Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:45 pm

- Dorival, nervoso por ter perdido o seu tempo, disse, mais nervoso ainda:
- Laurinda! Vamos embora, a gente não tem mais nada para fazer aqui!
A gente ia saindo, quando ela disse:
- Moço, você vai ficar bem, mas para isso, vai ter que perdoar do fundo do coração.
Quem estava ao seu lado era a sua mãe.
Ela estava triste, pedindo perdão por tê-lo abandonado, quando você era criança.
-Ao ouvir aquilo, Dorival me olhou com os olhos arregalados e, assim como ele, também fiquei estarrecida.
Ele, agora quase fora de si, perguntou?
- Como a senhora sabe disso?
Quem contou?
-Com aquele sorriso que vocês viram, ela respondeu:
-Eu não sabia, quem me contou foi a sua mãe.
-Mas a gente nunca comentou isso com ninguém!
Meu pai proibiu, nem a Laurinda sabia!
Quando ela foi embora, meu pai disse para todo mundo que ela havia ido para São Paulo se tratar e depois ele disse que ela havia morrido lá.
-O Dorival estava dizendo a verdade.
O que eu sabia era isso, que sua mãe tinha morrido em São Paulo.
Mas a dona Betina com o mesmo olhar disse:
- Sabe que não é verdade.
Você sabe que, durante todos esses anos, ficou culpando sua mãe por isso e, sempre que se lembra dela, sofre e sente muita raiva...
- Isso é verdade... nesses últimos dias, tenho pensado muito nela e sentindo muita raiva.
Ela abandonou a gente, eu e meus irmãos.
Eles eram pequenos, por isso acreditaram na história que meu pai contou.
Eu era grande e ela, antes de ir embora, veio se despedir.
Ela disse que tinha encontrado um outro caminho e que por isso precisava ir embora.
Laurinda continuou falando:
- Eu fiquei ali, parada, vendo os dois conversarem.
Tudo aquilo para mim, era novidade.
Dona Betina continuou:
-Foi isso mesmo que aconteceu, ela foi embora com um outro homem e ficou com ele por muito tempo, mas nunca foi feliz completamente, pois sempre se culpava por ter abandonado vocês.
Faz algum tempo que ela morreu realmente.
Depois da morte, o arrependimento foi maior e, por isso, ela vivia ao seu lado, pedindo perdão.
A tristeza que você sentia não era sua, era dela.
Mas, agora, não precisa se preocupar.
Hoje, ela entendeu que não pode continuar do seu lado, que precisa ir embora e entender tudo aquilo que aconteceu.
Ela foi embora muito bem acompanhada.
Pode ficar sossegado.
Só não fique com ódio ou raiva dela.
A gente não tem o direito de julgar ninguém.
Deus é quem sabe das coisas.
Só Ele pode julgar e condenar.
-Dorival, abismado com aquilo, começou a chorar.
Ela o abraçou, dizendo:
-Não precisa chorar.
Agora está tudo bem.
Você tem um longo caminho para percorrer.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:45 pm

Ela também.
Agora vai entender e, se Deus quiser, parar de sofrer.
Deus é Pai e nunca abandona a gente.
Volta para sua casa, continue trabalhando e sendo o bom pai e marido que é.
Que Deus o abençoe.
-Ele ficou ali por um bom tempo abraçado àquela mulher que até pouco tempo julgava louca.
Depois, a gente foi embora e ele voltou a ser o Dorival de sempre alegre e feliz.
Cida, Jurema e Neco ouviram atentamente Laurinda contando tudo aquilo.
Foi Jurema quem disse:
-Nossa, tia!
Ela sabia de tudo mesmo?
- Sabia, sim, coisas que até eu não sabia.
Mais tarde, ela contou para gente que, desde criança, podia ver as pessoas que tinham morrido e, com o tempo, aprendeu a conversar com elas.
Por isso, eu sabia que ela ia poder ajudá-la.
Ela é uma mulher maravilhosa.
-É mesmo... se ela pode ver, então ela viu a minha Dalvinha e sabe que ela quer voltar.
Não é mesmo?
-Isso eu não sei, mas quem sabe?
-Parece que essa mulher sabe muita coisa mesmo.
Eu não acreditei muito naquela história de nascer de novo.
Será que é verdade?
Onde já se viu uma coisa como essa!
Laurinda, sorrindo, falou:
- Eu também não acreditava, mas, daquele dia em diante, sempre que alguém precisava, eu acompanhava até a dona Betina e ela conversava muito.
Ela disse que Deus não ia criar a gente para viver só sessenta ou oitenta anos e depois tudo se acabar.
Ela disse que não tem ninguém na Terra que pode dizer que é feliz o tempo todo, que todas as pessoas tem momentos de felicidade e de tristeza.
Ela disse, também, que tanto num momento como no outro a gente deve aprender e agradecer.
Ela também disse que a gente foi a maior criação de Deus, por isso, Ele tem muita paciência.
Disse que só para gente, Ele deu entendimento e oportunidade de escolher o caminho que quer seguir.
-Como assim?
- Ela disse que, quando Deus criou a gente, Ele deu também a inteligência e o pensamento.
Assim, a gente pode sempre escolher.
Ela disse que isso se chama livre-arbítrio.
- É muito complicado.
Quer dizer que é a gente quem sempre escolhe?
Cida, que ouvia em silêncio a conversa, interferiu:
- Eu não acredito nisso!
Se for assim, vai me dizer que eu escolhi ter esquecido tudo da minha vida?
Eu escolhi ficar perdida assim sem saber nada?
Laurinda percebeu que ela estava nervosa, respondeu:
-Isso eu não sei, mas a dona Betina sempre disse que há um motivo para tudo e que a gente está sempre aprendendo.
- Não acredito nisso!
Quando o Neco me encontrou, eu estava muito ferida!
Com certeza alguém fez aquilo!
Um homem ou mais!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:45 pm

Vivos! Não foi Deus!
Acreditam mesmo que eu tenha escolhido isso para mim?
Será que eu escolhi?
Como uma pessoa pode fazer algo como aquilo?
Bater muito em outra e depois deixar jogada para que morra?
Sim, pois se o Neco não tivesse me encontrado, eu estaria morta.
Isso não é vontade de Deus, nem minha!
É maldade pura!
Eu não escolhi isso para mim!
Isso é pura invenção dessa mulher!
- Não sei lhe dizer se é verdade ou não.
Ela diz as coisas, você acredita ou não.
Eu acredito, porque acho que tem muito de verdade.
Tem tanta gente que sofre muito aqui neste sertão, mas, nem por isso, todas são pessoas boas, algumas até são más.
Do jeito que aprendi, a gente nasce, cresce, morre e vai para o inferno.
Isso não é justo.
Já pensou nas pessoas que sofrem tanto aqui e, quando elas morrem, ainda vão para o inferno?
Isso, sim, que não seria justo.
Ela disse que Deus sempre dá uma oportunidade para a gente encontrar o caminho do bem e da luz.
- Não sei, não, acho tudo isso muito confuso.
Só sei que não posso ter escolhido tudo.
A Jurema diz que eu devo ser de família rica.
Acredita mesmo que eu escolhi esquecer tudo e viver aqui?
- Isso eu não sei, mas quem é que sabe, não é?
Agora é melhor a gente deixar tudo isso para lá.
Antes de vocês irem embora, acho melhor a gente tomar um lanche.
Já está tarde!
Só aí, Neco interferiu na conversa.
-Tia, a senhora tem razão.
A gente não pode ficar até muito tarde.
A gente precisa voltar para o sítio.
Foi o que fizeram, tomaram o lanche e pegaram o caminho de volta.
Durante o caminho, por um bom tempo, seguiram calados.
Jurema foi a primeira a falar:
-Sabe, Neco.
Estou feliz por ter conversado com a dona Betina, já pensou?
Eu ia matar uma criança que pode ser a nossa Dalvinha!
- Eu fiquei mais feliz ainda, Jurema.
Logo a gente vai ter outra criança correndo pelo sítio.
Já pensou como isso vai ser bom?
- Só tenho medo de ela ficar doente e a gente não ter tempo de socorrer, como aconteceu com a Dalvinha...
- Isso não vai acontecer.
Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
A gente não pode pensar assim.
Desta vez vai ser diferente.
Jurema perguntou:
-Cida, o que você achou de tudo o que a gente escutou?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:45 pm

