Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:28 pm

Cida o interrompeu:
- Por que você não fez isso antes, Neco?
Acredito que seu tio não ia se importar de lhe dar o alimento de que precisava.
- Não ia mesmo, Cida, mas eu não queria.
Eu não sabia se ia poder pagar.
Ele até que insistiu, mas eu não queria não.
Agora já sei que posso pagar, por isso vou lá.
- É isso mesmo, Cida, a gente não gosta de ficar devendo.
A tia Laurinda quis ajudar, mas a gente não quis não.
Cida não quis continuar com aquela conversa.
Ela os conhecia há pouco tempo, não entendia, não sabia o que eles pensavam ou como agiam.
Só sabia que eles a haviam salvado, quem sabe até da morte e, por isso, era muito grata.
Neco fez assim como havia dito.
Atrelou o cavalo na carroça e foi para a cidade.
Elas ficaram colocando de volta aos seus lugares as roupas e tudo o que haviam colocado em caixas para a mudança.
Mais tarde, ele voltou.
Agora estava tudo bem.
Eles iriam recomeçar novamente.
E, Cida, seguiria ao lado deles.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:29 pm

A Decisão de Jurema
Em poucos dias, a plantação voltou a ficar saudável.
Neco e Jurema não conseguiram esconder a alegria.
Nos primeiros dias, Cida acompanhou a felicidade dos dois, mas, com o passar do tempo, uma tristeza imensa começou a tomar conta dela.
Ficava pelos cantos pensando:
Nunca mais vou lembrar, e agora, ficando aqui para sempre, não lembrarei mesmo.
Do que adianta continuar vivendo assim?
O melhor que tenho a fazer é me matar!
Assim, sem saber o meu passado, não quero continuar vivendo.
Porém, como posso fazer isso, sem complicá-los?
Ficava calada, pensando em uma maneira de se matar.
Neco e Jurema, envolvidos no trabalho, a princípio, não notaram.
Eles a convidavam para ajudá-los com a plantação.
Ela ia, mas os seus olhos estavam sempre distantes e sem brilho.
Em uma manhã, Neco disse:
- Vou até a cidade.
A comida está acabando e está quase na hora de colher.
Preciso comprar sacos de estopa, para colocar a colheita e levar para o tio.
Jurema pensou por alguns segundos. Disse:
- Quero ir com você.
Preciso conversar com a tia.
- Conversar o quê?
- Nada, não, coisa de mulher.
- Está bem, pode se preparar.
Jurema sorriu e disse:
-- Cida, você também vai com a gente?
Ela demorou um pouco para responder.
Seus olhos, como nos últimos dias, estavam distantes.
Respondeu:
- Eu não estou com vontade de ir.
Posso ficar aqui?
- Não, você não pode ficar aqui sozinha.
Você vai com a gente.
Lá na cidade, converso com a tia Laurinda e com o padre.
A gente se distrai.
Quem sabe o padre tem alguma notícia para você.
- Acredita nisso, Jurema?
- Não sei, mas quem sabe, não é mesmo!
Cida não queria ir.
O que queria mesmo era ficar ali parada, só olhando para o horizonte, tentando lembrar ou encontrar uma maneira de se matar, mas disse:
- Está bem, irei.
Quem sabe alguma coisa aconteça...
Neco atrelou o cavalo na carroça.
Sentou-se no banco e, acompanhado por elas, seguiu em direcção à cidade.
Durante a viagem, Cida permanecia calada, só respondendo as perguntas de Jurema.
Não sentia nada, aquele vazio a acompanhava.
Enquanto Neco e Jurema conversavam, ela pensava:
Nunca mais vou me lembrar do meu passado...
continuarei assim para sempre.
Como posso continuar assim?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:29 pm

Seria melhor que eu morresse... para que viver, sem saber quem sou ou de onde vim?
Preciso encontrar uma maneira de me matar e vou encontrar...
Enquanto pensava, seus olhos estavam parados em um ponto qualquer.
Jurema, embora conversasse com Neco, percebeu que ela não estava bem.
Ela também já havia notado a tristeza, seu abatimento e olheiras.
Pensou: Essa menina não está bem.
Está distante, parece até que quer morrer.
Meu Deus, não posso deixar isso acontecer.
Assim que chegaram, Neco parou a carroça em frente ao armazém do tio.
Desceram.
Cida estava tão distante que não notou que haviam chegado.
Jurema disse:
- Vem, Cida.
A gente chegou.
Parecendo que voltava de muito longe, ela disse:
- Nem percebi.
A viagem não demorou muito.
- Demorou o mesmo tempo de sempre.
Você é quem estava distraída, em que estava pensando?
- Em nada, só na minha vida e tentando lembrar...
- Precisa parar de pensar nisso.
Já lhe disse que, na hora certa, vai se lembrar de tudo, mas venha, vamos conversar com o tio.
Sem muita vontade, ela desceu da carroça e acompanhou Jurema.
Neco já estava dentro do armazém, conversando com o tio.
- Então, Neco, como vai a sua plantação?
- Muito bem, tio.
A chuva chegou com tempo de a gente não perder tudo.
Está quase na hora de colher.
- Isso é muito bom, mas o que veio fazer aqui na cidade?
- Preciso de alguns sacos de estopa para colocar os jerimuns e tudo o que vou colher.
- Isso não tem problema Chico, venha até aqui!
Chico, que se encontrava do outro lado do balcão, aproximou-se.
Dorival disse:
- Leve o Neco lá para os fundos e lhe dê todos os sacos de estopa que desejar.
- Está bem, venha, Neco.
Quando Neco estava se dirigindo para os fundos do armazém, Cida e Jurema entraram na loja.
Ao vê-las, Dorival abriu um sorriso.
- Bom-dia, Jurema, não sabia que você também estava aqui!
- Bom-dia, tio, vim junto com o Neco.
- E você, moça! Está bem?
Lembrou-se de alguma coisa?
Antes que Cida respondesse, Jurema disse:
- Não tio, ela não lembrou, não, mas está bem.
Não é, Cida?
- Estou bem, sim...
- Tio, preciso saber se o senhor ainda tem trabalho para me dar.
Cida e Dorival arregalaram os olhos ao verem Jurema dizer aquilo.
Ele, prontamente e feliz, respondeu:
- Claro que tenho!
Você sempre foi a melhor!
Seus trabalhos são perfeitos!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:29 pm

Ela, como se estivesse dizendo a coisa mais sem importância, falou:
- Então, tio, pode preparar, vou levar tudo o que o senhor tiver.
Dorival não conseguiu esconder a sua felicidade.
Não entendia o que estava acontecendo, pois Jurema, desde que Dalvinha morreu, jurou que nunca mais tornaria a bordar ou fazer renda.
A última roupa que fez foi aquela com a qual a menina havia sido enterrada.
Ele não entendia, mas também não queria entender, só o que lhe interessava é que ela voltaria a bordar e que também era um sinal que a dor e a mágoa por ter perdido a filha haviam passado.
Feliz, disse:
- Vou mandar preparar agora mesmo.
Ontem, chegou um pedido muito grande.
Você resolveu voltar a trabalhar na hora certa!
Enquanto conversavam, Cida foi para a porta do armazém.
Olhou para a rua, muitas pessoas iam e vinham.
Aquela era a rua principal.
Ela não conhecia muito, mas podia perceber que havia poucas ruas na cidade.
O alto-falante preso no poste tocava uma música alegre.
Ela saiu do armazém e começou a andar.
Olhava todas as pessoas que passavam por ela.
Tentava encontrar um rosto conhecido, mas foi em vão.
Parou diante da igreja, ficou olhando por alguns minutos, depois resolveu entrar.
Entrou e viu algumas pessoas ajoelhadas, rezando.
Sentou-se em um dos bancos e olhou para o altar.
Na primeira vez em que foi à igreja, não havia prestado muita atenção, pois estava querendo falar com o padre.
Agora, olhou para tudo com calma.
Havia uma imagem de um santo que ela não conhecia.
E do outro lado, aquele homem pregado na cruz.
Ela não sabia por que, mas sentiu uma enorme vontade de chorar.
Disse, baixinho:
- Jesus, não sei se realmente o Senhor existe, mas ajude-me... não o conheço muito bem, mas a Jurema disse que o Senhor nasceu na Terra, só para nos salvar.
Faça com que eu me lembre de quem fui e de onde sou.
Eu preciso saber, do contrário, sinto que vou enlouquecer e fazer uma bobagem.
Esse pensamento de morte não sai da minha cabeça...
Não percebeu quando o padre saiu de uma porta ao lado do altar.
Ao vê-la, aproximou-se, dizendo:
- Bom-dia, minha filha.
Por que está chorando?
Ela levantou os olhos e respondeu:
- Bom-dia, padre.
Estou chorando porque não consigo me conformar com a minha situação.
Estou ficando cada vez mais desesperada.
Não consigo lembrar!
Devo ter uma família, todos têm!
Será que tenho pai, mãe ou irmãos!
Será que tenho noivo ou marido?
Será que tenho filhos!
Padre, não estou conseguindo viver assim!
Não sei mais o que fazer!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:29 pm

