Não olhe para trás / Elisa Masselli

Página 1 de 11 1, 2, 3 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:19 pm

Não olhe para trás
Elisa Masselli

Sumário

O reencontro
Relembrando
Encarando a realidade
Violência
Contando a história
O desabafo
Como tudo começou
O início na cidade
A primeira intervenção
Procurando ajuda
O início da empresa
O preço da liberdade
Lendo o caderno
Mudança de vida
Ansiedade sem fim
Nova Atitude
Escolhas da vida
Um sonho realizado
Encontro emocionante
A história de Lindinha
A história de Domingos
A decisão
Uma nova vida para todos
A hora da vingança
A surpresa
Fim da história
Surpresa
Encontro inesperado
A procura
Conhecendo a verdade
Atitude jamais pensada
Atitude esclarecedora
Segunda chance
Revelação
Recomeçando
Epílogo
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:19 pm

O reencontro
Helena estava sentada, tomando café.
Daquele lugar podia, através de uma enorme porta de vidro, ver seu imenso jardim com árvores frondosas e um gramado impecável.
Olhou alguns segundos, depois, levantou-se e caminhou até a porta, parou e viu, diante de si, uma linda piscina que ficava a alguns metros da porta.
Ela era comprida, larga e rodeada por pedras ornamentais e varias cadeiras para que as pessoas pudessem deitar e tomar sol.
Helena continuou olhando e pensando:
Este quintal, esta piscina e esta casa são maravilhosos.
Foi tudo com que sempre sonhei, consegui...
Ficou assim, distraída, pensando, quando ouviu:
— Dona Helena.
Helena se voltou:
— O que foi, Eunice?
— Uma moça está aqui e diz ser sua amiga.
— Uma moça? Quem?
— Eu, Helena!
Ela olhou para a moça que entrava e, sorrindo, correu para ela.
Abraçaram-se:
— Débora! Você voltou?
Por que não me avisou que estava chegando?
Eu teria ido ao aeroporto esperar por você!
— Queria que fosse uma surpresa e parece que consegui meu intuito.
— Claro que conseguiu.
Estou surpresa e feliz.
Vou brigar com sua mãe.
— Por quê, Helena?
— Conversei há alguns dias com ela e não me contou que você ia chegar!
— Perdoe a mamãe, Helena.
Cheguei ontem pela manhã e pedi a ela que não contasse.
— Está bem. Fiquei feliz com a surpresa.
Mas, vamos nos sentar aqui nesta cadeira perto da piscina.
Quer tomar alguma coisa?
Café, água ou refrigerante?
Helena olhou para o lado e viu Eunice que ainda estava ali.
Débora também olhou e, sorrindo, perguntou:
— Pode ser água e café?
Eunice também sorriu.
Encantada com Débora, respondeu:
— Claro que pode.
Vou buscar!
Saiu rapidamente.
Helena e Débora sentaram-se junto à piscina.
Helena, curiosa, falou:
— Conte-me, Débora, como foi sua vida em Roma?
Conheceu alguém?
Ficou lá por mais de nove anos, não foi?
— É verdade, fiquei lá por muito tempo.
Roma é uma cidade linda.
Andando pelas ruas, parece que estamos revivendo a história, mas, ao mesmo tempo, é uma cidade moderna com uma vida pulsante e, como em todas as grandes cidades, há muitos carros, comércio, pessoas e turistas, principalmente turistas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:19 pm

— Eu conheço Roma, claro que como turista.
Achei a cidade linda e interessante, mas quero saber da sua vida, como foi, Débora?
Débora sorriu:
— Você me conhece, Helena.
Como acha que foi minha vida lá?
Trabalho, trabalho e mais trabalho.
Não encontrei ninguém, sabe muito bem que, desde o que aconteceu com Paulo, não me interessei por nada além do trabalho.
— Foi muito triste o que aconteceu, Débora, mas você é jovem, linda e inteligente.
Precisa encontrar alguém, ninguém pode viver só.
— Talvez você tenha razão, mas, no momento, essa não é a minha preocupação.
Estou em férias e pretendo aproveitar, rever a cidade, familiares e amigos que aqui ficaram.
Agora, quero que você me conte sobre sua vida.
Como está?
Helena respirou fundo:
— Não tenho o que contar.
Minha vida é sem graça.
Não tem nada demais.
— Como não?
Tem uma filha, que pelas fotografias é linda e mora nesta casa maravilhosa!
Tem razão, minha filha é linda e esta casa é maravilhosa, mas, mesmo assim, não sou feliz.
— Por que não?
Pelo que minha mãe me contou, Olavo é um empresário muito bem sucedido.
Como ele está?
— Ele está muito bem e é um empresário respeitado, porém não estou feliz.
— O que falta a você, Helena?
— Não sei, Débora, mas muitas vezes tenho vontade de desaparecer e só não faço isso por causa da minha filha.
Vamos mudar de assunto, você acabou de chegar e não precisa ficar falando sobre mim, quero saber de você.
Débora tirou de dentro de uma sacola, que trazia consigo, uma caixa e, sorrindo, disse:
— Olhe o que trouxe para você?
Vi em uma vitrine em Roma e achei sua cara!
Feliz, Helena pegou a caixa e, com ela nas mãos, perguntou:
— O que tem aqui, Débora?
— Abra e olhe, mas, se não gostar, não há problema algum, pego de volta.
Curiosa, Helena abriu a caixa e tirou de dentro dela um vestido longo, azul, sua cor preferida.
Colocou diante do corpo e, rindo, disse:
— Ele é lindo, Débora!
Sempre me conheceu muito bem.
É realmente a minha cara! Amei!
— Claro que conheço você muito bem, Helena!
Afinal, somos amigas desde crianças!
Agora, vamos para o seu quarto.
Quero que vista para vermos como vai ficar em você!
Uma sombra passou pelo rosto de Helena e, constrangida, disse:
— Não, Débora.
Mais tarde eu experimento.
Vamos colocar a conversa em dia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:20 pm

— Mais tarde, por quê?
Já sei, você não gostou do vestido...
Gostei muito, Débora, ele é lindo!
— Acho que não gostou, pois, se tivesse gostado, ficaria ansiosa assim como eu para ver como fica no seu corpo.
Vamos lá, Helena, vista para que eu possa ver como ficou!
Conhecendo Débora como conhecia, Helena sabia que a amiga não desistiria.
Concordou:
Está bem, vamos para o meu quarto.
Entraram por um corredor que as levou até uma porta.
Helena abriu e Débora ficou encantada:
— Que lindo, Helena!
Este quarto é maravilhoso!
Foi você quem o decorou?
— Não, foi uma arquitecta contratada pelo Olavo.
— Olavo sempre teve bom gosto e sempre foi muito gentil com todas nós, suas amigas.
Lembra-se do dia do seu casamento, como ele estava feliz?
— É o dia do meu casamento foi maravilhoso.
— Este quarto é tão grande, pode-se fazer tudo aqui, até dançar— Débora disse, piscando um olho.
Helena sorriu, entendendo o que a amiga quis dizer.
Débora continuou:
— Agora, vamos deixar de conversa.
Tire o seu vestido e coloque o que eu trouxe.
— Tirar meu vestido na sua frente?
— O que tem demais?
Quantas vezes nos trocamos juntas?
— Tem razão, muitas vezes.
— Então, tire logo esse vestido!
Helena, de frente para Débora, tirou o vestido e ia colocar o outro, mas Débora a interrompeu:
— Espere! Helena, o que é isso nas suas costas?
— O quê?
— Não se faça de sonsa, sabe bem do que estou falando.
Embora tenha ficado de frente para mim, para que eu não visse, esqueceu-se do espelho.
Helena olhou para trás e se viu no espelho que estava na porta do armário.
Rapidamente, colocou o vestido que havia tirado.
Constrangida, disse:
— Tenho essas marcas desde que sofri um acidente há alguns anos.
— Que acidente, Helena?
Embora eu tenha estado muitos anos fora, sempre nos comunicamos e você nunca me contou a respeito de acidente algum!
Essas marcas são vergões, não podem ser resultado de acidente.
Parece que você anda apanhando com chicote!
Olavo tem batido em você?—
Está maluca, Débora!
Ele jamais faria isso!
— Não estou maluca, embora você tenha sido rápida em colocar o vestido, deu para eu ver muito bem.
Essas marcas são inconfundíveis.
São, sim, o resultado de chibatadas ou cintadas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:20 pm

