A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:39 am

E era verdade:
René aos poucos isolou-a de todos os seus conhecidos, e mudou-se para sua casa, fechando as portas para qualquer amigo dela.
Notei que não era nada dado aos estudos, mas amigo da jogatina e da vida nocturna.
De temperamento instável, maltratava os empregados da casa, e o que antes era um local harmonioso, agora era tenso e triste.
Sabendo da bondade e do carácter de Cristine, na frente dela tratava-os bem, mas quando ela se ausentava os admoestava sem descanso.
Parecia se comprazer com as ofensas e apenas a mim, mais ligada à Cristine, ele tinha um certo "respeito".
Como era a "governanta" da casa, calava-me para evitar discussões, mesmo porque sentia que, se contasse a verdade, ele a distorceria a seu modo, e enfeitiçada como estava, Cristine acreditaria nele.
Tinha ela rendas de imóveis deixados por Gastón ou comprados por ela mesma que lhe garantiriam uma velhice tranquila e confortável, mas foi com medo que notei que ela estava passando para o controle dele os seus negócios, antes tratados com rectidão pelo conde.
- Não tenho paciência para lidar com essas contas todas, Edite!
E depois, René tem sido tão prestativo!
Diz que não quer que eu me canse... sabe como sofro com minhas dores de cabeça!
Quis argumentar com ela, da forma mais política possível:
- Mas não o acha muito moço para ter tanta responsabilidade?
E depois, o conde cuidava tão bem dessas coisas.
- Ele morre de ciúmes do conde e quer me provar que é tão bom administrando meus bens como ele.
E depois, me ama tanto! Confio nele.
Ela me pagava mensalmente um bom salário, e eu me senti feliz por nunca ter gastado sequer uma parte dele, já que não tinha despesas e preocupava-me com o futuro.
Na estalagem onde trabalhava antes já havia observado jogadores e a rapidez com que fortunas eram dilapidadas em mesas de jogo, e René era compulsivo com as cartas e os dados.
Não duvidava que amasse Cristine, uma das mulheres mais belas de sua época, mas acreditava que a maior paixão do rapaz era ele mesmo.
Pensei em pedir socorro ao conde, para que colocasse algum juízo na cabeça de minha querida amiga antes que fosse tarde demais.
Fui procurá-lo em um prédio comercial perto das docas, local que eu conhecia bem, pois ia lá mensalmente enquanto ele estava com Cristine para receber o dinheiro para as despesas da casa, que ele fazia questão de pagar generosamente. Entrei no velho edifício e subi as escadas pensando em como convencer Gastón a ajudar minha amiga, um tanto sem jeito, já que ele podia estar magoado e não querer me atender.
Mas foi com surpresa que notei que, assim que fui anunciada, o próprio Gastón veio à porta para me receber com um sorriso, ainda que triste:
- Edite! Minha amiga, que bom vê-la!
Algum problema com Cristine?
Observei o conde com carinho e notei que tinha ficado mais velho em
poucos meses do que em anos.
A pele parecia macilenta e os olhos estavam fundos como de quem dormia pouco.
Imaginei que eram as dores de amor, mas ainda assim não vi mágoa em seu rosto:
apenas a vontade de ajudar e alguma esperança de que as coisas voltassem a ser como antes.
Percebi então como sentia falta dele, de sua presença pela casa, sempre tão educado e nobre.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:39 am

O cheiro dos charutos pela sala de visitas ainda estavam no ar, e mesmo o tecido que revestia as paredes da casa de Cristine lembravam-lhe:
sóbrios e elegantes.
A inquietação que me afligira nos últimos meses com René foi substituída por singular tristeza e a visão de dias que poderiam não se repetir mais... pobre amigo!
- Preciso de sua ajuda, senhor! Estou preocupada com madame, não confio naquele moço que lá está.
Gastón sentou-se me oferecendo assento a seu lado, e tomando minhas mãos disse que sabia de tudo que estava ocorrendo, e que o comportamento do rapaz realmente era de se inspirar preocupação.
Contou-me das jogatinas e de jóias que apareciam em mesas de jogo nos salões de Paris.
Jóias exclusivas, impossíveis de serem duplicadas, como um anel de esmeraldas e brilhantes, único pela lapidação da pedra central.
Sabia também que a dançarina estava cancelando apresentações, pois o rapaz tinha fama de ciumento, e tinha praticamente se retirado da vida em sociedade.
Eu não tinha noção de que as coisas chegaram a tal ponto.
Notava minha amiga cada vez mais presa dentro de casa, mas não sabia que tinha passado a ele, além do controle de suas propriedades, também de suas jóias!
Eram a garantia de sua velhice, como ela mesma dizia.
Perguntei ao conde o que fazer para que ela fosse menos dominada por René, mas ele sacudiu os ombros, desanimado, e me respondeu:
- A culpa disso tudo é minha, boa Edite.
Despedacei o coração de nossa menina quando não permiti por duas vezes que tivesse nossa criança, e agora pago o preço da solidão.
Tenho em casa uma mulher que não amo e filhos que só me vêem como meio de sustento, enquanto o amor de minha vida, a mulher que coloriu os meus dias, está envolvida com esse patife que sabe como ninguém explorar suas fraquezas.
Cristine não confia mais em mim, mas o que posso fazer?
Apenas dar-lhe um conselho.
Ouvi o desabafo de uma alma sofrida:
- Ela tem um número imenso de jóias, muitas das quais nem se lembra.
Ganhou-as de mim e de outras pessoas por apresentações feitas à nobreza de vários países. Esconda-as.
Acredito que assim poderá ajudá-la.
A casa onde mora, ele não terá acesso, pois há muito me pertence, e não a ela, logo, não poderá vendê-la.
E vamos esperar que Cristine acorde e que não seja tarde demais.
Ouvi o conselho de meu amigo, e o guardei como se guarda o ouro.
Faria o que ele me disse: chegando em casa, esperei que o casal saísse do quarto e com a desculpa de arrumá-lo me dirigi para lá, abrindo uma das gavetas de um armário de Cristine, vi o pequeno baú onde ela guardava algumas de suas jóias.
Sorri um pouco da desorganização de minha amiga, que nunca colocava as coisas no lugar:
isso nos seria útil agora.
Notei com pesar que o baú não estava tão cheio como antes, e dei falta de alguns brincos e anéis valiosos, mas as pulseiras e os colares lá estavam.
Lembrei-me da conversa de uma das amigas de madame sobre um senhor em Montparnasse (região central de Paris) que fazia réplicas de jóias e pensei que seria útil.
Lembrei-me inclusive do nome:
Monsieur Fouchet.
Separei algumas peças mais belas e escondi sob o meu avental.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:40 am

Aproveitando a desorganização dela misturei peças de pequeno valor no baú das jóias mais caras e escondi outras entre peças antigas que ela nunca tocava.
Aquelas pelo menos estariam a salvo de René.
Nos dias seguintes providenciei as cópias, e as verdadeiras jóias escondi sob o piso de meu quarto.
Foi a forma de protegê-la de sua própria ingenuidade.
Fazia já quatro meses que estavam juntos quando começaram as primeiras discussões.
Madame se sentia presa, ressentia-se da falta dele à noite e do seu ciúme, por vezes violento.
Notei que ela emagrecia e que estava abusando dos vinhos, coisa que antes não ocorria.
A casa, que antes era alegre e calma, agora estava triste, e eu me preocupava com ela, antes gentil e risonha, agora chorosa e impaciente.
Começou a ter noites de insónia a minha amada amiga.
O abandono, novidade para ela, atravessava as paredes da casa e vinha perturbar-lhe o sono, pois René saía quase todas as noites para "fazer negócios".
Eu mesma não acreditava que tivesse outra mulher, sabia que a rival de Cristine era a jogatina desenfreada, mas isso não a convencia:
o achava jovem e inexperiente.
Temia perdê-lo.
Segurava-me para não lhe dizer que bênção seria se ele se interessasse por outra, assim a deixando livre, mas o desespero e a ilusão dela me calavam.
Era esse o amor de que falavam os poetas?
Essa força destruidora, que cegava sua vítima sem esperança?
Deus me guardasse de semelhante tortura, pois enquanto Cristine via René como o mais perfeito dos mortais, eu o via como realmente era:
um crápula enganador, ladrão, egoísta e que se valia de uma aparência encantadora para enganar a incautos como minha amiga.
Desde cedo notei que não adiantava falar nada que a alertasse, pois além de não ouvir, ela o defendia com unhas e dentes.
Seu rosto de criança, que a mim não enganava, parecia-lhe o de um anjo talhado das mais puras virtudes, enganado por todos, vítima das pessoas e das circunstâncias.
Sempre que perdia o dinheiro dela, dizia:
"Não foi minha culpa, 'fulano' me enganou", ou então "foi falta de sorte"...
Acostumada que estava ao conde, astuto nos negócios, e apesar disso, Cristine se deparava com um homem que, além de desonesto, era incompetente, mas o confundia como vítima das circunstâncias.
Numa quinta-feira, ele saiu como de hábito às oito horas da noite, vestindo um costume bem cortado, com um alfinete de brilhantes na lapela.
Tudo presente de minha amiga, que nada negava ao seu amor.
Tinha de admitir que estava belo como um cavalheiro e que parecia ter nascido nas mais nobres famílias.
Vendo-o passar apressado, pegando a cartola com familiaridade, suspirei de alívio, pois Cristine não saíra do quarto durante todo o dia, e eu não a tinha visto sequer pegar a bandeja com o lanche na porta do quarto.
Finalmente ia poder vê-la, já que enquanto ele lá estava, sentia-me impedida de entrar.
Bati na porta do quarto sem obter resposta, chamei seu nome alto, e o silêncio continuou.
Preocupada, abri a porta com cuidado, afastando-me da bandeja que ainda estava no chão do corredor.
- Madame? Dormindo ainda?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:40 am

