Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:15 pm

Descaminhos da paixão
Elisa Masselli

Sumário
À beira da loucura
O socorro
Em busca da identidade
A vida continua
Visita do além
Deus é quem sabe das coisas
A decisão de Jurema
Surpresas da vida
Dona Betina
A hora certa
A força do destino
Momentos de desespero
A festa de São José
Conhecendo o passado
Lembranças de família
O reencontro
Voltando para casa
Novos caminhos
A consulta
Síndrome do pânico
Orai e vigiai
A Lei maior
Renunciando ao céu
Persuasão
A hora da verdade
Fuga inesperada
Lição de abnegação
A viagem
Longa espera
Difícil decisão
Epílogo


Prefácio
Cida, embora originária do Sul, foi encontrada quase morta no interior da Bahia.
Sem memória, teve que percorrer uma grande jornada para descobrir quem havia feito tamanha maldade com ela e o porquê.
Durante essa jornada, aprendeu sobre si e sobre a vida.
Passou por momentos de depressão criados por ela e por espíritos inferiores, mas sempre teve ao seu lado amigos que a ajudaram não só a encontrar os culpados por tanto sofrimento, como também a cura da depressão e o caminho do amor e do perdão.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:16 pm

À Beira da Loucura
Daniel acompanhou Cida até a porta de seu quarto.
Assim que ela entrou, ele foi para o seu, deitou-se de costas e, com os olhos fixos no tecto, ficou pensando em tudo o que havia acontecido naquele dia.
Assim que Daniel se afastou, Cida fechou a porta.
Encostou-se a ela e ficou olhando por todo o quarto para ver se não havia ninguém.
Seu coração batia forte e ela tremia muito.
Estava com muito medo.
Um vulto de mulher que estava ao seu lado, rindo muito, disse:
- É isso mesmo!
Agora chegou a sua vez!
Alguém vai matar você!
Vai pagar pela traição!
Por isso, não pode mais dormir!
Precisa ficar acordada e vigiar!
Desta vez você não vai escapar!
Cida não sabia o motivo de todo aquele medo.
Sentia as pernas tremerem e não conseguia chegar até a cama.
Aos poucos e, com dificuldade, pôde se aproximar e caiu sobre ela.
Mesmo deitada, continuou percorrendo o quarto com os olhos.
Só se acalmou um pouco, quando concluiu que não havia ninguém ali.
O vulto ao seu lado dizia:
- Este é o único lugar da casa em que você estará protegida.
Não deve mais sair daqui.
Não deve ir a lugar algum!
Nem mesmo com Daniel.
Quem pode lhe garantir que ele também não faz parte de tudo o que lhe aconteceu?
O medo que estava sentindo aumentou.
Encolheu-se na cama, pensando:
não vou mais sair deste quarto, nem mesmo com o Daniel.
Não o conheço, nem sei de onde surgiu.
Quem me garante que ele não foi mandado para me matar?
Aconteça o que acontecer, não sairei mais.
O vulto continuava rindo e falando:
- Isso mesmo!
Você não pode confiar em ninguém!
O Duarte também é seu inimigo!
Ele veio com essa história de espíritos só para enganar você!
Isso não existe!
Ele quer que você confie nele e não sinta medo, mas ele também quer lhe matar.
Cida, sem saber por que, sentiu medo e raiva de Duarte.
Seu corpo todo doía, como se tivesse levado uma surra, e estava também muito suado, tanto que a roupa se prendia nele.
Pensou:
preciso me levantar, tomar um banho e trocar esta roupa.
Foi o que fez.
No armário, escolheu uma roupa e se dirigiu ao banheiro.
Assim que chegou à porta, o vulto continuou falando:
- Você não pode tomar banho.
Quando estiver sozinha no chuveiro, alguém pode vir com uma faca e matar você.
Não se lembra daquele filme?
Cida parou na porta.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:16 pm

Lembrou-se de um filme a que havia assistido, voltou correndo para a cama, deitou e ficou olhando por todo o quarto.
Estava em pânico.
Levantou-se novamente e, correndo, foi até a porta, trancando-a.
Voltou para a cama e ficou na posição inicial, por muito tempo.
Alguém bateu a sua porta.
Da cama e na mesma posição em que estava desde que se deitara, amedrontada, perguntou:
- Quem é?
- Sou eu, a Emília, posso entrar?
O vulto, que durante todo o tempo ficou deitado ao seu lado, levantou e disse, rindo e gritando, com a voz estridente:
- Tome cuidado com ela!
Ela também está querendo matar você!
Não deixe que entre!
Cida não ouviu, mas sentiu medo de Emília.
Sentando-se na cama, gritou:
- Não vou abrir!
Estou descansando!
Vou descer logo mais!
Emília estranhou aquele tom de voz, mas, mesmo intrigada, se afastou, pensando:
que será que aconteceu?
Ela deve estar mesmo muito cansada.
Voltarei mais tarde.
Ao passar pelo corredor, viu Daniel que, após ter descansado, lia sentado em um sofá no escritório.
Pensou em falar com ele, mas resolveu que não, pensou:
não vou incomodá-lo.
Ela não me pareceu bem, mas pode ter sido só minha impressão.
Logo mais irei até lá para ver se ela melhorou.
Foi em direcção à cozinha para ver como estava a preparação do jantar.
Cida sentia sono e por várias vezes tentou dormir, mas foi em vão, o vulto de mulher não lhe dava paz.
Cada vez que fechava os olhos, o vulto gritava:
- Cuidado! Abra os olhos!
Alguém pode entrar no quarto!
Sabe que todos eles devem ter a chave!
Cida abriu os olhos imediatamente.
Em seguida, ficou olhando fixo para a porta.
Ela não percebeu quanto tempo passou até ouvir outra batida à porta.
- Quem é?
- A Emília!
Está quase na hora do jantar!
Você precisa se preparar!
O vulto rodopiava em volta dela, continuava rindo e gritando:
- Não a deixe entrar!
Você não pode comer!
Eles colocaram veneno na sua comida!
Imediatamente, Cida respondeu para Emília:
- Eu não estou com fome!
Quero ficar aqui!
Ainda estou cansada!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:17 pm

- Você não pode ficar sem comer!
Deixe-me entrar!
Cida gritou, alucinada:
- Não estou com fome!
Vá embora! Deixe-me em paz!
Emília percebeu que a situação era grave, desceu rápido e foi até o escritório.
Entrou nervosa e disse:
- Daniel! Está acontecendo alguma coisa com ela!
Ele assustou-se ao vê-la entrar daquela maneira, quase pulou do sofá.
- O que aconteceu?
A senhora está nervosa!
Ela, muito nervosa, contou o que havia ocorrido.
Assim que terminou de falar, ele saiu, subiu correndo a escada que levava aos quartos.
Assim que chegou diante do quarto de Cida, tentou abrir a porta, mas percebeu que ela estava trancada.
Bateu com força, chamando:
- Cida! Sou eu!
Abra a porta!
Cida levantou, ficou em pé junto à cama.
O vulto, que continuava rodopiando à sua volta, disse, rindo muito:
- Não abra a porta!
Ele também faz parte da quadrilha!
Ele foi mandado para encontrar você e só fingiu que gostava de você!
Não pode confiar em ninguém!
Cida, nervosa, começou a andar por todo o quarto.
Chorando muito, respondeu:
- Não vou abrir a porta!
Você também está querendo me matar!
Ao ouvir aquilo, Daniel olhou para Emília que, de olhos fechados e com as mãos postas, parecia rezar.
Ele, nervoso, perguntou:
- Emília, o que está acontecendo aqui?
O que fizeram com ela, para que ficasse assim?
Emília abriu os olhos e respondeu:
- Não sei!
Quando vocês chegaram, pareceu-me que estava tudo bem.
Ela entrou no quarto e não falou com mais ninguém.
- Mas deve ter acontecido alguma coisa!
Alguém deve ter-lhe dito ou feito algo que a assustou!
Parece muito amedrontada!
- Ela não falou com ninguém, você mesmo a acompanhou até o quarto!
Ele tornou a bater à porta.
- Cida, sou eu, meu amor.
Preciso entrar!
Sabe que a amo muito...
O vulto disse, nervoso:
- É mentira!
Ele não gosta de você!
Ele faz parte da mesma quadrilha!
Mesmo sem ouvir a voz do vulto, Cida disse, gritando:
- Você está mentindo!
Nunca me amou!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:17 pm

