A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:20 am

Seja esperta, e guarde quantias para comida e salários longe dos olhos de René.
Eu conversaria com Cristine e conseguiria alguns dias para viajar e fazer aquilo.
O conde era inteligente, e me dava um caminho a seguir.
Finalmente eu via luz no final do túnel.
Sorvendo seu vinho, ele continuou:
- Cristine é linda como uma rosa, sensível e inteligente para as artes, mas não nasceu para o comércio.
A irmã dela, Cozette, é que tem esse dom.
Vai ter que ajudá-la, Edite.
Resta saber se o sujeito vai deixar que isso aconteça!
Ao que parece já se apoderou de forma desastrosa do que já considera seu.
Se ela não abrir os olhos, terá problemas sérios.
Sabia de tudo aquilo, mas madame me parecia tão frágil!
Pensei que, com a nova medicação, talvez se afastasse um pouco do álcool, mas na noite anterior voltara a se embebedar incentivada por René.
Não a criticava.
Em seu meio, mulheres bebiam, e ela sempre tinha se mantido à parte de tudo isso.
O conde a mantinha serena e feliz, mas agora com René, a quem interessava que ela estivesse o menos sóbria possível, não sabia como as coisas se dariam.
Gastón me observava por trás da cadeira de espaldar alto, mãos no queixo, com jeito de quem acabava de ter uma ideia:
- E as jóias?
Ainda são muitas, não são?
Viveu comigo por mais de dez anos, e eu me lembro dela sendo presenteada por sultões e reis pela sua dança, além de mim, que constantemente trazia-lhe mimos, alguns dignos de rainhas.
Sei que ele tem lançado ao jogo algumas, a preços ínfimos por sinal.
Rubis e diamantes não nascem em árvores, Edite.
- Sei bem disso, senhor.
Algumas tenho conseguido esconder, mas não sei se terei sucesso nisso por muito tempo.
- Pois o único jeito de salvá-las será vendê-las.
Não podemos deixar que ele as perca nas noites de carteado enquanto se embebeda!
Diga a Cristine que conheço um joalheiro que pagará bem por elas, e traga-as aqui.
Se ela vender num joalheiro comum não conseguirá pelas jóias um terço do que valem, eu pagarei a metade do valor, e ainda as guardarei.
Não salvaremos tudo, mas pelo menos resgataremos algo.
Atónita com a esperteza e a boa vontade dele, agradeci aos céus pelo amor que ainda dedicava à madame.
Despedi-me emocionada pelas palavras de ânimo e pela direcção que me incentivava a tomar.
Tentaria proteger Cristine, pois, sem ela, o que seria de mim e de Paulette?
René ainda era novo, e tinha o tio, mas madame não podia se dar ao luxo de ser explorada assim, afinal, até quando poderíamos contar com o conde?
Chegamos à casa perto do meio-dia e pelo rosto despreocupado de Paulette vi que ninguém ainda tinha acordado.
Esperei que Cristine acordasse para então falar com ela.
O que aconteceu perto das três horas da tarde, quando René veio me chamar, para que levasse a ela uma bandeja com uma refeição, pois não se sentia disposta a se levantar.
Ele, ao contrário, banhou-se e saiu perto das cinco horas da tarde, dizendo que ia visitar o tio.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:21 am

Abri as janelas do seu quarto vagarosamente para que a luz do final da tarde finalmente entrasse no ambiente.
De camisola rendada e branca, os cabelos louros em desalinho, muito pálida, madame me olhou com ares de poucos amigos quando viu a frágil iluminação se firmar.
Ela comia pouco da bandeja ricamente posta, o que me encheu de preocupação, e então me disse:
- Edite, não me sinto bem.
A cabeça dói como se mil alfinetes estivessem nela.
Pegue um daqueles tabletes do chinês para mim?
Não consigo nem vislumbrar um pouco de luz!
No meio da desordem do quarto procurei até achar a bolsa dela com os tabletes.
Estava quase vazia.
Ou madame estava tomando muitos, ou tinha perdido alguns.
Minha dúvida logo foi sanada:
- Traga-me logo dois, Edite.
A dor está forte demais.
- Mas com dois a dose pode ser muito forte!
Madame deve comer antes.
Ela me olhou um tanto chateada, mãos nas têmporas:
- Fala assim porque não tem dor!
Mas está certo, vou comer.
Dê-me o remédio!
Entreguei-lhe o remédio enquanto tomava o leite morno, fazendo uma "careta" encantadora.
Depois de algum custo convenci-a a comer alguns biscoitos com creme, e pãezinhos.
Ao final de quarenta minutos ela já estava bem-humorada, embora meio sonolenta.
- Graças aos céus, a dor passou!
Tivemos uma noite e tanto ontem!
Quer que te conte?
Sempre adorei ouvir suas histórias, pois tinha um talento natural para entreter ouvintes tornando-as mais divertidas e interessantes, mas tanta coisa tinha na cabeça para conversar com ela que não conseguia prestar atenção.
Fui arrumando o quarto aos poucos, enquanto ela me contava dos vestidos das amigas, do show, dos comentários dos senhores, e por fim do dinheiro que René ganhou no jogo.
Não foi grande coisa, mas ao menos pagou a despesa da noite, disse-me ela.
Achei graça pensando nas dezenas de noites em que eles saíram e a conta foi paga por ela, mas nada disse.
Vendo-a de bom humor, resolvi lhe dizer que tinha ido ver o conde e que ele me aconselhara a receber os rendimentos rurais com Clemente e quitar as dívidas urgentes.
Ela não ficou satisfeita de saber de minha entrevista com Gastón, mas concordou que a ideia de eu cuidar disso com um homem de confiança era boa.
Mostrei a carta que ele tinha dado para minha protecção e ela ficou aborrecida, mas depois admitiu que a protecção de um membro da nobreza seria útil.
- Não quero mais laços com ele, Edite.
Nem de amizade!
Deus sabe o que sofri por conta de Gastón, quero esquecer!
Não o procure novamente.
Disse que não o procuraria, mas nada prometi.
Tinha que contar a conversa a ela, tinha que conseguir sua aprovação para ir com o cocheiro cobrar os rendimentos, não fosse isso, não a aborreceria.
Com seu aval, marquei com Clemente sairmos no dia seguinte, numa viagem que duraria pelo menos duas semanas, mas que resolveria os problemas mais urgentes.
Não poderíamos ir à propriedade de Lyon, distante demais, mas com o tempo daria um jeito de aparecer por lá.
Só uma coisa me deixava preocupada: sem mim na casa, quem olharia por madame?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:21 am

XI - SHERAZADE
PARTI NO DIA seguinte cedo, com Clemente.
Era o final de um inverno não muito intenso e a primavera parecia se iniciar.
Paulette fez-nos uma cesta de mantimentos tão grande que parecia que íamos passar um mês fora.
O clima ainda estava frio, mas algumas árvores começavam a brotar e eu me lembrei das noites geladas de inverno na taberna onde trabalhara.
Pedi a Clemente que parasse a carruagem assim que saímos de Paris e fui com ele no assento duplo de cocheiro, sentindo um ar frio e refrescante no rosto.
O cheiro de neve derretida e de lavanda era bom e me animava.
Não sei se madame tinha avisado ao senhor René de minha partida, mas não era de minha conta.
Precisava da autorização dela, e era isso que contava.
Na saída de casa, confirmei uma impressão minha de tempos nos olhos da querida Paulette: ela estava se enamorando de Clemente, pois quando se viu sozinha comigo recomendou-me:
- Se vir alguma desavergonhada querendo saber demais sobre ele, diga que é comprometido!
- E ele é comprometido?
Não sabia.
Ela me puxou para o lado, piscando o olho:
- Ainda não é, mas vai ser.
Conto contigo nisso!
Dei uma boa risada.
Finalmente entendia o porquê dos bolos e mimos no café da manhã.
Abracei-a de leve e disse-lhe ao ouvido:
Pois pode contar comigo!
É um bom homem, escolheu bem!
Dei uma boa olhada em Paulette, continuava bonita a seu modo: seios, fartos, pernas grossas, mãos de quem trabalhava desde muito cedo.
Tinha um cheiro que lembrava baunilha e limão, doce, talvez pelos confeitos que gostava de fazer.
Embora na época fosse considerada "madura", ainda podia ter filhos.
Já Clemente devia ter seus quarenta e poucos anos, também moreno; claro, tipo hispânico, português, alto.
Cabelos negros anelados, agora grisalhos, forte e de tronco largo.
Tinha o nariz meio comprido, um bigode bem cultivado, preto como carvão, e era simpático e confiável.
Não havia por que não dar certo.
Lembrava-me de tudo isso agora, sentada ao seu lado; tomara que funcionasse, pois ficar só podia ser muito triste.
Minha vida tinha sido em sua maior parte uma luta tão grande em sobreviver, que eu mal tive tempo de me sentir sozinha.
Sabia-me sem muitos atractivos e isso não me incomodava, o "monstro dos olhos verdes' que é como chamavam a inveja, não era minha companheira.
Desde cedo tinha visto moças bonitas na taberna, e acompanhado seus destinos.
Nem sempre a beleza era sinónimo de felicidade ou conforto.
Algumas eu vira serem enganadas por filhos de burgueses ou de nobres, engravidando ou se prostituindo.
Outras acabavam em casamentos com homens violentos, e a aparência tão valorizada findava em pouco tempo.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:21 am