Não quer comer algo?
O quarto estava na escuridão, cortinas cerradas e um cheiro acre e amargo tomava conta do ar.
Não conhecia semelhante odor.
Caminhei meio às cegas e fui abrindo as janelas de par em par no grande quarto, deixando entrar o ar fresco e a luz da lua, prateada e intensa, podendo finalmente ver o vulto de minha amiga deitada na cama, em profundo sono.
Acendi ao seu lado o castiçal para poder vê-la melhor e reparei no rostinho, que parecia o de uma boneca de porcelana de tão lindo, muito pálido, com olheiras fundas.
Os lábios, antes rosados, quase vermelhos, estavam sem cor.
Tive medo de que estivesse morta e aproximei-me para sentir-lhe a respiração e o pulso; embora a respiração fosse fraca, estava ali.
Suspirando de alívio, ajeitei sua cabeça nos travesseiros, tomando cuidado com os longos cabelos louros e anelados.
Notando que estava fria, a cobri com uma manta de lã que estava em cima de uma cadeira, e pus-me a arrumar o quarto na esperança de dissipar aquele cheiro que eu não conseguia identificar.
Fui acendendo mais castiçais para não tropeçar, nem quebrar alguma coisa.
Notei roupas espalhadas na cama de casal e me dispus a dobrá-las:
do meio de um xale rolou no chão o que parecia ser um pequeno cachimbo de bambu com bocal de porcelana ou barro fino.
Era dali que vinha o cheiro!
Tinha ouvido falar desse estranho hábito de queimar folhas e ervas e aspirar a fumaça que árabes, egípcios e mesmo alguns europeus praticavam, mas nunca tinha visto pessoalmente.
René então estava fazendo uso do tabaco? Que coisa detestável!
O cheiro era insuportável, não sei como Cristine permitia.
Mal sabia eu que aquilo estava longe de ser o famoso tabaco, que tanto agradava aos homens.
Assim como eu nem desconfiava que não era apenas René o usuário.
Terminei a limpeza do quarto, peguei um pouco de água fria da bacia e limpei o rosto de Cristine, que abriu os olhos e me olhou desconfiada:
- Edite... que horas são?
Já é hora do almoço?
Apontei as janelas abertas e ela viu a noite em seu reinado silencioso.
- Santo Deus! Já é noite?
E onde está René?
- Saiu, como de costume.
Não está com fome, minha querida?
Não comeu nada o dia inteiro!
Sentando-se na beira da cama, ela ergueu os graciosos braços espreguiçando-se como uma gata, ajeitando os cabelos encaracolados.
Achei-a pálida, mas incrivelmente bela.
Ela me sorriu:
- E verdade... sabe que não estou com fome?
Esse quarto está com um cheiro estranho. Não notou?
Assenti.
Não havia como não notar.
- Talvez seja um tabaco diferente de René disse eu -, sabemos como ele gosta de novidades.
Ela pareceu pensar um pouco, e depois sorriu misteriosa:
- Não foi nada disso, minha boa Edite.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 06, 2017 8:40 am

Lembra de minhas dores de cabeça, que estavam me deixando louca, sem me deixar dormir?
René, numa dessas salas de jogo, conheceu um médico místico oriental, que lhe deu um cachimbo pequeno e um preparado para que eu aspirasse a fumaça.
Daí vem esse cheiro acre.
No início eu tive um acesso de tosse, mas depois me acostumei.
E sabe que a dor passou como que por encanto?
Cristine reclamava daquelas dores havia meses, o que muito preocupava a mim e ao conde, pois em suas crises sequer podia ver a luz.
Com René as dores pioravam e, às vezes, apenas a bebida parecia aliviar a dor, mas por pouco tempo; passado o efeito, a "ressaca" e a sede eram ainda piores.
Olhei para ela, encantada:
- Passaram mesmo as dores, madame?
Sem precisar de álcool? Mas é um milagre!
Em pé, no meio do quarto iluminado por velas, minha doce amiga sorriu:
- Veja só o quanto devo à René!
Até agora não sinto mais nenhuma dor!
Ah, Edite! Sei que o vê com reservas, mas não pode negar que ele se preocupa comigo!
E a primeira vez em meses que durmo sem dores!
Prepara-me um banho.
Quero me arrumar para ele.
Quero conhecer o médico que lhe passou essa receita milagrosa.
Já pensou, Edite?
Viver sem dor?
Olhei para ela tentando absorver as informações que me dava.
Nem no tempo do conde alguém lhe cercearia os movimentos; se queria ir ao cabaré, onde também ficava a casa de jogo, iria.
Mas não sozinha.
Eu iria com ela, para que não corresse risco.
Peguei a bandeja que estava à porta.
- Preparo seu banho, madame, mas precisa comer antes.
Veja, temos aqui uma sopa fria, como a senhora tanto gosta, e algumas torradas.
Ceie antes, que enquanto se banha me arrumo e preparo sua carruagem com o Clemente.
Faz tanto tempo que madame não sai à noite.
Posso ir junto?
Pegando a bandeja das minhas mãos e começando de forma obediente a sua ceia, ela me disse:
- Acredita que iria sem minha Edite?
Prepare o banho e avise o cocheiro.
Hoje vamos voltar a frequentar a noite, chere amie.

4 - Minha pequena moura.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:58 am

IV - PAULETTE E A CARIDADE
NOSSA BOA PAULETTE saiu da cozinha corada.
O corpanzil apertado pelo colete muito limpo em cima da saia rodada com o avental e a touca muito branca:
- Então madame vai sair novamente?
Tive de sorrir para ela, afinal sua surpresa não era sem motivo.
Fazia já algumas semanas que Cristine não saía de casa, ficando inteiramente à disposição de René, o que não agradava a Paulette, pois não simpatizava com o rapaz.
Confidenciava-me que não o achava "boa coisa", que era "ladino demais" para o seu gosto, e que "madame estava muito melhor com o conde, aquele, sim, um cavalheiro!".
Concordava com ela, é claro, mas abstinha-me de quaisquer comentários, contentando-me em dar monossílabos ou simplesmente abanar a cabeça em aprovação ou não.
Sabia do grande coração de minha amiga cozinheira, mas também de sua grande "eloquência".
Ela continuou com as perguntas:
- E vai ao cabaré?
- Acredito que sim respondi.
O senhor René encontrou por lá certo médico que passou um remédio para madame e finalmente tirou suas dores de cabeça!
Ela quer ir lá para ver se conversa com ele.
Ela parou e me observou, um tanto desconfiada:
- Conhecer um médico num cabaré?
E será de confiança?
Vindo do senhor René, nunca se sabe...
Eu tive que rir dela:
- Ora, Paulette!
Bem se vê que nunca foi nessas casas de jogo, onde também se apresentam artistas!
O cabaré que madame frequenta recebe não só médicos, mas a nobreza, comerciantes, intelectuais, cortesãs famosas.
A fina flor da França se encontra lá.
Está longe de ser um lugar para a plebe!
Muito embora eu fique apenas no camarim de madame, vejo muito do salão por entre as cortinas do palco, e é tudo muito elegante!
Ela cruzou os grossos braços diante do colo e me deu um olhar desconfiado como sempre:
- Pois eu que não frequentaria esse tipo de lugar.
Não é lugar pra moça como eu.
Adoro madame, que é muito fina, mas não acho esses ambientes boa coisa!
De qualquer forma, que bom que vai com ela, Edite!
Ando achando madame frágil demais!
Fomos interrompidas pelos passos de Cristine descendo as escadas, vestida num belo costume cor de vinho, pele empoada, realçando a palidez, brincos e colar de rubis e os cachos presos ao alto na cabecinha mimosa.
Tinha perdido alguns quilos e o rosto, antes infantil, estava mais anguloso, mas como estava bela!
Calçando luvas brancas, ela pediu que nos apressássemos, pois já eram quase dez horas da noite, e ela sentia falta do movimento das ruas.
Clemente abriu-nos a porta da carruagem, sorrindo levemente para ela.
Passamos pelas ruas escuras, iluminadas fracamente pelas lanternas de gás.
Protegidas por alguns becos, enxergamos as sombras de algumas prostitutas que tentavam ganhar a vida apesar do frio que já se insinuava pelas vielas.
Alguns bêbados também passaram por nós em cantoria desafinada e alegre.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:58 am

Notei em minha amiga um sorriso triste, e ela me disse:
Como temos sorte, não é mesmo Edite?
Aqui, nessa carruagem, protegidas do frio e da fome.
Como a pobreza cheira mal, não é mesmo?
Tive que concordar.
Vinha dessas ruas um cheiro azedo, que nem mesmo o sereno que caía na noite abrandaria.
Que pena tinha dessas moças perdidas na estrada da prostituição na Paris do século XVIII.
A maior parte não chegava aos trinta anos de idade!
Dizimadas pelas doenças, maus-tratos, vícios vários... Isso
quando a fome não as levava precocemente, pois a carreira de uma prostituta pode ser miseravelmente curta!
Ao passarmos por uma, notamos parte do rosto desfigurado, pelo que parecia ser um corte feio de navalha.
Não podia ter mais de dezoito anos e já tinha um medo no olhar de quem tinha vivido séculos.
Criada dentro da estalagem, da qual nunca saía graças à madame Pointier, que não me dava um minuto de sossego, conhecia alguns pobres, mas não conhecia miseráveis como os das ruas de Paris.
Ao morar com Cristine tive acesso a dois mundos completamente diferentes:
o da mais absoluta pobreza, e o da desmedida riqueza.
Uma vez, depois de uma ceia fausta na casa de madame, eu pedi a ela para levar a uma família necessitada os restos de comida que estragariam.
Cristine cedeu com prazer, mas Paulette sabiamente me advertiu:
Não pense que é coisa simples distribuir comida aos necessitados.
Preparo as cestas para você, e até levo junto, mas tenha cuidado.
Ingénua, sem atinar no motivo, ainda assim concordei.
Saímos então as duas, carregadas de três cestas onde fizemos sanduíches recheados de queijos e carnes.
Andamos bastante e chegando a uma viela sem saída, fomos distribuindo na medida em que vimos pessoas sentadas no chão, apoiadas nas paredes, com aparência faminta.
No início nos olharam desconfiados, cheirando os sanduíches como se pudessem estar estragados ou com veneno; um menino de seus sete anos finalmente abocanhou um, nos olhou maravilhado, e veio correndo atrás de nós aos berros:
"Un autre! Un autre!"5.
O que aconteceu em seguida não é difícil de imaginar, mas me assombrou em sonhos durante um bom tempo:
já tínhamos distribuído ao menos uma dezena, mas apareceram mendigos de todas as partes a correr atrás de nós duas, que, carregadas com os três cestos, ficamos numa rua sem saída.
Vi o peito de Paulette arfar de nervosismo, ela jogou para trás os negros cabelos anelados, ficou vermelha como um tomate e ergueu os cestos:
- Pra trás já!
Senão nada de sanduíches!
Ora, já se viu tanto alvoroço!
Viemos aqui para ajudar!
Dito isso, milagrosamente pararam a correria, e conseguimos ir passando pelo meio deles com Paulette a abrir caminho agressivamente, empurrando e esbravejando, comigo encolhida atrás.
Por fim, avistei a avenida, e ela me sussurrou:
"Quando eu disser já, largue esse cesto e corra, que não vou conseguir segurá-los por muito tempo".
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:58 am

Observei-os, e para meu susto, notei que ela estava certa, eles olhavam para os cestos como se buscassem um jeito de tirá-los de nós.
Pois que ficassem com eles.
Foi só Paulette dizer:
"Larga!", que eu soltei meu cesto e corri o mais que pude erguendo minha saia comprida e só parando mais de uma quadra depois, com ela na minha frente, apesar do peso, para minha surpresa, a rir a não mais poder, diante do meu espanto com a situação.
Assustada ainda, pois não esperava por aquilo, assim que recobrei o fôlego, disse a ela:
- Mas, que coisa!
O que foi aquilo?
Pareciam querer nos agredir!
Mas, porquê?
Só queríamos ajudar.
Só depois de parar de rir ela me respondeu:
- Minha querida Edite, é um povo que mal vê pão durante dias, e nós chegamos com carne, pão e queijo! E de graça!
Isso sem sermos da igreja, nem cobrarmos deles trabalho ou algum tipo de humilhação.
Quando a esmola é demais até o santo desconfia! Por isso tive receio que viesse sozinha!
Vendo que eu ainda custava a acreditar, ela continuou:
- Vim de família muito pobre, de área rural no sul da França.
Meu pai trabalhava em vinhedos, e algumas vezes na infância, nos invernos, chegamos mesmo a passar fome.
Perdi meus pais aos dez anos de idade e fui morar com as freiras, que me ensinaram o ofício de cozinheira, e desde então trabalho em casas de família ou padarias.
E o melhor ofício do mundo!
Nunca mais passei necessidade.
Ela sorriu, como a se lembrar de um passado longínquo, e continuou:
- Mas durante meu período no convento, aprendi a viver com os miseráveis como esses que vimos hoje.
E não são poucos nesse nosso mundo.
Vivem sem tecto, sem trabalho, sem esperança...
Acabam em cadeias imundas por roubarem pão, e tornam-se assassinos, ladrões, prostitutas.
Uma menina de nosso convento, boa de coração, acabou se envolvendo com um rapaz como esse René, e engravidou.
As freiras a colocaram para fora, o bebé foi para o orfanato, e ela para a prostituição.
Não durou nem três anos.
A fome faz coisas estranhas, Edite.
Já passou fome?
Fiz que não com a cabeça.
E verdade que comia sobras na estalagem, mas comia.
Nunca havia passado fome, nem frio realmente.
Dei-me conta de que apesar de muito pobre, tinha tido alguma sorte.
Perguntei-lhe:
- E como então vamos poder ajudar esses coitados?
Se os ajudamos, eles nos atacam...
Ela riu-se:
- É que a fome os enlouquece.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:59 am

Mas não se entristeça, que daremos um jeito.
Já vimos que ir lá pessoalmente não funciona; se dermos sempre para a mesma família, seremos obrigadas a dar todo dia, e a comida que estamos dando não nos pertence.
Dependemos da generosidade de madame, que pode se negar quando quiser.
Ponderei que era mesmo verdade.
Que sábia estava me saindo Paulette, que nem ler sabia!
Chegando em casa comuniquei a Cristine a perda dos cestos e contei-lhe a história.
Para meu vexame, ela repetiu depois ao conde, que caçoou de mim um bom tempo, mas depois ofereceu-se a ajudar quando fôssemos participar de um novo "projecto".
Infelizmente, antes disso surgiu René, afastando aquele que nos poderia dar boas ideias no auxílio ao próximo.
Olhei para minha amada amiga, que da janela da carruagem olhava a paisagem, alheia a tudo, e notei em sua testa pequena ruga entre as sobrancelhas.
- A dor voltou?
Ela me deu um sorriso triste:
- Sim, parece que o efeito do remédio está passando.
Com sorte encontro René e o médico oriental.
Quem sabe não me passa uma receita?
Já pensou, Edite, se fico sem essas dores para sempre?
Faz tanto tempo que sofro com elas.
Já tentei até mesmo me embebedar, mas depois elas voltam ainda com mais força!
Lembrando-me de algumas crises enfrentadas por ela, combatidas sem sucesso com o álcool, atrevi-me a também ter esperança.
Qualquer coisa seria melhor do que vê-la cambalear pelo efeito do vinho em excesso, sem com isso afastar a dor.
- Pois vamos lá, madame.
Quem sabe ó sr. René não achou a solução para esse mal?
A senhora é tão nova e tão bela, é injusto que sofra assim.
Acharemos esse médico!
Ela me sorriu, a mãozinha enluvada na testa:
- Deus queira, Edite, Deus queira!
E assim paramos em frente ao cabaré, já lotado de carruagens àquela hora.
Fiquei imaginando a surpresa do belo René ao ver entrar Cristine depois de tanto tempo afastada.

5 - "Mais um! Mais um!".
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:59 am

