A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:48 am

Ele me sorriu:
- Ora, mademoiselle, conhece lugar mais agitado do que esse?
Ri baixinho:
- É verdade. Não temos um minuto de sossego, não é mesmo?
Mal falei isso e um pequerrucho, de uns cinco anos, de nome Tobias, chegou e sentou-se no colo de Joubert, mostrando-lhe com interesse uma farpa pequena que tinha no dedo indicador:
- Não temos sossego, mas temos paz.
Nunca fui tão feliz na vida, mademoiselle e, tirando a farpa do dedo do menino, ralhou com ele.
Vamos, Tobias, peça para Paulette pôr álcool nisso, ou o dedo pode cair!
O menino olhou para Joubert assustado, o dedinho erguido e gritando por Paulette.
Joubert justificou-se:
- Se eu não falo assim, ele nem lava o ferimento.
Finalmente em silêncio, recostamo-nos nas cadeiras a olhar o sol, que ia deixando seus raios.
Terminando de tomar meu chá, ouvi algo estranho.
Pareciam palmas, e olhei para os lados procurando.
Uma luz dourada me chamou a atenção no início da varanda.
Tive a sensação, por um segundo apenas, de ver uns cabelos longos e dourados, se escondendo atrás da larga coluna de madeira.
Perguntei a meu amigo se tinha escutado as palmas.
Joubert, que nada ouvira, estranhou e olhou em volta, nada vendo.
Tentei me levantar, embora me doessem as costas, como me doíam com frequência naqueles dias.
Senti uma agulhada no braço esquerdo e fiz uma careta. Ao me ver recolher o braço ao peito, meu amado amigo ficou alerta:
- Edite! Edite!
Ficou pálida, que foi?
Cozette, me acuda aqui!
Minhas mãos adormeceram, e uma feroz dor no peito me fez recurvar, enquanto eu ouvia novamente as palmas e um riso cristalino, como se alguém estivesse feliz.
Que criança era aquela tão desnaturada que ficava contente enquanto eu sentia dor tão forte?
Senti os braços de Joubert em torno de mim, mas a dor me encolhia.
Ele me colocou na cama de meu quarto, Cozette correndo a me trazer compressas, com Paulette.
Eu via tudo, mas estava de olhos fechados, quando, de súbito, vi meu próprio corpo em posição quase fetal na cama, eles tentando me colocar erecta.
Meu Deus, como eu estava velha!
Que semblante de dor horrível!
Olhei em volta preocupada de as crianças verem semelhante cena.
Já me entendi morta...
Ouvi novamente as palmas, duas de cada vez, olhei atrás de mim e vi Cristine, radiante, mais bela do que nunca, junto de amigos espirituais que não conhecia!
- Cristine!
Deus é pai, Cristine!
Estou morta de facto?
Que foi que tive, que dor foi aquela que parecia explodir meu peito?
- Coração.
Mas agora tudo passará, irmã.
Que trabalho lindo, Edite.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:48 am

Da ostentação do mundo vocês criaram um lugar para os desamparados, como pedi!
Deus se orgulha de você, Edite!
Há tempo espero para ver minha mais preciosa amiga!
Que saudades!
Tonta com o desligamento do corpo (não pensem que é coisa simples, ainda mais em partidas rápidas), ouvi o choro e a tristeza de Joubert.
Vi a extensão de seu amor por mim e meu coração se encheu de ternura.
Quantos, sem um décimo dessa paixão, se entregam a desvarios completos, e Joubert sempre se portou como admirável amigo, e o mais fiel dos protectores.
Perguntei por Gastón, já que o sabia no plano espiritual anos antes.
Ela teve um olhar triste:
- Tudo tem seu tempo.
Agora é hora de descansar.
E eu, querendo ou não, dormi.
E acordei na abençoada Colónia que hoje fica situada acima da região de Lyon, na França.
Tempos depois eu também reencarnaria, com a graça de Deus, no Brasil.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:48 am

