A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:25 am

Olhando as duas, era difícil crer que fossem irmãs, embora tivessem o mesmo tom de pele, e o louro dos cabelos fosse parecido.
De resto, eram mulheres de estilos diversos.
Enquanto minha amiga era toda ela de harmoniosas curvas, Cozette era de ângulos retos, mesmo o maxilar tinha um formato quadrado, o que nela não ficava mal, dando-lhe uma expressão de superioridade.
A mais velha também era mais alta e mais forte, tinha voz de contralto, não deixando de ser bastante feminina.
Uma vez ouvi Cristine compará-la com uma inglesa, directora de colégio, de tão séria:
não era dada a gracejos mesmo!
Seu trabalho era a coisa mais importante em sua vida, e tinha um bom gosto que chamava a atenção e atraía clientes como o mel atrai as abelhas.
Ao ver a irmã, franziu as sobrancelhas de modo característico.
Cristine, no meio da loja quase sem clientes, deu uma volta sobre si mesma na ponta dos pés, para que ela visse sua roupa, e completou,, séria:
- Gostou? E meu vestido de ver Cozette!
Ao ver a irmã tão linda, vestida de forma tão conservadora só para agradá-la, um brilho passou pelos seus olhos cinzas.
Cozette sorriu, abraçando-a:
"Ande, já prá dentro que faz séculos que não a vejo!", e pediu à mesma moça que providenciasse chá e biscoitos.
Ela não aprovava a vida de cortesã da irmã, mas a amava, e era grata por Cristine ter-lhe ajudado no início de seu negócio, que agora prosperava a
olhos vistos.
- Tem notícias de Ernestine? perguntou a bailarina.
- Está grávida.
Deve ter bebé nos próximos meses.
Quando nascer, lhe aviso, pois devo ir visitá-la.
E o "seu conde", como está?
Ela explicou que rompera com ele há meses, e agora estava de amores com um rapaz solteiro.
Cozette, que nunca se conformara com o destino da irmã, encheu-se de esperança:
- Então, finalmente vai casar-se e me dar sobrinhos?
Cristine enrubesceu violentamente, mas respondeu:
- Estamos há pouco tempo juntos, Cozette, ainda não falamos em casamento.
E depois, não sei se posso ter filhos...
Cozette aguçou o olhar, como se quisesse descobrir mais do que ela dizia:
- Este René é de família tradicional?
Que faz ele da vida?
Quase me engasguei com o biscoito imaginando a resposta que Cristine daria.
Ela, muito vermelha, começou a explicar:
- Não tem laço de nobreza, é apenas da burguesia, como nós mesmas éramos.
Actualmente estuda, quer ser advogado e vive da mesada de um tio mais abastado.
E um ou dois anos mais novo do que eu, com o tempo se estabelecerá.
E depois, como sabe, não tenho problemas financeiros, irmã.
Recostada numa cadeira de espaldar alto, Cozette cruzou os braços sobre o colo:
- Cristine, bem sabe que a burguesia costuma ser ainda mais preconceituosa que a nobreza.
Quanto ao lado financeiro, agora que não conta mais com o conde, seria mais sensato ter quem cuidasse de seus investimentos para você.
Não gosto do conde e nunca gostarei, pois a levou para um caminho que nossos pais nunca aprovariam, aproveitando-se da nossa situação.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:25 am

Mas ninguém pode dizer que ele lhe obrigou a nada.
Além disso, devo reconhecer que dificilmente você teria um patrono mais generoso.
Serviu-nos de mais uma xícara de chá.
Gostava já de Cozette antes, mas ouvi-la falar de semelhantes assuntos, me deixou mais tranquila.
Afinal, como poderia eu opinar?
Ela continuou:
- Ter muito dinheiro não significa que vá tê-lo sempre.
É preciso saber investi-lo com cuidado, para que na velhice não lhe falte o essencial.
Quem tem tomado conta de seus bens?
Minha amiga ficou um tanto sem jeito, mas respondeu:
- Tenho tido fortes dores de cabeça, o que me impossibilita de me ocupar com essas coisas.
René tem sido bastante prestativo e tem se ocupado com as contas da casa.
Edite tem visto, não é mesmo?
Nunca me preocupei muito com essas coisas.
O conde sempre cuidou de tudo.
Notando o embaraço da irmã, Cozette colocou a mão direita sobre as mãos dela em cima da mesa e disse-lhe:
- Não vamos falar mais disso hoje, sinto que não está bem.
Mas deixaria Edite me inteirar das contas da casa?
Está a par, não está, Edite?
Sentindo uma esperança de ajuda, respondi sem titubear:
- Estou sim, senhora.
Fazia anotações de tudo para o conde, continuei fazendo para madame.
Ela anda adoentada, não tem ânimo de verificar.
Notei que Cristine franzia a testa e pediu água à moça que nos servia.
Rapidamente tomou um daqueles tabletes do dr. Kayzen.
- São para minhas dores de cabeça, irmã.
Mas, por que quer saber de minhas contas?
Isso não vai lhe trazer ainda mais trabalho?
- Podem me chamar de muitas coisas, mas não de ingrata.
Sem você eu seria no máximo serviçal de algum ateliê de costura, e não a proprietária.
Que me custa colocar meus préstimos a seu serviço?
Esse rapaz com quem está não conta com a minha experiência financeira, conta?
Cristine riu-se.
Era difícil encontrar alguém com mais talento para os negócios que Cozette, o próprio conde lhe dizia isso.
Dizia que o mesmo talento que uma tinha para a dança, a outra tinha para as finanças.
- Tem toda razão, irmã.
Mas, não acha que René pode se ressentir?
- Ora, diga apenas que ele precisa dedicar mais tempo aos estudos, que isso é que importa. Duvido que ele vá abandonar mulher tão bela e famosa por conta disso.
Mesmo porque, vou deixá-la ainda mais rica!
Cristine sorriu.
Pediu a mim que escolhesse uns tecidos numa loja em frente e trouxesse para ela enquanto discutia alguns assuntos com Cozette, conversaram as duas por mais de uma hora.
Amava e confiava na irmã, mas já conhecia o génio de René.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:26 am

Não seria fácil dissuadi-lo de gerir seus negócios, mas não via nele a habilidade necessária.
Era talvez jovem e inexperiente demais, sem falar no amor que tinha ao jogo.
Teria que ser dura com ele, afinal tratava-se do futuro de ambos.
Isso ela me disse na volta à nossa casa, enquanto o remédio fazia efeito e a deixava com o olhar enevoado.
Perguntei-lhe se a dor amainara.
- E uma bênção, Edite!
Só quem sofre fortes dores sabe como é bom quando elas passam!
Assim falando, recostou a cabecinha no meu ombro e cochilou um pouco.
Quando chegamos, Clemente admirou-se de vê-la dormindo no meio dos embrulhos de compras, tranquila como uma criança:
- Olhe! Dorme como uma menininha!
Quer que a leve no colo, Edite?
- Não é preciso, Clemente, mas leve aqui esses embrulhos.
Deixando-o bem carregado, acordei de leve Cristine, que resistiu por
um tempo; só depois de chamá-la mais alto, me ouviu e disse:
- Já chegamos, Edite?
Mas que sono!
Tenho que falar com René.
Vendo que ela não estava em condições de conversar, aconselhei:
- Nada que não possa ser dito amanhã pela manhã, não é mesmo?
Assim estará mais descansada!
Sentando-se com certa dificuldade ela me disse:
- Tem razão. Esse remédio é forte.
Vou tomar metade da próxima vez.
Amanhã de manhã converso com René.
Hoje vou comer algo e dormir.
Na sala, René esperava-nos vestido para sair, com seu colete e sua casaca impecáveis como de costume.
Ao vê-la entrar, correu a acudi-la.
- Dores de cabeça novamente!
Como sofre, pobrezinha!
Justo hoje, que tinha marcado com alguns amigos no clube... não poderá ir?
Ela o olhou um tanto cansada:
- Não se cansa de sair toda noite, René?...
Não estou com dores, o remédio do médico chinês é milagroso, mas me deixa com sono.
Quando me acostumar a ele, sairei mais com você, mas por enquanto vou me deitar.
Ele pareceu ficar sem acção, como se não soubesse que atitude tomar.
- Deseja que fique com você?
Mas, se vai dormir... não vejo por que deixar nossos amigos esperando.
Ela sentou-se num divã:
- Faça como achar que deve.
Vou dormir. Amanhã devemos conversar.
Estive com minha irmã Cozette e tomei algumas decisões para o nosso futuro que acho que lhe interessarão.
Estou bem... vá se divertir, meu querido.
Não vai jogar essa noite, não é mesmo?
Ele avermelhou-se como um pimentão.
Sentindo que ficou incomodado com a minha presença, pedi licença e saí da sala, mas não resisti e fiquei ouvindo do corredor.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:26 am

Ele respondeu:
- Ora, Cristine.
E o que são essas reuniões sem os jogos de cavalheiros?
Notei um silêncio embaraçoso na sala, e só então dei com Paulette a meu lado, fazendo sinal para que eu me mantivesse em silêncio, pois ela também queria ouvir.
De início me assustei, já que não esperava vê-la ali, mas depois nos acomodamos.
Ouvi a voz cansada de madame dizer:
- Está ainda recebendo os rendimentos de meus imóveis, não está, René?
Como estão as nossas contas?
Os empregados estão recebendo regularmente?
Claro que não estávamos!
Fazia já três meses que ele não nos pagava.
Mas, não discutíamos com madame, que sempre tinha sido excelente patroa.
Aliás, na França da época, esses atrasos eram comuns; Cristine e o conde é que eram extremamente pontuais.
- Amanhã discutiremos isso.
Agora vejo que está cansada.
- Estou mesmo.
Não chegue muito tarde, sim?
Ele retirou-se.
Fui ter com ela para levá-la ao seu quarto, despi-la e colocá-la na cama.
O remédio fazia efeito, e ela mal tocou no caldo que a cozinheira trouxe, antes de dormir.
Fechei as cortinas e olhei para o belo rosto de respiração pesada na cama:
como gostava de Cristine!
Nunca ninguém tinha me tratado com tanta bondade, confiança e amizade.
Paulette tinha por ela sentimentos parecidos, mas se eu gostava dela como de uma irmã que não tinha, nossa amiga a tinha como uma sobrinha ou mesmo uma filha.
Ela lhe inspirava protecção e carinho.
Quando saí de seu quarto, dei com Paulette torcendo as mãos, sinal de que precisava falar algo comigo.
Desci com ela para a cozinha.
Chegando lá, Paulette "despejou":
- Depois dizem que rezar não adianta!
Como não adianta?
Tenho rezado todas as noites para a patroa acordar desse pesadelo chamado René e ela está acordando!
Eu sabia!
Essas paixões violentas assim são que nem gripe:
derrubam, mas passam logo!
Dei um longo suspiro e disse:
- Deus te ouça!
- Também, o rapaz é um tolo!
Poucos meses e ele já a trata como se ela fosse uma moça comum, que ganha um grande presente só com a presença dele!
Bem que dizem que a vaidade bota a perder até o mais esperto dos mortais!
Não vê que está com uma das mulheres mais belas da França?
Cristine foi cortejada por reis e manteve-se fiel ao conde!
Esse podia ter defeitos, mas sempre a tratou como uma rainha!
Sabendo que Paulette estava com ela há anos, detive-me para ouvir.
- Certa vez, madame teve uma febre alta, uma pneumonia.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:26 am

O conde mudou-se para cá por semanas, médicos o dia inteiro, não saiu do lado dela nem por um minuto até que se restabelecesse.
Assim que mostrou melhoras, foi com ela para o sul da Itália, onde o clima era melhor.
Levou-me junto, para que não estranhasse a comida!
Que tempos aqueles, Edite!
Como ele amava madame!
Não duvidava disso.
Via nos olhos do conde esse sentimento ainda hoje, depois de separados.
Ela continuou:
- Já com este janota, a pobre sofre com dores de cabeça e ele reclama que quer estar com os amigos!
Não há tolo maior do que aquele que se acha esperto!
Ela está começando a enxergar!
Ela começou a falar sobre os gastos e os salários atrasados, ao que eu a tranquilizei, contando sobre a ajuda de Cozette.
Paulette, que já achava tudo perdido, disse que ia reforçar suas rezas, que Nossa Senhora não a desapontaria.
Por via das dúvidas, pedi a ela mais uma vela para colocar aos pés da Madona, quem sabe com um pouco mais de oração a coisa não se acelerasse.

7 - Vamos... vamos".
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:26 am

VIII - LEMBRANÇAS E QUESTÕES DOMÉSTICAS
QUEM DE NÓS sabe por onde anda o coração do outro?
Deitada em meu quarto, iluminado com uma pequena vela, não conseguia conciliar o sono e divagava olhando as sombras que se formavam no tecto.
Sempre tinha admirado Paulette por seu senso prático, apesar do bom coração, ela não se deixava levar facilmente, e René nunca caiu nas suas graças.
Não que ele se esforçasse para isso, já que era ríspido com os serviçais quando não estava na presença de Cristine.
Perto das duas da manhã ouvi um cavalo chegando e a porta da entrada se abrir.
Como os aposentos dos empregados eram próximos à cozinha, escutei quando René entrou na casa, passos rápidos, batendo a porta como se estivesse irritado.
Estava chegando cedo, naquele dia: não voltava antes das quatro horas da manhã.
Forcei-me a fechar os olhos, mas, preocupada que estava com madame (vai que ele a acordasse, querendo discutir finanças àquela hora), não teve jeito.
Acabei por levantar e ir silenciosamente à cozinha beber um copo de leite quente para tentar dormir.
Parecia que ele já havia subido para o quarto, assim não o veria e, ao mesmo tempo, estaria por perto caso Cristine precisasse.
Agradeci a Deus, ter Clemente sempre por perto, nunca se sabe quando se vai precisar de um homem.
Vestida de um quimono velho de madame, eu devia mais parecer uma assombração com a touca prendendo os cabelos e a vela a iluminar o caminho.
Preparei rapidamente o meu leite quando ouvi uma voz grave às minhas costas e senti o cheiro característico de álcool:
- E então, camareira... passearam muito hoje, você e a patroa?
Foram ver a irmã mais velha, como se chama mesmo? Cozette?
Embora me sentindo desconfortável de estar sozinha com um homem àquelas horas, decidi não agir com medo:
- Sim, senhor... madame quis ver a irmã, Cozette.
Ele sentou à mesa de madeira onde Paulette sovava as massas e preparava seus crepes, apoiou o queixo nas duas mãos como se fosse um menino e me deu um sorriso zombeteiro.
Era de fato um bonito rapaz, mas não gostei daquilo.
Senti um perigo no ar, e quis fugir quando ele disse:
- Sente-se, Edite, não mordo.
Pelo menos, não mordo camareiras.
Vamos conversar um pouco.
- Mas já é tarde, senhor, e tenho serviço amanhã.
Ele levantou-se, parecendo irritado:
- Sente-se logo, mulher! Estou ordenando!
Recriminei-me de não ter ficado no meu quarto.
Que ideia estúpida a de ter ido buscar leite!
Sentei-me, colocando o copo na minha frente e olhando para baixo, na esperança de que ele me liberasse logo.
- Pois não, senhor René.
O que deseja?
Ele tornou a sentar-se, mais calmo:
- Queria saber sobre o que conversaram, minha amada e a irmã.
Soube que Cozette é uma comerciante de sucesso, bastante astuta e respeitada.
Falaram de mim?
Agradeci intimamente por ser noite e estar pouco iluminado, pois sabia que havia empalidecido.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:27 am