— Está bem, você tem razão.
Algumas vezes ele fica muito nervoso e me bate, mas isso é normal em qualquer casamento.
Você não se lembra de como meu pai batia em minha mãe?
Mesmo assim, o casamento deles durou mais de vinte anos e só acabou porque ele morreu.
Débora ficou possessa:
— Não, Helena, não é normal!
Isso é uma agressão sem perdão!
Hoje, o mundo mudou!
As mulheres conseguiram se libertar.
Elas têm seu trabalho e ganham seu próprio dinheiro e, por isso, podem se manter, sem depender de homem algum!
Seu pai errou.
Sua mãe, coitada, não tinha profissão, e tinha você para cuidar, por isso, tinha pouco a fazer, mas você, não, Helena!
Vamos até a delegacia!
Você precisa denunciar essas agressões!
Helena, nervosa, gritou:
— Vá embora, Débora!
Jamais vou a polícia para denunciar meu marido!
— Estou tentando ajudar você, Helena!
— Não pedi sua ajuda!
Você não conhece minha vida!
Tenho uma filha que precisa do pai!
Diferente de você, sou uma mulher casada!
Tenho um marido!
Vá embora, Débora!
— Está bem, vou embora, mas vou ficar aqui no Brasil por dois meses, depois volto para Roma.
Se precisar de alguma coisa, se quiser se livrar dessa vida, sabe onde me encontrar.
Débora, embora não entendesse aquela atitude, sem alternativa, saiu do quarto e caminhou em direcção à porta de saída.
Encontrou Eunice, que disse baixinho:
— Ela precisa da sua ajuda...
Tristemente, Débora sorriu e saiu pela porta que Eunice abriu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:21 pm

Relembrando
Débora, nervosa, entrou em casa.
Sua mãe, que estava na cozinha, ao vê-la, percebeu que algo estava errado.
Preocupada, perguntou:
— O que aconteceu, Débora?
Está nervosa?
— Estou, mamãe!
Muito nervosa!
— Por quê? Saiu daqui para visitar Helena.
Ela não estava em casa?
Bem que eu disse que seria melhor telefonar antes.
— Ela estava em casa, mamãe, me recebeu muito bem.
— Não estou entendendo a razão de todo esse nervosismo.
— A senhora nem imagina o que descobri.
— O quê?
— Vou contar, mas antes me dê um café.
— Está bem. Enquanto termino o almoço, sente-se.
Pensei que fosse almoçar com Helena.
Ela não convidou você?
— Não, mamãe, praticamente me expulsou de sua casa.
— O quê? Por quê?
Débora contou tudo o que havia acontecido e terminou, dizendo:
— Quando disse a ela para irmos até a delegacia, ela insinuou que, por eu não ter me casado, queria acabar com o casamento dela.
O que mais me irritou foi ela dizer que sua mãe apanhou a vida inteira, mas ficou casada por mais de vinte anos.
Como pode ser isso, mamãe?
Quantas vezes ela veio, desesperada, para nossa casa, enquanto sua mãe apanhava?
Como ela pode achar que é normal apanhar do marido?
Clélia começou a rir.
— Do que está rindo, mamãe?
— É tão trágico que chega a ser engraçado.
— Não entendo o que está querendo dizer.
— Apesar de estarmos no ano dois mil, depois de tantas conquistas, algumas mulheres ainda precisam de um homem ao seu lado para serem protegidas.
Ainda precisam ter um marido para mostrar à sociedade.
É trágico, Débora.
Penso em quanto as mulheres lutaram para serem livres, para poderem tomar conta do próprio nariz...
— A senhora sempre disse isso, sempre me incentivou a estudar para poder trabalhar e ter o meu próprio dinheiro.
Agradeço muito por isso.
— Fiz isso por causa da minha própria história e por ver a vida que a Ondina, mãe de Helena, sofria ao lado daquele marido.
Ondina não tinha profissão.
Além disso, havia os filhos.
Ela só podia mesmo se sujeitar àquela situação.
— A senhora não se sujeitou...
— Não. Quando descobri que seu pai, além de não gostar de trabalhar, também me traía, peguei você e seu irmão e fomos morar em um quarto.
Trabalhei como doméstica, lavei roupa para fora, catei papelão e, apesar de tudo, consegui criar vocês longe da violência, das brigas e do sofrimento.
Estou feliz por isso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:21 pm

— Também estou e acredito que o Rafa também esteja feliz e orgulhoso.
O seu exemplo foi definitivo em nossas vidas.
Obrigada, mamãe.
Clélia ficou vermelha e, abraçando a filha, disse:
— Sou eu quem deve agradecer por vocês serem quem são.
Tiveram sempre vontade de estudar e trabalharam muito para isso.
Vocês são filhos maravilhosos.
— Foi o exemplo, mamãe.
— Está bem. Agora, vamos almoçar.
Depois do almoço tenho um compromisso.
— Compromisso?
Que compromisso?
— Faço parte de um grupo de mulheres que ensina uma profissão para mulheres.
Eu, como não tenho muito talento para trabalhos manuais, apenas converso.
Converso não, ouço suas mágoas e queixas e procuro ajudar.
Sei que não é muito, mas é o que sei fazer, ouvir.
— Sei que a senhora sempre tem uma palavra de consolo e outra de incentivo.
Clélia riu e se voltou para o fogão.
Débora ficou pensando por alguns instantes, depois, disse:
— Já sei o que vou fazer, mamãe.
O quê?
— Vou conversar com Olavo.
Vou dizer que, se ele continuar batendo em Helena, vou dar parte na delegacia.
Clélia voltou-se e, nervosa, disse:
— Você não vai fazer isso, Débora!
— Por que não, mamãe!
Ela precisa de ajuda!
— Ela, se quiser, vai pedir ajuda.
Enquanto isso não acontecer, ninguém pode fazer coisa alguma.
— Ela não tem coragem.
Percebi isso quando ela viu que eu descobri seu segredo.
Ela tem medo dele.
— Ilusão sua, minha filha.
Ela sabe muito bem o que fazer, só que não quer.
— Como pode não querer?
Como pode se sujeitar a uma humilhação como essa?
— Você mesma disse que para ela é normal.
Portanto nada se pode fazer.
Se você for falar com Olavo, ele pode, com razão, mandar você cuidar da sua vida.
Depois, pode se vingar em Helena e dar outra surra nela.
— Como pode dizer que a reacção dele pode ser essa?
Ele pode também ficar com medo da minha denúncia e parar de bater nela.
— Não, Débora.
Tenho experiência própria.
Como já disse, acompanhei a Ondina, mãe de Helena, ser surrada muitas vezes.
Assim como você, tentei ajudar.
No final, ela continuou com aquele marido e, por um longo tempo, ficou sem falar comigo.
Eu era criança, mas lembro, mamãe.
Quantas vezes, Helena, assim que os pais começavam a brigar, assustada e chorando, corria lá para casa e, abraçadas, ficávamos esperando a brigar terminar.
Por isso é que não me conformo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:21 pm