EPÍLOGO - (Narrativa de Ariel)
AINDA CANSADA DE sua narrativa, sob o olhar encantado de Serafim, Edite continuou:
Dizem que morrer é como renascer no corpo físico.
Na realidade, é parecido, mas muito mais simples do que isso.
Há aqui nessa Colónia um conjunto de prédios que servem aos que vão encarnar de novo, e sabemos da preocupação que isso causa aos que vivem aqui e têm que voltar ao plano terrestre.
E como não seria assim, quando aqui vivemos tão bem sem os malfeitores que encaramos na Terra!
Fora as dores tão comuns na existência terrena, aqui sanadas com tão maior facilidade.
Choram por nós quando morremos.
Se lembrassem de como é aqui, chorariam apenas pelos maus, ou por aqueles com grandes dívidas a pagar.
Esses, sim, merecem... não o choro compreensível, mas as orações incessantes, pois muitas vezes foram incansáveis nas más acções e nos pensamentos condenáveis.
Tinham sido meses com os quais Edite nos presenteara com sua narrativa, e devíamos ser gratos a ela.
Serafim olhou para Olívia, sentada como sempre no alto de um móvel a observar, e pediu-lhe:
- Olívia, não quer nos presentear com algumas de suas impressões.
Para quem ainda não a conhece, ela é uma querida amiga, bastante discreta, que normalmente habita em níveis superiores.
Acredito que com as perguntas que estou ouvindo mentalmente, você me será muito útil.
Para o assombro de alguns e alegria de Nana e Esthefânia, ela flutuou até o meu lado, e ficou em pé, mãos nas costas, a olhar a audiência.
A primeira pergunta veio logo, assim como a resposta da menina-moça:
- Como ficou o conde depois da desencarnação?
Foi logo acolhido?
- Embora tenha sido gentil com muitos, Gastón cometeu erros graves durante aquela existência:
alguns assassinatos de rivais em negócios, quando lhe fraudavam financeiramente, assim como a morte do meio-irmão por parte de pai, que começara a exigir parte da herança, embora esta tenha sido em legítima defesa.
O conde era um cavalheiro, mas, como a maioria dos poderosos de seu tempo e país, implacável.
Materialista, embora gostasse de seu amigo padre, acreditava apenas numa vida e ria da versão de paraíso e inferno.
De natureza epicurista, achava que o que lhe dava prazer era o que lhe importava, mas realmente amava algumas pessoas:
Cristine, como mulher, Edite, como amiga.
Tinha especial respeito por Joubert e sabia ser camarada com os empregados da casa, com os quais era até generoso, escondido da condessa.
Depois do derrame, sofreu penas do inferno na própria família.
Impossibilitado de falar, apesar de riquíssimo até fome passou.
Isso o levou a reflexão no final da vida, mas quando desencarnou ficou preso ao corpo apodrecido um bom tempo, por não acreditar em vida após a morte.
Quando notou que algo mais acontecia, "assombrou" seu próprio castelo por medo de sair infernizou a vida dos filhos, viu serem decapitados e perderem tudo.
Muitas Vezes chorou em solidão e pensou em Cristine, que conseguiu trazê-lo para a Colónia depois de muito tempo, quando finalmente se lembrou de Deus.
Reencarnou depois, para estar junto dela, no Brasil.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:49 am

Uma senhora que antes se manifestara tomou a perguntar:
- A mesma pátria para onde veio René?
- A mesma pátria protegida por Deus para onde migram dezenas de civilizações, que são incentivadas na verdade universal de desenvolverem tolerância umas com as outras.
Se no início houve a nódoa negra da escravidão, pelos próprios erros humanos, agora estes mesmos começam a enxergar a vantagem da aceitação e da união de raças.
São muitos que esperam para ir para lá, e poucos os escolhidos.
Edite também comentou:
- Tanto Cristine como eu fomos para o Brasil, assim como Joubert e o resto de nossa família.
Conseguimos essa graça de nos manter juntos e nos ajudar mutuamente!
Uma senhora de aparentes cinquenta anos, vestida de forma pudica, cabelo castanho-claro, fez uma pergunta que estranhei um pouco:
- Os senhores me perdoem, sei que pertenço a outra religião, mas sou, como vocês, cristã.
Em vida fiz parte de inúmeras obras meritórias, venho de berço rico e a caridade sempre nos foi ensinada em casa.
Tínhamos rígidos princípios morais, ensinados por nossos pais, que faziam questão que a educação de suas três filhas fosse primorosa.
Passei minha vida em casa, cuidando de meus pais, como era costume na época:
que a filha mais nova não se casasse, e ficasse responsável por eles.
Quando eles se foram, fiquei na casa, em briga com minhas outras irmãs pela herança, pois queriam de toda forma me destituir, inclusive do tecto que tinha habitado durante minha vida inteira.
Tinha conseguido atrair a atenção de todos.
Serafim a escutava com atenção, educadamente.
Olívia, de olhos baixos, olhava as mãozinhas como se já conhecesse o desfecho da história.
Ela continuou:
Desencarnei doente de mágoa em 1930, depois de muitos aborrecimentos e nenhum reconhecimento por parte de minha família.
Fui abnegada, abdiquei de marido e filhos, e olhe que pretendentes não me faltaram.
Ainda assim, depois de tanta caridade e sacrifício, passei longos anos no umbral, ouvindo as maldades de minhas irmãs e as sandices de meus criados.
Visitei muitas vezes o casarão onde morava, que foi demolido e transformado em prédio de modernos apartamentos, para meu desespero.
E vocês me dizem que uma cortesã, que passou a vida em pecado com um homem casado, cometendo dois abortos, já veio para a Colónia?
Eu morri virgem, me sacrifiquei por todos, e ainda penei longos anos, quase vinte, antes de ser resgatada por irmãos prestimosos que me recolheram daquele vale de lágrimas.
Não quero julgar, mas que Justiça Divina é essa?
Olhei para Edite, que podia ter se sentido ofendida pela amiga que tanto amava, mas em seu olhar só vi pena pela criatura que parecia tão revoltada.
Olívia olhou para Serafim e lhe disse mentalmente:
"Acho melhor que você responda", Ele respirou fundo e eu vi em seus olhos uma grande tristeza quando disse:
- Seu nome é Doroteia, não?
Ela respondeu que sim, orgulhosamente, e ainda deu seu sobrenome terreno.
Ele continuou:
- Não foi Anita, que desencarnou depois da senhora, a irmã com quem a senhora tanto brigou, que a socorreu do umbral?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:49 am