V - MEDICINA CHINESA NO CABARÉ
(MÃOS SOBRE O delicado aparelho, Edite fechou os olhos e sobre a tela apareceu um ambiente iluminado por lâmpadas de gás, paredes forradas de tecido vermelho, com lambris de madeira, mesas de jogo de madeira maciça, cadeiras forradas com assentos marrons de couro, pequenos detalhes em dourado aqui e ali, homens e mulheres em profusão em volta das mesas, um bar afastado com um largo espelho e lustres em cobre batido.
No fundo, coberto por cortinas de um tom vermelho ainda mais vivo e debruado por tons de dourado, um palco em formato de meio círculo, de tamanho razoável, onde Cristine tinha tantas vezes se apresentado.
O ambiente recendia a luxo e dinheiro, e o brilho dos lustres competia com as jóias das mulheres, provavelmente cortesãs e actrizes da época, ricamente vestidas, e homem de vestes impecáveis.
Edite sorriu de leve ao notar os penteados de época, altíssimos e desproporcionais na cabeça das mulheres, e por fim tirou as mãos, e continuou sua narrativa.
).
Vermelho.
Era esse o primeiro impacto do cabaré.
Era a cor do pecado e do luxo, pois desde a Antiguidade era o pigmento mais caro e desejado, parecia atrair riqueza material, e não se podia dizer que o ambiente não fosse luxuoso.
Minha boa Paulette jamais imaginaria o que era um cabaré como aquele por dentro, o cheiro de perfumes fortes, enjoativos, de perfumistas famosos da França competindo
entre si, as jóias cintilando nos pescoços das mulheres, moças jovens entre algumas já mais conhecidas tentando a vida entre a nobreza e a alta burguesia.
Por trás do luxo, havia muita inveja, calúnia e maldade.
Eu notava a cobiça nos olhos das jovens ao verem fortunas mudarem de mãos conforme a sorte nas cartas e nos dados, mas não as julgava:
a vida podia ser dura na França daquela época.
Minha amiga acabara de fazer vinte e sete anos, o que na época seria considerado idade de uma matrona.
Mas Cristine era uma ave rara. Muito rara.
Para melhor entender isso, é preciso entender a sociedade de Paris do século XVIII.
O povo francês era conhecido por ser inovador e inteligente, mas também tradicionalista.
O número de pobres e miseráveis nessa época era grande, e entre as moças da classe baixa sobravam ou a fome, ou o trabalho quase escravo.
Pior ainda se fossem bonitas, mas desprotegidas: a prostituição.
Com um pouco mais de sorte ou beleza podiam se tornar cortesãs. Famílias ricas ou nobres se casavam entre si, e isso não se discutia.
Os herdeiros eram sempre preservados, as propriedades eram mantidas, o que não os poupava, é claro, de futura miséria, caso os bens fossem mal administrados.
Novas fortunas eram vistas com desconfiança, mas o dinheiro abria portas.
Entre os ricos e os pobres, ficava a burguesia, a classe a que a família de Cristine pertencia.
Tivesse ela tido mais sorte, o pai durado mais tempo, teria se casado com um comerciante, ou um pequeno fazendeiro, tido muitos filhos e se tornado uma mulher próspera, tranquila e feliz.
Mas a morte do pai a precipitou para um destino diferente.
Apesar disso, a educação que recebeu, assim como os valores morais, não foram os da plebe, e Cristine podia ser cortesã, mas se comportava melhor dó que muitas esposas.
Durante os anos que esteve com Gastón nunca houve outro homem.
Ela podia ser simpática, educada, mas não permitia aproximação, o que era raro num meio como aquele, e que ganhou a admiração geral.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:59 am

Outro diferencial era a sua educação.
Sabia ler e escrever em mais de um idioma (Gastón tinha incentivado isso), era adepta da leitura de romances, não usava um vocabulário de baixo calão como algumas damas de seu meio.
Nem por isso as criticava.
Simplesmente não tinha sido criada daquela forma, o que fez com que o conde, que já tivera outras amantes, ficasse ainda mais apaixonado.
Uma vez ele me segredou que Cristine era mais polida que a maior parte dos nobres que ele conhecia, incluindo a sua mulher.
Ela ficava feliz como uma garotinha quando ganhava presentes, mas nunca os pedia.
Isso encantava tanto ao conde que ele vivia achando um jeito de surpreendê-la, chegando na casa quase sempre com um embrulho diferente:
podiam ser desde bombons a uma jóia, ela fazia a mesma festa.
Fazia dias que levantava meio triste, ou com as dores infernais na cabeça, mas tinha bom temperamento, e era amada pelos empregados.
Mulheres daquela época, que frequentavam aqueles ambientes, quando chegavam à idade de Cristine normalmente já estavam acima do peso por conta do excesso de álcool e das comidas condimentadas.
A pele delas já estava cansada pelas noites mal dormidas e pareciam realmente matronas.
Mas ela, não sei se pelo exercício frequente da dança, pela dieta quase que de frutas, ou por ter pertencido apenas ao conde, chegava aos vinte e sete anos bela como uma deusa..
O rosto sem manchas nem rugas estava mais afilado e tinha perdido o contorno infantil, e o corpo tinha formado as curvas da idade adulta mantendo-se esbelto e contornado pelos exercícios da dança.
Os olhos esverdeados tornaram-se mais oblíquos e ela aprendera a usar um mínimo de maquiagem de forma adequada, que a fazia se sobressair no meio daquelas mulheres excessivamente maquiadas.
Logo à sua entrada no cabaré, usando o belo traje cor de vinho, com os rubis no colo muito branco, abriu-se uma passagem para ela; ouvi uma voz rouca de homem a chamar alto:
Cristine!
Enfim a deusa toma a seu reduto!
Cristine! Cristine de Besançon!
Encolhida por trás dela, avistei a figura de Albert, gerente da casa, gordo e grande, moreno claro de seus quarenta anos, bigode negro, mãos grandes e peludas.
Com um grande sorriso, abriu espaço fazendo exagerada mesura em frente à minha patroa, que soltou uma risada alegre ao ver o amigo de tantos anos.
Nunca soubemos quem era o dono da casa, nem mesmo o conde sabia, mas Albert fazia o seu trabalho magnificamente, agradando aos clientes, escolhendo os melhores artistas, e tratando os empregados com mão-de-ferro.
Vendo-o praticamente aos seus pés, Cristine sussurrou-lhe:
"Erga-se, tratante!
Sou só sua cliente hoje!", ao que ele lhe sorriu e deu-lhe o braço levando-a a uma mesa e acomodando-nos as duas em confortáveis cadeiras.
Enquanto conversavam os dois sobre amenidades, observei Gastón pálido, numa das mesas do lado oposto do salão, a olhar fixamente para nós.
Ao seu lado estava Soraya, moça de seus vinte anos, exageradamente maquiada, e uma velha "amiga" de Cristine, famosa por arranjar encontros entre casais, Madeleine.
Eu as conhecia, pois frequentavam a casa de minha patroa até seis meses atrás.
Parece que a mais velha tentava agora entreter o conde, que estava livre, mas não parecia estar tendo muito sucesso.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 8:59 am

Divertindo-se com Albert, que sempre a fazia rir, Cristine não notou quando Madeleine franziu o rosto, em desagrado, observando-nos, e o conde levantou-se da mesa, deixando as duas sozinhas com o semblante bastante amuado.
Notei meu amigo abatido, vindo em nossa direcção, pensei se não estaria doente ou algo parecido.
Ao vê-lo aproximar-se da mesa, Albert sorriu e se levantou:
Conde! Enfim, parece que os velhos tempos voltaram!
Só falta agora nossa beldade voltar aos palcos e nos brindar com sua dança.
Não pensa em voltar a dançar, Cristine?
Olhando Gastón tristemente, o sorriso saiu do rosto dela, que respondeu a Albert:
— Certas épocas devem ficar no passado, meu amigo!
Afinal, a vida segue seu curso.
E depois, René não gostaria que eu me exibisse novamente em público, é ciumento, toma conta de mim.
Não o viu por aqui hoje? *
— Como não? respondeu Albert é cliente cativo nosso.
Está numa de nossas salas privadas.
Se quiser, depois a levo até lá.
Mas, não quer ver o show?
Hoje temos dançarinas russas que são a nova "coqueluche" de Paris!
Olhando Gastón nos olhos com tristeza, ela respondeu a Albert:
- Hoje não, meu querido amigo.
Estou aqui por outros motivos.
Não notou com René um médico* que também joga, um oriental?
Albert coçou a cabeça, como se puxasse pela memória.
- Ah, sim!
Tem realmente os olhos puxados, mas a pele é um pouco morena!
Muito exótico!
Gosta mais de observar do que de jogar.
Como é mesmo o nome dele?
De pé, atrás de mim, Gastón respondeu:
- Kayzen. Dr. Kayzen.
Mas, que quer com semelhante pessoa, Cristine?
O olhar dela endureceu:
- Como sabe, depois da última vez que "adoeci", tenho tido dores de cabeça insuportáveis.
Pois o bom doutor receitou-me algo que me aliviou, pela primeira vez.
Desejo falar com ele.
Gastón sabia perfeitamente que ela se referia ao último aborto, a pedido dele, que abaixou a cabeça, envergonhado.
Ainda assim ele advertiu-a:
- Temos outros médicos em Paris, Cristine.
Não sei se deve confiar em estrangeiros.
- Pois foi por confiar em franceses que adquiri essa dor, e por consultar médicos franceses que essa dor continua.
Importa-se, Albert, de me levar até René?
Vendo-se assim intimado, o bom gerente levantou-se a dizer:
"De forma alguma", e nos conduziu para uma sala à parte, mais nos fundos do imenso salão.
Observei o conde de cabeça baixa, encaminhando-se para sua mesa, onde Madeleine o esperava.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:00 am