Esteve o tempo todo fingindo!
Assim como os outros, está querendo me matar!
Não vou mais sair deste quarto nem deixar ninguém entrar aqui!
Aqui dentro, sozinha, sei que estou protegida!
Ele voltou a olhar para Emília, que, assim como ele, estava abismada com tudo aquilo.
Voltou a bater à porta e a dizer:
- Não diga isso, meu amor!
Sabe que a amo!
Você não pode ficar aí dentro para sempre!
Tem que se alimentar!
Há muitos amigos para protegê-la!
Ela se enterneceu, as lágrimas continuavam caindo.
Foi até a porta.
O vulto, rodopiando à sua volta, desesperado, começou a gritar:
- Não abra a porta!
Ele está mentindo!
Ele só está esperando uma oportunidade para matar você!
Nem ele, nem ninguém desta casa quer protegê-la!
Todos querem matar você!
Cida parou novamente, voltou para a cama.
Toda encolhida, gritou:
- Não vou abrir! Vá embora!
Quero ficar em paz!
Daniel tornou a olhar para Emília, dizendo, desesperado:
- O que vamos fazer?!
Há outra chave para esta porta?
- Há, está guardada no escritório, vou pegar!
- Vá, por favor.
Enquanto isso eu vou telefonar para o hospital e ver se Ernesto ainda está lá.
Você sabe o número?
- Sei, mas está quase na hora do jantar, ele deve estar a caminho.
- Mesmo assim vou tentar. Vamos?
Desceram apressados.
Enquanto caminhavam para o escritório, Emília falou o número do telefone.
Ele guardou na memória.
Assim que chegaram à sala, ele foi até o telefone e ela abriu a gaveta, onde sabia estar o molho de chaves.
Procurou e não o encontrou, saiu do escritório, foi até a cozinha.
Leonora e a cozinheira, Genilda, estavam terminando de preparar o jantar.
Emília entrou apressada, perguntando:
- Leonora!
Você sabe onde estão as chaves da casa?
Leonora pensou por alguns instantes, depois respondeu:
- Lá no escritório, na segunda gaveta da escrivaninha. Por quê?
- Já procurei e não encontrei, precisamos abrir o quarto!
Ela se trancou e parece que está com muito medo!
Leonora começou a tremer, enquanto perguntava:
- Ela se lembrou de alguma coisa?
- Não sei.
Disse que todos aqui estão querendo matá-la.
- De onde tirou essa ideia?
- Também não sei, mas precisamos abrir aquela porta e ver como ela está.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:17 pm

Vamos até o escritório, provavelmente o Ernesto guardou as chaves em outro lugar, preciso que me ajude a procurar...
Foram ao escritório, procuraram, mas não encontraram.
Leonora voltou para a cozinha, Daniel estava colocando o telefone de volta ao gancho.
Emília perguntou:
- Conseguiu falar com Ernesto?
- Não, ele acabou de sair.
Logo mais estará aqui.
Vou lá para cima e tentar fazer com que ela abra a porta.
- Não encontrei as chaves.
O Ernesto deve ter trocado de lugar.
Irei com você.
Subiram em direcção ao quarto de Cida, que continuava sentada na cama com os olhos fixos na porta.
Leonora, sabendo que Emília e Daniel se dirigiram para o quarto, foi até a sala, pegou o telefone do gancho, discou um número.
Do outro lado da linha, uma voz de mulher atendeu:
- Alô!
- Dona Vanda, sou eu, a Leonora.
Preciso falar depressa!
Estou telefonando para dizer que há alguma coisa acontecendo.
- Chame a Emília, diga que preciso falar com ela.
- Ela está lá em cima batendo à porta do quarto!
- Vá até lá, diga que é urgente.
- Está bem, estou indo, mas não sei se ela vai querer atender.
Largou o telefone sobre a mesinha e foi até o andar de cima.
Chegou perto de Emília que estava ao lado de Daniel.
Este continuava chamando por Cida que respondia, mas se recusava a abrir a porta.
Leonora se aproximou e, baixinho, disse:
- Dona Emília, a dona Vanda está ao telefone e disse que precisa falar urgente com a senhora.
Emília se voltou, contrariada.
- Diga a ela que agora não posso atender.
- Ela disse que é urgente.
- Está bem, vou atender.
Bateu de leve com a mão no ombro de Daniel e desceu, acompanhando Leonora.
Pegou o telefone.
- Alô, Vanda, sou eu a Emília, o que há de tão urgente?
- Só queria convidar vocês todos para, amanhã, virem jantar aqui.
Contrariada, Emília respondeu:
- Você acha que isso é urgente?
Tentando dissimular o seu nervosismo, Vanda respondeu:
- Claro que é, Emília!
Se vierem, preciso providenciar tudo para que o jantar seja perfeito.
- Não posso lhe responder agora.
Mais tarde eu telefono.
- Por que não pode responder agora?
- O Ernesto ainda não chegou, ele é quem tem que decidir.
- Estou percebendo que a sua voz está diferente.
Está acontecendo alguma coisa?
Emília ia contar, mas achou melhor se calar.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:18 pm

Pensou rápido e mentiu:
- Está tudo bem, só preciso falar com o Ernesto.
Mais tarde, telefonarei e lhe darei uma resposta.
- Tem certeza de que está tudo bem mesmo?
A sua voz está estranha, Emília!
Parece que não está bem.
Emília, impaciente, respondeu:
- Está tudo bem, só estou preocupada com o jantar.
Agora, sem alternativa, Vanda disse:
- Espero que esteja dizendo a verdade, mas se acontecer alguma coisa, por favor, me avise.
Sabe que sou amiga de todos vocês, principalmente dela, por isso fico preocupada.
Não esqueça que estou aqui para todo momento bom ou ruim.
- Sei disso, Vanda, não se preocupe, não está acontecendo nada.
Assim que Emília colocou o telefone de volta no gancho pensou:
eu mesma não sei o que está acontecendo, embora desconfie, mas não tenho certeza, preciso esperar a chegada do Ernesto e do Duarte, eles saberão o que fazer.
Vanda e Inácio não acreditam no espiritismo e a presença deles, descrentes como são, poderá atrapalhar, se é que o problema da menina é espiritual mesmo.
Por isso menti.
Fechou os olhos, dizendo em voz baixa:
- Meu Deus, ajude-nos para que o meu pensamento não esteja certo.
Se não for o que estou pensando, o Duarte conseguirá cuidar dela sem maiores problemas.
Vanda também colocou o telefone no gancho.
Com o rosto crispado, pensou:
Emília está realmente preocupada, senti a sua voz um pouco alterada.
Por que não me contou o que está acontecendo?
Será que ela desconfia de alguma coisa?
Emília voltou para junto de Daniel, que continuava insistindo em bater à porta.
- Cida! Não faça isso!
Sou eu, Daniel!
Abra essa porta!
Emília se aproximou, estava aflita, tocou no braço dele.
- Não insista mais, Daniel, se for o que estou pensando, é melhor deixá-la sozinha.
O Ernesto está chegando e o Duarte prometeu que viria jantar.
Assim que eles chegarem, saberão o que fazer.
Vamos até a sala esperar por eles.
Daniel estava desesperado.
- Não podemos sair daqui, nem a deixar sozinha, Emília!
Não sabemos o que está acontecendo!
Não sabemos o que ela poderá fazer!
- Enquanto ela estiver dentro do quarto, não fará nada.
A única coisa que podemos fazer, neste momento, é pedir a ajuda de Deus e que o Ernesto chegue logo. Venha...
Ele estava aflito, não sabia o que fazer.
Não queria deixar Cida sozinha, conhecia seus problemas, sabia o quanto ela havia sofrido e o quanto a amava.
- Emília, o que está acontecendo?
Por que ela mudou assim tão de repente!
Hoje, passamos um dia tranquilo.
Fomos ao hospital, ela reencontrou Duarte, ele nos levou até a clínica.
Será que ela ficou assim porque ele nos contou aquela história de espíritos que causam doenças mentais?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:18 pm

Será que ela se impressionou?
- Duarte, além de ser amigo deles desde a faculdade, é um excelente psiquiatra e se ele tocou nesse assunto, talvez seja por perceber que ela precisava tomar conhecimento.
Logo mais ele estará aqui.
Por enquanto, vamos rezar.
- Não sei até onde eu acreditei em tudo o que Duarte nos contou.
Não conversei com a Cida sobre isso, portanto, não sei se tudo aquilo a impressionou a ponto de ficar da maneira como está.
Por isso não posso sair daqui, preciso ficar conversando com ela!
- Isso não vai adiantar, Daniel.
Ouvindo sua voz, ela ficará mais nervosa ainda.
Vamos deixar que se acalme.
Assim, quando o Ernesto chegar, poderá tentar fazer com que ela mude de ideia e abra a porta.
- Acredita mesmo nisso?
Mesmo sabendo de todos os problemas que ela enfrentou nestes últimos tempos?
- Não só acredito, mas tenho certeza que nunca estamos sós, que há sempre um motivo para todos os problemas que aparecem em nossa vida.
Deus está sempre, a qualquer momento, ao nosso lado.
Acredito também que este seja o caminho do fim dos tormentos dela. Venha...
Ele ainda tentou fazer com que Cida abrisse a porta.
- Cida! Sou eu!
O Daniel! Abra a porta!
Sabe o quanto amo você!
Cida sob a influência do vulto, gritou:
- Vá embora, deixe-me em paz!
Quero ficar sozinha!
Ele olhou para Emília, que, aflita, disse:
- Viu, não lhe disse que não vai adiantar ficarmos aqui.
Ela está bem, só precisamos esperar Ernesto chegar.
Ele a conhece, é seu irmão gémeo, saberá como falar com ela.
Vamos descer e esperar lá embaixo.
Ele, embora aflito, resolveu acompanhá-la.
Desceram e foram para o escritório.
Emília fechou os olhos e pediu ajuda.
Daniel ficou andando de um lado para outro.
Naquele momento não poderiam fazer outra coisa.
Apenas esperar.
Cida, dentro do quarto, também andava de um lado para outro, com os olhos bem abertos.
Estava com muito medo, não sabia bem do quê.
Ao seu lado, o vulto de mulher continuava rodopiando, rindo muito e dizendo:
- Não pode acreditar nele!
Ele também está mentindo!
Todos querem matar você!
Mande-o embora e não abra a porta!
Cida ouviu quando Daniel bateu à porta pela última vez.
Depois, o silêncio.
Ela deduziu que ele havia ido embora.
Sentiu um vazio, ia gritar, chamando por ele, mas o vulto falava sem parar, ainda rodopiando à sua volta.
Dizia:
- Não pode chamar por ele!
Tem que se lembrar de tudo o que eles fizeram com você!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:18 pm

Precisa se lembrar para ter a certeza de que nunca mais abrirá essa porta!
Como pode se esquecer de tudo o que lhe aconteceu?
Aqui, neste quarto, é o único lugar em que está protegida!
Cida não ouvia a voz, mas sentia-se cada vez mais fraca, pensou:
não sei por que estou assim.
Sei que o Daniel me ama e o Ernesto, embora não o conheça muito bem, me pareceu sincero.
Da Emília não posso duvidar, ela é uma pessoa boa, de acordo com o que o Ernesto contou, foi ela quem praticamente nos criou.
Meu Deus! Por que não consigo me lembrar?
O vulto continuou:
Você pode lembrar, sim!
Lembra-se do dia em que o Neco a encontrou?
Relembre! Volte para cama.
Não responda mais ao chamamento deles.
Sente-se na cama e relembre!
Com os olhos ainda presos à porta, Cida sentou-se na cama e lembrou-se daquele dia.
As imagens passavam rapidamente por seu pensamento.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:19 pm

O Socorro
Imediatamente, lembrou-se daquele dia em que abriu os olhos, mas foi obrigada a fechar novamente, pois o sol estava forte e bem no alto.
Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Sentiu o corpo todo doendo e uma dor mais forte na cabeça, o que fez com que se deitasse outra vez.
Colocou a mão no local da dor, ela aumentou.
Percebeu que havia um corte e que seus cabelos estavam secos e amontoados, talvez com sangue ressecado.
Assustou-se e perguntou baixinho:
- O que aconteceu?
Onde estou?
Colocou o cotovelo no chão e, apoiada nele, conseguiu levantar um pouco.
Olhou para a frente, não viu nada, apenas uma imensidão sem fim, uma terra cinza, quase sem vegetação.
O desespero começou a tomar conta dela.
Outra vez tentou levantar, mas logo percebeu que não conseguiria.
Sentiu muita sede e uma fraqueza imensa que a fez se deitar novamente.
Ficou com muito medo, pois percebeu que as suas forças se esvaíam e que provavelmente estivesse morrendo.
Antes de desmaiar, ainda disse, baixinho:
- Alguém me ajude...
Não sabia por quanto tempo ficou ali desmaiada, quando ouviu uma voz distante:
- Moça! Moça! Acorde.
Lentamente, abriu os olhos.
Viu diante de si o rosto de um homem que, aflito, tentava levantá-la.
Quis dizer algo, mas não conseguiu, a dor e a fraqueza a impediram.
Fechou os olhos.
O homem que estava ao seu lado percebeu a gravidade da situação.
Com cuidado, tomou-a em seus braços e colocou-a sobre alguma coisa que ela não sabia o que era.
Sentiu um movimento, sabia que estava sendo levada para algum lugar, mas não se importou em saber para onde.
Sabia que estava sendo socorrida.
Tranquila, fechou os olhos.
Chegaram a uma casa pequena.
O homem gritou:
- Jurema! Jurema!
Venha cá!
Com dificuldade, ela abriu os olhos e viu uma jovem senhora, sair correndo da casa.
Assustada, perguntou:
- Neco! Que aconteceu?
Por que está gritando desse jeito?
O homem apontou para trás.
A mulher olhou e, ao vê-la naquele estado, disse, assustada:
- Neco do céu!
Quem é essa moça?
Que aconteceu?
- Não sei, ela estava deitada lá no meio da caatinga.
Tentei falar com ela, mas não consegui.
Está muito machucada.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:19 pm

- Meu Deus!
A gente tem de levá-la para dentro.
Com cuidado, ele pegou a moça novamente no colo e carregou-a para dentro da casa.
Ela desmaiou outra vez.
Neco, ajudado por Jurema, colocou-a em uma rede pendurada em um canto do quarto.
Por um tempo, ficaram olhando para aquela moça.
Horrorizaram-se com a situação dela, pois, além de estar com hematomas pelos braços e pernas, seu rosto estava inchado, nos olhos, havia uma mancha preta e na cabeça um enorme corte.
Ficaram ali, parados, sem saber o que dizer ou fazer.
Após alguns segundos, Jurema foi até a cozinha.
Pegou água em uma moringa de barro e colocou-a em uma pequena bacia de alumínio.
Depois, pegou um pano branco muito limpo.
Foi na direcção da moça, molhou o pano na água e colocou sobre o corte que havia em sua cabeça para que o sangue ressecado fosse amolecido.
Em seguida, voltou para a cozinha, pegou uma caneca também de alumínio, colocou água, voltou para o quarto e a levou em direcção à boca da moça, que, instintivamente, a abriu.
Jurema sentou em um banquinho junto à rede e, com paciência, foi pingando a água aos poucos e ela foi bebendo.
A moça queria abrir os olhos, mas não conseguia.
Após fazer com que ela bebesse uma boa quantidade de água, Jurema retirou o pano do ferimento, percebeu que o sangue já estava soltando.
Molhando novamente o pano, foi limpando toda a área ferida.
Embora a moça houvesse bebido a água, ainda permanecia desmaiada.
Olhando para a moça, disse preocupada:
- Neco, parece que ela não está bem.
É preciso levá-la até o médico lá na cidade.
- Também estou preocupado, mas do jeito que ela está, acho que não vai ser bom mexer com ela não.
A gente tem de esperar mais um pouco para ver se ela reage.
- Mas, Neco, quem é essa moça?
Está muito machucada, quem fez isso com a coitada?
- Não sei, mas foi uma maldade muito grande.
Ainda bem que eu estava passando por lá e a encontrei.
Se ela ficasse mais um pouco naquele sol, com certeza ia morrer.
- Será que ela vai aguentar?
A gente não sabe o que aconteceu, nem sabe se ela está machucada por dentro.
Vou ver se consigo tirar esse vestido dela.
Está sujo e com muito sangue.
Neco, vá lá fora e traga umas folhas de arnica.
Vou colocar em cima do corte da cabeça e também fazer um chá.
A arnica vai tirar toda a inflamação.
- Faz isso, Jurema. Vou lá fora.
Assim que terminar de trocar a moça, me chama.
Neco saiu da casa.
Em seu rosto, havia um ar de preocupação.
Estava intrigado e curioso por saber o que havia acontecido com aquela moça.
Foi até o fundo do quintal, pegou algumas das poucas folhas de arnica que ainda restavam no pé.
Voltou, sentou em um banco e ficou com os olhos parados.
O sol ainda continuava forte.
No horizonte, não havia nada, apenas algumas casas, mas bem distantes umas das outras.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:19 pm

Ele pensou:
não sei quem é essa moça, só sei que, quem bateu nela, fez com muita maldade.
Por que fizeram isso?
Jurema, com cuidado, foi tirando o vestido azul que a moça estava usando.
Depois, colocou-lhe um vestido estampado e franzido.
A moça tentou reagir.
Algumas vezes, abriu os olhos e tentou sorrir, mas adormeceu em seguida.
Jurema, assim que percebeu que nada mais poderia fazer, a não ser esperar, saiu da casa e sentou-se ao lado de Neco.
Percebeu que ele, assim como ela, estava preocupado.
- Neco, o que a gente vai fazer?
- Não sei, Jurema, estou aqui pensando.
- A gente precisa levar essa moça até a cidade.
Quem sabe alguém a conhece.
- E... quem sabe, Jurema, mas não pode ser agora, ela não vai aguentar uma viagem de quase duas horas em cima da carroça.
A gente vai precisar esperar que ela melhore.
Jurema pegou as folhas de arnica e entrou na casa.
Foi em direcção à moça.
Assim que se aproximou, viu que ela estava com os olhos abertos e tentava ver onde estava.
Sorrindo, perguntou:
- Parece que a moça acordou.
Como você está?
Que lhe aconteceu?
A moça olhou para ela, querendo também saber onde estava e quem era aquela mulher que lhe sorria.
Não respondeu e, com a voz fraca, perguntou:
- Onde estou?
- Está aqui na nossa casa.
O meu marido encontrou você, caída lá na caatinga, mas de onde você é?
O que lhe aconteceu?
Quem lhe machucou desse jeito?
Ao ouvir aquilo, a moça levou a mão até a cabeça.
Era a última coisa de que se lembrava, da dor que sentiu na cabeça.
Assustada, respondeu:
- Não sei o que aconteceu.
Só me lembro da dor e de estar caída sem conseguir me levantar.
- Qual é o seu nome?
Ela ficou pensando por alguns segundos.
Depois, chorando, respondeu:
- Não sei!
Não sei qual é o meu nome!
Jurema ficou assustada com aquela resposta, perguntou:
- Como não sabe o seu nome?
Agora, a moça estava em desespero e com a voz ainda fraca, quase gritou:
- Não sei! Não me lembro!
Como pode ser isso?
- Fique calma.
Logo vai se lembrar.
A ferida na sua cabeça é muito feia.
Logo vai sarar e vai se lembrar de tudo.
Neco, do lado de fora da casa, quando ouviu os gritos, entrou correndo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:19 pm

- Jurema! Que está acontecendo?
Por que ela está gritando?
Jurema, também assustada com tudo aquilo, respondeu:
- Não sei!
Ela disse que não sabe o que aconteceu, nem qual é o seu nome!
- Como não sabe?
- Não se lembra!
Não sabe!
Ele olhou para a moça.
Disse, nervoso:
- Moça, encontrei você jogada na caatinga e a trouxe aqui para casa.
Não venha agora com essa história.
Não brinca com a gente.
Ela estava desesperada.
Respondeu chorando:
- Não sei quem sou, o que aconteceu e nem qual é o meu nome!
Não sei!
Eles perceberam que ela estava dizendo a verdade, embora não entendessem o que estava acontecendo.
Jurema disse:
- Está bem, não precisa ficar nervosa.
Está com fome?
Ela demorou um pouco para responder, também estava intrigada e não entendia o que acontecia.
Depois, respondeu:
- Estou com muita sede e também com dor na cabeça.
- Vou lhe dar mais um pouco de água.
Depois, vou preparar um caldo quente e um chá de arnica para ver se essa dor passa.
Fica tranquila.
No fim, sempre dá tudo certo.
Assim que ela tomou mais um pouco de água, calada, sorriu e fechou os olhos.
Jurema olhou para Neco, fez um sinal e os dois saíram do quarto.
Foram para a cozinha.
Lá também não havia muita coisa.
Só uma pequena mesa, com duas cadeiras, um armário para colocar a louça e uma espécie de pedestal, onde estavam penduradas algumas panelas de alumínio, muito brilhantes.
Sentaram-se.
- Neco, parece que ela está dizendo a verdade, mas o que a gente vai fazer?
- Também já estive pensando nisso, não sei como vai ser.
Agora, a gente precisa esperar que ela melhore.
Depois, descobrir quem é e ajudá-la a voltar para casa.
- Você viu que ela não é daqui do Nordeste?
- Não! Por que está dizendo isso, Jurema?
- Você não falou muito com ela, por isso não viu, mas ela não fala como a gente, não.
Ela fala igual às pessoas lá do Sul.
- Tem certeza disso?
- Claro que sim.
Ela não é daqui, não.
Tem outra coisa.
O vestido que estava usando é muito bonito, o pano é muito bom.
Não é igual àquele que a gente usa por aqui não.
A mão dela é macia, nas duas há um sinal de anel ou aliança.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:20 pm