Se não tinha nascido bela, também não tinha nascido feia, e não chamar a atenção tinha as suas vantagens:
tinham-me deixado em paz.
Meu coração guardava apenas um segredo, tão delicado que eu não o contava nem para mim mesma e o disfarçava de todas as formas possíveis, pois para que sofrer com o que não se pode ter?
E assim mesmo, não era uma paixão feroz e urgente, era um amor do tipo que se doa e procura tomar feliz aquele a quem se ama.
Eu estava com Cristine já fazia seis anos, tinha acompanhado suas lutas, alegrias e decepções!
Era a minha amiga querida, minha irmã mais nova, a pessoa a quem eu mais devia.
Tudo eu faria por ela, já que me sentia ligada por laços que iam muito além que os de patroa e empregada.
Nunca tinha dito uma palavra que me humilhasse ou ofendesse, sabia eu de sua força e de suas fraquezas, e a admirava pela sensibilidade e bondade que tantas vezes tinha visto.
Temia por ela agora e preferia que perdoasse e ficasse com Gastón, mas a mágoa não deixaria.
Que fazer?
Como trazer de volta um tempo que passou?
Conheci Gastón uma semana depois que ela me trouxe da taberna.
Estava num canto do quarto quando ele entrou e deu comigo ali, encolhida, querendo ficar invisível, dobrando as roupas de madame.
Espantou-se e perguntou a Cristine quem eu era; feitas as apresentações, ele sorriu com minha timidez:
"Mas parece uma pequena moura!".
Senti o vento frio no meu rosto e ele secou uma lágrima.
Que mistérios são esses que fazem com que nos identifiquemos com uma pessoa de imediato, ao passo que com outras, ainda que vivamos anos juntas, nos sintamos ao relento?
Junto de Gastón eu me sentia aquecida, feliz como nunca estivera.
Demorei a entender o que me acontecia e, por engraçado que fosse, sabendo-o apaixonado por Cristine, eu o defendia para ela.
Nem por um momento pensei em separá-los, e como poderia?
Madame era a alegria de Gastón, eu o amava e o queria feliz!
E não é isso mesmo o amor?
Desejar a felicidade do outro a ponto de ser feliz por ele?
Contei a Paulette uma vez sobre meus sentimentos, já que ela, perspicaz e bondosa, tinha me visto olhar para ele enquanto todos estavam distraídos com outra coisa qualquer.
O olhar denuncia, não é mesmo?
Minha querida amiga me apertou a mão e me disse em voz baixa:
- Ele sabe de seus sentimentos?
Rubra como uma rosa vermelha, perdi o fôlego ao me ver assim descoberta, em coisa que eu julgava tão bem escondida há anos.
Amigas como éramos, ainda assim isso era segredo meu, e não achava que alguém conseguisse entender amor puro como o que eu tinha.
Logo, ainda que soubesse da inutilidade das palavras, protestei:
- Não diga tolices!
Se nos ouvem, o que podem pensar de mim?
Pois então vamos ao meu quarto.
Lá poderemos falar em paz.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:22 am

Segui-a sem muita vontade, afinal, como explicar o que não se explica, apenas se sente?
E depois, amor em igual intensidade, embora diferente, eu tinha por Cristine.
Será que ela não notava isso, ou achava que eu fingia?
Como não amar aquela "deusa loura" que tudo tinha me dado e que compartilhava comigo seus segredos?
Como não se comover com sua inocência e sua bondade, apesar do mundo em que convivia?
Cristine não era uma cortesã comum... ia tão além disso!
Minha lealdade a ela era absoluta.
Chegando ao quarto de Paulette, limpo e asseado, cheio de bibelôs baratos mas bonitinhos, eu me senti como se estivesse no quarto de uma irmã, e dei com o olhar daquela figura que muitos achavam rude, mas que tinha a alma cheia de compreensão. Ela me disse:
- Está apaixonada pelo conde, não?
Ergui o queixo o mais que pude em gesto de orgulho pueril:
- Não, senhora. Não há paixão nenhuma.
Não tenho a menor ilusão de tê-lo, mesmo porque seria ridículo.
O conde ama madame mais do que tudo, e não olharia para outras mulheres... quem dirá para mim.
Ela franziu as sobrancelhas e colocou a mão nos quadris, continuando a falar em voz baixa, mas já visivelmente irritada:
- Que idade acha que tenho, Edite?
Estou longe dos vinte anos!
Não sou tola.
Seus sentimentos pelo conde não são de amizade.
Quer negar isso?
Baixei a cabeça:
- De forma alguma.
Mas está longe de ser a louca e desvairada paixão que observo nos amigos de madame e leio nos romances.
E amor, Paulette, de uma forma que nunca vi descrita, e que parece que apenas eu sei sentir.
Amo o conde e não tenho nenhuma esperança de ser para ele como Cristine é, mas sei que é feliz com ela como nunca seria comigo, e isso me alegra, pois vejo a alegria dele quando a vê nessa casa.
Ela me observou como se eu fosse um ser de outro planeta:
- Não sente ciúme, então?
- Quando descobri meu sentimento, há alguns anos senti um pouco sim.
Queria descobrir como seria estar nos braços dele, que mulher não pensaria assim, ainda que fosse uma pequena moura como eu?
Ela me olhou com o que pareceu ser um pouco de pena, mas para que entendesse melhor, eu continuei:
- Não sinta piedade de mim, boa amiga.
Sou muito feliz aqui.
Trabalhou em padarias e em outras casas antes dessa, não foi?
Ela assentiu com a cabeça.
- Em alguma foi tão bem tratada ou teve tanta liberdade de escolher o que fazer?
Madame alguma vez foi ríspida ou lhe tratou com brutalidade?
Ela empertigou-se:
- Não. Jamais!
Pode ser uma cortesã, mas tem a educação de uma lady inglesa!
E é generosa, de nada faz questão.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:22 am

Observa se estou precisando de algo, como sapatos, me dá xales novos.
Madame é uma santa!
E sempre que faço uma coisa nova me elogia.
Trabalharia para ela mesmo sem ordenado, pois moça como essa não há em toda França.
E tão educada!
Não acredito que tenha tido origem humilde...
- Teve origem burguesa, a mãe era uma dama e a educou até os quatorze anos, quando morreu e perderam tudo.
Não nasceu para ser cortesã. O conde é o seu primeiro e único homem.
Ela me olhou admirada, era a primeira vez que ouvia a história da patroa.
- Ah! Agora as coisas se explicam!
Pobre menina! Tão delicada.
Mas parece feliz com o conde!
-E é. Sem Cristine eu já teria sido descartada da taberna onde trabalhava e definharia.
Vivia doente lá, de frio e fome pelos restos de comida que ceava e que nem sempre eram limpos.
Acha que não sou grata a ela e que não a amo de coração?
Ela me ensinou a ler e a fazer contas, esqueceu?
Paulette calou-se.
- De sua forma, ela ama Gastón, que também a ama, e eu adoro os dois.
Não sou tola, e entendo bem as coisas e as aceito tais quais elas são.
Deus deve ter um motivo para tê-las feito assim e eu agradeço a Ele a oportunidade de conviver com pessoas generosas e boas.
Tenho, sim, um grande amor por Gastón e ele perfuma os meus dias quando vem visitá-la e conversa comigo, às vezes por horas.
Somos bons amigos, uma camareira e um conde.
Eu com meu cheiro suave de lavanda, Cristine com suas essências raras, sândalo, almíscar, madeiras do oriente.
Minha amiga é única, a felicidade dele é tê-la por perto, e a minha, é vê-lo feliz.
Não sou tola e o amor verdadeiro não é egoísta.
Espero que o conde saiba a preciosidade que tem e que a trate sempre com o respeito que ela merece.
Paulette me entendeu.
Tudo isso parece fazer tanto tempo!
Tivesse ele ouvido meus conselhos e tido o segundo bebé, a despeito das convenções, ainda estariam juntos, e muito sofrimento teria sido evitado.
Nós duas esperávamos tanto pela criança, muito embora eu temesse a opinião dele.
Na casa de Cristine tive pela primeira vez em minha vida a noção de Natal.
Na taberna onde passei a infância e grande parte da juventude, tudo ficava vazio e em silêncio no frio europeu desta data, e me lembro de minha patroa saindo à noite para a missa do galo, reclamando muito da noite sem lucros.
Ela na realidade era de origem judaica, mas isso afastaria os clientes, então se passava por católica.
Cristine era cristã.
Não podia ir à igreja, pois não seria bem vista, já que era dançarina, mas enchia a casa de pequenas velas e as acendia todas no dia 23 de dezembro e no dia 24.
Por que no dia 23?
Como Gastón tinha que passar o Natal com a família, ela comemorava com ele no dia 23, e depois connosco e Cozette no dia 24; algumas vezes, sua irmã caçula aparecia (antes de se casar, já que depois; o marido proibiu as visitas, embora tenha adorado o dote).
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:22 am

