Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:13 am

— O que me incomoda, caríssimo amigo, é que os expatriados principais, isto é, os dominadores e seus asseclas, bem como os cientistas e os senhores da magia, já vêm todos fazendo suas experiências com os habitantes de mundos e mais mundos, desde eras imemoriais.
Afinal de contas, não é a primeira vez que são degredados de um planeta.
— É verdade, Alotron.
Entretanto, aqui em Tiamat encontraram um bioma dos mais ricos de todos os orbes conhecidos por nosso povo.
Um planeta com tamanha profusão de formas de vida e, por conseguinte, uma variedade genética tão notável, que, embora permaneça um mundo-prisão, para os degredados também constitui um grande laboratório vivo, onde tentarão testar, experimentar e provar suas teorias nos mais diversos domínios da natureza.
É exactamente isso que me preocupa, Lamarion.
Em outros momentos, no passado remoto, as principais personagens da rebelião, os maiorais, haviam sido banidos para mundos habitados por inteligências já em estágio de desenvolvimento mais avançado.
Apesar disso, conseguiram destruir mundos e humanidades com tal ímpeto de crueldade que, agora, vieram para um mundo mais primitivo, onde ainda não existe nenhuma inteligência tão desenvolvida.
Embora compreenda a lógica
dessa providência, preocupo-me com o que conseguirão fazer aqui, dada a vulnerabilidade dos nativos.
— Aqui no terceiro mundo as coisas se passam de maneira diferente, Alotron.
Justamente aqui, onde talvez demorasse quase uma eternidade para as inteligências se desenvolverem, as experiências genéticas realizadas pelos párias provavelmente auxiliem os primitivos humanóides.
— Já considerei isso diversas vezes, Lamarion; no entanto, existem forças ocultas e objectivos escusos por trás de tais experimentos.
Como estou aqui há algum tempo, tenho observado que os degredados do nosso mundo chamados de astronautas, pois vieram corporificados e assim permanecem, rebelam-se contra o fato de terem de se dedicar às escavações do metal mais precioso de Tiamat.
Sabem que, em nosso mundo, precisamos veementemente do metal brilhante tanto para nossa tecnologia quanto para a formação da película protectora em torno de nosso mundo natal.
— Sei disso, Alotron! — falou Lamarion, cheio de preocupação quanto ao assunto levantado pelo amigo.
Principalmente agora, depois que os déspotas quase destruíram nossa atmosfera, detonando o aparato que liberou uma dose de radiação descomunal em nosso planeta natal.
— Pois é, amigo!
Sabemos que veio para cá grande quantidade de seres de nossa raça, dos mais vis e criminosos que existiam em nosso orbe.
Poucos dentre eles cultivam princípios dignos e um compromisso com a vida universal.
Julgam-se deuses e, por isso, não querem se dedicar ao trabalho duro exigido pela natureza bruta de Tiamat.
— Onde deseja chegar com suas observações, nobre Alotron? — perguntou Lamarion intrigado.
— As experiências genéticas visam, também, à criação de uma raça de escravos, lamentavelmente.
Uma vez que não sabem ainda qual espécie é mais adequada a lhes servir de cobaia ao desenvolvimento de uma raça obediente, realizam testes com elementos de quase todas as ordens.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:14 am

Por isso, a enorme variedade de mutações que se vêem aqui.
Quadrúpedes com cabeças humanóides, por exemplo, pois tentaram misturar genes dos primatas das planícies com os de certos animais.
A variedade de seres bizarros encontrados nos mares igualmente resulta de experiências levadas a cabo por seres de nossa espécie com elementos desse mundo, entre muitos casos.
Objectivam criar uma raça de servidores, de escravos, de qualquer maneira, para que possam construir cidades e escavar as minas, entre outras actividades, pois não admitem que eles próprios tenham de ser os construtores e operários, sobretudo num mundo em tudo primitivo, e com uma densidade de matéria muito maior em relação à que se vê em nosso planeta original.
As palavras de Alotron geraram grave preocupação em Lamanon, o enviado das estrelas.
Foram vistas rugas profundas em sua face, que, segundo os padrões de Tiamat, tinham uma beleza angelical.
Lamarion levantou-se com seus braços esguios, deixando que os cabelos descessem abaixo das espáduas, ondulando como se vida tivessem, movimentando-se graciosos em torno do corpo longilíneo.
Movia-se com leveza e charme especial, como nenhum dos humanóides do terceiro mundo seria capaz de fazer.
Logo depois, enroscou novamente os cabelos no alto da cabeça quase ovalada, e a boca, pequena e bem formada, pronunciou algumas palavras num idioma desconhecido pelos humanos da actualidade.
Dessa forma, meu amigo — interrompeu Alotron as reflexões do viajante —, repare que tenho muitos desafios aqui.
De tal maneira me afeiçoei a este planeta que pretendo pedir permissão aos dirigentes de nosso governo central para permanecer aqui durante o máximo de tempo possível.
— Com tudo isso que me diz, Alotron, chego à conclusão de que os maiorais dos rebeldes, os chefes da organização criminosa que patrocinou as guerras que quase destruíram nosso planeta, ambicionam muito mais coisas do que podemos imaginar.
Portanto, para que possam interferir de maneira o menos danosa possível nos seres deste mundo, talvez tenhamos de ajudá-los, sem que o percebam, é claro.
— Como assim?
— Ora, Alotron, para que tenham êxito no desenvolvimento genético dos primatas deste mundo, talvez tenhamos de estimulá-los ou induzi-los no caminho da pesquisa.
Se estão fazendo de tudo para alcançar êxito e, no entanto, causam severas anomalias às espécies desse mundo, é melhor que passem a acertar o alvo.
Há uma linha de experimentação que não tentaram ainda e, para isso, terão de considerar a possibilidade de usarem o conhecimento de nossos cientistas fiéis à ética cósmica.
— Como assim, Lamarion?
— Segundo as informações que você enviou ao governo central — e foi por isso que vim —, as experiências genéticas se limitam à tentativa de misturar os genes de espécies deste mundo.
Mesmo assim, poucas foram as vezes que tentaram manipular os genes dos primatas, pelo visto sem grande resultado.
— Isso mesmo.
Guardo até um dos primatas que capturei para observar o resultado das experiências mal sucedidas.
— Logo quero vê-lo, meu amigo, logo mais.
Por ora, talvez tenhamos de interferir junto a pelo menos um dos cientistas deportados, inspirando-o com vistas à próxima etapa de experiências.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:14 am

Já que continuarão, de qualquer maneira, com seus intentos, melhor nos aproveitarmos disso, para evitar as graves situações que poderão resultar dos seus fracassos e possivelmente perdurem por milénios sem fim.
— Que quer dizer com suas palavras, Lamarion?
Não sei se entendo seu alcance.
— Para que o desenvolvimento das criaturas de Tiamat possa dar certo, é preciso mudar a estratégia de pesquisa.
Enquanto estiverem tentando manipular os genes e implantá-los nas fêmeas próprias deste mundo, os cientistas não obterão sucesso e ainda infligirão sofrimento a seus habitantes.
O estágio actual de desenvolvimento de seus corpos físicos difere enormemente do que se observa na realidade considerada de natureza física, em nosso lar.
É preciso tentar outro tipo de experiência.
Não entendo como você, de repente, já possui tanta informação a respeito de um assunto tão complexo e do qual você disse não ser conhecedor...
— De fato, desconheço o assunto, Alotron; todavia, trago informações importantes do governo central.
Os cientistas do nosso povo já tinham vindo aqui há milénios, segundo a escala de tempo de Tiamat.
Na ocasião, tiveram acesso aos elementos necessários para compreender o código genético de diversos seres naturais daqui.
O que ocorre, amigo, é que os chefes dos rebeldes estão tão desesperados, com medo de morrer e ter de renascer como essas criaturas primitivas, que estão tentando de tudo, ou seja, movimentam todo o conhecimento e tecnologia e testam as mais diversas espécies.
Mas nossos antepassados descobriram que somente uma das criaturas nativas guarda semelhanças com nossa espécie.
É exactamente o primata que vive solto, correndo por vales e montanhas, habita perto das grandes florestas e mal se levanta sobre os próprios pés.
— Interessante...
Mas, como lhe disse, a fim de estudar o fenómeno, cheguei a capturar uma das criaturas resultantes da manipulação genética realizada pelos cientistas rebeldes.
Há algo que não se explica na genética dos primatas.
Segundo as informações que trago, Alotron, as experiências não tiveram êxito porque os rebeldes e dita dores do submundo inspiraram os cientistas corporificados a realizar suas experiências fazendo modificações na semente dos primatas machos e implantando-as nos úteros das fêmeas dessa espécie.
— E, se não for assim, como se darão as experiências? Não há outra maneira, ou há?
— Como lhe disse, amigo, quase nada entendo desse ramo da nossa ciência.
No entanto, um dos nossos cientistas fez pesquisas consistentes e chegou à conclusão de que, se um óvulo fecundado e geneticamente modificado dos primatas for implantado no útero de uma fêmea da nossa espécie...
— Impossível! — falou Alotron, interrompendo o companheiro.
— Lembre, não sou eu quem estou dizendo...
Apenas trago informações.
— Misturar as duas espécies?
Exactamente isso, amigo.
Uma miscigenação racial e também algo de proporção ainda maior.
Note que os corpos físicos deste mundo são de uma materialidade muito mais bruta do que a dos nossos.
Por isso, nosso tempo de vida física, se assim podemos dizer, é dezenas de vezes maior que o dos hominídeos daqui.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:14 am

Além disso, é claro, contamos com a realidade da órbita planetária bastante diversa. O movimento de translação em nosso mundo consome cerca de 3,6 mil vezes o tempo que Tiamat leva para girar em torno do Sol, pois se localiza muitíssimo mais próximo.
De tal sorte que a matéria mais densa de nosso planeta equivale, genericamente, à matéria etérica daqui.
Quando alcançarem um estágio de desenvolvimento humano, seremos considerados deuses, pelo facto de que viveremos muito mais do que eles.
Um ano terá uma duração aproximada de mais de 360 dias, isto é, haverá um ciclo completo em torno do Sol a cada 360 rotações do globo em torno de si mesmo, aproximadamente.
Embora isso sofra leve modificação ao longo dos milénios, não passará muito disso.
Porém, quanto mais afastado de sua estrela solar se encontra um mundo, muito mais tempo gasta para completar a translação, como você sabe.
Veja o quarto mundo, por exemplo, onde estabelecemos uma base provisória.
O planeta vermelho leva mais de 686 dias de Tiamat para girar em torno do Sol uma única vez.
Isso quer dizer que um ano, no planeta vermelho, representa o equivalente a quase dois anos deste novo lar dos rebeldes.
— Então teremos de nos ocupar disso, Lamarion.
Pois, se derem resultado positivo as experiências genéticas indicadas por nossos conterrâneos, os seres daí de correntes viverão um tempo muito longo, muito mais do que o normal, para os padrões deste mundo.
— Essa é apenas parte da verdade, nobre amigo.
Os primeiros seres, resultado imediato da miscigenação, tenderão a viver uma vida mais longa; muito longa, aliás.
Provavelmente, medida em séculos, dentro do computo de tempo vigente.
Entretanto, à proporção que se reproduzirem, que estabelecerem sua descendência, os novos seres gerados a partir da união das fêmeas e machos deste mundo não mais terão uma vida tão longa.
Não esqueça que estarão sujeitos às leis de Tiamat, e não às leis naturais de nosso planeta.
Cada nova geração, a contar das manipulações no código genético, viverá menos tempo que a de seus pais, até que se estabilize o período de vida.
Mas existe ainda outro aspecto a que você deve ficar atento, meu amigo Alotron, já que escolheu voluntariamente viver aqui.
— Fale, amigo das estrelas.
É que os novos seres, gerados a partir das experiências genéticas que inspiraremos, serão seres livres.
Como terão nossos genes e, portanto, nossa marca energética impressa em seu DNA, não se submeterão facilmente às manipulações dos dominadores.
Serão livres por natureza.
Muito embora primitivos, à medida que se desenvolverem, ao longo dos milénios neste mundo de desterro, olharão as estrelas do firmamento, que por certo serão outras na ocasião, e saberão que nasceram para ser livres.
De sorte que, seja qual for o tipo de opressão dos ditadores e dos dragões, ela não matará a sede de liberdade dessa nova espécie.
Um silêncio se fez ouvir entre os dois amigos, que talvez visualizassem o futuro de uma raça nova, dos novos seres que habitariam Tiamat — os filhos dos astronautas, que nasceriam da união deles com as filhas dos primatas.
Depois de um tempo em silêncio, Lamarion perguntou a Alotron:
— Não disse manter um dos primatas em nossa base neste mundo?
Gostaria de vê-lo, amigo.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:14 am

Depois daquela conversa, a amizade de ambos se solidificou de tal maneira que perduraria ao longo dos milénios.
Os dois se dirigiram a outro compartimento do laboratório localizado nas profundidades do planeta, em meio às geleiras de um dos polos.
Ali, durante milhares e milhares de anos, mesmo depois que uma nova civilização se desenvolvesse, ainda se localizaria o laboratório de observações, um tipo de comando de segurança planetária, vigiado por Alotron, o guardião da eternidade e do tempo.
Diante do que explicara Lamarion, talvez ainda demorasse algum tempo antes que os cientistas rebeldes lograssem êxito ao misturar os genes das duas raças, a dos chamados deuses e a dos humanóides.
Com isso em mente, Alotron chegou até o compartimento onde se encontrava o ser estranho, cuja constituição genética fora modificada pelos deportados.
Havia algo intrigante, pois o ser, embora aparentasse algum avanço em relação aos primatas, não apresentava inteligência passível de ser aprimorada ou desenvolvida.
Ao abrir o compartimento, Lamarion se defrontou com um ser exótico, que mal conseguia se manter sobre duas pernas.
Braços longos, cabeça ainda muito parecida com os demais seres das planícies, era, em tudo, demasiadamente primitivo.
— Com certeza os dragões inspiraram seus cientistas corporificados a desenvolver um tipo que teria como função ser escravo.
Mas nada adiantou.
Ao que parece, o produto das experiências foi um fracasso.
— O trabalho para conseguir manipular a contento os genes destas criaturas será descomunal — falou Lamarion, observando o ser à sua frente enquanto tirava de um tipo de bolsa um aparelho, produto da tecnologia de seu planeta natal, que detectava anomalias e indicava com precisão o problema apresentado.
Enquanto a criatura movia-se de maneira estranha, demonstrando desorientação e dificuldade de coordenar seus passos vacilantes, Lamarion, de posse daquele instrumento, avaliou o ser bizarro.
A criatura urrava; quem sabe balbuciasse alguns sons, mas nada que remotamente sugerisse um tipo qualquer de comunicação.
Pelos grossos caíam-lhe sobre o crânio extravagante, e o restante do corpo pouco diferia do que envergavam os símios encontrados nas florestas do mundo primitivo.
Talvez, com grande dose de boa vontade, pudesse ser considerado uma evolução dos símios, porém longe de se prestar à escravidão nem tampouco com chances reais de desenvolver inteligência, ao menos não durante os milénios a seguir.
— Entendo agora o desespero dos nossos conterrâneos ao chegarem a este tipo de resultado — sentenciou Lamarion ao se defrontar com a criatura.
Eu o chamarei de homem — tornou a falar o amigo de Alotron.
Mas não um homem completo. Um projecto de homem.
— Gostei do nome — disse Alotron.
Homem me parece um nome adequado, embora não inspire inteligência.
Mas é adequado.
Depois de olhar os indicadores do instrumento, Lamarion falou:
Percebo o problema, Alotron.
Nosso amigo homem, aqui, não pode reproduzir.
É um híbrido, e os híbridos são estéreis.
Alotron enfim entendeu o que havia de estranho na criatura e por que os degredados haviam abandonado a experiência
com tais seres.
— Solte-o, Alotron.
Vamos observá-lo por um tempo.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:14 am

Tenho de levar ao nosso governo central os resultados das experiências que os degredados têm realizado em Tiamat.
Alotron apertou um ponto na parede à sua frente e o campo de energia que retinha a criatura humanóide se desfez.
O homem primitivo, ou aquilo que ali estava, frente a frente com os dois seres do espaço, saiu correndo, ou melhor, arrastando-se e grunhindo, penosamente carregando o corpo pesado pelo chão.
Abriu-se diante dele uma escotilha; de repente, viu-se num ambiente diferente.
Era uma pequena nave, que o levaria às pradarias tropicais do mundo-prisão.
Ali seria solto, em meio às florestas, e viveria entre os animais do novo mundo ou, quem sabe, procuraria os seres que mais se pareciam com ele, isto é, os primatas que corriam amedrontados de um canto a outro do continente onde se realizaram as experiências.
O ser estranho parecia temer os ruídos da natureza, os seres com que se deparava, principalmente um ou outro ser do espaço que via aqui e acolá, caçando animais selvagens ou simplesmente em busca de um lugar para se refugiar, abrigando-se contra os estranhos seres deste mundo primitivo.
O primata denominado homem corria, arrastava-se, grunhia e parecia chorar.
Ao longe, Alotron e Lamarion observavam-no interessados no que faria e como se comportaria na natureza selvagem.
Quando a criatura avistou uma fêmea de outra espécie, seus instintos mais animalescos vieram à tona e correu em direcção a ela, buscando saciar sua fome voraz de sexo, seu instinto mais primário de se reproduzir, sem que soubesse o que se passava consigo, muito menos o que era reprodução e perpetuação da espécie.
Como um animal, cruzou com a fêmea com tal força e ímpeto que, mais do que nunca, revelou-se efectivamente um animal, apenas diferenciado por algumas modificações genéticas malsucedidas.
— Os seres híbridos criados nos laboratórios jamais poderão se reproduzir.
Precisamos urgentemente transmitir aos cientistas deportados o conhecimento trazido do nosso mundo, de maneira que possam avançar nas pesquisas, sem sofrimentos desnecessários.
Ou ao menos com o mínimo de sofrimento para os seres deste planeta — retrucou Alotron, observando a criatura com bastante atenção.
— Também precisamos induzi-los a fazer a modificação genética de modo que nasçam macho e fêmea.
Não é bom que o homem se sinta só.
Ele precisa de uma companheira, alguém com quem possa se relacionar, pois, além do instinto primitivo de acasalar-se, ele desenvolverá emoções e sentimentos ao longo do tempo, e isso o tornará diferente das demais criaturas, pois fará com que estabeleça vínculos mais profundos e permanentes com os de sua própria espécie.
O homem que observavam não era o resultado do cruzamento natural, mas da manipulação; era um resultado casual, considerado apenas um número pelos pesquisadores deportados para o mundo primitivo, no qual estariam confinados por milénios quase sem fim.
Era certo que, para obterem um resultado mais satisfatório e produzir um ser que se originasse do cruzamento dos filhos das estrelas com o homem primitivo daquele mundo — um primata, talvez —, teriam de dominar o código genético dos povos nativos.
Para tanto, a menos que lhes fossem transmitidos tais dados, teriam de decifrar muito mais que 100 milhões de genes, a fim de completar a fórmula genética, para então considerar a possibilidade de investigar mais de 500 milhões de genes dos primatas autóctones de Tiamat.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:15 am

Tendo isso em vista, Lamarion trouxera informações preciosas, embora ele próprio e seu amigo Alotron não pudessem interferir pessoalmente na evolução da espécie sem ir de encontro às leis que regiam o código de ética dos povos da galáxia.
Deveriam compatibilizar essa situação com a necessidade premente de evitar problemas de ordem complexa, decorrentes das mutações em curso, que tinham potencial para afectar de maneira drástica a evolução dos seres do planeta e comprometer, inclusive, sua sobrevivência.
Portanto, aos dois guardiões caberia estimular e inspirar os cientistas corporificados, quem sabe até os principais dirigentes dos astronautas, com o conhecimento que Lamarion trouxera do seu mundo.
Depois de investigar, os dois amigos apuraram que os astronautas corporificados, a elite dos cientistas rebeldes de seu mundo, haviam descoberto um importante laboratório antigo, abandonado no continente Lêmur.
Para lá rumaram os guardiões.

7 Ao ser questionado, o autor espiritual confirmou se referirem esses nomes ao continente perdido denominado Lemúria, só não mais célebre que Atlântida — segundo os espíritos, não tão antigo quanto aquele.
Portanto, a pergunta óbvia era por que não adoptar o nome consagrado, ao que respondeu ter optado pelo nome arcaico, compondo o cenário improvável desse trecho da narrativa, que se passa há mais de 400 mil anos.
A propósito, Ângelo Inácio informou que, a fim de realizar a pesquisa para este texto, valeu-se das memórias de alguns espectros que desertaram dos exércitos dos dragões.
Durante esse processo, afirma ter percebido na pronúncia do espectro algo como Lemur, e desejou ser fiel a essa observação.
(Método mnemónico semelhante é experimentado pelo personagem Jamar. Cf. “Memórias compartilhadas”. In: PINHEIRO. Os Quaxàiõzs. Op. cit. p. 75-98.)
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:15 am

ENQUANTO ISSO, NUM OUTRO recanto do planeta, próximo de onde haviam sido feitas as principais escavações para extrair o mineral precioso que abasteceria a indústria de tecnologia de seu mundo original, tanto quanto para elaborar uma película de protecção em torno do mundo de onde vinham, outro fato acontecia.
Era a caçada a um dos primatas que seria usado na mais nova experiência genética que talvez definisse o sucesso dos cientistas.
Muitas dessas experiências não tiveram êxito.
Uma delas, repugnante perante a ética dos povos estelares, fora o cruzamento genético de um humanóide com um dos antepassados dos animais, uma espécie de cavalo.
O híbrido gerado ficaria conhecido, embora sua existência posteriormente migrasse para o universo das lendas, como centauro.
Após inúmeras experiências malsucedidas, que produziram uma variedade enorme de aberrações, os cientistas desistiram desse tipo de cruzamento, que não os levou a nenhum resultado palpável, nem sequer a obter informações relevantes para as pesquisas.
Visavam criar um povo escravo ou uma raça escrava que substituísse os deuses astronautas — na verdade, os degredados povos de Nibiru — nas minas de ouro e nos trabalhos braçais.
Nada dera certo naquelas experiências, e os testes com primatas não resultaram em quase nada. Quase.
Centenas de anos do mundo Tiamat se passaram — algo trivial para os astronautas, que vieram de um mundo cuja órbita em tomo do Sol se completava após milhares de anos, ou seja, tratava-se de algo que encaravam como meses, apenas. Transcorrido esse período, resolveram reiniciar os experimentos.
Chegaram à conclusão de que os primatas ainda eram a espécie mais apta ao desenvolvimento da inteligência, a ponto de poderem ser ensinados.
Então começou a caçada implacável, por todos os continentes do planeta primitivo, em busca do espécime mais apropriado.
Foram localizados seres — um bando que parecia sobrepor-se aos demais da espécie, como se tivessem desenvolvido um pouco mais uma inteligência rudimentar.
Sobre esse bando concentrou-se a atenção dos cientistas das estrelas, um grupo de degenerados, de espíritos banidos, os quais não tinham qualquer escrúpulo ao realizar suas experiências.
Sabiam muito bem que, em algum momento, seus corpos morreriam, como ocorria com qualquer habitante dos mundos conhecidos.
Como consciências, deveriam novamente mergulhar na carne, assumindo novos corpos, independentemente do número de anos que conseguissem retardar o processo.
Não poderiam nem queriam privar-se do conhecimento arquivado na memória espiritual; além disso, jamais admitiriam ter de renascer, de corporificar-se naquela espécie primata, a mais avança da entre as espécies habitantes do planeta, embora ainda primitivíssima.
Acrescente-se a isso o facto de que, embora toda a sua tecnologia, jamais conseguiriam romper a barreira magnética em torno do planeta e retornar ao mundo de origem.
Seu tempo estava se esgotando e ficavam transtornados ao pensar no assunto.
Precisavam desenvolver uma nova raça a qualquer custo; disso dependia seu futuro.
Mas teria de ser uma raça que pudesse ser escravizada — física ou espiritualmente, não importava.
Seu plano abrangia milénios desse mundo obscuro para onde foram expatriados.
Enlil parecia confuso.
Era uma das mais brilhantes mentes do povo que viera para Tiamat, o terceiro planeta deste sistema estelar.


Última edição por Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:18 am, editado 1 vez(es)
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:15 am

Viera juntamente com seu meio irmão Enki, um nobre cientista que descendia directamente da estirpe dominante em seu mundo.
Mas Enlil, por variados subterfúgios, lograra ceder sua mente, num processo de sintonia mórbida, a um dos dirigentes draconinos, de forma tal que era quase totalmente dominado.
Tratava-se de um processo simbiótico dificilmente concebido por qualquer criatura que não entenda minimamente desse tipo de fenómeno.
Era uma simbiose de mentes, de ideias e de rancores; profundo rancor e amargura, mas também culpa, medo e ódio, um ódio dificilmente contido ou disfarçado.
Partiram de Eridu, a cidade-estado, a capital do novo mundo, onde os povos trazidos do espaço construíram templos, laboratórios e vivendas monumentais, que lembrassem ao menos de longe sua terra natal, de onde vieram os autoproclamados deuses decaídos.
O continente de Lêmur surgiu à frente das telas de uma das aeronaves que voavam na atmosfera de Tiamat, as quais resistiram ao choque vibratório de entrada no espaço do Sistema Solar.
Outras haviam se perdido quando aterrissaram no planeta primitivo, mas seus ocupantes estavam livres, pois se atreveram a se ejectar das naves antes que elas se espatifassem no chão rochoso, nos pântanos ou em outras regiões e florestas tropicais.
Lêmur era um dos continentes mais estranhos que se poderia supor existir nesse mundo selvagem.
Vasta cadeia montanhosa não muito alta, mesmo assim prodigiosa, erguia-se em meio à faixa de terra que abrangia parte considerável de dois continentes e porção ainda mais considerável de um dos oceanos do planeta, que, mais tarde, seria chamado Oceano Pacífico.
Desde o leste se poderiam notar nitidamente as cadeias de montanhas que sobressaíam em meio às imensas florestas selvagens que marcavam a paisagem daquele continente lendário.
Em algum lugar da costa leste, erguia-se uma parte mais plana, igualmente ampla, onde se podia notar ter havido interferência de seres inteligentes, pois ali existia uma cidade, que estava despovoada, abandonada pelos antigos donos.
Talvez, seres que tivessem visitado Tiamat muito antes
do Homo capensis, a espécie dos astronautas que vieram deportados.
As montanhas eram de uma beleza descomunal, com seus píncaros ostentando enormes geleiras, que, ao deslizar, deixavam à mostra uma exuberância que tocava os sentimentos dos povos capensis.
O gelo parecia ter sido inimigo da mais antiga de todas as civilizações que habitou este mundo, talvez milhares e milhares de anos antes de os primeiros degredados aqui chegarem.
Seria esse povo misterioso o dos chamados engenheiros cósmicos?8
Se fossem eles, por que, ao que tudo indicava, haviam abandonado repentinamente um mundo tão cheio de vida quanto este?
Teriam esses habitantes antigos semeado a vida em Tiamat e partido para outros recantos do universo?
Quem seriam os habitantes dessas cidades esquecidas no tempo e agora mergulhadas na profundidade das geleiras?
As camadas das geleiras que desciam dos montes, marcando a paisagem à frente da aeronave, encobriam o que restava das cidades dos antigos; desciam implacáveis, formando uma camada espessa, de aproximadamente 400m de profundidade.
Nada poderia restar íntegro entre as construções que elas cobriam.
Nenhum material suportaria alguns milénios debaixo do bloco de gelo que se formara sobre lagos, rios, cidades e, até mesmo, um platô onde se situava uma espécie de aeroporto, que jazia soterrado em meio à brancura geral.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 25, 2017 10:16 am

O gelo cumpria sua missão de tudo destruir e liberar espaço para novos povos e novas civilizações que viessem ocupar o palco desse mundo selvagem ao longo dos milénios sem fim.
Enlil estava abismado com o grau da devastação causada pelo gelo.
Mas também se preocupava com o que fariam ao mundo e como reergueriam sua civilização, assim como um monumento que registrasse seu passado, de forma a deixar, para os povos do futuro, rastros nítidos de que foram colonizados, ou melhor, forjados pelos “deuses”.
Ao que parecia, porém, eles não eram os únicos deuses que haviam pousado naquele planeta.
A diferença é que os poderosos de antes partiram, com absoluta certeza, enquanto eles, os povos constituintes da espécie Homo capensis, os annunakis, não conseguiam sair do planeta.
Não havia como, o que contribuía para que usassem todos os recursos à disposição a fim de formar uma cultura que selaria para sempre o destino dos novos homens, os seres que se desenvolveriam em Tiamat.
Dali a aproximadamente 200 mil a 400 mil anos, após uma série de eventos geológicos e cataclismos ocorridos nesse intervalo, nada restaria das cidades monumentais desses povos desconhecidos que, um dia, habitaram o terceiro planeta do sistema.
Talvez não existisse nada que atestasse para o mundo futuro a presença dos annunakis em Tiamat.
Ou quase nada.
A menos que tomassem alguma providência.
Quando as geleiras derretessem, nada sobreviveria à implacável avalanche dos anos, do passar do tempo, e apenas uma lenda sobreviveria na memória daquela gente.
Nenhum vestígio restaria, nem mesmo dali a 50 mil anos, das belezas de Lêmur e da história daquela civilização desconhecida; talvez, nem sequer dos eloins e seus conterrâneos, que aqui estiveram deportados, degredados, em decorrência de um processo monumental de transmigração de seres entre dois mundos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes.
Uma proximidade quase genética e uma distância tão grande em termos de civilização, cultura e histórico de vida.
Um grupo de árvores seculares, uma floresta tropical com vegetação muito desenvolvida e de altíssimas árvores, apareceu de repente à frente da aeronave dos astronautas.
De aparência longilínea, esses seres cobriam a cabeça com um artefacto natural, feito com fibras de algas.
Embora tivessem cabelos longos, aos olhos comuns pareciam calvos, pois, encimando a cabeça, uma espécie de cone bastante alongado evitava que seus cabelos, verdadeiras antenas parapsíquicas, ficassem expostos às vibrações primárias do mundo onde ora viviam.
Assim se protegiam, ainda que de maneira não muito eficaz, até mesmo das consciências intrusas, dos seres que assassinaram em sua passagem por outros mundos da amplidão.
Afinal, o artefacto também fora desenvolvido para coibir a intrusão psíquica, mental, o ressoar dos clamores de vingança de milhões e milhões de almas e criaturas que alvejava sua mente sem cessar, devido ao grau de virulência que impuseram aos povos que dizimaram.
Embora de maneira um tanto quanto imperfeita, tal objecto ao menos amenizava os dardos parapsíquicos de dor e angústia que recebiam sobre suas almas culpadas.
A composição tornava sua aparência deveras exótica, especialmente porque era usado um material que se ligava à pele e formava uma extensão da cabeça, perfeita em termos estéticos, de sorte que era impossível notar qualquer ponto ou cicatriz que marcasse a emenda.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:05 am

As árvores se erguiam majestosas e ameaçadoras.
Afinal, tratava-se de um mundo muito primitivo e, diante da técnica dos povos que ali aportavam, era de alguma maneira intimidador.
Os astronautas não estavam habituados a um mundo desse tipo, embora soubessem que existiam aos milhares, nas franjas da Via Láctea e de outras ilhas siderais.
Enquanto sobrevoavam o altiplano onde se erguia a imensa floresta negra, os cientistas filmavam e catalogavam tudo com seus instrumentos de medição e registro.
Enlil via-se angustiado, aflito, movido por um sentimento contraditório, sem saber que de longe era manipulado por dominadores invisíveis, por um dos mais terríveis ditadores que veio deportado, ele também, ao mundo-prisão.
Em meio à paisagem cheia de vida e de ameaças incomuns, o que parecia uma cratera de um antigo vulcão extinto destacou-se.
Enlil e Ninhar’s pilotavam a espaçonave.
Havia outros a bordo, mas eram simples serviçais dos deuses.
Embora da mesma espécie, eram considerados de casta subalterna.
O interior da cratera exalava um odor muito forte de enxofre, à proporção que uma fumaça espessa saía dali e envolvia a nave, que sobrevoava o local e balançava em meio aos vapores imprevistos.
Uma zona de instabilidade se produziu, quase levando-a ao chão.
A cratera exibia todo o seu furor natural, deixando os astronautas com medo de que uma explosão colocasse em risco a segurança da espécie ali representada.
Escombros de rochas, lavas e outros detritos, possivelmente expulsos do interior da cratera, espalhavam-se pelas florestas, com boa parte das árvores derretida ou petrificada num raio de mais de 40km de destruição, formando o quadro desolador que contrastava com a densidade da floresta ao redor.
Felizmente sobraram muitas espécies, embora mais ao longe as geleiras cobrissem o que restava de grande parte do continente lemuriano.
Quando os astronautas o sobrevoaram pela primeira vez, a bordo das naves que traziam as cápsulas — onde, adormecidos, encontravam-se os seres que eram transportados do mundo matriz para este submundo do espaço —, muitas delas foram irremediavelmente deterioradas, devido às erupções do vulcão aparentemente extinto ou em repouso por longo tempo.
Esse facto havia se passado milhares de anos antes da época dos capensis, da sina de Enlil.
Assistiu-se a uma destruição generalizada, pois os primeiros astronautas ainda não conheciam a estrutura de vida do novo orbe e muitos deles foram surpreendidos, em diversas ocasiões, pelos seres medonhos que habitavam Tiamat.
Três únicas naves escaparam da erupção que cuspia lava e detritos na atmosfera, surpreendendo os viajantes à hora da aproximação e do pouso.
As naves remanescentes conseguiram identificar as cidades adormecidas no gelo e algum resquício de civilização ainda mais antiga.
Mas não se atreviam a voltar àquele local.
Além do mais, tudo lá estava morto; não havia mais os representantes da misteriosa raça.
Em suma, os astronautas resolveram procurar outro lugar menos perigoso para estabelecer sua primeira base, a qual viria a se transformar, mais tarde, num monumento de seu povo, uma espécie de capital de onde partiam as diversas comitivas de pesquisadores, cientistas e trabalhadores exilados.
Ali foi erguida Eridu, a cidade-estado dos deuses decaídos.
Uma área muito pantanosa de Lêmur fora avistada por Enlil e Ninhar’s, onde se erguia uma construção de forma piramidal, que diferia das demais edificações do continente.
Era para ali que se dirigiam aqueles astronautas.
A nave deu uma volta numa órbita elíptica em torno do monumento, ou sabe-se lá o que representava a pirâmide dos antigos descoberta ali, em meio às geleiras e distante alguns milhares de quilómetros do gigantesco vulcão adormecido.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:05 am

Nas proximidades avistaram um bando de seres primitivos, talvez descendentes directos dos antigos ou, quem sabe, criação deles.
De todo modo, o bando mostrava características diferentes daquelas observadas anteriormente por seus cientistas.
Abaixo da nave apareceram outras pirâmides, menores, formando um estranho conjunto arquitectónico de cor escura.
Via-se em seu cimo uma luz embaçada, como se ainda restasse ali alguma actividade energética, embora de pequena intensidade.
Algo intrigante para Enlil e Ninhar’s.
— Temos diante de nós uma prova inquestionável de que este mundo foi realmente visitado antes de nós.
— Prova? Não vejo assim esses monumentos — respondeu Enlil, abstraindo-se de sua apreensão íntima.
Ninhar’s fitou o rosto escultural do outro; embora nutrisse por ele respeito misturado a medo, havia também grande consideração.
Queria substituí-lo no comando do contingente mais expressivo de deuses que viera de seu sistema original.
Mas por ora precisava dele, não sabia por quanto tempo, mas precisava.
— Os povos que aqui estiveram antes de nós parecem ter deixado seu rastro para a posteridade.
E seu futuro somos nós, Enlil!
Esses primatas do planeta não
servirão às nossas experiências; são por demais primitivos e sua inteligência é mais um instinto do que produto de raciocínio elaborado.
— Não é assim, Ninhar’s! Nossos cientistas e técnicos já pesquisaram diversos exemplares dessa raça.
Encontramos resquícios de uma espécie diferente nesses primatas.
Talvez, um elo entre o tipo anterior e o que procuramos encontrar; mesmo assim, com alguma modificação cerebral — algo que merece nossa atenção.
— Por que vive repetindo a mesma história, Enlil?
Sei que também não lhe agradam essas bestas-feras nem este mundo miserável.
Talvez encontremos um meio de fugir deste inferno justamente no interior dessas pirâmides; talvez escondam algo que possa ser muito útil a nós.
E talvez finalmente possamos alçar voo rumo às estrelas do firmamento e estabelecer nosso reino em meio a povos detentores de uma mente mais elaborada e certo grau de civilização.
— Verdadeiramente odeio este mundo, Ninhar’s.
Contudo, não é de se esperar que alguma técnica tenha sobrevivido ao fogo e ao gelo por milhares de anos, talvez centenas de milhares, segundo a contagem de tempo deste mundo.
Temos de nos conformar com a ideia de que esses primatas descendem directamente dos povos que aqui chegaram antes de nós, num tempo muito anterior a este em que viemos.
Não sabemos é se essa teoria da herança genética se aplica entre eles, os primitivos, e nós.
— Jamais podemos ser iguais, nobre Enlil.
Sabe disso.
Somos deuses, e eles, primatas.
Nada há de semelhante em nosso DNA.
Não mesmo, pelo menos até onde sabemos.
— Infelizmente, a presença de seres aqui neste mundo, de seres anteriores a nossa raça divina, talvez também nos demonstre outra coisa.
— O quê, Enlil da casta dos governantes divinos?
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:05 am

— Que talvez nossa raça, assim como a de outros povos do espaço, guardem muito mais semelhanças entre si do que supomos.
Quem sabe os mesmos que semearam a vida neste mundo, eras antes de nós, não sejam os próprios seres que semearam a vida em nossos mundos? Quem sabe...
— Isso é uma afronta sem tamanho, nobre Enlil.
Não se pode conceber um tamanho absurdo como esse.
Nosso povo nunca evoluiu de uma espécie inferior.
Somos filhos das estrelas e deuses por natureza, facto que nos faz substancialmente diferentes desses primitivos do terceiro mundo.
— Não é bem assim, Ninhar’s.
Você ainda é jovem e nunca acompanhou os arquivos de nosso povo que se encontram na base localizada no satélite natural deste mundo.
Embora não possamos mais voar para lá como quando aqui chegamos, lá permanecem guardados nossos registos mais preciosos.
Um dia retornaremos às estrelas e lá recuperaremos nossa história.
Depois de um silêncio constrangedor entre ambos, sempre acompanhados pelos ouvidos atentos dos serviçais da outra casta do Homo capensís, de estatura mais baixa e musculatura mais desenvolvida, Enlil continuou:
— Em minha opinião, nobre Ninhar’s, os antigos habitantes de Lêmur desenvolveram os antepassados dos primatas.
Partiram de seres humanóides ainda mais primitivos do que estes e deram um impulso em sua evolução, de maneira que, quando aqui chegamos, já encontramos uma espécie desenvolvida, ainda que distante de nossa realidade.
Ou seja, há no universo alguma raça, ainda que desconhecida por nós e talvez habitante de outra dimensão, um mundo ou universo paralelo, que viaja pelo cosmo semeando vida.
Há outros cuja incumbência é fazer alguma alteração nos habitantes primitivos para que desenvolvam a inteligência primitiva e instintiva.
Creio pessoalmente, Ninhar’s, que nós, mesmo que degredados, temos muito que fazer e muito a contribuir para que certas espécies de mundos como este se desenvolvam, de sorte que possam evoluir para um estágio que lhes permita erigir sua própria civilização.
Enfim, ao que me parece, mesmo que em meu espírito eu odeie este mundo, ficaremos aqui por milénios ainda, por uma verdadeira eternidade, pelo menos até que vejamos essa espécie tomar posse de sua herança na superfície deste orbe.
Ninhar’s calou-se ainda mais, pois se sentia revoltado com o posicionamento de Enlil.
Nem queria imaginar o que seu tio Enki pensava, pois sabia que este amava Tiamat com seus primatas e sistema de vida, muito diferentemente do irmão Enlil, que disputava o domínio sobre os astronautas e, por conseguinte, sobre uma parcela daquele mundo selvagem e inóspito, localizado na zona periférica da galáxia.
Ódio incomum e forte dominava os pensamentos e emoções de ambos, embora por motivos distintos.
Após prolongado silêncio, Ninhar’s falou para seu pai, Enlil:
— Não humilhe assim nosso povo, nobre Enlil.
Poderá enfrentar o tribunal dos deuses.
E dificilmente alguém consegue escapar da sentença máxima.
— Não estou humilhando nosso povo, Ninhar’s.
Apenas considero os factos sob a óptica de um cientista, nada mais — e encerrou ali a discussão sobre o assunto, ao menos por ora.
De repente, um dos astronautas menos importantes na escala hierárquica, que se mantivera até então calado, ocupado com seus instrumentos de medição, deu um grito que arrancou os dois representantes dos deuses do impasse instaurado, do franco embate que ameaçava desencadear sérios problemas para todos.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:05 am

— Fumaça!
Vejam, ali à frente...
— Onde? Fale logo, Vestal!
— Ali, nobre Enlil!
Veja, ao lado daquela montanha menor.
Instintivamente, Enlil e Ninhar’s viraram-se para o lugar apontado pelo astronauta Vestal.
Olhavam para a borda da floresta tropical logo abaixo.
— Na direcção do rio, ou onde restou algo semelhante, devido à lava que abriu o caminho entre as gigantescas árvores — e soltou imediatamente um sinalizador em direcção ao lugar, deixando-o à mostra.
Enlil logo avistou o fogo e chamou a atenção do filho para o fato.
— Estou vendo, nobre Enlil — falou Ninhar’s.
— Desvie para a direita, Vestal.
Vamos pousar numa região mais distante, onde não possamos ser vistos, caso exista alguma criatura vivente por ali.
— O coração dos astronautas disparava pela excitação.
Afinal, era seu futuro que estava em jogo, conforme criam.
Ao lado de ambos, sem que o percebessem, dois outros seres, de dimensão ligeiramente diferenciada, acompanhavam tudo.
Ambos estavam a postos, dirigindo a atenção dos astronautas divinos para determinado grupo de humanóides à frente.
Tentavam, a todo custo, abreviar o sofrimento da raça dos primatas nas prováveis experiências genéticas patrocinadas pela ciência inumana dos degredados.
Os dois seres, Alotron e Lamarion, localizaram os espécimes mais apropriados para uma experiência que poderia ser o ponto final de uma série de barbaridades perpetradas nos laboratórios de Tiamat.
Entrementes, Ninhar’s já havia informado ao comando de sua base, situada próxima ao rio que futuramente seria chamado de Eufrates, que haviam localizado seres um pouco diferentes dos anteriores.
Desceram, após identificarem, na cadeia de montanhas, algumas grutas de aspecto também incomum.
Levavam consigo alguns animais do mundo primitivo, os quais haviam adestrado.
Eram aberrações, conforme acreditavam os próprios astronautas, mas serviam como monta ria para se locomoverem entre as florestas densas.
Galopavam velozmente sobre pedregulhos e montanha abaixo.
Passadas algumas horas, Enlil e Ninhar’s avistaram as grutas das quais falou Vestal, que seguia ambos, empunhando um tipo de arma desenvolvida para sedar qualquer criatura que se interpusesse entre eles.
Somente não funcionava com os animais imensos, as feras monstruosas do planeta.
Mas em animais menores, eram muito eficazes.
Nos bastidores da realidade ostensiva, Lamarion e Alotron, dois especialistas e guardiões da eternidade, velavam pelas criaturas terrenas, os primitivos seres das pradarias de Lêmur.
Guiavam, sem que o soubessem, os astronautas corporificados que se dirigiam àquele recanto do mundo-prisão.
As cavernas na base das montanhas não pareciam naturais.
Isso os incomodou ainda mais.
Alguém, alguma cultura as fizera.
Uma vez mais deparavam com a prova da existência de outros seres, mais avançados, que pareciam haver preparado aquele continente, ou talvez todo aquele mundo, para a morada dos seres primitivos que se multiplicavam nas planícies e florestas do terceiro planeta.
Mas quem eram eles?
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:06 am

Esta, a grande pergunta que ninguém sabia responder.
As aberturas entalhadas nas rochas pareciam esculpidas por algum instrumento que não se achava mais ali.
Nem o instrumento, nem os construtores.
Uma saliência rochosa chamou a atenção dos deuses astronautas, já que não poderia ser mais apropriada à habitação dos humanóides.
Animais predadores jamais conseguiriam chegar até ali.
O local era favorável a que os habitantes primatas enfrentassem qualquer adversário da região, com excepção dos monstros dos pântanos — ameaça ainda não avistada por ali.
Pedras, pedregulhos e galhos de árvores estavam dispostos diante das cavernas.
Parecia obra de alguém que pensava, raciocinava, mesmo que primitivamente.
Esse factor pareceu muito importante aos olhos dos cientistas, que procuravam um espécime mais apropriado às suas experiências genéticas.
Decerto as pedras maiores poderiam servir de portas para as cavernas, mas isso era demais para aqueles primitivos, que jamais conseguiriam pensar em algo assim.
Ou conseguiriam?
Estariam diante de um segmento mais avançado dos homens primitivos?
Enlil e Ninhar’s estavam entusiasmadíssimos com a possibilidade de encontrar um espécime tão raro, quanto mais um bando de primatas avançados.
Isso era tudo de que precisavam para desenvolver um novo tipo de ser.
As montarias tiveram de percorrer grande distância, considerando-se o local onde pousaram a nave, que trataram de disfarçar em meio à vegetação, numa providencial embora distante clareira.
No trajecto, descobriram algumas aberturas no chão rochoso, que mais pareciam túneis escavados primorosamente e que conduziam a algum lugar desconhecido.
Pela dimensão e localização, como também pela direcção, remetiam aos antigos construtores das pirâmides negras, supostamente os mesmos que haviam habitado o continente milénios antes.
O ar era frio, quase gélido.
Depois de assinalarem a área que descobriram, partiram para o local mais próximo das cavernas.
Logo o terreno adiante se revelou mais húmido e rochoso.
Quando estavam a cerca de 8oom das grutas, Enlil ordenou que Vestal assumisse a frente e se dirigisse com maior rapidez
ao local onde pretendiam encontrar os habitantes misteriosos do terceiro mundo.
Basharool, que, como Vestal, pertencia a uma casta inferior dos astronautas, ficara próximo à nave; em caso de eventualidade, chamaria por socorro.
Tiamat parecia guardar surpresas incrivelmente perigosas a cada passo, em cada sítio.
No continente chamado Lêmur, como haviam baptizado o platô imenso no qual se erguia a cordilheira mais incrível que pudessem ver naquele orbe, as coisas eram ainda mais diferentes e perigosas.
Um perigo que poderia ser o fruto da imaginação daqueles seres do espaço ou, quem sabe, algo real, escondido em cada floresta, em cada recanto obscuro das rochas.
O vento vinha do oeste enquanto Vestal galopava sobre sua montaria.
Ele não percebeu de imediato que era rondado por um grupo de 1o criaturas primitivas, que o espionavam entre as árvores.
Pareciam sombras, mas eram seres vivos, com o mínimo de percepção de sua realidade.
Para eles, os astronautas eram a ameaça mais grave que surgira nos últimos tempos.
Mas Vestal detinha um instinto aguçado para o perigo e pressentira algo diferente no ar, que vinha com um misto de calor e frio, intercalando ambas as temperaturas, combinando-as num vento morno.
Parou de repente, como num estalo.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:06 am

Pegou sua arma e segurou-a com firmeza.
Porém, os seres ocultos na penumbra da floresta pareciam ainda mais instintivos que Vestal.
Saíram do lugar tão repentina quanto disfarçadamente, sem serem percebidos pelos deuses caçadores de primatas.
Enquanto Vestal se detivera, auscultando o local, Ninhar’s e Enlil sorrateiramente se aproximaram, pois, ao verem o subordinado parar, logo desconfiaram de que algo estava por acontecer.
Talvez descobrissem a localização de um dos primitivos da região?
E a caçada continuava.
Deixaram que Vestal avançasse à sua frente, pois sabiam que era um estudioso, um tipo de antropólogo, a quem interessava sobremaneira estabelecer contacto com aquela raça.
Motivavam-lhe nem tanto as experiências genéticas programadas, mas sobretudo a chance de estudá-los, como seres vivos capazes, talvez, de desenvolver uma cultura, tal como a concebiam.
Vestal desceu do animal, e seu gesto foi seguido pelos dois astronautas.
Exultava, pois pressentia que seria o primeiro de sua raça a encontrar-se com um tipo superior entre os habitantes do planeta-prisão.
Todos guardavam silêncio absoluto.
Naquele momento em que a tensão estava no auge, Lamarion e seu amigo guardião da eternidade orquestravam tudo, atrás da delicada membrana psíquica que separa a realidade ostensiva da original, o mundo paralelo.
Conduziam os acontecimentos para que o espécime certo pudesse ser encontrado pelos astronautas, a fim de evitar matanças desnecessárias, e assim os experimentos pudessem ser realizados da forma mais ética possível.
Seriam encerradas ali as experimentações genéticas horrendas que produziram as aberrações que sobreviveram por muito tempo sobre a superfície de Tiamat.
De repente, Ninhar’s gritou de medo, assustado com um dos animais mais feios que chegara a conhecer na vida.
Correu para o lado de Enlil, que, somente com o olhar cheio de virilidade e magnetismo, reprovou a atitude do filho.
O grito afugentara o grupo de seres que eles caçavam.
Ninhar’s compreendera a reprovação e ressentira-se com a própria conduta.
Vestal olhou para ambos sem poder se manifestar, afinal era apenas um servidor dos assim considerados deuses, embora da mesma espécie Homo capensis, como se denominavam em seu mundo de origem.
— Desculpe, nobre Enlil... — principiou o jovem, manifestando-se pela reacção instintiva.
— Nem tente me fazer perder tempo, Ninhar’s.
Temos de prosseguir.
Ele compreendeu imediatamente a resposta de Enlil.
Ficou ainda mais incomodado porque sua reacção ocorrera na presença de um ser inferior, de uma casta insignificante de seu povo.
Desmoralizara-se perante um serviçal.
Não sabia ainda como remediar a situação.
Enlil fez um sinal conhecido de seu povo e direccionado a Vestal, que entendeu o significado e continuou a rota, mudando o sentido apenas uma única vez.
Vestal guiava-se também pelo instinto, e não apenas pelo raciocínio.
Isso o fez localizar novamente o bando de primatas, ainda que após mais de duas horas de atraso, provocado pela reacção pueril de Ninhar’s, alguém que se julgava um deus.
Alotron e Lamarion estavam entusiasmados.
O atraso fora útil para actuarem junto ao psiquismo primitivo de um dos seres do bando, atraindo-o para perto dos astronautas.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:06 am

Ninhar’s queria a todo custo se desculpar, mas Enlil jamais lhe daria chance.
Resolveu aquietar-se, então, quase encerrando ali sua participação no arrojado projecto.
Caso o bando fugisse, perderiam tudo que apostaram nessa excursão pelo continente.
Graças aos deuses do espaço, mas graças também à acção de Lamarion e Alotron, isso não ocorreu.
Pouco tempo depois, Vestal aproximou-se de dois espécimes diferentes, cuja aparência chamou a atenção de seus superiores hierárquicos.
Enlil respirava pesado; tentou ao máximo dominar a ansiedade.
Ninhar’s parecia nem respirar — não poderia cometer mais um erro; isso seria imperdoável.
Viram dois seres primitivos, dois primatas diferentes entre si,
saírem de trás de uma rocha.
Não poderiam ser considerados humanos, no sentido próprio do termo.
Talvez não fossem homens, ainda.
Mas também não poderiam ser confundidos com símios; não eram homens-macaco, tampouco.
Eram algo inusitado.
Para que a natureza produzisse espécimes como esses, essencialmente diferentes dos demais observados e capturados até então, levaria milhões de anos de Tiamat.
Ali estavam espécimes que verdadeiramente haviam sido modificados ou, em outras palavras, alguém havia dado um empurrãozinho no processo evolutivo, alterando de alguma maneira a constituição física daqueles seres.
Aliás, ao que parecia, não somente o aspecto físico havia sido impulsionado, a ponto de serem visivelmente tão diferentes.
Havia algo nos olhos daqueles primatas que revelava algo não físico, uma presença inteligente, uma inteligência muito mais avançada, embora ainda distante da dos astronautas.
Sem dúvida, o olhar chamava atenção, de modo especial.
Será que finalmente, depois de centenas de anos de experimentos, conseguiriam encontrar um ser à altura das necessidades dos astronautas?
Será que finalmente a busca havia encontrado termo?
Mal sabiam que Lamarion e Alotron é que haviam rastreado os espécimes mais apropriados.
Se estes deixassem a busca à revelia, ao acaso, essa atitude poderia custar-lhes mais um milénio e inúmeras outras aberrações até que os exemplares fossem encontrados.
Embora Alotron não aprovasse tais experiências, que considerava abjectas, resolvera ajudar a fim de evitar mais sofrimento para a espécie primata.
Afinal, aprendera a amar aquele mundo e aqueles seres, que eram objecto de sua pesquisa há centenas de anos, segundo o padrão de tempo de Tiamat.
Vestal aproveitou a curiosidade dos dois seres à sua frente e disparou a arma narcótica, deixando-os desacordados, para poderem ser examinados mais de perto.
Eram armas que não causavam danos permanentes, se fossem ajustadas para tal.
Somente em casos raros as programavam para matar.
Mas ali estavam espécimes diferentes, especiais; um salto da evolução naquele mundo primitivo.
Aproximaram-se mais e auscultaram cada uma das criaturas.
Cabelos negros compridos nasciam e cresciam em diversas partes de seus corpos.
Concentravam-se aqui e ali, muito diferentemente do que se via nos corpos dos astronautas, cuja pele era lisa e finíssima.
Os primitivos tinham maior concentração de pelos na cabeça, na região genital e nos peitorais.
Um deles apresentava apenas uma leve penugem, diferentemente do outro.
Sim, eram espécimes distintos.
Talvez um deles fosse baptizado no futuro, mais de 400 mil anos depois desses acontecimentos, como australoptecus.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:06 am

Este guardava mais semelhança com os astronautas do que os primitivos e primeiros seres capturados.
Depois de examinarem detidamente o indivíduo,
Vestal atreveu-se a comentar, pois não conseguia mais guardar a curiosidade nem a satisfação de haver deparado, pela primeira vez, com um ser bem mais adiantado, dentre todos que conheceram até então:
— Vejam a cabeça deste exemplar!
Os dois astronautas se olharam, pois não aprovavam um ser de casta inferior dirigir-se a eles sem receber permissão para isso.
E esta já era a segunda vez que Vestal fazia tal coisa.
Entretanto, não podiam naquele momento fazer nenhuma reprimenda, pois dependiam de seus conhecimentos para identificar a melhor das criaturas que servisse a seus intentos.
Voltaram-se ao ser à sua frente.
Para acentuar seu poder sobre Vestal, Enlil se pronunciou:
— Fale, Vestal, nós o permitimos — mas logo sentiu que teria de modificar em algum momento sua forma de agir com os de castas diferentes ou inferiores.
Não estavam mais em seu planeta, mas todos, igualmente, num mundo-prisão.
Parece que Vestal ou ignorava o sentido de suas palavras ou, então, não mais se intimidava perante os que se consideravam superiores.
Ignorando se os dois seres sublimes entendiam ou não o que falava, segurou a cabeça de um dos primatas e declarou:
— Sem a menor dúvida, o crânio pode até guardar semelhança com um símio daqueles encontrados logo que aterrissamos neste planeta; mais precisamente, os que habitam as árvores.
Mas se trata de mera semelhança; nada que sugira um parentesco tão próximo.
Modificando o jeito como segurava o humanóide, mostrou mais detalhes para seus superiores Enlil e Ninhar’s, pronunciando cada palavra devagar, como se aguardasse que ambos pudessem compreender o que explicava:
— Reparem como a testa é bem diferente; isso denota um cérebro também muito diferente e maior que o dos símios mais primitivos.
É um bom sinal.
A testa deste arqueia-se para cima, ao contrário do que se vê no espécime ao lado — falou apontando o outro ser, que sugeria estar um grau atrás no processo evolutivo natural daquela espécie.
Continuou:
— Dificilmente encontraríamos dois seres tão distantes em termos evolutivos juntos assim, como encontramos estes
dois.
Até parece que fomos ajudados por mãos invisíveis.
O outro ser, ao lado, assemelha-se mais aos primitivos das florestas, mas este aqui denota um desenvolvimento da inteligência num grau superior.
— Quem sabe possamos ajudá-lo um pouco com nosso conhecimento de engenharia genética?
— Abrindo a boca do ser à sua frente, algo que fez com relativa dificuldade, pôde perceber uma diferença que de maneira incomum sobressaía entre os dois espécimes.
Cheio de ardor, e tomado de curiosidade científica, Vestal explicava para Enlil e Ninhar’s, sem que estes se sentissem ofuscados com seu conhecimento, nem ao menos pudessem considerar como insolente sua forma de lidar com os superiores:
— Vejam os dentes.
Faltam-lhe os caninos! — e olhou em direcção aos dois astronautas.
— Neste instante, observou o grupo de humanóides primitivos se achegar a eles.
Estavam apenas curiosos, sem demonstrar nenhuma atitude agressiva.
Pareciam saber, de alguma maneira que não poderiam explicar, por lhes faltar ainda mecanismos de comunicação eficientes, que estavam diante de seres mais avançados que eles.
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Ave sem Ninho

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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:07 am

Seus olhares pareciam diferentes, pois um brilho intenso demonstrava que atrás de cada par de olhos havia um espírito, um ser pensante, uma actividade mental diferenciada, embora os pensamentos se desenvolvessem numa trilha mental restrita à realidade em que se encontravam e às suas necessidades básicas.
Mesmo assim, algo definitivamente brilhava dentro deles — facto que incomodou os astronautas cientistas, não obstante estivessem imensamente satisfeitos com o achado.
— Ali mesmo começou uma história diferente, que marcaria para sempre, ou talvez por milénios quase sem fim, o histórico de vida dos seres.
A partir dali, seriam desenvolvidos pelos astronautas degredados em Tiamat.
Os seres humanóides, tão logo miraram os olhos dos seres do espaço, notando com maior intensidade as diferenças entre sua espécie e a daqueles visitantes, ajoelharam-se a seus pés.
Balbuciavam sons incompreensíveis, mas demonstravam total submissão aos seres estrangeiros, que agora dominavam o mundo primitivo para onde foram banidos.
Nascia ali um período de adoração que seria o maior trunfo dos seres do espaço para dominar a raça programada para servi-los.
Prevaleceria a forte tendência instintiva a endeusar e venerar tudo aquilo que desconheciam e a submeter-se às forças que não dominavam.
Enlil olhou para Ninhar’s significativamente.
— Além dos limites da matéria física e etérica, olhos vigilantes acoplados magneticamente a Enlil observavam os acontecimentos.
Forças que se opunham ao progresso e à evolução estavam interessadas na reacção dos humanóides.
A partir do que se vira ali, resolveram que seriam estes os detentores de conhecimento e inteligência, em proporção quase ilimitada, comparando-se aos primatas do planeta.
Seriam os deuses da nova raça que nasceria ali, naquele mundo, num processo de manipulação genética, mas também de ordem mental e espiritual.
A nova espécie, depois chamada Homo sapiens, seria forjada para obediência e servidão àquelas forças, por meio da manipulação de seus pensamentos, suas vontades e emoções.
Estava decidido o futuro dos humanóides, estava selado o nascimento de uma nova raça, que reinaria na superfície do planeta sob o império dos dominadores do submundo, os quais manipulavam também os astronautas degredados, mas particularmente Enlil, visando à realização de um plano esboçado por eles, mas que ainda consumiria séculos e milénios para se concretizar.
Tinham tempo de sobra para isso.
Sabiam que só sairiam de Tiamat quando lhes fosse permitido pelos senhores do sistema, os dirigentes maiores, que velavam pelo destino da humanidade nascente.
Por outro lado, Lamarion e Alotron sentiam-se aliviados por terem conseguido limitar a acção dos eloins, os cientistas de seu povo, impedindo-os de conduzir intermináveis experiências com os seres do mundo primitivo.
Os eloins eram a raça mais respeitada e, ao mesmo tempo, os grandes conhecedores dos elaborados processos de manipulação genética.
Tidos como cientistas da natureza, transformaram-se em criaturas hábeis em exobiologia e no trato com inteligências de várias etnias e famílias siderais.
Não obstante, eram perversos.
Em poucos deles se poder notar algum sentimento de consideração em relação aos seres ainda em desenvolvimento ou formação cultural e social; não mais que isso.
Apesar desses factores de preocupação, Lamarion e seu amigo sabiam que o longo processo evolutivo receberia um impulso muito grande a partir daquele momento.
Os degredados de seu povo teriam de ensinar aos novos seres sua ciência, transmitir-lhes conhecimento e treiná-los em diversas situações, ao longo das eras, nem que fosse para que estes os servissem da maneira mais precisa possível.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:07 am

Além disso, esses mesmos que pretendiam escravizá-los não consideravam certas variáveis do processo evolutivo.
Não contavam com a interferência de seres mais esclarecidos, de orientadores evolutivos que, de tempos em tempos, viram a se materializar nos corpos humanóides para, misturando-se à nova raça, poder educá-los, e assim deixar marcas profundas na formação cultural e espiritual dos povos deles derivados.
Considerando o extenso percurso que a humanidade nascente teria de palmilhar em sua trajectória de desenvolvimento, eles, os guardiões da eternidade e os demais que trabalhavam silenciosamente atrás da delicada película que separa as
dimensões, disporiam de um tempo dilatado — milénios — para acompanhar e educar suas crianças cósmicas.
Nascidas ali, levavam em seu cerne, em seus genes, a marca dos filhos das estrelas, como resultado da manipulação genética das mais elaboradas de que se tinha notícia, desde eras remotas.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:07 am

LÉMUR NÃO PODERIA SER considerado como os outros continentes do planeta.
Era especial.
Não somente devido às estranhas construções que abrigava, mesmo que àquela altura a maioria estivesse coberta pela vegetação ou pelo gelo, mas também em razão do bioma ali existente.
Seres que há muito já não se viam nos demais continentes pareciam ali encontrar uma espécie de redoma invisível, sobrevivendo em meio à flora riquíssima da região.
Foi para lá que se dirigiram os mais temíveis seres degredados, tão logo se viram capazes de penetrar a mente de Enlil.
Os membros do primeiro comando de vibrações — ou, como se dizia no planeta original daqueles seres, os ditadores cósmicos, os pretendentes ao posto de deuses do sistema — cavalgaram sobre as trilhas de energia presentes nas dimensões próximas à crosta do planeta.
Vasculharam tudo ao redor, embora ainda não dominassem todos os recantos obscuros e ainda desconhecidos do mundo para onde foram banidos por uma força superior.
Passaram acima de pântanos e florestas negras, auscultaram tudo ao redor, como que procurando por vestígios de algo que eles mesmos talvez desconhecessem.
Além deles — os seis representantes de um poder desumano —, havia algo, uma presença bem maior, ainda mais ostensiva, porém invisível, que abarcava tudo com os poderes de seu espírito, por meio de forças paranormais superlativas.
Tais habilidades psíquicas, embora conhecidas dos capensis, naquele ser em particular assumiam proporção absurdamente distinta em relação à verificada em seus compatriotas ali exilados.
Uma super anti-consciência, inumana.
Quem fosse por ela tocada, por esse ser hediondo, perdia a vontade, era submetido ao seu poderio devastador.
Mas ninguém, nem mesmo os seis dominadores, sabiam de quem se tratava.
Sob máscaras e disfarces, quem era essa consciência capaz de controlar até mesmo a vontade dos seres mais tenazes, os dominadores de todas as ciências e de todo o conhecimento de seu povo?
Sua identidade era ignorada.
Apenas eram dominados, manipulados, subjugados por uma consciência que sintonizava com os piores instintos, os mais primitivos, os mais abjectos e as emoções mais primárias que jamais haviam rondado as auras dos povos.
Havia absorvido o conhecimento dos demais através de intricados processos e habilidades psíquicas, roubando das mais brilhantes inteligências deportadas toda a bagagem arquivada nos centros de memória de seus corpos mentais.
Era uma entidade satânica, e jamais se deixava perceber ou ser descoberta em seus mil e um disfarces.
Assim começou o processo mais macabro de manipulação dos seres do abismo, ainda quando os primatas acordavam para a existência de um mundo novo, ou melhor, quando seus olhos, iluminados pela razão e pelo conhecimento, abriram-se às belezas do mundo de Tiamat, que passaram a chamar de Terra.

8 Cf. ibidem, p. 27.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:07 am

APARELHO DE CONTACTO ZUMBIU.
Era um chamado directo de nossa base em torno de Tiamat, o planeta que nos abrigava.
Por momentos hesitei em deixar minhas atribuições e os documentos a mim confiados a respeito dos réprobos.
Mais de cem vezes o conteúdo dos arquivos secretos me deixou preocupado, e uma vez mais eu os lia e observava as imagens que traduziam os tempos novos, difíceis, nos quais vivíamos.
Estávamos no ano zero da nova era dos proscritos — afinal, deveríamos conviver com um novo parâmetro temporal, muito diferente daquele vigente nos mundos aos quais estávamos habituados.
Os anos em Tiamat passavam bem mais rápido do que em nosso mundo.
Segundo os padrões no mundo dos proscritos, éramos quase imortais, tendo em vista a demora milhares de vezes maior de nosso orbe para girar em torno de seu sol.
Um ano nosso correspondia a cerca de 3,6 mil anos deste novo mundo cheio de mistérios, vida e oportunidades.
Tinha calafrios só de pensar como seria a vida dos milhões de seres degredados e por quanto tempo, o tempo deste mundo novo, ficariam restritos a ele, sem poder retornar ao infinito.
Demorei um minuto eterno, no passar das horas, observando quase estático a luz verde-oliva que se acendeu no painel à minha frente.
Era o que restava de nossa tecnologia, o que sobrevivera aos elementos da atmosfera de Tiamat, não raro danosos ao tipo de matéria de nosso mundo, devido à constituição íntima das moléculas mais abundantes por aqui.
Nossa base mais importante orbitava em torno do globo onde nos situávamos, pois lá, no espaço, ficaríamos ao abrigo de intempéries e de certos elementos nocivos, que causavam a desestruturação material de nossos instrumentos.
Tiamat era um mundo inóspito, selvagem, cuja matéria era em tudo diferente daquela existente em nosso planeta natal.
O aviso luminoso ainda piscava com forte intensidade quando uma voz me chamou pelo aparelho sobre a mesa.
Era um vídeo comunicador, que facilitava o contacto com nossos conterrâneos que gravitavam em torno do novo orbe.
Depois de relativa demora, acordei daquela espécie de transe e me dispus a responder o chamado, ainda sob o impacto das informações dos arquivos secretos que tinha à minha disposição.
Accionei o instrumento visivelmente incomodado com a intromissão.
— Al Lian falando.
Quem me chama?
Houve algum evento urgente?
A face magra e escultural de um dos seres da minha espécie apareceu na tela do comunicador à minha frente.
Era uma mulher de nossa raça. Uma refaim, alguém que se imiscuía em todos os assuntos e era capaz de se fazer passar por qualquer outra casta, devido a certas habilidades.
Era alta para os nossos próprios padrões, e tinha o corpo esbelto, como quase todos de nosso povo; cabelos longos e sedosos, mas que no momento permaneciam enroscados no alto da cabeça.
Movia-se quase lentamente demais, no entanto sem perder a elegância.
O rosto de minha meia-irmã de casta apareceu, numa nítida interrupção de meu sossego enganador.
Preocupava-me sobremaneira com os seres que vieram para Tiamat, aqueles que escoltamos até o mundo-prisão.
Ela, minha irmã de raça, almejava uma posição de comando entre os nossos e fazia valer sua origem celestial para tentar se impor, mesmo sabendo que eu não aprovava suas ideias e pretensões.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:08 am

De modo geral, obtinha êxito ao dissimular suas intenções, mas não comigo.
Reagi da maneira habitual, sem lhe dar muita importância.
Frio como eu conseguia ser quando queria, embora prestasse atenção, quando o assunto me interessava, sem dar a entender tal coisa.
Não poderia deixar transparecer curiosidade no que quer que ela tivesse a me comunicar.
Correria perigo de ser interpretado ou de ter intenções descabidas imputadas a mim.
Minha atitude de cautela tinha razão de ser, mesmo com uma meia-irmã.
Era nítida sua intenção de se aproximar de mim e usufruir de minha posição a fim de se beneficiar na nova política que se estabelecia entre nós, novos habitantes deste mundo onde, talvez, vivêssemos por tempo indeterminado.
No fundo, eu estava com vontade de enviar Lin el Baar, a irmã de casta, de volta a Nibiru.
Ela era muito tenaz quando se tratava de suas pretensões.
— O comandante de nossa base está querendo falar com o senhor, caríssimo irmão de casta.
— Al Lian, o filho do nascente — respondi firme, tão amável quanto pude, embora ela percebesse o tom de minha voz.
Devia ser o mais prudente possível, afinal ela se aliara instintivamente à casta dos marducai e não conseguia esconder o interesse por seus métodos imensamente reprováveis.
Deixara-se seduzir pela política dos exilados.
Preocupei-me com a repentina notícia relacionada ao comandante da base voadora em torno de Tiamat.
Ele era excelente estrategista, porém estava desconfiado de mim, suspeitando que eu estivesse mancomunado com algum dos degredados a ponto de ter favorecido o motim sideral que acabou por significar a destruição de inumeráveis seres vivos, de todo um planeta.
Ele me sondava e eu o evitava.
Eu não queria revelar o que pensava a respeito de Lin el Baar, que ela houvesse auxiliado os renegados quando se amotinaram num dos veículos que os transportavam ao mundo-prisão.
— Levitran deseja que o procure imediatamente, senhor Al Lian — insistiu a meia-irmã de casta, menosprezando minha discreta discordância em relação à maneira como me tratava.
Meu segundo cérebro imediatamente ocupou-se com um plano para evitar me encontrar com Levitran.
Enquanto isso, o cérebro que dominava o consciente e as operações da memória actual fazia de tudo para que minhas expressões faciais não reflectissem a inquietação reinante em meu ser.
As forças de meu espírito estavam activas e a pleno vapor.
O comandante da estação era representante do governo e da corporação dos guardiões que serviam no espaço inter-mundos.
Era um homem sempre preocupado com a segurança dos poucos representantes das forças mais expressivas do nosso povo, que viemos para Tiamat num dos quantos comboios que trouxeram muitos degredados.
Quanto a mim, exercia um cargo importante na nova colónia, se assim pudéssemos chamar o pequeno agrupamento de seres de nossa espécie que nos reuníamos às margens de um rio naquele recanto do mundo.
Apelidamos o rio de Eufrates, em homenagem a um gigantesco mar em nosso mundo.
Chefiava um pequeno grupo de homens da minha raça, os quais se ofereceram livremente para acompanhar os deserdados ao mundo novo.
Levitran era um agente da polícia secreta de Nibiru e um dos responsáveis por manter a ordem nos primeiros momentos de nosso povo neste mundo de exílio.
Logo ele retornaria ao nosso lar sideral, levando notícias da primeira colónia dos rebeldes em Tiamat.
Tinha um objectivo ou uma convicção a que se dedicava quase como uma obsessão:
queria a todo custo convencer o parlamento de nosso mundo a autorizá-lo a impedir as experiências genéticas que os exilados realizavam em Tiamat.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:09 am

Ele simplesmente as abominava e não via sentido em tamanha intromissão no sistema de vida do planeta prisão.
Porém, Levitran não conhecia os detalhes dessas experiências como eu.
Talvez por isso tentasse aproximar-se de mim, quem sabe como fonte de informação.
Tive de deixar aquele pequeno abrigo improvisado com material do mundo onde estávamos e ir a um lugar onde tivéssemos condições de nos falar.
Na sala onde conversaríamos havia um sistema de comunicação precário, devido à influência magnética exercida pelo planeta e seu satélite natural.
Liguei ali um novo aparelho, sem que a meia-irmã pudesse nos escutar.
— Bem-aventurado Levitran!
Seja tua vida a mais longa dentre nós todos.
— Olá, Al Lian!
Salve o sol nascente, o pai de tua casta — não quis comentar a saudação de Levitran, mas é fato que fez o máximo para ser cortês comigo.
O agente de segurança vestia-se com um uniforme comum ao seu cargo e a um chefe de operações de uma base tão importante como aquela que girava em torno do planeta.
Era nosso último refúgio, a única maneira de retornarmos ao nosso mundo após os eventos catastróficos que marcaram a chegada das legiões de seres degredados.
— Sabe que se passaram milénios deste mundo desde que aqui chegamos — prosseguiu ele.
— Para nós foram somente alguns anos.
Afinal, nosso ano solar é quase uma eternidade para os padrões deste mundo.
— Mas ao longo desse tempo, que para nós de facto é pequeno, foram constatados diversos problemas.
A temperatura não nos é favorável.
Embora o ar seja da mesma composição que o do nosso planeta, existe poluição, oriunda de vulcões em actividade.
A fauna do planeta é o maior dos desafios, e os exilados terão de conviver por séculos e milénios com esse bioma até que a própria natureza o solucione, através da selecção natural ou da evolução.
— Pelo que sei, os eloins estão mexendo na estrutura atómica e molecular de várias espécies.
Talvez não demore tanto tempo até que o ambiente deste mundo esteja completamente renovado.
— Isso pode ser perigoso, meu amigo — falou Levitran.
Tanto os eloins quanto os refinas são castas perigosas, nós sabemos, e eles têm algum plano que não conhecemos por completo.
Pelo contrário, aposto que desejam algo muito maior do que possamos imaginar.
Olhando pela abertura da construção improvisada às margens do Eufrates, rio que cortava uma região de grandes riquezas naturais, o Levitran continuou, algo sisudo:
— Temo pelo futuro.
O governo central do nosso mundo me enviou um comunicado importante.
Brevemente chegarão a este mundo outros exilados, que o administrador do Sistema Solar decidiu localizar neste mesmo planeta.
São advindos de uma estrela binária.
Temo pelo que possa ocorrer entre as legiões que aqui se encontram, os annunakis e esses outros exilados.
— Não sabia disso.
Os documentos que possuo não fazem referência a essa outra espécie de seres.
— Não se preocupe; afinal, são humanóides como nós mesmos, do mesmo tronco humano.
É impossível duas espécies diferentes conviverem no mesmo mundo por tempo dilatado.
Uma colocaria fim à outra, como sabe.
Mas, neste caso, parece que os indivíduos que aqui virão morar são de uma índole muito perversa.
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Re: Os Nephilins: a origem/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 26, 2017 9:10 am

Ele simplesmente as abominava e não via sentido em tamanha intromissão no sistema de vida do planeta prisão.
Porém, Levitran não conhecia os detalhes dessas experiências como eu.
Talvez por isso tentasse aproximar-se de mim, quem sabe como fonte de informação.
Tive de deixar aquele pequeno abrigo improvisado com material do mundo onde estávamos e ir a um lugar onde tivéssemos condições de nos falar.
Na sala onde conversaríamos havia um sistema de comunicação precário, devido à influência magnética exercida pelo planeta e seu satélite natural.
Liguei ali um novo aparelho, sem que a meia-irmã pudesse nos escutar.
— Bem-aventurado Levitran!
Seja tua vida a mais longa dentre nós todos.
— Olá, Al Lian!
Salve o sol nascente, o pai de tua casta — não quis comentar a saudação de Levitran, mas é fato que fez o máximo para ser cortês comigo.
O agente de segurança vestia-se com um uniforme comum ao seu cargo e a um chefe de operações de uma base tão importante como aquela que girava em torno do planeta.
Era nosso último refúgio, a única maneira de retornarmos ao nosso mundo após os eventos catastróficos que marcaram a chegada das legiões de seres degredados.
— Sabe que se passaram milénios deste mundo desde que aqui chegamos — prosseguiu ele.
— Para nós foram somente alguns anos.
Afinal, nosso ano solar é quase uma eternidade para os padrões deste mundo.
— Mas ao longo desse tempo, que para nós de facto é pequeno, foram constatados diversos problemas.
A temperatura não nos é favorável.
Embora o ar seja da mesma composição que o do nosso planeta, existe poluição, oriunda de vulcões em actividade.
A fauna do planeta é o maior dos desafios, e os exilados terão de conviver por séculos e milénios com esse bioma até que a própria natureza o solucione, através da selecção natural ou da evolução.
— Pelo que sei, os eloins estão mexendo na estrutura atómica e molecular de várias espécies.
Talvez não demore tanto tempo até que o ambiente deste mundo esteja completamente renovado.
— Isso pode ser perigoso, meu amigo — falou Levitran.
Tanto os eloins quanto os refinas são castas perigosas, nós sabemos, e eles têm algum plano que não conhecemos por completo.
Pelo contrário, aposto que desejam algo muito maior do que possamos imaginar.
Olhando pela abertura da construção improvisada às margens do Eufrates, rio que cortava uma região de grandes riquezas naturais, o Levitran continuou, algo sisudo:
— Temo pelo futuro.
O governo central do nosso mundo me enviou um comunicado importante.
Brevemente chegarão a este mundo outros exilados, que o administrador do Sistema Solar decidiu localizar neste mesmo planeta.
São advindos de uma estrela binária.
Temo pelo que possa ocorrer entre as legiões que aqui se encontram, os annunakis e esses outros exilados.
— Não sabia disso.
Os documentos que possuo não fazem referência a essa outra espécie de seres.
— Não se preocupe; afinal, são humanóides como nós mesmos, do mesmo tronco humano.
É impossível duas espécies diferentes conviverem no mesmo mundo por tempo dilatado.
Uma colocaria fim à outra, como sabe.
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