- Entendo a sua situação, deve mesmo ser terrível, porém, Deus pode tudo e sabe o que faz.
Eu lhe disse outro dia e vou repetir:
a qualquer momento, lembrará.
E tudo voltará ao normal.
Quando o tempo passar, depois de se recordar do seu passado, achará graça disso que viveu.
- Será, padre, que isso vai acontecer?
Desde aquele dia em que o senhor conversou comigo, tive esperança, mas já se passou tanto tempo e, por mais que tente, não consigo me lembrar de nada.
Parece que nasci naquele dia em que o Neco me encontrou jogada lá na caatinga.
Não estou suportando mais.
Em meu pensamento, sinto vontade de me matar.
Eu não ouço, mas parece que tem alguém sugerindo isso o tempo todo.
Não sei o que fazer...
- Nem pense nisso!
A vida é um bem precioso!
Nada nem ninguém nesse mundo é maior do que ela. Logo tudo vai se resolver, apenas tenha fé.
Jesus está sempre ao nosso lado e manda seus anjos para nos ajudar, tenha calma.
O tempo ruim, como o bom, passa logo.
Não viu o que aconteceu com a chuva?
Quando menos se esperava, ela chegou, o mesmo vai acontecer com a sua memória.
No dia em que menos esperar, ela voltará.
Tenha fé em Deus, Ele pode tudo.
Para Ele, não existe a palavra impossível.
- Não sei, padre, mas, se Ele existe mesmo, acho que Ele me esqueceu...
- Nada disso! Ele não esquece ninguém, somos todos seus filhos amados.
Ele está sempre ao nosso lado.
Ela percebeu que ele estava preocupado, porém, não se dava conta do motivo da sua preocupação.
Ele notou que ela estava entrando em uma depressão profunda.
Por sua experiência, sabia que aquilo era muito perigoso.
Sabia que as pessoas em depressão podem praticar qualquer loucura, até mesmo se matar.
No momento, não soube o que dizer ou fazer.
Ficou aliviado quando ouviu:
- Cida! Ainda bem que está aqui!
Você me deixou preocupada!
Cida e o padre voltaram-se e viram Jurema que, furiosa, estava dizendo isso:
- Como você pôde sair sem me avisar, Cida?
Um pouco sem jeito, Cida respondeu:
- Desculpe, Jurema, sem perceber, saí andando e vim parar aqui na igreja.
Estava conversando com o padre.
- Está bem, mas não faça mais isso!
Sabe que fico aflita!
Vai que você sai por aí e não sabe mais voltar!
Quer ficar perdida?
- Claro que não, mas isso não tem perigo, esqueci-me do passado, mas do presente lembro-me muito bem.
Sinto muito, desculpe.
Nunca mais farei isso...
- Acho bom!
Jurema, mais calma e aliviada, disse:
- Está bem. Agora, a gente tem que ir embora.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:29 pm

O Neco já está esperando na carroça.
Ele também está preocupado!
Bom-dia, padre, desculpe, fiquei muito nervosa quando ela desapareceu e até me esqueci de cumprimentar o senhor!
- Bom-dia, Jurema, não se preocupe com isso, estávamos apenas conversando.
Eu disse que logo vai se recordar.
- Eu falo isso todo dia, padre, mas ela não acredita.
Vamos, Cida?
Despediram-se do padre e saíram.
Foram encontrar Neco, que estava sentado na carroça, esperando-as e pensando: que será que deu na Jurema?
Por que quer voltar a bordar e a fazer renda?
Disse que nunca mais ia fazer isso, que a última roupa que fez foi aquela com que a nossa menina foi enterrada.
Não sei, não, qual é a ideia dessa mulher.
Mas, de qualquer forma, isso é bom.
Assim, ela se distrai um pouco e, quem sabe, esquece a nossa menina e pensa em ter outro filho.
Tomara, Deus.
Elas se aproximaram da carroça Jurema disse:
- Pronto, Neco.
Ela estava conversando com o padre.
Agora, a gente já pode ir.
Subiram na carroça e iniciaram o caminho de volta.
Chegaram ao sítio.
Depois que desceram, Neco desatrelou o cavalo, ele precisava tomar água.
Jurema disse:
- Neco, a gente precisa arrumar o barracão para eu começar a trabalhar.
- Está bem, vou levar o cavalo para descansar e volto logo.
Enquanto ele foi, Cida e Jurema começaram a descarregar a carroça.
Jurema disse, feliz:
- O tio deu muito trabalho, a gente vai levar quase um mês para aprontar tudo.
Estranhando, Cida perguntou:
- A gente?
O Neco também borda?
- Não! Quem vai bordar e tecer renda vai ser eu e você.
- Eu? Mas eu não sei bordar, muito menos tecer renda!
- Sei disso, mas vai aprender.
- Não vou conseguir...
Não perceberam quando Neco se aproximou e pôde ouvir as últimas palavras de Jurema, que continuou dizendo, nervosa:
- Vai conseguir, sim.
Já faz muito tempo que está com a gente.
Todo esse tempo teve casa e comida, agora não dá mais.
Se quiser dormir e comer, vai ter que trabalhar e ganhar o seu dinheiro.
Você sabe que a gente não tem dinheiro.
Jurema disse isso com a voz firme.
Cida, desconhecendo-a, perguntou:
- Por que está me tratando assim, Jurema?
O que foi que fiz?
- Você não fez nada, esse é o problema!
Fica aí, pelos cantos, sofrendo, com dó de você mesma.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:30 pm