- Acha que ela é gente rica?
Como apareceu aqui?
Vindo de tão longe?
- Nem imagino, mas ela logo vai se lembrar de tudo e assim a gente vai saber o que aconteceu.
- Tomara que sim.
Vou lá fora pegar água e uns jerimuns para você fazer o caldo.
- Vai, sim.
Neco saiu.
Jurema estava mesmo intrigada e pensando:
quem é essa moça?
O que está fazendo aqui tão longe de casa?
Será que foi assaltada na estrada?
Que ela não é daqui tenho certeza, mas agora não adianta ficar imaginando.
A gente vai ter mesmo é que esperar que ela sare e possa contar tudo.
Vou preparar um caldo para ela.
Foi até o quarto onde a moça estava.
Olhou, ela continuava dormindo.
Seu rosto estava tranquilo.
Jurema ficou olhando, mas não conseguia entender:
o que aconteceu com essa moça tão bonita?
Ela tem os cabelos claros e os olhos azuis.
Não é mesmo destas bandas, não, mas como chegou até aqui?
E nesse estado?
Toda machucada, por que levou uma surra tão grande?
A moça se mexeu um pouco, mas logo ficou quieta e, ainda dormindo, levou a mão até a cabeça e, em seu rosto, Jurema viu uma expressão de dor.
- Moça, acorde.
Precisa comer alguma coisa.
Ela abriu os olhos, olhou para aquela estranha que a chamava, disse:
- Não sei onde estou, nem quem sou, mas obrigada por me socorrer.
- Não fique aflita.
Tudo vai se arranjar, logo vai se lembrar.
Agora precisa se alimentar.
Fiz um caldo de galinha.
Por enquanto, não pode comer muito.
A gente não sabe por quanto tempo está sem comer.
- Obrigada, senhora.
- Meu nome é Jurema e o do meu marido é Neco.
Foi ele quem encontrou você caída lá na caatinga.
Agora vou lhe dar o caldo.
A moça tentou se levantar.
Fez um movimento brusco, quase caiu da rede.
Jurema começou a rir, enquanto dizia.
- É, parece que a moça não é mesmo destas bandas, não.
Não sabe levantar da rede.
Ela voltou a se deitar e, agora, mais confiante, disse, sorrindo:
- Não sei de onde sou, mas acho que nunca dormi em uma rede mesmo.
- Não se preocupe, vai se acostumar.
A gente acostuma com tudo de bom e de ruim.
Jurema foi até a cozinha, voltou com uma colher e o caldo que estava dentro de uma tigela.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 10, 2017 7:20 pm

Sentou no banquinho, que havia do lado da rede, e começou a levar a colher até a boca da moça, que sorriu num sinal de aprovação.
- Está muito bom.
Jurema, calada, sorriu e continuou alimentando-a.
Antes de terminar o caldo que havia na tigela, a moça disse:
- Desculpe, mas não estou conseguindo comer mais.
- Não fique aflita com isso, está muito fraca.
Logo, a fome volta e vai ser como era antes.
Uma lágrima começou a descer pelo rosto da moça.
- Como era antes?
Quem sou eu?
Jurema, com carinho, passou a mão sobre os seus cabelos.
- Agora não deve se preocupar com isso.
Precisa ficar mais forte, depois tudo vai se arranjar.
Procure descansar.
A ferida da sua cabeça já está bem melhor, logo vai sarar.
Vou para a cozinha.
A gente também está com fome.
Ela sorriu.
Jurema saiu do quarto.
Estava entrando na cozinha, quando Neco chegou.
- Como ela está?
- Parece bem, mas não conseguiu comer muito e está aflita por não saber quem é nem de onde veio.
Quase caiu da rede.
Ela nunca dormiu em rede, não.
É preciso esperar para ver o que acontece.
A comida está pronta, quer comer?
- Quero sim.
Tomara que ela se lembre logo e fique boa para a gente poder levá-la à cidade.
- Neco, a gente vai precisar esperar mais uns dias.
Ela não está em condições de viajar.
É muito longe.
Não é fácil nem para gente que tem saúde, imagine para ela.
- Você tem razão.
A única coisa que a gente pode fazer é comer, dormir e esperar que a vontade de Deus seja feita.
- Isso mesmo, Neco, isso mesmo...
Comeram, depois foram juntos para o quarto.
Em outro canto, havia uma outra rede.
Antes de se deitarem, Jurema deu uma última olhada, viu que a moça dormia tranquila, colocou a mão em sua testa e percebeu que ela não estava com febre.
Deitaram-se e adormeceram.
Já era noite alta quando acordaram com um grito.
Pularam da rede e foram até onde a moça estava.
Viram que ela dormia, mas se debatia muito enquanto dizia com a voz embargada:
- Não façam isso!
Não fiz nada!
Socorro! Socorro!
Jurema segurou-a pelos ombros, dizendo:
- Moça! Acorde!
Você está sonhando!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:32 pm

Demorou um pouco, mas finalmente ela abriu os olhos.
Quis se levantar e quase caiu da rede novamente.
Jurema segurou-a, dizendo:
- Fique calma!
Foi apenas um sonho!
Está tudo bem.
Você está aqui com a gente.
Ela chorava muito, estava com os olhos arregalados, como se estivesse vendo algo aterrorizante.
Disse:
- Não sei o que sonhei, só me vi sendo surrada, mas não vi por quem.
Meu Deus! Quem sou eu?
Que me aconteceu?
Por que aquelas pessoas estavam me batendo daquela maneira?
- Foi só um sonho.
Espere que vou lhe preparar um chá.
Logo vai adormecer de novo.
Olhou para Neco que, como ela, também estava assustado.
Caminhou até a cozinha.
Ainda havia um pouco de brasa no fogão.
Pegou uma caneca, colocou um pouco de água e preparou um chá de erva-cidreira.
Quando voltou, a moça estava dormindo novamente.
Sem saber o que fazer com o chá, olhou para Neco, tomou um gole e deu o resto para ele.
Após alguns minutos, tiveram a certeza de que ela estava mesmo dormindo, foram se deitar.
O dia raiou, o sol estava forte, fazia muito calor, mas eles já estavam acostumados.
Neco foi o primeiro a se levantar.
Olhou para a moça que continuava dormindo.
Foi para o quintal, pegou alguns gravetos, voltou para a casa.
No fogão de lenha, ainda algumas brasas estavam acesas.
Colocou os gravetos, logo o fogo surgiu.
Colocou sobre eleu ma chaleira com água e, pensativo, voltou para o quintal.
Sentou-se no banco, ficou olhando para o céu que estava muito azul e sem nenhuma nuvem, pensou:
quem será essa moça?
Jurema, quando acordou, não viu o marido na rede.
Levantou-se, olhou para a moça que continuava dormindo.
Foi para a cozinha e depois para o quintal, sabia que Neco estava lá.
Encontrou-o pensativo.
Aproximou-se, sentou-se ao seu lado, perguntando:
- Neco, no que está pensando?
- Em como essa vida é engraçada.
A gente estava aqui sozinho tocando a nossa vida.
De repente, essa moça aparece, e a gente fica sem saber o que fazer com ela.
Por que será que eu tive de passar por aquela estrada, naquela hora?
- Tem razão, mas quem sabe isso é Deus.
Se Ele mandou essa moça para cá, a gente vai ter que cuidar dela e ajudá-la.
- Sei disso, por isso estou preocupado.
A gente quase não tem mais comida e vai precisar ir embora.
- É, e vai ser como sempre.
A gente vai lá para casa do tio.
Fica lá até a chuva voltar, depois volta e começa tudo de novo.
A gente planta, cria animal, a chuva não vem, a gente tem que ir embora de novo.
Até quando isso vai durar, Neco?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:32 pm

- Não sei, Jurema, não sei.
Só Nosso Senhor Jesus Cristo e São José sabem.
- É isso mesmo.
A gente não pode fazer nada, só seguir o nosso destino.
- Sabe, Jurema, a gente podia ir lá para o Sul.
Muitos dos nossos amigos já foram e parece que deu certo.
Lá, ao menos, há trabalho e o que comer.
A gente aqui não tem nada.
- Nem sei o que dizer, às vezes também tenho vontade de ir embora, mas tenho medo.
É uma terra estranha, a gente não sabe como eles vivem lá.
E se a gente não se acostumar.
Além do mais, não quero deixar esta terra, esta cidade, onde a nossa menina está enterrada.
- Você acha que a alma dela está aqui, Jurema?
- Claro que está, Neco!
Ela não ia abandonar a gente, não!
- Não sei, não.
Só que, se não chover, a gente vai ter que fazer alguma coisa.
Aqui não dá para ficar, não dá não.
Enquanto eles conversavam, a moça abriu os olhos.
Estava sentindo se mais forte.
Lembrou-se do ferimento da cabeça.
Levou a mão até o local, percebeu que estava com um curativo.
Não sabia o que era, mas parecia ser um pedaço de tecido.
Só sabia que agora já não sentia tanta dor.
Olhando a sua volta, reconheceu onde estava.
Lembrou-se, vagamente, do sorriso de Jurema.
Não sabia quem era aquela mulher que a tratou como se a conhecesse.
Quis se levantar, mas lembrou-se de que não estava em uma cama.
Levantou-se com cuidado.
Devagar, foi para a cozinha.
Não havia ninguém lá.
Saiu da casa, viu marido e mulher conversando.
Aproximou-se, dizendo:
- Bom-dia!
Jurema e Neco assustaram-se.
Não pensaram que ela iria levantar-se sozinha.
Achavam que ela ainda estivesse dormindo.
Jurema levantou-se e caminhou em sua direcção, tentando segurá-la.
Sorrindo, ela disse:
- Não precisa se preocupar.
Estou bem, um pouco fraca, mas muito bem.
A minha cabeça quase não está doendo mais.
Mesmo assim, Jurema segurou-a e fez com que sentasse no banco, enquanto dizia:
- Que bom, moça.
Vai ver como logo vai ficar boa de verdade.
A ferida é muito grande, mas eu coloquei um pano com uma erva quente, logo vai sarar.
- Não sei como agradecer.
Vocês salvaram a minha vida.
- Não foi a gente, não.
Foi Deus que fez o Neco passar àquela hora, naquele lugar.
Fique aí sentada, quietinha, vou lá fazer o café e uns bolinhos de farinha.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:32 pm

Ainda bem que a gente ainda tem umas galinhas que botam ovo. Já volto.
A moça, calada, sorriu.
Não conhecia aquela gente que a acolheu, mas estava sentindo-se muito bem ali, e protegida.
Porém, pensava:
protegida do quê ou de quem?
A dúvida e a curiosidade permaneciam em sua mente, e se perguntava:
de onde eu vim?
Quem sou eu? O que me aconteceu?
Porque alguém fez essa maldade comigo?
Porque não me lembro de quem fui?
Novamente, uma lágrima começou a cair sobre o seu rosto.
Neco, percebendo que ela estava chorando, perguntou:
- Porque a moça está chorando?
- Estou chorando, porque não sei quem sou, nem de onde vim.
Só sei que levei uma surra muito grande, mas não sei por que ou por quem.
- Como a Jurema disse:
assim que ficar melhor, vai se lembrar de tudo.
Não adianta chorar, não.
Jurema voltou da cozinha, no momento em que Neco estava dizendo essas palavras.
Ao ouvir o que ele disse, falou:
- É isso mesmo, moça, não precisa ficar preocupada.
Logo essa ferida da cabeça vai sarar e a moça vai lembrar de tudo.
Por enquanto, precisa só tentar comer para ficar forte.
Depois, Nosso Senhor Jesus Cristo vai dar um caminho para a gente e para a moça também.
Ela Ficou calada por um instante, depois disse:
- Jesus Cristo...
Jesus Cristo?
- A moça não sabe quem é Jesus Cristo?
Ela pensou, mas não soube o que responder.
Ela já ouvira falar de Jesus Cristo, mas, naquele momento, não sabia quem era.
Respondeu:
- Já ouvi falar nesse nome, mas não sei quem é!
Os dois se olharam.
Estavam, agora, mais intrigados.
Acharam que ela devia estar esquecida mesmo.
Como alguém não sabia quem era Jesus?
Jurema, embora intrigada, disse:
- Está bem, moça, quando você melhorar, eu vou lhe contar quem é Jesus, mas, por enquanto, só tem que ficar forte.
Tem outra coisa, já que não sabe o seu nome, a gente vai ter que lhe dar um.
Não dá para ficar chamando você de moça.
Que nome gostaria de ter?
Outra vez, ela ficou pensando, mas não sabia o que responder.
Não sabia que nome queria para si.
Jurema percebendo que ela estava com dúvida, disse:
- Já sei!
A gente vai chamá-la de Cida!
- Cida?
- Isso mesmo.
Nossa Senhora Aparecida é a mãe de Jesus.
Assim como a moça, ela apareceu um dia do nada, num rio.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:32 pm

O povo deu o nome de Nossa Senhora Aparecida.
Por isso, a gente vai chamá-la de Cida. Gostou?
Ela respondeu, sorrindo:
- Cida! Gostei!
Meu nome é Cida!
Jurema olhou para Neco que também olhava para ela.
Os dois sorriram, pois perceberam, pela primeira vez, um pouco de felicidade no rosto daquela estranha.
A moça se levantou e saiu andando pelo terreiro.
Jurema foi atrás dela, dizendo:
- Vou lá na cozinha, passar o café.
O Neco deixou a água fervendo.
Quer vir também?
- Se não se incomodar, queria ficar aqui, tentando me lembrar.
- Então, fique, quando o café estiver pronto, trago um pouco para você.
Assim dizendo, Jurema entrou na casa.
Cida começou a andar e olhar para aquele lugar, que via pela primeira vez, pois, quando chegou, estava quase desmaiada.
Andou uns dez metros, prestando atenção à paisagem.
Do lado direito da casa, a uns cinco metros de onde estava, viu uma plantação não muito verde.
Muitas das folhas estavam amareladas.
Um cavalo e uma vaca pastavam por ali.
No meio do terreiro, algumas galinhas ciscavam.
Uma delas ciscava, acompanhada de pintinhos que, pelo jeito, eram recém-nascidos.
Junto ao cavalo, viu uma carroça.
Voltou-se para casa.
De fora, parecia ser maior do que era por dentro.
Conseguiu ver a cozinha e o quarto, havia mais uma janela que estava fechada.
Pensou: aquela janela que está fechada deve ser de outro cómodo.
Notou que toda a casa estava pintada de branco e as janelas, de azul, o que lhe dava uma boa aparência.
Ela não lembrava-se, por dentro, a casa era também pintada de branco.
Não havia prestado atenção, mas tinha quase certeza de que o chão era de algum material vermelho.
Tudo aquilo, para ela, era muito estranho:
por mais que eu tente, não consigo me lembrar de ter visto uma paisagem como esta.
Não entendo como tudo isso está acontecendo.
Como alguém pode esquecer de quem é?
Novamente, uma lágrima começou a cair por seu rosto, que agora estava quase que totalmente preto e muito inchado.
Com a mão, tentou secar a lágrima, sentiu muita dor.
Lembrou-se de que seu rosto estava ferido.
Estava ainda com a mão no rosto, quando ouviu:
- Está chorando de novo?
- Desculpe. A senhora e seu marido têm sido tão bons para mim, só que não me conformo de não conseguir me recordar do que aconteceu.
Se eu não me recordo, como não me esqueci das palavras?
Como consigo falar?
- Não sei, moça.
Mas não precisa me chamar de senhora.
Não sou muito mais velha que você.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:33 pm

A gente não sabe como é a nossa cabeça por dentro, não é mesmo?
Agora, você vai tomar café e comer bolinhos.
Não é muito, mas é tudo que tenho.
Depois, você vai lá para dentro descansar.
Quando estiver melhor, a gente vai até lá à cidade, para ver se alguma pessoa conhece a moça.
Está bem assim?
- Vocês vão fazer isso mesmo?
Tem razão, alguém pode ter-me visto!
- Isso mesmo.
Só que a cidade fica longe daqui e para você aguentar, vai ter que estar mais forte.
E precisa esperar todo esse seu machucado desaparecer, certo?
- Está óptimo.
Agora, estou sentindo um pouco de esperança.
- A esperança é a única que não pode morrer nunca.
Se não fosse a esperança, o sertanejo não conseguia viver aqui, não.
- Por que está dizendo isso?
- Está vendo aquela plantação?
A gente limpou o terreno, semeou, cuidou de tudo com a esperança de que o milho, o feijão, o jerimum e o aipim crescessem, e assim o Neco podia vender lá na cidade.
Com o dinheiro que ia conseguir, a gente se alimentava, comprava sementes e começava tudo de novo, mas acho que, este ano, não vai dar certo, não.
- Por que está dizendo isso?
- Porque a chuva não veio.
A água está se acabando.
Veja como as folhas estão ficando amareladas.
Logo, tudo aqui vai ser só poeira e a gente vai ter que ir embora, até a chuva voltar.
- Está dizendo a verdade?
Vocês não vão conseguir colher nada do que plantaram?
- Se a chuva não vier, a gente não vai conseguir mesmo...
Agora foi a moça quem viu uma lágrima correndo pelo rosto de Jurema.
Disse com a voz enternecida:
- Você está muito triste com isso, não é?
Jurema, enxugando com a mão a lágrima, respondeu:
- Estou, sim. Gosto daqui.
É a minha casa, o meu chão.
Tenho medo de que o Neco resolve de vez e a gente vai embora lá para o Sul.
- Ele quer ir embora daqui?
- Quer. A gente já sofreu muito tentando ficar, mas desta vez ele não vai aguentar, vai querer ir embora.
Eu vou ter que ir junto.
Vai ser muito difícil, mas acho que não vai ter outro jeito, não.
- Não sei o que dizer, Jurema.
Mesmo que quisesse, não sei como ajudar.
- Só tem que ficar boa para a gente ir para cidade, ver se encontra a sua família.
É só isso que pode fazer.
Quem sabe, Deus tem pena da gente e faz a chuva chegar.
- É, quem sabe.
Como você disse, a esperança é a última que morre.
- E isso mesmo, moça.
Se a gente tiver que ficar aqui, a gente vai ficar.
Tantas vezes a gente já estava com tudo pronto para ir embora e a chuva chegou, não foi, Neco?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:33 pm

Neco, que havia se aproximado, respondeu:
- Foi, sim.
A chuva chegou a tempo de a gente não perder tudo que tinha plantado.
Sabe, Cida? Aqui é assim mesmo.
A gente nunca sabe o que vai acontecer.
Só Jesus Cristo e São José sabem.
Os dias foram passando.
Jurema continuou cuidando dos ferimentos de Cida.
Ela, por sua vez, tinha momentos de extremo desespero, querendo se lembrar do seu passado, mas não conseguia.
Nessas horas, Jurema, pacientemente, dizia:
- Fique calma, Cida.
Assim que estiver bem forte, a gente vai para a cidade e alguém deve ter visto você por ali.
Aí, tudo vai ficar mais fácil.
Ela se acalmava, pois sabia que aquela era a única coisa que poderia fazer.
O ferimento da cabeça sarou.
As manchas escuras do rosto sumiram.
Só aí, Jurema e Neco conseguiram vê-la como realmente era.
Jurema disse, surpresa:
- Neco! Olha como ela é bonita!
Olha só o tamanho dos olhos dela!
E a cor, então?! É bem azul!
Olha os dentes! Tudo perfeito!
A boca parece que foi desenhada! Cida!
Você é mesmo muito bonita!
Acho que você não tem ainda nem trinta anos!
Ela, sem graça, não soube o que dizer, apenas sorriu.
Assim que perceberam que ela estava bem, e que poderia viajar, combinaram que, na manhã seguinte, iriam até a cidade.
Aquilo encheu de alegria o coração de Cida, que pensava:
Indo até a cidade, talvez eu encontre o meu caminho.
É impossível que ninguém me conheça nem tenha me visto.
Como o combinado, na manhã seguinte levantaram-se, ainda de madrugada.
Precisavam partir antes que o sol raiasse.
A distância até a cidade não era muito grande, mas como iriam na carroça, a viagem se tornava demorada.
Assim que o sol nascesse, o calor se tornaria insuportável.
Na carroça, havia um banco, onde os três sentaram e lentamente se dirigiram para a cidade.
Cida levava em seu coração, uma enorme esperança.
Jurema olhava-a, também.
Queria que ela encontrasse a sua família.
Disse:
- Cida, se Deus quiser, a gente vai encontrar alguém que a conhece.
Fique tranquila.
Aproveite para olhar a paisagem.
Agora, não está muito bonita, porque já faz muito tempo que não chove, mas quando a chuva chega, tudo aqui fica muito bonito, cheio de verde.
- Estava fazendo isso.
Como é triste ver tanta planta seca.
Mas também estou com medo de chegar à cidade e não encontrar ninguém que me conheça.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:33 pm

Se isso acontecer, o que farei?
Para onde irei?
- Não sei se vai encontrar alguém, mas, aconteça o que acontecer, você está com a gente e vai ficar até quando quiser, não é mesmo, Neco?
Neco estava quieto, ouvindo.
Também estava pensando no que aconteceria se ninguém conhecesse aquela moça.
Ao ouvir a pergunta de Jurema, respondeu:
- É isso mesmo, moça, não precisa se preocupar.
Assim que a gente chegar à cidade, vou falar com meu tio.
Ele sempre tem uma casa esperando pela gente.
Sabe que, quando tem seca, a gente vai e fica até a chuva voltar, mas, mesmo assim, você vai ficar com a gente, até quando quiser.
Ela sorriu agradecida.
Sentia-se impotente, não sabia o que fazer nem para onde ir.
Pensou: ainda bem que encontrei estas pessoas que me acolheram.
Não sei se, algum dia, me lembrarei de todo o meu passado, mas de uma coisa tenho certeza, jamais me esquecerei deles.
Lembrou-se daquilo que Jurema lhe disse um dia:
- Cida, não sei, não, mas você não é daqui e do jeito que fala e com o vestido que chegou aqui, parece ser gente rica...
- Não sei como agradecer aos dois.
Jurema, você se lembra do dia em que disse que eu parecia ser rica?
- Claro que me lembro e ainda continuo achando.
- Pois bem, se isso for verdade e se, um dia, eu me lembrar de quem sou e, se realmente eu for rica, pode ficar certa de que nunca me esquecerei do que estão fazendo por mim. Nunca!
Jurema arregalou os olhos e disse:
- Que é isso, Cida?
Nós não estamos com você por causa disso!
- Nunca pensei isso!
Quando vocês me acolheram, sei que foi só porque são boas pessoas, mas se eu puder ajudá-los, claro que farei!
Neco disse, bravo:
- A gente não precisa de nada, moça.
A gente vive muito bem.
A única coisa de que a gente precisa é de chuva, nada mais.
- Sei disso, vocês entenderam mal, não quis ser ingrata nem os ofender.
Nunca poderei pagar o que estão fazendo por mim, só quis dizer que, se puder, vou ajudá-los, só isso...
Jurema percebeu que Cida estava perturbada e que o marido estava nervoso.
Calma, disse:
- Vamos deixar o dito pelo não dito.
A gente só precisa chegar à cidade e ver o que acontece.
No fim, tudo dá sempre certo.
Cida ouviu-a e se calou.
O mesmo fez Neco, que ficou olhando para frente, conduzindo o cavalo e a carroça.
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Ave sem Ninho

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:33 pm

Em Busca de Identidade
Neco continuou pensando e guiando o cavalo que, lentamente, puxava a carroça.
Cida seguia quieta.
Não tinha nada a dizer, só sentia uma vontade enorme de chegar àquela cidade que, para ela, era desconhecida.
Para quebrar o silêncio, Jurema disse:
- Sabe, Cida, o tio Dorival é um homem muito bom.
Ele tem uma loja grande na cidade.
A cidade é pequena, não tem muito trabalho, por isso, a maioria dos homens foi para outro lugar, em busca de uma vida melhor para a família.
As mulheres, para terem algum dinheiro antes que o marido volte, fazem renda e bordam.
O tio Dorival compra todo o material de que elas precisam.
Quando o trabalho está pronto, ele paga e envia tudo para o resto do Brasil, principalmente para o Sul.
O trabalho é muito bonito, você vai ver.
- Você também faz esse trabalho, Jurema?
Neco olhou para Jurema, antes que ela respondesse.
Ela, com um olhar triste, como se tivesse lembrado alguma coisa, respondeu:
- Eu bordava roupas de criança e fazia as rendas que usava nelas, mas hoje, não faço mais e nunca mais vou fazer.
- Por quê?
- Um dia eu conto, mas não vai ser hoje.
Hoje, vamos ver se a gente descobre quem você é e de onde veio.
Cida percebeu que ela não queria continuar aquele assunto.
Ficou curiosa para saber por que Jurema não queria mais fazer aquele trabalho, que parecia ser tão lucrativo.
Porém, se calou.
Depois de alguns minutos, avistaram a cidade.
Jurema disse:
- Olhe lá, Cida! Lá está a cidade!
Ainda bem, já estou cansada de ficar sentada aqui nesta carroça.
Meu corpo está doendo!
- Eu também estou cansada e muito aflita para chegar.
- Já estamos chegando.
Logo, tudo vai ficar melhor...
- Espero que sim.
Sinto que, nesta cidade, encontrarei o meu destino.
Chegaram a uma rua estreita.
Cida, curiosa e esperançosa, foi olhando tudo.
Percebeu que as calçadas eram estreitas, por onde somente uma pessoa poderia passar.
Havia também algumas lojas de comércio.
Jurema disse:
- Esta é a rua principal da cidade.
Aqui é que a gente encontra tudo de que precisa.
- Qual é o nome desta cidade?
- Ela se chama Fundo do Carimã e fica no Estado da Bahia.
Se a gente viajar de carro umas quatro horas, a gente chega a Salvador, Capital da Bahia.
- Você disse que eu não falo como as pessoas daqui, que provavelmente eu seja do Sul.
Como vim parar aqui?
- Também já pensei muito nisso, mas não encontrei a resposta.
Quem sabe, aqui, a gente encontra essa resposta.
Não é mesmo?
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Ave sem Ninho

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:34 pm

- É... quem sabe...
Neco parou a carroça em frente a uma porta grande.
Desceu e ajudou-as a descer também.
Entraram pela porta.
Era uma loja, onde ela percebeu que havia muitas coisas para serem vendidas.
Assim que entraram, um senhor que estava atrás de um balcão, com os braços abertos, andou na direcção deles.
- Neco! Jurema!
Que bom que estão aqui!
Estava pensando em vocês!
Sabia que chegariam a qualquer momento!
- Como vai, tio?
O senhor percebeu que faz tempo que não chove, por isso pensou isso?
- Foi, sim, meu filho.
Mas você sabe que não precisa se preocupar.
A sua casa está sempre lá a sua espera.
Pode vir quando quiser.
- Eu sei, tio.
O senhor sempre disse isso, mas, não, desta vez, a gente veio por outro motivo.
Ainda tem um pouco de água e a plantação não secou por todo, ainda tem chance de chover e, se isso acontecer, ainda vai dar para recuperar tudo.
- Vocês são mesmo teimosos.
Não precisariam morar tão longe e em uma casa simples como aquela.
A casa que tenho aqui, possui todo o conforto, vocês poderiam morar nela para sempre.
Você me ajudaria aqui na loja e, você, Jurema, poderia bordar e fazer aquelas rendas que faz tão bem.
Imediatamente, Neco olhou para Jurema.
Ela, antes que ele dissesse algo, com uma sombra de tristeza nos olhos, disse:
- Tio, o senhor sabe que nunca mais vou fazer esse trabalho.
- Sei, sim, Jurema.
Na ocasião, você me disse isso, mas já se passou tanto tempo...
- Pode ter passado para o senhor, mas, para mim, parece que foi ontem.
Naquele dia, eu prometi, e vou cumprir a minha promessa.
- Está bem, Jurema, não precisa ficar triste.
Só quero que fique certa de que, quando quiser, pode voltar.
Sabe que sempre terei muito trabalho para você.
Sabe muito bem que você foi e ainda continua sendo a minha melhor bordadeira e rendeira.
Mas, Neco, se não veio até aqui por causa da casa, por que veio?
- Esta moça aqui é a Cida.
Eu a encontrei caída e ferida na caatinga.
Ela estava desmaiada, depois que acordou, não se lembrava de nada, nem do seu nome.
Dorival arregalou os olhos em direcção à Cida, perguntando:
- Não se lembra de nada mesmo?
Nem do seu nome ou de onde veio?
- Não, por isso viemos até aqui.
Quem sabe alguém da cidade pode ter-me visto ou me conheça. - respondeu, tímida.
- Eu não conheço você, não, mas acho que a gente deve andar aí pela rua e perguntar.
- O senhor não precisa ir não, tio!
Tem muito trabalho aqui na loja.
- Que é isso, Neco?
Claro que vou.
Conheço todos aqui na cidade!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:34 pm

- Se o senhor quiser, vai ser muito bom.
Dorival deu algumas ordens para o Chico, um dos empregados da loja, depois saiu.
Cida notou que a rua era longa e, que no final dela, havia uma igreja que também não era muito grande.
O som de um alto-falante tocava uma música, que para ela era estranha.
Seguiram pela rua, entraram em todas as lojas e bateram em todas as portas, perguntando se alguém a conhecia.
Todos os receberam muito bem, pois Dorival era muito respeitado por eles.
Depois de percorrerem toda a rua, sem encontrar alguém que a conhecesse, chegaram à porta da igreja.
Cida, do lado de fora, ficou olhando.
Havia uma pequena escada com quatro degraus.
Do primeiro degrau, Jurema perguntou:
- Cida, quer entrar na igreja e conversar com o padre?
- Gostaria, quem sabe ele me conhece.
Entraram.
A igreja era simples, só tinha um pequeno altar e um corredor central, por onde eles caminharam.
Algumas pessoas estavam ajoelhadas.
Cida olhava tudo aquilo, tentava se lembrar se algum dia estivera em um lugar como aquele, mas não conseguia.
Foram em direcção aos fundos da igreja.
Do lado direito, havia uma porta.
Dorival foi à frente e bateu.
De dentro, ouviu-se uma voz.
- Pode entrar.
Dorival abriu a porta e, um após o outro, foram entrando.
Um padre os recebeu com um sorriso.
- Dorival! Neco e você, Jurema?
Há quanto tempo não via você aqui na igreja!
Jurema, beijando sua mão, disse:
- A sua bênção, padre.
Faz muito tempo mesmo, mas hoje vim por uma razão especial.
- Sempre existe uma razão especial para se recorrer a Deus.
Posso saber que razão é essa?
- A gente veio por causa desta moça.
O Neco a encontrou desmaiada na caatinga e ela não sabe quem é nem de onde veio.
Quem sabe o padre já a viu por aqui.
O padre olhou para Cida demoradamente.
- Não, eu nunca a vi por aqui.
Moça, não se lembra mesmo de nada?
Agora, já desesperada por perceber que aquela viagem havia sido inútil, ela respondeu com lágrimas escorrendo por seu rosto.
- Não, padre!
Não me lembro de nada, nem do meu nome...
- Estranho. Já li alguma coisa a esse respeito.
O nome dessa doença é amnésia e geralmente acontece quando existe um trauma ou uma batida muito forte na cabeça.
Jurema disse com entusiasmo:
- Então foi isso!
Quando ela chegou, tinha um corte muito feio na cabeça.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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