— Não se conforma com o quê, Débora?
— Como ela pode aceitar apanhar dele e permitir que a filha passe por tudo o que ela já passou?
— Para ela, já que sua mãe apanhou, é normal que ela apanhe também.
Não foi o que ela disse?
Fique calma, Débora.
Cada um tem sua vida e precisa fazer suas escolhas.
Ela está fazendo as suas.
— Está dizendo que não posso fazer coisa alguma para ajudar Helena?
— Infelizmente, essa é a realidade.
Você mesma viu a casa e a maneira como ela vive.
Acredita que ela vai deixar tudo aquilo para ir trabalhar como doméstica, lavar roupa ou catar papel como eu fiz?
Não. Ela não vai fazer isso, Débora.
Por tudo o que o marido lhe dá, ela acha que ele tem direito de cobrar e ela, de pagar.
— Não pode ser, mamãe.
Isso é um absurdo!
— Pode ser, Débora.
Também acho um absurdo, mas fazer o quê?
Você sempre foi sua amiga e vai continuar sendo.
Se ela quiser ajuda, vai pedir e você estará pronta para ajudar.
Até que esse dia chegue, continue cuidando da sua vida e não se preocupe com Helena.
Você lutou muito para chegar aonde chegou.
Tem sua profissão, um bom salário e vive por sua própria conta.
Isso é uma vitória, minha filha.
Assim como eu, sabe que sua vida não foi fácil.
Por isso, merece ser feliz.
— Tem razão, mamãe.
Nunca me preocupei com a vida de ninguém.
Sempre achei que todos devem viver como querem, mas eu gosto da Helena e não acho justo o que Olavo está fazendo com ela...
— Não há nada que possa fazer, Débora.
Agora venha, limpe esta salada.
Seu irmão vem almoçar connosco.
— O Rafa vem? Isso é óptimo, mamãe!
Estou morrendo de saudade!
— Ele telefonou dizendo que vinha.
Eu disse que você não estaria aqui e que, provavelmente, não viria para almoçar.
Mesmo assim, ele quis vir.
Disse que era o único dia que poderia me ver.
— Ver a senhora...
Uma sombra passou pelos olhos de Clélia.
Débora continuou:
— Será que ele nunca vai me perdoar, mamãe?
A senhora disse que eu estaria com Helena?
— Claro que vai perdoar.
Você não teve culpa pelo que aconteceu com ele!
— Tive, mamãe.
Tive e a senhora sabe disso.
— Claro que não teve, Débora!
Você foi apenas um instrumento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:21 pm

Acredito que as pessoas que conhecemos, com quem convivemos e as coisas mais importantes da nossa vida já estejam marcado.
Acredito que algumas coisas que nos acontecem dependem apenas de nossas escolhas.
Um dia, seu irmão vai entender isso.
— Acredita que ele ainda pensa nela?
— Acho que tudo o que houve entre eles terminou.
O tempo se encarrega de colocar as coisas nos seus devidos lugares.
— Ele gostava muito dela, mamãe...
— Sim, mas o tempo cura tudo.
— Agora, vamos terminar o almoço.
Logo mais ele estará aqui e, queira Deus que a abrace como fazia antigamente.
Débora respirou fundo e disse:
— Tomara, mamãe... tomara...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:22 pm

Encarando a realidade
Débora e a mãe terminaram de preparar o almoço.
Estavam terminando de colocar a mesa, quando ouviram:
— Mamãe! Cheguei!
Clélia caminhou em direcção à porta da cozinha que dava para a sala e entrada da casa.
Assim que viu o filho, sorriu e disse:
— Estamos aqui na cozinha, filho.
— Estamos?— ele perguntou, admirado.
Débora apareceu por detrás da mãe e respondeu:
— Estamos, sim, Rafa.
Como você está?
Ele olhou para ela e respondeu, secamente:
— Muito bem.
Em seguida, ele olhou para a mãe e, demonstrando decepção, voltou a perguntar:
— A senhora não disse que estaria sozinha?
— Ela não sabia que eu ia estar aqui.
Pensou que eu fosse almoçar fora, mas o meu almoço não deu certo e, sem saber que você viria, voltei para casa.
Sinto muito, mas acho que você não vai deixar de comer a comida que mamãe fez, pois, além de ter sido preparada com muito carinho, tem tudo de que você gosta.
Ele olhou para a mãe, que o olhava com apreensão.
Ainda com o semblante sisudo, disse:
— Vou ficar, mamãe.
Nada neste mundo faria com que eu não comesse a sua comida.
Clélia abriu os braços e disse:
— Que bom, meu filho.
Venha para a cozinha.
A mesa está quase pronta.
Ele caminhou alguns passos, abraçou e beijou a mãe.
Depois, sem olhar para Débora, que permanecia parada, entrou na cozinha e sentou-se em uma das cadeiras que havia em volta da mesa.
Débora também se sentou.
Clélia colocou a comida que havia preparado sobre a mesa, sentou-se e, em silêncio, começaram a comer.
O ambiente estava pesado. Clélia falou:
— Não podem continuar assim.
São irmãos, precisam ser amigos.
Débora, ao ouvir a mãe, olhou para o irmão que estava e continuou com a cabeça abaixada.
Nervosa, perguntou:
— Você nunca vai me perdoar, Rafa?
Depois de quase nove anos, ainda guarda tanta raiva?
Ele levantou a cabeça e, demonstrando muita raiva, respondeu:
— Perdoar? Como posso perdoar?
Você destruiu a minha vida!
Quanto à raiva, não se preocupe, não sinto raiva, pois você não existe para mim.
— Não fale assim, Rafael!
Ela é sua irmã e não teve culpa pelo que aconteceu entre você e Helena!
— Como não teve culpa, mamãe!
Mesmo sabendo que eu estava com o meu casamento marcado, que estava tudo pronto, ela o apresentou a Helena!
Com lágrimas nos olhos, Débora disse:
— Ele era meu amigo da faculdade, jamais poderia imaginar que Helena fosse se apaixonar por ele e, muito menos, que fosse abandonar você...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:22 pm