Senti certa tristeza por não poder ajudá-lo com minha amiga:
a mágoa dela era profunda.
Entramos na sala privada de jogos e fomos logo atingidos por um cheiro de álcool, perfumes variados, e fumaça.
Embora a sala tivesse pé direito alto, praticamente não tinha janelas e, ao contrário do salão principal, que contava com músicos, o som ali era no máximo de monossílabos.
Avistei René de cenho franzido ao lado.de senhores muito bem-vestidos, e a presença de Cristine chamou a atenção de todos, se bem que por pouco tempo, logo voltando todos a se concentrar em seus próprios jogos.
Ao vê-la, René primeiro pareceu surpreso, depois levantou-se e veio ter com ela, pedindo licença aos companheiros da mesa.
- Querida, que faz aqui?
Não posso me ausentar da mesa, não seria educado!
Mesmo porque estou tendo sorte hoje.
Não pode ficar no salão um pouco?
- Vim ver o médico que lhe deu o remédio!
Ele está aqui?
Olhando em volta, um tanto aborrecido, ele assentiu, apontando discretamente um senhor de meia-idade, cabelos negros, olhos orientais e pele amarelada.
Vestia-se à moda ocidental, mas podia-se notar o luxo da seda.
Realmente não jogava, mas observava uma mesa de cavalheiros com um sorriso estranho nos lábios.
- É aquele.
Chama-se doutor Kayzens Peça a Albert que lhe apresente, pois agora tenho que voltar à mesa.
Devia ter me avisado:
que vinha, Cristine!
Sabe que não gosto que saia sozinha!
Ela o olhou aborrecida:
- É que decidi de última hora.
Não se zangue, René, volte para seu jogo, que Albert me apresenta.
E assim foi;;Com a diplomacia costumeira, Albert levou Cristine ao doutor Kayzen, que se apresentou como um médico chinês, mas que ainda não estava clinicando em Paris.
Dedicava-se à medicina oriental, que segundo ele tinha milhares de anos, e encantado com a beleza e educação de Cristine conversou longamente com ela sobre a eficácia dos medicamentos orientais na analgesia das dores mais diversas.
Carismático, ele regou a conversa a champanhe, e quando notei, minha amiga já tinha lhe contado coisas bastante íntimas sobre sua saúde, como a interrupção de sua última gestação.
Ouvindo com atenção, ele lhe explicou que quando interrompida uma força da natureza, como uma gravidez, isso podia causar inúmeros distúrbios físicos e psicológicos, e poderia, sim, ser a causa de suas dores.
Sensível, minha amiga foi às lágrimas, e ele ofereceu um lenço, galantemente.
Ela falou do efeito que lhe causara o produto aspirado, que as dores tinham cessado, e ele sorriu.
Disse que em sua terra era amplamente usado há séculos e que só agora estava sendo difundido na Europa.
Vinha do "suco de uma flor" e realmente cessava as dores.
- Suco de uma flor? - perguntou Cristine. :
- Sim respondeu Kayzen aqui vocês a conhecem como papoula.
Aquela branca, bem suave. .
- Mas o cheiro é tão acre, acho que não me acostumo a aspirá-la.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:00 am

Não existe outra forma de consumo?
Ele riu-se:-
- Claro que existe.
Para o consumo das damas, que não gostam do cheiro, e menos ainda da fumaça, fazemos tabletes?
O fumo é muito forte para as senhoras!
Só que os tabletes não são muito baratos.
Mas nada que madame não possa comprar.
Notei que Cristine se interessou.
Tabletes seriam bem mais discretos e muito
mais apropriados, mesmo porque tinha detestado o cheiro.
- E onde eu os compraria perguntou.
- Eu mesmo os manípulo, conforme a necessidade do cliente.
Devo dizer-lhe, porém, que o efeito dura menos do que o aspirado, mas então é só tomar outro tablete.
Importante também que só o tome em caso de dor.
Cristine riu-se.
- E por que o tomaria se não tivesse dor?
Notei naquele homem um olhar misterioso, um tanto, estranho.
Apesar das palavras gentis, e da postura até humilde, não me fiei nele.
Parecia que um alarme batia dentro de mim dizendo:
"Tire-a daí, Edite!", mas como?
Ela parecia tão feliz em acabar com as dores!
Ele continuou:
- É verdade... mas alguns pacientes meus já exageraram de tanto que gostaram do remédio.
Dizem que ficam leves> alegres.
É um composto de uma flor, mas nada em excesso é bom.
Não creio que madame exagerará, não é?
Aliás, o remédio também proporciona um sono bastante tranquilo.
Quanto mais ele falava, menos eu gostava.
Mas, se ,era feito de uma flor, que mal faria?
Hoje .sei da minha ingenuidade, mas na época, que tola fui!
Ele disse a Cristine que tinha ali mesmo alguns tabletes, perguntou a ela sobre a intensidade da dor e lhe deu alguns gratuitamente para que experimentasse.
Ela lhe passou seu endereço, fazendo uma encomenda para o dia seguinte, às quatro horas da tarde.
Trataram o preço, o que pelas posses de Cristine realmente não era tão caro.
Ela sorriu e levantou-se para despedir-se, o que ele fez em exagerada mesura.
Os homens da sala reservada, em sua maioria, tinham os olhos na bela loura, com excepção de seu companheiro, René, que parecia mais encantado com as cartas que tinha em sua mão.
Quando ela sé levantou para ir embora, não foram poucos os cavalheiros que se levantaram com ela, e só assim o tolo notou que a mais linda moça do recinto estava se retirando.
Veio então apressadamente ter com ela.
- E então?
Conseguiu consultar-se com ele?
Feliz de ter conseguido alívio para suas dores, ela lhe sorriu:
- Consegui, querido.
Até me deu alguns tabletes.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:00 am

Acha que ainda vai demorar muito?
Como está o jogo hoje?
Ele sorriu de seu jeito mais charmoso:
- Muito bem! Lembra que lhe disse que estava com sorte?
Hoje vou conseguir comprar um beau collier6 para minha Cristine!
Ela riu-se. Eu não. Lembrava-me perfeitamente de alguns colares bem caros que ele já tinha perdido e não achava graça nenhuma.
Cristine resolveu ficar mais um pouco no cabaré e avistou uma amiga que há muito não via, loura como ela, mas bem cheia de carnes, risonha e despachada como ela só.
Albertine era uma alemã radicada na França há algumas décadas que adorava Cristine como a uma filha e sempre que se encontravam, a cafetina erguia os braços gordos e brancos a gritar para que o salão inteiro ouvisse:
"Cristine! Cristine!", e o som só diminuía quando minha patroa a atendia.
Assim, logo que ouvi os primeiros gritos, apontei para a direcção da alemã, que pulava em cima de uma mesa de madeira, a qual, embora parecesse forte, não sei se resistiria ao peso por muito tempo.
Logo as duas sé abraçaram e começaram e falar dos velhos tempos e sobre os novos acontecimentos do local.
Notando que as duas se divertiam em meio à champanhe e ao vinho; percebi que madame tomou um daqueles tabletes com um pouco de água, talvez para passar a dor que já a incomodava desde mais cedo.
Acostumada a ser a sombra de Cristine por onde íamos, achei logo uma cadeira, segurei a bolsa dela e me encostei junto à parede descansando um pouco.
Pensava distraidamente em quanto tempo fazia que não saíamos de casa à noite... seis meses?
Talvez mais.
Depois de ter se apaixonado por René, ela tinha se retirado da noite parisiense, deixando de lado os amigos e o conde.
Estava assim pensativa na sorte de minha amiga quando ouvi uma voz conhecida a me sussurrar no ouvido:
- Poderia vir comigo, ma petite maure?
Gostaria de lhe falar um pouco.
Não precisei virar-me para notar Gastón, pois ninguém mais me chamava desta forma.
Sabendo que as duas amigas ainda conversariam por um bom tempo, levantei-me e fui com ele para uma mesa discreta* onde nos sentamos confortavelmente.
Olhei para ele com o carinho costumeiro:
.Como vai, conde?
Já está de namorada nova?
Sabendo que me referia a Madeleine, sua protegida, ele me sorriu tristemente.
- Madeleine é uma harpia bastante sagaz.
Edite, e me acha, além de um bom partido, um velho tolo.
Não tão tolo, felizmente.
Mas a verdade é que ao menos tento me distrair da solidão, embora tenha notado que com companhias como essa, que sequer parecem falar a mesma língua que a minha, me sinta ainda mais solitário.
Mas, não falemos de mim.
Estou preocupado com Cristine.
Sabendo de antemão que o assunto seria a madame, assenti com a cabeça e esperei que ele continuasse.
- As dores de cabeça dela pioraram?
- Bastante. Existem noites em que ela sequer consegue dormir e acaba por se embebedar, o que no dia seguinte só traz mais dores.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:00 am

Por isso veio aqui procurar esse médico.
Não adiantavam compressas ou chás, ela chegou a emagrecer a olhos vistos, já nada parava em seu estômago, o ontem, apesar do cheiro que ficou no quarto, ela finalmente teve sossego das dores, e dormiu.
- Ela tem essas dores diariamente?
- Não. Mas pelo menos umas três vezes por semana elas aparecem.
Nossa sorte é que madame é bem-humorada e nesses dias prefere apenas permanecer na escuridão a ficar reclamando pela casa.
Espero que esse doutor a ajude.
Ele suspirou, contrariado.
- Isso muito me preocupa, minha querida Edite.
Não sei se esse senhor sequer tem um consultório aqui em Paris.
Sabe que prefiro confiar em nossos médicos.
Aqui no cabaré nunca joga ou se embebeda como a maioria, mas consegue boa parte de sua clientela, que, por sinal, lhe fica bastante fiel.
- Mas, então, deve ser um bom médico... disse eu ingenuamente.
- Não sei se é bem isso, minha querida ele me deu um sorriso amargo os clientes dele simplesmente não podem mais passar sem ele, que por sinal vem enriquecendo a olhos vistos.
Um calafrio me percorreu a espinha, e perguntei, embora temesse pela resposta:
- E estes clientes melhoraram?
Gastón soltou uma risada baixa.
- Se estavam querendo fazer uma dieta para perder peso, tiveram sucesso.
Ele é muito procurado, isso é certo, mas não conheço nenhum desses pacientes intimamente e não tenho como me informar da vida alheia dessa forma.
Mas o certo é que aquele tolo do René parece prestar atenção apenas nele mesmo, de forma que peço a você que me procure caso note alguma mudança séria em nossa Cristine.
Sei que ela não deseja mais falar comigo, mas nem por isso a abandonarei, caso precises não se esqueça que tem em mim um amigo extremado, Edite, mesmo porque me sinto responsável por ela.
Olhando-o de perto, notei as rugas de preocupação ao redor de seus olhos.
Rugas que não apareciam antes, quando ele era feliz com Cristine.
Tomei sua mão sobre a mesa e lhe disse:
- Não se preocupe.
Tenho seguido seus conselhos com o património dela, tentando resgatar o que posso da mão leve de René, imagine o que não faria pela saúde de Cristine!
Madame sempre foi mais do que bondosa comigo, pode deixar que lhe procuro, caso precise.
Parecendo um pouco mais tranquilo, ele me sorriu tristemente.
Levantei-me a tempo de ver Cristine me acenando e pedindo para ir para casa pois sentia de repente muito sono.
Comuniquei-me com Albert e pedi que avisasse a René que o esperaria em casa, e chegando ao coche, ela adormeceu no meu ombro.
"Que remédio forte", pensei.
Em casa, pedi ao cocheiro Clemente que a carregasse até o quarto, o que ele fez de bom grado, pois Cristine não era pesada, e a colocamos na cama.
Com as janelas abertas o cheiro anterior era quase imperceptível.
Na luz das velas olhei o rosto de minha amiga, tão belo e tão pálido, a respiração lenta, como se estivesse em letargia.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:01 am

Desamarrei-lhe o apertado espartilho, tirei-lhe as delicadas botinas, soltei-lhe os cachos e limpei o rosto, que parecia agora o de uma boneca de porcelana, e ela continuou no seu sono.
Preocupada, sentei-me ao seu lado e decidi ficar por ali, temerosa de algum efeito que o remédio fizesse que não fosse o esperado.
Perto das quatro da manhã, René chegou e eu, finalmente, saí do quarto; ela ainda estava em sono profundo.
Fiz minhas orações e fui para a cama pensando que aquele chinês não seria tolo de matar minha patroa logo da primeira vez, e depois, ela já estava um pouco mais corada.
Deus que me ajudasse, mas eu não estava gostando nada daquilo.

6 - Belo colar.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:01 am

VI - SERAFIM FALA...
(Narrativa de Ariel)
NOTEI A PEQUENA Edite um tanto cansada, como se as recordações lhe chegassem de forma um tanto vívidas demais.
Serafim lhe trouxe um copo de água fluidificada, que ela agradeceu e tomou aos poucos, olhando-nos como se saísse de um transe, um tanto envergonhada.
Só então nos disse:
O senhor Ariel tinha me dito que me sentiria em casa por aqui, e Deus sabe que nunca fui de falar muito.
Mas é verdade!
Parece que uma força nos impulsiona e as palavras saem de forma mais fácil.
No entanto, vejo tantas perguntas nas pessoas que me ouvem que resolvi fazer uma pausa.
Entre espíritos de avançado desenvolvimento esse fenómeno de sentir os pensamentos é relativamente comum, e a "plateia" já era numerosa.
Eu mesmo já sentia os sentimentos das pessoas presentes em relação à história que ela contava; a maioria simpatizava com Cristine e tinha piedade por ela, mas não eram poucos os que a julgavam, principalmente pelos dois abortos.
Esse fluxo de ideias começou a interferir na narrativa de Edite, cansando-a além do necessário, ao que Serafim, um homem aparentando seus trinta e cinco anos, moreno claro, olhos intensos e muito azuis, entidade respeitada na Colónia, resolveu intervir. Levantando-se, com a voz calma, mas potente, dirigiu-se a nós:
- Acredito que somos aqui, na maioria, ao menos, cristãos.
E é bom lembrarmo-nos sempre das palavras do mestre Jesus, de sabedoria milenar, que nos advertiu seriamente:
"Não julgai para não serdes julgados!".
A isso fez-se silêncio, e no rosto calmo de Edite surgiu um sorriso de agradecimento.
Ele continuou, e falava com doçura:
- Qual de nós, que se recorda de algumas encarnações passadas, pode dizer que nunca incorreu em erros?
A humildade talvez seja a mais necessária das virtudes, pois somos todos falíveis, e o Pai nos aceita sempre, guiando-nos para um novo caminho.
E preciso também olhar a época e os costumes antes de julgar tão duramente.
E certo que o erro aconteceu e que o aborto é um dos crimes mais detestáveis da humanidade, mas talvez Edite nos esclareça o que se passava na época.
Sentada em uma cadeira um pouco mais alta, Edite se sentiu disposta a falar com sua voz calma, mas perfeitamente audível graças à acústica da sala:
- Quem olhar hoje as gravuras da Paris de 1700 verá belas construções, a Catedral de Notre Dame, ruas largas, mulheres ricamente vestidas.
Isso também era Paris.
Mas existiam também milhares de vielas estreitas, becos imundos, pobreza, prostituição.
Nada disso era retratado.
As mulheres ou se casavam com quem a família escolhia, ou, quando de classe social muito baixa, trabalhavam por salários escravos, praticamente pela comida.
Fora isso sobrava vender o corpo.
As cortesãs como Cristine eram de facto invejadas, pois ao menos escolhiam os próprios amantes e dispunham de liberdade financeira, coisa que nem as nobres possuíam com facilidade.
Mas, ter filhos com um nobre?
Era um tabu.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:01 am

Notando nas pessoas certa confusão mental (afinal, se Cristine tinha como manter a criança, que problema haveria?) Edite continuou:
Todas as portas se fechariam para ela.
Teria que se retirar da vida social e não conseguiria mais nenhum companheiro.
Afinal, que homem quer uma cortesã que lhe arrume filhos ilegítimos?
Era uma regra não escrita em nenhum lugar, mas cortesãs que se atreviam a semelhantes actos, não raro terminavam a vida na miséria, a não ser que tivessem o apoio do amante.
E ela não poderia contar com isso.
Por esse motivo a mágoa que tinha do conde:
ela queria as crianças.
No último aborto, ela escondeu a gestação até o quinto mês na esperança de que ele mudasse de ideia.
Ouvi ao meu lado um suspiro profundo e olhei para Esthefânia, minha companheira, que, envolvida com a história, tinha os olhos cheios de lágrimas.
Apertei-lhe a mão enquanto ela me dizia:
- Que triste, marido! Não sabia que cortesãs sofriam assim!
Do público, uma senhora de seus cinquenta anos terrestres, parecendo uma mãe de família italiana, morena clara, nobre e bonachona, mas com fisionomia transtornada, pediu licença e perguntou ao irmão Serafim:
- Aos cinco meses?
Mas que crime horrendo!
A criança já estava formada!
Como pode uma mãe permitir tal coisa?
Qual a punição para uma acção dessas, irmão Serafim?
O bom Serafim levantou-se para responder melhor.
Seus penetrantes olhos azuis fixaram-se primeiro na senhora que fez a pergunta, depois na audiência em geral.
- Entristece-me muito, irmã, essa imagem que muitos temos do Pai, como se Ele estivesse sempre pronto a punir-nos pela menor falta.
Por sermos pequenos, ignorantes e vingativos, imaginamos que o Senhor do universo também o seja.
Acredita mesmo a irmã entender os desígnios do Senhor?
Deus é amor, senhora. Um amor maior do que podemos nós com a nossa pequena inteligência conceber.
O amor não pune, ele ensina.
A senhora ficou numa dúvida atroz, que expressou com palavras:
- Então podemos cometer os actos que quisermos que não seremos punidos?
Que justiça há nisso?
Ele sorriu, conciliador:
- Não há punição, mas consequências.
Essas, sim, plantadas por nós mesmos.
Tolos são os homens que se imaginam maiores que os outros ou inatingíveis, pois desde que a luz do entendimento começou a esclarecer o pensamento humano essa verdade permeou, praticamente, todas as culturas do globo terrestre, primeiro no Oriente, depois no Ocidente:
nada foge da lei do retorno.
No rosto da senhora vislumbrei o clarão do entendimento.
A plateia, já numerosa (em torno de sessenta pessoas), continuava em silêncio. Serafim continuou:
- Nossos irmãos hindus já há séculos pregam a reencarnação, assim como os tibetanos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 07, 2017 9:01 am

Nosso mestre Jesus disse claramente sobre o "nascer de novo", mandalas significando o eterno recomeço foram espalhadas em várias culturas, o "carma" positivo ou negativo foi sendo divulgado mesmo entre os ocidentais.
Devíamos prestar atenção em certos ditos de nossos irmãos orientais; um deles prega que "a palavra tem poder".
E é verdade. Tudo move energia.
E toda energia retoma.
Olívia, até então sentada no alto de uma estante de madeira no fundo do salão, silenciosamente se colocou ao lado de Esthefânia com um sorriso, dizendo em pensamento para nós:
"Prestem atenção, que ele agora vai explicar uma coisa importante".
Endireitando-se na cadeira, minha mulher apertou-me a mão.
Serafim continuou:
- Não disse o Cristo, mestre amado da maior parte do Ocidente, que "quem com ferro fere também será ferido?".
Não notam aí a irrefutável lei dó retorno?
No plano terreno, muitos de nós já condenam o aborto pelo sofrimento físico causado ao feto.
Comenta-se da extrema covardia do acto de uma mãe, que deveria proteger a prole contra todas as intempéries; assassinar dentro do próprio útero, de maneira atroz, o filho indefeso, muitas vezes despedaçando-o e colocando em risco a própria saúde. Tudo isso é verdade.
O feto sofre fisicamente, a mãe também.
Mas, se analisarmos friamente o acto do ponto de vista material, é uma enorme dor física, mas de poucos minutos para o feto.
O real problema é no plano espiritual, e no energético.
Continuando a olhar para todos nós, em especial para Edite, ele prosseguiu:
Acredito que muitas das mulheres que praticaram semelhante ato, se tivessem tido apoio da sociedade em que viviam para terem seus filhos, não abortariam.
Logo, a sociedade e os companheiros dividem essa culpa com elas.
Muitas pessoas que as julgavam por terem abortado também as julgariam por serem mães fora do casamento, talvez de forma ainda mais pesada, pois o aborto ainda podia ser mantido em silêncio, e sofrido apenas por ela.
O filho seria exposto socialmente, gerando direitos e deveres que incomodariam os que julgam.
Aqui no plano espiritual podemos ver que quando somos chamados à reencarnação passamos por um processo lento de ligação ao corpo físico, que começa com a concepção, e só termina na hora do parto.
Geralmente somos ligados ao corpo lentamente ao longo de meses, por isso mantemos as sensações intra-uterinas que aparecem tão comumente em regressões realizadas por parapsicólogos e médicos, e um aborto corta esse vínculo de forma abrupta e dolorosa,
Era verdade.
Em meus anos de Colónia, algumas vezes tinha visto espíritos se encaminhando para uma construção grande, como se fosse um imenso ministério, que era onde se isolavam antes de reencarnar.
Quanto tempo antes do nascimento?
Francamente não sei, acredito que dependa de espírito para espírito.
Mas sei que nesse estágio as memórias de encarnações passadas eram apagadas em sua maioria, para que não influenciassem negativamente na existência que viria.
Claro que em alguns espíritos, muito raros por sinal, essas mesmas memórias não eram totalmente apagadas, mas nisso também existia um propósito, geralmente o do testemunho perante os homens da multiplicidade de existências, mas eram bem poucos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:24 am

Afinal, por que nos lembraríamos de antigas rivalidades, mágoas ou desentendimentos?
Ou ainda de antigas paixões que só nos atrasaram a vida?
Servindo-se de um copo d'água, ele pareceu reflectir:
- Um espírito não reencarna ao acaso.
Alguns por aprendizado, alguns por missão. Cada caso é diferente.
Dependendo do grau de evolução de cada um, a aceitação ou não do rompimento desse vínculo pode gerar consequências desastrosas.
Se o espírito for iluminado, apenas lamentará, mas se não for, poderá se revoltar com a chance perdida.
Essas dores, sim, levam anos para serem sanadas.
Mas, vamos agora observar apenas o caso de nossa amada Cristine, que queria as crianças, mas não teve coragem para tê-las.
Fez-se um silêncio na sala, na expectativa do que iríamos ouvir.
Que almas estariam destinadas a fazer parte da vida da cortesã?
Como que ouvindo meu pensamento, o bom Serafim continuou:
- Uma alma estava destinada a acompanhar Cristine e o conde pela existência terrena.
Seria uma menina, quando reencarnasse, e por duas vezes ela tentou se fixar no ventre da mãe sem sucesso, dadas as convenções sociais da época.
Tratava-se de alma de rara iluminação, ainda que devesse ter saúde física frágil.
Seria para quem a conhecesse um grande alento, pois possuía no meio espiritual grande inteligência e acentuada sensibilidade.
Cristine queria tê-la, mas grande era o laço da menina com o conde, em encarnações anteriores, e foi justamente ele quem a impediu de reencarnar.
Seria para ele alento na velhice que estava se aproximando, juntamente com Cristine, que provavelmente não o teria abandonado.
Nana, interessada na história, captou nas palavras do irmão a chance de mais um aprendizado, e ainda que um pouco tímida, perguntou:
- O senhor disse que ela teria saúde frágil. Então podemos prever o futuro dos que reencarnam, irmão?
Serafim sorriu pacientemente. Não eram poucos os que acreditavam nisso e ele ficou feliz em poder explicar.
- Minha querida Nana, caso o futuro já estivesse escrito, para que reencarnarmos?
Seríamos então apenas marionetes do destino?
Mas algumas características, é claro, já são por aqui mesmo definidas, por exemplo, a genética desses futuros seres.
Como nossa boa irmã sabe, o corpo é uma vestimenta importante do espírito no caminho do aprendizado da alma, e nos valemos disso para que algumas lições sejam aprendidas em seus pormenores.
O assunto logo me interessou bastante.
Como médico, a genética tinha sido uma de minhas paixões, e eu queria desde muito tempo ter me dedicado a mais estudos, pois sempre achei o assunto fascinante.
Ele continuou:
- Nada, no universo de Deus, vem ao acaso.
Os antigos diziam que mesmo os fios de cabelo de tua cabeça estavam contados e que não cairiam se não fosse da vontade de Deus, e estavam certos.
Não se nasce bonito, ou feio ao acaso.
O ser que nasce cego pode ter a oportunidade de enxergar coisas que antes nunca enxergaria.
A moça menos formosa pode desenvolver a bondade e assim tornar-se bela aos olhos de todos.
Em tudo há um motivo.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:24 am

A criança de Cristine teria uma saúde frágil, mas uma vontade de viver férrea, e nenhum pendor para a reclamação.
Viveria provavelmente trinta ou quarenta anos terrenos, mas seriam anos cheios de luz para quem a conhecesse, e depois voltaria para sua verdadeira casa, num nível acima da Colónia.
Lá ela é chamada de Áurea.
Reencarnaria em missão para com ambos os pais.
Fascinado com as explicações, pensei que futuramente o procuraria para elucidar várias dúvidas minhas, já que Serafim, embora prestasse serviços na Colónia, pertencia já a um nível superior e talvez se dispusesse a me iluminar mais nesse aspecto.
Tinha fé de que, se ele julgasse adequado, atenderia a essa minha sede de conhecimento.
Já sabia que a forma como nascem os seres humanos então era predeterminada. Mas, até que ponto?
- E que aconteceu com essa alma depois do aborto, irmão Serafim? - perguntou uma senhora de cabelos muito louros, presumíveis trinta anos terrenos.
Serafim sorriu tristemente.
- Entristeceu-se na última tentativa, pois sabia que seu intuito era apenas o de ajudar os encarnados com a sua presença.
Era uma alma evoluída, e ia apenas em missão, para tornar mais fácil a vida de seus genitores nos embates que se seguiriam.
Lamentou-se e orou por eles, continuando em seu plano espiritual.
Mas Cristine, com a segunda interrupção de gravidez, sofreu muito, tanto física como espiritualmente.
Nunca mais teria filhos, como a parteira que praticou o aborto afiançou.
Isso foi para ela duro golpe, mas sua dor estava apenas começando.
Com o desequilíbrio químico começou o desequilíbrio energético, causando dores de cabeça fortes, aliadas a um desequilíbrio hormonal que a fez ter asco de qualquer contacto físico com o conde.
As consequências fizeram-se sentir sem demora, e assim Gastón perdeu o amor de sua vida.
Edite, sentada atrás dele, assentiu com a cabeça, e continuou:
- E verdade.
Nunca Gastón esqueceu Cristine, nem deixou de se culpar pelo destino dela.
Minha patroa, por sinal, sofria sempre que via passar por ela crianças pequenas, e tinha especial predilecção por menininhas.
Tantas vezes suspirava me dizendo como teria sido se a sua criança tivesse nascido no tempo certo.
Acho mesmo que a paixão repentina pelo belo René foi mais uma fuga do que qualquer outra coisa.
Mas, como prever o futuro, não é mesmo, irmão Serafim?
Ele sorriu para ela:
É verdade, Edite.
Mas se agirmos sempre evitando o egoísmo e buscando o bem, evitaremos grandes aborrecimentos.
Dito isso, nos despedimos para deixar Edite descansar um pouco e para reflectirmos a respeito dos ensinamentos deixados pela amável figura de Serafim.
No dia seguinte retomaríamos aos trabalhos, com a alegria e a dedicação de sempre.
Já íntima de Esthefânia, Olívia acenou para ela com um sorriso alegre, e nos disse:
"Até amanhã", enquanto íamos para a nossa casa, de mãos dadas sob um pôr do sol violáceo como só se tem por aqui.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:25 am