Claro que falamos dele, mas não ia ser eu quem diria isso a ele!
Pouco acostumada a mentiras, tive que me sair com esta:
- Senhor René, acha que uma dama da categoria de madame discutiria seus assuntos na frente de uma serviçal como eu?
Ela me pediu que comprasse alguns tecidos, enquanto conversavam.
Madame é muito discreta e, apesar de bondosa, não nos dá essas liberdades.
Ele pareceu pensar no assunto.
Aproveitando que ele parecia um pouco lento, eu arrematei:
- Nenhuma dama que se preza permite que uma simples camareira se intrometa em sua vida familiar. Boa noite!
Vendo seus olhos arregalados, que pareciam concordar comigo, aproveitei e saí com o leite na mão o mais rápido possível, só parando quando tranquei a porta de meu quarto.
Então, o sujeito estava preocupado? Por isso tinha chegado tão cedo.
Naquela noite meus olhos se abriram para algo que não tinham percebido antes:
o senhor René não era só um "aproveitador" como pensávamos eu e Paulette.
Meus instintos, que tinham garantido a minha sobrevivência desde muito cedo como menina pobre, me diziam que ele era perigoso.
Na estalagem de madame Pointier tinha visto muitas vezes tipos que me causavam medo:
ladrões, assassinos, meliantes.
O estabelecimento era aberto ao público e mesmo a dona me advertia pra ficar longe.
Nem precisava, pois o comportamento deles e algo nos olhos os denunciavam, por mais simpáticos que tentassem ser.
Depois de um tempo, se percebia. Não achava que o senhor René fosse um assassino, mas sabia que devia ter cuidado com ele.
Não seria fácil controlá-lo como pensou a irmã de madame.
Ali a situação exigiria paciência.
Até hoje ele tinha sido tratado como um príncipe, nada lhe tinha sido negado e por isso era gentil com Cristine, mas o que aconteceria se as regalias lhe fossem tiradas?
Pensando nisso, só consegui cochilar um pouco lá pelas cinco horas da manhã, e assim mesmo, para acordar pouco depois das sete com Paulette a bater na minha porta:
- Edite! Ande, preguiçosa, que vai perder a hora!
Levantei a contragosto.
Era o dia que a faxineira chegava, e eu tinha que dar as ordens.
Minhas costas doíam, a cabeça doía, mas pus-me de pé, pois serviçais não podem ter dores.
As onze da manhã, Cristine chamou-me, já vestida.
Parecia descansada:
o tal remédio estava lhe fazendo bem, ela estava renovada como uma manhã de maio.
Pediu seu café no escritório e arrastou-me para lá.
- Edite, quero que traga para mim suas anotações sobre as contas da casa antes que René acorde.
Quero estudá-las com você.
Depois da conversa com Cozette notei que tenho relaxado muito nessas coisas, e agora não temos mais o conde para providenciar isso, minha amiga!
Fiquei feliz de constatar que a conversa com Cozette tinha dado frutos.
Peguei minhas anotações no caderno de contas da casa, que por sinal já estavam bastante atrasadas, e me sentei de frente a ela na escrivaninha, onde tantas vezes tinha se sentado o conde.
- Como René tem lhe dado o dinheiro para as despesas?
Semanalmente ou mensalmente?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:27 am

Fiquei muda.
Como responder àquilo?
Vendo meu silêncio, ela disse:
- Que foi, Edite?
Ficou tímida de repente? Fale!
Meio sem jeito, comecei:
- Ele nunca me deu dinheiro para isso, madame.
Senti que ela empalideceu um pouco:
- Como assim?
Não falta nada nessa casa!
A comida é farta como sempre.
E René já está tomando conta de tudo há quase quatro meses!
- Madame tem crédito, nunca atrasou nenhum pagamento antes!
Mas alguns comerciantes já estão um pouco reticentes.
O açougue mesmo já mandou alguns recados, assim como o padeiro.
Falei com o senhor René, mas ele disse que resolveria depois com eles.
Ela levantou-se, foi até a janela, observando a pequena moça que fazia a limpeza da sala e que sorriu para ela.
Virou-se para mim perguntando com a voz baixa, mas já com algum nervosismo:
- E o salário de vocês, tem sido pago?
Não havia como mentir:
- Não, madame.
Mas podemos esperar.
As outras contas são urgentes.
- Mostre-me seu caderno, Edite.
Tudo colocado em colunas, como o conde tinha me ensinado a fazer, ali estavam as despesas.
Ela me pediu que fizesse as somas das despesas e que depois somasse também os salários dos empregados, incluindo o daquela moça que vinha três vezes por semana para limpar a casa e deixar tudo brilhando.
Havia as despesas com os cavalos, o gás, a estrebaria...
Cristine olhava aquilo com espanto e depois me olhava novamente.
- Cozette me disse que não era coisa complicada, e que era até divertido!
Por Deus, que cruz!
Nunca vi tantos números!
Parece que vou me afundar neles.
Edite, você consegue entender toda essa coisa?
Vendo-a tão atarantada, tive pena.
Era a maior artista da França em sua especialidade, como querer que fosse também uma administradora brilhante como Cozette?
Era uma artista!
- Não se preocupe, senhora!
Só me faltam algumas informações, que posso conseguir com o conde!
Terei prazer em ajudá-la.
Madame é uma artista, não deve se aborrecer com essas coisas!
Madame Cozette me ajudará se eu precisar, não?
O principal é quitar as pequenas dívidas.
Não se assuste com elas.
Logo levantaremos o dinheiro.
Madame tem suas rendas!
Ela pareceu se acalmar um pouco, e me olhou com mais tranquilidade.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:27 am

- Acredita que conseguiremos administrar essas coisas sem o conde?
René parece não estar se saindo nada bem!
- Claro, madame.
Mas, se me permite a franqueza, se deixarmos o sr. René à frente de seus negócios, em breve não teremos mais o que negociar.
O vício do jogo é mau companheiro, e mesmo algumas de suas jóias têm desaparecido.
Ela sentou-se em confortável poltrona perto de uma janela, e me confidenciou:
- Ele tem me pedido jóias para uns investimentos, Edite, e nunca me explica direito o que são.
Mas tenho dado falta de outras.
Convivo nesse meio há mais de uma década e sei o que o vício do jogo faz.
Não sou tão tola, amiga, mas o amor nos deixa um tanto cegas.
Andou pelo centro da sala, as mãozinhas delicadas ajeitando os cachos que teimavam em cair do coque, testa franzida pela preocupação.
Pensei que não devia ser fácil fazer o que Cozette fazia com facilidade:
administrar seu próprio negócio.
Tentei acalmá-la, conversei com ela:
- Madame, não fique desesperada!
Tenho certeza de que o conde e mesmo Cozette nos auxiliarão!
E depois, tantos fazem isso: gerir seus próprios negócios.
O conde sempre disse que a deixaria de forma tal, que a senhora nunca precisasse se preocupar com sua própria sobrevivência.
Ela me olhou um tanto triste:
- Gastón... tanto me fez sofrer!
Mas também acostumou-me mal!
Nunca fui de lhe pedir nada, mas bastava que eu gostasse de qualquer coisa, eu a tinha quase imediatamente.
Uma vez, num passeio no campo, contei a ele do sítio de meu pai, da saudade que tinha da infância despreocupada, e ganhei um com o dobro do tamanho!
Se via uma jóia deslumbrante, dizia que o ouro combinava com o ouro dos meus cabelos.
Viu o número de esmeraldas?
Eu sorri. Era raro o dia em que ele entrava em casa sem um mimo para ela, que adorava presentes e batia palmas quando gostava.
Cristine era alegre antes do último aborto; depois, os sorrisos ficaram cada vez mais raros, e por mais que os presentes chegassem, ela não sorria mais.
Chegava a ralhar com ele para que não trouxesse mais tantos mimos.
Ela continuou:
- Nunca menti a Gastón.
Nunca o enganei.
Mas não quero contar com ele agora.
Não seria justo, e ele poderia entender como um retorno.
Edite, pegue para mim um daqueles tabletes em meu quarto, minha dor de cabeça principia.
- Mas não lhe traz sono, madame?
- Tomando apenas meio, consigo me manter acordada.
Depois, tenho que conversar com René quando ele acordar.
Viu que horas ele chegou?
- Creio que perto das duas da manhã, madame.
Ela deu um sorriso amargo:
- Cedo, não? Que será que houve?
Singular coisa acontecia com madame:
ela não era nada ciumenta com o amante.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 08, 2017 9:27 am

Belíssima, sabia que suas únicas rivais com René seriam as cartas do baralho, ou a roleta.
Mas em seu relacionamento com Gastón, tinha tido ciúme algumas vezes, inclusive da mulher do conde.
Contando-lhe isso, ele riu muito e resolveu o problema de forma admirável:
para que Cristine não criasse fantasias sobre sua
esposa, explicou-lhe que seu casamento fora um arranjo entre famílias, e que não havia romance entre eles, nem poderia haver, já que fisicamente eles não eram compatíveis.
Cristine estranhou a frase, mas não se conformou.
O conde disse que iria com a mulher e os dois filhos num passeio na hípica; sua esposa tinha paixão pelos cavalos da família, e adorava as propriedades rurais, só vindo a Paris nesta época do ano, para a exposição dos cavalos de raça.
A população de Paris cortejava o evento, e lá se foi Cristine, decentemente vestida como uma burguesa rica, passear no meio das baias e conhecer os animais e seus proprietários, quando deu com o brasão de Gastón e resolveu entrar na tenda onde os cavalos estavam expostos.
Eram lindos cavalos árabes, bem tratados, pelos brilhantes, mas ela quase não os notou.
Viu ao longe Gastón, bem-vestido e elegante a conversar com alguns senhores de aparência árabe, parecendo negociar.
Ao canto da tenda, recostada em larga cadeira de madeira com almofadas, uma senhora de prováveis cinquenta anos (o conde, na época, devia ter quarenta), bem-vestida numa manta vermelha, mas imensamente gorda.
A pobre tinha dificuldade de se locomover e apertava-se na vestimenta, também vermelha com debruns dourados.
As mãos estavam cheias de anéis de variados tipos nos dedos, e ela dava ordens aos criados sem cortesia, parecia irritadiça, de génio difícil.
Sem conseguir tirar os olhos dela, Cristine estacou, muda de espanto.
Seria aquela a condessa?
Parecia a mulher mais rica do recinto, mas também parecia muito mais velha que Gastón.
Será que não era a mãe dele?
O conde, educado, ao ver sua "déesse blonde" parada como uma estátua no meio da tenda, já chamando (e muito) a atenção dos árabes com os quais conversava, dirigiu-se a um rapaz e conversou com ele afastado de todos.
O moço dirigiu-se a Cristine discretamente.
- Madame, o conde pediu que lhe fizesse companhia.
Não é adequado a uma dama tão bela ficar sozinha em público.
Ela assentiu.
Perguntando-lhe quem era, ele respondeu que era um "secretário" do conde, e que ela ficasse à vontade.
Nada fazia com que Cristine tirasse os olhos da senhora de vermelho, que agora falava aos gritos com um casal de jovens fisicamente parecido com ela (morenos, de pele clara, nariz adunco, lábios finos), mas sem a gordura que a afligia.
Quem seriam?
Ela perguntou ao rapaz.
- A senhora, trata-se da condessa, e os dois são seus filhos.
A moça chama-se Pilar e o rapaz é Leon.
A condessa é de descendência espanhola por parte de mãe e francesa por parte de pai.
Muito rica, comerciantes de longa data.
É apaixonada por cavalos desde a infância.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:40 am

De acordo com o que me contou madame, o casal não podia ser mais disparatado.
O conde era magro, elegante, extremamente educado, discreto no vestir e tinha horror à ostentação.
Sua senhora era o inverso:
imensa, vestia-se faustamente, sem elegância.
Ostentava riqueza de todas as formas possíveis,
falava alto e as palavras nem sempre eram educadas ou convenientes.
Por que teriam se casado?
Cristine teve que perguntar:
- A família do conde estava falida?
Ele teve que se casar por dinheiro?
- Não, longe disso.
A família do conde é de filantropos, mecenas de vários artistas.
Mas, não deixam de ser comerciantes ávidos também.
Para os ricos, senhora, quanto mais, melhor.
Eles guardam entre o si o património, fazem acordos, e de certa forma são felizes assim.
O acordo rendeu frutos vultosos para ambos os lados, até em navios eles investem agora.
Ela não sentiu-se bem ali.
Ficou triste com aquilo.
Que graça tinha o dinheiro, se tinham que viver com pessoas que nada tinham a ver com eles mesmos?
E o amor? Gente esquisita, pensou ela.
Foi para casa acompanhada pelo secretário e despediu-se pensativa.
Não passaram três horas e Gastón chegou, desconfiado, pois não sabia que reacção ela teria.
Mas ela lhe pulou no pescoço e beijou seus lábios.
Feliz, ele disse:
- Viu como não tinha razão de ter ciúmes?
A condessa nem queixo tem!
Ela afastou-se dele, horrorizada:
- Como não tem? Só de longe, de onde eu estava, eu contei uns cinco!
E assim resolveu-se a questão. Lembrei-me disso enquanto subia a escada para pegar o remédio.
Devia estar na penteadeira, e eu não queria acordar o senhor René.
Depois da noite anterior não me sentiria nada à vontade na presença dele.
Sabia que as coisas não permaneceriam as mesmas e tinha receio, mas não podia deixar Cristine com suas dores.
Entrei no quarto escurecido pelas grossas cortinas e vi o biombo que protegia a área da cama de casal.
Agradeci a Deus por ele estar ali.
No mais absoluto silêncio me encaminhei para a gaveta da penteadeira e comecei a vasculhar até que achei o frasco, e ia me retirando quando ouvi uma voz ainda rouca de sono a chamar:
Cristine?
Acordou cedo? Onde está?
Parada no meio do quarto, frasco na mão, pensei em sair correndo escada abaixo antes que ele me visse, mas depois me contive.
Não seria digno.
Ergui-me e disse:
- Não é a madame, senhor.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:40 am

Ela está tomando seu lanche. Deseja algo?
Ele irritou-se:
- Que faz aqui?
Nesse silêncio até parece que rouba!
- Vim a pedido de madame pegar seu remédio. Desculpe se incomodei.
Ele levantou-se e pôs-se diante de mim apenas vestido de calções, sem camisa.
Baixei os olhos, envergonhada, mas ele não pareceu se incomodar.
- Já está com as dores, é?
Que faz acordada tão cedo?
Vai às compras de novo?
Como as mulheres gastam dinheiro!
- Não. creio que madame pretenda ir às compras, senhor.
Posso me retirar?
Ele me olhou desconfiado, só então me deixou ir com um gesto que percebi com o canto dos olhos.
Que saudades do conde!
Nunca se apresentaria assim na frente
de uma moça solteira!
Mas, que se há-de fazer, não são todos que acham necessário ser educados com os serviçais.
Feliz de sair dali, fui ter com madame no andar debaixo, e a encontrei sentada na escrivaninha a fazer contas furiosamente e anotar em uma parte já separada do caderno.
Quando cheguei, ela me sorriu:
- Já estou tendo uma ideia de quanto precisamos por mês, Edite.
Agora tenho que ver de quanto dispomos.
Sei dos imóveis urbanos, dos sítios, mas temos que ver o quanto isso nos rende!
Cozette tem certa razão:
não é tão complicado!
Lembra onde o conde guardava os contractos?
Sim, eu me lembrava.
Gastón era organizado como poucos.
Buscando uma banqueta, alcancei na estante uma caixa de madeira larga e a abri.
Nela, separada por compartimentos, estavam as cópias dos contractos.
Ordenados por data, com as escrituras dos terrenos, desde a compra destes, todos em nome de Cristine de Besançon, intransferíveis (graças a Deus!).
Conferi as escrituras e com alegria vi que todas estavam lá, intactas.
Ela possuía um total de dezasseis imóveis, mas não a casa em que morava.
Sua fortuna somava a milhares de "livres" (unidade monetária francesa da época); o conde tinha inclusive deixado os recibos dos impostos, todos pagos.
Assim que conferi todas as escrituras, me acalmei, e a tranquilizei também.
Ela possuía casas de comércio alugadas, e até um casarão onde estava uma pequena indústria de tecidos, sem falar em pequenas áreas rurais, arrendadas por ano.
O conde tinha sido mais do que generoso com ela, que poderia viver folgadamente desde que não se desfizesse de seus bens.
- Temia não achar as escrituras, madame, mas estão todas aqui, intransferíveis; ele na verdade não poderia vender nada.
A única forma da senhora ficar pobre da noite para o dia é em uma mesa de jogo.
Ela me olhou com aqueles olhos esverdeados entendendo perfeitamente a que me referia, e me disse:
- Tem toda razão, Edite.
Tive sorte até agora.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:40 am

Preciso tomar conta de minha vida agora que estou sem Gastón, e noto que não posso confiar em René.
Ele está acordado?
- Sim, madame.
Quando peguei o remédio, ele já estava acordado e perguntou pela senhora.
- Pois diga que quero falar com ele, de preferência já.
Tomaremos o lanche aqui mesmo no escritório.
E dizendo isso chamou Paulette, pediu água e tomou meio comprimido para suas dores.
Tive que perguntar:
- Quer que eu fique para a conversa, madame?
- Sim. Ia ser cansativo ter que repetir toda a conversa para você.
E depois, não dou conta de conduzir meus negócios sozinha.
Preciso de você.
Nunca foi minha camareira, sempre foi minha melhor amiga!
Meus olhos encheram-se de lágrimas.
Eu também a considerava assim.
Mais que isso, Cristine era uma irmã mais moça, a pessoa a quem eu mais devia.
- Pois pode contar comigo, madame.
Nos sairemos bem, tenho certeza!
E subi as escadas para chamar seu René.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:41 am

IX - INVESTIMENTOS
(NO PLANO ESPIRITUAL observei Edite a trocar algumas palavras com Serafim, que sorriu e concordou com ela.)
Ele se dirigiu então para as pessoas e pediu:
- Se incomodariam se nos sentássemos num círculo?
Edite disse que se sentiria melhor, pois assim veria a todos vocês e seria um pouco mais informal.
A tela continuaria aqui atrás, para quando ela quisesse nos mostrar algo.
Me levantei e nos arrumamos em dois círculos concêntricos, no modelo dos antigos teatros gregos.
Vi em Edite, que era tímida, visível alegria de estar no mesmo nível dos seus.
Não se sentia bem em destaque, e a voz dela, de um contralto suave, no meio do salão também vibrava com uma boa acústica e podia ser bem ouvida por todos.
Assim que nos sentamos, ela sorriu e nos disse:
- Sei que muitos de vocês ficaram curiosos para "ver" projectada a imagem da condessa, mas infelizmente eu nunca a vi, logo, não tenho como projectá-la.
Mas sei que era uma senhora de génio bastante forte, tão forte como seu físico.
Se o casamento do conde foi um bom arranjo financeiro, infelizmente não foi feliz em outros aspectos.
Afama da condessa não era boa.
Senti que muitos da plateia tiveram curiosidade de ver "projectada" a imagem da condessa, depois do comentário divertido de Cristine.
Observei Esthefânia com suas novas amigas já sentadas juntas, a esperar a continuação da narrativa, olhinhos brilhando.
Adoravam as histórias e agora estavam mais "comportadas*: nada de muitos risos. Edite continuou sua história.)
Desde o início eu não simpatizara com seu René.
Como se explica isso?
Aqui aprendemos que, às vezes, são inimigos de épocas passadas que se reencontram, outras são pessoas com campos energéticos diferentes que se repelem automaticamente.
O esquecimento do passado é abençoado* pois assim podemos começar novamente, sem mágoas ou ressentimentos, mas, ainda assim, fica uma "má impressão".
Subindo a escadaria atapetada, ia pensando em como ele reagiria à conversa com madame, e não esperava boa coisa.
Vaidoso como era, nesses quatro meses, ele que não possuía nada de seu, tinha se acostumado a dispor de uma fortuna razoável, além de desfilar publicamente com uma das mais belas cortesãs da França.
Acostumado a manipular Cristine, que tinha ficado ébria pela paixão, ou pelo álcool, a maior parte desse tempo, como seria quando ele conhecesse a verdadeira Cristine, que bebia apenas esporadicamente, e que estava longe de ser tola?
Lembrava-me dela discutindo literatura inglesa eruditamente com alguns intelectuais amigos do conde.
Não tinha dificuldade com idiomas. Tinha horror à matemática e nunca tomara conta de seus negócios, mas daí a ser embotada intelectualmente?
Nem pensar.
René que prestasse muita atenção, pois quando ela queria aprender uma coisa, só parava quando conseguia o que queria, e era bem rápida nisso.
O conde dizia que não cansava de se surpreender com ela, que por trás do "beau visage blonde"8 estava uma cabeça pensante como poucas.
Parada na porta do quarto, ergui a mão para bater na madeira quando de repente ela se abriu, e surgiu o rosto de René um tanto contrafeito de me encontrar ali; afastei-me para lhe dar passagem e disse:
Madame me pediu para lhe chamar ao escritório para o café.
Deseja conversar com o senhor.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:41 am

Ele franziu as sobrancelhas, estranhando:
- No escritório?
Mas aquela biblioteca nunca é usada.
Que faz lá?
- Acredito que ela mesma lhe responderá, senhor e afastei-me.
Ele passou por mim a passos largos, cheirando a álcool da noite anterior e a barba por fazer.
Ainda assim, que moço bonito ele era!
Esperava que Paulette tivesse razão e que a paixão de Cristine fosse mesmo como um resfriado, desses que aparecem, derrubam a pessoa, e depois passam!
Fui seguindo timidamente atrás dele o mais silenciosa possível para que não notasse minha presença.
Ao vê-lo, ela disse com um sorriso:
- Bom dia, meu querido.
Que bom que acordou!
Sente-se. Edite, por favor, providencie uma bandeja com café e o que seu René quiser para uma refeição leve.
Se importaria de conversar comigo agora ou tem algum compromisso?
Pego de surpresa, ele titubeou:
- Na realidade tinha que ir ver meu tio.
Mas isso pode ser deixado para depois.
É algo urgente?
Apesar de bastante preocupada, os anos de palco ensinaram algo a Cristine, e ela sorriu encantadoramente:
- Mas, claro! Trata-se de nossa sobrevivência.
Como sabe, estive com Cozette ontem, e ela me deu algumas ideias.
Tenho deixado muitas responsabilidades nas suas costas, pois quem antes tomava conta desses assuntos para mim era o conde.
Mas agora, minha irmã acredita que devo participar da administração de minhas posses.
Como você está tomando conta de meus negócios, gostaria de saber como eles estão.
Ele empalideceu.
A barba morena por fazer ficou ainda mais aparente e notei gotas de suor em sua testa.
A resposta veio em seguida:
- Não vejo a urgência disso!
Está tudo muito bem-cuidado. Que foi?
Cozette desconfia de mim?
Dei algum motivo?
Acaso me acha menos competente que o conde?
0 rosto de minha amiga, que mais parecia o de uma boneca de porcelana, fez-se pálido também.
Ela sentou-se na escrivaninha, olhou-o nos olhos e disse, sem nenhum receio:
- Não sou uma mulher de meias palavras, René.
O dia em que desconfiar de você, não ficará mais nessa casa, nem partilhará da minha cama.
Quanto ao conde, pode-se dizer tudo de Gastón, menos questionar sua competência nos negócios, pois ele tem uma das maiores fortunas da França.
Acredito ter o direito de saber como estão minhas posses, ou acha que não?
Ele sentou-se e colocou a cabeça entre as mãos.
Súbito, notou que eu ainda estava na sala, e disse visivelmente magoado:
- Deseja me expor assim na frente de seus serviçais?
Com o intuito de desanuviar o ambiente, ela me disse:
- Edite, vá por favor buscar o chá de René, e depois volte.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:41 am

Vou precisar de seus préstimos, pois antes as contas da casa eram feitas por você e pelo conde.
Acredito que a achará indispensável com o tempo, meu querido.
Com alívio saí da biblioteca.
Detestava climas tensos e, por incrível que possa parecer, comecei a sentir certa pena do moço.
Entrei na cozinha e dei com Paulette sovando pão com a energia de sempre, uma nuvem de fumaça de farinha branca em volta, e pensei comigo que nenhum pão se atreveria a não ficar macio depois de toda aquela "surra".
- Acredita que já estou até com pena do moço?
- Pena? Do enfastiado? E porquê?
Sentei-me à mesa:
- Acredito que hoje madame terá a real noção de com quem está.
Hoje cai a máscara do sr. René.
Ela largou logo a massa, lavou as mãos na pia e enxugando-as rapidamente sentou-se ao meu lado, muito interessada:
- Jura? Não acredito!
Que é que está havendo?
Expliquei que madame pedira que ele explicasse as contas da casa, ela me ouviu e depois, como boa francesa, foi prática:
- E de quem tem pena?
Tenho pena é de madame, que não podia ter se metido numa encrenca maior!
E um jogador compulsivo, Edite!
Esse tipo de gente não presta!
Tomara que ela acorde de uma vez!
Tinha razão, é claro.
Fiz a bandeja e encaminhei-me para a biblioteca, agora transformada em escritório, e dei com uma cena que me deixou desconfortável:
lá estava o rapagão ajoelhado aos pés de Cristine, que sentada na cadeira da escrivaninha tinha os olhos cheios de lágrimas.
Tossi alto para chamar a atenção e ele levantou-se e se recompôs rapidamente.
Coloquei o chá na mesa, e madame secou os olhos com as costas das mãos.
- Sente-se aqui, Edite.
Assim que René comer vamos tratar de nossos negócios.
Se incomodaria de me conseguir mais um copo de água?
O remédio parece que está fraco, minha cabeça dói muito.
E devia doer mesmo. Que cena!
O que aquele farsante estava aprontando enquanto fui à cozinha?
Providenciei a água e ela tomou a outra metade do tablete.
Então, no fim de dez minutos de silêncio, ao ver que ele terminava de lanchar, ela começou:
- Ao que me lembro, Gastón me disse que recebia meus rendimentos da seguinte forma:
os imóveis urbanos semestralmente, e os rurais anualmente.
Estou correta?
Foi isso que lhe passei há três meses, quando venciam alguns, não foi?
Senti que ele estava incomodado com a minha presença, mas ainda assim respondeu entredentes:
- Sabe que sim.
Só não lhe prestei contas antes porque achei o assunto aborrecido e não queria preocupar essa bela cabecinha.
- Não me preocupava antes, René.
Mas chegou ao meu conhecimento que algumas contas não têm sido pagas como antes.
Isso é verdade?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:42 am