-Não sei, mas parece tudo uma bobagem.
Essa história de a gente escolher e de livre-arbítrio.
Se Deus existe mesmo, Ele não me deu escolha.
Estou aqui nesse lugar, distante de tudo e de todos, sem saber quem fui e de onde vim.
Que escolha eu tenho?
Como posso decidir a minha vida?
-Puxa! Parece que você não gosta da gente!
-Não é isso, Jurema!
Gosto muito de vocês, se não fosse por vocês, eu estaria morta!
Estou feliz por essa criança que vai nascer.
Vocês merecem, mas estou triste por não conseguir me lembrar nem poder escolher a vida que quero.
Não tenho opção e isso é muito ruim.
Eu queria me lembrar de tudo e poder escolher um caminho para seguir.
- Dona Betina disse que para tudo tem uma hora certa, é só você esperar.
Vai ver como logo vai lembrar, mas, agora, a gente precisa pensar na criança que vai nascer e precisa preparar a roupinha dela.
Você vai me ajudar?
Cida sorriu.
Ela gostava muito daquelas pessoas, muito mais de Jurema.
Respondeu:
- Claro que vou, Jurema!
Aliás, você pode deixar tudo por minha conta.
Sabe muito bem que estou bordando e tecendo renda como você ou até melhor!
-Neco, olha só isso!
Ela está achando que é melhor do que eu!
Ele sorriu, mas não disse nada.
Estava feliz demais.
Ia ter novamente uma criança e era tudo o que queria.
Quando chegaram a casa, já estava anoitecendo.
Elas foram para a cozinha preparar o jantar, que agora era farto.
Neco foi dar água para o cavalo que estava cansado.
Enquanto o cavalo bebia a água, Neco o acariciava e pensava:
como é bom viver neste lugar.
Aqui a gente tem tudo de que precisa para ser feliz.
Com a chuva e, agora, com essa criança que vai nascer, a gente não precisa de mais nada.
Se foi essa a vida que escolhi, fiz uma boa escolha.
Obrigado, meu Deus.
Ele não viu, mas, ao seu lado, sentado em banquinho, estava seu pai que sorria feliz por ver o filho tão tranquilo.
Disse:
-Meu filho, como estou feliz por ver você assim.
Você sempre foi bom e merece isso que está acontecendo na sua vida.
O pior já passou.
A chuva chegou e, com ela. a fartura.
Essa criança que vai nascer, vai lhe trazer muita felicidade.
Deus o abençoe.
Naquele momento, Neco lembrou-se do pai:
Pai, se o que aquela mulher disse for verdade, o senhor não partiu para sempre e a gente ainda vai se encontrar.
Quero que o senhor saiba que estou muito feliz vendo essa terra toda verde e com a criança que está vindo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:46 pm

Pai, se puder me ouvir, saiba que sinto saudade...
Uma lágrima surgiu nos olhos do velho senhor.
Estava feliz pelo filho, acariciou o seu cabelo, dizendo:
- Também estou feliz, meu filho, até agora tem cumprido tudo o que prometeu, espero que continue assim.
Deus o proteja.
Neco passou a mão pelos cabelos, parecia que alguém estava mexendo neles.
Ficou ali por mais algum tempo, lembrando-se de quando era criança e de tudo que havia feito junto com seu pai.
Pai, estou com muita saudade, gostaria de ver o senhor de novo.
Será que um dia vou conseguir isso?
-Vai, meu filho, claro que vai.
Mas agora precisa cuidar da sua família.
Eu também preciso ir embora.
Tenho muito o que fazer. Adeus.
Assim dizendo, desapareceu.
Neco prendeu o cavalo, depois, entrou em casa.
Ao ver que o jantar estava pronto, disse:
-Jurema, esse cheiro está muito bom.
Vai demorar muito?
-Não, já está quase pronto.
Jantaram e foram dormir.
Eles estavam em paz, ao contrário de Cida, que se virava de um lado para o outro sem conseguir dormir, pensava:
eu não tenho escolha, não tenho livre-arbítrio e, se Deus existe mesmo, Ele me esqueceu.
Estava revoltada com a sua situação, queria lembrar, mas não conseguia.
Cansada, adormeceu.
Sonhou que estava em um lugar, onde as pessoas, vestidas de branco e com uma máscara também branca sobre a boca, andavam de um lugar para outro.
Queria conversar, mas elas pareciam não vê-la.
Acordou quase caindo da cama.
Assustada, pensou:
que lugar estranho era aquele?
Quem eram aquelas pessoas?
Não obteve resposta, mas, como estava sonolenta, logo voltou a dormir.
Sonhou novamente, só que, desta vez, estava em outro lugar, com sombras ao seu lado.
O lugar era feio e ela estava com medo.
Quando começou a entrar em desespero, querendo fugir e não sabendo para onde ir, dona Betina surgiu e sorrindo disse:
-Não precisa ficar com medo.
Logo, todas as sombras desaparecerão e um sol lindo brilhará em sua vida.
Tudo tem um motivo e você descobrirá, porque está passando por tudo isso.
Acordou pulando na cama, como se estivesse voltando de algum lugar.
Estava suando, mas se sentiu tranquila, ficou pensando:
quem será essa dona Betina?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:46 pm

A Hora Certa
O tempo foi passando.
Jurema estava realmente esperando uma criança.
Logo, para a felicidade dela e muito mais do Neco, sua barriga começou a crescer.
Ele, durante todo o dia, a acariciava muitas vezes.
Com a chuva constante e com todo aquele verde, muitas pessoas que haviam ido embora retornaram para suas terras.
A cidade cresceu.
Um novo prefeito foi eleito.
Ele construiu um pequeno pronto-socorro.
Contratou um médico, que veio de Salvador.
Era muito jovem, o que fez com que as pessoas duvidassem de sua capacidade, mas, aos poucos, ele foi conquistando a todos.
Jurema ia todos os meses até o pronto-socorro, queria estar bem, pois sua criança precisava nascer com saúde.
Sempre que a via, o médico lhe dizia:
-A senhora está muito bem, dona Jurema, continue tomando as vitaminas e sua criança vai nascer saudável.
-É tudo o que quero, doutor, que ela tenha muita saúde...
Laurinda, por sua vez, também estava ansiosa para que a criança nascesse.
Assim como Jurema e Neco, ela também sofreu muito com a morte da Dalvinha.
Em uma das vezes em que Jurema foi ao pronto-socorro, ela foi também.
Enquanto Jurema entrou para ser examinada, ela ficou do lado de fora, conversando com Cida:
-Cida, por que não conversa com o doutor a respeito do seu caso?
Quem sabe, ele diz alguma coisa.
Pode lhe receitar um remédio ou falar de algum tratamento.
-Não sei, será que ele entende disso?
-Também não sei, mas não custa tentar.
Assim que a Jurema sair, a gente entra e conversa com ele.
Foi o que fizeram.
Assim, Jurema e Neco saíram, Laurinda contou o que pretendia e entraram novamente.
Dentro do consultório, Laurinda disse:
-Desculpe, doutor, a gente ter entrado assim, mas é que esta moça tem um problema e, quem sabe, o senhor possa ajudar.
Ele olhou para Cida e, sorrindo, disse:
-Que problema uma moça bonita como essa pode ter?
Cida, sentindo-se confiante, respondeu:
-Estou com um problema muito sério e não sei como resolver.
-Então, conte.
Ela contou tudo do que se lembrava, desde quando acordou na caatinga e foi socorrida por Neco.
Ele ouviu-a atentamente.
Ficou olhando-a, depois disse:
-Não sou um especialista, mas, de acordo com que aprendi, você deve ter passado por maus momentos.
Deve ter sofrido muito.
Sofreu um choque muito grande e o seu inconsciente resolveu apagar tudo para não sofrer mais.
-Está dizendo que eu quis e quero esquecer?
- Não, estou dizendo que foi o seu inconsciente, e você não tem controle sobre ele.
-Então! Nunca mais vou me recordar?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:46 pm

-Assim como foi algo de muito ruim que fez você esquecer, quando passar novamente por outro momento de extremo perigo, talvez volte a se lembrar, senão de tudo, ao menos de alguma coisa.
-Terei que passar por algo ruim novamente?
- Como já lhe disse, não sou um especialista, porém, pelo pouco que aprendi a esse respeito, acredito que sim.
-Se depender disso, ela não vai lembrar nada, doutor.
Ela mora até hoje com a gente.
Lá não tem problema algum.
A gente a protege como se fosse nossa filha, não é mesmo, Cida?
- É sim, Jurema, se depender disso, vai ser difícil mesmo.
Mas, o senhor não tem algum remédio que possa me receitar?
- Não, para isso que está sentindo, não tenho.
Seria bom que consultasse um psiquiatra, talvez ele encontre uma maneira de ajudar você.
-Como posso fazer isso?
Aqui na cidade não tem nenhum!
-Sinto muito, só mesmo na Capital.
Não tem uma maneira de ir até lá?
-Não, não tenho.
Vivo de favor na casa da Jurema e do Neco.
Eles salvaram a minha vida e estão até hoje me dando todo apoio, mas são pessoas com pouco recurso.
Não sei o que fazer, estou acreditando que ficarei assim para o resto da vida.
- Se não tem como se tratar, pode vir aqui uma vez por mês.
Poderemos conversar e, talvez, surja uma luz.
-O senhor acredita mesmo?
-Não sei, vou telefonar para um amigo meu que é psiquiatra, quem sabe ele possa ajudar, mesmo que seja a distância.
Volte no próximo mês e eu terei uma resposta...
-Está bem, doutor, obrigada.
Saíram dali, outra vez, ela sentiu que uma nova esperança surgia em seu coração.
Laurinda e Jurema também sentiam a mesma coisa.
Laurinda disse:
- Vou conversar com o Dorival, quem sabe ele pode pagar o seu tratamento e, se for preciso, eu vou com você para a Capital.
Não pode continuar assim.
-Obrigada, tia Laurinda, mas não pode ser agora.
A Jurema vai ter a criança, quero estar aqui quando ela nascer.
Jurema sorriu:
- Isso mesmo, também quero ir com você, só que assim com este barrigão vai ser difícil.
Deixe a minha criança nascer.
Depois, a gente faz o que for preciso.
Por enquanto, você vai se tratando com o doutor Campelo, até ele falar com o amigo.
Cida sorriu e pensou:
Já faz tanto tempo que estou dessa maneira.
Poderei continuar por mais um pouco de tempo.
Despediram-se de Laurinda e voltaram para o sítio.
A vida continuou.
Cida, no mês seguinte, voltou com Jurema.
Assim que o médico a viu, disse:
-Tentei falar com o meu amigo, mas ele foi para o exterior participar de um congresso e fazer um curso.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:46 pm

Não sei quanto tempo vai demorar, assim que voltar, falarei com ele.
- Está bem, doutor, já estou me acostumando com a vida da maneira como está.
Gosto da Jurema e o que mais está me importando é que a criança dela nasça bem.
-Ainda bem que está assim.
Tenha certeza de que, quando menos esperar, vai se lembrar de tudo.
-Assim espero...
Continuou consultando-se todos os meses.
Sempre que voltava dessas consultas, sentia-se melhor.
Todas as manhãs, faziam a mesma coisa:
Neco ia para a lavoura, ela e Jurema para o barracão.
O trabalho era muito, pois, além de bordarem para Dorival, preparavam o enxoval da criança.
A cada peça de roupinha que terminava, Cida se encantava e dizia feliz:
-Olhe Jurema!
Como ficou bonito.
-Ficou mesmo, você borda muito bem.
Essa minha criança vai ter tudo do que precisar.
Deus queira que ela venha com saúde.
- Virá! Pare de pensar nisso, Jurema!
Essa criança vai ser forte e bonita!
-Sei que você tem razão, mas não consigo me esquecer da Dalvinha, tenho medo de que aconteça o mesmo com esta, também.
-Não vai acontecer, Jurema.
Vai ser uma criança linda!
- Tomara. Amanhã a gente tem de ir à cidade conversar com o doutor Campelo.
Você gosta dele, não é, Cida?
Cida, não conseguindo disfarçar, respondeu:
-Ele é um homem bonito, mas não sente nada por mim.
Para ele, sou só uma paciente.
-Será que é só isso mesmo?
Não sei não.
Ele olha para você de um jeito... e você, também, olha para ele de um jeito...
-Que jeito, Jurema?
Ele me olha da mesma maneira que olha para você!
Cida ficou muito nervosa.
Jurema começou a rir.
-Fique calma, Cida, não precisa ficar nervosa!
Olhe, a minha mãe sempre dizia que a gente só fica brava quando é verdade.
-Que verdade?
Está dizendo que estou gostando dele?
-Não sei, não...
Mas acho que sim...
-Deve estar louca, Jurema!
Como gostando?
Só gosto de conversar com ele, nada mais, nem sei se ele é casado!
-Acho que não estou louca, não... já vi o jeito que você olha para ele...
Cida largou o bordado que estava em sua mão, saiu correndo do barracão e entrou em casa.
Jurema continuou ali, sorrindo.
Em seu quarto, Cida deitou na cama e começou a chorar enquanto pensava: como apaixonada?
Só gosto de conversar com ele... sei que, muitas vezes, durante o dia, eu penso nele, no seu rosto e no seu sorriso, mas não estou gostando dele!
A Jurema está louca mesmo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:46 pm

Neco, que estava cuidando do cavalo, viu quando ela saiu correndo.
Ficou curioso.
Foi até o barracão.
Jurema estava sentada bordando.
Ele se aproximou, perguntando:
-Jurema, vi a Cida sair correndo daqui, o que aconteceu?
Vocês brigaram?
Jurema olhou para ele e, sorrindo, respondeu:
- Não aconteceu nada, Neco, a gente não brigou, não.
Ela só descobriu que está gostando do doutor.
Neco, ao ouvir aquilo, sentou-se no banco, perguntando:
-Ela está gostando do doutor?!
Ela descobriu?!
Como ela contou?
-Não contou, quem descobriu foi eu...
-Você? Como?
-Eu vi como ele olha para ela, e ela para ele.
Ela fala o tempo todo nele.
-Fala como?
-Que ele é bonito, que fala bem, que os olhos dele brilham e outras coisas mais...
-Fala isso, é?!
-Fala, sim.
O que você acha?
-Acho que ela está gostando mesmo...
Isso é bom, não é, Jurema?
- É muito bom, Neco.
Desde aquele dia que você a trouxe aqui para casa, gostei muito dela e quero que seja feliz.
Se eu estiver certa, ele também está gostando dela...
-Será, Jurema?
-A gente vai amanhã até lá, vou prestar mais atenção.
-E a gente vai ver.
Você não vai falar com ela?
-Agora não, vou deixar que fique um pouco sozinha.
Ela precisa pensar, acabou de descobrir e deve estar fazendo uma porção de perguntas para ela mesma.
Vou esperar um pouco e, depois, se ela não vier, eu vou até lá.
Enquanto isso, Cida continuava deitada em sua cama e pensando:
será que a Jurema tem razão?
Será que estou mesmo apaixonada?
Se for verdade?
O que posso lhe oferecer?
Uma mulher sem memória que não sabe quem é, nem se já teve um marido.
Isso não pode ser!
Jurema deixou passar mais de uma hora.
Depois foi até o quarto, Cida continuava deitada e chorando.
Ela se aproximou, dizendo:
-Não precisa ficar assim, se estiver gostando dele e ele de você, vai ser muito bom.
Você precisa de uma companhia e ele me parece ser um homem bom.
- Isso nunca vai acontecer, Jurema... não sei se ele gosta de mim, mas, mesmo que isso seja verdade, eu nunca poderia ter nada com ele.
Não sei quem sou.
Nem de onde vim...
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:47 pm

-Isso não vai atrapalhar.
Se tiver que ser, vai ser.
-Como não vai atrapalhar, Jurema?
Nem sei se sou casada!
- Não precisa chorar, Cida.
Amanhã, a gente vai até lá e você vai poder ter certeza.
-Eu não vou mais lá!
-Como, não?
Você precisa continuar o tratamento!
-Esse tratamento não está ajudando em nada... só fico lá conversando com ele, mas não tenho muito o que dizer.
Não me lembro de nada...
-Acho que você devia ir, mas, se não quiser, eu não vou insistir.
Assim que minha criança nascer, a gente vai encontrar um jeito de levar você para a Capital.
Lá, você vai falar com aquele médico amigo dele ou outro que trata dessas doenças da cabeça.
-Vamos deixar como está, Jurema.
Não quero mais me consultar com ele.
Jurema, não querendo insistir, saiu dali.
Cida continuou pensando:
será que ela está certa?
Em uma coisa ela tem razão, isso que estou sentindo é realmente muito estranho.
Não me lembro de ter sentido nada parecido.
Mas, mesmo que seja verdade, sei que não dará certo, não posso continuar pensando nele, pois ele me trata apenas como cliente... disso, tenho certeza, nunca demonstrou nada além disso.
Também, não tenho nada para lhe oferecer, nem mesmo um nome.
Mas por que não consigo afastar da minha mente o seu rosto e o seu sorriso?
Embora a Jurema tenha dito que ele gosta de mim... não acredito, ela está delirando...
Ficou ali por muito tempo.
Depois, voltou para o barracão.
Sentou-se, pegou uma peça de roupa e começou a bordar.
Jurema não disse nada, mas Cida percebeu que ela a estava olhando.
Não tocaram mais naquele assunto no restante do dia.
Fez café e foi para o quintal preparar o cavalo.
Estava preocupado, pois a hora de a criança nascer estava se aproximando.
Jurema havia passado bem durante todo o tempo, mas a cada dia que se aproximava o nascimento da criança, ele ficava mais ansioso e preocupado:
acho melhor levar a Jurema lá para a casa da tia.
A gente mora muito longe e, se ela passar mal de noite, como vai ser?
Vou falar com ela.
Sei que não quer.
Disse que só vai um mês antes de a criança nascer e que está bem.
Eu não quero, mas não consigo me esquecer da Dalvinha e fico pensando que se a gente morasse na cidade, ela não tinha morrido.
Jurema também acordou e se levantou.
Estava bem e, quando pensava em algo ruim, lembrava-se daquilo que dona Betina disse:
-Pode ser a sua filhinha que está querendo voltar.
Ao pensar isso, sentia um novo ânimo e afastava os pensamentos ruins.
Cida, que foi dormir muito tarde, não ouviu o barulho deles quando levantaram.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:47 pm

Ela não dormiu bem.
Aquilo que Jurema lhe disse fez com que ficasse preocupada.
Estava com medo de que Jurema estivesse certa.
Sentia que gostava de ficar conversando e olhando para o doutor.
Ele era jovem e bonito, com os cabelos negros, olhos claros, pele também clara e barba, embora, sempre bem feita, negra e espessa.
Ele tinha um sorriso bonito, seus dentes eram perfeitos e muito brancos.
Tudo aquilo ela havia notado, mas não percebeu que estava se apaixonando, embora pensasse nele durante o dia todo e ficasse ansiando para o dia da consulta chegar.
Pensou muito.
Mas, sabia também, que mesmo que Jurema estivesse certa ao dizer que ele também gostava dela, esse amor jamais seria possível, não antes que ela conseguisse se lembrar do seu passado.
Até lá, jamais poderia se comprometer com ninguém.
Por isso decidiu que não voltaria mais para a consulta.
Jurema tomou o seu café e foi para o quintal conversar com Neco.
Ele estava terminando de atrelar o cavalo na carroça.
Ela aproximou-se, dizendo:
-Bom-dia, Neco.
Você já está pronto para a gente ir?
-Já, só faltam vocês.
-A Cida disse que não quer mais ir se consultar com o doutor.
Ela ainda está dormindo.
-Quando ela lhe disse isso, Jurema?
-Ontem, acho que ela descobriu que gosta mesmo dele e por isso não quer mais ir lá.
-Por que não?
-Ela disse que não sabe se antes já teve um marido.
-Acho que ela tem razão, mas e se nunca mais se lembrar?
Vai ficar sozinha para sempre?
-Não sei, mas a gente não pode fazer nada.
A vida é dela.
Também, a gente não sabe se ele gosta dela, não é mesmo?
-É... a gente não pode fazer nada.
Agora, está na hora de ir.
A gente não pode deixar o doutor ficar esperando.
-Está bem, mas antes vou acordar a Cida e ver se não quer mesmo ir com a gente.
Jurema foi para a casa, entrou no quarto e percebeu que Cida continuava dormindo.
Tocou suavemente em seu ombro.
-Cida, acorde, a gente tem que ir à cidade...
Cida abriu os olhos e disse:
-Bom-dia, Jurema, eu lhe disse que não vou.
Não posso mais olhar para ele.
Vai você com o Neco, eu ficarei aqui trabalhando.
Não se preocupe, estou bem.
-É isso mesmo o que você quer?
Acha que isso é o certo?
-É isso mesmo.
Não sei se ele sente alguma coisa por mim, também, não quero descobrir.
É melhor cortar o mal pela raiz.
-Se é assim que você quer, está bem, a gente já está indo.
-Podem ir, ficarei bem.
Vou levantar e bordar.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:47 pm

Jurema percebeu que não adiantaria insistir.
Saiu do quarto e foi encontrar Neco, que já estava do lado da carroça.
Assim que ela chegou perto, ele ajudou-a a subir.
Foram embora para a cidade.
Durante o caminho, ela disse:
-Sabe, Neco, como disse a dona Betina, não adianta insistir com ela, porque a hora certa, sempre chega.
Cida ficou por mais um pouco de tempo deitada.
Estava preocupada, queria tirar a imagem dele de sua cabeça, mas não conseguia.
Ela, que até agora vivera bem e não tinha preocupação alguma, a não ser tentar lembrar, percebeu que, naquele momento, o que mais precisava acontecer era justamente isso, lembrar-se do seu passado, para poder continuar a sua vida.
Sabia, entretanto, que, talvez, isso nunca aconteceria.
Levantou-se, tomou café e foi para o barracão.
Começou a bordar.
À medida que ia contando os pontos, foi esquecendo-se de tudo.
O trabalho naquele momento era o melhor que poderia ter-lhe acontecido.
Jurema e Neco chegaram a cidade e foram para o pronto-socorro.
O doutor Campelo, ao vê-los, abriu um sorriso.
-Dona Jurema!
Como está a nossa criança?
-Não sei, doutor, mas parece que ela está bem e eu também.
-Isso é muito bom.
Sente-se aqui, vou examiná-la.
Ela se sentou, ele auferiu a sua pressão, depois pediu que deitasse, ouviu o coração da criança e disse satisfeito:
-Está tudo bem, essa criança vai nascer forte.
-Ainda bem, doutor, o senhor sabe que a gente mora longe, por isso, estou pensando em deixar a Jurema aqui na casa do meu tio, até o dia de a criança nascer, o que o senhor acha?
- Se quiser, pode fazer isso, mas ainda é muito cedo.
A criança parece bem e a dona Jurema também.
Acho que deveria fazer isso, quando faltar um mês para o nascimento.
Por enquanto não é preciso.
Jurema, sorrindo, disse:
- Vou fazer isso, doutor.
Não quero ficar muito tempo longe do Neco e do sítio.
-Não se preocupe, está tudo bem, mas...
E a Cida?
Ela não veio?
Jurema prestou atenção nos olhos dele quando fez essa pergunta.
Notou que eles brilharam mais.
Respondeu:
-Não, ela não veio.
Disse que esse tratamento não está ajudando em nada, por isso não quis vir.
Ele, nervoso, perguntou:
-Como o tratamento não está ajudando?
Ela não pode parar agora!
Precisa continuar com as nossas conversas e talvez surja algo que a faça se lembrar!
-Não sei não, doutor, mas ela disse que não vem mais.
- Isso não está certo, a senhora precisa convencê-la de que o tratamento é bom e que assim que o meu amigo voltar para o Brasil, falarei com ele.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:47 pm

Porém, até lá, ela precisa vir aqui e falar comigo!
-Vou tentar, mas acho que ela não vem mesmo...
-É uma pena, pois eu gosto muito de conversar com ela.
Jurema olhou para Neco, não disse nada, apenas sorriu.
Despediram-se do médico e saíram.
Jurema estava radiante.
-Você viu, Neco, como ele ficou nervoso, quando viu que ela não veio?
Ele também está gostando dela!
Eu não disse?!
-É Jurema, também vi.
O que vai acontecer agora?
-Não sei, não, mas sempre ouvi dizer que do destino a gente não escapa, não.
É bom deixar tudo nas mãos de Deus, não é mesmo, Neco?
-Acho que sim.
Agora a gente vai dar uma passadinha no armazém do tio e depois vai embora.
Ela está sozinha lá em casa.
-Vamos fazer isso, enquanto você vai ao armazém, vou à casa da tia conversar um pouco com ela.
Foi o que fizeram.
Depois de conversarem com os tios e avisarem que Jurema voltaria e ficaria com eles até o nascimento da criança, voltaram para o sítio.
Cida continuava no barracão.
Assim que ouviu o barulho da sineta do cavalo, saiu correndo para esperá-los.
Neco e Jurema desceram da carroça.
Cida, ansiosa, perguntou:
-Jurema, está tudo bem?
-Está tudo bem, Cida.
O doutor me examinou e disse que eu estou bem e que a criança está forte.
-Ele perguntou por que eu não fui para a consulta?
Jurema olhou para Neco, que olhava para ela.
Respondeu:
- Claro que perguntou e ficou muito bravo porque você não foi.
Vou lhe contar tudo.
Cida, ansiosa, perguntou:
-O que ele disse?
- Disse que você não pode parar o tratamento e que assim que o amigo dele voltar, ele vai saber como ajudá-la.
-Só isso?
- O que mais você queria?
Ele disse que, das conversas com você, pode, de repente, aparecer qualquer coisa e você se lembre de tudo.
-Só isso?
-Foi só isso, o que você queria que ele dissesse, que está apaixonado e que quer se casar com você?
Cida, nervosa, respondeu:
-Não é nada disso, só pensei que ele fosse dizer algo mais...
-Pois não disse.
Você preparou a comida?
-Preparei, sabia que chegariam com fome.
-Então, vamos comer.
Estou com fome mesmo.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:47 pm

Entraram em casa.
Cida não conseguia esconder sua frustração.
No íntimo, pensava que ele fosse sentir realmente a sua falta, porém, não como médico e sim como alguém que se interessasse por ela, de uma maneira diferente.
Jurema e Neco divertiam-se com a cara que ela estava fazendo.
Almoçaram.
Jurema foi se deitar.
Neco foi para a lavoura e Cida voltou para o barracão.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 15, 2017 7:48 pm

A Força do Destino
Após o expediente, doutor Campelo foi para sua casa.
Estava cansado, pois durante o dia todo havia atendido muitos pacientes.
Entrou na pequena residência que o Prefeito lhe ofereceu quando decidiu vir para Carimã.
A casa ficava na rua principal e bem perto do pronto-socorro.
Tomou um banho, foi até a cozinha e abriu algumas panelas que estavam sobre o fogão.
Sorriu, pensando:
Antonieta é mesmo uma óptima cozinheira.
Que bom que está comigo.
Fez um prato com arroz, feijão e um pedaço de carne assada.
Sentou-se em uma das cadeiras que havia em volta da mesa e começou a comer.
Enquanto comia, pensava:
como vim parar em um lugar como este?
Tive vontade de ser médico quando eu tinha doze anos e a minha mãe ficou doente.
Vi a dedicação do médico que tratou dela, mas vi também que foi em vão.
Ela morreu e não houve nada que ele pudesse fazer.
Naquele dia, eu decidi que me tornaria médico e que faria tudo para vencer a morte.
Ao menos tentaria, com todas as minhas forças.
Estudei muito para isso.
Lembro-me de como meu pai ficou desesperado com a morte dela.
Apesar de ser um fazendeiro muito rico, não conseguiu evitar que aquilo acontecesse.
Quando eu disse a ele que queria ser médico, ficou preocupado.
Disse assustado:
- Você é o meu único filho!
Precisa tomar conta da fazenda.
Sabe que já estou velho e que, a qualquer momento, poderei morrer!
- O senhor não é velho, ao contrário, para sua idade está muito bem.
Quero ser médico para poder evitar que as pessoas morram.
-Você não pode fazer isso!
Quem vai cuidar da fazenda se eu morrer?
- O senhor não vai morrer.
Além do mais, não vai demorar muito tempo para eu me formar.
Mas, se isso acontecer, o que não acredito, o Octaviano, o capataz, é de confiança, ele cuidará de tudo.
Não deve ficar preocupado.
Ainda vai se orgulhar do filho que tem.
Serei um grande médico, o senhor verá.
Primeiro, quero ser um clínico geral, depois, quero fazer especialização em ginecologia e obstetrícia, quero ajudar muitas crianças a virem para o mundo.
- Você tem certeza disso?
Não quer mesmo cuidar da fazenda?
- Tenho certeza, quero estudar e ser um médico.
- Você é ainda muito criança, com o tempo talvez mude de ideia...
Eu não mudei.
Terminei o ginásio, depois o colegial e fui para a capital estudar.
Faz seis anos que me formei.
Durante esse tempo todo, trabalhei primeiro como residente em um grande hospital.
Quando minha residência terminou, ainda continuei lá, aprendi na prática tudo o que havia aprendido na teoria.
Há pouco tempo, julguei-me competente, resolvi que montaria o meu consultório e faria especialização.
Antes disso, voltaria para a fazenda.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:38 pm

Terminou de comer.
Levantou-se, colocou o prato dentro da pia.
No dia seguinte, Antonieta lavaria e cuidaria da casa e das roupas dele.
Era uma senhora de quarenta e poucos anos, estava com ele desde o dia em que chegou e o seu amigo Prefeito contratou-a.
Ele estava satisfeito com ela.
Foi para o quarto.
Estava muito cansado, até para ler.
Deitou-se de costas, colocou as mãos sobre a cabeça, ficou olhando para o tecto e pensando:
fui para a fazenda pretendendo ficar no máximo dois meses, depois iria para São Paulo e montaria o meu consultório, pois, agora, já me sentia capacitado para atender qualquer emergência.
A minha intenção era que, enquanto eu atendesse no meu consultório, faria, também, especialização em ginecologia e obstetrícia.
Mas, antes disso, precisava ir para a fazenda e me recuperar de todos os anos em que trabalhei na emergência.
Meu pai ficou feliz quando cheguei, pois, desde que parti para a faculdade, só voltei algumas vezes e por pouco tempo.
Agora, eu voltava para ficar muito mais tempo.
Era quase noite quando cheguei.
Após abraçar-me muito e jantarmos, ele disse:
-Meu filho, que bom que está aqui!
Agora, é um médico!
Estou muito orgulhoso de você!
- Eu também tenho orgulho do senhor, mas ficarei só por dois meses, depois voltarei para a capital e prosseguirei no meu caminho.
-Não vai ficar para cuidar da fazenda?
-Não, pai, o senhor sempre soube que eu não ficaria aqui.
-Fico triste com isso, mas tudo bem, o Octaviano continuará cuidando de tudo.
O Donato fez a mesma coisa com o pai dele.
- Que fez o Donato?
- Vocês cresceram juntos, mas ele tomou outro caminho, tornou-se um político e hoje é Prefeito em Carimã.
Parece que está se saindo muito bem.
Ele se casou, enquanto você continua solteiro.
- O Donato? Um político?
Nunca pensei nisso!
Achei que ele seria um fazendeiro como o pai.
-Pois não foi.
Assim como você, ele não quis continuar na fazenda.
-Nós tivemos uma infância muito boa, papai... corríamos, nadávamos no rio, cavalgávamos e subíamos em árvores.
Estou com muita saudade daquele tempo e dele também.
Antes de ir embora, vou para Carimã lhe fazer uma visita.
-Faça isso, meu filho.
Ele vai ficar muito contente.
-Sei que vai e eu, muito mais.
Campelo levantou-se, foi até a cozinha, pegou água em uma moringa de barro, tomou.
Estava quente, foi até a janela, algo o estava incomodando, mas ele não sabia o que era.
Olhou para a rua que, naquela hora, estava com pouco movimento.
Respirou o ar quente que vinha de fora.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:38 pm

Voltou para o quarto e para a cama.
Deitou e, novamente de costas, colocou as mãos sobre a cabeça.
Ficou olhando para o tecto e continuou pensando:
Não sei por que estou me lembrando tanto daquele dia.
Não sei o que está acontecendo.
Tentou desviar o pensamento, mas não conseguiu:
quando faltava uma semana para eu ir embora, resolvi vir até aqui encontrar o meu amigo.
Ficaria alguns dias.
Quando cheguei, fui para a sua casa, onde me informaram que ele estava na Prefeitura, fui até lá.
Nunca esquecerei a felicidade com que ele me recebeu.
Assim que entrei em seu gabinete, ele levantou-se para me receber, abraçou-me.
-Doutor Campelo, está aqui!
Quanta honra!
Não estou acreditando!
- Ora, Donato!
Achou que eu viria até a casa do meu pai e não faria questão de ver o meu amigo como Prefeito?
Nunca pensei que se tornaria um político!
Sempre achei que continuaria na fazenda cuidando de tudo!
- É, sempre achei isso também, mas a vida tem seus meios para nos conduzir e levar para onde ela quer.
Mas, sente-se.
Eu sentei, estava feliz por estar diante do meu amigo de infância.
- Como isso aconteceu, Donato?
- Vou lhe contar.
Um ano depois que você foi estudar na Capital, eu também fui.
Assim como você, queria ser médico.
Estava feliz e confiante que seria um bom médico, mas quando eu me vi diante de um corpo e o professor abrindo-o, não suportei, desmaiei.
Naquele dia, eu percebi que nunca poderia ser médico, pois não suporto ver sangue.
Para felicidade do meu pai, retornei para a fazenda.
Aí, encontrei a Valéria, você lembra dela?
- Claro que sim, aquela menina feia, filha do Coronel Galdino?
-Ela mesma, só que, quando a revi, não acreditei.
Ela se transformou em uma moça muito bonita e educada.
Assim que a vi, fiquei apaixonado.
-Não acredito, Donato!
-Pode acreditar, foi isso mesmo que aconteceu.
Começamos a namorar.
Eu vinha todos os finais de semana para cá.
- Você viajava quase quatro horas para vê-la?
Donato, rindo, respondeu:
-É, meu amigo, o que o amor não faz.
Comecei a conhecer a cidade e ver que, embora pobre, havia muito que poderia ser feito para melhorar.
O que mais me preocupou foi que, se alguma pessoa ficasse doente, não havia um pronto-socorro para o primeiro atendimento.
Aquilo me incomodava, pois um colono da fazenda do meu sogro ficou doente, e por falta de assistência, morreu.
-Foi mesmo?
Por isso resolveu se candidatar?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:38 pm

- Sim e o meu primeiro acto como Prefeito foi construir o pronto-socorro.
-Meus parabéns!
Mas, o casamento, quando foi?
- Um ano depois de rever Valéria, resolvi me casar.
Ela é adorável, você vai ver.
Deixei a fazenda do meu pai nas mãos dos meus irmãos e vim morar aqui.
Percebendo o muito que eu poderia fazer pela cidade, resolvi aceitar o convite do partido ao qual meu sogro é filiado.
Além disso, ele é muito respeitado.
Candidatei-me e fui eleito Prefeito.
-Muito bem!
Já fez algo pela cidade, além do pronto-socorro?
-Ainda estou estudando alguns projectos, mas é difícil, pois a cidade, realmente, não tem muito dinheiro.
Ela nasce e morre com as chuvas, mesmo assim, com a ajuda de alguns fazendeiros amigos do meu pai e do meu sogro, consegui construir só o pronto-socorro.
Está pronto e ficou uma beleza.
Vamos até lá?
Poderá ver com seus próprios olhos.
- Vamos, estou curioso para ver.
Saímos e fomos para o pronto-socorro.
Chegamos a uma casa não muito grande Donato estava orgulhoso de sua obra, por isso falava com entusiasmo:
- Veja, esta sala será o consultório médico!
Nesta outra, a sala de enfermagem e aquela, será usada para pequenas cirurgias.
Eu me encantava com o entusiasmo do meu amigo e por ver que, embora fosse muito simples, o pronto-socorro possuía todo o necessário para um atendimento de urgência.
-Está muito bom, Donato! Muito mesmo!
Aqui, a pessoa poderá ter um bom atendimento.
Parabéns, meu amigo!
- Sei que tem tudo para um bom atendimento, mas estou com um problema muito sério.
- Que problema?
-Prefeito! Prefeito!
Ajude-me!
Eu e o Donato olhamos espantados para o homem que entrava gritando e correndo em nossa direcção.
Donato perguntou:
- Que aconteceu?
O homem respondeu, desesperado:
-A minha mulher está tendo criança e a parteira não deu conta.
Ela disse que só um médico pode ajudar!
Olhei para Donato, perguntando:
- Onde está o médico da cidade?
-Esse é o meu problema, não tenho médico.
Sem pensar ou esperar, sabendo que a situação era grave, perguntei para o homem:
- Onde ela está?
-Lá fora na carroça, junto com a dona Teresa.
- Vamos lá, vou ajudar sua mulher, precisamos trazê-la para dentro.
Saímos correndo e trouxemos a mulher para a sala de cirurgia.
Quando terminei de deitá-la, percebi que o caso era grave.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:39 pm

Como já havia passado por muitas situações como aquela no hospital, passei a mão por sua cabeça, dizendo:
- Agora, precisa ficar calma, sou médico e a sua criança vai nascer muito saudável.
Olhei para uma senhora que estava ali, tremendo muito, perguntei:
-A senhora deve ser a parteira, não é?
-Sou, sim, doutor, já ajudei muita criança a nascer, mas dessa eu não estou dando conta, não!
- Muito bem, agora, vou precisar da sua ajuda.
Esta criança vai nascer!
Aqui, nesta sala, temos tudo do que precisamos.
Está disposta a me ajudar?
- Tô, Doutor! Claro que tô!
-Está bem, vamos começar.
Olhei para o marido e Donato que estavam ali parados e assustados.
Eu, calmo, disse:
-Agora, vocês dois podem sair da sala e não se preocupem, ela e a criança ficarão muito bem, não é, mãe?
Diante do meu sorriso e da tranquilidade que demonstrei, a jovem senhora disse para o marido:
-Pode ir, Zé, eu vou ficar bem e a nossa criança também.
O marido beijou sua testa e, acompanhado por Donato, saiu.
Assim que saíram, examinei a moça e percebi que a criança não estava na posição correta para nascer e, como já havia passado muito tempo, eu não teria como fazer com que ela chegasse à posição correta.
Tanto a mãe como a criança estavam sofrendo muito.
Olhei para um armário de vidro e percebi que ali havia remédios e aparelhos cirúrgicos, disse:
-Não temos muito tempo, preciso fazer uma cesariana.
Tudo bem, mãe?
Ela, com uma expressão de muita dor, respondeu:
- Tudo bem, doutor, ajude a minha criança...
-Fique tranquila, a sua criança vai ficar bem e a senhora também.
Ela sorriu e fechou os olhos.
Perguntei para a senhora que veio acompanhando o casal:
- Como é mesmo o seu nome?
- Teresa, doutor.
-Pois bem, Teresa, você precisa pegar estes aparelhos que vou lhe dar e esterilizar.
Enquanto isso, aplicarei a anestesia.
Prontamente, ela fez o que pedi.
Depois de aplicar a anestesia, comecei a cirurgia.
Logo o choro de uma criança se fez ouvir.
A jovem estava anestesiada da cintura para baixo, por isso estava consciente.
Eu, com a criança nas mãos, disse para ela, que chorava e sorria:
-Aqui está a sua criança, é um menino, ele é grande e está bem.
Coloquei a criança por um minuto em seu colo, depois entreguei-a para a parteira, que cuidou dela enquanto eu terminava a cirurgia.
Quando terminei, disse para a jovem mãe:
-Agora, a senhora vai ficar aqui por algumas horas, depois poderá ir para sua casa.
Preciso que faça isso, porque aqui não tem enfermeira para cuidar da senhora e da criança, mas a Tereza fará isso, não fará?
- Faço, doutor, claro que faço.
Ela vai ficar deitada até quando o senhor mandar.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:39 pm

-A senhora vai para casa, mas deverá ficar em repouso por dois ou três dias.
Depois, aos poucos, ficará bem para cuidar do menino.
- Obrigada, doutor, pensei que ia morrer ou perder a minha criança...
- Passou por maus momentos, mas agora está tudo bem.
A senhora viverá e a sua criança também.
Fechei os olhos e, virado para o canto da parede, agradeci a Deus, por todo o tempo em que trabalhei na emergência do hospital.
Sim, pois eu ainda não era cirurgião, mas já havia passado muitas vezes por aquela situação.
Graças a isso, consegui salvar aquelas duas vidas.
Saí da sala.
Donato e o pai da criança me esperavam ansiosos.
Sorrindo eu disse para o pai:
-Sua criança nasceu e é um menino!
-Eu sei que nasceu doutor, ouvi o choro dele, mas a minha mulher, como está?
-Passou por maus momentos, mas agora está bem, só precisa de alguns dias de repouso.
Ele pegou a minha mão e disse, enquanto tentava beijá-la:
-Doutor, eu não tenho dinheiro para pagar, mas, na semana passada, nasceu um leitãozinho e vou dar para o senhor.
Comecei a rir e, impedindo que beijasse a minha mão, disse:
-Não fique preocupado com isso, eu estou apenas passando por aqui.
Agora, pode entrar e ver a sua mulher e o seu filho.
Ele entrou correndo para a sala.
Olhei nervoso para o Donato e perguntei:
-Donato! Você disse que não tem médico na cidade?!
-Disse, havia o doutor Evaristo.
Durante muitos anos, ele viveu aqui e atendeu as pessoas como pôde.
Ele era muito bom e respeitado.
Sofreu ataque cardíaco e morreu.
Desde então, a cidade ficou sem médico.
-Por que não contrata outro?
Se eu não estivesse aqui, essa moça e a criança teriam morrido!
-Depois que o pronto-socorro ficou pronto, tentei contratar um médico, mas a cidade é muito pobre e não pode pagar um bom salário, por isso não consegui nenhum até agora.
Por que você não fica aqui, até eu conseguir outro?
-Eu!? Não, não posso!
Trabalhei muito tempo no hospital, decidi que agora já posso montar o meu consultório em São Paulo e fazer a minha especialização.
Vim para a fazenda, somente para descansar, mas pretendo voltar no fim de semana.
Já estou na fazenda há quase dois meses e a faculdade vai começar, preciso fazer a matrícula.
Desculpe, mas não posso, a minha vida já está decidida.
-Está bem, não posso lhe obrigar a viver neste fim de mundo.
Porém, aqui tem muitas pessoas que precisam de você.
Nem que seja até eu conseguir um médico.
-Não. Sinto muito, Donato, mas não posso.
Teria que mudar todos os meus planos e a minha vida.
-Está bem.
Precisamos voltar para a Prefeitura e ver se está tudo bem.
Depois, iremos para a minha casa, quero que reencontre a Valéria.
Verá como ela está linda!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:39 pm

-Vamos, mas amanhã, bem cedo, quero retornar para a fazenda, para me despedir do meu pai e partir.
-Está bem, vamos.
Saímos em direcção à Prefeitura.
Depois, fomos para a casa de Donato, onde pude constatar que ele tinha razão.
Valéria, realmente, transformou-se em uma linda mulher.
Assim que me viu, ficou feliz, conversamos muito sobre a nossa infância, contei a ela o que desejava fazer dali para a frente.
Passei aquela noite e, no dia seguinte bem cedo, voltei para a fazenda do meu pai.
Assim que cheguei contei a ele que Donato estava muito bem e contei também da jovem senhora e da criança.
Quando terminei, ele me disse:
- Veja só, meu filho.
O Brasil é um país tão grande!
Há cidades que podem ser consideradas de primeiro mundo, mas ainda existem cidades como Carimã que nem um médico pode ter.
Como tem gente que sofre neste país...
-É verdade, meu pai.
Donato me fez uma proposta.
- Que proposta?
Contei a ele a proposta do Donato.
Quando terminei, ele perguntou:
-Por que não aceita?
Tenho muito dinheiro, o suficiente para mantê-lo lá, mesmo que o salário seja baixo.
Fazendo isso, estará ajudando a muita gente!
Fiquei nervoso:
-Não, pai! Não posso!
Já decidi a minha vida!
Vou para São Paulo, montar o meu consultório e fazer a minha especialização!
-Já esperou tanto tempo, pode esperar um pouco mais!
O Donato é seu amigo e está precisando da sua ajuda!
Além dele, muitas outras pessoas.
Outras iguais a essa moça que você atendeu.
Você mesmo disse que se não estivesse lá, ela e a criança poderiam ter morrido!
- Não, pai!
Desculpe, mas não posso mudar os meus planos!
Não posso!
Ele não insistiu e mudamos de assunto.
Na sexta-feira seguinte, o Octaviano me levou para o aeroporto, onde eu tomaria um avião para São Paulo.
Um amigo meu, que morava lá, já tinha alugado um apartamento, eu só teria de encontrar um local para o meu consultório e fazer a minha inscrição na faculdade.
Já estava tudo certo.
Nada poderia me fazer mudar de ideia.
Campelo levantou-se e foi para a cozinha.
Estava com sede.
Tornou a pegar água da moringa.
O calor era imenso.
Tentou parar de pensar e dormir, mas não conseguiu.
As lembranças não saíam de sua cabeça.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:39 pm

Retornou para o quarto, deitou-se novamente e continuou pensando naquele dia:
Durante todo o tempo da viagem até o aeroporto, fiquei lembrando-me da jovem senhora e da felicidade que senti, quando peguei aquela criança em minhas mãos.
Fiquei pensando também na proposta de Donato.
Quando chegamos ao aeroporto, eu e o Octaviano estávamos tirando as malas do carro, parei por um instante, pois senti uma espécie de vertigem.
Encostei-me no carro.
Octaviano assustou-se e, enquanto me segurava, perguntou:
- O que você tem?
Está branco como papel!
-Não sei, talvez uma queda de pressão, é melhor eu me sentar e esperar um pouco.
Ele ajudou-me a sentar no banco do passageiro e deixou a porta aberta.
Debrucei-me sobre os joelhos e fiz com que a minha cabeça ficasse abaixo deles.
Aos poucos fui melhorando.
Mas fiquei preocupado, como médico eu sabia que aquilo poderia ter vários motivos e, também como médico, eu nunca me consultava com outro colega ou fazia qualquer tipo de exame.
Ainda assustado, ele perguntou:
-Acha que está em condições de viajar?
-Não sei, vamos esperar mais um pouco.
Se eu não melhorar, acredito ser melhor voltarmos.
Depois, verei o que posso fazer com a minha passagem.
Fiquei ali, sentado.
Estranho... só agora estou percebendo que, enquanto estive ali sentado, parecia que uma voz me dizia:
-Você não pode ir embora, tem muito o que fazer em Carimã.
Precisa voltar para lá.
O seu destino está lá.
Em seguida, eu me lembrei da criança que havia ajudado a nascer, do sorriso da mãe e da felicidade do pai, querendo me dar um leitão.
Quando percebi que estava bem, disse para o Octaviano:
-Estou bem, mas não quero mais viajar, quero voltar para a fazenda.
Octaviano me olhou e, ainda assustado, perguntou:
-Está bem mesmo?
-Estou sim, mas não vou para São Paulo.
Não por enquanto.
Ele ficou feliz com a minha decisão, pois gostava muito do meu pai e sabia o quanto ele queria que eu não fosse embora.
Quando cheguei à fazenda, meu pai, feliz e ansioso, perguntou:
-Você não viajou?
-Não, meu pai.
Tomei uma decisão, vou para Carimã.
-Vai mesmo? Isso é muito bom!
Ao menos ficará mais perto da fazenda e poderá me visitar mais vezes!
Tomou a decisão certa!
-Não sei se é a decisão certa, mas sinto que, se fosse embora, nunca me perdoaria por não ter ajudado aquelas pessoas.
Não vou ficar muito tempo, só até o Donato encontrar um outro médico.
-Vai ficar o tempo que for preciso.
Deus sabe o que faz e se você mudou de ideia tão de repente, deve ter um motivo para isso.
Tenho certeza de que lá vai encontrar o seu destino.
- Que destino que nada, pai!
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:40 pm

Só estou adiando o meu consultório e minha especialização por um tempo, mas pretendo retomar a minha vida o mais rápido possível.
-Está bem, não vamos discutir.
Quando pretende ir?
-Amanhã bem cedo.
Vou ver o que o Donato tem para me oferecer e deixar bem claro que não será por muito tempo.
-Faça isso, meu filho, e que Deus o abençoe.
No dia seguinte bem cedo, no jipe da fazenda e acompanhado por Octaviano, saí da fazenda.
Enquanto ele dirigia, eu disse:
-Não entendo o que está acontecendo comigo, Octaviano, nem porque estou indo para Carimã... isso estava totalmente fora dos meus planos, parece tão estranho!
-É... A vida é mesmo assim, a gente não entende nada dela, mas no fim tudo está e dá sempre certo.
Tudo tem de ser como tem de ser...
Ele disse aquilo, com a simplicidade que só um homem simples como ele poderia dizer.
Embora ele dissesse aquilo com tanta convicção, eu me perguntava o porquê de tudo aquilo estar acontecendo.
Assim que chegamos à cidade, pedi-lhe que fosse directo para a Prefeitura.
Chegamos no exacto momento em que Donato estava saindo.
Assim que nos viu, disse, entusiasmado:
-Você não deveria estar em São Paulo?
-Deveria sim, mas desisti.
Donato, ao me ver, percebeu que eu havia aceitado seu convite.
Mesmo assim perguntou:
-Posso saber por que está aqui?
-Estive conversando com meu pai e pensei muito na proposta que você me fez.
Disse que está com dificuldade para arranjar um médico e que a cidade precisa com urgência de um.
Por isso, resolvi aceitar, só que não vai ser por muito tempo.
Donato não conseguiu esconder a sua felicidade.
Abraçou-me, dizendo:
-Meu amigo!
Não sei por que, mas eu sentia que você pensaria melhor e voltaria.
Conheço você desde criança e sei que sempre gostou de ajudar.
Seja bem-vindo à nossa cidade.
Aqui, será feliz!
- Realmente, as pessoas desta cidade precisam do meu trabalho, mas volto a lhe dizer que será só por pouco tempo.
O que você tem para me oferecer?
Donato ficou sério enquanto respondia:
- O máximo que posso lhe oferecer são três salários mínimos, uma casa e uma empregada doméstica.
Nada, além disso. Você aceita?
- Pensei por um instante, sabia que o salário não seria muito, mas nunca imaginei que fosse tão pouco.
Pensei em desistir, pois teria chance de ganhar muito mais em São Paulo, mas respondi:
- Está bem, não precisarei nada além disso.
Quando poderei me mudar?
-Agora mesmo.
Venha comigo, a Prefeitura tem uma casa que fica na rua principal.
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:40 pm

No caminho, falarei com a dona Antonieta, ela trabalha na Prefeitura e poderá cuidar da sua casa e de você.
-Está bem, vamos.
Viemos para esta casa, mudei naquele mesmo dia e comecei a trabalhar no pronto-socorro.
Logo fiquei conhecido e conheci as pessoas.
Já estou aqui há quase oito meses, sei que ficarei por muito tempo, pois médico algum, depois de estudar tantos anos e gastar uma fortuna na faculdade, vai querer vir para uma cidade como esta, perdida no fim do mundo.
Mas estou bem, não tenho queixas, além do mais, não tenho tempo para isso.
O trabalho é muito.
Levantou-se da cama novamente.
Foi para a cozinha e tomou mais um pouco de água.
Abriu a janela, olhou para a rua.
O calor está imenso, talvez seja por isso que não estou conseguindo dormir.
Acho melhor andar um pouco.
Assim, ficarei cansado e, quando retornar, conseguirei dormir.
Foi o que fez, saiu da casa e começou a andar sem destino.
Quanto mais olhava aquela rua, menos entendia o que havia se passado em sua vida.
Por que será que tive que vir para cá?
Estava com a minha vida toda planeada e de repente ela mudou e tomou um rumo completamente diferente.
O que vim fazer nesta cidade?
Sem que esperasse, a imagem de Cida surgiu em seu pensamento.
Ele caminhava e pensava:
É uma moça tão bonita, mas quem será?
Por que penso tanto nela?
Estou querendo disfarçar, porém já faz dias que os meus pensamentos têm sido só para ela.
Será que estou gostando dela?
Acho que sim, pois fiquei muito triste quando a Jurema disse que ela não quer vir mais para a consulta.
Tremi por dentro ao pensar que nunca mais poderei vê-la nem conversar com ela.
Depois disso, foi que senti essa depressão e essa insónia.
Será que estou apaixonado?
Será que foi por isso que mudei toda a minha vida?
Terá sido para encontrá-la?
Pensando nisso, voltou para casa, deitou-se e adormeceu.
No dia seguinte, Cida abriu os olhos, também não havia dormido bem.
Acordou várias vezes pensando nele.
Seu coração batia forte, não se lembrava de ter tido um sentimento como aquele.
Ainda na cama, espreguiçou-se, seu pensamento estava confuso.
O que é isso que está acontecendo?
Por que não consigo pensar em outra coisa que não seja ele?
Será que, algum dia, senti algo parecido?
Nem sei por que estou pensando nisso.
A Jurema disse que ele também sente o mesmo, mas isso é coisa da cabeça dela, até agora não percebi nada.
Ele só é gentil e me trata como uma paciente.
Levantou-se, Jurema estava na cozinha tomando o café que Neco havia preparado.
-Bom-dia. Pensei que fosse demorar mais tempo para acordar.
-Bom-dia, Jurema, por que está dizendo isso?
- Percebi que não dormiu bem, ouvi você se virar muito na cama durante a noite.
Teve um sonho ruim?
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Re: Descaminhos da paixão / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 16, 2017 7:40 pm

-Não, apenas não consegui dormir, estava sentindo muito calor.
-Foi só isso?
-Claro que foi só isso!
O que mais poderia ser?
-Não precisa ficar nervosa, só estou perguntando...
-Não estou nervosa, só não gosto quando as pessoas não acreditam naquilo que falo!
- Está bem, desculpe, só pensei que você não conseguia dormir, porque não esquece o doutor.
-De onde tirou essa ideia?
-Já passei por isso e sei como é...
- Pois não está acontecendo nada, ele é só o meu médico, nada além!
- Está bem, está bem, já disse que não precisa ficar nervosa, quer tomar café?
-Não! Não quero!
Vou para o barracão!
Hoje há muito trabalho.
Precisamos terminar a encomenda do seu tio, ele deu prazo até amanhã, você esqueceu?
-Não esqueci, Cida, mas você tem tempo para tomar café.
-Não quero! Não estou com vontade!
Dizendo isso, saiu nervosa.
Jurema ficou ali sorrindo e pensando:
Ela está doidinha por ele...
Cida foi para o barracão, pegou uma blusa que estava terminando de bordar, mas, por mais que quisesse, não conseguia esquecer o doutor.
Sua imagem e seu sorriso não saíam do seu pensamento.
Ela estava assustada, não sabia o que fazer com tudo aquilo, estava nervosa por perceber que Jurema sabia o que estava acontecendo.
Após terminar de tomar o café, Jurema foi para o barracão, sentou-se e começou a bordar, conversaram sobre vários assuntos, menos sobre o doutor Campelo.
Quando chegou a hora, ela voltou para a cozinha e foi preparar o almoço.
Assim que terminou, foi até a plantação, chamar Neco.
Ele estava em pé, com a enxada na mão.
Já havia colhido, preparado a terra e semeado novamente.
Agora, estava tudo verde e crescendo.
A chuva havia sido constante, e com ela, não havia no mundo, terra melhor que aquela.
Jurema aproximou-se.
Assim que ele a viu, disse:
-Jurema, tomara Deus que a chuva continue.
Se continuar assim, a colheita vai ser muito boa...
-Vai, sim, Deus vai querer.
A comida está pronta. Pode vir.
-Já estou indo.
Você está bem?
-Estou bem.
Só um pouco pesada, esta barriga está muito grande.
- É... Acho que vai ser uma criança bem grande, maior que a Dalvinha...
-Também acho, quando estava esperando a Dalvinha, não engordei tanto, mas venha!
Neco largou a enxada e abraçado à Jurema, foi para casa.
Estavam quase chegando, quando ele, olhando para o barracão e vendo Cida compenetrada no trabalho, perguntou:
-Conversou com ela, Jurema?
Descobriu por que ela não conseguiu dormir?
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