Faz isso porque não sabe quanto custa um tecto e um prato de comida.
Está na hora de trabalhar e descobrir que, para se viver, tem que se pagar!
Se quiser, tudo bem, se não quiser, pode ir embora agora mesmo!
Cida e Neco não estavam acreditando naquilo que ouviam.
Jurema, que foi sempre tão gentil e carinhosa, agora, da maneira como falava, parecia ser outra pessoa.
Na frente deles, estava uma Jurema que eles não conheciam.
Neco, assustado, perguntou:
- Jurema! O que está acontecendo?
Por que está dizendo essas coisas?
- Não está acontecendo nada, Neco!
Cansei de dar de comer para essa moça e ela ficar chorando pelos cantos!
Isso é falta do que fazer.
Cida, você é quem vai decidir a sua vida.
Tem de escolher!
Aprenda a bordar e a tecer renda ou pode ir embora agora mesmo!
- Eu não tenho para onde ir...
- Então, vai ter que se esforçar para aprender o trabalho.
- Vou tentar, mas acho que não vou conseguir...
- Vai conseguir, sim!
Para começar, pode ir levando e desembrulhando os pacotes que o tio deu.
Eu e o Neco vamos para casa.
A gente tem muito para conversar.
- Está bem...
Com o rosto ainda crispado, continuou:
- Neco, venha comigo!
Ele acompanhou-a, raivoso, pois não conhecia aquela mulher que estava lá na sua frente.
Entraram em casa.
Antes de entrar, Jurema olhou para fora e viu Cida levando, para o barracão, os pacotes.
Dentro da casa, ela começou a rir e, abraçando-se em Neco, perguntou:
- Gostou do jeito com que falei com ela, Neco?
Neco, cada vez mais surpreso, respondeu:
- Desde que a gente chegou à cidade e você pediu trabalho para o tio, não entendi nada e muito menos agora, por que quer voltar a trabalhar e por que falou com ela daquele jeito?
Você não gosta mais dela, Jurema?
- Claro que gosto!
Por isso mesmo é que estou fazendo isso!
- Não estou entendendo...
- Ora, Neco, você sempre não ouviu dizer que "cabeça vazia é o ninho do diabo".
- Ouvi muitas vezes...
- Então, essa moça está sem ter o que fazer, por isso, só fica pensando.
Se continuar assim, vai acabar ficando doente, quem sabe até vai fazer uma besteira.
Foi por isso que resolvi começar a bordar de novo e fazer com que ela borde também.
Você sabe que, para bordar, é preciso concentração, há até uns pontos de bordados que precisamos contar.
Quando ela aprender, vai ficar prestando tanta atenção que não vai ter tempo para pensar bobagem, você vai ver.
Neco ficou calado, ouvindo tudo o que ela dizia.
Quando ela terminou, ele disse:
- Eta mulher esperta!
Você tem razão mesmo.
Ainda bem, pensei que tinha endoidado!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:30 pm

- Não endoidei, não!
Não sei por que, mas gosto muito dessa moça.
A gente precisa ajudá-la e o jeito que encontrei foi esse.
Tomara Deus que dê certo...
- Acho que vai dar, Jurema... acho que vai dar...
- Vai dar certo, sim!
Vamos lá fora ver o que ela está fazendo?
Não diga nada nem se importe se eu ficar brava com ela.
Sabe que é preciso fazer isso.
- Pode deixar, agora que já sei qual é a sua vontade, vou ficar calado e até ajudar você.
Saíram e foram ao encontro de Cida, que não sabia por que Jurema havia mudado tanto com ela.
Continuava levando os pacotes.
Fazia isso pensando:
Por que será que a Jurema está agindo assim?
O que fiz para ela ficar tão brava?
O que vou fazer?
Nunca vou aprender a bordar, muito menos a tecer renda.
Pensei muito em como me matar, mas em ir embora nunca!
Mas, agora, acredito que vai ser preciso eu ir embora sim.
Ela tem razão, já estou há muito tempo aqui sem fazer nada.
Eles foram muito bons, me salvaram, me deram um tecto e alimento e não são ricos.
Pensando só no meu problema, nem percebi que estava atrapalhando, que estava sendo um peso para eles.
Preciso decidir o que vou fazer com a minha vida...
Jurema e Neco aproximaram-se.
Ele foi para a carroça e retirou os sacos de estopa que o tio havia lhe dado.
Mesmo de longe, ficou prestando atenção em Jurema e no que ela dizia:
- Então, Cida, já pegou todos os pacotes?
Um pouco desajeitada e com os olhos baixos, respondeu:
- Só falta este.
Não sei onde colocar, a mesa está cheia.
- Está bem.
O Neco vai arrumar o barracão e deixar a prateleira vazia.
Logo tudo vai estar no lugar, e a gente vai poder começar o trabalho.
- Eu não vou conseguir, Jurema... acho que nunca fiz isso.
- Sempre tem a primeira vez, Cida.
Está assustada à toa.
Vai ver como é fácil.
- E se eu não conseguir?
- Vai ter de ir embora.
A gente não pode continuar a sustentá-la.
Na parte da manhã, a gente vai ajudar o Neco na plantação.
Ele vai precisar de muita ajuda.
À tarde, a gente vai fazer o trabalho do tio.
Está disposta?
- Vou tentar, não sei se vou conseguir, mas vou tentar...
- Acho muito bom!
Neco, embora estivesse um pouco distante, podia ouvir o que Jurema estava dizendo.
Permanecia de costas e ria muito.
Mesmo sem estar olhando, imaginava a expressão do rosto dela.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:30 pm

Cida não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas sabia que não havia outra maneira, a não ser aceitar o que Jurema lhe propunha, pois, naquele momento, não tinha para onde ir.
Após terem limpado o barracão, os três desembrulharam os pacotes e colocaram tudo na prateleira.
Jurema pegou um retalho de pano branco e disse:
- Cida, sente aqui, agora, vou ensiná-la a bordar.
Primeiro, vai aprender o ponto mais fácil, depois, com o tempo, vou ensinar os outros.
Cida, embora não acreditasse que conseguiria, prestou atenção em tudo que Jurema lhe ensinava.
Um pouco desajeitada, enfiou a linha na agulha e, vagarosamente, começou a seguir as instruções.
Durante muitos dias, foi aprendendo vários pontos, bordando no retalho, até que Jurema lhe disse:
- Você está perfeita!
Não lhe disse que não era difícil?
- É difícil, sim, Jurema!
Nunca pensei que conseguiria!
- Mas conseguiu e está muito bom.
Por isso, você agora vai pegar esta blusa, pode ver que está riscada, é preciso só acompanhar o risco.
Vai começar aqui, com o ponto sombra.
Quando terminar, vai ver como vai ficar bonita.
Ela pegou aquele tecido, que depois de bordado, se transformaria em uma blusa e, por alguns segundos, segurou-o nas mãos.
Depois disse:
- Está bem, vou tentar e prometo que farei o melhor possível.
- Não tenho dúvida disso.
Vamos lá, comece.
Lentamente começou.
A princípio, devagar, mas à medida que o bordado foi aparecendo, foi se encantando com o trabalho.
Logo, estava bordando com desenvoltura, sob os olhos felizes de Jurema e de Neco, que, de vez em quando, passavam por ali.
Os dias foram passando, pela manhã, elas ajudavam Neco na colheita.
E, à tarde, bordavam.
Enquanto Cida bordava, Jurema tecia renda.
Com as chuvas, a terra ficou molhada e conseguiram salvar parte da plantação.
Tudo que era colhido ia sendo colocado nos sacos de estopa.
Separaram uma parte para o consumo e, Neco levou a outra para a cidade, onde seria vendida.
Ao voltar em uma dessas vezes, estava contente e, sorrindo, disse:
- Jurema, todo mundo está muito alegre, lá na cidade.
No domingo, vai ter uma festa para agradecer São José pela chuva.
Prometi para a tia que a gente vai.
Os olhos de Jurema brilharam:
- Claro que a gente vai, Neco.
Imagina se vou perder uma festa dessa!
Cida, você vai ver que festa bonita!
Vou pegar aquele vestido bonito com que você chegou!
Vai ter que ir bem bonita.
Todo mundo veste a melhor roupa que tem.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 13, 2017 7:30 pm

Você vai ver!
Cida levantou os olhos do bordado e, com a agulha no alto, disse:
- Jurema, não queria ir.
Sabe que não gosto de ficar no meio de muita gente.
- Tem de ir!
São José é o protector da lavoura, quando não chove, o sertanejo fica pedindo todos os dias pela chuva, quando a chuva chega, a gente tem que agradecer.
Você vai ver como a festa é bonita.
Ela baixou os olhos e continuou bordando.
Sabia que não adiantaria argumentar.
Quando Jurema queria uma coisa, ela conseguia.
Jurema não a esperou dizer nada, levantou, saiu do barracão e entrou em casa.
Abriu uma gaveta da cómoda e retirou o vestido azul, que estava guardado desde o dia em que Cida chegara.
Durante todo aquele tempo, ela só se vestiu com roupas que Jurema havia lhe dado.
Neco entrou e viu Jurema ali, com o vestido na mão, perguntou:
- O que está fazendo aí, parada com o vestido dela na mão?
- Estou pegando para ver se está bom.
Ela vai com ele na festa.
Estou também pensando que ela deve ser filha de gente rica.
Como apareceu aqui nesse fim de mundo?
O que será que aconteceu?
Será que ela não vai se lembrar nunca, Neco?
- Já pensei muito nisso, mas não adianta.
Se ela esqueceu mesmo, a gente vai ter que esperar.
Como o padre disse: um dia, ela vai lembrar, a gente tem só que ter paciência.
- É isso mesmo, não adianta querer adivinhar... a gente tem que esperar mesmo.
Vou lavar de novo, ficou muito tempo guardado, mas o que importa mesmo é que a gente vai à festa, não é mesmo, Neco?
- É isso mesmo, Jurema.
Vou lá para a plantação.
Saíram, Neco foi para a plantação e Jurema para o barracão.
Com o vestido na mão, aproximou-se, dizendo:
- Cida, olha o seu vestido!
Eu estava pensando no que pode ter acontecido a você.
Será que nunca vai lembrar?
Uma lágrima se formou nos olhos de Cida.
- Não sei, Jurema, já cansei de tentar lembrar.
Desde que comecei a bordar, não tenho pensado muito nisso, pois fico contando os pontos.
Sei que, se errar, vou estragar o trabalho.
Jurema começou a rir:
- Foi essa a minha intenção.
Foi por isso que quebrei uma promessa e voltei para o trabalho.
Sabia que, enquanto contasse os pontos, não ia ter tempo para pensar em mais nada.
Cida arregalou os olhos:
- Por isso você fingiu que estava brava?
E disse que eu teria de ir embora?
- Foi isso mesmo!
Percebi que você estava muito triste e que, se continuasse daquele jeito, ia acabar ficando doente.
Sabia que a única solução era fazer você trabalhar, parece que o meu plano deu certo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:43 pm

- Deu, sim. Estou bem melhor e resolvi não tentar mais lembrar.
Como o padre disse:
é preciso esperar que a qualquer momento minha memória vai voltar.
- É isso mesmo.
Enquanto isso não acontece, a gente vai continuar com o trabalho.
Preciso lhe dizer que estou também muito feliz por ter quebrado a minha promessa e voltado a trabalhar.
O trabalho só faz bem.
Agora, a gente vai se preparar para a festa!
Você vai gostar, é sempre muito bonita!
Cida ficou calada, voltou os olhos para o bordado e continuou o seu trabalho que estava lhe fazendo tanto bem.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:43 pm

Surpresas da Vida
O dia da festa chegou.
Embora, a princípio, Cida não quisesse ir, com o passar dos dias e vendo toda empolgação de Jurema e Neco, se entusiasmou também.
Logo pela manhã, colocou o vestido azul que Jurema havia lavado e passado.
Sentiu-se estranha com ele.
Desde que chegou, só havia usado saias e vestidos estampados e rodados.
Aquele vestido, embora não fosse muito justo, se moldava em seu corpo.
Era diferente de tudo o que ela havia visto por ali e, como Jurema dizia, era de um tecido muito bom.
Ficou tentando lembrar-se, novamente, de quem era, mas logo afastou o pensamento.
Aquele dia seria de festa, só isso, não queria estragá-lo com pensamentos tristes.
Jurema e Neco também se esmeraram na vestimenta.
Jurema prendeu os cabelos longos e negros.
Colocou o melhor vestido que tinha.
Neco colocou uma calça branca, que só usava em ocasiões especiais como aquela.
Foram para a cidade.
Enquanto seguiam por aquela estrada empoeirada, Cida ia apreciando a paisagem e pensando:
Como tudo está diferente.
Que milagre a chuva fez.
Tudo agora está verde e bonito.
Meu Deus! O que estou fazendo nesta terra?
Por que vim parar aqui?
Embora se fizesse essas perguntas, sabia que não encontraria respostas, pelo menos não naquele momento.
Desviou o pensamento.
Jurema, sempre atenta, perguntou:
- Viu, Cida, como tudo está bonito?
Viu o que a chuva fez por estes lados?
- Era nisso que eu estava pensando, Jurema.
Tudo mudou mesmo...
- É por isso que a gente precisa agradecer a São José.
E pedir para a seca não voltar nunca mais.
A gente sabe que ela vai voltar, mas tomara que demore muito tempo...
- Tomara mesmo...
Chegaram à cidade.
Neco, como sempre fazia, parou a carroça em frente à loja do tio e, a pé, caminharam em direcção a sua casa, que ficava do outro lado da rua.
Lá também estava tudo diferente.
A loja e todo o comércio estavam fechados.
A rua estava enfeitada com bandeirinhas feitas de papel colorido.
A música no poste era alegre e as pessoas dançavam ao som dela.
O sino da igreja tocava sem parar.
Cida não se lembrava de já ter visto algo igual.
Chegaram à casa do tio.
Entraram e foram recebidos com muita festa por ele e por Laurinda que, abraçando Jurema, disse:
- Que bom que vieram, Jurema!
Fiquei muito feliz quando o Dorival disse que você tinha voltado para o trabalho, isso é muito bom!
- Também acho, tia.
Só agora descobri que o trabalho, além de me dar dinheiro, dá também muita satisfação.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:43 pm

- Isso mesmo e também mostra que você está deixando o passado para trás e, quem sabe, agora, resolva ter outro filho.
O rosto de Jurema se crispou e, nervosa, disse:
- Nunca! Não quero mais filho, tia!
O Neco sabe disso!
Trabalhar é uma coisa, mas voltar a passar por tudo aquilo de novo, nunca mais!
- Está bem, não precisa ficar nervosa desse jeito.
Hoje é dia de festa, a gente tem que deixar toda a tristeza bem longe.
- É isso mesmo, Jurema, já concordei com você, a gente não vai mais ter filho.
Jurema olhou para ele, mas ficou calada e fez o possível para voltar ao normal.
Ela, também, não queria estragar aquele dia.
Laurinda, um pouco desconsertada com a reacção de Jurema, disse:
- É isso mesmo, vamos conversar e tomar um café, até a hora de a gente ir para a igreja assistir à missa.
Ficaram ali conversando sobre a chuva e a colheita.
Quando faltavam dez minutos para o começo da missa, foram para a igreja.
A rua estava cheia de gente que se dirigia para a pequena igreja.
Ao ver toda aquela multidão, Cida pensou:
Quantas pessoas têm aqui!
São tantas que, com certeza, não caberão na igreja.
Será que nenhuma delas me conhece?
De facto, isso aconteceu.
Muitas pessoas ficaram do lado de fora.
Dois alto-falantes foram colocados em frente à igreja, outros pendurados nos postes.
Assim, as pessoas puderam acompanhar a missa através deles.
Depois da missa, foi feita uma procissão.
Cida, surpresa, emocionada e feliz, acompanhou-a.
As pessoas rezavam, cantavam e carregavam velas acesas em suas mãos.
Crianças vestidas de anjo seguiam sozinhas ou acompanhadas por seus pais.
Novamente, ela sentia que nunca em sua vida havia visto algo igual, mas estava gostando.
As pessoas demonstravam muita fé.
Algumas seguiam de joelhos, outras carregavam uma cruz nas costas.
A fé era emocionante.
Depois que a procissão terminou, foram para as barracas de jogos e comidas que haviam sido montadas em volta da igreja.
Comeram, jogaram e se divertiram muito.
Pela tarde, estavam todos cansados.
Neco disse:
- Está na hora de a gente ir embora.
É preciso chegar antes que a noite apareça.
Cida e Jurema também estavam cansadas.
O dia havia sido muito agitado.
Despediram-se dos tios e voltaram.
Durante a volta, Cida estava feliz e emocionada por ter visto tanta felicidade nos rostos daquelas pessoas tão sofridas e pobres.
Nunca havia visto algo igual àquilo.
Disso tinha certeza, mas também sabia que nunca mais esqueceria.
Quando chegaram a casa, já estava começando a escurecer.
Embora cansados, estavam felizes.
Antes de entrar, Neco foi para perto da plantação, olhou tudo e agradeceu por Deus ter permitido que eles continuassem por mais um tempo naquela terra que tanto amavam.
No dia seguinte pela manhã, tudo voltou ao normal.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:44 pm