Um tanto envergonhada, ela respondeu:
- Sim... Hoje moramos aqui juntas, ela tem uma casa e trabalha ajudando num dos hospitais.
É da mesma crença de vocês, e nos damos muito bem.
Foi ela que insistiu para que eu ouvisse esses relatos que por sinal achei fascinantes.
Mas não
consigo entender a Justiça Divina nesse destino de Cristine!
Serafim moveu-se no semicírculo, para ficar um pouco mais perto dela, que estava numa das cadeiras finais, embora sua voz fosse perfeitamente ouvida em todo o salão, assim como o menor murmúrio que fizesse.
- Entendo... - disse ele.
A senhora trabalha em quê, aqui na Colónia?
Ela respondeu, como que se desculpando:
- O período que vivi no umbral foi tão traumatizante, que até hoje não me sinto em condições de trabalhar.
Aliás, não consigo entender por que passei por semelhante prova!
Vocês pregam a caridade e sempre fui caridosa!
Vi que Serafim franziu o cenho, e não gostou da resposta que ouviu.
Apesar disso, não respondeu irritado, embora surpreendesse Doroteia Com seus comentários:
- É pena que não trabalhe.
Se assim fizesse, teria melhorado bastante.
O que a tirou da situação constrangedora do umbral foram os pedidos e a acção meritória de sua irmã, a quem a senhora tanto prejudicou em vida, embora ainda não admita.
Aliás, a falta de humildade é o que mantém muitas almas presas por lá.
O trabalho honesto e em prol do próximo é uma das maiores dádivas de Deus, não conheço religião na Terra que não pregue isso.
Mesmo sua igreja católica não se cansa de dizer:
"Não julgue!", "Faça ao seu semelhante o que queria que fizessem a você mesmo", "Ama a seu semelhante".
Por que julga agora? Em que aula do seu catecismo andou faltando?
Ele olhou para ela com carinho, e continuou:
- Minhas escusas se toco em seu passado, mas você mesma o citou insistentemente.
Nenhum de seus empregados verteu pela senhora uma lágrima sequer quando se foi.
Os de Cristine se sentiram abandonados da maior protecção que tinham na Terra.
Apenas Anita, de seus parentes, se compadeceu pela senhora.
Quanto à cortesã, mesmo Adele, tola e sem sentimentos, lamentou a falta e o destino da irmã, porque ficou sem a quem recorrer, sabendo de seu coração e sua bondade natural.
Cozette se viu privada de sua confidente e melhor amiga, Ernestine pranteou-a por longos anos e sempre agradeceu a ajuda pela educação, o marido tão bem escolhido, além do dote providencial que lhe garantiu o tecto pelo resto de seus dias.
A plateia o olhava, admirada de Serafim saber tanto sobre a vida de Doroteia, e via no rosto da senhora a confirmação da fala dele.
- Nenhum de nós aqui deve julgá-la por nada, irmã, visto que todos temos dívidas no passado, mas sua última existência foi de fato como conta?
Praticou mesmo a caridade?
Ela revoltou-se:
- Mas, é claro.
Enquanto meus pais viviam, eu ia regularmente á igreja levar dinheiro para as obras.
Minha mãe fazia questão e eu levava com gosto!
- E depois da morte de seus pais?
Continuou fazendo, com o seu próprio
dinheiro?
Ela ficou um tanto sem jeito:
- Ora, a briga pela herança foi tal, que tive que proteger meu património! Não tive mais tempo de pensar em nada!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:50 am

- Então o certo é dizer que quem dava dinheiro para as obras da igreja eram seus pais, já que a senhora nunca trabalhou nem tinha renda que fosse sua?
Silêncio. Edite interveio:
- Cristine nunca negou nada a nenhum pobre que visse na rua.
Comigo, dava comida regularmente a algumas pessoas que passavam pelo portão, não só em épocas festivas, mas sempre que apareciam.
Morávamos em um bairro longe do centro e da mendicância, mas os que vinham, nunca saíam de mãos abanando.
Em nossas viagens à Argélia e ao Marrocos, pedia ao conde moedas de pequeno valor para distribuir aos meninos, que vinham correndo até as caravanas atrás de agrados.
Presentes, sempre nos deu.
Não tinha ganância, talvez por isso prosperasse tanto.
Nunca fez questão nem de suas jóias, e o bem-estar dos seus era sua principal preocupação.
Seu último pedido, já que não pôde fazer isso em vida, foi pelas crianças necessitadas.
Tudo que era seu iria para elas.
De espírito indócil, Doroteia revoltou-se:
- Falam como se fosse uma santa, mas era uma cortesã!
Serafim não se irritou, baixou a cabeça e, quando a levantou, parecia que brilhava um pouco mais que de costume:
- O Cristo nos ensinou a não julgar pelas aparências.
Cristine foi criada em família simples e trabalhadora, nada lhe faltou na infância, mas, com a morte do pai, o esteio material lhe foi tirado na vida.
Dona de beleza sem par, mais inteligente que a maioria, dotada para as artes, se fosse má teria sido letal para a sociedade.
Mas, como diz Edite, ela não era uma cortesã comum.
Não lhe faltaram homens interessados, propostas mais vantajosas que as do conde, que por isso mesmo a cobria de presentes, principalmente no Oriente.
Ainda assim ela se manteve fiel, e o foi de forma natural, pois amava Gastón, não com o desvario da maioria das mulheres, ou com o sentimento possessivo que marca os seres que se dizem apaixonados:
acreditava que, se o amava, devia fazê-lo feliz, e o fez, até que ele, tolo e insensato, movido pelas convenções sociais, quase a feriu de morte quando a forçou a desistir pela segunda vez de ter um filho.
Foi mais fiel que a maioria das mulheres casadas, pois nem em pensamento ela desejava outros homens.
Aqui nada se esconde, Doroteia.
Podemos ser gentis e ponderados, mas enxergamos e, se necessário, revelamos.
Doroteia enrubesceu violentamente, talvez se lembrando de algum acontecimento de seu pretérito, e com isso se calou.
- Não devemos carregar de culpa se há o perdão.
O moralismo, porém, costuma vir forrado de vícios que os próprios moralistas escondem. Cuidado.
Muitas vezes aquele que aponta o erro alheio quer apenas esconder ou minimizar o próprio.
Quanto aos abortos:
quando um crime é cometido, é preciso ver a época em que ele aconteceu, os costumes que imperavam, as pessoas envolvidas.
O aborto na França do século XVIII não era visto como é hoje.
Era prática comum, embora não comentada nem pela igreja, nem pela sociedade abertamente.
"Coisa de mulheres", assim era chamado, e, na falta de meios anticoncepcionais eficientes, era utilizado muitas vezes por quem tinha algum recurso.
Já os pobres, esses tinham seus filhos aos montes e, às vezes, os criavam na mais profunda miséria, noutras vezes os abandonavam.
O mundo era muito mais primitivo e cruel, então.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:51 am