Paulette, apesar da "ceia dupla", adorava a data!
E não era para menos, já que no dia 23 ganhávamos alguma lembrança do conde (dinheiro, impreterivelmente) e no dia 24 um mimo de Cristine.
Tínhamos música (um pianista quase sempre aparecia), licor de ovos, doces variados, bolos, e na manhã seguinte íamos na frente da Catedral distribuir "os restos" (e que restos requintados!) da ceia, com as freiras, se a neve permitisse.
Lembro de uma vez em que o conde chegou de casaco de veludo negro, com um embrulho enorme que Clemente ajudou a trazer para dentro.
Enrolado em papel de seda, imaginei logo o que seria e Cristine aproximou-se curiosa, louca para abrir o pacote.
- O que é? perguntou ela, os olhos verdes faiscando de curiosidade.
- Não adivinha?
Ela tentou levantar o embrulho do chão sem sucesso, pois era pesado para ela, franziu as sobrancelhas e sorriu:
Pensei que podiam ser vestidos.
A embalagem não condiz, é pesada e grande demais!
Mas, tão achatada!
Que é isso, Gastón?
Um espelho?
- Quase. Ia deixar para você abrir na noite de Natal, mas não posso me furtar de saborear a sua surpresa.
Vamos, abra.
Edite, venha cá, ajude-a que também quero sua opinião.
Pus-me a tirar o papel de seda com ela e dei com um duro papelão por baixo, e ainda mais papel de seda envolvendo uma rica moldura de madeira escura, com detalhes dourados.
Aos poucos percebemos um quadro e fomos rasgando o papel na curiosidade de ver a obra, quando minha amiga, finalmente, rasgou certa parte e viu dois olhos verdes, uma boca vermelha e cabelos de um dourado inequívoco retratados na tela.
Com os pelos do braço arrepiados, ela parou em frente à tela e olhou para o conde:
Gastón... é meu retrato?
- Ele estava feliz.
Curiosa para ver o resto, nós duas fomos arrancando o papel quase que descuidadamente e em poucos segundos eis o quadro desnudo em nossa frente.
Cristine sem fôlego, contemplando uma tela que a retratava em trajes orientais quase transparentes, cabelos louros longos, iluminados pelas velas, ricas tapeçarias em volta, rubis no pescoço, nas orelhas e nos dedos, e na testa, enorme esmeralda. Ficamos os três em silêncio, a olhar a deslumbrante tela em pintura a óleo, na qual o rosto dela tinha uma expressão de alegria e inocência quase infantil, como se não tivesse consciência da própria beleza e fascínio.
Gastón olhou para nós:
- Lembra? É você como Sherazade, a rainha das mil e uma noites...
{Sentindo nossa curiosidade, Edite colocou a mão sobre o sensor, fechou os olhos concentrando-se e na tela apareceu a obra: um quadro de mais de dois metros de altura deslumbrante, no qual a loura Cristine aparecia em trajes de dança ousados para a época, mas que não a deixavam desnuda, apenas insinuavam o corpo através de múltiplos véus.
Os braços muito brancos erguidos em passo de dança e o rosto virado para o artista, em linda e inesquecível expressão de ternura e inocência.
Até mesmo nossa plateia emudeceu.)
Ela nada respondeu, olhando a pintura, sentou-se numa "namoradeira" (cadeira de madeira de dois lugares, móvel de época bastante popular) para observar a tela de longe, séria e pensativa.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:22 am

Ele preocupou-se:
- Não gostou?
Achei que o artista trabalhou tão bem!
Parece que captou-lhe a alma!
Mas não fique triste, posso devolver.
- Mas nem pensar!
Nunca vi tela tão linda!
Quem foi o artista, Gastón? - levantou-se ela.
- Mas então gostou!
E por que a carinha tão séria?
Lembra-se de sua última temporada, em que eu fiquei no camarote, logo acima do palco? Havia um senhor
moreno claro comigo, de cabelos cacheados negros, um tanto grisalhos.
E um famoso pintor italiano, está em Paris para retractar alguns membros da nobreza.
- Membros da nobreza?
Sua família também? perguntou ela.
- Sim respondeu ele -, está fazendo 0 retrato de minha filha, eia idade de arranjar casamento.
Achei o trabalho tão bom que pedi para ele retractá-la.
Levei-o diversas vezes a assistir a seus números, e ele ficou extasiado.
Cheguei a ficar enciumado, mas valeu a pena.
Ele captou o olhar que você me dá quando dança e disse que é a sua obra-prima, embora não possa expô-la.
Disse que é a mulher mais linda que já retractou.
- Nunca tinha me visto desta forma.
Não acha engraçado, Edite, que a forma como nos vemos seja tão diferente da forma como os outros nos vêem?
Ainda me vejo como uma menina; nesse quadro, os olhos são de menina, mas o corpo é de mulher.
Esse artista realmente me viu, esqueceu-se da cortesã.
Eu concordava.
Não era uma cortesã na tela, mas uma rainha coro olhos indescritíveis, que olhavam com a inocência de uma criança.
Era a nossa Cristine, de dentro de casa, que nos encantava tanto e que batia palmas quando recebia presentes.
Desta vez, no entanto, não ouvi as palmas, estava extasiada demais.
Paulette e Clemente apareceram na sala e observaram a tela de longe.
O condutor ficou estático, boca aberta destacando ainda mais o bigode negro, admirado por ver sua patroa em deslumbrante teia de mais de dois metros.
A cozinheira, que nunca tinha sido discreta, logo deu sua opinião:
Valha-me Deus, madame!
Finalmente um retrato que faz justiça à dona!
Está um deslumbre.
Onde vai colocar isso?
Aqui na saia?
- Ainda acho o original muito mais interessante, Paulette.
Mas é verdade, onde pretende colocá-lo, minha querida? - perguntou o conde.
- Em nosso quarto, Gastón.
Ele estranhou. Geralmente essas obras de arte ficavam expostas na sala para a admiração de quem entrasse, para louvar-lhes a riqueza e o bom gosto.
- Na sala não seria mais adequado, Cristine?
Está tão linda!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:22 am

Vendo-se cercada de olhares curiosos, inclusive o meu, explicou-se:
- Recebemos muitas pessoas aqui.
Seus parceiros comerciais, actrizes, artistas da noite, poetas, atores.
Para todos esses eu sou Cristine, a dançarina, que vive de forma livre com o conde de Laureac.
Essa do quadro sou eu, que na realidade nunca fui cortesã, mas fui mulher de um só homem e me adaptei à realidade que me foi imposta.
Minha inocência e meus valores são segredos nossos, não me exporia dessa forma.
Ante o silêncio, ela pediu a Clemente que levasse a tela para seu quarto e a instalou na parede em frente à cama do casal.
Concordei com ela, mas senti a reflexão que isso causou em Gastón.
Quisera que ele tivesse reflectido melhor e não fosse orgulhoso, pois o que ela disse era a pura verdade:
não era da natureza de Cristine ser a amante, mais fiel que muitas mulheres casadas, devia ter sido
permitido a ela ter os filhos.
Por outro lado comentava-se em Paris que a condessa de Laureac estava longe de ter uma vida recatada, mas aos ricos e bem nascidos tudo se perdoa.
Se o conde sabia ou não do que se falava "à boca pequena" sobre o comportamento dela no palácio do casal, não vem ao caso, mas ele era motivo de piadas, já que ela estava longe de ser discreta.
Havia na época, em Paris, diversos perfumistas, pagos a preço de ouro, e o boato mais recente era de que ela encomendara um perfume masculino para um de seus amantes, que antes fora criado de sua mansão.
O povo era maldoso, mas ao que parece, o conde não se importava com isso.
Diferente teria sido se alguém se interessasse ou faltasse com o respeito com Cristine.
Respeitou René apenas por ela ter se interessado por ele, o que nunca acontecera antes, e pela culpa de tê-la feito sofrer.
Os códigos morais da França da época eram de fato estranhos...
Sofri com o sofrimento dele, e mais ainda com a saudade de não vê-lo com frequência.
Doeu-me o coração notar que emagrecia e não poder consolá-lo, afinal, quem era eu?
Apenas uma camareira...
E agora eu aqui estava, tentando salvar minha amiga de um vexame financeiro provocado por um sujeito que mal sabia o tesouro que tinha em mãos.
Respirei o ar fresco e senti o cheiro de lavanda no ar.
Deus me guiaria!
Sabia do amor de Gastón por Cristine, e só por ele eu já tomaria conta dela!
Como são tolos os ricos, Senhor.
Como abrem mão de coisas tão importantes em nome de coisas tão pequeninas!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:23 am