Neco na plantação, Cida e Jurema trabalhando pela manhã na lavoura e, a tarde, no barracão.
Tudo estava normal.
Algumas vezes, Cida tentava lembrar, mas logo era obrigada a voltar para o bordado e contar os pontos.
Como em todas as manhãs, após tomarem café, cada um ia cuidar de seu trabalho.
Aquela manhã foi como as outras.
Cida e Jurema estavam na lavoura ao lado de Neco, preparando a terra para um novo plantio.
De repente, Jurema ficou amarela, suando muito e abaixou-se no chão.
Cida percebeu, gritou para Neco:
- Neco! A Jurema está desmaiando!
Ele, que estava de costas, voltou-se e, ao ver o estado da mulher, correu para ela.
Abaixando-se, passou a mão por seu rosto.
Jurema abriu os olhos.
Ele perguntou:
-- O que você está sentindo, Jurema?
Ela, com a voz fraca, respondeu:
- Não sei, fiquei tonta de repente.
Estou quase desmaiando...
Ele, desesperado, sem saber o que fazer, olhou para Cida, gritando:
- Corre lá dentro, pega o vinagre!
Ela correu, também estava atrapalhada, pois tudo aconteceu de repente.
Pegou o vinagre, voltou correndo.
Neco, com a cabeça de Jurema em seu colo, dizia:
- Jurema, abre os olhos... o que você tem?
Ela, embora com o corpo amolecido, não estava desmaiada e podia perceber tudo o que estava acontecendo.
Tentou abrir os olhos, mas o peso deles e de seu corpo eram enormes.
Apertou a mão de Neco sem nada dizer.
Cida e Neco ficaram esfregando o vinagre por todo rosto, mãos e pés dela.
Alguns minutos depois, ela abriu os olhos, e como se nada houvesse acontecido, começou a se levantar, sob o olhar abismado dos dois.
Já de pé, disse:
- O que foi isso que me aconteceu?
Neco, estou assustada!
Senti que ia morrer e agora não estou sentindo mais nada!
Neco, aliviado, percebeu que a cor havia voltado ao rosto dela.
Disse:
- É melhor a gente ir à cidade e conversar com o tio.
E, se for preciso, a gente vai até Salvador.
Não tem mais médico aqui na cidade.
Jurema estava se sentindo muito bem, nem parecia que tudo aquilo havia acontecido.
Ela olhou para Cida, que estava ainda com a garrafa de vinagre na mão e branca como papel e, sorrindo, disse:
- Cida! Já passou, pode levar o vinagre de volta.
Depois, olhou para Neco, que ainda sem entender o que havia acontecido, também olhava para ela.
Com os olhos arregalados e parecendo que se lembrava de algo, disse nervosa:
- Neco! Você se lembra daquele dia em que senti mais ou menos isso e que a gente foi falar com o doutor Evaristo e ele disse que eu estava esperando criança?
Neco também arregalou os olhos.
Não conseguiu dizer nada.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:44 pm

Depois, perguntou:
- Jurema! Será que você está esperando criança?
- Não, Neco!
Mas se for, vou tomar um chá, não quero mais ter criança!
Os olhos de Neco se iluminaram.
- Não diz isso, Jurema!
Se Deus mandou outra criança para a gente, ela tem de nascer...
- Não quero, Neco!
Você sabia que eu não queria mais!
Você é o culpado!
A gente tem que ir lá na cidade!
O Zé, da farmácia vai me dar um remédio e saber se estou esperando criança e, se estiver, vou falar com a dona Betina.
Ela conhece uma porção de ervas!
Deve conhecer uma para eu tirar essa criança!
Não quero mais criança!
A gente vai agora mesmo à cidade!
Neco, embora triste, não discutiu.
Conhecia a mulher e sabia que, quando ela decidia fazer algo, nada nem ninguém, conseguia fazer com que mudasse de ideia.
Ainda tentou argumentar:
- Jurema, a chuva chegou, a nossa plantação deu um bom dinheiro e parece que a chuva vai continuar.
A gente já pode ter outra criança...
- Não quero, Neco!
A gente não sabe se a chuva vai continuar, não sabe se tudo não vai voltar a ser como antes, só sabe que vai continuar morando aqui.
E se acontecer com essa criança o que aconteceu com a Dalvinha?
A gente não vai ter tempo de socorrer e ela também vai morrer!
Não quero passar por tudo aquilo de novo!
Não quero! Já lhe disse que não quero!
A gente vai, agora mesmo, à farmácia falar com o Zé e, se for preciso, com a dona Betina também.
Cida! Você vai com a gente.
Cida ficou calada, apenas balançou a cabeça concordando e com a garrafa de vinagre na mão voltou para a casa.
Ela não estava entendendo o porquê daquela reacção de Jurema e pensou:
Eu não sei por que ela não quer outra criança?
Eu sem saber se algum dia tive uma criança!
E se tiver?
Como gostaria de poder lembrar...
Enquanto se preparavam para ir à cidade, Neco foi atrelar o cavalo na carroça.
Ele estava triste, pois queria muito outro filho, mas sabia também que Jurema não mudaria de ideia.
Logo, todos estavam prontos.
Desta vez, durante a viagem, ficaram calados.
Neco, triste, por saber que seu filho não nasceria.
Jurema, nervosa, não querendo aquela criança e Cida, tentando se lembrar do seu passado e tentando saber se, um dia, havia tido uma criança.
Quando Neco entrou na rua principal da cidade, Jurema, que até agora permanecia calada, disse:
- Neco, pare em frente da casa da tia. Quero falar com ela.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:44 pm

Ele, calado, continuou dirigindo o cavalo e parou em frente à casa da Laurinda.
Elas desceram e entraram na casa.
Neco foi para o armazém conversar com o tio.
Laurinda, quando as viu, abriu um sorriso.
- Jurema, Cida!
Que bom que vieram!
Mas hoje não é dia de o Neco vir à cidade!
Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, sim, tia!
Acho que estou esperando criança!
O rosto de Laurinda se iluminou:
- Que bom, Jurema!
A gente vai ter outra criança na família!
Jurema disse gritando e fora de si:
- Não! A senhora sabe que não quero ter outra criança!
- Eu sei disso, mas se Deus mandou, você tem de aceitar...
- A senhora sabe o que aconteceu com a minha Dalvinha...
- Ora, Jurema, isso não vai acontecer de novo!
Se Deus mandou outra criança para você é porque Ele sabe que agora vai ser diferente!
Mas você tem certeza disso?
Está mesmo esperando criança?
- Não tenho certeza, mas hoje senti aquilo que senti quando estava esperando a Dalvinha, fiquei tonta e quase desmaiei.
Por isso, não posso esperar mais tempo.
- Espere mais um pouco, Jurema.
Quem sabe muda de ideia!
Uma criança deve ser sempre bem-vinda.
- Não adianta tia, eu não quero!
Vim aqui, porque lembrei que um dia a senhora disse qualquer coisa sobre a dona Betina, que ela conhecia muitas ervas.
- Falei, sim.
Ela é filha de índio e conhece todas as ervas, mas por que está dizendo isso?
- Preciso falar com ela.
Quem sabe ela conhece alguma erva para tirar essa criança!
- Deve conhecer, mas não acha que devia esperar um pouco mais?
- Não, tia, se estiver mesmo esperando, quanto mais tempo passar, pior.
- Está bem, vou com você até lá.
- Obrigada, tia.
Preciso resolver logo esse assunto.
- Está bem, depois do almoço a gente vai.
Mas não acha que, enquanto o Dorival não vem almoçar, você devia passar no Zé da farmácia.
Ele deve ter um jeito de saber se você está esperando ou não...
- Vou, sim.
Quando a gente veio, ia primeiro passar lá, mas, depois, decidi vir directo falar com a senhora.
Mas, se achar melhor, posso ir.
- Acho, sim...
Cida, calada, acompanhou a conversa das duas.
Seu peito estava apertado e ela não sabia o porquê.
Pensou: Será que algum dia passei por um momento como este?
Jurema e Cida foram falar com o farmacêutico.
Era um senhor sorridente, parecia estar de bem com a vida.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:44 pm

Ao vê-las, disse:
- Bom-dia, dona Jurema!
Posso ajudar em alguma coisa?
Jurema, nervosa, respondeu:
- Pode, sim.
Contou a ele tudo o que havia se passado.
Terminou, perguntando:
- Acha que estou esperando criança?
- Parece que sim, mas acho que precisa esperar mais um pouco para ter certeza.
Conhece o seu corpo, no mês que vem, só precisa prestar atenção.
- Mas, no mês que vem, vai ser tarde!
Não quero essa criança!
O senhor não tem algum remédio para tirá-la?
Ele, prontamente, respondeu:
- Não tenho, não.
Acredito em Deus e acho que só Ele tem o direito de dar e tirar a vida...
Com muita raiva, Jurema disse:
- Foi isso o que ele fez com a minha Dalvinha!
Ele me deu a menina e depois a tirou!
Não vou deixar que Ele faça isso de novo! Não vou!
- Sei o que aconteceu com a sua filhinha, acompanhei tudo, mas acho que, agora, Ele está devolvendo ela para a senhora...
- Não acredito nisso!
E se o senhor não puder me ajudar, vou procurar em outro lugar!
- Faça como quiser, mas acho melhor pensar bem.
Se estiver esperando uma criança, ela está viva dentro da sua barriga e, se tirar, vai cometer um crime... pense bem...
Jurema não respondeu, estava brava e nervosa.
Com a mão, deu sinal para Cida e saíram dali.
Ela foi à frente e Cida acompanhou-a.
Seguiram directo para casa de Laurinda.
Assim que entraram, Jurema disse:
- Tia, ele não quis ajudar!
Não tem outro jeito não, a gente tem que ir falar com a dona Betina!
- Quer mesmo fazer isso, Jurema?
- Claro que quero!
Essa criança não vai nascer.
Ele disse que, se eu tirar, estou cometendo um crime, mas crime pior cometeu Deus quando me tirou a Dalvinha!
- Deus sempre sabe o que faz!
- E eu sei o que faço!
Não vou passar por tudo aquilo de novo!
Não vou mesmo!
- O Neco sabe disso?
Ele está de acordo?
- Claro que ele sabe, não está de acordo, ele quer ter outro filho.
Até parece que se esqueceu de tudo que a gente passou.
- Então, Jurema... deixa essa criança nascer... desta vez vai ser diferente... você vai ver...
Jurema disse, nervosa:
- Já disse que não quero!
A senhora vai me ajudar ou não?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:44 pm

Se não quiser, nem precisa me dizer onde a dona Betina mora, eu encontro o caminho!
- Está bem, se é assim que quer.
Conheço a dona Betina, sei que ela vai ajudar você...
- Onde ela mora?
- Em um sítio lá perto da encruzilhada.
Fica uma meia hora de carroça.
A gente podia ir no carro do Dorival, mas lá não tem estrada para carro.
A gente vai precisar do Neco, onde ele está?
- Lá no armazém, conversando com o tio.
- Então, vamos até lá?
Ele precisa levar a gente.
- Está bem.
Realmente, Neco estava conversando com o tio:
- Pois é, tio.
Ela não quer essa criança de jeito nenhum.
Não sei o que fazer.
Eu queria tanto outra criança, mas o senhor sabe o quanto eu gosto dela...
- Neco, meu filho, não fica assim, tudo vai se resolver.
Ela agora está conversando com a Laurinda e ela sabe muito bem conversar com a teimosa da sua mulher...
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:45 pm

Dona Betina
- A Jurema respeita muito a tia Laurinda, quem sabe ela consegue tirar isso da cabeça dela.
Olhe lá, elas estão chegando.
Dorival olhou para o rosto da esposa e, por sua expressão, percebeu que ela estava contrariada.
Notou que Jurema estava com o semblante crispado.
Disse para Neco:
- É, Neco... acho que a Laurinda não conseguiu convencer a Jurema, parece que ela está mesmo decidida.
- Parece mesmo, tio.
Não vai ter jeito, não, ninguém vai conseguir fazer essa mulher mudar de ideia, não vai, não.
Aproximaram-se, Jurema disse, nervosa:
- Neco, a gente precisa ir a um lugar e você vai ter que levar a gente de carroça, porque lá não tem estrada para entrar carro.
- Onde é?
- Na casa da dona Betina, fica lá na encruzilhada.
- Tem certeza de que é isso mesmo que quer, Jurema?
- Claro que tenho certeza e não quero que você fale nada!
Já tomei a minha decisão!
Ele olhou para Dorival, dizendo:
- É, tio, como o meu pai dizia:
a vida é cheia de surpresa.
Não pensei que a gente ia ter outro filho.
Nem que eu ia ser obrigado a fazer isso, mas não tem outro jeito.
Vou levar a Jurema aonde ela quiser ir.
Dorival, calado, sorriu.
Laurinda disse:
- Primeiro, a gente vai almoçar, a comida já está pronta, depois a gente vai.
Todos concordaram, menos Jurema, que queria ir naquela hora mesmo, mas, diante da vontade de todos, concordou.
Foram almoçar e assim que terminaram, Jurema disse:
- Neco, agora a gente já pode ir!
Neco, desanimado e calado, saiu da casa, no que foi seguido por elas.
Mais ou menos meia hora depois, chegaram a um sítio cercado por uma cerca de trepadeiras muito verde.
Desceram da carroça Neco abriu um portão e entraram.
Caminharam menos de vinte metros, chegaram a uma pequena casa feita de madeira.
Por todo o caminho e em volta da casa, havia muitas flores e ervas plantadas.
O aroma que vinha delas era muito bom.
Cida disse:
- Tia Laurinda!
Que cheiro bom tem aqui...
- São das plantas dela, dizem que aqui tem remédio para tudo.
- O cheiro é bom mesmo...
Cida continuou olhando tudo e pensando:
como, em um lugar igual a este, pode existir alguém ou uma erva que mate uma criança?
Ao mesmo tempo, ela não entendia aquele Deus que, segundo todos, havia levado a filhinha da Jurema e agora queria que ela aceitasse outra criança.
Nem entendia por que Ele fez com que ela perdesse a memória.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:45 pm

Faltando mais ou menos três metros para chegar à porta da casa, Laurinda bateu palmas, gritando:
-Dona Betina!
A senhora está aí?
Não obteve resposta.
Caminharam até a porta que estava aberta.
Laurinda voltou a chamar:
-Dona Betina!
-Estou aqui!
Olharam em direcção de onde vinha a voz.
Viram uma senhora com os cabelos negros, lisos, longos, um pouco grisalhos no alto da cabeça, com um sorriso largo e dentes muito brancos.
Ao ver Laurinda, disse, admirada:
- Dona Laurinda!
Que bom ver a senhora por aqui!
Faz muito tempo!
- Faz sim, dona Betina!
A última vez que vim aqui, foi quando aquela dor nas juntas ficou muito forte.
-Ela voltou?
- Não, graças a Deus.
Aquele chá que a senhora me deu foi um santo remédio, a dor sumiu para sempre.
-Ainda bem, mas, se não é por causa da dor, por que está aqui, o que deseja?
Laurinda, apontando para eles, disse:
- Essa aqui é a Jurema, minha sobrinha, este é o Neco, marido dela, e esta é a Cida, que mora com eles, mas quem precisa falar com a senhora é a minha sobrinha Jurema.
Ela está com um problema.
Dona Betina olhou para todos, mas para Jurema olhou de cima abaixo.
Fixando profundamente seus olhos, disse:
-A moça não parece ter nenhum problema...
-Mas tenho e só a senhora pode me ajudar! -Jurema disse, aflita.
- Conte que problema é esse, antes é melhor a gente se sentar.
Vamos até aquela mesa.
Dirigiram-se para uma mesa que ficava embaixo de um barracão aberto e coberto por ramas de chuchu.
Em volta da mesa, havia bancos feitos de madeira.
Sentaram-se.
Jurema disse:
- Dona Betina, acho que estou esperando criança e não quero.
A tia Laurinda disse que a senhora conhece todas as ervas.
Quero saber se a senhora tem uma para me livrar desta criança.
Continuando com o olhar fixo nela, Betina, calmamente, disse:
-Conheço mesmo muitas ervas e também conheço uma que pode ajudar você.
Se tomar o chá hoje à noite, amanhã, bem cedo, já estará livre do seu problema.
Jurema disse, entusiasmada:
- É isso mesmo o que quero!
Mas, se eu não estiver esperando criança?
Se for um engano?
- Não há problema.
Se não estiver esperando criança, nada vai acontecer.
Pode tomar o chá sem medo.
Agora vou buscar.
Dona Betina levantou-se e entrou em casa.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:45 pm

Eles permaneceram quietos, acompanhando-a com os olhos, só Jurema parecia feliz com aquela situação.
Neco, em silêncio, fazia uma prece:
meu Deus! Meu São José! Meu Jesus!
Não a deixe matar a minha criança... não deixe...
Dona Betina voltou, trazendo em suas mãos um ramo de uma erva muito verde.
Olhou para Jurema sorrindo e disse:
-Aqui está.
Com essa erva, vai se livrar logo de seu problema.
Pode pegar.
Faz um chá e, esta noite, antes de dormir, toma um copo cheio e bem quente.
Depois de doze horas, tudo vai estar resolvido.
Jurema pegou a erva que ela lhe oferecia, dizendo:
- Obrigada, dona Betina.
A senhora me livrou de uma grande aflição.
-Só quero lhe perguntar uma coisa.
Você é ainda moça e seu marido também, por que não quer essa criança?
Jurema queria sair dali o mais rápido possível, mas, diante daquela pergunta, respondeu:
-Vou contar tudo para a senhora, sei que no fim vai entender.
Contou tudo, desde o momento em que se casou, que Dalvinha nasceu e morreu.
Contou todo o sofrimento que ela e Neco sentiram e que, por isso, não queria outro filho.
Dona Betina ficou olhando para ela e para Neco.
Percebeu nos olhos dele a grande angústia que estava sentindo.
Voltou o olhar para Jurema e disse:
-Depois de tudo o que me contou, acho que tem mesmo razão em não querer outro filho.
Pode levar a erva e tome direitinho.
-Obrigada, quanto custa?
-Não vou lhe cobrar nada, pode levar.
Jurema, com a erva em uma mão, estendeu a outra para dona Betina que ela pegou e, segurando firme, disse:
- Sabe, moça, entendo o seu sofrimento, mas acredito que a gente nasce e morre muitas vezes.
-O que a senhora está dizendo?
Não entendi.
- Mas é muito fácil de entender.
Deus, que é um Pai muito bom, não ia deixar a gente viver aqui na Terra só um pouco de tempo, sofrendo e, depois que morresse, acabar com tudo.
A gente nasce, vive, aprende e depois volta para Deus.
Aí, volta outras vezes, até que a gente aprende tudo o que precisar aprender.
-Continuo não entendendo.
-Quando uma criança nasce morta ou morre depois de um tempo que nasce a gente fica muito triste, mas tudo tem uma resposta.
-A senhora está me dizendo que tem uma resposta para Deus ter levado a minha Dalvinha?
-Isso mesmo...
-Não, para isso não pode ter resposta!
Foi uma maldade de Deus!
-Não foi.
Eu acredito, que a gente, quando está lá no céu, antes de nascer, escolhe a vida que vai ter aqui na Terra.
- Está dizendo que eu e o Neco escolhemos nascer nesta terra seca e com tanta pobreza?
- Foi isso mesmo... vocês escolheram, assim como eu escolhi viver aqui e plantar as minhas ervas...
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:45 pm

-Não consigo acreditar nisso!
Ninguém ia querer viver desse jeito, não!
Se eu pudesse escolher, tinha querido ser rica e viver com todo conforto ou, ao menos, em um lugar que tivesse chuva e que a gente pudesse sempre plantar e colher.
-Mas a gente sempre planta e colhe...
-Continuo não entendendo!
Neco, você está entendendo?
-Não, mas estou gostando.
A senhora pode continuar?
- Posso.
Nascer pobre ou rico, em uma terra boa ou ruim, tudo é escolha da gente mesmo.
A gente só nasce no lugar em que pode aprender.
Vocês estão aprendendo o valor da terra boa e com água.
Estão dando valor para cada gota de água que vem do céu.
Deus é um Pai amoroso, mas justo.
Ele dá de acordo com aquilo de que a gente precisa...
-A senhora está dizendo que eu pedi para ter a minha Dalvinha?
E que, depois, pedi para ela morrer?
-Não sei, mas isso pode ter acontecido, como também não.
-Como assim?
- Quando a gente volta lá para o céu depois de morrer, vai saber tudo o que fez de bom e tudo que fez de mau.
Aí, pede uma chance para voltar de novo e consertar tudo o que fez de errado.
A gente está lá, protegida, junto com muitos amigos, por isso, fica fácil pedir qualquer coisa.
Por estar protegida, acha que pode consertar tudo o que fez de errado em uma só vida.
Por isso escolhe uma vida difícil.
Os amigos chamam a nossa atenção para isso ou aquilo, que eles acham ser demais, mas a gente acha que vai conseguir, por isso, muitas vezes quando está perto de nascer, percebe que vai ser difícil cumprir aquilo que prometeu e pede para voltar.
Isso acontece com muita criança que nasce morta ou morre ainda muito pequena.
-A senhora está dizendo que a minha Dalvinha ficou com medo e quis morrer?
-Não sei, pode ter sido isso ou outra coisa também, Deus é quem sabe.
Mas posso lhe garantir que, se isso aconteceu, foi porque Deus quis sim e foi bom para vocês.
Aprenderam a reconhecer o valor de se ter um filho.
Quem sabe, em uma outra vida, não quiseram ou, se tiveram, abandonaram.
Não sei, mas para sua menina, deve ter sido bom.
É melhor voltar e não cumprir o que se prometeu do que ficar e se desviar do caminho, levando mais dívidas.
-Como acontece tudo isso?
- Quando a criança volta, porque teve medo, os amigos já estão esperando, conversam muito e ela pode mudar alguma coisa daquilo que planeou.
Daí, ela pede uma outra chance e quase sempre é concedida.
Então, ela volta de novo.
Agora com um caminho mais fácil para percorrer.
Jurema estava com os olhos arregalados, olhou para os outros, percebeu que também olhavam para ela.
Parou o olhar em Neco que estava de cabeça baixa e de olhos fechados.
Ele ouviu atentamente tudo o que dona Betina disse.
Não entendia nem acreditava naquilo, mas pensava:
ela está dizendo que a Dalvinha pode estar querendo voltar!
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Ave sem Ninho

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:46 pm

Meu Deus! Como pode ser isso?
Todos haviam entendido e pensado o mesmo que ele.
Jurema disse, assustada:
-Isso não pode ser verdade!
A gente, quando morre, vai para o céu ou para o inferno, não tem volta não!
Betina sorriu e disse:
- Você pode ter razão.
É tudo muito complicado mesmo, mas acredito em tudo o que eu disse.
Acredito no Pai Supremo.
Sei que Ele é bom e justo, só quer o bem da gente.
- O que vocês estão achando de tudo isso? -Jurema perguntou, intrigada.
Eles não responderam.
Assim como ela, estavam abismados e pensativos.
Sem obter resposta, ela se voltou novamente para dona Betina que a olhava tranquilamente:
-Isso não pode ser!
A senhora está inventando tudo isso...
-Não estou inventando... estou dizendo só aquilo em que acredito, mas isso tudo pode ser mesmo uma besteira, você não precisa acreditar.
Já lhe dei a erva, vá para casa e tome direito.
Amanhã, seu problema vai estar resolvido.
Jurema estava nervosa, aquilo tudo era muito novo e estranho.
Olhou para Neco, tentando encontrar apoio, mas ele continuava de cabeça baixa.
Nervosa, perguntou:
-Neco, o que a gente faz?
Ele levantando a cabeça, respondeu:
-Não sei, Jurema, você é quem sabe, mas tudo o que ela disse pode ser verdade.
E se a nossa Dalvinha está mesmo querendo voltar?
A gente não vai querer matá-la, não é mesmo?
Jurema olhou para Laurinda, depois olhou para a erva que estava em sua mão.
Ficou por um instante pensando.
Depois, estendendo a mão:
- Não sei se o que a senhora disse é verdade, mas como o Neco disse, pode ser.
Não vou tomar este chá, não.
Se não for a Dalvinha, vai ser outro, mas que vai nascer, vai mesmo!
Dona Betina pegou a erva de volta.
Não disse nada, apenas elevou o pensamento para o alto e agradeceu a Deus.
-Neco, será que é a Dalvinha que está querendo voltar?
- Não sei, Jurema, mas, se for, vai ser bem recebida, não vai?
A gente vai dar todo o amor do nosso coração para essa criança.
-A gente vai dar sim, Neco, vai mesmo...
Cida e Laurinda ficaram caladas, tentando parar de chorar.
Laurinda disse:
-Jurema, não disse que a dona Betina ia ajudá-la?
Se essa criança for a Dalvinha ou não, não interessa, a gente vai amá-la, muito!
Ora se vai!
Jurema, abraçada em Neco, olhou para dona Betina.
- Dona Betina, será que Deus vai me perdoar por aquilo que eu ia fazer?
- Claro que vai, Ele perdoa sempre.
Ele é nosso Pai.
Os pais, aqui da Terra, não perdoam sempre aos filhos?
Imagine Ele, que é Pai de todos nós, que criou o céu, a terra e todo o resto!
-Obrigada, mais uma vez.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:46 pm

Agora, a gente tem que ir, não é, Neco?
A gente precisa voltar para nossa lida e esperar a nossa criança.
Dona Betina sorriu e pegou na mão de todos.
Quando pegou a de Cida, segurou-a por mais tempo, depois disse:
- Moça, estou vendo um véu cobrindo a sua consciência.
Não sei dizer por que ele está aí, mas posso lhe dizer que tudo tem sempre um motivo.
Por isso, não precisa se preocupar, logo, logo, esse véu vai sumir e tudo vai ficar claro.
Cida perguntou, esperançosa:
-A senhora está vendo o meu passado?
Sabe quem sou e de onde vim?
-Não moça, mas estou vendo o seu futuro, ele lhe dará um encontro com você mesma.
-Mas, e o meu passado, vou me lembrar dele?
- Tudo na vida vem na hora certa.
Para você, ela também vai chegar.
Não pense no passado, mas em tudo o que pode fazer pelo futuro.
Deus acompanhe vocês e, sempre que quiserem, podem vir me visitar.
Quando essa criança nascer, quero que a tragam até aqui.
Vai fazer isso, Jurema?
-Claro que a gente vai!
A senhora pode esperar!
-Está bem, Jurema!
Estarei esperando.
Saíram dali, com o coração leve e uma imensa alegria.
Até Cida estava bem, acreditou naquilo que dona Betina disse.
Não vou mais tentar me lembrar, vou dar tempo ao tempo.
Como ela disse:
tudo tem hora certa...
Quando chegaram ao portão, voltaram-se e acenaram, dando adeus.
Dona Betina respondeu o aceno e pensou:
obrigada, meu Deus, por essa inspiração e para que eu pudesse dizer as palavras certas.
Que essa criança seja bem-vinda...
Após se acomodarem novamente na carroça, seguiram viagem.
Neco era o mais feliz.
- Agora, sim, Jurema, você vai voltar a ser a mulher alegre que sempre foi.
Desde que a Cida chegou, você já mudou muito.
Primeiro, quis voltar a trabalhar, tudo bem que foi só para ajudar a Cida, essa moça que a gente não sabe quem é, nem de onde veio, mas que serviu para trazer um pouco de vida para você.
Agora, você aceitou ter outra criança.
Vamos pedir a Deus que Ele deixe essa criança vir com saúde para a gente ser feliz.
- Neco, será que tudo o que ela falou é verdade?
Será que a gente morre e nasce de novo?
Isso tudo é loucura, não pode ser.
Se eu tivesse vivido outra vez, claro que ia me lembrar.
Acho que essa mulher não é certa da cabeça, não...
- Não sei se ela é certa ou não, mas o que ela disse até pode ser verdade.
Só assim a gente podia mesmo acreditar na bondade de Deus.
Muito curiosa, Jurema perguntou para Laurinda:
-Tia, faz tempo que a senhora conhece a dona Betina?
-Faz sim. A primeira vez foi quando o Dorival ficou triste pelos cantos, sem saber o motivo.
Fui falar com o doutor Evaristo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 14, 2017 7:46 pm

Ele me disse:
-Eu não entendo disso que o Dorival está sentindo.
Acredito que deveria levá-lo à dona Betina, ela entende disso e muito bem.
-No começo, o Dorival não queria ir, mas depois de eu e o doutor insistirmos muito, ele resolveu aceitar e a gente foi até ela.
Quando a gente chegou lá, ela disse:
-Bom-dia!
Que bons ventos trazem vocês até aqui?
- Eu e o Dorival ficamos impressionados, porque ela não conhecia a gente, mas, mesmo assim, estava sorrindo e parecia feliz de ver a gente ali.
Mandou a gente sentar naquele mesmo banco.
Olhou para o Dorival, só que parecia que os olhos dela estavam olhando por trás dele, perguntou:
-Por que você está tão triste assim?
Sei que a saudade é triste, mas você precisa tentar esquecer e seguir o seu caminho.
Não sabe que Deus, nosso Pai, cuida da gente, perdoa e está sempre esperando a gente voltar?
Ele não quer nada, só que a gente siga o caminho do bem e da luz.
-A gente não estava entendendo nada.
Ela falava, mas parecia que não era com a gente.
O Dorival me olhou, não disse nada, mas eu sabia que ele estava pensando o mesmo que eu.
Ele ia dizer para ela que não sabia por que estava triste, mas ela parecia que não estava vendo a gente.
Continuou falando:
- Sabe, Deus não se importa com o que a gente fez de certo ou de errado, ele está sempre disposto a perdoar.
O passado passou e, tudo o que você fez ou alguém lhe fez, ficou para trás.
Hoje, esse moço aqui tem um outro caminho e você deve também procurar o seu.
Não pode continuar ao lado dele...
-O Dorival não se conteve, estava nervoso, queria sair dali.
Aquela mulher parecia louca, disse nervoso:
- A senhora me desculpe, não estou entendendo nada do que está dizendo.
Vim aqui, porque a minha mulher e o doutor Evaristo disseram que a senhora pode me ajudar, mas, pelo que estou vendo, a senhora não pode fazer isso.
Obrigado por tudo, mas agora a gente tem que ir embora.
-Ela pareceu não ouvir o que o Dorival disse, continuou falando:
-Sei que o abandonou quando ele era criança, mas, hoje, ele já é um homem feito e tem o seu caminho para seguir, assim como você tem o seu.
Não precisa ficar triste nem pedir perdão, porque só Deus pode perdoar e Ele perdoa sempre.
Vá... siga o seu caminho, não fique perdendo mais tempo.
Ele está bem e vai ficar melhor sabendo que você está bem.
-Parecia que ela não via que a gente estava ali.
Continuou olhando para aquele lugar.
Eu e o Dorival não sabíamos o que fazer.
A gente não estava entendendo, mas percebia que alguma coisa estranha estava acontecendo.
Passando um tempo, os olhos dela se voltaram para o Dorival, disse:
- Vocês podem ir embora, agora, está tudo bem.
-O Dorival me olhou, eu não entendi, mas perguntei:
- Como está tudo bem?
A senhora não vai dar um chá para ele beber?
- Não é preciso, ele vai ficar bem.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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