Ele empalideceu e me olhou raivosamente:
- A que se refere?
Ao salário dos empregados?
Ela sentou-se muito erecta, um vinco de preocupação na testa.
- Não só isso.
Alguns fornecedores também, de contas miúdas.
Isso nunca tinha acontecido antes.
Quer me explicar o motivo do atraso desses pagamentos?
Ele levantou-se, irritadiço:
- Ora, Cristine!
Bem se vê que pertence à burguesia!
E mais do que normal pagar os empregados semestralmente, assim como as pequenas contas!
Todos os nobres agem assim!
Quanto aos empregados, se não estão satisfeitos, podem se retirar!
Não demoraremos a arrumar outros!
Ela ficou pálida, levantou-se.
- Não me envergonho de minha origem burguesa, René.
Caso não saiba, a burguesia é quem sustenta a França.
E o conde, que tem laços nobres, foi quem me orientou a agir diferente da "nobreza", ou seja, a pagar as contas no máximo mensalmente.
Dizia que as pessoas simples que nos prestam serviços têm necessidade de receber.
E como o dinheiro me pertence, quero que as coisas sejam feitas desta forma.
Sempre tiveram prazer em me atender e quero que continuem assim.
Não sou uma nobre, sou uma cortesã.
Minha reputação deve ser ilibada comercialmente, já que não possuo nome, nem protecção de família.
0 conde a instruíra bem, e o que ela disse fazia todo sentido.
Ante a resposta, ele sentou-se, e começou a explicar de quais pessoas já recebera os rendimentos e o que tinha feito com eles.
Para meu alívio, esqueceram-se de mim, que a tudo ouvia sentada mais distante, e tomava nota de tudo que era dito.
Resumindo: ele já recebera mais da metade dos rendimentos naqueles três meses, mas não havia nem sombra do dinheiro.
"Investimentos", ele disse.
Cristine quis ver o comprovante desses rendimentos e ele titubeou um pouco, depois pediu licença e subiu para o quarto dizendo que "ia procurar uns papéis".
Ela me olhou desanimada.
- Como vamos fazer, Edite?
Ele não passa de um menino querendo fazer papel de homem!
Tão ingénuo!
Vai saber que tipo de investimentos fez, coitado!
Não devia tê-lo deixado tomando conta de tudo sozinho!
Não é uma raposa velha como Gastón!
Olhei para ela um tanto surpreendida: coitado? Ingénuo?
Só pensava na fortuna desaparecida em três meses, provavelmente em mesas de jogo.
E de que investimentos ele falava?
Ele voltou meio despenteado, com uns papéis meio amassados que colocou em cima da mesa, dizendo-lhe:
- Lembra-se do senhor de Valerant?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:42 am

Que fazia transacções com vinhos?
Cristine franziu a testa tentando se lembrar, mas nada lhe ocorria.
Ele insistiu:
- Um senhor de meia-idade, um tanto coxo, gordo.
Tinha uma casa de teatro nos arredores de Paris.
Não era uma casa de gente respeitável, se é que me entende.
- Ele chegou a frequentar a minha casa, em saraus ou festas?
- Nem em sonho.
Não é assim tão fino, mas é um comerciante voraz.
Fui apresentado a ele no cabaré, ele agora está investindo em navios para as Américas.
Está fazendo fortuna rapidamente e me convidou para investir com ele.
Foi lá que investi oitenta por cento de seu capital.
O lucro é de mais que o dobro em um ano!
Cristine começava a lembrar-se do homem, e franziu a testa:
- Não está falando do sr. Yves de Valerant, está?
Este, se bem me lembro, é coxo.
- Isso. Ele mesmo.
Yves de Valerant, comerciante de vinhos, acho que o conde conhecia, afinal, era um "expert" no assunto.
- Conhecia e não gostava.
A casa dele fora de Paris não é um teatro.
E um prostíbulo da pior espécie.
Esse senhor gosta de comerciar crianças!
E com ele que investiu, René?
Ele ficou contrariado:
- Ora, Cristine, não acredite em tudo que lhe dizem.
É um senhor bastante educado, e depois, não são crianças!
São bem grandinhas e são livres!
Não lhe esperava tão puritana.
De qualquer forma, não investi seu dinheiro num prostíbulo, mas em dois navios que devem dar muito lucro.
Desconfiada, ela perguntou:
- Muito lucro porquê, René?
Que tipo de mercadorias levam?
- São navios negreiros, Cristine.
Ouro negro, como dizem agora.
Vão à costa da África, pegam os negros prisioneiros de guerras entre as aldeias deles mesmos, e os vendem na América para trabalho escravo.
Ganham-se fortunas.
Em um ano seu capital será duplicado!
Ela ficou pálida.
Liberal de pensamento, tinha pavor às injustiças, e agora, sem saber, financiava a escravidão.
Sentou-se, a cabeça apoiada nas mãos.
- Como pôde, René?
Ele parecia não entender.
- Está preocupada?
Mas em todo negócio existe certo risco!
E depois, para as despesas mais urgentes podemos sempre vender uma jóia ou duas.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:42 am

Você tem tantas!
Depois as compraremos de novo!
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas:
- Negociar com o sofrimento humano?
Não pode ser bom!
Minha cabeça está zonza.
Edite, me leve para o quarto.
René cesse os recebimentos por enquanto.
Temos que colocar essas contas em ordem o mais rápido possível.
Mas por agora tenho que dormir um pouco.
Escravos negros!
Meu Deus, que triste!
Tinha ouvido falar, mas saber que estou envolvida.
Ainda se arrependerá disso, René...
Confuso com a reacção, visto que esperava que ela ficasse talvez "animada" com a expectativa de lucros, René ficou decepcionado.
Só conseguia dizer em voz baixa:
- São apenas negócios, Cristine.
Todos estão fazendo!
Pensei em investir da melhor forma o "nosso" dinheiro.
Estão tendo lucros enormes, não vejo por que não deveríamos ter também.
Acredito que mesmo Gastón deve estar investindo desta forma!
Ela levantou-se com certa dificuldade, o remédio já fazendo efeito, e balbuciou para ele:
- Estive com Gastón diversas vezes no Marrocos, e na Argélia, em viagens comerciais, e realmente se falava de tráfico de escravos.
Os árabes não gostam disso.
Diziam ser contra a lei de Deus, apesar da igreja católica não se opor abertamente.
Numa coisa eu sempre concordei com eles, querido:
quem causa dor, recebe dor.
Ele aborreceu-se:
- Ora, Cristine... crendices!
É apenas comércio!
Notando-a tonta, amparei-a e fui caminhando com ela para a escadaria.
Perguntei se queria que eu chamasse Clemente para levá-la.
Ela aprumou-se:
- Não é preciso e chamou alto René!
Ele apareceu na porta da biblioteca, contrafeito.
- Sim?
- Passe as informações que pedi para Edite, ela anotará tudo: as datas e as quantias recebidas, de quem ainda falta receber, e o tanto que foi aplicado nesses "navios negreiros" com o senhor Yves.
Mais tarde conversa* remos.
Minha dor passou, mas estou com muito sono!
Ele pareceu ainda mais aborrecido:
- Discutir esses assuntos com uma camareira? Enlouqueceu?
Ela finalmente irritou-se:
- Se o conde discutia, e a elogiava pela inteligência e organização, por que você não?
Nunca lhe disseram para não julgar um livro pela capa?
Pois é um bom conselho!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:42 am

Vamos, Edite. Depois volte para falar com ele.
Tempos havia que ela não se irritava tanto!
Tirei os espartilhos, coloquei-a em larga camisola de seda, soltando os cachos louros, e borrifei-lhe o rosto com uma lavanda leve.
Foi o que bastou para que ela caísse em pesado sono.
A respiração era tão leve que mais parecia um sono mortal e eu não gostava nada daquilo.
Mas o médico tinha dito que era assim mesmo.
E depois, ela acordava óptima.
Desci as escadas pensando na "cruz" que me aguardava: não seria fácil tirar informações corretas de René.
Por outro lado, não seria fácil ele escapar de minhas perguntas.
Com meu caderno de anotações e pena em riste suspirei, e entrei na biblioteca.
Lá estava ele, sentado relaxadamente onde Cristine estava antes, olhando papeis espalhados pela escrivaninha.
- Que quer saber? me perguntou.
Se esperava que eu me intimidasse, se surpreendeu:
organizando os papéis, fui dizendo as propriedades, nomes dos inquilinos e perguntando sobre datas e recibos.
Para meu desespero, alguns ele tinha, outros tinham desaparecido e ele citou "de memória".
Estes eu teria que verificar com Clemente depois.
Nos papéis do senhor Yves eu notei que apenas metade do dinheiro tinha sido gasto em "investimentos" com os navios negreiros.
Questionando sobre a outra metade, ele me disse que teve pequenos gastos com a vida social dele e de Cristine.
Notei que apenas vinte por cento dos rendimentos ainda não tinham sido recebidos, por serem rurais e estarem longe de Paris.
Isso sem contar as peças de jóias que tinham se "evaporado".
Desanimada, tentei me confortar com a ideia de que ao menos ele não tinha vendido nenhuma propriedade dela.
Isso, sim, seria terrível.
Esse prejuízo era remediável, mas se continuasse ali, contando com toda liberdade, aquele sujeito em pouco tempo acabaria com seu património.
Contrafeito por ter sido tão duramente inquirido, ele levantou-se e foi até a janela, olhando para a rua tranquila, onde raros transeuntes passavam.
Quebrando um silêncio constrangedor que já durava alguns minutos, disse:
- Não pense, camareira, que controlará Cristine.
Não deixarei que qualquer pessoa com "pensamentos pequenos" e burgueses a impeçam de duplicar sua fortuna!
Não posso esperar que mulheres entendam de negócios como nós, homens, naturalmente talhados para isso.
De cabeça baixa, assim continuei, mirando o chão.
Não discutiria tal assunto, mesmo porque, não adiantaria.
Levantei-me para deixar a sala, cansada que estava.
Pensava nas contas mais urgentes e na falta de verbas a cumpri-las enquanto o janota ficava a desfilar seus sonhos de grandeza.
IP Daqui a alguns meses, quando os navios voltarem, verá o capital de sua patroa voltar no mínimo duplicado, e então me dará razão.
- Deus queira, senhor.
Peço licença pois tenho que ver os preparativos para a ceia.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:43 am

Ele me dispensou enquanto franzia o cenho e fitava a rua com seriedade, como se pensasse em seus "grandes negócios".
Cansada, me dirigi para a cozinha, dando com Paulette à minha espera e Clemente sentado à mesa sorvendo um chá de jasmim enquanto os cavalos se alimentavam na baia próxima.
Ela limpou as mãos no avental muito branco e se levantou:
- E então? Como estão as coisas?
Madame está pobre?
- Não, Paulette.
Madame está longe de ficar pobre! eu ri.
Ela levou as mãos ao peito aliviada:
-Graças aos céus!
Então vamos receber nossos salários?
Estava já desistindo, achando que aquele janota tinha roubado tudo dela!
Pensei se valia a pena explicar, mas por uma questão de lealdade resolvi que seria melhor ser mais discreta.
Não podia deixar os dois sem salário por mais tempo. Como fazer?
Conversaria com madame.
Meu salário podia esperar, mas Paulette ajudava os irmãos, e Clemente devia ter lá suas despesas.
Penhoraria alguma jóia, faria algo, Deus me iluminaria.
Isso sem falar na padaria, no verdureiro, no açougueiro.
Todos ainda muito simpáticos, mas que não ficariam assim por muito tempo.
Alimentei-me rápido pensando em como agir até que de súbito parece que fui iluminada:
procuraria o conde! Ele ao menos me orientaria!
Madame que nem desconfiasse disso, ou ficaria muito zangada, mas como fazer?
Mulheres negociando eram facilmente enganadas, e o conde conhecia os meandros das transacções comerciais melhor do que ninguém.
Clemente me levaria lá, já tinha ido ao seu escritório no centro tantas vezes!
Gastón não me viraria às costas, e já tinha me dito que quando precisasse, estava à disposição.
Pensando assim escolhi um costume bastante austero, limpei-o o melhor que pude e tratei com Clemente de, no outro dia bem cedo, ir ver meu amigo.
Não me negaria ajuda, nem conselhos, tinha certeza!
Tinha que tomar cuidado com madame, mas isso não era difícil.
Deixaria que ela tomasse uma dose de seu remédio e que seu René saísse a cavalo, como de costume.
Paulette ficaria alerta caso ela precisasse de algo.

8 - Belo semblante loiro.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:43 am

X - CONSELHOS DE UM VELHO AMIGO
(SAÍMOS DA AMPLA sala no final da tarde, um vento suave e fresco soprava.
Esperei Esthefânia que vinha caminhando junto com Clara, Olívia e Nana, entretidas comentando a história e seus possíveis desenlaces.
Não pude censurá-las pois mesmo eu ficara curioso de saber certos desfechos.
No dia seguinte seguimos cedo para a sala já arrumada em círculo.
Edite, disposta e animada, chegou logo depois, acompanhada por Serafim, que trazia algumas
anotações.
Ela continuou sua narrativa, usando a "lousa" quando achava necessário nos ilustrar com imagens.
)
O senhor René e Cristine saíram naquela noite, levados por Clemente, e voltaram perto das duas da manhã.
Ouvi as risadas de minha amiga e notei que ela estava alterada pelo vinho, mas parecia feliz, apesar dos problemas financeiros.
Ao que parecia, o rapaz estava conseguindo fazê-la esquecer as obrigações com os credores.
Aparecendo na sala, perguntei se queriam algo, mais vinho ou comida, e ela riu muito, alterada nos braços do rapaz, corada pelo vinho:
Não, minha querida!
Acredita que René hoje teve sorte nas cartas? E como ele mesmo diz:
um dia é da caça, outro do caçador.
Para que nos preocuparmos, não é mesmo?
Sorri e pedi licença para me retirar.
A cena me incomodava um pouco e ele me sorria de forma irónica.
Antes de ir para meu cómodo fui ter com Clemente, que estava acomodando os cavalos, e disse-lhe:
- Clemente, eles devem dormir até mais tarde amanhã.
Lá pelas nove da manhã esteja pronto para me levar ao centro.
- Ao centro exactamente onde, Edite?
Vamos ver o conde?
- Isso mesmo. E não comente com ninguém.
É segredo nosso!
Ele franziu a sobrancelha grossa e escura:
- Não sei... madame pode ficar chateada se descobrir.
Vendo que ele estava indeciso, resolvi ser mais incisiva:
- Pois é justo para ajudar madame!
E a nós também. Não quer receber seu salário?
Não quer que madame continue rica?
Ao ouvir meus argumentos, ele ergueu os ombros, prático como ele só:
- Claro, claro.
Se for assim, vamos.
Às nove, não é mesmo?
Fiz que sim com a cabeça e fomos dormir.
Levantei-me cedo, tomei um chá às pressas com Paulette e Clemente e fomos, fazendo o mínimo de barulho possível, faltando ainda quinze minutos para as nove.
Eram aproximadamente trinta minutos de coche até o centro, e logo paramos diante do prédio bonito, novo, de três andares, moderníssimo para a época.
Já sabendo o caminho, deixei Clemente me esperando e subi para o segundo andar, onde ficava na ala esquerda o escritório do conde, e fui logo recebida por um rapaz de aparência limpa, porém insípida.
Aquele eu não conhecia, devia ser novo por ali.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:43 am

- Aqui ainda é a sala do conde Gastón de Laureac?
O rapaz me olhou de modo avaliativo, e eu senti que colocava preço nas minhas roupas e sapatos.
Eu era uma camareira, e me parecia com uma.
Estava vestida decentemente, com tecidos de qualidade, mas era óbvio que não pertencia à nobreza e nem me passaria por um membro da burguesia.
Ergui o queixo o mais que pude, mas não surtiu efeito.
- Sim. De facto respondeu ele -, mas para falar com o conde apenas marcando
hora. De que se trata? Emprego?
Não estamos contratando.
Agradeci aos céus não ter mais ninguém além de nós dois no local, pois senti que não ia ser fácil ver Gastón.
Ainda assim resolvi não desistir:
- Ele se encontra?
Surpreso por eu ainda estar ali, ele respondeu:
- Sim. Mas está ocupadíssimo.
Qual o assunto? Marcou horário?
- Não marquei horário, e o assunto é particular.
Trata-se de assunto de interesse do conde.
- Mesmo?
Fiquei irritada.
Precisava falar com ele logo, ou Cristine poderia acordar e dar pela minha falta e a da carruagem.
- Se o senhor se recusa a avisar que estou aqui, a responsabilidade será sua.
Como já disse é interesse dele, e não meu.
O conde é uma pessoa educada e gentil, mas não gosta de ser contrariado.
Vejo que trabalha com ele há pouco tempo, mas logo notará isso.
Passar bem!
E fui retirando-me a passos largos.
Surtiu efeito:
o rapaz saiu de trás da mesa e me pediu que sentasse, que ele ia avisar ao conde que eu estava ali.
Assim que ouviu meu nome, Gastón chegou até a porta e me deu largo sorriso dizendo:
"Edite, mapetite maure, entre!".
Ao nos ver tão "íntimos", o rapaz admirou-se, e eu entrei.
A sala tinha sido reformada:
estava atapetada, com uma grande mesa de reuniões num canto.
Uma escrivaninha e poltronas de couro ficavam perto de uma janela de onde víamos o rio Sena.
Atrás do conde, o brasão da família, secular e imponente.
Deslumbrei-me com o luxo.
Olhei meu amigo, cuja educação me fazia sentir tão à vontade com ele, mesmo sendo de classe social tão superior à minha, e pensei que só uma pessoa realmente grande pode abrilhantar os pequenos.
Cavalheiro, ele me indicou a poltrona de couro e pediu ao rapaz que nos trouxesse água e chá de jasmim com biscoitos amanteigados.
Eu me desculpei por não ter marcado horário e incomodar, ao que ele disse ao rapaz:
- Gérard, escute bem: essa é Edite, velha amiga!
Sempre que ela chegar não precisa de horário, é só me avisar!
E se eu estiver ocupado, dê um jeito de me fazer saber, pois ela nunca vem por motivo fútil.
Me entendeu?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:43 am

Pálido e sem jeito, ele assentiu com a cabeça e foi providenciar o chá e os biscoitos. Olhei para Gastón e percebi um brilho em seus olhos, só então me dei conta que minha presença ali poderia ser mal interpretada.
- Cristine me mandou algum recado? Ela está bem?
O amor dele por ela não tinha terminado, ao contrário, parecia ter se multiplicado com os meses de ausência.
Triste e sem jeito, respondi:
- Não, senhor conde.
De facto, ela sequer sabe que estou aqui.
E não está nada bem.
O rapaz que com ela vive agora está dilapidando seu património numa velocidade espantosa.
Ele recostou-se no espaldar de sua poltrona de couro me olhando com os olhos
muito sérios, nos quais eu via agora um rasgo de raiva.
As mãos, contraíram-se cerrando os dedos até que esses ficaram muito brancos num gesto característico que eu já conhecia de quando se irritava; ele me disse com a voz em tom ainda baixo, mas rouco:
Desconfiava disso.
É um rematado idiota, carreirista, tolo.
Motivo de piada grotesca no cabaré.
O problema é que arrasta Cristine consigo.
Nos últimos meses ela tem andado tão ébria que parece não notar, justo ela que sempre foi tão inteligente!
Não sabe como me culpo por isso, Edite!
Se tivesse deixado ela ter seu último bebé, nada disso estaria acontecendo«
Não queria tocar em assunto tão delicado, mesmo porque, concordavas com ele.
Apesar de quase não citar o assunto, via nos olhos dela a tristeza que o tempo e a bebida não tinham conseguido apagar.
Talvez René não passasse de uma fuga, enfim.
Ele perguntou:
- Acha que ela o ama de facto?
Lembrei-me de Paulette, e respondi:
- No início achava que sim, senhor conde.
Mas agora, acho que com cordo com Paulette.
No fundo, o que ela sente por ele não passa de um "resfriado forte".
Derruba, mas é só ilusão.
Com o tempo passará.
Ele é inteligente, culta, e o rapaz é um tolo completo.
Quando uma mulher não admira um homem, o amor acaba.
0 semblante dele desanuviou-se:
- Acredita mesmo nisso?
Será que ela pode vir a deixá-lo?
- Não vejo por que não.
Ela já anda se decepcionando bastante com ele.
Mas isso só o tempo dirá, senhor.
Vim aqui para pedir-lhe algo.
- Precisa de dinheiro?
Pode falar que eu ajudo, mas sem aquele miserável saber.
É só dizer quanto.
-Não, senhor conde.
Preciso de seus conselhos.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 09, 2017 10:44 am

Expus a situação como ela se desenrolava.
Contei do acerto de contas da véspera, dos credores em atraso, da negociação feita com o senhor Yves.
O conde, ao ouvir falar do último, cerrou as sobrancelhas:
- Pobre Cristine.
Dinheiro investido com Yves de Valerant!
‘Sabia pela conversa do dia anterior que o homem não era boa coisa, mas a expressão do conde me deixou preocupada:
- Não é honesto, senhor?
Pode lesar madame nos negócios?
O conde levantou-se, e caminhou até a grande janela.
Suspirou fundo:
- Esse rapaz que está com ela meteu-se com um dos comerciantes mais astutos e vorazes da França.
Mesmo no cabaré, apesar do dinheiro que tem, ele não é benquisto.
Traficante de escravos negros da África e de escravas brancas no Oriente, diz-se mercador de vinhos para encobrir seus negócios verdadeiros.
Está a cada ano mais rico, e conta-se que financia até navios piratas na costa da Espanha.
Tolo foi René, de se envolver com ele.
Não verá mais o dinheiro de Cristine.
Ambicioso, deveria ter se informado melhor de com quem estava
negociando: vai virar motivo de chacota!
Senti-me empalidecer na poltrona.
René tinha falado daquele investimento com tanto orgulho, o que faria quando descobrisse a verdade?
Vaidoso como era, as coisas não terminariam bem.
O conde serviu-se de uma taça de vinho enquanto Gérard me trazia um chá de jasmim que tomei sem demora.
Precisava pensar, as notícias não eram nada boas.
- Negócios não são para vaidosos, nem para amadores, Edite!
É fácil jogar com o dinheiro alheio!
Esse pequeno burguês é presa fácil no meio de especuladores experientes e da nobreza já viciada em ganhar sempre os favores do rei e do clero!
E para completar, ainda é viciado em jogo.
Calei-me lembrando da cena da noite anterior, uma Cristine linda e ébria nos braços de um René jogador, que finalmente tivera alguma sorte nas cartas.
Quanto já não tinha perdido antes e não perderia depois?
Olhei para o meu amigo tão experiente e perguntei-lhe:
- O que me aconselha? Tenho ao menos que quitar as dívidas mais urgentes, e não sei como fazer.
- Disse-me que ele não recebeu os rendimentos dos imóveis rurais, não é mesmo?
Pois vá receber você mesma.
Mas não vá só, que os arrendatários não respeitarão uma mulher.
Leve Clemente e as cópias dos contractos.
Seja educada com eles, mas não seja gentil, seja firme.
Vou lhe dar uma autorização em meu nome para receber as importâncias, pois, embora as terras estejam em nome de Cristine, ninguém duvidará de uma ordem minha, e assim estará protegida.
Ninguém ali se oporá a um nobre.
Com esse dinheiro pagará as dívidas e ainda se manterá até o próximo ano.
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