia tenha sido breve e com pouca gente, por exigência do conde, o velório foi razoavelmente agitado, com Albert, Lautrec e poucos amigos.
O trabalho extra, além da comoção de ver madame entrando já morta, exaurira Paulette, que trazia o rosto vermelho e os olhos inchados.
- Patife, miserável!
Clemente me disse que Joubert lhe torceu o pescoço.
Que pena! Devia ter sido retalhado em pedaços, biltre dos infernos!
Se o tivesse trazido aqui, Deus me perdoe, mas eu tenho uma machadinha que faria um serviço de dar inveja.
Torcer o pescoço, morte mais sem dor para quem tanta dor causou!
Fiquei espantada com a violência, mas feliz por ela estar reagindo.
Sabia que era da boca para fora, pois Paulette não gostava de matar nem as galinhas para o almoço.
Ainda assim, para acalmá-la, disse:
- Confie na justiça de Deus. Essa não falha, embora não a vejamos agora.
Não tinha ideia de como eram certas as minhas palavras.
No plano espiritual, mais tarde, soube que René, devido à morte rápida e praticamente indolor, por muito tempo acreditou estar vivo e perambulou pelas ruas de Paris vampirizando pessoas, levando-as ao vício para, através delas, aplacar o seu.
Passou décadas sentindo frio e fome, pois se acreditava vivo, desesperado, gritando sem quem o ouvisse.
Buscou Cristine, porém ela foi levada a um plano superior, logo após sua morte, por sua mãe.
Ele foi atormentado por suas vítimas, inclusive por Yves, no mesmo plano espiritual.
No umbral por onde andava, ouvia vozes gritando:
"Assassino!" e, sem ter onde se esconder, via-se de novo na Terra, até que entidades superiores, depois de quase um século em que vagou sem pedir a protecção divina, nem perdão por seus actos, deram-lhe a bênção de uma reencarnação, conforme a Lei Divina, uma nova chance de aprendizado e de quitar as dívidas adquiridas com outros seres humanos.
Pelo trabalho dessas elevadas entidades espirituais, depois de muita procura foi seleccionada uma família para receber o espírito René:
confuso em seu meio primitivo, o espírito começou a sentir os efeitos de ser ligado a outro corpo sem saber o que acontecia.
René reencarnaria, tendo oportunidade numa pátria que a tantos recebia: o Brasil.
Na França do século XVIII, Adele passou pelos momentos mais difíceis de sua vida, ao confessar que escondera René na igreja do bairro, com a ajuda de um sacerdote, de quem sabiam alguns segredos condenáveis.
Assim, por meio da chantagem, René ficou a poucas quadras de distância de Cristine durante todo o tempo, e Adele avisou-o assim que ela saiu para ver Cozette.
Segundo Adele, René dissera que ia apenas pedir dinheiro a Cristine; sua intenção era também chantageá-la (acreditava que madame ainda era apaixonada por ele), para depois fugir com Adele.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:45 am

René enganou aquela tola, conseguindo, além do punhal, diversas outras peças da colecção do conde, que ficaram escondidas na igreja.
Algumas com entalhes em ouro e pedras preciosas, recuperadas facilmente depois.
Após me contar essa história, e com Adele trancada no quarto, aos prantos (de medo, provavelmente), Gastón me perguntou:
- E agora, boa samaritana, que faço com semelhante criatura, que roubou a irmã e acabou por facilitar sua morte?
De que valeram todos os meus cuidados tendo semelhante cobra dentro desta casa?
Acha que devo correr o risco de mantê-la aqui?
- De forma alguma, senhor.
Ela já causou mais mal do que podemos suportar.
Cozette também não pode mais vê-la.
Use sua carruagem e, amanhã cedo, mande-a para sua última irmã, Ernestine.
Tomara que esta tenha melhor sorte.
Ele me olhou friamente, e eu notei que ele tinha outra ideia em mente, mas acolheu meu pedido:
- Está certo, desde que nunca mais a veja.
Providencie para que saia bem cedo.
Subi para o quarto de Adele, onde a encontrei de rosto afundado na cama, a chorar copiosamente.
Como a porta estava entreaberta, eu a chamei, e ela me olhou meio surpresa, mas em seguida se aprumou:
- Edite, agora que nossa amada Cristine se foi, temos que colocar ordem nesta casa.
Sei que, como irmã mais velha, devo tomar providências para cuidar do local.
Onde estão os móveis da sala?
Demorei a entender:
- Os móveis da sala?
Alguns no sótão, outros lá fora, mas, por quê?
Ela levantou-se e, para minha surpresa, pôs-se a ajeitar os cabelos:
- Óbvio que minha adorada irmã tinha um gosto exótico, mas, como sua herdeira, nunca gostei daquele espaço aberto.
Se temos bons móveis, não há por que não usá-los!
Amanhã mesmo vou pedir a Joubert e Clemente para descerem algumas peças, e você me ajudará a dispô-las.
O conde pretende voltar quando para sua casa?
Boquiaberta, respondi:
- Esta casa é do conde. Cristine nunca lhe disse isso?
Ela sorriu de um jeito estranho:
- Ora, ele não vai fazer questão de uma ninharia dessas, vai?
Nunca soube que era sovina!
E depois, seu quarto ficará reservado, poderá dormir aqui quando quiser, desde que pague as contas da casa, é claro!
Era o dia seguinte ao enterro, e aquilo me deu uma dor de cabeça tão forte, que pensei seriamente em tomar um dos tabletes de madame, mesmo que tivesse de beber uma garrafa de seu famoso café depois.
Respirando fundo, respondi:
- Devo avisá-la que o conde Gastón de Laureac pretende manter essa casa como sua residência principal, e pediu-me para avisá-la que a senhora se mudará para a casa de sua irmã Ernestine, amanhã pela manhã.
Deve arrumar suas coisas imediatamente.
Eu ia acrescentar que ele lhe planeara destino bem pior, mas ela ficou tão pálida, que me contive.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:46 am

Só que ela não:
- Ele não pode fazer isso!
Sou herdeira de Cristine, sou sua irmã mais velha.
"E causadora de sua morte", pensei eu.
Mas o raciocínio rápido não me faltou, ela não criaria problemas para o conde, nem para si mesma:
I Não sabe então do testamento de sua irmã?
| Que testamento?
Cristine era jovem, por que faria testamento?
Deus me perdoaria da mentira:
- Uma jovem que sofria de sérias dores e que quase morreu uma vez?
Aconselhada por Albert, fez um testamento, sim, e deixou seus bens todos para uma só pessoa, de quem gostava muito, para determinados fins.
Os olhos dela ficaram injectados de ódio:
- E para quem ficaram, para você?
Baixei os olhos humildemente:
- Claro que não, senhora.
Afinal, nem pertenço à família.
Os bens ficaram todos para Cozette.
Ela ainda nem sabe disso, mas saberá.
Ela não se deu por vencida:
- Não acredito nisso!
Quero ver esse testamento!
- Pode fazê-lo quando quiser.
Está com o conde, que foi o testamenteiro.
Acho que não terá problema em mostrar-lhe.
Disse e me retirei do quarto.
Ouvi o som de objectos quebrando, vidros de perfume barato, pagando pela fúria de Adele.
Que atrevida! Achou que seria a dona da casa no lugar de Cristine? Nunca.
Queria ver se teria coragem de pedir testamento ao conde.
Por vias das dúvidas, fui até a biblioteca e dei com ele sozinho, em meio a seus papéis.
Ao me ver corada por descer correndo, as escadas perguntou:
- E então, resolveu o problema com Adele?
- Sim, senhor.
Mas tenho que fazer um pedido.
- Pedido? Não vou dar dinheiro nenhum para aquela louca!
- Não é isso, senhor, preciso que confirme uma história caso ela apareça aqui.
- Que história?
- Que Cristine fez um testamento e deixou tudo para Cozette.
O senhor foi o testamenteiro.
- Um conde de testamenteiro?
Não acha que exagerou?
Bem... você deve ter tido seus motivos, também não quero que ela fique com nada de Cristine, já chega o que roubou.
Fique tranquila, Edite.
Caso ela queira ver o papel, eu corro com ela mais rápido que qualquer coche!
E depois, me olhando com o canto dos olhos, disse:
- Joubert tem mesmo razão: você é única!
Única ou não, ela fez seus baús o mais rápido que pôde.
Entrou com dois baús enormes, saiu com três.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:46 am

Não tive coragem de verificar o que levava, mas corri ao quarto de Cristine para ver se as jóias dela continuavam no esconderijo: estavam.
Era o que bastava.
Que levasse as quinquilharias que quisesse!
Olhei o grande retrato de minha amiga na parede, como Sherazade, ela com aquele olhar de inocência e amor inequívoco para Gastón.
Sentei-me na sua cama, com seu cheiro, e chorei convulsivamente.
Como fazer sem ela?
Chorei tão alto, pela primeira vez na vida, lembrando-me de tudo que ela tinha me dado e ensinado, da paciência e da alegria, do desespero quando perdeu a menina.
Agarrei-me no travesseiro tentando conter os soluços, mas em vão!
O choro soou pela casa, depois da partida de Adele, e quando dei por mim estava sentada aos pés do quadro dela, mãos no rosto lavado de lágrimas.
Não a veria de Dalila.
Que linda teria ficado!
Que linda sempre foi...
Senti de repente uma mão amiga em minhas costas e envergonhei-me de meu descontrole, sem saber quem me consolava.
Quando olhei, vi o rosto de Gastón, também banhado em lágrimas a olhar o retrato.
Paulette e Joubert estavam na porta do quarto; ela torcia nervosamente um pano de prato e secava lágrimas, ele, de cabeça baixa, compungido.
Gastón disse:
Pronto, Edite!
Que bom que colocou para fora sua dor!
Acho que concordará comigo, minha boa amiga:
Joubert, desça esse quadro.
Ele deve ficar na parede maior da sala, quero vê-lo sempre que entrar, assim como desejo que quem entre nesta casa se lembre que aqui é a casa de Cristine de Besançon, minha amada, minha deusa loura!
Levantei-me a custo e fui lavar o rosto no lavabo, seguida de Paulette, que me dizia:
"Ande mulher, acha que ela gostaria de vê-la assim?
Lembre-se que ela nos deixou uma missão, e Cozette vem aqui amanhã para conversarmos".
Era verdade.
Ela escolhera a casa de Lyon.
Eu tinha que falar com Gastón, assim que ele estivesse melhor.
Não sabia se ele concordaria, ou se madame falara com ele, mas tínhamos ainda que descobrir onde estava o padre Armand e se ele nos ajudaria.
Fixando meu pensamento nisso e no número de crianças abandonadas que cresciam sem rumo pelas ruas da França, minhas lágrimas cessaram, e eu comecei a retomar minha vida, começando por arrumar o quarto de Adele, finalmente desocupado.
Por ordem do conde me mudei para ele, que ficou com o de Cristine.
Fez realmente
da casa sua residência principal e, embora não tivesse se separado da condessa oficialmente, ficou sem vê-la por um bom tempo.
Os filhos, sim, o visitavam na casa.
O primeiro que conheci foi Leon, rapaz de seus trinta e poucos anos, magro como o pai.
Não pude ver o tom dos cabelos por conta da peruca.
Gostava muito de jóias e era afectado, maquiado, o que não me deixou ver com clareza seus traços, e perfumado.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:46 am

Assim que entrou na casa fez o seguinte comentário:
- Papai é esperto.
Muito mais prático, perto do centro, e até agradável.
Tinha bom gosto a cortesã! Boas peças.
Nosso palácio é imenso, mas muito pouco prático.
E você, quem é?
- Edite, a governanta, senhor.
- Deve saber que sou Leon de Laureac, futuro conde.
Papai está?
- Na biblioteca, senhor.
Deseja um chá ou café?
Ele sorriu com malícia:
I Não me trate assim bem que me mudo para cá, hein?
Um café está óptimo, mas adoce, que detesto coisa amarga.
Tem croissants?
- Será providenciado, senhor.
Parou em frente ao retrato de Cristine como Sherazade e soltou um assovio de admiração:
- Uh-lá-lá! Era assim mesmo?
O artista não exagerou?
Tinha ouvido falar, mas não imaginava tanto.
Agora entendo...
- Na realidade, o quadro não faz jus a madame, senhor.
Ela ao vivo era mais bonita.
Ele ficou curioso, e fez um trejeito de desagrado:
- Dizem que falava idiomas, era letrada, é verdade?
- Fadava francês, inglês, um pouco de italiano e se entendia bem em árabe, senhor.
Também gostava muito de literatura.
Ele sentou-se sem cerimónia.
- Bonita desse jeito? Isso é mito!
Eu falo mal a nossa língua.
Imagina se uma boneca como essa, vinda do povo, saberia falar idiomas...
Esse retrato também deve tê-la enfeitado muito.
Ouvindo a voz do filho, Gastón apareceu:
- Falava os idiomas sim, Leon.
Ao contrário de você, a quem não faltaram tutores, ela se interessava por outras culturas.
Quanto à beleza, acha que lotaria a maior casa nocturna da França se fosse feia, ou comum?
Antipatizei com ele, e deixei-os na biblioteca.
Voltou diversas vezes depois, sempre para pedir dinheiro ao pai, que o recebia de mau humor.
Não culpo Gastón.
Então, numa tarde, enquanto o conde estava em seu escritório, recebemos a visita da moça chamada Pilar.
Cristine me falara da aparência da condessa e de sua obesidade, e pelo jeito a moça ia pelo mesmo caminho.
Num vestido azul marinho sem decote, bem cortado,
com poucas jóias, mas um crucifixo imenso de ouro cravejado de brilhantes sobre o peito, numa grossa corrente de ouro, ela entrou na casa sem se anunciar, e me olhou, avaliando-me, em meu vestido também bem cortado e discreto, com alguma aprovação:
- É a governanta?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:46 am

- Sim, madame.
- Meu pai se encontra?
- Não, madame.
Está em seu escritório, no centro.
Posso servi-la?
Dali para frente foi como se eu não existisse.
Caminhou pela casa como se fosse dela, parou em frente ao retrato de Cristine, fazendo uma expressão de desagrado e curiosidade, examinou algumas obras de arte.
Eu a segui silenciosamente.
Joubert estava no jardim, cortando umas roseiras, suado pelo verão, e Clemente no estábulo a cuidar dos cavalos.
Jeanne, espertamente, escondeu-se nos fundos da casa, mas Paulette, curiosa demais, logo apareceu na porta da cozinha para a sala espiar a visitante, fazendo mil perguntas com a sobrancelha arqueada e o queixo erguido.
Fiz sinal de silêncio pelas costas da moça e a continuei seguindo.
Notei que ela tinha longos cabelos negros, um tanto anelados.
Estava longe de ser bela, e não tinha os traços do pai.
O nariz adunco, os olhos negros e pequenos pareciam os de um negociante, a testa estreita e a boca de lábios finos formavam um conjunto nada agradável.
Se era parecida com a mãe também no génio, nada agradável, não era à toa que Gastón dizia ser ali seu verdadeiro lar.
Ela vistoriou toda a casa.
Parecia ter vindo para isso.
Inclusive os quartos no segundo andar, espantando-se com o luxo do quarto de banhos de madame.
Não me dirigiu uma palavra sequer, e eu também nada lhe ofereci, não gostei dela.
No jardim, ao ver Joubert, finalmente ela disse algo:
- Então é aqui que você está!
Achávamos que tinha morrido.
Minha mãe mandou procurá-lo em toda a parte.
Ao ver Pilar, vi no rosto de Joubert um misto de receio e ódio, mas ele respondeu:
- Minha dívida é com a família dó conde.
Se ele me quer aqui, aqui eu fico.
Se ele não explicou isso à senhora sua mãe, não me compete explicar.
0 rosto dela, quase anémico, avermelhou-se:
- Ingrato! Tanto que fizemos por ti...
É isso que se ganha quando se dá confiança à plebe.
Acha que meu pai viverá para sempre?
Ele respondeu olhando-a nos olhos, com uma firmeza que me pareceu uma ameaça:
- Ninguém vive para sempre, madame!
De vermelha ela ficou branca, e se retirou imediatamente.
Ele virou as costas assim que a viu entrar na luxuosa carruagem, e só depois comentou comigo:
- Bruxa! Veio quando sabia que ele não estaria para espionar a casa ver o quanto vale.
É isso que ele vale para a família: o dinheiro que tem.
Nunca vi um povo tão mau, nem tão devasso.
O palácio é grande mas está caindo aos pedaços pela preguiça e a usura deles.
Soube que a condessa já gastou todo seu património e agora depende de uma mesada do conde, assim como os dois renegados.
Ele fez bem de ficar aqui, pois veneno é coisa fácil de ser ministrada, sabia?
- Veneno?


Última edição por Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:47 am, editado 1 vez(es)
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:46 am

- A vida para esse tipo de gente vale muito pouco, Edite.
Credores desaparecem, parentes ricos morrem de repente...
Conheço bem esse lado deles.
O conde nunca usou desses expedientes porque é honesto e competente, mas a inveja é poderosa, minha pequena.
E o preguiçoso sempre acha os seus meios.
Calei-me, um tanto assustada.
Que tipo de trabalho Joubert tinha feito para aquela família no passado?
Eu já notara que o rapaz mal o cumprimentava quando vinha à casa, ao contrário da moça, que saíra muito aborrecida.
Pensei que os ricos tinham segredos demais, e eu preferia não sabê-los.
Depois de meses, Cozette conseguiu vender seu ponto por um dinheiro razoável, e voltamos a falar em nosso plano de reformar a casa de Cristine em Lyon.
Preso aos seus negócios, Gastón nos apoiava, mas solicitou Paulette e Jeanne por um tempo, até conseguir novos empregados para a casa de Paris.
Assim, partimos eu e Cozette para Lyon, cuja casa já estava desocupada.
A viagem era longa, ao menos uma semana, e devíamos passar por alguns vilarejos e cidades, como Dijon, mas estávamos animadas.
Levávamos moedas e jóias, claro, com Joubert e Clemente para garantir a segurança.
Lembrei-me de Paulette a despedir-se do esposo, às lágrimas:
- Só lhe deixo ir por ser com Edite!
Que pena abandonar nossa casinha tão linda!
Era verdade, a casinha deles, apesar de pequena, ficara linda.
Tinham achado comprador, e lá comprariam outra, maior, para garantir-lhes a velhice.
Assim que nos estabelecêssemos, ele voltaria para buscá-la.
Ele tentou consolá-la:
- Lá não nos faltará tecto, Paulette.
Nem serviço.
Pensarei na minha querida todas as noites.
Localizamos o padre Armand em sua paróquia em Orleães, e ao saber de nossos planos, conseguiu licença de seu bispo para participar de nosso projecto e nos encontraria lá (acredito que uma doação substancial do conde à igreja tenha influenciado).
Despedi-me de Gastón agradecendo sua generosidade comigo por todos aqueles anos e garantindo-lhe que a última vontade de Cristine seria cumprida.
Ele me deu as suas duas mãos, parecendo de repente ter mais que seus cinquenta e poucos anos:
- Eu que lhe agradeço, Edite.
Assim que puder, irei a Lyon.
Sabe como é difícil deixar meus negócios.
Tenho tentado arranjar um gerente capaz e honesto,
já que meu sucessor natural não tem talento para isso, mas tem sido difícil.
E depois, não me vejo morando longe de Paris.
Olhei meu amor de uma vida inteira pela última vez.
Tudo poderia ter sido tão diferente, não fossem as decisões tomadas por ele!
Tivesse a menina nascido, agora a teríamos correndo pela casa.
Não haveria René, e madame estaria viva.
Não teria sido mais feliz?
Essa criança não o teria amado?
O passado cobria meu rosto como uma névoa e me assustei quando, ao pé de uma pequena colina, ouvi a voz grossa e alta de Joubert a me chamar a atenção:
- Edite, a casa é aquela!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:48 am

Coloquei a cabeça para fora da carruagem e vi um casarão, onde, no fundo, funcionava uma olaria.
O barracão destacava-se em tomo da casa, assim como pilhas de tijolos feitos recentemente.
Meu Deus, que casa grande!
Cristine tinha toda razão de ter escolhido aquela.
Cozette, de chapeuzinho feito à última moda preso ao pescoço, arrumando os cachos louros me disse:
- Minha nossa, é essa mesmo?
E no alto dessa colina?
Vai nos dar um trabalhão dos infernos!
Na frente da casa enxergamos a figura do padre Armand, sorrindo por nossa chegada, e eu disse a ela:
• Cuidado com o vocabulário, madame.
Lembre-se que daqui por diante viveremos com um padre!
Três anos depois que saímos de Paris eu soube que Gastón sofrera um derrame que 0 levou de volta ao palácio da família.
Incapaz de se comunicar, e paralisado em parte do corpo, viveu mais oito anos sob o jugo deles, mas não chegou a assistir à famosa Revolução Francesa.
Para sua sorte, faleceu antes.
Os bens da família, o castelo, a casa de Cristine, tudo enfim foi parar nas mãos dos revolucionários, e a guilhotina desceu, sem perdão ou discernimento.
A propriedade de Lyon, distante quase quatrocentos quilómetros de Paris, há muitos anos no nome de Cozette, foi deixada em paz.
O casarão tinha mais de dez quartos, que foram transformados em quatro:
dois bem grandes, um para os meninos, outro para as meninas, outro para mim e Cozette, e o último para o padre e Joubert.
Cozette e Paulette realmente fizeram (tijolos era o que não faltava, nem terreno) pequena casa perto do barracão, e por lá se instalaram.
A enorme cozinha no andar de baixo assustou Paulette, que logo fez extensa lista de utensílios a serem comprados.
Foi quando nos deparamos com a pergunta:
quantas crianças abrigaríamos?
Depois de muita discussão, ficou acertado que no máximo vinte, de idades variadas.
Padre Armand daria aulas, eu as ensinaria a se manterem limpas e a limparem seu ambiente.
Conforme a idade, Cozette ensinaria às meninas a arte da costura e do bordado, em pequeno ateliê no sótão, e Paulette ensinaria cozinha, confeitaria, e alimentaria a todos.
Com a venda das jóias (dessa parte cuidei eu, e não fui a joalheiros, mas as damas da burguesia local que, ao verem jóias tão lindas, mais baratas que na joalharia e ainda por cima que pertenceram à famosa cortesã, me pagaram por elas quantias bem acima do mercado) compramos camas, lençóis, cortinas, toalhas, tecidos para as roupinhas e uniformes.
As crianças aos poucos foram aparecendo, e ao final de um ano já tínhamos quinze, variando de seis meses a doze anos.
Acordávamos cedo e ao nos deitar estávamos tão cansados que o sono vinha fácil.
Cozette, boa com as finanças, logo pensou que devíamos fazer algo para a casa se sustentar sozinha, ou o dinheiro logo acabaria.
O que tínhamos daria para nosso sustento ainda pelo menos por uns sete anos, mas ideia era indispensável.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:48 am

Joubert começou a ensinar a três meninos a arte da carpintaria, com Clemente.
Arrumamos o galpão, que antes servia de olaria, e o transformamos numa espécie de "minimercado", onde expúnhamos pães frescos, compotas, lençóis e fronhas bordados, toalhas rendadas (com rendas feitas à mão), baús de diversos tamanhos, enfim, todo tipo de produto que fazíamos em nossa "escola".
Calculamos antes custo, trabalho e lucro; a projecção deste foi atractiva e, apesar de estarmos em pequena colina, era perto do centro, e a empreitada foi um sucesso.
Começamos a receber as mais diversas encomendas e fizemos pequenas poupanças para os meninos, que, sabedores de suas "fortunas", empenhavam-se cada vez mais no trabalho enquanto aprendiam.
Claro que tínhamos um ou outro pequeno de má índole, mas aos dezasseis anos eles já se iam, para que não influenciassem mal os pequenos.
Dezasseis anos, naquela época, já era considerada idade adulta, e certas coisas sabíamos que não podiam ser melhoradas.
A punição era sair de lá, e quando o primeiro foi expulso, o efeito sobre dois malfeitores iniciantes foi bem impressionante: o comportamento melhorou muito.
Não havia malandros ali, nem incentivo à preguiça, ou a maus-tratos.
Havia sempre trabalho a ser feito.
A Casa Besançon, como era chamada, foi um oásis no meio da violência que acontecia nas ruas da França.
Era um lugar seguro, limpo e quente para os pequenos, que ali não conheciam fome e, quando doentes, recebiam tratamento.
O máximo de crianças na casa, durante o tempo em que vivi, foi de vinte e duas.
A comunidade aprendeu a nos respeitar e a nos amar.
Nossas crianças eram bem-vindas, formavam um coral, regido por um padre novo, local, que as treinava aos domingos, para delícia de padre Armand, que já beirava os setenta e cinco anos. Há vinte anos estávamos em Lyon.
O engraçado é que não me lembro de nenhum de nós, adultos, doente nesses anos todos, tirando pequenas gripes ocasionais durante invernos rigorosos, que a boa Paulette curava com grossos caldos de galinha.
Muitas meninas ficaram para trabalhar na casa, mediante salário, que ganhavam com os produtos que vendiam. Enfim, todos se ajudavam.
A vista de Cozette já não era mais a mesma, mas com uma lupa ela fiscalizava as costuras e os bordados como um detective, e me fazia rir com seus comentários.
Uns quilos mais gorda, com um Clemente também mais forte, Paulette nunca reclamava de nada, feliz da vida por mandar em um pequeno exército de novas cozinheiras ao invés de ser mandada, como sempre fora.
Era séria, mas doce como uma mãe...
Que ninguém tocasse nas suas meninas!
Eu estava na varanda ao final de um inverno, vendo o início de uma nova primavera, ao entardecer, o sol se pondo ao longe.
Tinha uma roupa de bebé no colo, precisando de remendos.
Joubert sentou-se ao meu lado um tanto sujo de raspas de madeira, trazendo uma xícara de chá de camomila, e tomando outra na mão esquerda:
Achei que lhe faria bem...
Olhei para ele, nos seus sessenta anos, ainda forte como um touro.
Seriam sessenta mesmo?
Seria indelicado perguntar, mas não resisti a fazer outra pergunta:
E Tem sido feliz aqui, Joubert?
Nunca sentiu falta de Paris, da agitação?
Ouvimos o som das crianças subindo as escadas de madeira para os quartos, era o horário de oração e elas sempre eram barulhentas.
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