VII - COZETTE
(Narrativa de Edite)
(NO DIA SEGUINTE, Edite estava mais à vontade.
Serafim a acompanhava, sentado ao seu lado em pequeno "palco" no qual também estava a lousa.
Os dois pareciam ter desenvolvido singular amizade.
Quando chegamos à sala, mais da metade das cadeiras estavam ocupadas.
Clara e Nana estavam num canto aos risos com Olívia.
O ambiente era de franca camaradagem e eu sentei-me à mesa de sempre para fazer minhas anotações, deixando Esthefânia com minhas velhas amigas.
Sério em minha função, eu observava as quatro Olívia, Clara, Nana e a minha mulher em animada conversa deixando escapar pequenas risadas.
Com um sorriso, Edite levantou-se agradecendo a presença, olhou-me para avisar que iria começar a narrativa, e as pessoas se calaram.
)
Era o ano de 1754, na França dos Luíses, que já contava com cerca de um milhão de habitantes e era a maior metrópole do mundo.
Existem pessoas que vivem dizendo como as coisas eram melhores no passado, mas não posso dizer que concordo com elas.
Que época terrível era aquela!
Ou o extremo luxo, ou a extrema pobreza.
Tão pouco era valorizada a vida humana!
A hipocrisia dos costumes imperava nas altas rodas sociais é mesmo entre os que se diziam religiosos, sendo muito rara a caridade.
As doenças ceifavam vidas ininterruptamente.
As pesquisas médicas eram vigiadas de perto pela igreja e poucas eram aceitas, quando não tachadas de heresia ou bruxaria.
A falta de higiene e condições precárias faziam com que as crianças francesas perecessem aos montes, para o desespero ou alívio de suas mães, que não suportavam mais vê-los famintos.
Os saudosistas que me perdoem, mas não concordo com eles.
Cristine levantou-se naquele dia de outono pouco depois da uma da tarde.
Encontrou-me na cozinha com Paulette, ela a depenar um frango para o jantar e eu a ajudá-la, descascando legumes.
Minha patroa tinha o semblante calmo, relaxado, e tive que admitir que o tal remédio talvez lhe tivesse feito bem:
as "olheiras" tinham desaparecido.
Sentando-se ao meu lado, faceira, perguntou a Paulette:
- Paulette, tem algo para comer?
Estou com uma fome que parece que não como há dias!
Feliz por se ver requisitada por alguém que não fosse René, ela logo soltou o frango meio depenado dentro do tanque, lavando as mãos, enxugando-as no avental de algodão e sorrindo para a patroa:
- Enfim Deus ouviu minhas preces!
Patroa, faz dias que não come direito, por conta de suas dores!
Não posso dizer o mesmo de "seu" René, que tem apetite por dois, mas a madame... francamente!
Parece um passarinho.
Espere um pouco só que já lhe ponho a mesa!
E olhando para mim, corada, me dizia "allez... allez"7, para que eu a ajudasse.
Em menos de dez minutos a mesa estava posta com três tipos de geleia, dois tipos de pão, bolo e biscoitos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:25 am

Não feliz, ela ainda colocou dois queijos, manteiga e um pote de mel.
Vendo a mesa farta, Cristine riu:
- De onde saiu isso tudo, mulher?
Vai acabar me engordando!
- Ora, madame!
Desde que o conde me contratou para servi-la, deixou muito claro que não admitia economia de comida.
Madame devia ter sempre seu menor desejo atendido.
Isso sem falar nas visitas, que hoje andam escassas, mas que antes consumiam bastante!
Servindo-se de um pão doce amanteigado, Cristine lembrou-se de seus anos com Gastón.
Era rara a semana em que não recebiam artistas para saraus e chás.
Quem se incumbia do que servir era eu ou o conde, Cristine cuidava da parte artística e da decoração das festas, que eram famosas em toda Paris.
Vi um sorriso triste no rosto dela.
- Sim, me lembro.
Tivemos umas festas divertidas, não é mesmo, Paulette?
Mas sempre achei que o conde comprasse prontas as guloseimas.
- Algumas ele comprava mesmo, mas a maior parte eu mesma dava conta.
Trabalhei antes em uma padaria, o serviço daqui, para mim, é um refresco.
E depois, os biscoitos e as geleias, se bem fechados, duram um bom tempo.
Os pães e bolos é que estragam rápido.
Lembrando-me da quantidade semanal de pães que iam parar no lixo, perguntei a Cristine:
- Há tanta fome em algumas ruelas de Paris, madame.
Não poderia levar esses pães já meio passados para eles?
Fariam um bom proveito.
Talvez lembrando-se das dificuldades que enfrentou quando chegou na cidade, ela assentiu:
- Claro que pode levar, Edite.
Mas tome cuidado.
Vá com o cocheiro, pois se existem pobres e necessitados também existem malfeitores que podem lhe atacar nesses lugares ermos.
E em horários que não atrapalhem o serviço aqui, pois sabe o quanto preciso de ti, boa amiga.
Paulette, você que é mais experiente, não iria com ela?
- Claro madame!
Terei muito gosto!
Eu e Paulette teríamos que inventar um modo de fazer caridade, que nos fizesse correr menos que da última vez, mas fiquei bastante feliz.
Não esperava menos de Cristine, que era naturalmente generosa.
Terminando seu lanche, ela esticou-se como um gato a espreguiçar-se e me disse:
- Edite, não quer ir comigo para umas compras?
Andei com tantas dores que há séculos não vejo um vestido novo! Podemos ir ver Cozette!
Fazia tempo que não víamos a irmã mais velha de madame.
Gostava dela, que tinha um temperamento fechado, mas um grande coração.
Escondido pelo biombo do quarto, René dormia e soltava altos roncos enquanto eu a ajudava a arrumar-se.
Num sóbrio vestido azul marinho com golas brancas e pérolas no pescoço e nas delicadas orelhas, ela nem de longe parecia uma cortesã, mas sim uma jovem senhora burguesa bela e casta.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:25 am

Ao sairmos, notei que ela colocava na pequena bolsa o frasco com os tabletes que o chinês lhe dera, dizendo:
"Santo remédio.
Se a dor começar tomo um logo!", e saímos as duas para a carruagem, com o cocheiro Clemente satisfeito a perguntar-lhe:
- Vai às compras, senhora?
- Sim, Clemente.
E depois vamos à loja de Cozette.
Servindo Cristine há uns quatro anos, ele conhecia os itinerários da patroa.
Quarentão, calado, dormia no alojamento dos empregados.
Não tinha família.
Eu soube por Paulette que Clemente era filho de portugueses, casado com uma francesa que falecera havia quase dez anos; vítima de uma gripe que dizimara muita gente.
Acostumado com Paris, decidiu ficar ali mesmo.
Era fiel, não se conformava com o afastamento do conde e a escolha de madame pelo "belo René", por quem não tinha consideração!
Mas, se era o que ela queria, que fazer?
- Moça tão linda... merece coisa melhor.
Ouvi-o dizendo isso mais de uma vez, e não discordava.
Apesar disso, ele servia ao rapaz educadamente, afinal, para isso era pago.
"E não deixaria madame sozinha com 'aquele tipo', ele me segredava, e eu concordava com a cabeça: era bom ter um homem honesto por perto, agora que o conde não estava mais.
A Paris de então era o centro do mundo, a capital mais populosa da Europa, onde se discutia arte, moda, teatro.
Se antes o mundo se curvava a Roma, agora se embevecia com Paris.
Passamos pela Rua Honoré e nos encaminhamos para o centro do comércio, parando assim que Cristine deu o sinal a Clemente, perto de uma confeitaria famosa, frequentada por intelectuais e políticos.
Ao verem descer tão bela dama de vestido azul marinho e pérolas, muitos se levantaram nas mesas das calçadas e ergueram os chapéus.
De trás de minha amiga? sorri com orgulho: ela sempre provocava esse efeito nos homens.
Notei que alguns a reconheceram e cochicharam com aprovação, mas ela apenas sorriu com o canto dos lábios rosados e, altiva, só parava diante das vitrines, olhando um ou outro tecido.
Diante de certa vitrine finamente decorada por chapéus de vários estilos, ela ajustou o corpete, piscando um olho e me perguntando:
- E então? Estou bem?
Sabia a que ela se referia íamos ver Cozette, sua irmã mais velha, que tinha horror à vulgaridade.
Nem que quisesse, Cristine seria vulgar, mas ainda assim abotoei o último botão do decote, ajeitei a camisa de renda e ela me sorriu, corada.
Entramos na loja, ela, de cabeça erguida, perguntou a uma mocinha magra e séria pela proprietária.
Esta levantou-se e trouxe, após alguns segundos, nossa estimada Cozette.
(Surgiu na delicada tela da lousa a imagem de uma senhora loura com os cabelos presos ao alto da cabeça, de uns trinta anos.
Não chegava a ser bela, mas chamava a atenção pelo rosto inteligente de traços clássicos, nariz afilado, lábios finos, olhos grandes, queixo determinado.)
Seu vestido de crepe negro era bem cortado e se ajustava no corpo magro e elegante da irmã de Cristine.
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