No primeiro aborto de Cristine, a gestação estava tão no início e ela era tão nova, tão acostumada a ver mulheres de seu meio tomarem aquele tipo de atitude, que, apesar de sofrer por querer a criança, superou com relativa facilidade.
Mas, jurou para si mesma que, se engravidasse de novo, teria a criança.
Com a vinda de Edite as coisas ficaram mais fáceis, e quando veio a segunda gravidez, ela não imaginava que o conde agiria daquela forma.
Contrariar um nobre era quase uma sentença de morte; a humilhação foi muito grande e ela cedeu.
No fundo, porém, sabia não ter chance, por isso seu sentimento de culpa não foi assim tão grande.
Aliás, sabe quem a recebeu no mundo espiritual, aliviando suas últimas dores, para que pudesse falar com Gastón antes de morrer?
Edite deu um sorriso alegre e misterioso, pois sabia.
- A própria Áurea, que devia ter reencarnado como sua filha, e que vive comigo numa morada superior a esta.
O espírito que sentiu tão duramente o desligamento durante o aborto nunca culpou a mãe, e até hoje é o que vocês chamam de seu "guia protector", dado seu grau de adiantamento.
A verdade é que quanto mais amor você espalhar na vida terrena, mais fácil é o desligamento, e Cristine espalhou muito amor.
A imortalidade é um presente de Deus, irmã Doroteia.
A humildade é a maior das sabedorias, e o trabalho em prol do próximo nos poupa da dor, aproximando-nos da felicidade que os bens terrenos nunca nos deram.
A reencarnação é preciosa dádiva, e o Criador, em sua magnitude, com ela nos faz saldar dívidas que ficariam pela eternidade, tomando a Terra uma das escolas abençoadas.
Sei que não se lembra de suas vidas passadas, por escolha própria, mas talvez fosse a hora de procurar saber.
A hora de sua reencarnação se aproxima, como a de alguns que nos assistem, e não há razão para medo, mas para agradecimento e esperança.
Olhei para Esthefânia, tantas vidas tivéramos na Terra juntos!
Para o espírito da Colónia, reencarnar é muitas vezes mais amedrontador do que morrer para os vivos.
Sentindo o medo em alguns presentes, Edite disse, encerrando sua história:
- Não há motivo para medo se há fé.
Cristine e eu reencarnamos juntas, coisa de um século depois, no Brasil, e lá tivemos também o nosso aprendizado.
Nossa amizade e amor mútuos apenas se fortaleceram!
Tivemos vidas juntas antes, e o laço depois veio ainda mais estreito, cuidamos uma dá outra, pois Deus, como bem diz Clara, não abandona!
Missão encerrada, abracei Edite, amiga a quem esperava ver outras vezes.
Olívia confabulava com Serafim, alegre e faceira.
Nana e Clara nos sorriram e se afastaram, iam para sua morada no outro lado da Colónia, pois Júlia ainda necessitava de atenção em seu novo lar.
Respirei o ar puro do lado de fora do edifício e vi Serafim e Olívia ainda a conversarem animadamente.
Como era bonito ali! Senti certa pena dos que teriam que voltar à Terra e perder o contacto com aquele ar translúcido, aquelas flores e frutos fantásticos, aquela paz reinante!
É certo que trabalhávamos muito, mas não nos ressentíamos disso, pois quanto mais trabalhávamos, parecia que mais felizes éramos.
Olívia parou ao meu lado:
Não precisa se preocupar, Ariel.
Você é muito necessário aqui.
Não há planos reencarnatórios nem para você, nem para Esthefânia por enquanto.


Última edição por Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:52 am, editado 1 vez(es)
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 21, 2017 8:52 am

Olhei para ela meio ressentido, aquele jeito de ler meus pensamentos mais íntimos sempre me irritava um pouco:
- Não estou preocupado...
Quem disse que estou preocupado?
- E depois disse-me ela ainda sorrindo, como se estivesse brincando comigo tem feito um bom trabalho.
Esthefânia então, nem se fala!
Aquela, sim, é uma santa!
Olhei minha mulher que vinha se aproximando, apaixonada pela menina ao meu lado.
- E verdade.
O senhor coloriu meu caminho quando colocou Esthefânia nele.
Antes que ela chegasse, Olívia me surpreendeu, piscando um olho:
- Assim como coloriu o dela, com você.
Dito isso, afastou-se de mim, para comentar com Esthefânia sobre a história que tínhamos ouvido.
Fiquei a imaginar se veria Serafim novamente, e jurei a mim mesmo me empenhar e estudar mais para, quando o visse de novo, fazer algumas perguntas.
Afinal, não é sempre que um espírito como o dele entra em contacto.

Luz e paz.
Ariel

§.§.§- Ave sem Ninho
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