Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:40 pm

-Conversei, mas ela disse que foi o calor, só que a gente sabe que não foi nada disso, não é mesmo?
Neco não respondeu, apenas sorriu.
Assim que passaram pelo barracão, chamaram Cida para o almoço.
Ela levantou-se e os acompanhou.
Almoçaram em paz.
Após o almoço, como já estava fazendo há alguns dias, Jurema foi descansar.
Gostava de ficar deitada, sonhando com a sua criança.
Duas horas depois, ela se levantou.
Cida estava no barracão e Neco na plantação.
Jurema colocou água no fogo para preparar um chá.
Estava saindo da casa, quando viu um cavaleiro que se aproximava.
Pela distância em que ele estava, não conseguiu distinguir quem era, mas à medida que ele foi se aproximando, reconheceu-o:
Doutor?! O que será que ele está fazendo por aqui?
Assim que chegou perto, desmontou e, sorrindo, disse:
-Boa-tarde, dona Jurema, como a senhora está?
-Estou bem, mas o que traz o senhor até aqui?
-Fiquei preocupado com a senhora e vim ver como está passando.
-Preocupado comigo? Por quê?
O senhor recebeu o resultado dos meus exames?
Está acontecendo alguma coisa com a criança?
-Não é nada disso!
Fique calma, não recebi ainda o resultado mas, pelo exame que fiz, está tudo bem.
-Ainda bem, o senhor me assustou, eu estou passando muito bem, mas a gente nunca sabe, não é mesmo?
- É sim, mas não fique preocupada, a senhora e a criança estão bem.
E os outros também estão bem?
Jurema, percebendo qual era a sua verdadeira intenção, sorriu com ironia e respondeu:
-O Neco está na plantação e a Cida está no barracão.
Foi bom que o senhor veio, ela não está bem, não.
-Não está bem?
O que ela está sentindo?
-Não sei não doutor, só sei que, esta noite, ela quase não dormiu.
-Não dormiu por quê?
-Ela disse que foi porque estava muito calor, mas não sei não...
Ele ficou nervoso e não percebeu o olhar de deboche dela que, apontando para o barracão, disse:
-Ela está lá no barracão, por que o senhor não vai até lá?
Sem nada dizer, ele foi até o barracão.
Jurema ficou olhando, sorrindo e pensando:
Ele está doidinho por ela...
Cida tentava concentrar-se no trabalho, mas estava sendo difícil.
A imagem dele não a deixava em paz.
Estava com os olhos baixos, olhando para o trabalho, quando ouviu:
-Boa-tarde, Cida, a dona Jurema disse que você não está bem...
Ao ouvir aquela voz, começou a tremer e não conseguia acreditar que ele estivesse ali.
Pensou ser um sonho e por isso não tinha coragem de levantar a cabeça.
Ele insistiu:
-Boa-tarde, Cida!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:41 pm

Não tendo alternativa, tremendo muito e branca como papel, ela levantou a cabeça, pensando:
Meu Deus, é ele mesmo!
Ficou olhando para ele sem nada dizer e, por mais que tentasse, a voz não saía.
Ele, preocupado com a sua cor, aproximou-se, dizendo:
-A Jurema tem razão, você não está bem.
Ao ver a preocupação em seu rosto e tentando recompor-se, disse:
-Estou bem, Jurema está preocupada à toa.
Foi ela quem mandou chamar o senhor?
-Não, não foi ela.
Eu quis vir.
-Por quê?
- Para lhe perguntar:
por que você não quis ir ao pronto-socorro me ver?
Vim aqui para saber qual foi o motivo, saber se eu disse ou fiz algo que a desagradou.
- Não, o senhor não fez nada, eu apenas acredito que não está adiantando, não está me ajudando.
Depois de tantas conversas, eu continuo sem recordar o meu passado.
- Eu lhe disse que não seria fácil, precisamos esperar que o meu amigo volte do exterior para ter mais informações, porém, até isso acontecer, poderemos continuar com as nossas conversas.
Ela começou a chorar.
-Não! Não quero, não posso mais...
-Não quer?
Não pode mais, o quê? Por quê?
-Não sei! Não sei!
Dizendo isso, saiu correndo.
A princípio, ele ficou parado, atónito, sem saber o que fazer, depois correu atrás dela.
Neco, na plantação, percebeu quando o cavaleiro chegou.
Não sabia quem era, por isso foi para casa, quando viu Cida sair correndo e o doutor correndo atrás dela.
Parou um instante, olhou para a porta da casa, Jurema estava ali em pé e sorrindo.
-Jurema, que aconteceu?
O que o doutor está fazendo aqui?
Por que a Cida saiu correndo do barracão e ele foi atrás?
- Calma, Neco!
Uma pergunta de cada vez.
Ele está aqui, porque descobriu que gosta dela.
Ela está correndo, porque tem certeza que também gosta dele, só isso...
-O que a gente vai fazer, Jurema?
-Nada, Neco... a gente não vai fazer nada, só vai esperar...
-Esperar?
-Isso mesmo, esperar e ver o que acontece.
A gente agora vai entrar e tomar chá, só isso...
Ele sabia que Jurema tinha razão, entrou e juntos começaram a tomar o chá.
Campelo alcançou Cida.
Conseguiu fazer com que parasse e, nervoso, disse:
-Pare! Precisamos conversar!
-Nós não temos o que conversar!
-Temos, sim, e foi para isso que vim até aqui!
Ela, ainda chorando muito, perguntou:
-Veio para quê?
-Vim para dizer que descobri o porquê de eu ter vindo parar nesta cidade no fim do mundo!
-Descobriu o quê?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:41 pm

-Descobri o motivo de eu ter vindo parar neste fim de mundo!
-Qual foi o motivo?
-Você disse que eu nada fiz para ofendê-la, talvez o que eu vá dizer agora possa magoá-la.
Se isso acontecer, peço perdão antecipadamente, mas preciso dizer!
-Ofender?! O que vai dizer?
- Existe uma ética profissional, que, diz que um médico nunca pode se envolver sentimentalmente com um paciente, mas isso, embora não tenha sido a minha vontade, aconteceu.
- Não estou entendendo, o que está dizendo?
- Estou tentando dizer que, embora seja seu médico, esta noite descobri que estou completamente apaixonado por você e que o motivo de eu ter vindo para esta cidade foi só para conhecê-la!
Foi o destino que me trouxe até aqui!
Ela arregalou os olhos, aquelas palavras, embora sentisse medo, eram as que mais queria ouvir.
Tomada de surpresa, se calou, não conseguiu responder.
Ficou apenas olhando para ele.
Ele segurou em seu queixo, obrigando-a a olhar em seus olhos.
Perguntou:
-Diga com sinceridade, não está sentindo o mesmo que eu?
Ela tentou fechar os olhos e desviar o rosto, mas ele continuou:
-Não feche os olhos, apenas olhe em meus olhos e responda!
-Não posso, não posso!
-Não pode o quê? Responder?
-Isso mesmo, não posso!
-Não pode por quê?
- Por que não sei quem sou!
Não sei o que aconteceu no meu passado!
Não sei se, antes, já gostei de alguém!
Não sei se tenho um marido! Filhos!
Entende por que não posso responder?
Não sei se tenho esse direito!
Ele soltou-a e se afastou, mantendo uma certa distância:
-Já lhe disse que isso é só uma questão de tempo.
De um momento para outro, você se lembrará!
Isso, agora, neste momento, não tem importância... só preciso saber:
está sentindo o mesmo que eu?
- Não sei!
Acredito que sim, mas não pode ser!
Não, antes de eu descobrir quem sou!
Ela não percebeu, mas seus olhos estavam abertos e olhando nos dele.
Ficaram assim, olhando-se por alguns segundos e, mesmo contra a vontade dos dois, seus rostos foram se aproximando e os lábios também.
Logo, estavam beijando-se com muito amor e carinho, como se estivessem reencontrando-se após muito tempo.
Jurema e Neco, da porta da casa, viam aquela cena e sorriam.
Após um longo beijo, seus rostos separaram-se, mas continuaram a se olhar.
Ficaram assim por um longo tempo.
Eles mesmos não entendiam o que estava acontecendo, mas sabiam que se amavam e muito.
Ela foi a primeira a afastar o rosto, embora continuasse olhando para os olhos dele.
-Isso não podia ter acontecido...
-Por que não?
Sei que amo você e, após este beijo, sei que me ama também!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:41 pm

-Não sei ao certo o que significa isso que estou sentindo, mas sei que nada poderá existir entre nós, antes que eu recupere a memória e saiba exactamente quem sou.
Não quero nem posso me arrepender de uma decisão tomada sem pensar.
Não quero sofrer nem o fazer sofrer.
-Sei que você tem razão, mas não suporto a ideia de não a vir mais nem conversar com você.
Não sei quem é, mas isso não me importa.
A única coisa que sei é que amo você e que nunca mais vou me separar de você.
Nem que seja apenas para conversarmos, como fazíamos.
Você não quer mais ir ao meu consultório, mas não pode impedir que eu venha até aqui!
E eu virei!
Pode ter certeza disso!
-Não sei se conseguirei ficar mais ao seu lado.
Só tenho medo de que, ao descobrir quem sou, venha a saber que tenho um outro alguém, pois, se houver, deve estar sofrendo com a minha ausência.
-Mesmo que tenha um outro alguém, mesmo que venha a recordar-se, assim mesmo, nunca mais será como antes.
Tudo mudou em sua vida e na minha também.
Se não quiser algo mais sério, tudo bem, mas, por favor, não me peça para deixar de vê-la.
-Está bem, mas você tem que prometer que vai respeitar a minha vontade.
-Prometo que só farei o que quiser.
Ela sorriu e de mãos dadas foram caminhando em direcção a Jurema e Neco que, embora distantes, os observavam.
Quando chegaram perto, Cida disse, sorrindo:
- Está bem, Jurema, preciso concordar; você estava com a razão.
Nós estamos mesmo apaixonados.
-Isso para mim não é novidade.
Desejo toda a felicidade do mundo para vocês.
Campelo, colocando o braço sobre o ombro de Cida, disse:
-Nós seremos... Com certeza...
Jurema olhou para Neco, dizendo:
-Neco, olha que casal bonito eles são!
Não é mesmo?
Ele, sem jeito, respondeu:
-São, sim, seja tudo o que Deus quiser...
Campelo, nervoso, disse:
- Com tudo isso, esqueci que deixei o pronto-socorro lotado de clientes!
Preciso ir embora. Até mais.
No dia da minha folga, voltarei.
Jurema, rindo, disse:
-Volta sim, doutor.
A gente vai estar esperando.
Ele deu um beijo na testa de Cida, montou no cavalo e saiu em disparada.
Ela ficou olhando até que ele sumisse no horizonte.
Jurema disse:
-Cida, pode parar de olhar, ele sumiu!
-Eu sei, Jurema, eu sei, mas não estou acreditando no que aconteceu aqui.
Não podia ter acontecido...
-Mas aconteceu e agora não tem mais jeito, não.
Você vai ter que ficar junto com ele.
Não é mesmo Neco?
Neco, enquanto andava em direcção da lavoura, respondeu:
-Não sei de nada, não.
Não quero me meter nessa história.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:41 pm

Não tenho nada a ver com isso.
Jurema disse com ar de ironia:
-Esse Neco... Esse Neco...
Foi sempre assim, faz de conta que não quer saber das coisas, diz que não se importa com aquilo que não é da conta dele, mas está sempre com a orelha em pé.
Cida não ouviu o que ela disse.
Ainda sentia em seus lábios o sabor daquele beijo.
Para ela, foi como se fosse o primeiro, pois não se lembrava de ter tido outro em sua vida.
Jurema, percebendo que ela estava com o pensamento distante, disse:
- Cida, volta para Terra!
Não adianta ficar pensando.
Tudo aconteceu porque Deus quis, agora, é só esperar e ver o que vem lá na frente.
Para todos os problemas da vida, só o tempo tem resposta.
É melhor a gente voltar para o barracão e terminar o trabalho.
Assim, o Neco pode, amanhã, levar para a cidade.
Voltaram para o barracão.
Enquanto Jurema tecia renda, Cida bordava.
Tentava esquecer tudo o que aconteceu, mas foi em vão.
O rosto dele não saía do seu pensamento:
meu Deus, faça com que eu me recorde do meu passado.
Não permita que eu tenha um outro alguém, ele teve razão quando disse que nunca mais será como antes.
Eu sinto que o amo e que ele é o homem da minha vida.
Por favor, Deus, faça com que eu me recorde!
Preciso disso!
Agora mais do que nunca...
Jurema percebeu em que ela estava pensando, disse:
- Sabe, Cida, do destino ninguém foge.
Ele tem uma força danada...
Após dizer isso, saiu do barracão, deixando Cida pensar naquilo que havia dito.
Antes do jantar, terminaram a encomenda de Dorival e colocaram em caixas, pois no dia seguinte bem cedo, Neco iria para a cidade entregar.
Sabiam que o Dorival estava esperando ansioso.
Jantaram e foram se deitar.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:52 pm

Momentos de Desespero
Era noite alta quando Jurema acordou.
Ficou deitada na rede por mais algum tempo, depois se levantou.
Foi até a cozinha, avivou as brasas do fogão e colocou água em uma chaleira.
Sentou-se em uma cadeira e ficou esperando a água ferver.
Estava assim quando Neco se aproximou.
-Jurema, o que aconteceu?
Por que se levantou?
-Estou com uma dor estranha aqui nas costas...
-Você acha que é a criança?
Acha que ela vai nascer?
Jurema começou a rir:
- Claro que não!
Ainda não está no tempo.
Falta mais de um mês.
Você não lembra quando a Dalvinha nasceu?
A dor não é nas costas, mas na barriga, Neco!
Acho que dei mau jeito, só isso.
Vou tomar um chá de cidreira e depois vou me deitar.
Pode ir dormir, Neco, estou bem.
Ele, sem ter opção e por estar cansado da lida, foi se deitar e adormeceu.
Jurema, após preparar o chá, tomou-o e voltou para a rede.
Porém, durante a noite, acordou várias vezes, ficou quieta, pois não queria assustar Neco.
No dia seguinte, acordou e foi para a cozinha.
Quando entrou, ele estava terminando de coar o café.
-Bom-dia, Neco.
-Bom-dia, passou a dor nas costas?
Ela mentiu:
-Passou. Foi só um mau jeito mesmo.
-Você não quer ir comigo para a cidade e consultar o doutor?
- Não, ainda falta mais de um mês para a criança nascer e já lhe disse que a dor é na barriga, não é nas costas.
Pode ir sossegado, vou ficar bem.
- Você sabe que tenho muita coisa para fazer na cidade e só vou voltar quase à noitinha.
Não quer mesmo ir comigo?
Pode consultar o doutor e depois ficar na casa da tia, até eu terminar tudo o que tenho para fazer.
-Não vou, não.
Estou muito pesada e o balanço da carroça me faz mal.
Pode ir sossegado, estou bem.
Na semana que vem, tenho consulta marcada com o doutor.
Se ele achar melhor, fico na casa da tia de vez até a criança nascer.
-Você que sabe.
Preciso ir.
-Vá, Neco e não fique preocupado.
Quando você voltar, eu vou estar aqui do mesmo jeito.
Sabe que não estou sozinha, a Cida está comigo.
- Sei disso, mas se acontecer alguma coisa, ela não vai poder fazer nada, nem me chamar na cidade, porque não tem condução.
Você sabe que o nosso vizinho mais perto fica a mais de quarenta minutos a pé.
Pense bem. Não quer mesmo ir comigo?
-Não quero, Neco, vou na semana que vem.
-Está bem, agora preciso ir.
Cida acordou, foi para a cozinha no momento em que ele estava saindo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:53 pm

Ao vê-la, disse:
-Cida, estou um pouco preocupado...
-Por quê, Neco?
- Jurema passou a noite toda com dor nas costas.
Quero levá-la comigo para a cidade, mas ela não quer ir.
Você sabe como essa mulher é teimosa...
Cida olhou assustada para Jurema.
-Jurema! Não é melhor ir com ele?
- Você também, Cida?
Não tenho nada, deve ter sido um mau jeito, nada mais.
Já disse ao Neco que, quando a criança vai nascer, dói na barriga e não nas costas.
Também, falta ainda mais de um mês.
Vá embora, Neco, fique sossegado.
Neco, balançando a cabeça num sinal claro de preocupação e desagrado, montou na carroça e foi embora.
Apesar de naquele dia não haver trabalho do Dorival, pois Neco só retornaria mais tarde, foram para o barracão.
Precisavam completar o enxoval da criança.
Toda a roupinha estava sendo feita com extremo carinho.
A dor que Jurema estava sentindo não passava, ao contrário, aumentava a cada instante.
Estava quase na hora do almoço, quando ela disse:
-Cida, não sei não, mas a dor não passou e está ficando pior.
Será que a criança vai nascer?
Cida, apavorada, quase gritando, disse:
- Não sei, Jurema!
Não me lembro de ter tido uma criança, mas você devia saber como é!
Já teve a Dalvinha!
Acha que pode ser? Jurema!
Você tem que saber!
Acha que ela vai nascer?
- Pensava que sabia como era, mas, agora, estou achando que vai nascer sim... porque agora a dor está na barriga também...
-Jurema! Não diga isso!
O que vamos fazer?
O Neco só vai voltar à tarde!
Nós não temos condução!
Jurema ia responder, mas a dor ficou mais forte e ela soltou um gemido alto.
Depois de alguns minutos, conseguiu falar.
-Não sei, não, Cida, mas acho que vai nascer, sim.
Mas quem sabe é só um mau jeito mesmo.
Vou me deitar um pouco lá na rede para ver se passa.
-Vai, assim como você, não acredito que seja a criança, ainda falta muito tempo.
Jurema voltou para casa e foi se deitar.
Cida acompanhou-a.
Depois de acomodá-la, saiu da casa.
Olhou e só viu um horizonte deserto.
De repente ouviu um grito de Jurema.
Voltou correndo para dentro da casa.
Com uma expressão de dor no rosto, Jurema disse:
-A dor continua e está aumentando cada vez mais, Cida!
Acho que a criança vai nascer mesmo.
Elas foram entrando em desespero.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:53 pm

Cida não sabia o que fazer.
Não podia deixar Jurema sozinha e ir buscar ajuda no vizinho mais próximo.
Seu coração começou a bater forte.
Estava em pânico e a cada minuto que passava a dor de Jurema ficava mais forte, tanto que ela não conseguia deixar de gritar.
Cida pressentia que o momento estava se aproximando, ficou andando de um lado para outro.
Jurema, deitada na rede, se contorcia e, tentando não gritar para não deixá-la mais assustada ainda, desesperada, sem saber o que fazer, chorando, em pensamento, começou a rezar:
meu Deus do céu, minha Nossa Senhora, me ajude... não deixa nada de ruim acontecer com a minha criança...
Cida, desesperada, não ouvia mais Jurema.
Em seu pensamento, surgiu aquela cena do sonho, onde via homens vestidos de branco e com máscara na boca.
O mesmo sonho, em que dona Betina aparecera e falara com ela.
Por um momento, pareceu se lembrar de algum lugar em que já estivera.
Uma onda de confiança e esperança surgiu em sua mente e, gritando, disse:
-Jurema, a sua criança vai nascer bem.
Vai nascer e tudo dará certo, não acontecerá nada de mal.
Só que você não pode continuar na rede.
Vou ajudá-la, vai ficar deitada na minha cama. Venha!
Abaixou-se, segurou Jurema pela cintura e levantou-a.
Não sabia explicar de onde vinha toda aquela força, mas, em poucos minutos, Jurema estava deitada.
Assim que a colocou na cama, disse:
-Agora, você vai ficar quietinha, vou sair, mas volto logo.
-Aonde você vai, Cida?
Vai me deixar sozinha?
- Claro que não!
Vou preparar tudo para esperarmos a criança chegar!
Fique calma, já volto!
Assim dizendo, foi para a cozinha.
No fogão, havia uma chaleira com água quase fervendo.
Jurema, antes de começar a passar mal, havia colocado para fazer o arroz.
Cida pegou um caldeirão maior, encheu de água e o colocou sobre o fogão, que estava com a brasa bem forte.
Em seguida, foi para o barracão, pegou uma tesoura que usava para o bordado, voltou rápido para dentro da casa.
Colocou a tesoura dentro da chaleira e deixou fervendo.
Foi para o quarto.
Jurema contorcia-se em dores.
Cida acomodou-a melhor, tirou suas roupas, pegou uma toalha, colocou ao lado da cama e examinou Jurema.
Embora com muita dor, Jurema não a estava reconhecendo, parecia que ela havia se transformado em outra pessoa.
Ela agia, como se soubesse o que estava fazendo, como se tivesse feito aquilo muitas vezes.
A dor ficou cada vez mais forte.
Tranquila, Cida disse:
-Está quase na hora.
Fique calma, vai dar tudo certo.
Dizendo isso, foi para a cozinha.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:53 pm

Retirou a tesoura da chaleira e colocou-a enrolada em um pano de prato branco e muito limpo.
Em seguida, lavou as mãos com sabão de cinza, pegou uma bacia e colocou a água.
Com a tesoura enrolada no pano e a bacia, foi para o quarto.
De uma mala, onde estavam as roupinhas da criança, retirou uma toalha.
Colocou-se em posição de espera.
Ficou conversando com Jurema, dizendo a hora em que ela deveria fazer força ou parar e ensinou como deveria respirar.
Mais ou menos uma hora depois, a criança nasceu.
Jurema sorria e chorava.
Cida, compenetrada, segurou firme a criança, cortou o umbigo viu que era um menino.
Enrolou-o na toalha e colocou-o sobre Jurema, dizendo, feliz:
-É um menino, Jurema!
É um menino!
Agora, as duas choravam.
Jurema, feliz por poder ter o seu menino, e Cida, por ver que no final tudo deu certo.
Por alguns instantes, enquanto cuidava de Jurema, deixou o menino sobre seu peito dela.
Assim que a placenta foi expelida, cobriu Jurema, pegou o menino, lavou-o e vestiu-o.
Jurema, em silêncio, acompanhava os seus gestos.
Após lavar e vestir o menino, Cida devolveu-o para Jurema, dizendo:
- Pronto, está feito!
Ele nasceu e parece que está tudo bem, mas assim que o Neco chegar, ele vai ter que voltar e levar você para que o doutor a examine.
Jurema, com ar de felicidade e espanto, disse:
-Coitado do Neco, nem imagina o que aconteceu aqui...
- É mesmo, Jurema, mas o que importa é que tudo está bem.
Ele vai ficar feliz quando conhecer esse menino lindo!
Jurema olhou para o menino, depois para Cida, perguntando:
-Cida, você está bem?
-Claro que sim, por que está perguntando?
- Quando o menino estava nascendo, você parecia outra pessoa, seu rosto mudou e o jeito de falar também.
Que aconteceu?
Cida ficou pensando por um instante, depois respondeu:
-Não sei, só sei que, naquele desespero em que eu estava, de repente, me vi em uma sala cercada por outras pessoas vestidas de branco e com uma máscara sobre a boca.
Senti que eu sabia o que fazer para ajudar você.
Não vi mais nada, só a maneira de ajudar esse menino nascer.
Não sei o que aconteceu, mas eu sabia exactamente o que deveria fazer.
-Cida, será que você era médica?
Cida começou a chorar.
-Não sei se era médica, Jurema!
Só sei que sabia o que fazer!
-Não se lembra de mais nada?
Antes de responder, tentando se lembrar, fechou os olhos.
Depois, disse:
- Não! Não me lembro de mais nada!
Ah, meu Deus, até quando vai durar esse martírio?
Preciso me lembrar!
Deus! Eu preciso!
Essas palavras saíram quase como um grito de dor.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:53 pm

Ao perceber que ela estava nervosa novamente, Jurema disse:
-Não precisa ficar nervosa, o importante é que o meu menino está aqui e você o ajudou a nascer.
Você vai se lembrar do resto mais tarde.
-É... você tem razão, agora, fique quietinha aí.
Vou preparar um caldo de galinha bem forte e lavar essa roupa suja.
Estou ali fora, se precisar de alguma coisa, basta chamar.
Se conseguir, seria bom que dormisse um pouco.
Deve estar muito cansada.
- Estou mesmo, mas não sei se vou conseguir dormir.
Estou louca para ver a cara do Neco quando ele chegar e conhecer o nosso menino.
Cida sorriu enquanto pegava as roupas sujas.
Estava saindo, quando viu ao longe, a carroça de Neco se aproximando e bem à sua frente, correndo muito, vinha também um cavaleiro.
Ao vê-lo, o seu coração começou a bater mais forte.
Disse baixinho:
-O doutor veio com o Neco!
Graças a Deus!
Ao ver Cida com aquelas roupas sujas de sangue, apertaram o passo.
O doutor veio em disparada, Neco, embora quisesse, não conseguiu acompanhá-lo, pois o cavalo era mais lento.
Assim que se aproximou, e enquanto desmontava, perguntou, assustado:
-Cida, o que aconteceu?
Que roupas são essas?
Ela, com os olhos cheios de lágrimas, respondeu:
-O menino da Jurema acabou de nascer...
-Nasceu? Mas não estava na hora!
Como foi isso?
- Não sei, ela começou a passar mal, eu entrei em desespero e, de repente, sabia o que fazer.
O menino nasceu, mas foi Deus quem mandou o senhor até aqui.
Não sei se ela está bem.
Antes que ela terminasse de falar, ele já estava no quarto ao lado de Jurema.
- Dona Jurema, a senhora está sentindo alguma coisa?
Alguma dor?
- Não estou sentindo nada, doutor, e parece que o meu menino também não.
- Vou examiná-la para ver se está tudo bem, depois verei o menino.
-Está bem, doutor, mas acho que fui muito bem tratada.
O senhor não sabe, mas acho que eu tive aqui uma boa médica...
Ele, que estava examinando-a, levantou os olhos, olhou para ela e depois olhou para Cida.
- Depois vou querer saber essa história, por enquanto, preciso examinar vocês dois.
Neco conseguiu chegar.
Entrou correndo e, desesperado, aproximou-se da cama.
Viu o doutor examinando Jurema e, ao lado dela, a criança.
Ajoelhou-se junto a ela, quase chorando, disse:
-Viu, Jurema!
Não lhe disse para ir junto comigo!
Você está bem?
-Acho que eu devia ter ido sim e o nosso menino também acha isso!
-Menino? Não foi a nossa Dalvinha que voltou?
-Acho que não, mas isso não tem mais importância.
Olha como ele é bonito!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:54 pm

Neco ficou olhando para o menino, sem ter coragem de pegá-lo no colo.
Jurema rindo, disse:
- Neco, depois que o doutor examiná-lo, você pode pegar, ele não quebra, não.
Ele é igual à Dalvinha e você a pegava no colo.
Pega sossegado, a Cida enrolou-o muito bem.
Está durinho, durinho.
Campelo sorriu, e quando terminou de examinar Jurema, disse:
- Parece que está tudo bem com a senhora, agora vou examinar esse menino.
Examinou bem o menino.
- Com ele parece que também está tudo bem.
Embora tenha nascido antes do tempo, está com um bom peso.
Não tenho balança, mas posso sentir seu peso na mão.
Agora, só precisa ser bem alimentado.
Neco, se não acontecer nada, quero que, na semana que vem, leve os dois para a cidade.
Vou dar as instruções para que os dois sejam tratados aqui.
Não acho conveniente que façam uma viagem até a cidade.
-Eu levo, doutor! Eu levo!
Cida e Jurema estavam intrigadas com a presença dele ali.
Foi Jurema quem perguntou:
-Doutor, por que o senhor veio aqui?
-Quando o Neco me disse que a senhora estava sentindo dores nas costas, fiquei preocupado e resolvi vir com ele.
Não vim antes, porque só agora à tarde ele foi ao pronto-socorro.
Felizmente, está tudo bem.
Olhando para Cida, continuou:
-Agora quero saber exactamente o que aconteceu aqui.
Você pode me contar?
Ela ficou vermelha, pois desde que se beijaram e ela teve certeza de que ele também a amava, sempre que pensava nele, seu coração batia tanto que chegava a doer.
Não conseguiu olhar em seus olhos.
Ele insistiu:
-Você pode me contar o que aconteceu?
Não tendo alternativa, ela respondeu:
-Não sei o que aconteceu, fiquei nervosa e, de repente, me vi em uma sala com outras pessoas e sabia o que fazer.
A única coisa que me importava era ajudar a Jurema e a criança.
Quando terminou de dizer isso, calou-se.
Jurema continuou:
- Ela fez tudo direitinho, me ajudou fazer força e parar quando precisou.
Doutor, acho que ela já foi médica!
-Também acredito nisso, pois só um profissional agiria da maneira como ela agiu.
Cida arregalou os olhos, dizendo:
-Será? Não sei!
-Não se lembrou de mais nada?
-Não! Só daquela sala e das pessoas que estavam vestidas de branco e com uma máscara na boca.
O que será que aconteceu?
- No momento de medo, desespero e tensão, o seu cérebro agiu rápido e fez com que se lembrasse do que teria que fazer.
Isso é muito bom, indica que, como falei, a qualquer momento se lembrará do passado.
-Será?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:54 pm

- Claro que sim e isso precisa ser rápido para podermos decidir a nossa vida.
Ela calou-se, ninguém mais do que ela desejava que tudo fosse esclarecido.
Sorriu, seu coração batia confiante.
Ele, também sorrindo, disse:
-Agora preciso ir embora.
Cida, você me acompanha até lá fora?
-Claro que sim.
Obrigada por tudo.
Saíram juntos.
Já ao lado do cavalo, ele, dando um beijo em sua testa, disse:
-Sinto que o dia da nossa felicidade está chegando.
Não se esqueça nunca de que amo você.
Ela, sorrindo feliz, disse:
-Não esquecerei, mesmo que queira.
Também amo você.
Ele montou no cavalo e, acenando, deu adeus e partiu.
Ela ficou novamente vendo-o sumir no horizonte.
Assim que ele sumiu, entrou na casa e foi até o quarto.
Jurema estava com o menino no colo e Neco olhava-o com ternura, sem poder esconder a felicidade.
Cida aproximou-se, dizendo:
-Jurema, ele é lindo mesmo, mas qual vai ser o seu nome?
Olhando para Neco, Jurema disse:
-Isso mesmo, Neco, que nome a gente vai dar para ele?
-Não sei, a dona Betina disse que era a nossa Dalvinha que estava nascendo, a gente ia dar o mesmo nome, e agora?
A dona Betina mentiu?
-Não sei, não, Neco, mas também não faz mal.
O nosso menino é lindo!
-Isso ele é mesmo!
Nunca vi um menino tão bonito assim!
Cida começou a rir.
Estava feliz por ver a felicidade daquelas duas pessoas de que tanto gostava e por haver ajudado no nascimento do menino.
Feliz, também, por haver se lembrado de algo, que não sabia muito bem o que era, mas que lhe mostrava que tanto o padre quanto Campelo tinham razão e que a qualquer momento se lembraria do passado.
-Jurema, e se a gente colocar o nome do meu pai?
Jurema ficou pensando e respondeu:
- Joaquim?! Não, Neco!
É um nome muito pesado para uma criança!
Ao ouvir aquilo, Cida não se conteve e começou a rir alto.
Quando conseguiu se conter, disse:
-Ora, Jurema!
Todo Joaquim adulto, um dia já foi uma criança!
Jurema, nervosa por vê-la rindo daquela maneira, disse:
- Eu sei, mas ainda continuo achando que é um nome muito pesado.
Prefiro Rafael.
Não é mais bonito?
Neco olhou para Cida, depois olhou para Jurema.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:54 pm

Respondeu:
-É... acho esse nome bonito...
-Jurema, eu também.
Vitoriosa, Jurema disse:
-Já que vocês gostaram, o nome dele vai ser Rafael!
Vendo a felicidade deles, Cida afastou-se, dizendo:
-Preciso lavar a roupa e preparar o caldo.
Esse menino vai precisar se alimentar, e para isso, Jurema, você tem que ter um leite de qualidade.
Portanto, precisa se alimentar bem.
Jurema e Neco olharam para ela e balançaram a cabeça em um sinal de aprovação.
Ela, sorrindo, saiu do quarto.
Na cozinha, enquanto mexia com as panelas, começou a pensar:
a lembrança que tive foi tão real.
Estava sim, naquela sala.
Será que fui médica um dia?
Como é horrível não saber quem sou!
Logo teve que desviar a atenção para a panela.
Assim que o caldo ficou pronto, colocou em um prato e levou para Jurema que comeu tudo.
Naquela noite, eles quase não conseguiram dormir.
O menino acordou algumas vezes.
Com paciência, Jurema cuidou dele, sempre sob os olhos atentos de Cida e de Neco.
Pela manhã, Cida estava trocando o menino.
Jurema a observava.
Neco estava na cozinha preparando o café e o chá que dariam ao menino.
Ouviram o barulho de um carro que se aproximava.
Neco saiu e viu que era o Jipe de Dorival.
Assim que o carro estacionou, Laurinda desceu dele e, espavorida, disse:
-Neco! O doutor Campelo disse ao Dorival que a Jurema teve um menino!
É verdade?
-É, sim, tia!
É um menino lindo!
Ela, nervosa, entrou no quarto.
O menino, sem roupa, estava sobre a cama e Cida limpava-o com um algodão humedecido.
-Jurema, como isso foi acontecer?
Vocês duas aqui sozinhas!
Você está bem?
Por que não foi lá para casa?
Jurema, percebendo o nervosismo da tia, respondeu:
-Fique calma, tia.
Estou bem e o meu menino também, foi de repente, não deu tempo de eu ir para sua casa.
Mas está tudo bem.
O doutor disse ao Neco para me levar na semana que vem para ele me examinar.
- E se acontecer alguma coisa?
Vocês, aqui longe de tudo!
Acho melhor levar você e o menino lá para casa!
-Não precisa, tia, estou bem e o doutor vai vir sempre aqui.
-Ele pode vir, mas não vai ser por muito tempo, ele vai embora da cidade.
Jurema, ao ouvir aquilo, olhou para Cida, que ficou branca como papel.
Em seguida perguntou:
- Como vai embora da cidade?
Ele esteve aqui ontem e não disse nada!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:54 pm

-Mas ele já sabe.
O Prefeito contou para o Dorival que o doutor veio só por um tempo, até ele arrumar um outro médico.
O Prefeito arrumou um médico recém-formado.
Ele vai chegar por esses dias.
-Um recém-formado?
Acha que ele vai dar conta do trabalho?
- Eu não sei, mas com o salário que a Prefeitura pode pagar, só mesmo um recém-formado.
O doutor Campelo vai para São Paulo montar o seu consultório.
-A senhora tem certeza disso que está dizendo?
- Claro que tenho, Jurema, já faz dias que o Dorival me contou.
Mas por que está estranhando?
-Por nada, tia, só que gosto do doutor...
Cida, a cada palavra que ouvia, mais nervosa ficava.
Começou a tremer tanto que não estava conseguindo vestir o menino.
Jurema percebeu e perguntou:
-Tia, dá para a senhora terminar de vestir o menino e depois trazê-lo aqui para eu amamentar?
A Cida está nervosa.
-Nervosa por quê?
-Ontem aconteceu muita coisa.
Foi difícil para ela, depois eu conto tudo.
Também nessa noite, a gente quase não conseguiu dormir.
Cida, deixe o menino com a tia e vá à cozinha tomar um chá de cidreira.
Acho que está precisando...
Sem nada dizer, Cida saiu, pois, nunca, precisou tanto ficar sozinha.
Mas ao invés de ir para a cozinha, saiu correndo e, chorando, saiu da casa.
Correu até se cansar e ajoelhou-se.
Desesperada, pensou: ele me enganou!
Sabia que ia embora e, mesmo assim, jurou que me amava!
Eu, boba, acreditei!
Por que ele fez isso?
Nem sei por que estou perguntando!
Ele viu que eu era uma pessoa sem memória e por isso me apegaria ao primeiro que me tratasse com carinho!
E foi o que aconteceu!
Como pude acreditar nele?
Eu estava tão feliz!
Embora com medo de me lembrar do meu passado e descobrir que já era casada, sentia que o amava e que ele me amava também!
Nunca mais vou olhar para a cara dele! Nunca mais!
Ele não podia ter feito isso!
Ele é um médico!
Não posso fazer nada em relação à minha vida!
Não tenho para onde ir!
Meu Deus! Por que eu não consigo lembrar?
Que mal eu fiz para sofrer tanto?
Neco, que estava na cozinha, não sabia o que havia acontecido no quarto, mas percebeu quando ela saiu correndo.
Foi até a porta de entrada e viu que ela estava ajoelhada e com as mãos sobre o rosto.
Percebeu que ela chorava.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:54 pm

Saiu da casa e caminhou em sua direcção.
Ao chegar perto, colocou a mão em seu ombro, dizendo:
-Cida, o que aconteceu?
Por que está chorando desse jeito?
Alguém disse alguma coisa que a ofendeu?
Ela levantou a cabeça e, com lágrimas, respondeu:
-Não foi isso, Neco!
Foi ele! Foi ele!
-Ele quem? O doutor?
-Ele mesmo, me enganou! Mentiu!
-Enganou como?
Sei que ele gosta muito de você.
-Sabe como? Ele lhe disse?
-Não, mas vejo como ele olha para você!
Só um homem que gosta muito, olha para uma mulher daquele jeito.
-Também acreditei nisso, mas ele mentiu!
-Mentiu, como?
Quem lhe disse que ele mentiu?
-A tia Laurinda disse que ele está indo embora da cidade.
-Ela disse?
E ele, disse isso também?
-Não, ele não disse e esse é o problema!
Ele sabe que vai embora e ontem mesmo disse que me amava e que ficaria comigo até eu me lembrar de quem era!
-Então, se ele não disse nada é porque não vai embora.
-Mas a tia disse!
-A tia disse o que ouviu dizer!
Foi ele quem disse para ela?
-Não, foi o tio Dorival...
-Está vendo?
Ela ouviu dizer. Só isso.
Toda mulher tem um defeito muito grande, gosta de fazer drama de tudo.
Com o homem é diferente, para ele é sim ou não.
Acho que você precisa parar de chorar, conversar com o doutor e depois ver o que vai fazer.
Não gaste suas lágrimas à toa.
Cida estranhou a maneira como ele falava.
Já estava com eles há muito tempo e Neco sempre foi calado e reservado.
Quem falava muito era Jurema, mas ele se limitava apenas a responder e dificilmente dava uma opinião.
Estranhando a postura dele, perguntou:
-Acha mesmo isso, Neco?
-Claro que acho.
Sou homem e sei como a mulher pensa.
Enxugue o rosto e venha tomar café.
Ajudou-a a se levantar e acompanhou-a.
Ela não estava acreditando muito naquilo que ele havia dito, mas, desejava ardentemente que fosse a verdade.
Quando voltaram para o quarto, Laurinda havia terminado de trocar o menino e ele mamava ferozmente.
Neco e Cida ficaram parados na porta.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:55 pm

Jurema contou para a tia tudo o que havia passado no dia anterior e na lembrança que Cida teve e como a ajudou.
Laurinda ficou admirada.
-Foi mesmo, Jurema?
Ela se lembrou de mais alguma coisa?
-Foi, tia, só que não se lembrou de mais nada não e por isso está nervosa.
-Coitadinha, deve ser muito ruim estar na situação dela.
-O padre e o doutor disseram que ela vai se lembrar e que é só uma questão de tempo.
- É...parece que esse dia está perto.
Tomara que seja logo... ela é uma boa moça.
-É, sim, tia e eu gosto muito dela.
-Já deu para perceber.
Você voltou, novamente, até a bordar e a fazer renda...
-No começo, fiz isso por ela, mas foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida.
Ela chegou em boa hora.
- Vou lhe confessar que, algumas vezes, cheguei até a ficar com ciúmes.
O Dorival até brigou comigo.
Jurema começou a rir.
-Ciúmes, tia?
Não pode ser, pois desde que a minha mãe morreu e eu me casei com o Neco, a senhora foi, é, e vai ser a minha melhor amiga e eu gosto muito da senhora.
-Foi isso que o Dorival me disse!
Sou mesmo uma boba, mas depois que os meus filhos foram embora, sabe o quanto me apeguei a vocês!
-Sei disso, tia, e agradeço muito.
Jurema estava entretida falando com a tia e não percebeu Cida e Neco parados na porta do quarto.
Olhou, e os viu lá.
Ao ver os olhos de Cida, vermelhos, perguntou:
-Cida, está tudo bem com você?
- Está, sim, o Neco conversou comigo e agora estou bem.
Vou preparar o almoço.
Jurema não disse nada, apenas olhou para o Neco e sorriu.
Depois olhou para Laurinda, dizendo:
-Viu, tia?
Estou bem, ela cuida muito bem de mim e do menino também.
O Neco está aqui e por um bom tempo não vai se afastar, não é mesmo, Neco?
- É sim, Jurema.
Agora vou para a plantação, se precisar, é só chamar.
Tchau, tia.
-Tchau, Neco.
Falando em almoço, preciso ir.
Levantei cedo e vim logo para cá.
Já que está tudo bem e você não quer ir lá para casa, vou indo, mas qualquer coisa que acontecer, é só mandar me chamar que venho em seguida.
-Está bem, tia, mas preciso que a senhora avise o tio Dorival que o trabalho vai atrasar um pouco, porque, por um bom tempo, só a Cida vai trabalhar.
-Vou avisar, mas sei que ele já sabe disso.
O importante, agora, é que você fique bem e o nosso menino também.
Deu um beijo no rosto de Jurema, passou a mão na cabeça do menino e saiu.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:55 pm

Despediu-se de Cida, saiu da casa, onde Chico a esperava junto ao Jipe.
Assim que Jurema ouviu o barulho do carro se afastando, chamou Cida que estava na cozinha.
Ao ouvi-la, correu em direcção ao quarto.
Assim que chegou, parou na porta, Jurema perguntou:
-Você ficou triste com aquilo que a tia contou, não foi?
- Fiquei, pois nunca imaginei que ele estivesse mentindo ou brincando.
Acreditei mesmo quando ele disse que me amava...
- Antes de qualquer coisa, você precisa falar com ele.
Só aí, vai poder ver se ele estava mentindo mesmo.
-Foi o que o Neco disse...
-O Neco disse isso?
- Disse, também estranhei, mas ele disse e por isso me acalmei.
Nem parecia ele.
Parecia ser outra pessoa...
- Deve de ter sido outra pessoa mesmo!
O Neco nunca fala nada!
Sempre quer saber de tudo, mas nunca fala nada, ele não quer que ninguém diga que ele é curioso, mas que é, isso ele é!
Jurema disse isso com ar de deboche no rosto.
Cida, rindo da expressão dela, disse:
-Não sei o que aconteceu, mas ele falou e eu fiquei calma.
Agora só me resta esperar e ver se o doutor vem até aqui.
Aliás, nos últimos tempos, o que tenho feito é só esperar.
Estou esperando o dia em que vou me recordar de tudo.
Nesse dia, se acontecer, serei a pessoa mais feliz deste mundo.
- Esse dia vai chegar e é isso mesmo que tem que fazer.
Só depois de falar com ele é que vai saber.
Não sei, não, também estou estranhando ele não ter te contado, tenho certeza de que ele gosta de você, a gente vê pelo jeito que ele olha para você.
Agora, coloque o menino no berço.
Vou descansar um pouco.
-Está bem.
Cida pegou o menino, beijou sua testa e colocou-o no berço.
Jurema sorriu e fechou os olhos.
Cida voltou para a cozinha.
Não sabia o que fazer, enquanto mexia nas panelas.
Ficou pensando:
será que ele me enganou?
Se fez isso, por que terá sido?
Não vejo motivo algum a não ser que estivesse querendo se divertir, mas o que ganharia com isso?
Ele falou com tanta sinceridade.
Meu Jesus, por que não consigo lembrar?
Que fiz nesta Terra para merecer isso?
Jesus! Preciso de um caminho para seguir e sinto que isso só poderá vir, de acordo com a Jurema, se for de Sua vontade.
Aquele dia terminou e durante os outros a rotina da casa mudou.
Agora, todas as atenções eram para o menino.
Dois dias depois, Jurema levantou-se e voltou ao barracão.
Tudo corria bem, ela e o menino estavam óptimos.
Só Cida sentia os dias se arrastando.
O doutor não voltou mais e ela temia ser verdade o que Laurinda dissera e ele até já houvesse ido embora da cidade.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:55 pm

Um dia antes de o menino completar uma semana, Neco disse:
-Jurema, amanhã, a gente tem de ir à cidade ver o doutor.
-Acho que não vai precisar, estou bem, e o menino também...
-Sei disso, mas ele disse para que eu levasse você e até marcou dia, a gente vai.
Jurema temia aquele dia, não por ela, mas sim por Cida, pois não sabia se o doutor já havia ido embora, mas vendo que Neco não ia aceitar que ela não fosse, disse:
-Está bem, a gente vai.
Cida, você vai também?
Cida, com os olhos apreensivos, olhou para ela.
Não sabia se queria ir, mas, ao mesmo tempo, precisava tirar aquela dúvida.
Respondeu:
-Vou sim, Jurema.
Preciso ir, só assim poderei ficar em paz.
-Está bem.
Neco, a gente vai e seja tudo o que Deus quiser.
No dia seguinte, antes de clarear, já estavam a caminho.
Assim que chegaram à rua principal da cidade, Neco parou a carroça em frente ao pronto-socorro.
Cida pegou o menino dos braços de Jurema, enquanto Neco a ajudava a descer.
Em seguida, Neco também ajudou Cida a descer.
Entraram no pronto-socorro.
Lá dentro, o Prefeito conversava com um rapaz vestido de branco e, ao vê-los, disse:
-Neco, como vai?
Fiquei sabendo do nascimento do seu filho!
-Ele nasceu, sim, Prefeito.
Está aqui.
O Prefeito olhou para o menino e, sorrindo, disse:
-É um meninão!
Este aqui é o doutor Laércio, ele é o novo médico da cidade.
Ao ouvir aquilo, Jurema e Neco olharam para Cida, que estava estática, quase sem cor.
Laércio, alheio a tudo, disse:
- Hoje é o meu primeiro dia aqui no pronto-socorro e esse lindo menino vai ser o meu primeiro paciente!
Vamos até o consultório?
Jurema, sem saber o que fazer diante daquela situação e vendo o estado de Cida, respondeu:
-Está bem, doutor. Cida, você vem com a gente?
Tremendo muito e com os olhos cheios de água, respondeu:
- Desculpe, Jurema, mas, enquanto você e o Rafael forem se consultar, prefiro ir até a igreja.
Preciso pensar...
-Tem certeza de que é isso o que quer?
-Tenho e não fique preocupada, estou bem, só preciso pensar...
-Está bem, assim que terminar aqui, vou até lá para encontrá-la.
Cida sorriu e saiu do pronto-socorro.
Já na rua, deixou que as lágrimas caíssem por seu rosto.
Andava em direcção à igreja e, agora, chorava copiosamente.
Não podia evitar os soluços.
Pensava:
porque ele fez isso comigo?
Eu acreditei nele!
Também, o que uma pessoa que não sabe quem é nem de onde veio tem para oferecer?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:56 pm

Ele deve estar muito feliz!
O que vou fazer?
Chegou à igreja, entrou.
Havia poucas pessoas ajoelhadas que rezavam.
Ela também ajoelhou-se, não sabia como rezar, apenas disse baixinho:
meu Jesus, a Jurema disse que o Senhor tem todo o poder, que veio à Terra só para ensinar o verdadeiro caminho, mas que caminho é esse?
Que caminho é o meu, se nem sei quem sou?
Por que permitiu que eu fosse enganada dessa maneira?
Por que está fazendo isso comigo?
Enquanto ela rezava, chorando, um vulto de mulher se aproximou, sentou-se ao seu lado, colocou o braço em seu ombro, encostou a cabeça em sua cabeça e, acariciando seus cabelos, disse:
-Minha irmã, fique calma... sei que tem muitas perguntas e, para você, parece que não há respostas, mas não é assim, tudo tem a hora certa.
Um dia, saberá por que tudo isso está acontecendo.
Sim, Jesus nasceu aqui na Terra somente para ensinar o caminho, mas também para que tivéssemos um tempo de aprendizado.
Fique calma, pois nunca eu, você nem ninguém estamos sós.
Sempre temos ao nosso lado amigos que nos querem muito bem e ajudam-nos em momentos difíceis como este pelo qual está passando.
Vim de longe para ficar ao seu lado e ficarei enquanto me for permitido.
Cida não ouviu o que ela disse, mas sentiu um bem-estar enorme.
Com as mãos, secou os olhos.
Não entendia, mas, de repente, sentiu que estava protegida.
Continuou ali por um bom tempo, sem rezar, falar nem pensar na sua vida.
Apenas ficou admirando a cruz que estava pendurada no altar.
Estava ali distraída por muito tempo.
Não percebeu que alguém se ajoelhou ao seu lado e que a estava observando.
De repente, ouvi uma voz:
-Posso saber por que não falou comigo lá no pronto-socorro?
Ela ouviu, mas não quis acreditar, pensou: é ele?
Não! Devo estar sonhando!
Ele não foi embora?!
Não me abandonou?!
A voz continuou:
- Não quer falar comigo?
Parece que está nervosa, o que aconteceu?
Ela voltou-se e, entre lágrimas, respondeu:
-Pensei que tivesse ido embora da cidade sem se despedir...
-Por que pensou isso?
- Chegou um novo médico para ficar em seu lugar... eu o conheci...
-Realmente, chegou um novo médico, mas não para ficar no meu lugar, vamos trabalhar juntos.
Eu não disse que havia descoberto a razão da minha vinda para esta cidade?
Não disse que isso só aconteceu para que eu pudesse conhecer você?
Acreditou mesmo que eu poderia ir embora sem dizer nada?
Ela continuava chorando, só que sorria também.
-Então, você não me abandonou?
-Claro que não!
Estou e vou ficar aqui, até o dia em que consigamos desvendar o seu passado e assim possa ir para onde eu for.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 17, 2017 7:56 pm

Já adiei os meus planos de carreira, além do mais, esta cidade ainda precisa de um médico.
O doutor Laércio é um bom médico, mas ainda é jovem, precisa aprender muito.
Estarei aqui para lhe dar toda a assistência de que precisar.
Antes de vir para cá, conversei com a Jurema e com Neco, eles me contaram tudo e estão preocupados com você.
Acho melhor irmos até eles.
Que acha?
-Senti tanto medo...
-Sei disso, você fez o que as pessoas do mundo inteiro normalmente fazem, sofreu por antecipação, imaginou tudo, menos que eu nunca a abandonaria.
Mas, agora, espero que confie no meu amor. Vamos?
Abraçados saíram da igreja.
Ela, por muito tempo, não sentia aquela sensação de felicidade.
Encontraram-se com Jurema e Neco que estavam do lado de fora do pronto-socorro e que ao vê-los chegando abraçados, respiraram, aliviados.
Quando chegou junto deles, Campelo disse:
-Vocês pretendem voltar para o sítio agora?
Jurema respondeu:
-Não, a gente vai até a casa da tia, ela vai querer ver o Rafael.
- Preciso voltar para o pronto-socorro, mas, na hora do almoço, irei até lá.
-Vá, sim, doutor, a tia vai ficar feliz se o senhor almoçar lá com a gente.
Ele sorriu, passou a mão com carinho no rosto de Cida e entrou no pronto-socorro...
Foram para a casa de Laurinda que, como sempre, ficou feliz por vê-los.
Sorrindo, junto a eles, também vinha o vulto da mulher que estivera na igreja.
Ela estava acompanhada por um outro vulto de mulher que disse:
- Irene, parece que agora ela está bem.
Ela não ouviu você, mas sentiu a sua presença.
-Sim, mal sabe que estou ao seu lado, há muito tempo e que ficarei até quando tudo seja esclarecido e ela entenda que Jesus existe sim e que está sempre dando toda a assistência de que precisamos.
Mas, agora, está na hora de irmos embora.
Por enquanto está tudo bem.
Realmente estava tudo bem.
Eles passaram o resto do dia na cidade.
Almoçaram na casa de Laurinda.
O doutor Laércio constatou que Jurema e o pequeno Rafael estavam muito bem.
Cida e o doutor conversaram muito.
Estavam felizes.
Já estava quase anoitecendo quando voltaram para o sítio.
Naquela noite, após vários dias, ela conseguiu dormir tranquila.
Com a chegada do doutor Laércio, Campelo teria mais tempo para visitá-la, podendo assim ficar mais ao seu lado.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 7:28 pm

A Festa de São José
Rafael, para a felicidade de todos, crescia saudável.
A festa de São José estava chegando novamente.
A cidade, como em todos os anos, estava em alvoroço, preparando-se para ela.
Naquele ano em especial, o povo só tinha que agradecer, pois houve muita chuva, o que fez com que todos tivessem tido boa colheita.
Como não podia deixar de ser, Jurema preparou a roupa de todos para que pudessem apresentar-se bem.
Preparou, em especial, uma roupa para Rafael.
No domingo em que a festa seria realizada, acordaram cedo.
Antes das dez horas da manhã, já estavam na cidade.
Encontraram-se com Laurinda e Dorival e almoçariam por lá mesmo.
Comeriam iguarias que moradoras da cidade haviam preparado.
Precisavam e queriam fazer isso, pois o dinheiro arrecadado seria todo doado para a igreja.
Cida estava feliz, pois, desde aquele dia na igreja, em que pensou que o doutor a havia abandonado, resolveu que não ficaria mais ansiosa por se lembrar do passado.
Resolveu confiar no que o padre e ele disseram:
a qualquer momento, suas lembranças voltariam.
Confiou no amor do doutor, que, como lhe prometera, continuou na cidade trabalhando, ajudando e dando assistência ao doutor Laércio.
Um dia antes da festa, ele disse para Laércio:
-Amanhã, haverá muitas pessoas aqui na cidade e nós dois queremos participar da festa.
Vamos fazer assim:
eu fico aqui até as três da tarde e depois você fica até as oito da noite.
Laércio concordou e, no dia seguinte, fizeram como o combinado.
Cida sabia que seria assim, por isso almoçou ao lado de todos, mas estava ansiosa pois às três horas poderia ficar ao lado dele.
Depois de almoçarem em uma das barracas, foram para a casa da Laurinda, porque Rafael precisava dormir.
Cida os acompanhou.
Jurema foi para o quarto com Rafael.
Cida ficou na janela da sala olhando as pessoas passarem de um lado para o outro da rua.
A todo instante, olhava para o relógio.
Quando faltavam vinte minutos para as três horas, Jurema voltou do quarto, dizendo:
- Cida, já está quase na hora de o doutor sair do pronto-socorro, vou trocar o Rafael e a gente pode ir encontrá-lo, e também ao Neco que ficou passeando com o tio.
- Está bem, Jurema, também vou me preparar, quero ficar bem bonita.
Você sabe como o dia de hoje vai ser importante na minha vida.
Jurema sorriu:
-Sei, sim, claro que sei!
Jurema voltou ao quarto, Cida acompanhou-a.
Diante de um espelho, ajeitou os cabelos, deu um beliscão no rosto para que ficasse vermelho.
Estava feliz.
Embora ainda não houvesse se lembrado do seu passado, sentia que Campelo era o amor de sua vida e tinha quase certeza de que nunca antes existira outro.
Olhou seu rosto, gostava de se admirar, pois sabia que era uma bela mulher, e sorriu ao lembrar-se do que Campelo, no sítio, lhe dissera alguns dias atrás:
- Cida, não podemos continuar assim, não quero estar com você só por alguns dias na semana.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 7:28 pm

Quero estar todos os dias, quero que fique em casa quando eu sair para o trabalho e saber que estará lá quando eu voltar.
Quero me casar com você.
Ao ouvir aquilo, ela olhou fixo em seus olhos, dizendo:
-Não podemos fazer isso, não sei quem sou, nem se já tive um marido, nem sei o meu nome!
Como poderemos nos casar?
- Sei que é impossível nos casarmos, sei que, a qualquer momento, poderá lembrar, como, também sei, que talvez nunca mais lembre.
Por isso, precisamos decidir a nossa vida.
-Mas... e se... descobrir que já tenho um marido?
- Se isso acontecer, decidiremos o que fazer, mas, até lá, viveremos juntos e seremos felizes.
Ela ficou sem saber o que dizer, assim como ele, também queria ficar ao seu lado.
Queria ter uma vida de marido e mulher, mas o medo de se arrepender fez com que dissesse:
- Também quero ficar com você, mas é uma decisão difícil de tomar.
Preciso de alguns dias.
- Tenha todos os dias de que precisar, mas, por favor, não demore muito.
Ele foi embora, seu coração estava feliz, mas sua cabeça estava inquieta, como decidir aquilo?
Conversou com Jurema, contou tudo o que ele havia dito.
Após ouvi-la, ela disse:
-Olha, Cida, eu e o Neco, nos casamos no cartório e na igreja também.
A gente já se conhecia fazia muito tempo, mas se não tivesse sido assim, a gente ia ficar junto do mesmo jeito, porque a gente se gostava muito.
Acho que o doutor tem razão e se você nunca mais lembrar?
Vai ficar sozinha para o resto da vida?
Não pode, não!
Acho que você devia ir morar com ele e, se um dia se lembrar e descobrir que já tem outro marido, a í sim vai ter que escolher com quem quer ficar.
Até lá, seja feliz do lado do doutor, vocês se gostam de verdade, não é mesmo?
Cida ficou pensando.
Ela estava com a razão, não poderia deixar de viver.
Resolveu:
-Jurema, você tem razão, no dia da festa, vou dizer que resolvi ir morar com ele, e seja tudo o que Deus quiser.
-Isso mesmo, Cida!
Assim é que tem de ser.
Ela se afastou, foi olhar Rafael.
Cida ficou pensando:
hoje, assim que encontrá-lo, vou lhe dizer a minha decisão, sei que ficará feliz.
-Cida, estamos prontos, olha como o Rafael está bonito!
Ao ouvir a voz de Jurema, Cida voltou de seus pensamentos, olhou para ela e para Rafael.
Não pôde deixar de dizer:
-Ele está lindo!
Vem, neném, com a tia.
-Pegue-o e vamos embora, o doutor já deve estar saindo do pronto-socorro.
Daqui a uma hora vai começar a procissão!
Com Rafael no colo, Cida acompanhou Jurema.
Caminhavam em direcção ao pronto-socorro que ficava no começo da rua, ao contrário da igreja, que estava no fim.
Iam andando, quando se depararam com dona Betina, que ao vê-las, disse, sorrindo:
-Dona Jurema, que bom ver a senhora!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 7:28 pm

Esse é o seu menino?
Está muito bonito!
Cida e Jurema, ao vê-la, lembraram-se daquele dia em que foram até a sua casa para que ela ajudasse Jurema a não ter aquela criança.
Jurema, ao ver dona Betina, sentiu um aperto no coração, respondeu:
-É ele sim, dona Betina, e só está aqui graças à senhora.
Preciso lhe agradecer muito.
Mas como sabe que ele é um menino?
-Qual nada, minha filha, não precisa agradecer.
Ele está aqui pela vontade de Deus.
Dona Laurinda contou-me que ele havia nascido.
Você me parece muito feliz.
-Estou, sim, este menino é a minha vida!
A gente só tem uma dúvida.
Quando a gente foi na sua casa, a senhora disse que era a minha Dalvinha que estava voltando, mas nasceu um menino, então não foi ela quem voltou?
Dona Betina começou a rir.
- Eu não disse que era ela que estava voltando, eu disse que os espíritos pedem para voltar e que poderia ser ela.
Mas também vai que ela decidiu vir no corpo de um menino!
A gente nunca sabe!
Mas parece que isso, agora, não tem muita importância, não é mesmo?
A senhora está contente com o seu menino, não está?
-Estou sim. Graças a Deus!
Desculpe se ainda não voltei lá na sua casa para levá-lo, ainda não deu tempo.
Mas vou levar!
-Qual nada.
Não precisar pedir desculpa, nem o levar, não.
Eu só queria ver a carinha dele, já vi e é bonito mesmo!
Olhou para Cida e perguntou:
-E você, moça, como está?
Ela não queria ficar triste naquele momento.
Sorrindo, respondeu:
-Estou muito bem, dona Betina.
Resolvi recomeçar a minha vida e deixar o passado para trás.
-Faz bem, minha filha.
A vida não pára nunca e tudo o que acontece é sempre a vontade de Deus.
-Também estou pensando assim.
Mas, vamos indo?
Já está quase na hora da procissão.
- Vamos, sim, mas antes eu preciso encontrar o Neco.
Ele deve estar com o tio lá na loja.
O tio deu muitas prendas para o padre.
- Eu também vou indo.
Moça, tenha fé, no final dá tudo certo!
Até mais.
-Até mais, dona Betina.
Dona Betina continuou andando.
Cida e Jurema caminharam em direcção ao pronto-socorro.
A rua estava repleta de pessoas.
No rosto de cada uma, podia-se ver a felicidade que sentiam.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 7:28 pm

Jovens casais passavam abraçados, outros cantavam acompanhando a música que saía de alto-falantes presos nos vários postes de luz que existiam na rua.
Cida também estava naquele clima, lembrou-se do ano anterior e da última festa a que compareceu e que foi sua primeira.
Lembrou-se de como chegou naquele dia e na esperança que sentia de encontrar alguém que a conhecesse, o que não aconteceu, mas aquilo não a incomodava mais.
Encontrou o amor da sua vida e ele, só ele, lhe bastava.
Jurema cumprimentava uma ou outra pessoa.
Cida caminhava, mantendo os olhos na direcção do pronto-socorro.
Queria estar ao lado de Campelo o mais rápido possível, precisava contar-lhe o que tinha decidido.
Ao vê-lo aparecer no meio da multidão e ao perceber que ele também vinha em sua direcção, abanou os braços, sorrindo, feliz.
Ele, ao vê-la, também fez o mesmo e caminhou rápido.
Cida estava quase chegando perto dele, quando um homem que vinha bem à sua frente, acompanhado por uma mulher, ao ver Cida, gritou:
- Ester! É você mesma?
Não pode ser!
Faz quase dois anos que você desapareceu!
O Ernesto tem procurado por você em todo lugar!
Colocou até um detective!
Estão todos desesperados!
O Inácio nem se fala, coitado.
Ao ouvir aquilo, Cida arregalou os olhos.
Por trás dos ombros do homem, viu Campelo que, ao ouvir aquilo, também havia parado.
O homem, sem se dar conta do que estava acontecendo, continuou:
- Ester! Por que desapareceu?
Sua família toda está desesperada a sua procura!
Ela, que estava com Rafael no colo, começou a tremer.
Jurema, percebendo o seu nervosismo, disse:
- Cida, me dê o menino.
Você precisa conversar com esse homem...
Ela entregou o menino e, assustada, perguntou:
- O que está acontecendo?
Não conheço esse homem nem as pessoas de quem ele está falando!
-Como não me conhece, Ester?
Sou o Messias!
Trabalho para a sua família há quase vinte anos!
Fui motorista do seu pai até ele morrer, depois continuei sendo seu motorista e do seu irmão!
Após passar o susto, Campelo deu um passo à frente e abraçou Cida.
- O senhor tem certeza do que está dizendo?
Tem certeza que a conhece?
-Claro que sim!
Quando fui trabalhar para a família, ela era ainda uma menina de oito ou nove anos!
Eu a vi crescer!
Não é ela, Jandira?
Uma senhora que o estava acompanhando, surpresa e assustada, respondeu:
-Não estou acreditando, mas é a Ester, sim!
Ele, entusiasmado, continuou:
- Você é médica, assim como o seu irmão e são donos de um hospital em São Paulo.
Esse hospital foi construído por seu pai e pelo pai do Inácio!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 18, 2017 7:29 pm

Cida, não entendendo ou não querendo entender, disse:
-Eu não os conheço!
Campelo, também confuso, disse:
- Fique calma.
Acredito que teremos muito para conversar e que chegou à hora de conhecermos o seu passado.
Senhor, o melhor que temos a fazer é irmos para minha casa.
Lá conversaremos.
-Enquanto vocês vão para lá, eu vou procurar o Neco.
Ele precisa saber o que está acontecendo. - confusa, Jurema falou.
Campelo olhou bem nos olhos de Cida, depois para Jurema.
- Bem pensado, Jurema, quanto a você, Cida, fique calma.
O senhor quer, por favor, nos acompanhar?
Creio que logo tudo ficará esclarecido.
- Vou, sim, claro que vou.
O doutor Ernesto não vai acreditar quando eu contar que ela estava aqui, logo aqui, nessa cidade onde eu nasci.
Ele procurou tanto!
-Sendo assim, é melhor irmos, moro logo ali.
Todos acompanharam Campelo.
Jurema saiu rápido em busca de Neco.
Ele estava sentado em uma mesa perto de uma das barracas onde era servida carne seca com farinha, conversando e tomando uma cerveja.
-Neco, tio, não vão acreditar no que aconteceu!
Olharam, espantados, para ela.
Neco levantou-se, assustado, pois percebeu que Jurema estava muito nervosa.
-Jurema, o que aconteceu?
Ela, em poucas palavras, contou.
Neco olhou para o tio.
-Tio, o que o senhor está achando?
- Acho que o mistério vai terminar.
Jurema, você disse que eles foram para a casa do doutor?
- Isso mesmo, tio.
Neco, acho que a gente precisa ir lá também, não é mesmo?
- Não sei, não.
Acho que isso não é da nossa conta.
Quando ela descobrir quem é, vai embora e nunca mais vai se lembrar da gente.
-Quem falou isso, Neco?
Você a achou.
A gente cuidou dela e ela até ajudou o Rafael a nascer.
Não vai esquecer a gente, não!
-Você não disse que o homem é o motorista da casa dela, Jurema?
-Disse...
-Então ela deve ser de família rica!
Acha que vai se importar com a gente?
-Não sei, Neco, mas acho que a gente tem que ir para lá e ver se o que o homem disse é verdade.
Também para mim, não é novidade, desde que ela chegou, eu sempre disse que ela era gente rica.
-Está bem, a gente vai.
Tio, o senhor quer ir?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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