— Como não imaginou, Débora?
Olavo, além de ser um rapaz bem apresentável, era filho de um milionário e poderia dar a ela tudo o que eu nunca conseguiria.
Você destruiu a minha vida e nunca vou perdoar o que você fez!
Clélia, ao ouvir aquilo, bateu, com força, a mão sobre a mesa e gritou:
— Pare com isso, Rafael!
Deixe de ser criança!
— Não sou criança!— disse Rafael, levantando-se.
— Não é, mas está agindo como se fosse!
Deixe de ilusão e de procurar um culpado onde não existe!
Sua irmã não teve culpa de Helena ser uma interesseira e trocar você pelo outro só porque ele tinha mais dinheiro!
Débora não teve culpa!
Coloque isso na sua cabeça de uma vez!—
Helena gostava de mim, mamãe.
Se essa aí não tivesse nos apresentado Olavo, ela jamais o conheceria e ele não a teria iludido e, hoje, estaríamos juntos!
Ainda com lágrimas nos olhos, Débora disse:
— Sei que é difícil para você, Rafael, mas, por favor, me perdoe.
Podemos voltar a ser como éramos antes de tudo isso acontecer.
— Nunca! Nunca e nunca!
Você morreu para mim!
Clélia respirou fundo e, procurando demonstrar uma calma que não estava sentindo, disse:
— Vamos procurar nos acalmar e conversar como pessoas civilizadas que sempre fomos.
Depois de dizer isso, sentou-se e olhando para Rafael falou com a voz firme:
— Sente-se, Rafael!
Ele, como um autómato, sentou-se e abaixou a cabeça novamente.
Clélia, embora furiosa com tudo aquilo, falou com a voz calma:
— Rafael, desde que tudo aconteceu, respeitei seu sofrimento, sua dor e sua desilusão.
Quando tentei falar com você a respeito de Débora e da culpa que ela não teve, você não quis conversar.
Como ela havia ido para Roma, achei melhor não insistir.
Outra vez, respeitei sua vontade.
Porém, agora, chega.
Ela está aqui e pedindo perdão por algo que não teve culpa e, mesmo assim, você se nega a dar esse perdão.
Ele, levantando-se, disse:
— Não quero falar sobre isso!
Vou embora!
— Não vai a lugar algum! Sente-se!
Chegou a hora e, agora, você, queira ou não, precisa e vai ouvir algumas coisas!
Sente-se!
Ele, vendo a mãe de uma maneira como nunca havia visto antes, voltou a se sentar.
— Em primeiro lugar:
essa aí, além de ser sua irmã, é minha filha e tem um nome lindo.
Portanto, espero que a respeite!
Ficou claro?
Ele voltou a abaixar a cabeça.
Clélia sorriu e continuou:
Quando tudo aconteceu, Débora quis ir embora para Roma, eu não a impedi.
Você quis se mudar, também não o impedi, por não querer interferir na vida de vocês, pois sempre acreditei que cada um tem um destino que deve seguir, mas agora, infelizmente, vou ter que dizer algumas coisas que você precisa ouvir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:22 pm

Quando seu casamento se desfez, achei que o tempo se encarregaria de colocar as coisas em seus lugares.
Achei que você, com o tempo, encontraria outra moça que o amasse de verdade e a quem você amasse também, se casaria e seria feliz, mas isso não aconteceu.
Você se mudou, começou a dar aula em três faculdades.
Nunca mais namorou.
Sua vida parou naquele dia.
Isso não está certo, meu filho.
O pior é que até hoje culpa sua irmã.
Está todo esse tempo tentando se enganar que a culpa foi dela, mas não foi.
Não foi! Entendeu?!
Helena, você e Débora foram criados praticamente juntos e como se fossem irmãos.
Helena sempre gostou de você como irmão, Rafa.
Nunca da maneira que você pensou.
— Como não, mamãe?
Íamos nos casar!
— Ela se casaria com qualquer um que a tirasse daquela casa violenta.
Aceitou se casar com você por saber que era um bom moço e que faria de tudo para que ela fosse feliz.
Assim que, por uma ironia do destino, Débora lhe apresentou Olavo, ela se apaixonou por ele e desfez o casamento.
— Ela foi iludida!
— Não, Rafa.
Ela é inteligente, sabia que ao seu lado teria uma vida simples, enquanto que ao lado dele teria luxo e riqueza.
Foi ela quem fez a escolha.
Ninguém teve culpa.
Sua vida parou naquele dia.
Está na hora de se esquecer do passado, de recomeçar e de andar sem olhar para trás.
Está na hora de ser feliz, Rafa.
Acorde para a vida!
Ele ficou olhando para a mãe como se estivesse pensando.
Depois, começou a rir.
Clélia olhou para Débora e, surpresa, perguntou:
— Por que está rindo, meu filho?
— A senhora voltou a me chamar de Rafa, significa que não está mais com raiva de mim...
Clélia também quis rir, mas se manteve firme e continuou:
— Nunca tive raiva de você, Rafa.
Ao contrário, estou triste por ver você desperdiçar sua vida por uma ilusão.
Estou triste por ver vocês, dois irmãos, de mal, sem se falarem.
Isso precisa acabar.
Rafael olhou para Débora, que continuava com lágrimas correndo pelo rosto.
Levantou-se e a abraçou com muito carinho.
— Desculpe-me, Débora.
Durante todo esse tempo, fiz questão de não ver a realidade.
Débora, sem conseguir dizer uma palavra, abraçou-se a ele e ficaram assim por um bom tempo.
Clélia, ao ver os filhos daquela maneira, pensou:
Obrigada, meu Deus.
Obrigada por este momento de felicidade.
Obrigada pela paz ter voltado à minha casa.
Após se abraçarem, voltaram aos seus lugares.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:23 pm

Rafael voltou a abaixar a cabeça.
Clélia, nervosa, perguntou:
— O que foi agora, Rafael?
Ele levantou a cabeça:
— Você tem razão, Débora.
Tenho sido um cretino todo esse tempo.
Tentei me enganar, mas lá no fundo eu sempre soube que ela havia se casado por interesse, pelo dinheiro e pela boa vida que ele podia lhe proporcionar.
Bem, conseguiu.
Soube que tem até motorista para levá-la aonde quiser.
— Aí é que você se engana, meu irmão.
— Débora, não!
— Por que não, mamãe?
Ele precisa saber!
— Saber o quê?
— Agora não é hora, minha filha.
— Claro que é, mamãe.
É a melhor hora.
— Pelo amor de Deus, conte logo, Débora!
— Hoje estive com Helena e vou contar o que aconteceu.
— Esteve com ela?
Foi àquela mansão onde ela mora?
— Fui e você não imagina o que descobri.
— Descobriu o quê, Débora?
Vai me deixar nessa agonia até quando?
— Vou contar.
Ela contou tudo o que havia acontecido e terminou, dizendo:
— Ela não quis admitir, até me colocou para fora da sua casa, mas senti que está sofrendo muito e que precisa da nossa ajuda.
Ele, nervoso e rindo muito, se levantou:
— Nossa ajuda?
Você está delirando, Débora?
Quero que ela morra coberta com todo o dinheiro que ele lhe deu.
Por mais que seja surrada, nunca será o suficiente!
— Acalme-se, Rafael.
Você não está bem, não é assim...
— Estou muito bem, mamãe, e feliz.
Enfim, a justiça foi feita!
A senhora, por mais que tente, não vai conseguir imaginar o que tem sido a minha vida nesse tempo todo!
A vingança é maravilhosa!
— Não foi isso que ensinei a vocês.
A vingança causa mais mal a quem a deseja do que a quem é enviada.
Esqueça-se de tudo. Retome sua vida.
É jovem, bonito e tem uma vida toda pela frente.
Está na hora de, ao invés de se deixar prender pela vingança, pelo ódio, caminhar sem olhar para trás, em direcção a um futuro maravilhoso.
— Sei que esse seria o melhor caminho, mas, sinto muito, mamãe, não consigo.
— Mamãe tem razão, Rafael, mas não podemos nos esquecer de nossa infância, o quanto éramos amigos, como a mamãe disse, quase irmãos.
— Eu não quero lembrar, mas, se você quiser ajudá-la, faça isso.
Contudo, não me peça para acompanhar você.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:23 pm

Agora, preciso ir embora.
Tenho uma aula para dar.
Meus alunos esperam por mim.
Os três se levantaram.
Elas o acompanharam até a sala.
Ele beijou a mãe e a irmã e foi embora.
Quando ele fechou a porta de entrada, Débora perguntou:
O que achou da reacção dele, mamãe?
— Não sei. Ele me pareceu outra pessoa.
Talvez tenha sido a emoção de descobrir o inimaginável, não sei.
Só o tempo nos dirá qual vai ser a sua verdadeira reacção.
Agora, vamos arrumar a cozinha.
Temos muito que conversar, mocinha.
— Mocinha?
Já vi que vai sobrar para mim!
Riram e, abraçadas, voltaram para a cozinha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 29, 2017 8:23 pm

Violência
Assim que Débora saiu, Helena ficou algum tempo parada, olhando para o espelho.
Baixou o vestido e olhou para suas costas marcadas.
Pensou:
Ele só bate nas costas para que ninguém possa ver.
Até quando isso vai continuar?
Será que ele nunca vai me perdoar?
Pelo espelho, viu o armário que ficava à sua frente.
Foi até ele, abriu a porta e viu diante de si uma pilha com vários álbuns de fotografia.
Pegou aquele que parecia ser o mais antigo.
Levou-o até a cama, deitou-se de bruços e abriu na primeira página.
Estava assim, quando Eunice, carregando uma bandeja, bateu de leve à porta e disse:
— Posso entrar, dona Helena?
— Pode, Eunice, claro que pode.
Eunice entrou, colocou a bandeja sobre o criado-mudo:
— Sua amiga saiu muito nervosa, calculei que a senhora também deveria estar.
Por isso, preparei este chá de melissa.
Espero que a senhora não se incomode.
— Obrigada, Eunice.
Eu estava mesmo precisando.
— Que fotografias são essas?
Helena olhou, com carinho, para as fotografias e disse:
— Todos os anos, no dia do meu aniversário, minha mãe fazia uma festa e todas as crianças do bairro eram convidadas.
Lembro-me deste dia como se fosse hoje.
Eu completei sete anos.
Colocou o dedo sobre uma fotografia:
— Eu, Débora e seu irmão Rafa estamos aqui nesta fotografia.
Éramos muito unidos.
Onde um estava, o outro estava também.
Ela é dois anos mais velha do que eu.
Rafa tem minha idade.
Eu estava animada com a festa.
Os convidados começaram a chegar.
Os primeiros, como não poderiam deixar de ser, foram Débora e Rafa.
Débora, sorrindo, me entregou uma caixa:
Helena, minha mãe comprou este presente.
Abra, veja se gosta.
— Rasguei o papel que envolvia a caixa e fiquei parada.
Dentro dela havia uma boneca de plástico, sem roupa.
Mesmo assim, eu a achei linda.
— Gostou, Helena?
Fui eu que escolhi.
Eu queria outra que era maior, que tinha cabelo e roupas, mas minha mãe disse que não tinha dinheiro para comprar.
Então, troquei por esta.
Minha mãe disse que tem retalhos e que vai fazer um vestido pra ela!
— É linda, Débora!
Precisamos baptizar.
Vamos fazer uma festa só nossa e ela vai se chamar Lili!
Sei que sua mãe vai fazer um vestido lindo para o baptizado!


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:18 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:15 pm

— A festa continuou, Eunice, e foi muito animada.
Meus pais pareciam felizes.
Fiquei sentada no chão da sala, olhando para todos os presentes que havia ganhado.
Gostei de todos, mas o de que mais gostei foi da Lili.
Enquanto isso, meus pais conversavam na cozinha com alguns amigos.
Depois de olhar todos os presentes, peguei Lili e fiquei conversando com ela.
Eu não tinha irmãos e, olhando nos olhinhos dela, disse:
— Você vai ser a minha filhinha e Débora, sua madrinha.
Sendo assim, o Rafa vai ser o seu padrinho.
Espere um pouco.
Como, quando eu crescer, vou me casar com ele, ele vai ser o seu pai.
Eunice sorriu:
— A senhora gostava dele?
Por que não se casaram?
— Essa é outra história.
Bem, vamos voltar para o dia da minha festa.
Os amigos dos meus pais foram embora e eles continuaram na cozinha.
De repente, não sei por que começaram a brigar.
Fui para a cozinha e vi meu pai batendo com muita força no rosto da minha mãe.
Bateu com tanta força que o sangue começou a escorrer.
Corri para junto dela, mas ele me empurrou, gritando:
— Saia daqui, Helena!
Eu e sua mãe estamos conversando!
— Olhei para minha mãe que, chorando, fez com a cabeça que sim.
Meu pai voltou a gritar:
— O que está esperando, menina?
Vá embora!
— Eu estava assustada e com medo, Eunice.
Nunca tinha visto meus pais brigarem, muito menos daquela maneira.
Peguei Lili e fui correndo para a casa de Débora.
Quando entrei, sua mãe percebeu que eu estava assustada:
— O que aconteceu, Helena?
Por que está assim?
— Eu estava tão nervosa que não conseguia falar, Eunice, apenas apontei em direcção à minha casa e, entre soluços, falei:
— Meu pai está batendo na minha mãe.
— O que está falando, Helena?
— Não consegui responder, Eunice.
Corri para junto dela e me abracei as suas pernas.
Ela se sentou em uma cadeira, pegou-me no colo e, abraçando-me, disse:
— Não fique assim, Helena.
Isso é coisa de adulto.
Logo vai passar.
Eles devem estar só conversando um pouco mais alto.
— Eles estavam gritando, dona Clélia... ele bateu na cara dela e saiu muito sangue...
— Tentando me animar, olhou para a boneca que estava em minha mão e disse:
— Parece que gostou da boneca que Débora escolheu para você.
— Gostei muito!
Ela é linda e se chama Lili.
— Já deu um nome para ela?
Que óptimo.
— Eu quero fazer uma festa no dia do seu baptizado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:15 pm

— Vai fazer e eu vou costurar um vestido lindo para ela. Está bem?
— Eu conversava com ela entre soluços e lágrimas correndo pelo meu rosto.
Ela beijou a minha testa:
— Vamos fazer o seguinte:
você vai parar de chorar, vai ficar aqui em casa brincando com a Débora e como Rafa e eu vou até sua casa para ver o que está acontecendo.
Está bem assim?
— Eu, ainda chorando muito e sem conseguir falar, apenas balancei a cabeça.
Ela saiu e voltou algum tempo depois.
Sorrindo, disse:
— Agora, está tudo bem.
Pode voltar para casa.
Seus pais não vão brigar mais.
— Eu não queria mais voltar para minha casa, mas ela insistiu:
Precisa voltar.
Não se preocupe, nunca mais vai ver o que viu hoje.
Essas brigas são coisas de adultos.
Vai ficar tudo bem.
Nunca mais seus pais brigaram, dona Helena?
— Aquela foi a primeira de muitas outras vezes.
Brigavam quase todos os dias e a surras que minha mãe levava foram ficando cada vez mais violentas.
A cada briga que acontecia, eu pegava Lili e corria para a casa de Débora.
Lá eu me sentia muito bem e queria ficar ali para sempre.
A mãe de Débora foi sempre muito boa para comigo.
Parou de falar e ficou com os olhos parados no horizonte, depois, disse:
— Não consigo me lembrar do que aconteceu com Lili.
Fui crescendo e me esqueci dela.
Gostaria tanto que ela estivesse aqui comigo...
— A senhora, agora, tem uma boneca de verdade.
A Narinha...
— É verdade. Ela é a minha boneca...
— Posso saber o que está acontecendo aqui?
Ao ouvir aquela voz, Eunice, que estava sentada ao lado de Helena, levantou-se rapidamente.
O coração de Helena começou a disparar e ela respondeu, gaguejando:
— Nada, Olavo.
Eu não estava bem e Eunice me trouxe uma xícara de chá.
Olavo olhou para Eunice, que entendeu e saiu dali rapidamente.
Ele se voltou para Helena que, paralisada de medo, continuava sentada sobre a cama:
— Posso saber sobre o que estavam falando?
— Sobre nada.
Ela só veio me trazer o chá...
— Que fotografias são essas?
Ela segurou o álbum na mão e, baixinho, respondeu:
— São de quando eu era criança, do dia do meu aniversário de sete anos...
— Está se lembrando do seu passado?
Posso saber por quê?
— Não sei, me deu vontade...
— Desde quando você tem vontade?
Ao ouvir o tom da voz dele, ela começou a tremer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:15 pm

Ele se aproximou:
— Está tremendo, Helena.
Por quê?
Ela, sem olhar para ele, respondeu:
Por nada...
Para desespero dela, ele viu sobre a cama o vestido que Débora lhe dera.
— Onde você arrumou esse vestido?
Não fui eu quem escolheu nem quem comprou!
Ainda sem olhar para ele, falou:
— Eu ganhei de presente.
— Presente? De quem?
— A Débora esteve aqui e me trouxe de presente.
Ela comprou em Roma.
— A Débora esteve aqui?
O que ela veio fazer?
— Já disse, ela chegou de viagem e veio me visitar.
Somos amigas desde criança.
Ele ficou furioso:
— Como sempre você está mentindo!
Ela veio trazer um recado dele, não foi?
Levante os olhos e responda!
Ela, com muito medo, levantou os olhos:
— Não, nem falamos a respeito do Rafa... ela só queria me ver, saber como eu estava...
— Você deve ter rezado um rosário de dor.
Contou a ela como somos felizes?
Pegando em seus ombros e chacoalhando com força, gritou:
— Contou tudo a ela, não contou?
— Não... não contei...
Ele, violentamente, virou-a de costas, tirou a cinta que usava e começou a bater com toda força que possuía.
— Mentirosa! Você é uma mentirosa!
Ela, acostumada com aquilo, sabia o que ia acontecer, por isso, nem tentou se defender.
Apenas chorou baixinho.
Olavo procurava fazer com que a cinta batesse sobre os lugares em que ele havia batido alguns dias atrás, o que fez com que o sangue jorrasse.
Depois de bater muito, ele parou e, enquanto colocava a cinta novamente, disse:
— Agora, vou pegar esse vestido, mandar minha secretária colocar no correio e mandar de volta!
Com os olhos baixos, ela disse, chorando:
— Não pode fazer isso, foi um presente...
Com muita raiva e usando as mãos, levantou a cabeça de Helena e gritou:
— Não precisa que ninguém dê coisa alguma a você!
Eu cuido de você e de tudo o que precisa!
Está sentindo falta de alguma coisa?
Com muita dor e sentindo que o sangue corria por suas costas, fez com a cabeça que não.
— Ainda bem, mas, se precisar, basta me avisar!
Não quero que falte coisa alguma a você!
Ela acenou com a cabeça, concordando.
Ele, com o vestido na mão, disse:
— Não perguntou o que estou fazendo a esta hora aqui em casa.
Não preciso dar satisfação alguma a você, mesmo assim, vou dizer.
Vim pegar algumas roupas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:16 pm

Estou indo viajar no fim de semana.
Agora, ela conseguiu levantar a cabeça, olhar para ele e perguntar:
— Para onde está indo?
Está indo viajar com ela?
— Não interessa a você com quem vou viajar ou para onde!
Tem esta casa linda, pode usar a piscina de que tanto gosta!
Ele pegou o vestido e, furioso, saiu do quarto.
Eunice esperou que ele saísse e, após constatar que ele havia entrado no carro e fora embora, pegou uma pequena bacia e foi para o quarto de Helena, que permanecia deitada e chorando.
Ela se aproximou e, ajudando Helena a se levantar, começou a tirar seu vestido, que estava todo sujo de sangue.
Depois, foi até o banheiro, colocou água na bacia, pegou uma toalha e voltou para o quarto.
Helena, sem o vestido, havia se deitado novamente de bruços.
Assim, suas costas estavam viradas para o alto.
Eunice começou a limpar o sangue.
De seus olhos, lágrimas corriam.
Helena, envergonhada, mesmo sem ver o rosto de Eunice, sabia o que ela estava pensando.
Depois de limpar bem os ferimentos e passar um anti-séptico, Eunice fez com que Helena se sentasse novamente.
Sentou-se à sua frente, olhou bem dentro de seus olhos e disse:
— Estive pensando uma coisa, dona Helena...
— O quê, Eunice?
— Por que não pega sua boneca e vai embora?
— Embora para onde, Eunice?
— Para a casa da sua amiga como fazia quando era criança.
Sei que tanto ela como a mãe a receberão com carinho, como sempre fizeram...
Helena arregalou os olhos e antes que conseguisse dizer qualquer coisa, Eunice se levantou e saiu do quarto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:16 pm

Contando a história
Sorrindo, Rafael saiu da casa de Clélia.
Estava feliz.
Na rua, entrou no carro, ligou o motor e saiu.
Enquanto dirigia, pensava:
Como foi boa a notícia que Débora me deu!
Helena merece isso e muito mais!
Parou o carro em um semáforo e continuou pensando:
Helena merece o que está acontecendo!
Ela, apesar de saber o quanto eu a amava, me abandonou, me trocou por ele só porque tinha dinheiro!
Ela não presta, não presta!
Mexeu no retrovisor e olhou para seu rosto que se modificou imediatamente:
A quem estou tentando enganar?
Eu ainda a amo como sempre amei...
O semáforo abriu e ele continuou dirigindo.
Em poucos minutos, chegou à faculdade onde dava aula.
Parou o carro e saiu do carro.
Após fechar o carro, começou a andar.
Enquanto andava, pensava:
Sei que Helena me fez muito mal, mas mulher alguma deve ser espancada por um homem!
Ainda mais uma mulher frágil como ela...
Estava distraído e não percebeu que uma moça também descia de seu carro.
Ia passando, quando ela perguntou:
— Está preocupado, professor?
Ele olhou, sorriu e respondeu:
— Desculpe, não vi a senhorita, professora.
Estou perdido em pensamentos.
— Não se preocupe, eu percebi e, pelo visto, aposto que os pensamentos não são bons.
Ele voltou a sorrir:
— Ganhou a aposta.
Ela olhou o relógio, sorriu e disse:
Ainda é cedo para começar a nossa aula, podemos ir até a cantina e, enquanto tomamos café, podemos conversar.
O que acha?
Ele olhou para o relógio que estava em seu braço e também sorriu:
— Temos tempo, sim, professora. Vamos?
Foram até a cantina.
Pediram café e se sentaram.
Após alguns segundos de silêncio, ela perguntou:
— Então, professor, quer conversar a respeito de seus pensamentos ruins?
Ele sorriu:
— Acredito, professora, que os meus pensamentos não alegrarão este nosso momento.
— Acho que o melhor que temos a fazer é deixar de nos chamarmos como professor e professora.
Nós nos conhecemos há muito tempo, sei que o seu nome é Rafael e você sabe que o meu é Angélica.
— É a força do hábito, mas tem razão.
Vamos nos chamar pelos nossos nomes.
— Assim é melhor.
Então, Rafael, não quer dividir seus pensamentos.
Ouvi dizer, não sei onde, que conversar sobre um problema é muito bom.
Ele ficou pensando.