XII - UM ACERTO DE CONTAS
RETORNEI A PARIS com Clemente depois de duas semanas.
Tivemos êxito no recolhimento dos alugueis.
O conde tinha sido cauteloso ao escolher as pessoas para quem alugava os imóveis, tanto os urbanos como os rurais, e, auxiliada por Clemente, com seu vasto bigode negro e sua pose séria, não tive dificuldades em receber.
Tivemos algumas cenas engraçadas, pois eu sou de natureza tímida e cobrar os outros nunca tinha sido de meu feitio.
Segui o conselho de Gastón e mandei meu amigo cocheiro na frente, dizendo-lhe que fizesse uma expressão severa e apresentasse a carta do conde autorizando-o a receber.
Nada de sorrisos! avisei.
Postei-me logo atrás dele (com uma expressão mais séria ainda), no caso de precisar argumentar algo, já que Clemente nada sabia dos negócios de madame.
Deu certo. Ao verem meu grande amigo com cara de português de cenho franzido a exibir carta de um nobre, falando grosso e dizendo que tinha vindo cobrar o dinheiro, eles iam pegar os envelopes, nos entregavam, eu conferia e íamos embora, bem rápido.
De posse do dinheiro, antes de tomar à casa, decidi primeiro quitar as dívidas de Cristine:
nada mais de olhares desconfiados quando nos entregassem as encomendas de pão, carne ou verduras.
Felizes por estarem recebendo, nossos credores voltaram a ser gentis.
Por via das dúvidas, tratei de esconder, com meu amigo, outro tanto da quantia para prover dois meses futuros.
Não queria saber mais de ficar devendo, sabe-se lá quando René sairia daquela casa, ou "se" saíria!
Ficamos muito amigos, eu e Clemente.
Para minha alegria ele me segredou estar interessado em Paulette há longa data, e me disse que só não falava com ela porque tinha medo do seu génio.
Não o culpei: minha amiga tinha um coração doce, mas quando ficava irritada dizia palavras que fariam corar a um marinheiro.
Mais de uma vez tinha chamado a atenção dela, que devia moderar sua linguagem, que não ficava bem para uma moça, mas, criada desde cedo em trabalho duro, com pessoas do povo quando seu sangue fervia as palavras "saíam" sem que tivesse controlei?!
Isso sem falar na fabulosa "mira" dela.
Paulette tinha horror a ratos mas enquanto eu corria como uma desesperada quando via algum, ela, rápida como um raio, agarrava logo um caneco ou algo que tivesse à mão e lançava no animal.
"Pontaria mais certeira não existe!", contou-me ele que uma vez escapou de ser atingido, para ver uma ratazana de tamanho razoável ser apanhada na cabeça por formidável caneco de ferro.
Segunda Clemente, quando o viu ela ficou muito sem jeito, mas depois se desculpou:
"detesto esses bichos!".
Por essas e por outras, Clemente tinha medo de aproximar-se.
Fiel à minha amiga, não disse nada a ele sobre os sentimentos dela, mas conversaríamos depois quando eu chegasse.
Ao menos já sabia que era recíproco e, depois, o cocheiro daria um excelente marido.
Chegamos perto das cinco da tarde e eu fiquei feliz de ver a casa que considerava meu lar.
Observei que as luzes estavam acesas no quarto de madame, na cozinha e na sala.
Como estaria Cristine?
Queria tanto dar-ihe as boas-novas das contas pagas!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:23 am

Clemente parou os cavalos e abriu o portão colocando a carruagem no pátio interno; teriam que descansar, uma vez que trabalharam muito naqueles dias, e eu, agasalhada pelo meu xale de lã negra, entrei na cozinha aquecida, quase esbarrando com Paulette, que, ouvindo o portão, tinha vindo nos receber.
Ao me ver, ela me abraçou:
- Enfim chegaram! Mas que demora.
E então, conseguiram receber alguma coisa?
Deu tudo certo?
E Clemente, onde está?
Respondi que estava tudo certo, que Clemente tinha ido alimentar os cavalos e que as coisas correram bem.
Depois de responder a mil pequenas perguntas sobre as novidades e tranquilizá-la sobre a fidelidade de Clemente em relação a outras mulheres na viagem, ela me deixou perguntar:
E madame? Está no quarto?
Está melhor das dores?
Paulette deu um suspiro de resignação:
- Por que não sobe, Edite, e dá uma olhada no quarto?
Ela está acordada.
Já espera por você há alguns dias, ficará feliz em vê-la.
- Subi as escadas, feliz, mas notando certa desarrumação na sala, o que me desagradou um pouco.
A faxineira não viera?
Copos e garrafas estavam espalhados e alguns móveis de madame estavam marcados por copos descuidadamente deixados.
É, eu tinha feito falta.
Comigo ali aquelas coisas não aconteceriam, discretamente eu sempre recolhia tudo.
Parecia que houvera algumas festas, mas isso mesmo no tempo do conde era normal, só não era normal a bagunça deixada pelos convidados.
Os de Gastón eram bem mais alinhados.
Notei que mesmo algumas cortinas precisavam de reparos por algumas manchas de vinho.
Alguma coisa me afligiu o peito, não sei bem a causa.
Tinha chegado tão feliz com as novidades, via uma saída para nós, mas agora... parei na porta do quarto de Cristine e senti novamente aquele cheiro amargo e característico:
estaria René fumando de novo aquele cachimbo horroroso?
Bati à porta com vigor, pois ouvi o som de risadas, e senti que podia estar interrompendo algo, e enfim a porta se abriu:
- Edite! Enfim aparece a minha querida!
Não sabe a falta que me fez.
Temos tanto a conversar, ma petite amie9 Impossível ficar sem você!
Recebida tão efusivamente, fui colocada quarto adentro por uma Cristine mais magra, de pele translúcida, os olhos verdes parecendo incrivelmente grandes e emotivos com as pupilas dilatadas.
A pele estava pálida e a boca rosa com a maquiagem usada na época.
Estranho dizer que nunca tinha visto minha amiga mais bela, mas aquela beleza me assustou como se fosse o canto final do cisne.
(Edite colocou as mãos sobre o visor e vimos uma Cristine de tez incrivelmente clara, cabelos louros, maquiada com esmero e uns poucos quilos mais magra, o que realçava ainda mais os traços; ainda que perdesse com isso o encanto de menina, via-se agora o encanto da mulher.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:23 am

Vestida num vestido vermelho com o decote ornado de rendas negras, e formidável rubi enfeitando o colo em pesado colar de ouro, era uma aparição de beleza mais madura, deslumbrante.
Está deslumbrante, madame.
Vai a alguma festa? - perguntei timidamente, observando René se vestir por trás do biombo e o quarto muito mal arrumado, com aquele cheiro insuportável.
Mãos na cintura, ela me olhou e depois me deu um abraço, apertando -me contra o peito.
Senti seu perfume inebriante e me perguntei o que andara acontecendo durante a minha ausência.
Por trás de seu cheiro habitual, outro mais acre se desenvolvia, e imaginei se ela não andava fumando aquele cachimbo com o companheiro.
Ela me sentou na cama, mas depois levantou-se, olhando para o biombo:
- Vamos para o escritório, tenho tanto a conversar com você.
René, querido, lhe espero lá embaixo, ainda temos tempo, como sabe.
Vi o rosto dele aparecer por trás da madeira pintada, pálido e com olheiras.
Se Cristine estava bela, não podia dizer o mesmo dele: parecia abatido.
Vendo-me, fingiu surpresa:
- Então, camareira, apareceu?
Conseguiu receber daqueles aldeões?
É bom! Precisamos de dinheiro, como bem sabe.
Bem-vinda, Edite!
A moda da época era de perucas, adereços e maquiagens.
Dona de cabelos formidáveis e bastos, Cristine não fazia uso delas, pois seu louro natural reflectia tanto a luz do sol como a luz de velas de forma esplêndida.
René, de cabeleira negra não tão abundante, parecia agora ter aderido à moda e tinha na cabeça uma peruca branca empoada, e que parecia cara.
Era uma época estranha, em que os homens também faziam uso de maquiagens e artifícios, às vezes ainda mais que as mulheres.
Apaixonados por novidades, os franceses amavam perfumes e cosméticos, pomadas dos mais variados tipos, com corantes vários.
O jovem René parecia precocemente envelhecido, mas satisfeito com o resultado.
Saímos descendo a escada apressadamente, eu olhando madame e tentando entender o que se passava.
No meu íntimo, dei graças a Deus por já haver pago as dívidas e adiantado o dinheiro a nossos credores, as coisas pareciam bastante desvairadas por ali.
Entrando na biblioteca que fazia as vezes de escritório, Cristine fechou a porta e me perguntou:
- E então? Como foi?
- Contei a ela que tudo tinha corrido muito bem, graças a Clemente, que com seu jeito sério tinha conseguido receber todas as quantias.
- E o dinheiro, está contigo?
Uma bolsa de seda vermelha estava atada a meu vestido por baixo da capa, e eu entreguei a ela, mas só depois de contar que já tinha pago as nossas dívidas e deixado com nossos credores algum dinheiro por conta.
Havia também separado os salários de Clemente, da faxineira e de Paulette.
Contando o dinheiro, ela me perguntou:
- E Não separou o seu? Porquê?
- Ora, madame.
Não é o momento.
Pode me pagar quando o senhor René receber o investimento nos navios.
Por enquanto não é preciso!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:23 am

Conferindo as contas, ela me sorriu:
- Fez excelentes negócios, com a honestidade e a sabedoria de sempre.
Mas não é justo que fique sem seu pagamento.
Ande, pegue aqui.
E me deu o resto do dinheiro que estava na bolsa.
Era bem mais que o meu salário, pelo menos duas vezes o valor, contando com os atrasados.
Fiquei lívida com a surpresa, e respondi:
- De forma nenhuma, madame.
Esse dinheiro pode fazer falta.
Não passaremos por dificuldades nos próximos meses, mas sem dúvida eu posso esperar!
Nunca cobraria madame, a quem tanto devo!
Ela me olhou de forma séria, as mãozinhas brancas postas sobre a mesa, como se tratasse de negócios durante toda a sua vida:
- Se eu fosse contratar outra pessoa para receber esses valores, tem ideia de quanto eu pagaria?
- Não é esse o caso, madame.
Sou sua amiga, tenho obrigação de ajudar.
- E acredita que essa pessoa, que provavelmente me cobraria uma percentagem, seria totalmente honesta?
Creio que não, Edite.
E depois, pagando a você faço um favor a mim mesma, não vê?
- Como?
- Ma petite amie, acha que sou insensível?
A quem acha que recorreria caso tudo me faltasse no mundo?
É a pessoa que conheço que tem mais juízo, com excepção talvez de minha irmã Cozette.
Mas não recorreria a ela, teria vergonha.
Minha irmã de facto é você!
Senti meus olhos se encherem d'água, mas fiquei preocupada.
René com certeza esperava algum dinheiro da viagem.
- Mas o senhor René vai ficar desapontado.
Que diremos a ele?
Ela suspirou, parando na frente de um espelho de meio corpo próximo de pequena mesa, e se olhou ajeitando o cabelo preso em elegante penteado.
- Ele não vai ter que se preocupar com isso, querida.
René gasta demais, e sabe disso.
Sua dívida no cabaré em jogos e bebidas ultrapassa em muito a quantia que você me trouxe, e se eu quiser mantê-lo vivo, devo usar de outros expedientes.
Por dentro de mim veio uma raiva difícil de conter.
Por que madame devia pagar pelas dívidas dele?
Vendo meu semblante contrafeito, Cristine leu meu pensamento:
- Sem mim ele não teria nenhum crédito, Edite.
Valeu-se disso, o tolo.
Como havia trancado todas as minhas jóias por desconfiar que algumas estavam desaparecendo, ele assinou cartas de crédito, e Albert franqueou-lhe as bebidas do bar do cassino.
Com amigos assim, quem precisa de inimigos?
Sabem perfeitamente que Gastón não me deixou desamparada.
Ela sentou-se numa poltrona de espaldar de couro que antes era usada pelo conde, semblante contrafeito pelas memórias.
- Tenho vinte e oito anos agora.
Sofro de dores infernais, como bem sabe.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:24 am

Os tabletes do chinês me dão certo alívio, mas me deixam sonolenta e esquecida, porém não consigo mais ficar sem eles.
Aliás, dou graças a Deus que existam, pois as dores eram tão fortes que eu ia enlouquecer.
Quando tomou o remédio, o alívio vem muito mais rápido, mas não consigo gostar do cheiro.
René é que anda fumando também, diz que o acalma.
Dorme, o que é bom.
Pelo menos nessas noites, deixa de jogar.
Continuei ouvindo em silêncio, entendendo a desordem e o cheiro do quarto.
O rapaz também estava fazendo uso do narcótico...
Isso explicava algumas coisas.
Ela continuou:
- O problema é que quando dei por mim, a maior parte de minhas jóias de valor
haviam de facto desaparecido.
Lembra-se da quantidade de esmeraldas que Gastón me deu?
Não achei mais nenhuma!
Sem falar em meus anéis de diamante, pulseiras... esse meu colar de rubi foi uma das poucas peças que sobraram pois estava em outra gaveta, e algumas pérolas de Vedor mais baixo.
Fiquei furiosa com René, mas tudo já tinha ido embora!
E agora, essa dívida!
Ela parou, como se lembrasse de algo:
- E o pior você nem imagina:
sabe que algumas das peças que Gastón me deu eram falsas?
Isso mesmo!
Diamantes imensos, mas falsos!
Safiras lindas em incrustações perfeitas, falsas!
Fiquei tão decepcionada!
Eram as cópias das jóias de maior valor, que tinha feito para salvar das mãos de René caso ele as roubasse, orientada por Gastón, que indicou um joalheiro que fez imitações perfeitas.
- Como soube que eram falsas, madame?
Isso não parece coisa que o conde faria.
Ela sorriu triste:
- Pois não é?
Mas René as pegou sem minha permissão para pagar dívidas de jogo e quase morreu de apanhar nas mãos dos credores.
Disseram que era vidro, imagine! Vidro!
Nunca imaginei que Gastón me enganasse assim!
Vai ver seu amor era falso como essas jóias.
Tinha que contar a verdade, suspirei fundo:
- Não fale assim do conde, madame.
Ele errou com a senhora, mas o amor dele era verdadeiro, assim como as jóias.
- Ainda o defende, Edite?
Jogaram as jóias na cara de René, e elas quebraram como vidro!
Diamantes não se quebram assim.
Eu vi o que sobrou!
Com um fio de voz, respondi:
- Aquelas eram cópias, madame.
As verdadeiras eu escondi, o conde nunca lhe daria jóias falsas!
- Cópias? Mas como assim?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 11:24 am

Disse a ela então que tinha notado no tempo em que ela estava doente que suas jóias estavam sumindo com rapidez, e que tinha encomendado a um joalheiro cópia de suas jóias e as substituído para o caso dele roubá-las, como acabou acontecendo.
Não imaginava que ele levaria uma surra, nem que as levaria todas.
Omiti que o conde tinha me ajudado, pois a confusão já era grande o bastante.
Ela me ouviu contar tudo arregalando os olhos verdes, muito pálida e no final me disse:
Mostre-me as jóias verdadeiras, Edite:
Caminhei, como quem vai para uma forca, para o meu quarto e tirei, escondida no fundo falso de uma gaveta da minha cómoda*, uma caixa de madeira fechada, com tranca de cadeado já meio velho, mas potente.
Aberta a caixa, dentro dela havia um saco de algodão branco e dentro desse saco, outro de veludo vermelho.
Verifiquei se as portas e as janelas estavam fechadas, pois não queria saber de curiosos; sabia que madame me passaria no mínimo uma séria
descompostura.
Prendendo a respiração, passei a mão sobre a colcha verde*de minha cama, já bem esticada, e despejei o conteúdo do saco sobre ela.
O quarto, iluminado por apenas cinco velas, pareceu acender-se dado o brilho das peças:
três grossos colares de esmeraldas e brilhantes, cada qual mais trabalhado que o outro, cintilavam em companhia de um outro colar de safiras azuis e diamantes, esse mais delicado, mas de indefinível valor.
Uma pulseira de rubis incrustados em ouro amarelo, pesada e que Cristine havia descrito como "exagerada", também lá estava, brilhante como o ouro verdadeiro costuma ser.
Uma quantidade de anéis, todos com pedras de variados tamanhos, de safiras a águas marinhas.
Ela colocou uma peça no dedo anelar, grande esmeralda ladeada de brilhantes, que o conde dera em seu vigésimo aniversário e fazia par com brincos® um colar ali guardados.
Brincos em formatos de candelabros, parecendo cascatas de pedras, ganhas no Oriente em suas apresentações, e algumas peças de pesado ouro marroquino.
Na caixa estavam pelo menos dois quilos em jóias que eu retirara aos poucos; de algumas ela nem dera falta, outras eu substituíra por cópias.
Ainda sentada em minha pobre cama, madame olhava como se tentasse se lembrar da ocasião em que as ganhara.
Foram muitos anos com o conde e era rara a semana que não recebia um mimo, por pequeno que fosse.
Nas apresentações a nobres, marajás e sultões, outras tantas jóias tinham sido amealhadas, pois os orientais, quando apreciavam uma mulher, o demonstravam com ouro.
Ficamos alguns minutos em silêncio, o que aumentava minha angústia, pelo segredo mantido; sem aguentar mais, falei:
- Peço que me perdoe, madame.
Mas não confiava em seu René.
A senhora estava doente e ele estava pegando suas jóias; pensei em proteger seu património.
Não fique muito brava comigo!
Se quiser, arrumo minhas coisas agora mesmo.
Só não podia deixar a senhora pensar mal do conde.
Jóias falsas, imagine!
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:56 am

Ela me olhou como se acordasse de um longo transe, e fez algo que nem em sonho eu esperava: começou a rir!
Não era uma risada educada, nem polida como de costume; ela ria desbragadamente como se tivesse ouvido a história mais engraçada dos últimos tempos.
Chegava a curvar-se, e eu fiquei olhando sem saber o que fazer.
Acabei rindo também.
- Mas, madame não está brava?
Achei que ia ficar muito zangada comigo.
Não quer que eu vá embora?
Ao ouvir minhas palavras ela ria ainda mais, pediu minha ajuda e colocou as jóias no saco de veludo e em seguida no de algodão, colocando tudo na velha e forte caixa de madeira, em meio aos risos.
- Quer que eu guarde de novo em minha cómoda?
A isso ela fez que sim com a cabeça, e depois me disse:
- Edite, mon amie10, sente-se aqui!
Esconda novamente isso!
Ninguém sabe que isso está aí, sabe?
- Não! Nem pensar, que não sou tola!
Há uma fortuna de madame ali dentro, é para seu futuro!
Ela recuperava o fôlego, e dispôs-se a me contar o que queria:
- Depois que vocês viajaram, uns dois dias, René me deixou dormindo em casa como de costume e foi ao cassino do cabaré jogar.
Já devia mui tó> e tinha dado muitas de minhas jóias como garantia sem me consultar, como de costume.
Não faça essa cara, querida.
Do jeito que andei doente, não conseguia ver metade do que acontecia, e ele se aproveitou.
Aliviada por ela estar enxergando a realidade, continuei ouvindo.
- Não digo que não me ame, até acredito que goste de mim, mas é viciado em jogo.
Já vivi na noite tempo suficiente para reconhecer a "febre do jogo" quando a vejo, e nosso tolo René é assim.
Acho mesmo que se ganhasse me cobriria de jóias, e acredita que fará fortuna, mas na mão de jogadores profissionais não passa de um boneco estúpido.
Não tinha pelo rapaz nenhuma simpatia, e sequer pena, mas em respeito a ela, calei-me.
- Sabendo de minha situação e que eu ajudaria o rapaz, deram a ele um crédito quase ilimitado durante semanas.
Foram aos poucos o iludindo:
alguns dias ele ganhava um pouco, atiçando-lhe a cobiça, para no dia seguinte perder o dobro.
É um truque antigo que funciona há séculos.
Achando-se dono da situação, o tolo endividou-se a tal ponto que a banca do cassino, tendo uma ideia de minha situação financeira, finalmente negou-lhe o crédito. Sabe o que aconteceu então?
- Acredito que o tenham pressionado, senhora respondi.
- Você é elegante, minha amiga!
Disseram a ele que se não pagasse em 24 horas, ele morreria e apareceria boiando no rio Sena.
Já fizeram isso antes, a polícia já se acostumou.
Tratando-se de dívida de jogo e não sendo um nobre ou o clero envolvido, fica tudo esquecido.
Todos em Paris sabem disso.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:56 am

Calei-me pensativa.
Não gostava de seu René, mas não gostaria de vê-lo boiando no Sena.
Imaginei como isso teria repercutido em madame, de coração tão generoso.
Então deu as Jóias a ele, madame?
Ela resmungou, bem zangada:
- Sabe que tenho andado um tanto doente, minha amiga, e que isso me tem "tirado o juízo", ou teria prestado atenção.
René além de tolo, é orgulhoso, e nada me disse sobre sua situação.
Chegou em casa mais cedo, o que me deixou surpresa, mas não desconfiada, serviu-me de um vinho que me pôs para dormir pesadamente, só acordando doze horas depois, para vê-lo entrar com a roupa em farrapos, um grande corte na sobrancelha esquerda e alguns dentes a menos, também do lado esquerdo.
O rosto estava terrivelmente inchado e acredito que algumas costelas também tivessem sido quebradas.
A aparência era lamentável.
Acordada por Paulette, nós duas pensamos que ele tivesse sofrido um assalto ou coisa parecida, quando ele nos disse:
"Esse seu conde era o maior dos farsantes!".
- Madame tinha talento para contar histórias, e imitou a voz de René quase à perfeição.
Eu a ouvia encantada tentando entender o que acontecera, quando ela soltou a mais cristalina risada, e depois continuou:
Bem sabe que tenho motivos para ter mágoas de Gastón, mas sua honestidade é inquestionável.
Olhando sério para René, eu e Paulette paramos de acudi-lo e o interpelamos:
"Farsante porquê?"..
Ainda imitando o agredido, ela ergueu-se, como quem mal se mantinha em pé e levantou o braço como se estivesse bêbada:
- "Pois esse maldito conde lhe deu jóias falsas!
Todas eram de vidro!
Quer ver? Vidro!", e jogou o conteúdo de minha grande caixa de jóias todo no chão da sala!
E estavam na maior parte arrebentadas, como que para mostrar que eram mesmo de vidro!
Tentei imaginar a cena, Cristine acordando, Paulette, e vendo todas as suas jóias jogadas no chão da sala, estilhaçadas como vidro barato.
Jóias dadas por Gastón ao longo de anos, por marajás e sultões!
Tudo vidro barato!
Não entendia ela rir tanto, se deveria era estar furiosa comigo!
Excelente actriz, ela ajoelhou-se no chão, olhar aturdido, bem na minha frente, como se os catos de jóias falsas ainda estivessem ali.
., Olhei para as jóias em pedaços e apalpei-as sem poder acreditar!
Tantas lembranças, agora todas em pedaços.
Lágrimas mé vieram aos olhos.
Paulette, sempre mais prática, sem entender nada, perguntou a René:
"Mas, madame deu ao senhor essas jóias?".
Só então levantei os olhos e dei por mim da situação:
que estava fazendo aquele ladrão miserável tom as minhas jóias?
"Claro que não!", respondi.
"Explique-se miserável, antes que eu o ponha para fora dessa casa!".
Não tivesse eu visto René de peruca, todo empoado no quarto de madame há poucos minutos, teria dançado de alegria.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:56 am

Mas, ouvi o resto:
-Então começou 0 choro e as lamentações.
Desculpas, o vício maldito pelo jogo, a vida em perigo... eu sei que o risco é verdadeiro, Edite, já vi muitos como René "desaparecerem" sem deixar vestígios.
Chorei, primeiro por me descobrir mais pobre do que imaginava depois por ser enganada por Gastón, sinto por ele ainda grande carinho, mas tudo isso teve algo de bom:
a ilusão do que sentia por René passou.
Hoje só sinto pena por ele!
É um pobre coitado que será morto se eu não o ajudar.
Entendi o bom coração dela, mas não achava que devia dar as jóias para pagar as dívidas de jogo.
Mesmo porque, deviam valer muito mais.
- Vai dar as jóias para pagar a dívida dele, madame?
Ela me olhou com um susto nos olhos, depois riu como uma menina:
- Não entendeu por que ri tanto, não é, minha amiga?
Claro que não!
Ri porque minha honesta Edite "roubou" um ladrão!
Imagine que vou dar os presentes que ganhei de pessoas a quem estimo tanto para uma pessoa que me drogou e roubou enquanto eu estava doente!
Sou boa, más não sou tola.
Ri porque a surra que ele levou foi providencial.
René agora dorme no quarto de hóspedes até que eu resolva essa situação.
Não disse que tenho outros meios?
Em minhas jóias ninguém toca, chega de sandices!
Ficarão muito bem guardadas contigo, ninguém pensará em procurá-las aqui, não diga isso nem a Paulette!
Assenti com a cabeça, agradecendo a Deus por tudo estar finalmente saindo bem.
Mas tive que perguntar:
- E como fará, madame?
- Ela olhou-me, as pupilas ainda dilatadas demais:
- Fui conversar com Albert, o gerente do cabaré e do cassino, dias depois.
Ele já me esperava e, ao me ver entrar, foi gentil como sempre, afinal, quer receber a dívida de René.
Perguntou-me se eu não venderia alguns imóveis para quitar a dívida e eu disse que o Sena não se importaria de receber mais um corpo se dependesse disso, mas lhe fiz uma proposta.
- E qual foi?
Ela sorriu, travessa:
- Tão simples, querida.
Faz um bom tempo que não danço, mas o cabaré até hoje não me esqueceu.
Albert sugeriu que eu fizesse uma temporada de dez shows pela dívida de René, e tudo estaria pago.
Serão dez danças, duas por mês.
No fim de tudo, será divertido.
Não notou como a casa está um tanto desarrumada?
Fiz que sim com a cabeça.
Realmente, eu e a faxineira teríamos um bom trabalho pela frente.
- Albert financiará os ensaios e as festas, e lucrará muito com eles.
Os ensaios acontecerão em boa parte nessa casa, me sinto mais segura aqui.
René depois disso irá embora.
Por enquanto ficará, pois uma figura masculina desencoraja alguns atrevidos, mas não vejo por que continuar depois disso.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:56 am

Não sabia se achava uma boa ideia, mas Cristine parecia animada.
- Mas, não será cansativo para madame?
Ela suspirou:
- Estava um tanto sem motivação depois de minha última perda, rnon amie.
Sabe como foi duro.
E sempre amei a dança!
O novo remédio tem me tirado a dor, e o sono tem passado.
E é bom ver os antigos amigos, dançarinos e músicos.
Albert disse que nunca me viu mais bela, que estou mais esguia, mais intuitiva.
Devo estrear em duas semanas, e os ensaios têm me tomado tempo.
Melhor, pois assim deixo de pensar bobagens.
E depois, a champanhe me anima!
- Então não está mesmo brava comigo?
- Isso poderia ter causado uma confusão, mas foi providencial!
Não vê como tudo deu certo no final?
Continuo rica como antes, vou voltar a dançar, me desapeguei de René que só me fazia mal... melhor que isso não há!
Depois dessa última temporada penso em irmos para o campo, Edite, para minha propriedade em Lyon, com Paulette e Clemente, você gostaria?
Estranhei... para o campo?
Justo madame, tão chique e cosmopolita?
- Claro, madame.
Acho que os ares do campo lhe farão muito bem.
Mas, se acostumará com a quietude?
Ela olhou para o pátio, onde os cavalos comiam sua refeição depois da longa viagem.
- Se esquece que sou do meio rural, minha amiga?
E depois, frequentei festas por uma vida inteira!
Tenho pensado em crianças, gosto tanto delas, queria tanto ter uma!
Quem sabe não adoptamos algumas?
Há tantos pequenos abandonados em Paris.
Me ajudaria nisso?
Meus olhos se encheram d'água:
eu mesma não tinha sido uma dessas abandonadas?
- Claro que sim, madame!
Sei inclusive de uma propriedade da senhora que serviria muito bem para esse propósito.
Recolhi os rendimentos dela com Clemente, fica perto de Orleães.
Tem uma casa bem espaçosa lá!
Ela ajeitou-se para sair, faces um pouco mais coradas:
- Quem sabe, não é, Edite?
Veja só, eu mal sei o que tenho!
Acho que a de Lyon, que você ainda não conhece, seria mais adequada.
No futuro veremos isso.
Por enquanto, como dei minha palavra, vamos ao trabalho!
E não foi pouco o trabalho.

9 - Minha amiguinha.
10 - Minha amiga.
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:57 am

XIII - RESPOSTAS SOBRE O AMOR E A RIQUEZA
(Narrativa de Ariel)
NO PLANO ESPIRITUAL, Edite mostrou-se um pouco cansada, após uma sessão de perguntas.
Eram vibrações vindas de todos os lados já eram mais de cem ouvintes.
Ela ficara com um número considerável de questionamentos na cabeça.
Não são todos os espíritos que têm a faculdade de "ouvir" os pensamentos.
Assim como na Terra, uns têm talentos desenvolvidos, e outros não.
Mas na medida em que nos aperfeiçoamos, isso se toma praticamente um dom natural.
Na Colónia é relativamente comum, principalmente entre os instrutores e os que prestam serviços de maior complexidade, mas em nossa "plateia" não eram muitos com essa capacidade já desenvolvida.
É preciso explicar também que essa capacidade não depende da bondade do espírito.
Infelizmente, entre os que se perderam no mal também há irmãos bastante inteligentes que ao longo de muitas encarnações sucessivas alcançaram esse tipo de "perspicácia".
Essa qualidade não é um prémio,
mas uma responsabilidade que deve ser exercida com humildade, levando sempre em conta o bem do próximo.
Vendo nossa querida Edite um tanto cansada, Serafim pediu a um assistente um copo de água clara, e deitou as mãos sobre o líquido tornando-o um pouco mais opaco, dizendo a Edite em voz baixa:
"Tome que lhe fará bem!".
Agradecida, ela sorveu o líquido, e vi logo a cor voltar-lhe às faces.
Serafim dirigiu-se à nossa audiência:
- Vejo que aqui há muitas perguntas, e sabem que estamos mais que dispostos a esclarecer quaisquer questionamentos.
Lembrem que às vezes a curiosidade de um de vocês pode ser também a de um colega que se cala, então, quem quiser perguntar algo, é só erguer o braço.
Diante de pedido tão simpático, acompanhado de um sorriso, uma moça de seus trinta anos, de aparência frágil e ar de quem passara sérios sofrimentos, perguntou:
- Estranho uma cortesã interessar-se por caridade.
Cristine tinha uma religião?
Já refeita do cansaço momentâneo, Edite respondeu:
— Como já disse, Cristine foi criada no campo, mas a família dela tinha a fé católica.
Na época, cortesãs e actrizes não eram bem-vindas missa, com as Senhoras de classe social, pois isso era considerado um insulto à moral destas.
Cristine apesar da criação católica, quase nunca falava de religião, embora tivesse entre seus amigos alguns homens do clero.
Senti que a moça estava um tanto confusa, pois insistiu na pergunta;
- Mas, se não ia à igreja, por que interessava-se por caridade?
A senhora a incentivava para salvar sua alma?
Edite sorriu:
- Cristine sempre foi caridosa por essência.
Me ensinou a ler e escrever, pois tínhamos tempo de sobra.
Nunca humilhou nenhum serviçal, sempre apiedou-se das crianças que víamos famintas pelas ruas da França em meio à sujeira e à degradação.
Chegou a passar fome por um curto período em sua vida, por isso entendia os pobres e apiedava-se deles.
Nunca precisei incentivá-la a fazer o que fosse.
Além disso, ela era minha patroa.
Serafim interveio:
- Como se chama, senhorita?
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Ave sem Ninho

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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:57 am

A moça da audiência corou, mas vendo o sorriso dele, respondeu:
- Meu nome é Natália, senhor.
Estou nesta Colónia já há vinte anos e desencarnei há pelo menos cinquenta.
Minha vida na Terra foi muito dura, mas fui moça honesta e faleci virgem, aos trinta anos, de cólera.
Nunca imaginei que uma moça de má-fama pudesse se interessar por caridade!
Também tive uma vida difícil, mas nunca sucumbi ao vício nem à devassidão.
Se a história é como dona Edite conta, ela era muito diferente das "moças da vida" que conheci.
Senti naquela pobre alma o preconceito e orgulho que provavelmente devem ter atrasado seu acolhimento na Colónia, já que, pelas contas dela, passara trinta anos no umbral.
Serafim me olhou como quem estivesse tendo o mesmo tipo de pensamento, e achou por bem esclarecer certas coisas:
Faz parte da natureza humana, irmã Natália, julgar as pessoas apressadamente.
É certo que Cristine poderia ter escolhido outro caminho, mas não me sinto apto para julgá-la.
Não teve eia o comportamento vulgar que se esperava das pessoas de seu meio, mas mesmo as que tiveram não devem ser julgadas.
Se Cristo não as julgou, como é que eu, sabedor de minhas vidas passadas e de meus inúmeros erros, posso julgá-la?
Acredito que qualquer um aqui, que saiba de suas vidas anteriores, dificilmente afará.
Fez-se um silêncio pesado na sala, e ele continuou:
- Agradeço imensamente a pergunta, pois me dá a oportunidade de chamar a atenção para certos fatos.
Abençoado é aquele que consegue ver além das aparências, como diz o mestre, pois o dono de um coração luminoso pode estar momentaneamente envolvido em lodo, enquanto outros, que necessitam ainda de desenvolvimento, se trajam de benfeitores, usando a caridade para seus próprios egoísticos fins.
Na Colónia, felizmente, o desnível social é quase inexistente e nada nos falta, lar feliz que nos proporciona o Criador após batalhas férreas travadas na Terra, lugar de santo aprendizado.
Mas na sociedade carnal, muito drama se desenrola por conta do egoísmo, da vaidade, e do excessivo valor que damos aos "nomes de família" e aos bens terrenos.
Enquanto ele falava, luz suave saía de sua fronte, como se inspirado por espíritos superiores.
- É claro que devemos honrar, quando encarnados, o nome da família à qual pertencemos.
Porque cobrir de vergonha pai e mãe que nos acolhem em seu seio?
Mas aqui sabemos que a nossa real família é a humanidade, essa é a família do Cristo.
Nomes e bens se perderão com o tempo, mas a atitude pura de amparo ao necessitado, essa perdurará sempre.
Nem sempre no coração de quem recebeu a dádiva, mas em seu próprio espírito, que assim se aproximará de Deus.
Ele sentou-se, ao lado de Edite, que o observava com lágrimas nos olhos, e continuou:
- Sendo assim, não me espanto com a bondade no coração da cortesã, como também não estranho a falta de caridade que vejo em alguns actos religiosos.
As vestes do corpo são temporárias e apenas o espírito brilha sempre, fagulha que é de Deus.
Se observarem, verão que, encarnadas em criaturas de posição humilde, muitas vezes se encontram almas generosas, inteligentes, límpidas.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:57 am

Ao contrário dos homens, o bom Deus não pode ser enganado com vestes luxuosas e palavras ao vento.
Não julgai, irmãos, pois uma única vida não define uma alma, assim como um dia não representa toda uma existência.
Um senhor de seus cinquenta anos terrenos, negro e muito bem apessoado, ao final de uma das filas, perguntou a Serafim:
- O irmão falou das "vestes luxuosas"...
É certo quê aos ricos é muito raro conseguir entrar no "reino dos céus"?
Deus prefere os pobres?
Observei Serafim e a luz inequívoca e prateada de amor que dele emanava.
Sorrindo levemente, ele respondeu ao simpático senhor, que fazia uma pergunta tantas vezes feitas por milhões de cristãos sobre a Terra<$>
- Deus não abandona ninguém.
Acredita o irmão que um rico caridoso, de alma pura, deva ser impedido de viver em harmonia com o Criador, enquanto um pobre que por falta de desenvolvimento causa o mal indiscriminadamente deva ser acolhido nesta Colónia, causando dor em muitos que aqui ainda lutam para se aprimorarem?
Qual deles o irmão acolheria em sua casa sem receio?
Fez-se um silêncio de reflexão.
Muitos ainda tinham dúvidas sérias, e outro senhor, moreno claro, de uns sessenta anos terrenos, argumentou:
- Fui religioso em minha vida na Terra, e sempre fui orientado a acolher os humildes.
Dizem as Escrituras que é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos céus.
Jesus sempre preferiu os pobres!
Serafim sentou-se, e eu não pude prever a resposta que ele daria em seguida, com a tranquilidade costumeira:
- Os ensinamentos do Cristo são o que há de mais sagrado em nossa fé, mas sabemos perfeitamente que textos podem sofrer mudanças, ainda que pequenas, mas significativas com o tempo.
O Cristo era perfeição, os homens, não.
Mesmo erros de tradução do grego e do aramaico podem ter sido cometidos, mas observemos a vida do profeta, e veremos nele um amor que não distinguia classes sociais, que não condenava colectores de impostos, nem prostitutas.
Sabemos ainda que dois grandes amigos do Nazareno eram pessoas ricas:
Nicodemos, que tanto amou o mestre, e Lázaro, o ressuscitado.
Fez-se um silêncio grande na sala.
Observei a doce Olívia sentada em alta estante para poder acompanhar melhor a cena:
pequena, graciosa, seu rosto mostrava a admiração que tinha por Serafim.
Ele continuou:
É A Jesus preferia os aflitos e os arrependidos, independente de sua condição social!
Sua piedade e amor eram imensos enquanto esteve pela Terra, e enquanto encarnados devemos apoiar qualquer ser que necessite de ajuda e amparo, sempre com rectidão de carácter e visando o desenvolvimento daquele que nos procura.
O esforço e a determinação costumam ser fruto de aprendizado de muitas encarnações, e devem ser utilizados com responsabilidade.
Aquele que gera trabalho não deve ser excluído apenas por ter enriquecido, desde que com esforço sincero, sem o prejuízo de ninguém.
Nem todos na Terra desenvolveram o talento que traz emprego e subsistência para outros menos favorecidos.
Esse "dom", se utilizado para 0 bem, é valioso e necessário.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:57 am

Ele levantou-se, expondo-se no semicírculo que se formava no meio da
audiência, e caminhou naquele espaço para que todos pudessem vê-lo melhor.
A prova da riqueza, como sabem, não é fácil para o desenvolvimento do espírito.
O ouro, com seu brilho, também atrai a inveja e a dissimulação, e não poucas vezes o herdeiro de fortunas, apesar de poupado da fome e do frio, cai no despenhadeiro da vaidade, acreditando valer mais do que seus semelhantes.
Ilusão vã, que o tempo dissipa, da mesma forma como desaparecem os falsos amigos que antes cercavam o rico, quando o ouro se vai.
Em minha mente vieram imagens de conhecidos que caíram em desespero quando findaram com suas heranças gastas de forma irresponsável.
Concordei com ele:
se o filho do pobre corria riscos, o do rico também corria os seus.
Mocinha encantadora, ruiva, de olhos verdes e sardas ao rosto, perguntou a Edite:
- Não gostaria de ser indiscreta, mas a senhora Edite nunca sonhou em ficar com o conde?
Cristine já tinha desistido dele, e sua mulher lhe era infiel, não é mesmo?
Aturdido com a indiscrição da pergunta, olhei para Edite, que estava vermelha como um pimentão, mas sorriu ao ver o rosto mimoso da moça; que parecia ter desencarnado no máximo aos quinze anos.
Muito tímida, ela perguntou:
- Como se chama, minha criança?
- Carolina, minha senhora.
- Desencarnou cedo, não foi?
- Aos dezasseis anos, de tuberculose.
Padeci por seis meses, acompanhada de minha família, que hoje está comigo, ao menos em parte, e foram muito bondosos.
Mas minha companhia durante a doença foram os romances.
Achei seu amor tão bonito, mas não entendi a senhora não ter lutado por ele!
Se eu tivesse tido saúde e amasse alguém assim, lutaria!
Olhando um minuto para as mãos bem feitas sobre o colo, ela levantou os olhos castanhos luminosos e olhou para a moça:
- Mas eu lutei muito, Carolina.
Não faz ideia de quanto!
- Lutou? Mas como?
Não me parece que a senhora tenha se declarado!
Ela deu uma suave risada, e um olhar de amor para a moça, como se ela
fosse uma filha querida lhe fazendo uma pergunta já há muito respondida.
- Alguns amores são tão grandes que dispensam ser declarados, Carolina.
Eles devem ser vividos.
Respirados no dia a dia.
Meu amor era assim, incondicional.
Uma dessas coisas raras das quais só se ouve falar, mas que nem por isso deixa de existir.
Ele nunca me olharia como mulher, e eu sabia disso.
Machucou no início, mas depois eu notei:
quantos homens desejavam as mulheres e depois as tratavam como empecilhos ou tralhas?
Eu não seria uma tralha, seria sempre uma amiga preciosa, para quem ele abriria um sorriso quando lembrasse ou visse na rua.
Notei a mocinha retesar-se na cadeira, como se tentasse entender melhor, e um silêncio vindo da sala.
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:58 am

Edite continuou, com sua tranquilidade costumeira:
- Algumas mulheres inspiram grandes paixões, são rosas rubras, orquídeas raras.
Outras são Simples margaridas do campo, mas nem por isso deixam de ter sua beleza.
Quantas delas amam dê facto?
E quantos homens querem realmente desvendar a flor e não apenas aspirar-lhes o perfume?
Amor verdadeiro é coisa de gente generosa, por isso é tão raro.
Já a paixão caminha em cada esquina, em cada porta.
O amor ajuda e ampara, a paixão exige.
Um dura e o outro se esvai como os vapores do álcool.
Os apaixonados se cobram o tempo inteiro, o amor observa e se doa incondicionalmente.
Eu tive sorte, eu amei.
A meiga Carolina ouvia com atenção, e perguntou:
E ser amada, não era importante?
Sentada em sua cadeira de espaldar um pouco mais alta e macia, a meiga Edite recostou-se, olhou-a como se relembrasse de tempos distantes, e sorrindo disse-lhe:
E quem disse à nossa bonita Carolina que não fui?
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Re: A ÚLTIMA DANÇA - EDITE / MONICA AGUIEIRAS CORTAT

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 9:58 am

XIV - ARRUMAÇÕES E CAFÉ...
(Narrativa de Edite)
DESDE SUA SEPARAÇÃO de Gastón não via a casa tão movimentada.
Aliás, sendo bastante franca, nunca a casa estivera em tal estado de excitação.
Com as dores controladas pelo remédio do doutor Kayzen e agora com menos sono, madame estava respirando, alimentando-se e movendo-se para a dança.
A casa era ampla, a sala imensa, com pelo menos três ambientes distintos:
sala de jantar com grande mesa de madeira para doze convidados (Deus nos guardasse de ter treze às refeições, todo mundo sabia que não dava sorte!), sala de estar com amplas namoradeiras (sofás de dois ou três lugares, estofados e decorados em tons de lilás) e cadeiras espalhadas, e ainda outra sala, onde madame recebia suas amigas para o chá (esta, com vista para um jardim de inverno, decorada com mesinhas graciosas, em marchetaria cara, trazida da Argélia em viagens com o conde).
Pois num belo dia madame acordou, linda como um raio de sol, antes de mim para o meu susto, e chamou-me em meu quarto:
Edite! Querida, preciso de sua ajuda!
Chame Clemente, que precisarei de braços masculinos!
Olhei para o relógio um tanto confusa, afinal eram apenas seis e meia da manhã, e eu tinha visto Cristine chegar depois da meia-noite.
Ouvindo os pratos da cozinha, notei que Paulette já estava a postos em seus afazeres, e apressei-me em me vestir.
Jogando água no rosto apressadamente, dei com ela na cozinha engolindo um café e tagarelando mais do que de costume.
- Faça alguns sanduíches, minha querida! Hoje os dançarinos e músicos virão.
Temos que ensaiar uma coreografia que andei imaginando.
Coçando a cabeça por baixo do lenço que continha os cachos castanhos, Paulette tentava acompanhar-lhe o raciocínio:
- Quantas pessoas serão, madame?
Quer algo para beber, também?
Vestida num quimono negro com as bordas vermelhas, ela sentou-se
sobre a mesa da cozinha e começou a fazer as contas nos dedos:
- Vejamos, teremos Maurice, os três bailarinos do Lautrec, as meninas de Ninette, e cinco músicos.
Bom, vamos ver: quinze pessoas.
Contando connosco e o coreógrafo, vinte!
Precisaremos de espaço!
A parte da sala de estar e a de chá devem desaparecer!
Chamou Clemente, Edite?
Tenho fama de ser esperta, mas não sou tão rápida!
Tendo ido se deitar depois da uma, Clemente ainda devia estar dormindo, de forma que saí da cozinha imediatamente, indo bater na porta de seu alojamento, perto dos cavalos.
Ele acordou rápido e bastante surpreso, os bigodes desalinhados, me olhando curioso e perguntando:
- Que houve?
Madame está se sentindo mal?
- Não, apenas precisa de braços fortes.
Colocando seu casaco e abotoando-se de acordo, sem nem mesmo lavar o rosto ele apareceu na cozinha.
- Pois não, madame!
Ao vê-lo, ela deu o mais encantador dos sorrisos:
- Clemente! Graças a Deus que o tenho em casa!
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