Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:34 pm

- Pode ter sido isso mesmo, mas, minha filha, não se preocupe.
De acordo com aquilo que li, da mesma maneira que existe o esquecimento, a qualquer momento, tudo pode voltar sem que menos se espere.
Logo vai ficar bem, mas o ideal seria que consultasse um médico.
Aqui na cidade tinha o doutor Evaristo, mas ele morreu já faz quinze dias e, até agora, não veio outro para ocupar o seu lugar.
O prefeito até já construiu um pronto-socorro, mas a cidade é muito pobre.
Por isso, os médicos não querem vir para cá.
O prefeito já comunicou as autoridades, precisamos só ter esperança.
Logo, outro médico virá.
Aí poderá se consultar com ele, isto é, se até lá não recuperar a memória.
- O doutor Evaristo morreu?
- Morreu, Jurema, vocês não sabiam?
Morreu do coração e foi de repente.
Também, ele já estava muito velho.
- A gente não sabia não, padre.
Ele foi um bom homem.
- Foi sim, Jurema. - Neco disse, com tristeza na voz.
Cida, ao ouvir aquilo, olhou para eles que, em seu rosto, puderam ver desespero.
Jurema abraçou-a, dizendo:
- Não fica assim, Cida.
Como o padre disse, vai se lembrar logo.
- Mas quando? Quando?
- Minha filha, nós não sabemos.
Sei que deve estar aflita, como qualquer pessoa ficaria na sua situação.
Deve ser terrível.
Por enquanto, não pode fazer nada, além de esperar e confiar na bondade de Deus.
Pelo seu jeito de falar, você é do Sul, não é?
- Não sei. Nem imagino de onde eu vim...
- Acalme-se. Deus está ao seu lado.
Tudo vai ficar bem, não é, Jurema?
- É isso mesmo, padre.
Cida, a gente vai voltar para casa e na semana que vem, se não chover, a gente volta, não é, Neco?
Neco continuava intrigado com tudo aquilo.
Ele, assim como Jurema, havia nascido e sido criado ali naquela cidade.
Não tinha muito estudo, sabia mais ou menos assinar o seu nome e ler alguma coisa.
Por essa dificuldade, não se interessava em ler jornal.
Por isso, também, não tinha muita informação do que se passava no resto do mundo.
Tinha consciência de que não sabia muito de nada, mas de uma doença como aquela ele jamais ouvira falar.
Pensou:
Será que essa moça não está fingindo?
Será que ela não está fugindo da polícia e inventou toda essa história?
Estava tão distraído que não ouviu quando Jurema perguntou.
Ela, percebendo que ele não havia escutado, perguntou novamente:
- Não é Neco?
- O que você disse, Jurema?
- Não é verdade que a semana que vem a gente volta?
- É, Jurema, acho que é isso que a gente tem de fazer.
Tio, se até a semana que vem não chover, a gente pode mudar de vez para cá?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:34 pm

- Claro que sim, a casa de vocês está lá.
Podem vir quando quiserem.
Saíram da igreja.
Cida, agora, estava desesperada, pois percebeu que aquela viagem havia sido inútil.
Jurema e Neco notaram que ela fazia força para não chorar.
Jurema abraçou-a, dizendo:
- Cida, não precisa se desesperar.
Está com a gente e vai ficar até que se lembre de tudo.
Com a gente, está protegida, não é mesmo, Neco?
- É sim, moça. Pode ficar sossegada.
Junto com a gente, não vai acontecer nenhum mal.
Com as mãos, ela tentou enxugar uma lágrima e disse:
- Está bem. Como disse o padre, vamos esperar.
É só o que posso fazer.
- Bem, já que a gente precisa esperar, vamos até lá em casa para o almoço.
A Laurinda vai ficar muito feliz em saber que vocês estão aqui.
- A gente não pode, tio.
A gente não quer dar trabalho.
- Que é isso, Neco?
Trabalho coisa nenhuma!
Agora é quase meio-dia e vocês não podem ir embora sem comer.
Ainda mais com esse sol que está fazendo!
Não tem conversa, vamos almoçar lá em casa.
Vendo que não havia alternativa, concordaram.
Despediram-se do padre e foram para a casa de Dorival.
A casa, embora simples, era confortável.
Ele era uma das pessoas que possuía bens naquela cidade.
Por isso, sua casa tinha de tudo, até um aparelho de televisão.
Na cozinha, espaçosa, havia uma mesa grande e o fogão que, embora fosse de lenha, não era igual ao de Jurema.
Era fechado e sobre ele havia uma chapa de ferro, onde as panelas eram colocadas.
Por mais que Cida tentasse, não conseguia se lembrar de ter visto algo igual.
Continuou olhando tudo, até ouvir a voz de Laurinda, perguntando:
- Mas quem é essa moça, Jurema?
- É uma amiga nossa, tia.
Vou contar para a senhora a história dela.
Contou tudo.
Laurinda também se admirou com aquela doença, da qual nunca ouvira falar.
Percebendo que Cida estava muito triste, disse:
- Olhe, moça, logo você vai se lembrar de tudo, mas enquanto isso não acontece, vamos comer?
Cida sorriu e, com a cabeça, concordou.
Almoçaram e ninguém pôde negar que a comida estava muito boa.
Após o almoço, foram até a sala e sentaram-se em um sofá.
Jurema perguntou:
- Tia! Como estão as crianças?
- Estão bem.
Continuam estudando em São Paulo.
A Liliane vai se formar em Medicina.
Disse que assim que terminar o estudo vai voltar e trabalhar aqui.
O Eliseu quer ser engenheiro.
- Os dois são bons filhos, não é mesmo?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:35 pm

- São, sim, Jurema.
Nunca tive nenhum trabalho com eles.
Mas, você não pensa mesmo em ter outros filhos?
Novamente, Cida percebeu aquela sombra nos olhos de Jurema e de Neco.
- Não quero mais filhos, tia.
Não quero sofrer de novo.
- Você sabe muito bem que também sofri muito quando a Dalvinha morreu, mas agora pode ser diferente.
Você é ainda muito moça, Jurema.
Os filhos trazem muita alegria para a gente.
Só porque aconteceu aquilo com a sua menina não quer dizer que vai acontecer de novo...
- Não sei, mas não quero nunca mais sentir tudo aquilo outra vez.
É bom deixar como está.
Eu e o Neco vivemos muito bem sozinhos, não é mesmo, Neco?
Como sempre, Neco não prestava muita atenção na conversa.
Demorou um pouco para responder, ainda mais sobre aquele assunto.
Ele também sofrera muito quando a sua filhinha morreu.
Assim como Jurema, também achava que ela havia morrido por falta de socorro, por morarem naquele lugar distante, onde sabia que plantaria, mas não sabia se colheria.
- É isso mesmo, Jurema.
A gente vive muito bem, só nós dois.
Mas, agora, acho que está na hora de a gente ir embora.
Não quero chegar em casa de noite.
- Você tem razão, Neco.
A gente precisa ir embora.
Tia, antes disso, posso mostrar a sua casa para a Cida?
- Claro que pode, Jurema!
Jurema, sorrindo, pegou na mão de Cida e foi lhe mostrar a casa.
Laurinda e Neco ficaram conversando.
- Neco, vocês podem ficar aqui até amanhã.
Não precisam ir embora hoje.
Sem as crianças aqui, tem muito espaço, poderão ficar bem.
- Não, obrigado, tia, mas a gente precisa ir mesmo.
Na semana que vem, se não chover, a gente volta para ficar de vez ou até eu conseguir convencer a Jurema de a gente ir para o Sul.
- Está pensando mesmo nisso?
- Estou, sim, tia.
A nossa vida aqui é muito difícil.
Quem sabe lá, a gente vai ter mais sorte ou pelo menos uma vida um pouco melhor do que esta que tem aqui.
- Pensando assim, acho que você tem razão, mas vocês poderiam se mudar aqui para a cidade, ir morar naquela casa que o Dorival reservou para vocês.
A Jurema podia voltar a bordar e você a trabalhar com o Dorival na loja.
Mas, enfim, você é quem sabe.
Não entendo por que fazem questão de continuar morando no sítio.
- A senhora sabe que aquelas terras são da família da Jurema, já faz muito tempo.
- Sei, está bem, mas sabe que, quando quiser, é só vir.
A casa está pronta para receber vocês.
- Sei disso, tia.
Por isso, não estou preocupado.
Quem sabe a chuva chega e aí vou poder colher, mas, se não chover esta semana, a plantação vai se perder toda, aí não vai ter jeito não.
Jurema e Cida voltaram para sala.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:35 pm

- Dona Laurinda, a sua casa é muito bonita e grande! - disse Cida, entusiasmada.
- Grande demais, só para mim e para o Dorival, por isso, falo para você, Jurema.
Se não quiser morar lá naquela casa, pode vir morar aqui.
- Está bem, tia, vou pensar.
Despediram-se, saíram e subiram na carroça.
Durante a viagem de volta, Cida estava desesperada, pois sabia que, talvez, nunca mais se lembrasse de quem era, mas intimamente agradecia por ter encontrado aquelas pessoas.
Quando chegaram ao sítio, já eram quase seis horas da tarde.
Neco soltou o cavalo da carroça e lhe deu um pouco de água para beber.
Cida e Jurema entraram e foram preparar as lamparinas para iluminar a casa, pois logo mais iria anoitecer.
No fogão, algumas brasas estavam acesas.
Jurema colocou mais lenha e logo o fogo estava completamente aceso.
Em um instante, o feijão, o arroz e alguns pedaços de galinha estavam prontos.
Começaram a comer.
Cida sempre estranhou a maneira como eles comiam.
Pegavam a farinha, misturavam ao arroz e feijão e com a mão faziam pequenos bolinhos.
Como tudo para ela era estranho, aquela maneira de comer também era.
Ela não sabia como, mas sabia usar o garfo e a faca e tinha certeza de que nunca havia comido daquela maneira.
Jurema, algumas vezes, já havia tentado lhe ensinar, mas ela não se ajeitava e continuou comendo com o talher.
Terminaram de comer, foram dormir.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 11, 2017 7:35 pm

A Vida Continua
No dia seguinte, Neco preparou o café e, assim que Jurema se levantou, ele disse:
- Jurema, já que a Cida vai ficar mais tempo aqui, ela não pode continuar dormindo no nosso quarto.
Estive pensando e acho que vou abrir o outro quarto.
Com algumas madeiras que tenho lá no terreiro, dá para fazer uma cama.
Assim, ela não vai precisar ficar com medo de cair da rede.
Você pega umas palhas de milho e faz um colchão. Que acha?
- Vai abrir o quarto que era da nossa menina?
- Vou, sim.
A gente precisa de um quarto para a Cida dormir e estive pensando que não é bom a gente pensar tanto na nossa menina.
Ela foi embora mesmo e não vai voltar.
Fiquei pensando também naquilo que a tia disse.
Será que não é bom a gente ter outro filho?
- Nem pensar, Neco!
Nunca mais vou passar por tudo aquilo!
Você sabe o quanto a gente esperava dela, e que até já tinha pensado num jeito de arrumar um irmão para ela, mas agora não quero mais!
E se o outro ficar doente como ela ficou?
E se não der tempo de a gente chegar à cidade?
Não! Não quero!
- Está bem, se não quiser, não vou obrigá-la.
Estou dizendo isso, também não sei se quero passar por tudo aquilo de novo, mas que a gente precisa de outro quarto, a gente precisa.
- A gente não vai para casa do tio lá na cidade?
- Só vai se não chover, Jurema.
Por isso, amanhã mesmo vou preparar o outro quarto.
Vai que chove!
Cida, que estava no quarto, ouvia os dois conversando na cozinha.
Pensava:
Estou causando problemas para eles, e isso eu não queria.
Eles foram muito bons, me acharam e me trataram muito bem.
São meus amigos.
Preciso falar agora, antes que mudem a vida por minha causa.
Enquanto eles conversavam, ela entrou na cozinha e os interrompeu:
- Não quero atrapalhar a vida de vocês.
Antes de isso acontecer, vou-me embora.
Já fizeram muito por mim.
- Que nada, Cida!
A gente só está encontrando um jeito de você ficar bem.
Não está causando problema, não.
Também, aonde você vai?
Não conhece ninguém aqui!
- Sei disso, Jurema, mas já fizeram tanto por mim...
- A gente não fez nada que não pudesse fazer.
Não fique preocupada.
Acho que o Neco tem razão.
A gente precisa de um quarto, e tem um.
Só não queria mexer porque foi o quarto da nossa menina, mas ele está certo.
Embora com o coração apertado, preciso entender que ela não vai voltar mais.
Neco, faça isso.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:56 pm

Amanhã, prepare a cama que eu e a Cida vamos fazer o colchão.
Neco saiu enquanto pensava:
Há muito tempo estou tentando ver a Jurema conformada com a morte da Dalvinha, porém, não podia fazer muito, pois eu mesmo não estou conformado.
Agradeço a Deus por ter enviado essa estranha, não sei se ela está dizendo a verdade, se está mesmo esquecida, mas a Jurema se apaixonou por ela, nem sei por quê.
Eu também gosto dela.
Parece tão humilde e amedrontada.
Quem sabe se, com a presença dela aqui, aos poucos, a gente consegue se libertar dessa dor e saudade que sentimos da nossa menina.
Agora tem outra pessoa na casa para proteger, que não é criança, mas até parece que é.
Jurema, percebendo que Cida estava preocupada, disse:
- Cida, você nunca dormiu na rede, mas lhe garanto também que nunca dormiu em um colchão macio, como esse que a gente vai fazer.
Cida, sem perceber, sorriu.
Também estava com muito medo de sair de lá, pois não saberia para onde ir e o que fazer.
Jurema, ao ver que estava tudo bem, ficou mais tranquila.
Abraçou Cida, sem nada dizer.
Apenas pensou:
Quem é essa moça?
Por que a gente gosta tanto dela e quer protegê-la?
Não sabia a resposta, mas também não se importava.
- Bom, o que a gente tem que fazer agora, é ir dormir.
Amanhã vai ser outro dia. Ora se vai...
Ao amanhecer, Neco foi para o quintal e pegou algumas madeiras.
Foi em direcção ao galpão que havia ao lado da casa.
Lá, ele tinha pregos e ferramentas.
Com um serrote, martelo e alguns pregos, começou a fazer uma cama tosca.
Jurema pegou um lençol branco, dobrou ao meio e, com uma agulha de mão, costurou dois lados, deixando um deles aberto, por onde ela e Cida colocaram palha seca de milho.
Esse trabalho durou o dia inteiro.
Quando já estava quase escurecendo, Neco, de dentro da casa, chamou as duas.
Assim que elas chegaram, ele, com uma chave que tinha na cintura, abriu a porta.
Entraram. Cida se emocionou ao ver um berço, armário, alguns bichinhos e bonecas feitas com palha de milho.
Algumas bonecas tinham roupinhas que provavelmente haviam sido costuradas por Jurema.
Ela ficou parada sem saber o que fazer.
O quarto estava muito limpo.
Jurema devia limpar sempre.
Ela olhou para eles e percebeu que lágrimas caíam de seus olhos.
Após olhar por um instante, Neco disse:
- Bem, Jurema, chegou a hora de a gente tentar esquecer tudo o que passou e começar uma vida nova.
A gente nunca vai esquecer a nossa menina, mas, agora, a gente precisa do quarto para essa moça que ninguém sabe de onde veio, mas que está aqui.
Vai me ajudar a tirar tudo daqui?
Jurema, enxugando uma lágrima, respondeu:
- Está bem, Neco, a gente vai ajudar você.
O que vai fazer com o berço?
- Vou levar lá para o barracão.
Vai ficar ali até quando a gente for de novo para cidade.
Depois, vou dar ao padre.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:56 pm

Quem sabe, ele não tem lá uma criança precisando de um berço.
- É sim, Neco.
A gente vai fazer isso.
Cida, ajude-me a levar tudo lá para fora.
Depois, a gente traz a sua cama aqui para dentro.
Cida não respondeu, apenas consentiu com a cabeça.
Neco saiu.
Jurema, com cuidado, foi tirando e dobrando a colcha e o lençol do berço.
Depois, tirou toda roupinha que havia no guarda-roupa e colocou dentro de algumas caixas que Neco lhe trouxe.
Enquanto fazia isso, ficou calada e pensando:
Neste momento, tenho de entender que é preciso fazer isso.
A minha menina foi embora mesmo e essa moça precisa de ajuda.
Meu Deus, por que levou a nossa menina?
Por que manda agora essa estranha e por que a gente gosta tanto dela?
Assim que ela terminou de tirar a roupa da cama, Cida ajudou a levar as caixas para o barracão.
Depois, pegou uma vassoura e começou a varrer, embora quase não houvesse poeira.
Enquanto Neco levava o berço para o galpão, seu coração batia forte, lembrando-se das vezes em que colocara sua menina para dormir.
Um caroço se formou em sua garganta e ele fez um esforço imenso para não chorar.
Chegou ao barracão.
Agora, estava longe de Jurema, poderia, assim, deixar sua tristeza explodir.
Começou a chorar e a lembrar:
O dia em que a gente casou foi o dia mais feliz da nossa vida.
A gente planeou tanto, veio morar aqui.
Fazia muito tempo que não tinha seca.
A gente plantou junto e pensava em ver a casa cheia de criança.
A Jurema queria muitos filhos e eu também, porque na nossa casa tinha muita gente.
Meu pai dizia:
- Uma casa, para ser feliz, tem que ter muita gente.
Eu conhecia a Jurema desde criança e sempre dizia que ia me casar com ela.
Quando a gente se casou, a Jurema tinha dezasseis anos e eu dezoito.
A gente era muito criança, mas se gostava muito.
A Jurema demorou um pouco para esperar criança.
A gente já estava casado há mais de um ano, quando ela disse:
- Neco, acho que estou esperando criança!
Não sei dizer o que senti.
Só sei que fiquei muito feliz.
Assim que soube que a nossa criança ia chegar, eu fiz o quarto junto do nosso e a Jurema fez toda a roupinha, com bordado e renda.
Ela trabalhava aqui neste barracão.
O trabalho dela era muito procurado, por isso o tio pagava bem e nunca faltava trabalho para ela.
Durante todo o tempo em que a gente esperou a criança, ela trabalhou.
Todo tempo ficava falando em como ia ser a criança.
- Neco! No que você está pensando?
Ele ouviu a voz de Jurema, engoliu seco e respondeu:
- Na nossa vida e em tudo que a gente já sofreu...
- Tem razão e, hoje, a gente está tirando a tristeza do coração, está tentando deixar de sofrer.
A gente tem de cuidar dessa moça, até ela se lembrar quem é e de onde veio.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:56 pm

Vou ajudar você a levar a cama lá para o quarto.
Ele pegou de um lado da cama e ela do outro.
Cida chegou e os ajudou.
Ela ainda não estava conformada com aquela situação, mas sabia que não poderia fazer nada.
Só agradecer àquelas pessoas e esperar, como o padre havia dito, o dia em que, do nada, sem saber como, se lembraria de tudo.
Neco, tentando demonstrar que estava tudo bem, disse:
- Cuidado aí vocês duas!
Não deixem a cama cair.
Se quebrar, não tem mais madeira para fazer outra!
- Que é isso, Neco?
A gente é mulher, mas é forte.
Não é mesmo, Cida?
- Isso mesmo, Neco!
Você é que tem de ter cuidado.
Com nós duas, não há problema.
Chegaram à porta do quarto.
Colocaram a cama no chão.
Precisaram virar a cama para que ela entrasse.
Seguindo as instruções de Neco, logo a cama estava dentro do quarto.
Enquanto ele a colocava no lugar em que iria ficar, Cida e Jurema foram buscar o colchão que estava no quintal.
Logo a cama estava no lugar.
Jurema colocou um lençol branco e um travesseiro que também tinha feito, de palha de milho.
Mexendo no colchão e no travesseiro, disse:
- Olha como está macio, Cida!
- Está macio mesmo!
Acho que agora vou dormir muito bem, sem medo de virar e cair, como acontecia com a rede!
- O Neco tinha razão, você precisava mesmo de uma cama.
Agora, a gente só precisava que a chuva chegasse para tudo ficar bem.
- E eu de me recordar do meu passado.
Depois que o padre disse aquilo, estou com tanta esperança.
Acho que logo vou me recordar.
- Vai sim, vai sim.
Agora, vou lá para cozinha preparar a comida.
- Vou ajudar você.
Saíram do quarto.
Neco foi para o quintal, guardou o cavalo e fechou o barracão.
Naquele momento, Cida sabia que, assim como Jurema e Neco, que estavam tentando deixar o passado para trás, ela precisava fazer o mesmo.
Precisava aceitar, porque, assim como a deles, sua vida também precisava continuar.
Acordaram no dia seguinte.
Cida estava sentindo-se muito bem.
Pela primeira vez, desde que chegou, dormiu tranquila e sem medo.
Neco e Jurema conversavam na cozinha:
- É, Neco, acho que a gente vai ter que ir, mesmo, para a cidade.
Isso dá uma tristeza, não dá?
- Dá, sim, mas estive pensando muito.
Você já sabe que não tem outro jeito, não.
A gente vai e, dessa vez, não quero mais voltar.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:56 pm

Cansei dessa vida.
Vou escrever para o Dodô.
Faz muito tempo que ele está lá no Sul.
Vou perguntar se dá para a gente ir para lá.
- Não, Neco! Eu não quero sair daqui!
- Sei que não quer.
Eu também não quero, mas não tem mais jeito, não.
A gente vai para casa do tio, fica lá por um tempo, depois a chuva vem e a gente começa tudo de novo, e aí a seca volta.
Não dá mais, Jurema.
Estou cansado dessa vida.
- Mas, Neco!
Aqui é a nossa terra!
A nossa casa!
O que a gente vai fazer lá no Sul?
- Não sei. Por isso é que vou escrever para o Dodô e perguntar o que a gente pode fazer.
- Eu não quero ir, mas se você acha que tem que ser assim, eu vou.
Faço qualquer coisa, só não quero ficar longe de você...
- Também não quero ficar longe.
A gente só vai, se der para os dois irem.
Jurema ficou parada, olhando para o marido.
Não sabia o que dizer.
Sempre soube que esse dia chegaria, mas tinha a esperança de que demorasse muito.
- Está bom, se não tiver outro jeito, a gente vai.
Mas e a Cida?
O que a gente vai fazer com ela?
- Ela vai junto.
A gente sabe que ela é lá do Sul.
Quem sabe, ela consegue encontrar a família, não é?
Cida estava no quarto escutando tudo.
Uma luz de esperança passou por sua cabeça.
Aquela era sim uma solução para o seu caso, pensou:
quem sabe, no Sul, conseguirei descobrir quem sou e de onde vim.
Será, que tenho pai, mãe e irmãos?
Não posso continuar assim.
Preciso me lembrar!
Por que isso está acontecendo comigo?
Levantou-se, abriu a porta e entrou na cozinha, onde eles conversavam.
- Bom-dia.
- Bom-dia, Cida.
Dormiu bem?
- Dormi muito bem, Jurema.
A cama é mesmo confortável.
Preciso confessar que é bem melhor dormir nela do que na rede.
- A gente sabe.
Dormir na rede é só para quem tem costume.
Não quer tomar café?
Já está pronto.
- Quero, sim, desculpem, mas não pude deixar de ouvir o que falavam.
Pretendem mesmo ir embora para o Sul?
- A gente estava conversando sobre isso.
Parece que a chuva não vem mesmo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:57 pm

A gente já passou por isso antes, mas, agora, já falei à Jurema que não dá mais.
- Eu vou mesmo junto com vocês?
- Claro que vai!
Imagine, Neco, se a gente vai abandoná-la?
Nem pensar! Não é mesmo?
- É isso mesmo, Cida.
Aonde a gente for, você vai junto.
- Ainda bem.
Não sei o que faria sem vocês.
Não tenho ideia do que fazer da minha vida.
- Por enquanto você não vai fazer nada, só vai tomar café.
Cada um pegou um copo de café e foram tomar no quintal.
Tomando o café, Cida pensou:
Definitivamente, a vida continua mesmo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:57 pm

Visita do Além
Outro dia passou, amanheceu novamente.
Cida abriu os olhos, espreguiçou-se na cama, olhou à sua volta e sentiu-se feliz.
Agradeceu a Deus por ter uma cama confortável e aqueles amigos.
Levantou-se, saiu e viu Jurema que estava abanando a mão para Neco que se distanciava com a carroça.
- O Neco não vai tomar café?
- Já tomou, ele acorda sempre muito cedo, faz e toma café.
Foi ver se encontra um pouco de água, pois a nossa está acabando.
Neco abanou a mão para as duas que estavam na porta da casa.
Assim que ele desapareceu, Cida disse:
- Jurema, você não quer ir embora daqui, não é?
- Não quero, não...
- Por quê?
- A gente não sabe como é lá.
Só sabe que a cidade é muito grande e que eles falam diferente.
- Só isso?
- Também aquilo que os amigos contam.
Um amigo da gente foi para o Sul e, depois de um tempo, voltou, veio todo bonito, com roupa nova, um rádio de pilha e óculos escuros.
Disse que está muito bem, que trabalha na construção e que mora nela.
Disse ao Neco para ir lá, pois tem bastante serviço.
O Neco ficou todo animado.
Mas eu ainda tenho muito medo.
Faz um bom tempo que o Dodô, outro amigo, foi.
A gente não sabe como ele está.
Ele é nosso amigo desde criança e é o melhor amigo do Neco.
Por isso, o Neco vai escrever para ele e, se ele disser que tem trabalho, a gente vai mesmo e seja tudo o que Deus quiser...
- Você disse que vai me levar junto.
Estou feliz, pois, quem sabe, eu encontre alguém que me conheça.
- Isso mesmo, Cida.
Aí vai ficar tudo certo, não é mesmo?
- Eu não aguento mais essa cabeça oca.
Parece que comecei a viver no dia em que cheguei aqui.
Antes disso, não tem nada.
- É estranha essa sua doença, como pode ser?
- Não sei... não me lembro de ter ouvido falar nisso, mas também não me lembro de nada.
Será que o padre tinha razão quando disse que a qualquer momento eu vou me lembrar de tudo?
- Não sei, mas o padre deve saber o que está dizendo.
Para ser padre teve que estudar muito.
Ele não é ignorante como a gente, não.
- Tomara que seja verdade.
- Por quê? Você não está feliz aqui com a gente?
Não gosta da gente?
Cida sorriu enquanto passava a mão carinhosamente no cabelo de Jurema e respondeu:
- Não é nada disso, Jurema!
Só que preciso saber quem sou e de onde vim. Só isso.
- Ainda bem.
Não sei quem você é, nem de onde veio, só sei que gosto muito de você...
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Ave sem Ninho

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:57 pm

- Eu também gosto muito de você e também não sei por quê.
- Está bem, mas chega de prosa, vamos andar por aí e ver se a gente encontra algum ovo para comer.
Quando o Neco voltar, vai estar com muita fome.
Saíram e ficaram um bom tempo procurando pelos ovos.
Assim que encontraram, foram juntas preparar o almoço.
Não tinha muita coisa, mas a comida de Jurema era feita com tanto carinho que parecia se multiplicar.
Terminaram o almoço.
Foram para o quintal esperar Neco voltar.
Assim que saíram, viram que ele estava chegando.
Ele se aproximou.
Elas correram para junto da carroça e o ajudaram com as latas de água.
Jurema perguntou:
- Conseguiu água, Neco?
- Consegui, só que está barrenta.
Vai precisar ferver e coar.
- É... a gente tem de fazer isso.
A Liliane ensinou.
Neco retirou as latas da carroça e elas as levaram para dentro.
Depois, ele levou a carroça para os fundos do quintal.
Desatrelou o cavalo e o amarrou no tronco de uma pequena árvore.
Era a única que resistia a seca.
Sentou-se em um banco ao lado do barracão.
Ficou ali, olhando para o horizonte e pensando.
Cida e Jurema continuavam dentro da casa, colocando a água em baldes de alumínio brilhantes.
Quando terminaram de guardar toda a água, Jurema disse:
- Não sei não, Cida, mas parece que o Neco não está bem, não.
- Por que está dizendo isso?
- Eu conheço o Neco já faz bastante tempo e sei quando ele está pensando.
Acho que aconteceu alguma coisa que o deixou desse jeito.
- Não percebi nada.
- Mas eu sim.
Vou lá falar com ele.
Venha também.
Cida acompanhou-a.
Assim que chegaram junto dele, Jurema perguntou:
- Neco, o que aconteceu?
- Não aconteceu nada, só estou um pouco atrapalhado da cabeça.
- Como assim?
- Quando saí para buscar água, aconteceu uma coisa estranha.
- Que coisa?
- No caminho, fui olhando com tristeza para toda aquela terra seca, pensei:
Por que acontece sempre isso?
Essa terra é a minha terra!
Foi onde nasci! Gosto daqui!
Por que tenho que ir embora?
O que vou fazer lá no Sul?
Não sei nada de lá!
Nunca saí daqui, a não ser quando era ainda um rapazinho e fui com meu pai para Salvador.
Sem perceber, eu estava rindo, lembrando-me daquele dia e de como fiquei assustado quando cheguei lá.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:57 pm

- Ficou assustado com o quê, Neco?
- Com toda aquela gente que ia e vinha.
Nunca tinha visto aquilo antes.
E, quando vi, numa loja, uma caixa de dentro da qual um homem falava, levei um susto maior ainda.
O homem da loja disse que era a televisão.
Fiquei encantado.
Queria uma, mas o homem disse que precisava ter luz eléctrica e a gente não tinha.
Meu pai viu a tristeza na minha cara.
- Não fica triste, meu filho.
A gente não tem luz eléctrica, mas tem a luz do sol e não tem nada mais bonito.
O progresso está chegando à nossa cidade e logo, logo, a gente vai ter, lá em casa, essa caixa que fala.
- Aquela lembrança me deixou muito feliz e, ao mesmo tempo, com muita saudade e tristeza, pois meu pai morreu sem ver na nossa casa uma televisão.
Até hoje, a luz eléctrica não chegou nem a caixa que fala.
Ele era meu amigo.
Tentou me ensinar tudo o que sabia.
Ele me disse o mais importante naquele dia que a gente estava sentado em embaixo de uma árvore.
- Olha, meu filho, agente é pobre e vive nesta terra que às vezes é seca, mas quando a chuva chega, não tem terra mais bonita nesse mundo todo.
Você ainda é muito pequeno, mas quando crescer, não esquece nunca que a pobreza não é desculpa para agente fazer coisa errada.
Deus do céu é quem sabe por que a gente nasceu aqui e pobre.
Algum motivo deve ter.
Você tem que ser sempre honesto e, se puder ajudar alguém, deve ajudar, mas nunca prejudicar.
Vive bem a sua vida.
- Meu pai era muito inteligente.
Sempre que ia à cidade comprava jornal.
Não sabia ler, mas ficava olhando as figuras e tentava adivinhar o que estava escrito.
Quando fiquei com a idade de ir para a escola, ele, sempre que podia, caminhava a pé junto comigo, por mais de uma hora.
Assim que eu entrava na escola, ele ficava do lado de fora, esperando que eu saísse.
Enquanto a gente voltava, eu contava tudo o que eu tinha aprendido.
Eu contava e ele ficava feliz.
Quando chegava a casa, pegava um jornal velho e perguntava que letra era aquela que estava ali.
Eu falava e ele ia juntando e fazendo uma palavra.
Jurema! Por que ele teve que morrer tão cedo?
Queria que ele estivesse aqui para me ajudar a escolher o caminho que a gente precisa seguir... sei que ele nunca quis sair daqui, mas agora, perdoa, pai, não tem jeito não.
Sabe, Jurema, quando me lembrei de tudo isso, comecei a chorar.
Você acha que homem pode chorar?
- Todo homem desta terra, diz que não.
Não sei, mas acho que sim, porque homem também tem sentimento, igual à mulher, não é mesmo!
- Não sei se pode, mas eu chorei de saudades do meu pai.
Depois, sequei a lágrima com a barra da camisa e fui seguindo na direcção do açude.
Não sabia se, quando eu chegasse lá, ainda ia encontrar água, mas tinha que tentar.
Se não encontrasse, a gente ia ter que, amanhã mesmo, ir embora para casa do tio Dorival.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:58 pm

Cheguei no açude, tinha muita gente lá que, assim como eu, tentava pegar alguma água.
Parei a carroça, tirei as latas de trás dela, fui até a margem.
A pouca água que tinha era barrenta, mas não tinha outro jeito, eu tinha que pegar aquela mesma.
Fui colocando um pouco de água em cada lata, mas só até a metade, porque sabia que, com o balanço da carroça, se ela estivesse muito cheia, a água ia cair e isso eu não queria.
Não podia desperdiçar.
Assim que coloquei todas as latas em cima da carroça, olhei para as outras pessoas que também estavam buscando aquele líquido precioso.
A maioria carregava lata e balde nos ombros.
Até criança ajudava os pais.
Pensei: Não sei do que estou reclamando, eu ainda tenho cavalo e carroça.
Enquanto eu pegava a água, Ciclone, o meu cavalo, bebia daquela mesma água.
Subi novamente na carroça e peguei o caminho de volta.
A lembrança do meu pai me deixou triste, mas, ao mesmo tempo, me deixou sossegado.
Sentia um bem-estar que eu não conseguia explicar.
Voltei a pensar nele e comecei a conversar em pensamento, como se ele estivesse ali:
Pai, sei o quanto o senhor amou esta terra.
Sei que o senhor jamais ia sair daqui, mas pode ver que não tem outro jeito.
Aqui sempre foi assim e vai ser para sempre.
Como eu queria ver tudo verde e poder colher a minha plantação...
Neco contava o que tinha acontecido, mas ele mesmo não sabia que, enquanto pensava no pai ao seu lado, na carroça, um vulto o acompanhava e sorrindo lhe disse:
- Sei tudo o que está sentindo, meu filho.
Muitas vezes, passei por isso, mas sempre alguma coisa acontecia e eu continuava aqui.
Existem mistérios no céu, que quando a gente está vivo não conhece.
Quando a gente morre, esses mistérios são esclarecidos e se descobre que muitas vezes a gente sofre sem necessidade.
Ninguém sabe como é a vida, mas posso lhe dizer que tudo está sempre certo e que cada um está no lugar em que deve estar.
Amo você, meu filho.
Você ainda vai passar muita coisa, mas vou estar sempre ao seu lado.
Fique sossegado.
- Vocês não vão acreditar, mas pareceu que ouvi a voz do meu pai dizendo umas coisas bonitas.
Não ouvi, mas senti como se ele estivesse lá do meu lado.
Parece que fiquei louco!
Comecei a conversar com ele no meu pensamento e parecia que ele respondia.
- Pai, onde o senhor está?
Será que existe mesmo um céu como o senhor falava?
- Claro que existe, meu filho!
Você não sabe, mas está no céu, quando está ao lado da sua Jurema a quem ama tanto.
Está no céu, no momento em que vai colher o que plantou.
Está no céu, nos momentos de esperança que sente em relação à vida.
Está no céu, agora, neste momento em que deixa seu espírito livre.
Muitas vezes, a gente, aqui mesmo na Terra, está no céu e não percebe.
- Sabe, pai, tenho muitas saudades suas.
Queria que estivesse aqui do meu lado.
Sei que o senhor era muito inteligente e que sabia muita coisa da vida, por isso, ia saber mostrar um caminho para eu seguir.
- Também tenho saudades, por isso, estou aqui, mas o caminho é seu.
Você é quem tem que escolher.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:58 pm

Eu só posso ficar ao seu lado, seja ele qual for.
Assim dizendo, ele se aproximou do rosto do filho e o beijou.
Neco disse para elas que o ouviam atentamente:
- Teve uma hora que senti que o meu pai me beijava.
Então, pensei:
Nossa! Parece que o meu pai está aqui!
Estou até conversando com ele...
Eu não estava assustado, apenas ri de mim mesmo.
Senti depois, como um ar fresco se afastando.
Por um momento, achei que ele estivesse indo embora.
Por isso estou assim.
Não vi o meu pai, mas acho que ele estava do meu lado.
Não sei bem o que aconteceu, só sei que, depois disso, não tenho medo de mais nada.
Fiquei bem. Sei que preciso decidir a minha vida e é isso que vou fazer.
Não quero ir embora daqui, mas, se precisar, se não tiver outro jeito, a gente vai.
Neco terminou de contar o que tinha acontecido.
Elas estavam impressionadas. Jurema disse:
- Nossa, Neco! Estou toda arrepiada!
Será que o seu pai veio mesmo falar com você?
- Não sei, mas acho que sim.
Ele sabe que eu não quero ir embora, mas senti que, se precisar ir, ele não vai ficar triste.
- Credo, Neco!
Vamos parar de falar dessas coisas!
Do contrário, eu não vou conseguir dormir.
Você sabe que tenho medo de assombração!
Cida também ouviu a história que Neco contou.
Assim como Jurema, ficou impressionada, mas calou-se.
Ela não entendia nada daquilo.
Neco, rindo, disse:
- Jurema, pare com isso!
Meu pai não é assombração e se ele veio me ver, foi porque sentiu saudade, só isso.
Vamos entrar que estou com fome.
-- Não sei não, Neco, mas todo mundo que morre vira assombração e eu não gosto de falar nessas coisas.
- E se fosse o seu pai ou a sua mãe, ia ter medo também?
- Credo, Neco!
Do meu pai e da minha mãe, não!
Eles não iam querer me fazer mal!
- Você acha que o meu pai ia?
- Acho que não, mas mesmo assim não quero ver nenhum deles!
Cruz credo.
- E se fosse a Dalvinha?
Você ia querer ver?
- Eu gostaria de vê-la sim... queria pegá-la no colo de novo...
Neco, será que ela vem visitar a gente?
- Não sei, mas seria bom se ela viesse, não seria?
- Seria sim, Neco. Seria sim...
Ao lado deles, sem que vissem, estava o pai de Neco com uma menina ao seu lado.
Ela se aproximou primeiro de Jurema, depois de Neco e os beijou carinhosamente.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:58 pm

Disse:
- Eu gosto muito da senhora, mãe e do senhor também, pai.
Mãe, não chore não, eu estou aqui sempre que posso.
Parecendo sentir aquele beijo, Neco disse:
- Jurema, acho que senti um beijo, será que foi dela?
- Não sei não, mas acho que senti também.
Neco, será que depois que a gente morre e fica mesmo andando por aí. Será?
- Não sei, Jurema, mas se for assim, é muito bom.
Já pensou se a gente, depois que morrer, puder visitar todo mundo de que a gente gosta?
Jurema não respondeu, apenas sorriu.
O pai de Neco disse para a menina:
- Eles nem imaginam o quanto a gente fica do lado deles.
Eu também não imaginava.
Foi preciso eu morrer para descobrir.
Agora, a gente precisa ir, sabe que temos muito a fazer.
Vamos embora?
- Eu não queria, mas o senhor tem razão, vovô, a gente tem muito a fazer.
Posso dar mais um beijo neles?
- Claro que pode.
A menina aproximou-se novamente e tornou a beijá-los.
Em seguida, pegou na mão do avô e os dois desapareceram.
Jurema, ainda sentindo o beijo, disse.
- Vamos parar de falar nessas coisas e vamos comer.
Faz tempo que a comida está pronta.
Neco e Cida concordaram com ela, entraram e foram almoçar.
Depois do almoço, Jurema disse:
- Cida, agora, o Neco vai fazer um braseiro lá fora e a gente vai ferver toda essa água.
Não é muita, mas vai dar até a gente preparar tudo para ir à cidade.
- Temos que ir mesmo, Jurema?
Tenho medo, pois já me acostumei aqui.
Entretanto, na cidade, talvez encontre alguém que me conheça.
- É verdade, mas a gente não sabe nada da vida nem o que vai acontecer hoje, muito menos amanhã.
De repente, a vida muda, não é mesmo?
- É mesmo... olha o meu caso... o que será que me aconteceu?
- A gente não sabe, mas, como disse o padre, você logo, logo vai se lembrar de tudo.
Agora, não adianta ficar pensando nisso.
A gente tem é que ferver e coar toda essa água.
Cida ficou calada.
Levantou-se, tomou café e foi ajudar Jurema com a água.
Ficaram em silêncio por alguns minutos.
Ela quebrou o silêncio, dizendo:
- Jurema, posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro que pode! O que é?
- Não sei se você vai ficar triste ou não vai querer falar sobre esse assunto.
Se assim for, eu entenderei, mas gostaria de saber como foi que a sua menina morreu.
Jurema parou no alto a mão, onde segurava uma panela com água, olhou bem para Cida, os seus olhos se encheram de água.
Ao vê-la naquele estado, Cida se arrependeu de ter tocado naquele assunto, mas já estava feito.
Tentou contornar:
- Se isso vai deixá-la triste, não precisa contar nada.
É apenas curiosidade, só isso...
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:58 pm

- Você tem razão, Cida, não gosto de falar desse assunto, mas ele não sai da minha cabeça.
Minha menina, no mês que vem, ia fazer cinco anos, mas foi embora e nunca mais vai voltar.
- O que aconteceu?
Jurema, que estava em pé colocando a água no balde, sentou-se em uma cadeira e disse:
Deus é Quem sabe das Coisas
- Cida, sente-se aí, vou contar tudo... a gente ficou muito feliz quando eu soube que ia ter uma criança.
O Neco aumentou mais um quarto e fez aquele berço que você viu.
Todo o tempo eu passei muito bem.
No último mês, antes de a criança nascer, eu fui para casa da tia Laurinda.
Você sabe como ela gosta da gente.
No dia em que ela percebeu que a criança ia nascer, mandou chamar a dona Teresa, que é a parteira da cidade.
Ela tem mais ou menos cinquenta anos, já ajudou muita criança a nascer.
Depois, a tia mandou o Chico chamar o Neco, que tinha ficado aqui no sítio para cuidar de tudo.
O Neco veio, chegou um pouco antes de a menina nascer.
Não demorou muito, ela nasceu e era linda.
Tinha muito cabelo, a tia até brincou:
- Nossa! Essa menina é muito cabeluda!
Nunca vi uma criança nascer com tanto cabelo!
O cabelo dela vai ser forte e bonito!
- Enquanto dona Teresa cuidava de mim, a tia deu banho na menina, vestiu, enrolou em um cobertor e ela ficou bem durinha.
Quando peguei a menina no colo, senti uma emoção que não sei como explicar.
Não entendia como uma coisinha daquela tinha saído de dentro de mim.
Ela abria e fechava os olhinhos.
Fiquei com medo de segurar no colo e deixá-la cair.
A tia brincou:
- Pode pegar, ela não vai quebrar, não!
- Eu sabia que a tia entendia do que estava falando, mas eu continuava com medo.
Naquele momento, aquela criança era a coisa mais importante da minha vida.
Devagar, o Neco chegou perto da cama e me beijou na testa.
Depois, olhou para a menina que estava nos meus braços, abrindo e fechando os olhinhos.
Ele também não teve coragem de pegar a menina no colo.
Dona Teresa guardou o material que usou em uma maleta e disse à tia tudo o que ela tinha que fazer para cuidar de mim e da menina.
Eu fiquei calada.
Estava encantada com a minha menina e não conseguia deixar de olhar para ela.
Tia Laurinda acompanhou dona Teresa e deixou-nos sozinhos.
Neco estava com os olhos cheios de água.
A menina chorou.
Chorou não, deu um grunhido.
A gente começou a rir.
Ele disse:
- Ela é muito bonita, não?
Parece com você...
- Não sei, não...
A tia disse que ela está vermelha e inchada, mas que amanhã vai ficar melhor e a gente vai poder ver o rostinho dela direito.
Disse que só daqui a uns meses é que vamos poder ver mesmo como ela vai ficar.
Disse que, por enquanto, ela é igual a toda a criança quando nasce.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:58 pm

- Acho que a tia não está certa, não!
Ela é linda!
- Eu não disse nada, só ri.
Também achava que era a mais bonita do mundo.
Depois de um tempo, Neco perguntou:
- Que nome a gente vai dar para ela?
- Pensei um pouco, depois respondi:
- Queria que ela tivesse o nome da minha mãe: Dalva.
Eu acho muito bonito e você?
- Também gosto.
Está certo, vou lá no cartório para registar e aproveitar para contar para todo mundo que ela nasceu.
- Não consegui deixar de ficar feliz vendo a felicidade dele.
Ele saiu correndo do quarto.
Eu fiquei ali com a Dalvinha no colo.
A tia voltou e a colocou no berço que tinha sido dos filhos dela.
Eu estava muito feliz, não me lembrava mais da dor que tinha sentido.
Fiquei na casa da tia quase um mês.
Ela me ensinou a dar banho, trocar e até como dar de mamar.
Eu não sabia de nada.
O Neco voltou antes aqui para o sítio.
Estava quase chegando a hora de colher a plantação.
Naquele ano, choveu muito e a gente estava feliz com tudo.
Ainda mais com a nossa menina.
Cida acompanhava as palavras de Jurema e percebeu que, enquanto ela contava, seus olhos estavam distantes, nem parecia que estava ali sentada à sua frente.
De repente, Jurema parou de falar.
Cida, também emocionada, disse:
- Ouvindo tudo isso que está me contando, vendo a emoção que sentiu ao pegar sua Dalvinha no colo, fico pensando:
será que também já vivi essa emoção?
Será que, um dia, já tive um ou mais filhos?
Se eu tive filhos, eles devem estar sentindo a minha falta.
Não sei a minha idade, mas, pela aparência, não sou muito velha, por isso, se tiver algum filho, ele ou eles devem ainda ser crianças.
Como é triste não se saber o que se foi ou fez na vida...
Quando terminou de dizer essas palavras, estava chorando.
Jurema percebeu que, logo, ela estaria desesperada, como sempre ficava quando se lembrava da sua situação.
Sabia que ela ia começar a chorar e que ficaria várias horas chorando sem conseguir parar.
Tentando evitar que aquilo acontecesse, disse:
- Cida! Não vai começar a chorar!
Você não queria saber o que aconteceu com a minha menina?
- Quero sim, mas é que não consegui evitar.
Será que tive filhos?
- A gente não sabe.
Mas já lhe disse que não adianta ficar aflita.
Logo, vai se lembrar.
Só tem que ter paciência.
Agora, vou continuar contando o resto.
Cida ajeitou-se melhor na cadeira em que estava sentada e ficou olhando para Jurema, que continuou:
- Quando cheguei aqui com a menina, já sabia como tratar dela.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:59 pm

A tia tinha me ensinado tudo.
Cuidei dela com todo o carinho.
Neco ficou bobo com ela.
Cada gracinha que ela fazia era motivo para a gente rir muito.
Antes de ela nascer, eu bordava e fazia renda para o tio Dorival.
Algumas vizinhas de outros sítios aqui perto vinham para cá, elas também trabalhavam para o tio.
A gente terminava o trabalho, depois o Neco levava lá para o tio, entregava e trazia mais.
Foi por isso que o Neco fez o barracão e colocou aquela mesa com uns bancos de cada lado.
Enquanto a menina crescia, ficava dentro de uma caixa que eu forrei com palha de milho.
Ela não tinha ainda um ano quando começou a andar.
Era muito esperta.
Com dois anos, já falava quase tudo.
Eu continuei trabalhando e ela ficava por ali, brincando e correndo atrás das galinhas.
Neco cuidava da plantação e voltava logo para ficar com ela.
Passeava com ela no cavalo.
Ela era toda a nossa felicidade.
Jurema parou de falar, sentiu na garganta como se fosse um caroço.
Sua voz quase sumiu.
Lágrimas corriam por seu rosto.
Cida ficou preocupada com a sua aparência.
- Jurema, você não está bem, vamos mudar de assunto.
Deixe esse para outro dia.
- Não, se eu não contar agora, não conto nunca mais.
A lembrança dói, mas eu preciso enfrentar, não tem mesmo jeito... a minha menina não vai voltar nunca mais.
A tia, que era madrinha dela, já estava preparando a festa do aniversário.
Os filhos dela já tinham crescido, por isso, ela fazia tudo para Dalvinha.
Eu tinha terminado de bordar um vestidinho que ela ia usar na festa.
Fiz aquele vestido com muito carinho. Era azul.
Como todos os dias, eu estava no barracão bordando e ela brincava por ali, onde eu pudesse vê-la.
Enquanto eu bordava, ia conversando com as outras mulheres.
A gente, entre um ponto e outro, ficava de olho nela.
Eu, por um momento, me distraí, por isso, demorei para sentir a falta dela.
Quando percebi, chamei, mas ela não respondeu.
A gente levantou e foi ver onde ela estava.
Ela estava deitada no lado do barracão, onde a gente não podia ver.
Quando vi que ela estava caída, comecei a gritar e correr para junto dela.
Chorando e gritando, me abaixei:
- Dalvinha! O que você tem?
Abre os olhos!
- Chamei, chamei, mas não adiantou.
Ela não abria os olhos.
Enquanto eu estava ali, uma das mulheres foi chamar o Neco, que veio correndo.
Ele também se abaixou, colocou a mão no pescocinho dela e disse, nervoso:
- Está respirando, mas parece que está desmaiada, vou levar minha menina para a cidade.
O Doutor Evaristo vai saber o que fazer!
Jurema, vamos logo!
- Pegou a Dalvinha no colo e foi para junto da carroça.
Eu o acompanhei.
Ele me devolveu a menina e, rápido, atrelou o cavalo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 12, 2017 7:59 pm

Saímos em disparada, o mais rápido que o cavalo conseguia.
No caminho, ela acordou.
Quando me viu chorando, perguntou com a voz baixa e fraca:
- Mãe, por que está chorando?
- Por nada, minha filha... por nada... você está bem?
Está sentindo alguma dor?
- Não, não está doendo nada.
- Está bem.
Então, fica bem quietinha, a gente já está chegando.
- Assim que a gente entrou na cidade, o Neco foi directo para casa do doutor Evaristo.
Entrou correndo, levando a Dalvinha no colo.
Ela estava acordada, mas muito fraquinha, quase não conseguia ficar com os olhos abertos.
O doutor Evaristo, que estava atendendo uma moça, se assustou quando viu Neco entrando daquela maneira.
- Neco! Que aconteceu?
- A minha menina, doutor!
A minha menina está muito ruim.
- O doutor Evaristo olhou para Dalvinha e, por seus olhos, percebi que ele estava assustado.
Ele mandou o Neco colocar a Dalvinha na mesa.
Abriu sua roupinha e colocou aquele aparelho que os médicos usam para ouvir o coração.
Ela abriu os olhos, olhou para mim e para o Neco, sorriu e fechou os olhinhos.
O doutor começou a apertar o peitinho dela e soprar na sua boquinha, mas não adiantou.
Ela não acordou mais.
Jurema parou de falar.
Suava muito, sua testa estava toda molhada e seus olhos também.
Cida, também, não conseguiu evitar as lágrimas.
Jurema, mesmo chorando, continuou falando:
- O doutor ficou por muito tempo fazendo aquilo, até que, finalmente, disse:
- Não tem jeito, ela se foi mesmo.
- Desesperada, perguntei:
- Como assim, doutor?
- Neco, chorando muito, foi que me respondeu:
- Ela morreu, Jurema! Ela morreu!
- Eu, que nunca tinha visto ninguém morrer na minha frente, fiquei ali, parada, sem poder me mexer nem falar.
Não conseguia acreditar naquilo que estava acontecendo.
O Neco chorava muito, mas eu não.
Fiquei parada, como se aquilo fosse um sonho.
Naquela manhã, a minha menina tinha acordado como todos os dias.
Tomou café e foi brincar.
Agora, aquele homem vinha dizer que ela estava morta!
Aquilo não era verdade, não estava acontecendo!
Jurema, agora, estava em prantos, não conseguia se controlar.
Vendo-a naquela situação, Cida, sem saber o que fazer, levantou-se, estava dando a volta ao redor da mesa para chegar junto de Jurema, olhou para a porta, viu Neco que estava parado na porta de entrada.
Ele não chorava, mas a expressão do seu rosto era de muito sofrimento.
Jurema continuava chorando.
Cida abraçou-a.
Neco não disse nada, saiu correndo em direcção ao barracão.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:27 pm

Cida ficou abraçada à Jurema por um bom tempo, até que ela parou de chorar e, aos poucos, foi se recompondo.
Depois, ela tomou um copo com água que Cida lhe ofereceu.
Enquanto conversavam, não viram que Neco estava ali parado.
Enquanto Cida socorria Jurema, viu que ele saiu correndo.
Assim que Jurema se recompôs, foram atrás dele.
Ele correu até o lugar, onde Dalvinha desmaiou pela primeira vez.
Ajoelhou-se e colocou o rosto no chão.
Não conseguia disfarçar a dor que sentia.
Cida percebeu que, assim como Jurema, ele também sofreu muito naquele dia.
Percebeu que a dor que sentiam era imensa.
Ele estava ali, ajoelhado, quando elas se aproximaram.
Jurema abaixou-se, colocou a cabeça na cabeça dele, perguntando:
- Neco, o que você está fazendo aí ajoelhado?
- Eu ouvi quase tudo que você conversou com a Cida.
Lembrei-me daquele dia e vi você chorando.
Não sei o que fazer para você esquecer.
Não gosto de ver você triste, Jurema...
Ela fez com que ele se levantasse, abraçou-o, dizendo:
- Também não gosto de lembrar, mas não sei como fazer isso.
Eu tento, mas não consigo.
Não acredito até hoje que Deus fez uma maldade dessas com a gente.
A gente não merecia... não merecia não...
Ele abraçou-a com muita força, dizendo:
- Jurema, sabe que não adianta ficar assim... ela foi embora para sempre.
A gente agora vai ter que ir para a cidade e depois para o Sul.
Assim que a gente chegar lá, vamos ter outra criança.
- Não, Neco!
Não quero outra criança!
- Por que não?
Eu não quero mais pensar nisso, Jurema!
Perdi a minha menina, foi porque Deus quis, mas agora, o que me deixa mais triste, é ver que, até agora, você não aceita.
Eu também senti a morte dela, mas sempre soube que tinha sido a vontade de Deus.
Você não, Jurema!
Não se conforma e vive dizendo que se a gente não morasse tão longe da cidade, tinha dado tempo de salvar a nossa menina.
Eu sei que você pode estar certa, mas sei que não adianta ficar sofrendo.
A única coisa que posso fazer é pedir para Deus ajudar a gente e fazer você esquecer ao menos por um dia... a gente é ainda muito moço e pode ainda ter outros filhos.
Meu Deus, ajude a agente!
Ele pedia aquilo, mas sabia que ia ser muito difícil ter outro filho.
Ela, chorando, disse:
- Você sabe que eu não quero outro filho, Neco.
Sabe que o doutor Evaristo me deu aquele comprimido para eu não ficar esperando criança.
- Sei, mas, Jurema, não toma mais essa coisa!
A gente não sabe bem o que é!
A gente tem que deixar na vontade de Deus.
Ele é quem sabe das coisas.
Ela, tristemente, respondeu:
- Sabe, Neco, às vezes não sei se Deus existe mesmo.
Se Ele existe, por que levou a nossa menina?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:27 pm

- Não sei, mas agora não tem mais jeito.
Ela foi embora e não vai voltar mais.
A gente pode ter outra criança.
- Não! Não quero! Já disse que não quero!
A gente vive muito bem, só nós dois sozinhos!
Vendo que ela estava nervosa e que não adiantava continuar, ele enxugou o rosto.
- Está bem, não vamos mais falar nisso...
Ele sabia que seria inútil continuar com aquela conversa.
Abraçados, entraram no barracão.
Cida foi para casa.
Assim que entrou, foi para o seu quarto.
Entrou, olhou para o lugar em que estava a cama que Neco havia lhe feito.
Imaginou que ali, um dia, existiu um berço, onde Dalvinha dormia.
Tentou imaginar o rostinho da menina.
Olhou para a parede, viu um crucifixo, ficou olhando para aquele homem pregado na cruz.
Ela não se lembrava dele, mas Jurema havia lhe contado a sua história.
- Nosso Senhor Jesus Cristo é o filho de Deus.
Ele foi um homem muito bom.
Não precisava, mas nasceu aqui na Terra, para ensinar a gente a só fazer o bem.
Ensinou o caminho para a gente ir para o céu e morreu na cruz para salvar a gente do inferno.
Só não sei, porque ele levou a minha Dalvinha...
Cida ficou olhando para a cruz.
De repente, ficou triste, lágrimas surgiram em seus olhos e desceram por seu rosto.
Disse, baixinho:
- Senhor Jesus, não sei bem quem o Senhor é.
Só sei o que a Jurema me contou.
Ouvindo a história da Dalvinha, fico pensando:
será que também tive filhos?
Será que também perdi algum?
Senhor Jesus, a Jurema disse que o Senhor pode tudo, ajude-me a lembrar.
Preciso saber quem sou e de onde vim.
Ajude-me, Senhor...
Ficou olhando para Ele, por um bom tempo.
Depois, deitou-se na cama e ficou pensando:
Nós estamos indo para o Sul.
Senhor, faça com que, quando chegarmos lá, eu descubra quem sou.
Sei que se ficar aqui neste lugar, nunca conseguirei descobrir quem sou, a não ser, como o padre falou, que eu consiga me lembrar de repente, mas como? Quando?
Embora desesperada, levantou-se novamente, tornou a olhar para o crucifixo e tomou uma decisão:
Não o conheço, mas se é como a Jurema disse, sei que vai me ajudar.
Por isso, não vou mais chorar.
Não é justo, eles me ajudaram e continuam ajudando.
Lá no Sul, tudo será diferente.
Saiu do quarto e da casa, viu Jurema e Neco que voltavam abraçados do barracão.
Ao vê-los, sorriu, pensando:
Eles se amam muito.
Tomara que continuem sempre assim.
São pessoas de bom coração.
Jurema, ao chegar perto de Cida, percebeu que ela estivera chorando.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:28 pm

Preocupada, perguntou:
- Esteve chorando de novo, Cida? Por quê?
- Não fique preocupada, só fiquei emocionada com o que me contou, mas já passou.
Apesar de tudo, estou feliz por estar aqui com vocês.
- Agora que a gente chorou bastante, vamos continuar fervendo a água?
- Vamos, precisamos terminar de ferver logo, embora eu não esteja com fome, está quase na hora de preparar a comida.
- Isso mesmo.
Antes, você vai lá no terreiro e vê se encontra mais ovo.
Só tem um pouco de arroz, feijão e farinha.
Acho que não vai ter jeito não, a gente vai ter que ir embora mesmo...
Neco, que estava um pouco distante, mas, mesmo assim, ouviu o que elas disseram.
Aproximou-se, dizendo:
- Sabe, Cida, não sei de onde você veio, mas estou feliz porque está fazendo bem para a Jurema.
Dizendo isso e antes que Cida dissesse algo, saiu em direcção do barracão.
Passaram-se alguns dias.
A preocupação com a falta da chuva continuava.
Eles insistiam em não sair dali.
Todos os dias, Neco olhava para o céu tentando ver alguma nuvem que indicasse que choveria.
Naquela tarde, estavam sentados do lado de fora da casa.
Ele olhou para o horizonte e para o céu.
- Jurema, não tem nenhuma nuvem, não vai chover, não.
A gente vai mesmo ter que ir embora.
Vou arrumar tudo o que preciso levar e, amanhã bem cedo, a gente vai para a casa do tio.
Depois, vou escrever para o Dodô e ver o que tenho que fazer para ir para o Sul.
Eu gosto muito desta terra, mas não tem mais jeito...
- Estou vendo, Neco, que não vai ter outro jeito mesmo.
Eu nunca quis sair daqui, mas, se Deus quer assim, o que é que se vai fazer, não é mesmo?
Neco balançou a cabeça, voltou para o barracão.
Elas foram para a cozinha preparar o jantar.
Cida trouxe alguns ovos que encontrou no terreiro.
Jurema, com uma tampa de alumínio, avivava a lenha para que o fogo conseguisse aquecer as panelas.
Neco, no barracão, olhou para algumas ferramentas que havia ali.
Olhou para a mesa grande, na qual Jurema e as outras mulheres bordavam e teciam renda, sempre conversando e rindo.
Lembrou-se de Dalvinha brincando por ali.
Sabia que Jurema nunca mais voltaria a fazer aquele trabalho.
Voltou para a casa, entrou na cozinha onde as duas estavam.
Ao vê-lo chegar, Jurema disse:
- Neco, chegou na hora, a comida está pronta.
Está com fome?
Ele olhou para o fogão, viu a panela de arroz, feijão e a outra, onde Jurema misturava ovo com farinha, respondeu:
- Estou, sim, mas estou vendo que temos pouca coisa para comer.
Por isso, estou cada vez mais certo de que a gente precisa ir embora mesmo.
A gente vai para a cidade amanhã bem cedo, por isso é bom você ver o que quer levar.
Sabe que não pode ser muito, só o que der para levar na carroça.
Cida percebeu que Jurema ficou triste, enquanto ela sentiu uma sombra de esperança.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:28 pm

- Está bem, depois que a gente almoçar, vou ver isso.
Durante a tarde fizeram exactamente isso.
Cada um separou o que queria levar.
A noite chegou, foram dormir.
Neco e Jurema, tristes, por terem que abandonar aquela terra amada.
Cida, por sua vez, alegre, pois uma nova esperança surgia.
Antes de dormir; pensou:
no Sul, vou encontrar alguém que me conheça...
Adormeceram.
Já estavam dormindo há muito tempo quando Cida acordou com um barulho.
Abriu os olhos e ficou prestando atenção.
Notou que Neco e Jurema também haviam acordado.
Ouviu a voz de Jurema:
- Neco! É chuva?!
Está chovendo?!
Neco gritou:
- É sim, Jurema!
Está chovendo!
Cida sabia que o som que escutava era de água caindo no telhado com muita força.
Abriu a porta do quarto.
Neco e Jurema não estavam mais ali.
Caminhou em direcção da porta de entrada da casa que estava aberta.
Quando chegou ali, parou, ficou olhando os dois que estavam lá fora, choravam, se abraçavam, dançavam e riam muito.
Eles estavam tão felizes que não notaram quando ela chegou e ficou parada na porta.
Jurema dizia, entre lágrimas e sorrisos:
- Neco! Agora a gente não vai mais precisar ir embora!
Essa chuva forte vai molhar toda a plantação!
Não é mesmo?
Neco, igual à Jurema, não conseguia disfarçar a sua emoção.
Pulando e dançando, disse:
- Isso mesmo, Jurema!
Se continuar assim, por mais uns dias, vai encher o açude.
Ele levantou-a e começou a rodopiar com ela nos braços.
Cida os olhava.
Sabia que eles queriam a chuva, mas nunca imaginou ver uma cena como aquela.
Eles estavam molhados, mas não paravam de rir, dançar e correr.
De repente, Neco ajoelhou-se, dizendo:
- Obrigado, meu Deus!
Obrigado, meu São José!
Cida, na realidade, não conseguia distinguir, se eram pingos de chuva ou lágrimas que corriam, pois seu rosto estava molhado.
Neco saiu correndo em direcção da plantação.
Jurema olhou para a porta de entrada da casa.
Ao ver Cida, gritou:
- Vem, Cida!
Vem ver a bênção que Deus mandou para a gente!
Está chovendo!
A gente não vai mais precisar ir embora!
Está chovendo muito!
Ainda vai dar para salvar a colheita!
Bendito seja Deus!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:28 pm

A felicidade que viu no rosto de Jurema emocionou-a.
Sabia que ela não queria sair dali.
Entretanto, ela, sabia que sair daquele lugar, era a sua única esperança que lhe restava.
Mesmo assim, não pôde deixar de ficar feliz ao ver a felicidade deles.
- Venha, Cida!
Venha comigo até a plantação!
Amanhã, a gente vai ter que desarrumar tudo o que arrumou hoje para ir embora!
Está chovendo muito!
A gente vai salvar a colheita!
Obrigada meu Jesus, e obrigada meu São José.
Obrigada por trazer a chuva e deixar a gente continuar aqui.
Cida não sabia o que dizer, apenas acompanhou Jurema.
Foram encontrar Neco, que estava ajoelhado junto à plantação.
Com as mãos, ele acariciava as folhas.
Jurema ajoelhou-se junto a ele e também começou a acariciar as folhas.
Cida ficou olhando e pensando:
Como eles amam esta terra!
Ficaram ali, por muito tempo, até que Jurema disse:
- Neco, a gente está todo molhado.
Acho bom a gente entrar e se trocar.
Se você ficar doente, não vai conseguir cuidar da plantação.
Vou fazer um chá para esquentar.
Ele se levantou, olhou com carinho para ela.
- Está certo. Você tem razão.
Entraram. Cida, em silêncio, acompanhou-os.
Trocaram a roupa.
Jurema preparou o chá e os serviu.
Continuou chovendo durante a noite inteira.
Neco acordou, após preparar o café.
Foi para o quintal, olhou para o céu.
A chuva, um pouco mais fraca, continuava a cair.
Respirou fundo, sentiu o cheiro da terra molhada.
Voltou para casa.
Cida e Jurema já haviam acordado e estavam conversando.
Entrou, dizendo:
- Jurema, a chuva e o cheiro da terra molhada, me trazem uma felicidade muito grande.
Só de pensar que, ao menos por enquanto, a gente não vai precisar deixar esta terra!
Só sei falar: obrigado, meu Jesus, obrigado, meu São José.
Obrigado por trazer a chuva e deixar a gente continuar aqui.
- Neco, sempre lhe disse que Deus é quem sabe das coisas!
A gente não sabe nada, mesmo! Olha só!
A gente pensou que tinha perdido tudo!
Que não tinha mais nada para fazer!
Tudo bobagem!
Quem sabia das coisas era Deus!
Ele mostrou quem é que manda em tudo!
Até na chuva!
Ele começou a rir e, abraçados, entraram em casa.
Ele, tomando um gole de café, disse:
- Jurema, você sempre teve razão quando falava essas coisas.
Agora, vou até a cidade comprar os mantimentos que estão faltando.
A gente já pode fazer uma conta lá no tio, porque, quando colher, vai ter dinheiro para pagar.
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