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:18 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:16 pm

Depois disse:
— Hoje recebi uma notícia que deveria me deixar feliz.
A princípio até fiquei, mas agora, não sei se estou...
— Não estou entendendo.
Que notícia foi essa?
— Para entender eu preciso contar uma história e não sei se vai interessar a você.
— Também não sei, mas já que temos tempo, pode tentar.
Prometo que vou ouvir com atenção.
— Está bem, mas, se ficar entediada, basta falar que eu paro.
Ela voltou a sorrir:
— Prometo.
— Quando eu era criança, minha mãe resolveu abandonar meu pai.
Ela o interrompeu:
— Por quê?
— Ele não gostava de trabalhar e tinha muitas mulheres.
Ao menos é isso que minha mãe diz.
Não me lembro muito bem dele, eu tinha apenas seis anos e minha irmã, oito.
Não sei muito bem o que aconteceu entre eles, só sei que minha mãe levou a mim e a minha irmã para morarmos em um pequeno quarto que havia nos fundos do quintal de uma casa.
O quarto era pequeno, mas, mesmo assim, minha mãe disse:
— Sei que vocês vão estranhar a mudança, mas precisam saber que aqui, embora pequeno, teremos paz.
— Eu não entendi o que ela quis dizer, mas de uma coisa tenho certeza, ela tinha razão.
No começo, eu e minha irmã ficamos deslocados, pois não conhecíamos ninguém, mas, depois de algum tempo, conhecemos Helena, uma menina da minha idade que morava em uma casa muito grande que ficava ao lado da nossa.
Assim que nos conhecemos, passamos a fazer parte um da vida do outro.
Íamos para a escola, fazíamos lição juntos e brincávamos.
Como brincávamos...
— Você fala dela com tanto carinho, Rafael.
— É verdade, Angélica, mas estou falando daquela menina que fez parte da minha vida, em um tempo em que fui muito feliz.
Crescemos assim.
As meninas escolhiam a maioria das brincadeiras e sempre que brincávamos de casinha, eu era o marido e Helena, a mulher.
Ela dizia:
— Quando a gente crescer, a gente vai casar, Rafael.
— Eu ria e sempre dizia:
— Nunca vamos nos casar, Helena, somos como irmãos.
— Ela ria e voltávamos a brincar.
No dia em que ela fez sete anos, seus pais brigaram e o pai bateu em sua mãe.
Ela, assustada, foi lá para casa e ficou connosco até que a briga terminasse.
Aquilo se tornou rotineiro.
Conforme o tempo foi passando, nós fomos ficando mais amigos.
Na escola, eu sempre a protegia de outras meninas.
Quando completamos dezoito anos, eu comecei a me preparar para ir para a faculdade.
Ela, ao contrário, não quis ir e disse:
— Vamos nos casar, Rafael, você é quem vai cuidar do dinheiro da nossa casa.
Eu vou cuidar de você, da casa e dos nossos filhos.
— Ela disse isso, Rafael?
— Disse, Angélica.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:17 pm

Eu voltei a dizer:
— Não brinque, Helena.
Sabe que nunca vamos nos casar, por isso é melhor escolher uma faculdade e estudar.
Minha mãe diz que a mulher precisa estudar para ter óptimo salário e ser independente.
Assim, nunca vai ter que viver sob a dependência de um homem.
Precisa fazer como a Débora, que trabalha e estuda.
Quando se formar, vai encontrar um bom emprego, poderá ter o homem que quiser.
— Acha que vou fazer como a Débora, que trabalha durante o dia inteiro lá no banco, depois vai para a faculdade e, como o dinheiro que ganha não é suficiente para suas despesas, precisa vender bijuterias que ela e sua mãe fazem?
Não, Rafael, não quero ter essa vida.
Quero ter meu marido, minha casa e meus filhos.
Quero cuidar de tudo, ser uma verdadeira dona de casa.
— Como ela pôde dizer isso, Rafael?
Não posso acreditar!
Hoje, a mulher estuda, trabalha e cuida da sua própria vida!
Eu estudei e não me arrependo disso!
— Também penso assim, embora não posso negar que tenha sido muito difícil, para mim e para Débora, estudar.
Eu trabalhava como office-boy em um escritório de advocacia.
Débora trabalhava em um banco e, à noite, estudávamos.
Minha mãe trabalhava em uma fábrica e, quando voltava para casa, fazia bijuterias que ela aprendeu em um curso.
Débora vendia as bijuterias tanto no banco como na faculdade.
— Para mim também não foi fácil, Rafael.
Assim como vocês, também consegui e estou feliz por isso.
— Está feliz por ser professora?
— Claro que estou.
Adoro dar aula, poder ensinar e saber que de mim dependem os futuros doutores de amanhã.
Acho que nasci para ser professora...
— Você é totalmente diferente de Helena.
Estudei e consegui entrar na faculdade.
Quando disse a ela que ia estudar matemática, para ser professor, ela ficou furiosa:
— Professor, Rafa?
Você sabe quanto ganha um professor?
— Sei que o salário não é muito, Helena, mas é disso que eu gosto e vou me preparar para fazer.
Se todos, por pensarem no salário, deixarem de ser professores, o que será das nossas crianças e dos jovens, assim como de nós, que precisamos nos preparar?
Por isso, penso que ser professor é um dom divino.
Sem o professor, as crianças não aprenderiam a ler e não teríamos mais profissão alguma.
— Também acho isso, Rafael.
O professor é o profissional mais importante, pois, sem ele, realmente, não haveria outra profissão.
Quem deveria pensar assim são os governantes, mas, na lista de prioridades, o professor está em último lugar.
A propósito, alguém me disse que, no Japão, todos precisam fazer reverência para o Imperador e que este só faz referência quando está diante de um professor.
— Será verdade, Angélica?
— Não sei se é verdade, Rafael, só sei que, se não for verdade, deveria ser.
O povo japonês dá muito valor às suas tradições e respeita seus velhos, por isso acho que o que me contaram pode ser verdadeiro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:17 pm

— Você tem razão, Angélica.
Por isso é que digo que ser professor é um dom divino, mas Helena não pensava assim, ficou revoltada:
— Tudo bem, Rafa!
Quer ser professor, seja, mas sabe que nunca terá uma vida boa.
— Depende do que você acha que seja uma vida boa.
— Vida boa, Rafa, é ter dinheiro para poder comprar tudo o que queremos!
Ter uma casa bonita e um carro maravilhoso!
— Cada um enxerga a vida de uma maneira.
Nunca tive muito dinheiro, nem por isso fui ou sou infeliz.
— Também penso assim, Rafael.
Ele sorriu e continuou:
— Mesmo contra a vontade dela, entrei para a faculdade de matemática e aqui estou eu, um professor e, apesar de todas as dificuldades, estou feliz.
Nessa época, Débora estava no quarto semestre da faculdade de administração.
Nos fins de semana, fazia um curso de inglês.
— E Helena, estudou?
— Não, ela não quis, não achava importante.
Queria ser dona de casa e mãe.
Ela foi convidada para o casamento de uma prima e fez questão que eu e Débora a acompanhássemos.
Eu não queria ir, mas, após insistência dela e de Débora, fui.
As duas se enfeitaram toda.
Débora estava linda e Helena, bem Helena...
— O que quer dizer?
— Pela primeira vez, eu a vi não mais como minha irmã, mas como uma linda moça.
— Já sei, se apaixonou por ela!
— Foi mais que paixão, Angélica.
Embora eu não quisesse aceitar, estava realmente vendo-a de uma maneira diferente de até então.
— Nossa!
— Depois da igreja, fomos para a recepção.
Eu não queria, mas não conseguia tirar os olhos de Helena.
Ela estava, realmente, deslumbrante.
Como sempre fazíamos quando íamos a uma festa, começamos a dançar.
Enquanto dançávamos, ao tomá-la em meus braços, senti meu corpo estremecer como se uma corrente eléctrica tivesse passado por ele.
Para minha surpresa, ela apertou minha mão e me olhou de uma maneira como nunca tinha olhado.
Assim que a música terminou, fomos para o jardim e, pela primeira vez, nos beijamos.
Daquele dia em diante, começamos a namorar.
Depois de um ano de faculdade, saí do escritório onde trabalhava e consegui um emprego como professor de matemática em uma escola infantil.
A vida continuou.
Eu e Helena fazíamos planos para o futuro, pois, com meu diploma e a experiência que adquiri dando aula para as crianças, poderia dar aula em uma ou mais faculdades, em cursinhos.
Enfim, eu teria um leque enorme de opções.
Minha mãe ficou feliz com o nosso namoro, a mãe dela, não.
Fez de tudo para que nosso namoro terminasse, mas, apesar de todas suas artimanhas, não conseguiu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:17 pm

— A mãe dela, Rafael?
— Sim, Angélica, ela não me suportava.
Dizia que eu era pobre e que nunca poderia dar a sua filha uma vida digna.
Argumentava que Helena era bonita e merecia alguém que pudesse lhe dar uma casa linda e uma vida com todo conforto.
— Incrível, Rafael!
— É verdade, mas nem eu nem Helena nos importávamos com ela e só pensávamos que, assim que eu terminasse a faculdade, nos casaríamos e seríamos felizes para sempre.
— Vocês se casaram?
Não...
— Por que não?
— Débora se formou e, além da colação de grau, sua turma organizou uma festa de formatura.
Fomos à festa.
Nesse dia, que foi o mais infeliz da minha vida, Débora se aproximou de mim, de Helena e de minha mãe.
Ela vinha acompanhada de um rapaz.
Sorrindo, disse:
— Este é Paulo, um amigo especial
— Ele estendeu a mão, primeiro para minha mãe e, rindo, falou:
— Amigo? Nada disso!
Eu sou o amor da vida dela e ela da minha!
Muito prazer, senhora.
— Ao ouvir aquilo, Débora ficou vermelha, mas riu também.
— O prazer é todo meu, meu rapaz.
Já ouvi falar muito ao seu respeito.
— Espero que tenha sido coisas boas.
— Minha mãe também riu e disse:
— As melhores possíveis.
— Ele abraçou Débora e deu um beijo em seu rosto.
Após as apresentações, começamos a conversar e a dançar.
Eu estava dançando com Helena e, quando a música terminou, voltamos para a mesa onde estávamos sentados.
Assim que nos aproximamos, Débora disse:
— Quero apresentar a vocês, meu amigo, Olavo.
Ele é meu colega de classe e também está se formando hoje.
— Apertamos as mãos e notei que Olavo olhou para Helena de um modo especial, mas não me incomodei, já estava acostumado, pois ela, por ser muito bonita, chamava a atenção.
Continuamos conversando e dançando.
Olavo me pediu se podia dançar com Helena e eu, sem me preocupar, consenti.
Eles dançaram algumas músicas.
No final da noite, nos despedimos.
Assim que saímos, percebi que Helena estava diferente, mas pensei ser o cansaço.
— Já posso imaginar o que aconteceu, Rafael.
— Aconteceu exactamente o que está pensando, Angélica.
Nos dias que se seguiram, notei que ela estava diferente, mesmo.
Todas as noites, antes de ir para faculdade, eu passava pela casa de Helena e namorávamos um pouco.
Uma semana depois do baile, assim que cheguei, percebi que ela estava diferente.
Ela, que sempre ria e falava muito, estava calada e com o resto sério.
Fiquei preocupado:
— O que aconteceu, Helena?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:18 pm

— Precisamos conversar, Rafa.
— Conversar sobre o quê?
— Precisamos terminar.
— Terminar, por quê, Helena?
Estou quase terminando a faculdade e poderemos nos casar e realizar tudo o que planeamos.— - disse, assustado.
— Exactamente por isso.
Estive pensando e cheguei à conclusão de que sou muito jovem para me casar.
Tenho muito para ver, para conhecer...
— Não pode ser, Helena.
Você está confusa.
— Talvez seja isso, mas preciso de um tempo para pensar.
Por isso, peço que não venha me ver mais.
Com o tempo, se eu descobrir que estava errada, vou procurar você.
— Ela falou assim, Rafael?
Não acredito!
— Falou assim, Angélica.
Estava fria, distante e parecia outra pessoa.
Alguém que nunca havia conhecido.
— Como você ficou? O que fez?
— Pode imaginar.
Fiquei desesperado e sem entender o que havia acontecido.
Fui para a faculdade e, quando voltei para casa, minha mãe notou que eu estava diferente:
— O que aconteceu, Rafa?
— Comecei a chorar e contei o que havia acontecido.
Quando terminei de falar, minha mãe me abraçou e, com carinho, falou:
— Não fique assim.
Você conhece Helena, ela é movida pelo impulso.
Está assustada com a aproximação do casamento e, realmente, é muito jovem.
Ela vai pensar bem e vai descobrir que gosta de você e tudo vai ficar bem.
— Será, mamãe?
— Espero que sim, mas, se não voltar, você precisa continuar sua vida.
— Não tenho vida sem ela...
— Claro que tem!
É bonito, jovem e trabalhador!
Tenho certeza de que vai encontrar uma moça que goste realmente de você!
Você merece ser feliz, meu filho, e vai ser!
— Não pode negar que ela tinha razão, Rafael.
— Pode ser que tivesse, mas eu não me conformei.
Tentei falar com Helena várias vezes.
Fui a sua casa, telefonei, mas de nada adiantou, ela nunca mais falou comigo.
Sempre que podia, ficava parado em frente à sua casa.
Um mês depois de ela haver terminado tudo comigo, eu estava na esquina da sua casa e vi que, diante do portão, havia um cano, muito bonito, parado.
Fiquei olhando e pensando:
— De quem será esse carro?
— Não demorou muito para eu ter a resposta.
A porta da casa de Helena se abriu e ela saiu acompanhada por Olavo.
Levei um susto, fiquei parado, parado não, paralisado.
Assim que desceram os quatro degraus que havia diante da porta, Olavo passou o braço em volta do ombro dela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75725
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 11 1, 2, 3 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum