Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Página 10 de 12 Anterior  1, 2, 3 ... 9, 10, 11, 12  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:10 pm

Raimundo não estava em casa, voltaria quase na hora do jantar.
Ajudei-a a finalizar a preparação da mesa, embora fosse só eu a convidada.
Fingimos que viriam muitas pessoas.
A mesa ficou linda.
Isaura estava feliz como nunca eu havia visto.
Ela, desconhecendo o que estava passando por minha cabeça, disse:
- Ester! Antes que Raimundo chegue, venha ver as coisas lindas que comprei!
Sou a mulher mais feliz do mundo e Raimundo é maravilhoso!
-Aquelas palavras caíam como facas em meu peito.
Eu chegava até a sentir dor, mas, mesmo assim, consegui sorrir.
Isaura, que ouvia em silêncio, limpou uma lágrima que corria por seu rosto.
Ela também estava lembrando-se daquele dia.
Permaneceu calada, embora em seu coração o ódio que já sentia por Ester aumentou mais ainda, ao se recordar com detalhes daquela noite.
Raimundo permanecia com o rosto crispado de ódio, mas sabendo que precisaria manter o acordo, também ficou calado.
Ester, com a voz entrecortada por soluços, continuou:
-Ele chegou, fiz um esforço enorme para cumprimentá-lo.
O jantar foi servido.
Após o jantar, passamos para uma outra sala, onde ficavam café e licor.
Assim que entramos na sala, Isaura disse:
-Esqueci-me de dizer para a copeira servir um licor especial que fiz para esta noite, vou até lá para lembrá-la.
- Dizendo isso, levantou-se e saiu da sala.
Fiquei ali sozinha com Raimundo.
Não conseguia levantar os olhos, muito menos olhar para ele.
Ficamos em silêncio por alguns minutos.
Depois, ele disse:
-Ester, por que está tão abatida.
Parece nervosa?
-Não soube ou não podia responder.
Ele continuou:
- Preciso falar com você, mas não pode ser aqui.
Vamos marcar um lugar para nos encontrarmos?
- Fiquei surpresa, mas uma onda de esperança nasceu em meu coração. Aceitei.
Ele me deu o endereço de um hotel barato que ficava em um bairro distante do centro.
Embora meus pais fossem severos, eu tinha toda liberdade de ir e vir.
Por isso, eu sabia que não haveria problema algum para encontrar-me com ele.
Rapidamente, marquei o endereço em um papel que tinha em minha bolsa.
Em seguida, Isaura chegou.
Raimundo tomou o café, eu e Isaura, o licor, e fui embora com o coração cheio de esperança.
Isaura, ao ouvir aquilo, levantou-se, chorando e gritando:
- Raimundo!
Isso que ela está dizendo é verdade?
Naquela noite, você fez mesmo isso?
Ele ia mentir, mas Vicente o interrompeu e, com voz tranquila, mas firme, disse:
-Raimundo, estamos aqui decidindo o cumprimento da Lei.
Uma exigência feita por você!
Por isso, não adianta querer mentir ou adiar esta hora.
Não poderá fazer isso!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:10 pm

Raimundo sabia que ele estava certo e que não poderia mentir; não disse nada, apenas abaixou a cabeça, confirmando assim tudo o que Ester estava dizendo.
Ela continuou:
-No dia, hora e local marcados, burlei a vigilância do meu cocheiro dizendo que ia ficar na casa de uma amiga e que voltasse dali a três horas, quando eu já deveria ter terminado a visita.
Assim que ele foi embora, peguei uma carruagem de aluguel e fui ao encontro de Raimundo.
Eu estava ansiosa para saber o que ele queria dizer.
Não sabia do que se tratava, mas tinha uma esperança imensa.
Quando cheguei, ele já estava lá.
Menti para o porteiro do hotel, dando um nome fictício.
Assim que entrei no quarto, ele me disse:
- Ester, já há muito tempo percebi o seu interesse por minha pessoa, senti o mesmo por você, mas, como sabe, minha família está arruinada, encontrei na Isaura a minha salvação e, sabendo que ela estava interessada, arrisquei e deu certo.
Estou casado com ela, poderei assim continuar meus estudos, mas a quem amo verdadeiramente é você.
Quis ter esse encontro para lhe dizer isso.
Amo-a e quero ficar com você para o resto da minha vida!
-Aquelas eram as palavras que eu mais ansiava ouvir, mas, naquele momento, senti medo.
Disse:
- Está certo, eu sempre o amei, mas acredito que agora é tarde!
Não poderemos nunca mais ficar juntos!
Você é agora um homem casado!
-Já pensei muito!
Isso não é um defeito!
É apenas uma situação de momento que a qualquer hora poderá ser solucionada!
- Como? Mesmo que você se separe dela, não poderá ficar ao meu lado, pois perderá toda a herança a que porventura teria direito!
Não podemos fazer nada!
O nosso amor é impossível!
-Ele abriu os braços e eu o abracei também.
Beijando meus olhos, rosto, cabelos e lábios, disse:
- Se eu me separar, realmente não conseguiremos nada, mas se ela morrer, nada impedirá a nossa felicidade!
- Como morrer?!
Ela é jovem, não tem doença alguma?!
-Sei uma maneira de fazer isso, sem que ninguém desconfie...
- Fiquei atordoada, jamais havia pensado nessa possibilidade.
Nervosa, perguntei:
- Que maneira?
-Se você for visitá-la três ou quatro vezes por semana e colocar no Leite ou suco que ela for tomar a quantidade certa de um veneno que vou lhe dar, ela irá ficando fraca, mas ninguém saberá o porquê e, em pouco tempo, morrerá.
Tem de ser você, pois se alguém descobrir que ela foi assassinada, não desconfiará de você nem de mim, pois, como sabe, quando voltei da França, por ser o último ano, só consegui vaga para continuar os meus estudos em outro estado e só volto para casa uma vez por mês.
-Estremeci horrorizada e, chorando, gritei:
-Não posso fazer isso!
Será um assassinato!
Não existe crime perfeito!
Alguém descobrirá!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:11 pm

Além do mais, ela é minha amiga e não quero a sua morte!
-Ele me abraçou, dizendo:
- Se fizermos da maneira que estou dizendo, ninguém descobrirá.
Sei que não quer a morte dela, também não quero, mas essa é a única solução para podermos ficar juntos.
Você tem de ficar do meu lado.
Quando acontecer, serei avisado, voltarei e, assim que tudo estiver consumado, voltarei para a faculdade por alguns meses e, quando o tempo passar, nos casaremos.
Direi às pessoas próximas que só descobri que a amava agora.
Todos ficarão felizes e não suspeitarão de nada.
Confie em mim, tudo dará certo!
- Terminou de dizer isso e beijou-me ardentemente.
Embora eu soubesse que tudo aquilo estava errado, o amor que sentia por ele era enorme, aceitei.
Fizemos como ele disse.
Alguns dias da semana, eu ia visitar a Isaura e colocava em seu suco ou leite o veneno que ele havia dado.
Em poucos meses, ela morreu e ninguém descobriu.
Ester teve que parar de falar, sua voz ficou entrecortada por soluços profundos.
Chorava sem parar.
Isaura, ao ouvir aquilo, levantou-se e, furiosa, agarrou Raimundo pelos braços, gritando:
- Raimundo! Levante a cabeça!
Olhe nos meus olhos e diga, por favor, que isso que ela está dizendo é mentira!
Ele continuou de cabeça baixa, sem coragem de encará-la.
Vendo que aquele silêncio significava uma confissão, ela, chorando, disse para Vicente:
- Eu não sabia disso!
Quando comecei a ficar doente, nunca imaginei que estivesse sendo envenenada.
Ele escrevia sempre.
Eu para não preocupá-lo, nunca contei a minha situação.
Sempre que ele voltava para casa, eu pintava os lábios e tentava esconder o que estava acontecendo.
Em uma das vezes que veio, disse que, antes do fim do ano, não poderia vir mais, pois precisava estudar o tempo todo.
Pediu que eu não ficasse brava, pois assim que se formasse, nunca mais iríamos nos separar.
Eu aceitei e fiquei feliz, pois não precisaria mais mentir e teria tempo de descobrir que doença era aquela e tempo para ficar curada.
Mesmo com toda aquela fraqueza, descobri que estava grávida.
Eu estava feliz, pois tinha esperança que a vinda daquela criança seria a minha salvação.
Meus pais contrataram os melhores médicos, mas nenhum deles conseguiu diagnosticar a minha doença.
Secou as lágrimas que corriam por seu rosto e, furiosa, continuou:
-Esses dois não mataram só a mim!
Mataram o meu bebé também!
Eu fui enganada todo esse tempo e até agora depois de morta!
Vicente aproximou-se dela, abraçou-a, dizendo, carinhoso:
-Sei que o momento que está vivendo é triste.
Você, que sempre confiou cegamente em Raimundo, jamais poderia imaginar que ele havia sido o mentor da sua morte e da do seu bebé.
Mas, se não conhecia esta história, por que teve sempre tanto ódio só da Ester?
Por que ficou ao lado dela durante todo o tempo e culpando somente a ela?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:11 pm

-Quando acordei deste lado, estava revoltada com Deus e com tudo.
Não aceitava que ele tivesse me tirado da minha casa, do meu marido e que não tivesse permitido que o meu filho nascesse.
Queria voltar para junto do Raimundo e da Ester, as pessoas que eu mais amava e em que confiava.
Durante muito tempo, amigos disseram que não valia a pena, que eu precisava continuar o meu caminho e aperfeiçoamento e que o que havia ficado para trás devia ser esquecido.
Mas eu estava irredutível, queria estar ao lado deles.
Mesmo contrariados, deram-me a permissão e voltei acompanhada por dois irmãos.
Assim que cheguei a minha casa, não encontrei Raimundo.
Mais tarde, ele disse que estava viajando.
Dali fui para a casa da Ester.
Ela estava em seu quarto, deitada em sua cama.
Estava chorando e dizendo baixinho:
-Fui eu quem a matei!
Fui eu! Não matei só ela, mas a criança também!
A Isaura era como uma irmã!
Mas eu amava e ainda amo Raimundo!
- Ela chorava sem parar!
O remorso e a consciência pesada não lhe davam trégua.
Fiquei furiosa.
Novamente, os irmãos que me acompanhava tentaram acalmar-me, levaram-me de volta para casa, mas eu não aceitei, dizendo que eles não poderiam me obrigar e que eu iria ficar ali ao lado dela, atormentando-a, esperando a sua morte.
Depois, percebendo que eu não os acompanharia, desistira de tentar me levar embora.
Um deles disse:
-Se você não quiser ir, não podemos obrigá-la, só que ficará sozinha, não terá mais a nossa protecção e não poderá ficar ao lado da Ester nem do Raimundo.
Eles cometeram o crime, terão de pagar, precisamos deixar que a consciência deles faça isso.
Escolheram o caminho, não podemos interferir.
Eles ainda têm chance de, antes de desencarnarem, arrependerem-se e pedirem o seu perdão e o da criança que impediram de nascer.
Caberá a vocês dar ou não.
- Eu estava furiosa demais para ligar Raimundo ao crime.
Havia escutado Ester confessar, por isso, não entendi quando eles me disseram que Raimundo também era culpado.
Não poderia voltar para este lado e fazer de conta que nada houvesse acontecido.
Ficaria por ali, em minha casa, até que pudesse ver Raimundo novamente e tentar contar para ele tudo o que eu havia descoberto, pois, naquele momento, era só o que me interessava.
Algumas vezes tentei sair dali para ir encontrar Ester, mas não conseguia me lembrar do caminho da casa dela.
Sempre que saía, encontrava espíritos vagando que me ameaçavam.
Eu voltava depressa para a minha casa que estava vazia, pois Raimundo, antes de viajar, despediu os empregados.
Não sei quanto tempo passou.
Um dia, eu estava ali andando de um lado para outro, quando vi Raimundo chegando.
Percebi que ele não estava mais encarnado.
Fiquei surpresa, corri para ele, abracei-o, perguntando:
-Raimundo, como você está aqui?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:11 pm

- Ele também, ao me ver, se admirou e ficou com medo.
Tentou fugir, mas eu o segui, dizendo:
-Raimundo! Espere!
Por que está fugindo assim?
Sou eu, a Isaura!
-Ele, tremendo muito, demonstrando o medo que estava sentindo, disse:
- Você está morta!
Como pode estar aqui?
- Só aí compreendi que ele ainda não sabia que havia morrido.
Mantendo distância, disse:
-Meu amor, não fique assim, se está me vendo e conversando comigo, é porque você também morreu.
E eu estou feliz por isso!
Agora poderemos continuar juntos para sempre!
- Ele começou a se tocar para ver se o que eu estava dizendo era verdade, gritou:
- Você é um fantasma! Eu não morri!
Estava voltando para casa de trem!
Acabei de chegar!
-Eu não sabia o que havia acontecido com ele, só sabia que estava ali ao meu lado.
Foi isso que eu disse.
Um pouco mais calmo, ele, ainda inconformado, quis ir até a estação de trem para ver se havia acontecido algum desastre.
Eu disse:
-Não sei, mas acredito que não possamos sair daqui ou até podemos, só que lá fora existe muito perigo.
-Ele não acreditou, saiu, mas voltou depressa.
Ao retornar da rua, estava com muito medo, nervoso e incrédulo.
-Não posso estar morto!
Sinto o meu corpo, estou até com fome!
-Também senti isso, mas sei que estou morta e você não imagina quem foi que provocou a minha morte!
- Hoje, entendo o porquê de ele ter estremecido e arregalado os olhos quando me perguntou:
- Que está falando, Isaura?
Quem matou você?
- Contei-lhe tudo o que havia descoberto sobre Ester.
Quando terminei de falar, ele disse assombrado:
- Tem certeza disso que está dizendo?
Tem certeza que foi ela quem a matou?
- Tenho, ouvi de sua própria boca!
Ela está morrendo de remorso!
-Não pode ser, ela não faria uma coisa dessas!
Sempre foi sua amiga!
Porque faria isso?
-Foi ela, sim!
Ela mesma disse, ela amava você e queria ficar ao seu lado.
Por isso, planeou a minha morte!
- Deve estar louca, Isaura!
Nunca desconfiei disso!
Sempre a tratei como sua amiga, portanto, minha também!
Nunca fiz nada que a levasse pensar que eu sentia algo por ela!
Não posso acreditar!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:11 pm

-Por isso mesmo estou morrendo de ódio, quero que ela sofra todos os males da vida e da morte!
Estava esperando você chegar para ver se, juntos, poderemos fazer alguma coisa contra ela.
Ele, calado, me abraçou, beijou e ficamos assim por muito tempo.
Depois eu disse:
- Vamos tentar ir até a casa dela?
- A princípio ele não quis, depois, diante da minha insistência, concordou.
Saímos para a rua, mas nenhum dos dois conseguiu encontrar o caminho.
Alguns espíritos errantes aproximaram-se.
Raimundo não ficou com medo, começou a conversar com eles.
Por estarem há muito tempo vagando, estavam desesperados, sem saber o que fazer, procuravam suas casa, seus familiares, mas não encontravam.
Raimundo, por ter sempre conversado muito e bem, aos poucos foi tornando-se amigo de todos, que o passaram a respeitar.
Percebeu que, com sua inteligência, poderia fazer com que eles se tornassem seus escravos.
Foi isso que aconteceu.
Hoje, no mundo das trevas, ele pode se considerar um "Rei."
Nunca mais soube de Ester, até que, um dia, a vi perambulando pelo "Vale".
Fiquei feliz ao vê-la e joguei-me sobre ela com muita fúria, mas percebi logo que ela não estava me reconhecendo.
Perguntei o que havia acontecido, ela não soube responder.
Estava sem memória.
Raimundo aproximou-se, tirou-me do lado dela, dizendo:
- Vamos embora, Isaura!
Não fique perto dela!
Ela não a reconhece!
Deixe-a entregue aos seus pensamentos e a todo o horror que existe aqui!
É o que ela merece!
-Sem mais perguntas, fui embora com ele e nunca mais quis saber dela.
Sabia que ela estava pagando por todo mal que havia nos feito.
Continuei ao lado de Raimundo, até o dia em que a encontrei jogada lá na caatinga.
Embora estivesse com outro corpo, eu a reconheci.
Não sei por que foi permitido que eu ficasse ao seu lado.
Mesmo sabendo que novamente ela estava esquecida, permaneci ao seu lado, induzindo-a para se matar.
Raimundo nunca quis me acompanhar nessas investidas, mas também nunca me impediu.
Olhou para Raimundo com muito ódio.
Vicente perguntou para Ester:
-Ester! Por que você foi para o "Vale"?
Ester, ainda com medo, por estar ao lado de Isaura que, agora estava com ódio de Raimundo, respondeu:
-Assim que Isaura morreu, embora amargurada, não posso negar que fiquei feliz.
Como fora combinado, Raimundo partiu em viagem.
Quando voltasse daí a alguns meses, comunicaríamos às nossas famílias o desejo de nos casarmos.
Eu, embora com um pouco de arrependimento, esperava ansiosa a sua volta.
Até o dia em que a mãe de Isaura contou que ela, ao morrer, estava esperando um filho e que a criança havia morrido também.
Não suportei.
O remorso me acompanhou e quase enlouqueci.
Via a todo instante a imagem de Isaura chorando, com uma criança morta em seus braços e sempre me acusando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:11 pm

Eu tentava me esquivar dela.
A minha única esperança era o retorno de Raimundo.
Sabia que, ao lado dele, não teria medo de nada e que seríamos felizes.
Quando recebi a notícia de que ele estava voltando e que chegaria no trem, fui para a estação esperá-lo, acompanhada pelos pais da Isaura.
O trem atrasou, não sabíamos o porquê.
Depois de uma hora, o chefe da estação avisou que o trem havia sofrido um descarrilamento e que havia pessoas mortas e feridas.
Entramos em desespero.
O pai de Isaura nos deixou em casa, depois foi para o lugar do acidente.
Assim que chegou lá, constatou que Raimundo estava entre os mortos.
Quando eu soube da notícia, não resisti.
O medo e o remorso aumentaram muito mais, por saber que estava sozinha.
Em um momento de desespero, tomei um vidrinho cheio do mesmo remédio que Raimundo havia me dado e com o qual eu havia matado a Isaura.
Por ter tomado uma quantidade muito grande, tive morte instantânea.
Adormeci e quando acordei estava naquele lugar horrível, tive de fugir, me esconder, tentando tirar do meu pensamento a imagem de Isaura com a criança.
Aos poucos, fui esquecendo quem era.
Não sei por quanto tempo fiquei ali vagando sem destino, até que, um dia, uma moça cheia de luz se aproximou.
Fiquei com medo, tentei me esconder, mas ela não deixou e, carinhosamente, disse:
-Não precisa fugir, estou aqui para ajudá-la.
Você não sabe quem sou, não está me reconhecendo?
Olhe bem...
-Olhei, mas não a reconheci.
Vendo que isso acontecia, ela disse:
- Sou a Noémia, não está me reconhecendo?
Você não se recorda da nossa casa, de nossos pais?
- Vendo que eu não me recordava, ela me abraçou e, junto a outros que estavam com ela, fui levada para um hospital.
Fiquei lá muito tempo, até que um dia fui chamada e me disseram que estava na hora de eu renascer.
Eu não queria, ainda não havia me lembrado de tudo, além do mais, ali, eu estava protegida e longe daquele vale tenebroso.
Aos poucos, ajudaram-me a recordar de tudo.
Disseram que eu renasceria, seria médica e, assim, poderia ajudar a resgatar o meu passado.
Disseram que como médica obstetra, eu poderia ajudar muitas crianças a nascerem.
Disseram que, Noémia, minha irmã, que sempre me acompanhou e protegeu, também renasceria junto com seu esposo.
Eles tinham seus próprios resgates, por isso nasceriam pobres em uma cidade do Nordeste, que por isso, talvez nunca nos encontrássemos, mas se eu precisasse em uma hora de desespero, eles estariam ao meu lado para me ajudar.
Agora sei, que a Noémia é a Jurema e que o marido dela é o Neco.
Eles apareceram em minha vida, num momento de desespero.
Raimundo permanecia calado, de cabeça baixa.
Isaura olhou para ele e, com ódio na voz, disse:
- Raimundo, como pôde me enganar daquela maneira?
Por que permitiu que eu continuasse odiando somente Ester?
Ela não deixa de ter culpa, por ter aceitado e até ter-me dado o veneno.
Mas o principal responsável é você.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:12 pm

Se um dia o amei, hoje, o odeio!
Vicente a interrompeu:
-Isaura, agora não adianta ficar assim.
Nada fica escondido diante da Lei.
Raimundo errou, mas, sempre, Deus nos dá o direito do arrependimento e do resgate.
Ele não é responsável só por si mesmo, mas por você, pela criança que não nasceu e pela Ester, a quem induziu e, inclusive, para com aquele que fez e continua mantendo como seus escravos.
Não pense em vingança, deixe isso por conta de Deus e da Lei, só pense no próximo passo que poderá dar em busca do seu aperfeiçoamento.
Veja quanto tempo perdeu em busca de uma vingança.
-Tem razão, mas não me arrependo, Ester me fez sofrer muito.
O mínimo que merece é o meu ódio e isso ela terá para sempre!
Nunca a perdoarei!
-Nunca é muito tempo.
Por você ter sido uma vítima, poderia ter ido logo para um lugar maravilhoso.
Poderia ter renascido junto com Ester e poderiam ser irmãs.
Com a força do sangue, viveriam na mesma casa, teriam os mesmos pais.
Poderia haver algumas diferenças, para ajuste, mas, no final, quando envelhecessem, essas diferenças desapareceriam e vocês ficariam amigas novamente, com o passado esquecido, cheio de luz, vida e aprendizado.
Contudo preferiu a escuridão e a vida sofrida no vale.
Agora que já sabe tudo o que aconteceu, chegou a hora de usar a Lei a seu favor e escolher aquilo que julgar ser o melhor.
Pode, sim, se quiser, continuar odiando e vivendo no Vale da escuridão, como pode, também, escolher perdoar e voltar para a cidade de Luz.
Para isso, só precisa perdoar aos dois.
Lá terá a oportunidade de renascer novamente e percorrer o caminho que a impediu de fazê-lo.
Isaura ouviu Vicente com atenção, depois olhou para Ester e Raimundo.
Disse:
-Você tem razão, Vicente.
Não quero mais continuar ao lado deles.
Preciso recomeçar no bem.
Não vou mais sentir ódio, pois acabei de ver que a maior prejudicada fui eu mesma.
Entregarei o meu amor para Deus, nas mãos dele colocarei o meu futuro e que seja feito de acordo com a Sua vontade.
Com lágrimas nos olhos, olhou para Ester, dizendo:
-Ester, embora eu tivesse ficado ao seu lado todo esse tempo, não consegui lhe induzir a nada.
Tudo o que você fez de certo ou errado foi por sua escolha.
Neste momento, lhe perdoo pelo passado.
Não sei se teremos a oportunidade de nos encontrar novamente, aqui ou na Terra, mas onde for, se isso acontecer, farei o possível para ser sua amiga novamente.
Ester não soube o que responder, estava cheia de vergonha, amargura e remorso.
Isaura voltou-se para Raimundo.
-Raimundo, o mesmo digo a você.
Não sei se nos reencontraremos, mas se isso acontecer, da minha parte, sei que farei o possível para resgatar o meu amor por você.
Raimundo ficou calado.
Isaura, voltando-se para Vicente, perguntou:
-Vicente, quando poderei ir embora?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:12 pm

Vicente sorriu, abraçou-a dizendo:
- Bendito seja o nosso Deus, por nos dar sempre oportunidades como esta!
Bendita seja essa Lei, que nos dá a oportunidade de escolha!
Isaura, você poderá ir agora mesmo.
Tem um lugar maravilhoso a esperando.
Assim que ele terminou de falar, uma luz muito forte entrou no quarto em forma de um caminho.
Por ela, desceram espíritos de luz, que estenderam os braços para Isaura.
Ela os reconheceu.
Eram parentes e amigos que vieram buscá-la.
Estava começando a entrar na luz, quando se voltou, olhou primeiro para Raimundo que a acompanhava com os olhos sem sair do lugar onde estava, depois olhou para Vicente, perguntando:
-O que vai acontecer com Raimundo e com a Ester?
Ele, sorrindo agradecido, respondeu:
- Ester voltará para o corpo físico e decidirá o que fará daqui para frente.
Raimundo tem a oportunidade de usar a Lei a seu favor e escolher se quer voltar para o "Vale" ou seguir você.
De acordo com a Lei, só ele poderá decidir.
Ela olhou para Raimundo, não disse nada.
Ele olhou primeiro para ela, depois para Vicente, perguntando:
- Posso mesmo acompanhá-la?
Tenho mesmo esse direito, depois de tudo o que fiz?
Vicente, sempre tranquilo, respondeu:
-A Lei existe justamente para isso.
Deus é um Pai amoroso, perdoa sempre, dá uma nova oportunidade, não nos obriga a nada e deixa que decidamos a nossa vida, estando encarnados ou não.
Só você poderá decidir, neste momento, o que deseja para seu futuro.
Sabe que tem outra Lei, que deverá obedecer, a de causa e efeito, por ela terá de resgatar a todos que prejudicou, mas isso acontecerá com o tempo.
Raimundo, chorando, voltou seus olhos para Isaura.
- Isaura, neste momento, preciso que perdoe todo mal que fiz a você e ao nosso filho.
Sei muito bem que, se não tiver o seu perdão, terei que entender, mas estou arrependido de tudo que fiz.
Peço a Deus nosso Pai que me dê uma nova chance.
Prometo que farei o possível e o impossível para lhe recompensar de todo mal que lhe fiz.
Olhando para Ester, continuou falando:
- Ester, também sei que sou responsável por seu comportamento.
Sei que se não fosse por minha indução, jamais teria cometido um crime, preciso que me perdoe.
Antes de Ester responder, Vicente disse:
- O momento do perdão é o mais sublime e o que mais agrada a Deus, mas o facto de você a tê-la induzido, não a redime do crime praticado.
Ester sabia bem o que estava fazendo, pois desde criança, todos aprendem o que é certo e errado.
Você precisa e deve pedir o perdão a ela, mas, ela, também, precisa pedir perdão a Isaura, que foi a principal vítima.
Se você quiser, pode, sim, acompanhar Isaura.
Ela lhe perdoou, e isso é o mais importante.
Vocês têm toda a eternidade para se redimirem.
Ester, chorando, disse:
- Sei que também fui culpada, mas, neste momento, você está tendo a oportunidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:12 pm

Se quiser, vá, siga o seu caminho.
Que Deus o abençoe.
Raimundo voltou-se novamente para Isaura, que chorando, abriu os braços.
Ele foi até ela e juntos entraram na luz que os conduziria de volta para casa.
Assim que eles desapareceram, Vicente, emocionado, disse:
- Estou feliz por tudo ter terminado bem.
Esses dois, finalmente, encontraram o momento de reverem todo o passado e escolherem o melhor.
Deus, nosso Pai, mais uma vez mostrou como ama a todos nós sem distinção.
Nesta noite, tivemos ensinamentos valiosos.
Creio que seja necessária a presença da Irene aqui, por isso peço, meus irmãos, que elevemos o nosso pensamento até o alto, pedindo a Deus a oportunidade de ela voltar e poder ao nosso lado viver este momento.
Todos se admiraram com aquele estranho pedido, mas atendendo a vontade de Vicente, colocaram-se em oração.
Em poucos minutos, Irene apareceu no quarto.
Estava emocionada e feliz, pois não sabia o que havia acontecido desde a sua partida.
Embora tivesse sido bem recebida, trazia em seu coração a tristeza por não ter podido concluir o trabalho que haviam lhe conferido, por ter esquecido, nem que tenha sido só por um momento, o valor e o rigor da Lei e ter tentado exercer o poder, que é uma falha muito grave do espírito, encarnado ou não.
Ao vê-la, Vicente, sorrindo, disse:
-Venha, minha irmã, estamos comemorando o triunfo do bem e da verdade.
A nossa felicidade não seria completa, se você não estivesse presente.
Ela recebeu o abraço dele e dos demais.
Ainda envergonhada, disse:
- Também estou feliz, não podem imaginar o que senti, quando percebi que poderia ter colocado tudo a perder, pois, pelo simples desejo de ver meu trabalho concluído, não parei para medir meus actos e não reflecti sobre as consequências que poderiam ter.
Quero e preciso pedir perdão a vocês e agradecer o imenso trabalho que tiveram para que tudo terminasse bem.
Quero agradecer a Deus pelas novas chances que sempre nos dá e pedir que Ele nos abençoe...
-Irene, quis que viesse até aqui para lhe dizer que você não errou ao tentar obrigar Isaura a ficar aqui.
Você errou, quando aceitou a acusação do Raimundo.
Nesse momento você se culpou e se condenou, pois a única maneira que você tinha para trazê-lo até aqui era esta, fazer com que ele viesse em socorro da Isaura.
Por tudo o que aconteceu, ele, julgando estar com a razão e longe de qualquer suspeita, voltou novamente e teve de aceitar a verdade.
Portanto, minha irmã, seu único erro foi ter aceitado a acusação e ter se condenado.
Que isso nos sirva de lição para que possamos estar sempre alerta para não cairmos nos mesmos erros.
Não importa o grau de evolução em que estejamos, sempre estaremos sujeitos a outras situações como esta e a nossa auto-avaliação e, essa, é a mais perigosa.
Neste caso, o final terminou bem, mas poderia não ter terminado.
Agora, o nosso trabalho com Isaura e Raimundo terminou.
Só nos falta terminar com Ester.
Antes, faremos todos uma oração de agradecimento.
Todos, contritos, agradeceram a Deus a oportunidade de concluírem bem mais um trabalho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:12 pm

Fuga Inesperada
José acompanhou tudo o que se passou.
Com lágrima nos olhos, e agradecendo a Deus, viu Isaura e Raimundo indo embora na luz.
Vicente, enquanto falava, também olhava para ele e sorria:
-Obrigado, meu irmão, por estar aqui nesta noite.
A sua presença foi importante, assim como as demais.
Vocês, encarnados, nos deram a energia que precisávamos para podermos conversar com Raimundo, Isaura e a Ester.
Sei que a sua vida terrestre não é fácil, mas que, mesmo assim, você nunca perdeu a fé e continua ajudando a todos que o procuram.
Fique certo, meu irmão, que Deus está abençoando-o em todos os momentos.
José estava muito emocionado, tanto que não conseguiu dizer nada.
Daniel, que continuava ao lado de Ester, vendo José chorando, Ernesto, Emília e Duarte de olhos fechados, rezando, disse, nervoso e ansioso:
-Ernesto!
Estamos aqui há muito tempo, vamos ficar só rezando?
Precisamos ajudar Ester!
Esse sono dela não está me parecendo normal!
José voltou os olhos para ele e disse:
-Estivemos trabalhando todo esse tempo.
Agora, ela ficará bem.
-Como trabalhando?
Só estivemos aqui rezando!
José olhou para Vicente que lhe sorria e, também sorrindo, disse:
-Era só esse o nosso trabalho.
Em seguida, Vicente se voltou para Ester, dizendo:
-Agora chegou a sua hora, você também precisa enfrentar o seu passado e o presente para que possa ter um futuro feliz.
Não adianta mais ficar escondendo-se atrás do esquecimento.
Você só você, poderá decidir o que fazer com a sua vida.
Sei que o seu esquecimento não foi proposital, mas fruto do seu espírito que, covardemente, tentou se proteger no esquecimento, mas, agora, não poderá mais continuar assim.
A Isaura e o Raimundo seguiram o caminho deles, o mesmo precisa acontecer com você.
Por isso, é necessário que acorde e aos poucos se lembrará de tudo.
Aí, só aí, escolherá o que fazer e como agir.
Assim que acordar no corpo físico, somente se lembrará que teve um sonho, tudo estará confuso.
O que posso fazer é ajudá-la a se lembrar daquela noite em que desapareceu e foi encontrada por Neco.
Agora, volte para o seu corpo.
- Não quero mais voltar!
Quero seguir com vocês!
Estou muito bem!
- Sei disso, mas ainda não chegou a sua hora.
Você ainda não cumpriu o prazo, nem aquilo a que se propôs quando renasceu.
Confie em Deus, saiba que ele sempre esteve e estará ao seu lado.
Ester, sem alternativa, lentamente voltou para seu corpo.
Assim que se encaixou novamente, começou a sonhar.
Viu-se rodeada por dois homens que a espancavam, ela chorava e pedia ajuda.
Mas eles continuaram, ela, em seu desespero, gritou:
- Socorro! Não façam isso!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:12 pm

Ernesto! Ernesto, meu irmão, me ajude!
Dizendo essas palavras acordou desesperada, amedrontada, sentou-se na cama.
Ainda gritava:
-Ernesto! Socorro!
Eles vão me matar!
Assim que perceberam que ela havia acordado, Ernesto, Emília e Duarte, que estavam em volta da cama, aproximaram-se da cabeceira.
Daniel que estava ao lado dela, abraçou-a, dizendo:
-Fique calma, meu amor!
Estou aqui e ninguém mais vai lhe fazer mal!
Ela olhou primeiro para ele, depois para Ernesto e disse, chorando:
-Ernesto! É você mesmo?
Chamei tanto por você, naquela noite!
Ele começou a chorar sem conseguir dizer uma palavra.
Daniel, percebendo que ela o havia reconhecido, afastou-se.
Ernesto se abraçou à irmã e, chorando, disse:
-Ester, você me reconheceu?
Você voltou?
Ela, abraçando-o e beijando-o no rosto, respondeu:
-Sim! Eu estou reconhecendo você!
É o meu irmão muito querido!
Quanto o chamei naquela noite!
- Fiquei como um louco procurando por você!
Mas isso agora não importa.
O importante é que esteja aqui, de volta para nossa casa e para todos nós.
Olhe para os outros, veja se os reconhece também.
Ester afastou-se dele, olhou para os outros que a olhavam ansiosos para ver sua reacção.
O primeiro que viu foi Daniel, que tentava controlar a emoção e as lágrimas.
-Daniel, meu amor!
Estou me recordando de tudo!
Ele abraçou-a e não podendo mais se conter, chorando, disse:
-Não importa se você se lembre ou não!
Fiquei com tanto medo que você perdesse a razão para sempre ou não acordasse mais...
-Estou aqui, e agora reconhecendo as pessoas, acredito que também conseguirei me lembrar de tudo que aconteceu naquela noite.
Em seguida, ela se afastou de seus braços e olhou um a um.
- Emília, querida! Duarte!
Estou reconhecendo, sim!
Só não reconheço esse senhor...
Emília, emocionada, disse:
-Seja bem-vinda, minha filha!
Você não o reconhece, porque não o conheceu, mas é um grande amigo nosso e está aqui só para nos ajudar.
-Duarte, meu amigo!
Acho que precisei dos seus serviços!
Eu, que sempre o critiquei por ter escolhido ser psiquiatra!
Hoje, agradeço a Deus por ter feito essa escolha.
Duarte sorriu e disse:
-Agora, se já está bem, poderemos conversar.
Vamos ver se consegue se lembrar de tudo.
Emília, fingindo estar brava, disse:
-Nada disso!
Vocês todos vão sair deste quarto, ela vai tomar um banho, trocar de roupa e jantar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:13 pm

Aliás, todos precisamos jantar.
O dia foi muito tenso, merecemos um momento de paz.
Ernesto conduziu Daniel, Duarte e José para fora do quarto, dizendo:
-Emília tem razão!
Vamos relaxar e jantar.
Depois, teremos muito tempo para conversar.
Saíram do quarto.
Assim que ficaram a sós, Emília abraçou novamente Ester.
- Que bom, minha menina, que você está de volta.
Louvado seja Deus!
-Também estou feliz, mas você tem razão, preciso urgente de um banho!
Parece que faz dias que não tomo banho!
-Pode entrar no banheiro, vou escolher o vestido mais bonito que você tem para esta noite, pois ela é muito especial.
Ester sorriu.
Estava feliz por se lembrar daquelas pessoas que faziam parte da sua vida e que havia esquecido.
Entrou no banheiro, ligou o chuveiro.
Enquanto a água caía por seu corpo, tentou se lembrar do que havia acontecido naquela noite em que desapareceu, mas não conseguiu.
Depois, afastou aquele pensamento.
Estava feliz demais para estragar tudo com pensamentos maus.
Leonora, que a todo momento passava pela porta do quarto tentando ouvir alguma coisa, percebeu que eles estavam saindo.
Correu para a cozinha e fingiu estar tomando água.
Enquanto Ester tomava banho, Emília foi para junto deles e disse:
-Acho melhor vocês ficarem no escritório, vou até a cozinha ver como está o jantar.
Eu mesma terei de servir, pois mandei a Leonora e a Genilda irem dormir.
Assim que entrou na cozinha, viu Leonora que estava entrando da área de serviço.
Surpresa, perguntou:
-Leonora!
Você não foi se deitar?
- Eu fui, mas fiquei com sede, vim beber água e aproveitei para colocar minhas roupas na máquina.
Também pensei que a senhora talvez precisasse da minha ajuda para servir o jantar.
Quer que eu faça isso?
-Eu não ia chamá-la, mas já que está aqui, faça isso, por favor.
Emília ia saindo da cozinha.
Leonora perguntou:
-Dona Emília!
A dona Ester está bem?
-Está sim!
Ela até reconheceu a nós todos!
Leonora, estremecendo, perguntou:
-De todos?
De tudo que aconteceu com ela também?
- Isso ainda não, mas acho que será só uma questão de tempo.
Parece que ela vai ficar boa e tudo voltará a ser normal nesta casa.
Quando terminar de preparar o jantar, nos chame no escritório.
Dizendo isso, saiu.
Leonora estava nervosa aflita, precisava contar para Vanda, só que não poderia ser naquele momento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:13 pm

Pensou:
Vou telefonar enquanto eles estiverem jantando.
Colocou a comida para aquecer.
Assim que tudo ficou pronto, foi até o escritório e disse através da porta:
-Dona Emília!
O jantar está servido.
-Obrigada, Leonora.
Se quiser pode se deitar.
Vou até ao quarto da Ester ver se ela está pronta.
-Não, vou esperar terminarem o jantar para retirar a mesa.
-Eu mesma posso fazer isso.
-Não se preocupe, não estou com sono.
Retirou-se.
Emília e os outros foram para a sala de jantar.
José quis ir embora, mas Ernesto não permitiu.
-Nem pensar!
O senhor está aqui até esta hora, não seria justo ir embora sem se alimentar.
-Agradeço, mas preciso ir embora, tenho meu trabalho na clínica.
Meu turno só terminará às seis horas da manhã.
Duarte começou a rir.
-Sei que você é um óptimo funcionário, não precisa provar.
Embora não esteja fazendo o seu trabalho na clínica, nos prestou um trabalho impagável.
Portanto, pode comer sossegado, tem mais, hoje não precisa voltar para clínica.
Eu o levarei para casa.
José, ofendido, disse:
-Nem pensar, doutor!
Posso, sim, jantar, pois devo confessar que estou com fome, mas o meu trabalho na clínica não tem nada a ver com o que fiz aqui hoje.
Só ficarei se o senhor prometer que me levará de volta para a clínica.
-Se preferir assim, está bem, levarei você para a clínica.
Continuaram no escritório.
Leonora, assim que viu Emília subindo a escada em direcção ao quarto de Ester, correu para o corredor.
Discou o número de Vanda que a atendeu prontamente:
-Alô! Leonora?
-Sou eu mesma, parece que as coisas vão se complicar!
-Por que está dizendo isso?
- Todos saíram do quarto e a dona Emília me disse que a dona Ester reconheceu todos!
- Meu Deus!
Ela se lembrou de tudo o que aconteceu naquela noite?
-A dona Emília disse que não, mas que tudo agora é só uma questão de tempo!
Dona Vanda!
O que a gente vai fazer?
Vanda também ficou nervosa com aquela informação.
Respondeu, procurando manter a calma.
- Leonora, preste atenção, fique calma.
Você sabe muito bem que eu preferia que isso não estivesse acontecendo, mas, se precisar, eu irei até aí.
-A senhora sabe que a corda sempre quebra do lado mais fraco, nessa história, o lado mais fraco sou eu!
- Não se preocupe, eu assumirei toda a responsabilidade.
Fique calma.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 7:13 pm

Embora quisesse ficar calma, Leonora não conseguia.
De onde estava falando, pôde ver Ester que saía escondida pelo corredor que a levaria até o portão da casa ou até a garagem.
Não entendeu o que ela estava fazendo.
Disse para Vanda:
- Dona Vanda!
A dona Ester está saindo pela alameda!
Acho que ela está fugindo!
-Como fugindo!
Por que ela faria isso?
-Não sei, mas ela está andando bem depressa e olhando para todos os lados.
Parece que está indo para a garagem!
Isso mesmo!
Ela entrou no carro que era dela e está saindo com o motor desligado para não fazer barulho!
Acho que ela está fugindo mesmo!
Espere, ela parou o carro, desceu e está saindo andando.
-Será que ela se lembrou de tudo?
-Não sei, mas para estar fazendo isso deve ter se lembrado!
O que faço?
-Deixe-a ir.
Assim que descobrirem, com certeza, telefonarão para o Inácio e iremos até aí.
Fique calma!
-Não consigo ficar calma!
Estou com muito medo!
- Agora não adianta ficar assim!
Sinto que chegou a hora de esclarecermos tudo!
Fique por aí e preste atenção em tudo.
Qualquer coisa que acontecer, telefone.
O Inácio está no quarto lendo.
E, quando está lendo, desliga o telefone para não ser incomodado.
Eu disse a ele que iria ficar aqui na sala de televisão, pois queria assistir a um filme.
Daqui onde estou ele não ouve o telefone.
Estarei esperando a sua ligação.
-Está bem, vou ficar prestando atenção.
Tremendo muito e apavorada, Leonora desligou o telefone.
Emília foi até o quarto de Ester, entrou, viu que ela não estava na cama, foi até o banheiro, também não estava lá.
Voltou depressa para o escritório.
Entrou e, nervosa, disse:
-A Ester não está no quarto!
Todos se levantaram ao mesmo tempo.
Daniel gritou, assustado:
-Como não está?!
Nós a deixamos lá arrumando-se para o jantar!
-Não sei, fui até lá e não a encontrei!
Ernesto, também nervoso, perguntou:
-Tem certeza de que ela não está mesmo?
Olhou bem?
-Não está no quarto, nem no banheiro!
Daniel passou por Emília, subiu a escada correndo, no que foi seguido pelos outros.
Assim que chegaram ao quarto, ele viu sobre a cama um bilhete.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:03 pm

Leu em voz alta o que estava escrito:
Meus queridos:
Quando cheguei ao quarto, depois de ter tomado banho, vi sobre a cama um vestido azul quase igual àquele que usei naquela noite.
Recordei-me de tudo o que se passou.
Fiquei assustada, pois nunca imaginei que teria sido daquela maneira.
Hoje, sei quem fui e quem sou, por isso, não posso mais permanecer aqui nesta casa.
Estou indo embora, por favor, não me procurem, preciso encontrar o meu caminho.
Um dia talvez eu volte.
Ester.
Com o papel nas mãos, Daniel olhou incrédulo para os outros que, assim como ele, não estavam conseguindo entender o que havia acontecido.
Ernesto, desesperado, começou a chorar.
-Não suportarei passar por tudo aquilo novamente!
Por que ela foi embora?! Não entendo!
Se ela se recordou, era mais um motivo para ter ficado e esclarecido tudo!
Daniel, muito nervoso, disse:
-Talvez tenha sido esse o motivo!
Ao se recordar, descobriu que o seu inimigo está aqui nesta casa!
Fugiu por medo!
O que vamos fazer?
Ernesto, também nervoso, respondeu:
- Não sei! Talvez devêssemos chamar a polícia!
Não sei o que fazer!
Duarte, mais calmo, disse:
-Esperem, se ela recordou o passado, se está assustada, precisamos deixar que se acalme e reflicta e, assim que sentir-se segura, nos comunicará onde está.
O que não podemos é nos desesperar.
Se de um lado é ruim ela ter sumido, por outro é bom, pois é sinal que já sabe quem é e o que aconteceu naquela noite.
Ela deve estar bem.
Vamos nos acalmar.
Daniel estava desesperado.
- Como nos acalmar, Duarte?
Será que não percebeu que ela desapareceu?!
Não sabemos onde está!
Quem nos garante que ela está bem?!
- Para ela ter saído e deixado um bilhete, é sinal que sabia bem o que estava fazendo.
Só precisamos esperar.
Sei que ela está bem, pois trato de doenças mentais há muito tempo.
Sei quais são as reacções.
E ela está tendo uma reacção típica.
Ela está bem, não se preocupem, dentro de alguns dias teremos notícias.
Se ela descobriu quem é o seu inimigo, se comunicará com aquele que sabe não ser.
Vamos nos acalmar.
Daniel, aflito, perguntou:
-Ernesto, ela tinha dinheiro?
-Sim, dei a ela algum para que comprasse algo para si ou para uma emergência.
-Deu muito?
Daria para ela viajar?
- Sim, com certeza!
Mas como poderia viajar?
Está sem documentos!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:04 pm

-Poderia, sim, de ônibus!
-Daniel, você está certo, mas para onde iria?
- Só existe um lugar no mundo em que ela se sente protegida!
Carimã! É isso mesmo, amanhã mesmo partirei para lá!
-Se ela for de ônibus, vai demorar muito para chegar!
-Por isso mesmo, de avião chegarei primeiro e estarei lá esperando, sei que se eu estiver com o Neco e a Jurema, ela, sentindo-se protegida, nos contará tudo!
Ernesto e Emília estavam desvairados.
Emília disse:
-Acho que tem razão, Daniel, mas quero ir com você!
-Não, dona Emília! Irei sozinho!
Para ela ter fugido dessa maneira, é sinal que sabe quem quis ou quer matá-la!
Não sei quem é, por isso, não posso confiar em ninguém!
Vou sozinho e prometo telefonar e lhes contar tudo e, se possível, fazer com que ela retorne!
Ernesto ficou furioso.
-Está dizendo que nem eu posso ir?
Está louco!
Ela é minha irmã, jamais lhe faria mal!
Vou com você!
Quer queira ou não!
Duarte os interrompeu:
- Esperem aí, parem por um instante.
Vocês estão todos alterados e isso não leva a nada.
Vamos pensar com calma, se ela estiver indo para Carimã, Daniel tem razão.
Ela está com medo.
Ele também tem razão, quando diz que não confia em ninguém desta casa, portanto, acredito que deva ir sozinho.
Ele sabe o quanto estamos preocupados e nos dará notícias.
Enquanto ele for para lá, ficaremos procurando por aqui.
Daniel, assim que chegar e encontrá-la, por favor, nos telefone.
Quando achar conveniente, avise-nos e iremos todos.
Em seguida, olhou para José que, durante todo o tempo em que estiveram discutindo, não disse nada, apenas manteve o olhar perdido no espaço, como se estivesse falando com alguém.
Percebendo isso, Duarte perguntou:
-José, está falando com alguém?
José voltou-se para ele, respondendo:
-Estou, sim, estão me dando instruções.
Disseram para que todos nos acalmemos, pois está tudo bem.
Ela não corre perigo algum.
Estão dizendo, também, que ela foi em busca da sua verdade e que não devemos interferir, pois tudo ficará bem.
Daniel estava nervoso, disse quase gritando:
- Como está bem?
Quem está lhe dizendo isso!
O além? Um fantasma?!
Agora não é mais hora dessas coisas!
Temos que voltar para a Terra, para a realidade!
Estou cansado de ouvir falar de espíritos!
Isso é loucura!
O senhor está aceitando e dizendo isso, porque não conhece a Ester!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:04 pm

Para o senhor, ela é uma estranha, não lhe importa o que possa lhe acontecer, mas ela é a mulher que eu amo!
Estou preocupado, sim!
Não quero mais ouvir falar sobre isso!
Duarte, ao ouvir aquilo, disse, sério:
-Daniel, sei que, assim como todos nós, está nervoso e assustado, mas isso não lhe dá o direito de ofender as pessoas!
José só está nesta casa porque eu convidei, por favor, o respeite!
Quanto à crença, seja ela qual for, deve ser respeitada.
Daniel, envergonhado, olhou para José e disse:
- Desculpe, mas realmente estou nervoso.
Bem, estamos aqui perdendo tempo, vou agora mesmo ligar para o aeroporto e ver a que horas parte o primeiro avião para Salvador.
Queria que não fosse noite, assim eu poderia ir agora mesmo!
José não disse nada, apenas sorriu.
Olhou para Vicente que também lhe sorria e que disse:
-Meu irmão, não se ofenda, se ele não reagisse assim, diante de uma situação como esta, não seria um ser humano.
Mas não se preocupe, tudo está caminhando como deveria ser.
O nosso trabalho está quase terminando e você foi parte importante.
Agora, a sua presença aqui não é mais necessária, pode voltar aos seus afazeres, confie sempre no Pai infinito, mesmo quando as dificuldades na vida aparecerem.
Nesta encarnação, está dando um passo importante rumo à perfeição.
José, num sinal de agradecimento, abaixou a cabeça.
Depois, levantou-a, dizendo:
- Doutor Duarte.
A minha presença aqui não é mais necessária.
Preciso voltar para a clínica, o meu trabalho me espera.
Duarte, um pouco desconcertado, disse:
-Está bem, vou levá-lo.
-Não é necessário, doutor, a sua presença aqui é mais importante.
Vou de ônibus.
- Nada disso!
Vou levá-lo e aproveitaremos para conversar.
Nada mais poderemos fazer por hoje.
Amanhã, será outro dia e ele só a Deus pertence.
Despediram-se de todos e saíram.
Naquela noite, ninguém jantou.
Estavam nervosos demais para isso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:04 pm

Lição de Abnegação
Ester estava dentro de um ônibus com destino a Carimã.
Chorava muito.
Seu coração batia descompassado.
Não podia se conformar com o que havia lembrado.
Pensava: desejei tanto me lembrar do meu passado e, agora, desejaria que nunca isso tivesse acontecido.
Não sei o que fazer... preciso contar tudo para a Jurema e o Neco, eles dirão que caminho devo seguir...
O ônibus corria por aquela estrada desconhecida para ela.
Sabia que a viagem seria longa, tirou algumas notas da bolsa e contou o dinheiro:
não é muito, preciso economizar durante a viagem.
Em seguida, lembrou-se do momento em que viu um vestido azul sobre a cama.
Emília o havia escolhido, pois gostava muito dela e queria que ela estivesse linda naquela noite.
Lembrou-se do que disse, enquanto estava no banho:
-Ester, escolhi o vestido que vai usar nesta noite.
Recordou-se de quase tudo.
Sei que em breve se lembrará de todo o seu passado, por isso, quero que esteja linda.
Vou descer, ver como os rapazes estão.
Assim que terminar, vá nos encontrar.
-Eu estava toda ensaboada, também feliz por ter me recordado da minha família.
Emília saiu, terminei de me banhar, fui para o quarto e sobre a cama vi aquele vestido azul, não era o que eu havia usado em Salvador, mas a cor era a mesma.
Por alguns minutos, olhei para ele.
Senti como uma vertigem e em meu pensamento me vi sendo surrada por dois desconhecidos, que enquanto faziam isso, riam muito e diziam:
-A madame vai ver quanto custa se meter na vida dos outros!
Está tendo o que merece!
Fiquei desesperada, pedindo para que não me machucassem.
Dizia que tudo aquilo devia ser um engano, mas eles pareciam não me ouvir e continuaram batendo.
Um deles, com a coronha de um revólver, bateu em minha cabeça e eu desmaiei.
Enquanto aquelas cenas passavam por minha cabeça, fui me recordando de tudo.
Agora que sei, não posso mais permanecer naquela casa!
Preciso contar para alguém e esse alguém vai ser a Jurema!
O ônibus corria.
Já era noite e havia muitas estrelas no céu.
A lua cheia brilhava em sua totalidade.
A medida que a estrada passava rápido por ela, seu pensamento também ia longe e voltava ao passado, no tempo em que viveu com Jurema e com Neco e que era apenas Cida.
Lembrou-se de Daniel, que havia amado, mesmo sem saber quem ela era, mas aquele amor, agora, era impossível, jamais poderiam ficar juntos.
Seu coração se apertou ainda mais.
Em determinado momento, pensou:
Não posso ir para Carimã!
Daniel, com certeza, irá me procurar ali, sabe que não tenho outro lugar seguro para ir.
Não terei mais paz, talvez fosse melhor eu morrer, só assim tudo terminaria.
Não sei o que fazer.
Enquanto ela viajava, Daniel telefonou para o aeroporto e marcou sua passagem para a manhã seguinte.
Ernesto e Emília estavam inconformados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:04 pm

Leonora andava de um lugar para outro, querendo descobrir o que estava acontecendo.
Temia por perder o seu emprego, havia sido envolvida em toda aquela situação e não conseguia imaginar o que lhe aconteceria quando tudo fosse esclarecido.
Viu quando Duarte saiu, acompanhado por aquele homem desconhecido.
Curiosa, entrou no escritório, perguntando:
-Dona Emília, o doutor Duarte saiu, ele não vai jantar?
- Não, e acredito que eu e o Ernesto também não - olhou para Ernesto que confirmou com a cabeça e continuou:
-pode retirar a mesa, eu e o Ernesto ficaremos conversando mais um pouco.
Se sentirmos fome, eu mesma prepararei qualquer coisa.
Pode se recolher.
Leonora, sem alternativa, retirou-se, foi para seu quarto.
Embora deitada, não conseguia dormir.
Assim como Ester, também se lembrava de como tudo havia acontecido:
será que ela se lembrou de tudo mesmo?
Acho que não vou esperar para saber, amanhã mesmo vou falar com a dona Vanda, pedir dinheiro para ela e arrumar um lugar para ficar, até encontrar outro trabalho.
Não posso ficar aqui.
Rolou por mais um tempo na cama, até que adormeceu.
Enquanto isso, Duarte levava José para a clínica e conversavam.
Duarte perguntou:
- O que aconteceu no plano espiritual, enquanto a Ester dormia?
- Como sabe que aconteceu alguma coisa?
- Não sou vidente, mas pude perceber que, por um bom tempo, você ficou distante, alheio ao que se passava ali.
Percebi que a sua atenção estava voltada para um outro lugar que não era aquele quarto.
- Realmente aconteceu, mas foi no quarto mesmo.
Presenciei a salvação e o encaminhamento de dois irmãos que estavam perdidos.
Eles foram embora, por isso sei que aquela moça vai ficar bem.
-Sei que se está dizendo é verdade!
Sei, também, que isso acontece com você, mas como começou?
-Quando eu era criança, via e conversava com espíritos de adultos, mas muito mais com crianças.
Eu era muito pobre, mas mesmo assim me divertia muito com eles.
A medida que fui crescendo, comecei a ter medo daquilo que estava vendo.
Meus pais nasceram e foram criados em uma religião protestante, quando lhes contei o que via, eles se assustaram e disseram ser o diabo que estava me tentando.
Também fiquei com medo e cada vez que um espírito se aproximava, eu fingia não ver, ficava apavorado e chegava até a desmaiar de tanto medo.
Eles se afastaram e fiquei um bom tempo sem notar a presença deles.
Quando, já adulto e casado, meu primeiro filho, com apenas seis meses de idade, ficou muito doente, os médicos tinham nos tirado todas as esperanças.
Eu e minha mulher estávamos desesperados.
Fui para a igreja que frequentava, conversei com o pastor, ele disse que aquele era um momento em que eu devia ter muita fé e implorar a Jesus pela saúde do meu filho.
Foi o que eu fiz, ali mesmo na igreja, me ajoelhei e pedi com todo o meu coração para que Jesus me atendesse e não levasse o meu filho.
Depois de orar muito, levantei os olhos e vi diante de mim um homem que me sorria envolvido em muita luz.
Julguei ser Jesus.
Disse, chorando:
- Meu Jesus!
O Senhor atendeu ao meu pedido?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:05 pm

Veio salvar o meu filho?
-O homem sorriu:
-Não sou Jesus, estou muito distante da sua perfeição.
Sou apenas um servo dele, fui enviado para ajudá-lo neste momento acalmá-lo, seu filho ficará bom, ele veio para a Terra com uma missão e terá toda ajuda para cumpri-la.
-Eu tremia diante de tanta luz, meu coração batia forte.
O homem continuou:
- Você também veio com uma missão mas está afastando-se dela.
Chegou a hora de recebê-la com carinho.
-Quase sem voz, perguntei:
- Que missão é essa?
- Com o tempo lhe direi e ensinarei o que tem de fazer.
Por enquanto, preocupe-se apenas com o seu filho, dentro de três dias, ele terá alta e poderá sair do hospital.
Depois retornarei, e, por favor, não fique com medo, se não terei de me afastar novamente.
- Dizendo isso, desapareceu.
O pastor percebeu que eu estava falando com alguém, curioso, aproximou-se:
-Irmão José!
Com quem estava falando!
- Eu sabia que ele não entenderia o que eu mesmo não entendia, respondi:
-Com Jesus, pastor... com Jesus!
Ele disse que o meu filho vai ficar bom dentro de três dias.
- O pastor ajoelhou-se e começou a dar glórias a Deus.
Eu o acompanhei com lágrimas.
Realmente, em três dias, levei meu filho para casa.
Nunca mais ele ficou doente, hoje ele está com nove anos, é um menino forte e muito esperto.
Na noite daquele dia em que levei meu filho para casa, eu estava dormindo quando acordei e olhei para a porta do meu quarto.
O homem estava ali, fez um sinal com a mão para que eu levantasse e o acompanhasse.
Fiz isso, me levantei e, fazendo o menor ruído possível para não acordar a minha esposa, fui com ele até a cozinha.
Lá, peguei um pouco de café.
Ele, sorrindo, disse:
- Bem, cumpri a minha palavra, seu filho está curado.
Agora, você precisa aceitar a sua missão.
- Fiquei assustado, lembrei-me dos meus pais dizendo que era o diabo me tentando, disse:
-Estou com medo!
Sei que você é o diabo me tentando!
Ele riu gostosamente.
-Acha que eu tenho cara de diabo?
Onde está o meu chifre e rabo?
- O diabo pode se disfarçar de muitas maneiras!
-Se existe o diabo, deve também existir um anjo, não é?
-Sim! O Senhor tem muitos anjos que o ajudam!
-Pois bem, não sou o diabo nem um anjo.
Meu nome é Laerte, sou apenas um espírito caminhando para a luz.
Somos amigos de longa data.
Já vivemos muitas vidas juntos.
Quando você renasceu aqui na Terra, eu o acompanhei e acompanharei até a sua morte física.
Ambos precisamos cumprir a missão que prometemos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:05 pm

Aquilo que ele falava, para mim, era grego, não estava entendendo nada, mas ele continuou:
- Sei que está difícil de entender, mas, com o tempo, verá que não é tão complicado assim.
Sei que foi criado em uma religião, onde tudo o que acontece é coisa do diabo, mas verá que isso não é verdade, verá também que, para Deus, não existe religião, apenas Seus filhos, que Ele quer perfeitos.
- Daquele dia em diante, ele foi me ensinando tudo sobre a vida espiritual.
Quando julgou que eu já sabia o suficiente, disse:
-Agora que você já se convenceu de que a vida pós-morte existe, que o espírito não morre nunca, que ele é eterno e que precisa evoluir sempre, nossa missão é trabalharmos juntos para ajudar nossos irmãos, sejam eles de que religião forem.
Precisamos ajudar os encarnados para que possam bem cumprir o seu tempo aqui na Terra, mas, muito mais, ajudaremos os desencarnados que se encontram perdidos, vagando.
Para estes, sim, a nossa ajuda é necessária.
- Como poderei ajudar?
-Alguns de nossos irmãos desencarnados, se encontram com uma energia muito baixa, diremos quase animal, a mesma energia do encarnado.
Para que possamos chegar até eles, precisamos dessa energia que, se doada com amor, nos facilitará muito o trabalho.
Você tem essa energia e a vontade de ajudar, o resto deixe por nossa conta.
- Quando começarei esse trabalho?
- Sei que você está desempregado, por isso está tendo dificuldades financeiras.
Através de alguém, saberá de um lugar onde precisa de funcionários.
Nesse lugar, terá muito trabalho, não só físico, mas espiritual também.
- Isso realmente aconteceu.
Fiquei sabendo por uma amiga da minha esposa que estavam precisando de um faxineiro em uma clínica.
Fui até lá e me aceitaram.
Comecei a trabalhar na sua clínica, estou lá há quase quatro anos.
Um dia, antes de eu começar a trabalhar, Laerte apareceu, dizendo:
- Você vai começar o seu trabalho amanhã.
Lá verá quantos irmãos poderá ajudar, estarei sempre ao seu lado.
-Ele está aqui agora?
-Não, quando o senhor me contou o que estava acontecendo com a moça, ele apareceu e disse:
-Desta vez, não irei com você, tenho um trabalho urgente em outro lugar.
Não se preocupe, vai encontrar Vicente, ele é o encarregado desta missão.
-Assim que comecei a trabalhar na clínica, vi que ele tinha razão.
O senhor sabe que, em uma clínica como a sua, muitas das doenças que lá existem não são físicas, na maioria das vezes, o mal é espiritual.
Sem que ninguém desconfiasse, eu, Laerte e a sua equipe ajudamos a muitos encarnados e desencarnados.
- Eu nunca soube, mas foi por isso que alguns pacientes meus melhoravam da noite para o dia?
-Era isso que acontecia, eu não pretendia dizer nada, mas quando aquele rapaz chegou, o Laerte me instruiu no que eu deveria fazer, fui obrigado a lhe mostrar.
Ele disse que havia chegado o seu momento de conhecer a vida espiritual.
-Conheci mesmo e fiquei apaixonado por toda essa teoria que, se for verdadeira, é maravilhosa!
José começou a rir:
- Claro que é verdadeira!
O senhor ainda tem alguma dúvida disso?
Duarte também riu, balançou a cabeça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:05 pm

-Só não entendo uma coisa, você, que ajuda tanto as pessoas, tem uma vida pobre!
Como pode ser isso?
Poderia cobrar o que quisesse!
A pessoa ficaria feliz em poder pagar por um filho, mulher, pai ou mãe que fossem curados.
Eu mesmo vi muitos casos!
- Doutor, além de eu ser médium, sou um espírito caminhando para a perfeição, tenho também os meus resgates, minhas dívidas e a minha missão que terá de ser cumprida.
Eu mesmo, antes de renascer, pedi para ser pobre, pois talvez, se eu fosse rico, não iria querer saber de nada disso.
- Isso não é verdade, eu sempre fui rico e quero muito aprender sobre isso, cada vez mais!
- O senhor veio com outro tipo de missão.
Eu já vim com esta por muitas vezes, mas nunca a cumpri, pois o dinheiro me dava outras oportunidades na vida, que me afastavam dela ou eu fazia dela um comércio, por isso, pedi para ser pobre.
-Mas o que ganha com todo esse trabalho?
-Ganho a felicidade de saber que ajudei, ganho a tranquilidade de saber que estou cumprindo a minha missão.
Sabendo o que sei sobre a vida espiritual, sei que tudo aqui na Terra é provisório, que nada nos pertence, a casa, o carro e as jóias são empréstimos de Deus.
Prefiro me preparar para a minha vida espiritual.
-Se pensarmos nisso, a vida não fica sem graça?
Você fica o tempo todo vendo e ouvindo os espíritos?
-Não! Se fosse assim, eu enlouqueceria!
Preciso trabalhar, conversar com as pessoas.
Só os vejo quando tenho que fazer algum trabalho.
Quanto à vida ser sem graça, isso não acontece, ao contrário, dou valor a cada minuto que passa.
Tenho uma vida feliz dentro das minhas condições, gosto de dançar, cantar, ir ao cinema e de vez em quando até tomar um traguinho.
Só não tenho a ilusão de que preciso fazer qualquer coisa ou passar por cima de qualquer pessoa para conseguir dinheiro ou posição.
Mas, do resto, tenho uma vida feliz sim.
Assim que chegaram à clínica, Duarte disse:
-Não sei porque você quis continuar o seu trabalho hoje.
Eu não queria!
- Doutor, o senhor não entendeu o que eu disse?
Não cobro por meu trabalho com a espiritualidade.
O meu trabalho aqui começa às seis horas da noite e vai até as seis horas da manhã.
Para isso, além de eu ganhar o adicional nocturno, ganho ainda horas extras, o que me ajuda muito para sustentar a minha família.
Tenho agora três filhos que estão na escola.
Estou feliz com o meu emprego.
-Como faxineiro o seu salário é muito baixo.
- Por isso trabalho à noite.
Além do mais, é o horário em que os espíritos podem trabalhar com mais tranquilidade.
Quanto ao meu salário, está muito bom, o senhor paga muito bem aos seus funcionários.
Eu não tive estudo algum, mal assino o meu nome, por isso agradeço a Deus, todos os dias, por ter me dado esse trabalho.
Boa-noite, Doutor.
Duarte percebeu que ele estava mesmo ansioso para voltar ao trabalho, despediu-se, ligou o carro e, no caminho, foi pensando: que homem é esse?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:05 pm

Que lição maravilhosa de abnegação, aprendi nesta noite!
Como uma pessoa pode se doar dessa maneira sem ser pago por isso?
É...tenho muito ainda que aprender.
José entrou rápido na clínica, seu trabalho estava atrasado, teria muito que fazer naquela noite para deixar tudo em ordem para o faxineiro do turno do dia, mas estava feliz, sabia que Ester estava prestes a se recuperar, sabia que Raimundo e Isaura, naquele momento, deviam estar viajando pelo espaço.
Assim que chegou, Laerte apareceu, perguntando:
-Então, meu irmão, como foi tudo lá?
José sorriu:
-Foi muito bem, o trabalho, com a graça de Deus, foi cumprido.
Parece que tudo terminou bem.
-Gostou do Vicente?
- Sim, ele tem muita experiência, soube como conduzir o trabalho.
- Ele já se dedica há muito tempo a esse tipo de trabalho e é um dos melhores.
-Percebi isso, que Deus o abençoe.
-A todos nós, meu irmão, a todos nós.
Agora, pode voltar ao seu trabalho.
Estou cansado, como dizem aqui na Terra, apesar de espírito, também sou filho de Deus, vou descansar.
Enquanto ele desaparecia, José, rindo, pegou seu balde, sua vassoura e foi limpar um dos banheiros da clínica.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 8:05 pm

A Viagem
Daniel, Emília e Ernesto também não dormiram bem naquela noite.
Assim que despertou, Daniel foi para a sala de refeições, seu avião só sairia às onze horas.
Quando chegou lá, encontrou Ernesto, Emília, Inácio e Vanda que tomavam café.
Ao vê-los, admirou-se:
-Bom-dia. Chegaram cedo!
-Bom-dia, Daniel.
Ernesto nos telefonou logo pela manhã.
Estamos felizes por saber que Ester se recordou de todos nós e resolvemos que devemos ir juntos com você.
Por isso, já reservamos nossas passagens.
-Vocês não podem fazer isso, Inácio!
Se ela fugiu foi porque sabe quem é o seu inimigo aqui nesta casa e se vir vocês, fugirá novamente!
-Não precisa ficar nervoso, Daniel.
Sente-se e tome o seu café.
Eu e o Ernesto conversamos muito, chegamos a conclusão de que se ela sabe quem é o seu inimigo, com certeza sabe que não somos nós, por isso, decidimos que eles devem ir.
Se existe algum inimigo, precisamos estar ao lado dela e protegê-la.
-Se ela soubesse que o inimigo não estava aqui, não teria fugido, Emília!
- Não sabemos qual foi o motivo para ela ter fugido, só sabemos que a amamos e que precisamos trazê-la de volta.
Portanto, não adianta ficar nervoso.
Está decidido, eles irão e eu ficarei aqui esperando uma notícia.
Diante da maneira como Emília falou, Daniel percebeu que não haveria argumento que os fizesse mudar de ideia.
Começou a tomar café.
Leonora entrava e saía da sala, tentando descobrir o que estava acontecendo.
Estava colocando um bule com café quente sobre a mesa, seus olhos se cruzaram com os de Vanda, percebeu ela também estava nervosa.
Não podia dizer nada, afastou-se, mas tentava fazer um sinal para Vanda.
Precisava conversar com ela, porém Vanda não a olhava.
Vanda, por sua vez, fingia estar prestando atenção na conversa, mas estava aflita e pensando:
quando Inácio pediu que eu fosse com eles, não consegui evitar.
Agora não vai ter outra maneira.
Se Ester se recordou, tudo terá de ser explicado.
Ainda bem que Jandira está lá naquela cidade.
Ela me ajudará com a explicação.
-Você está nervosa, Vanda? Por quê?
Ela se voltou para Emília com um sorriso nervoso.
- Claro que estou, assim como vocês.
Sabem muito bem que ela é minha amiga.
Estou aflita para a encontrarmos e ela voltar definitivamente para casa e para a sua vida.
-Espero que isso aconteça.
Já faz muito tempo.
Só não entendo o porquê de ela ter fugido assim.
- A senhora conhece a Ester.
Ela sempre foi impulsiva!
Não se lembra de quando ela me trouxe aqui para esta casa?
Mal me conhecia, só me via na lanchonete servindo os alunos da faculdade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 10 de 12 Anterior  1, 2, 3 ... 9, 10, 11, 12  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum