Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:45 pm

— Ainda não, mas, hoje, quando acordei, fiquei tonta, enjoada e tive de me deitar para não cair.
Contei para dona Justina e ela disse que estou esperando criança.
— Como ela sabe?
— Ela teve oito filhos, Giuseppe!
— Quanto tiver certeza, vou ser o homem mais feliz deste mundo e prometo que nunca mais vou fazer as coisas horríveis que tenho feito com você!
Prometo, Beatrice...
— Não prometa, Giuseppe, você sabe que não vai cumprir.
Neste momento, só quero mesmo estar esperando um filho.
Estávamos na cozinha, conversando.
Enquanto eu fazia o molho do macarrão, Giuseppe estava em pé do lado de fora.
Domingos abriu a porta de seu quarto.
Estava na hora de ir para o trabalho.
Mesmo se tornando sócio de Giuseppe, não quis deixar seu trabalho na estação.
Depois do que aconteceu naquele dia, ele não ficava muito em casa.
Todas as manhãs, assim que saía da estação, procurava novos clientes e fazia as compras dos materiais de que Giuseppe precisava.
Só voltava depois do almoço e ia directo para seu quarto.
Só conversávamos quando dona Justina ou Giuseppe estivesse presente.
Hoje, ao abrir a porta e ver que Giuseppe estava em casa, aproximou-se:
Boa-tarde.
Eu e Giuseppe respondemos.
Giuseppe, feliz, abraçou Domingos e disse:
— Estou muito feliz!
Vou ser pai!
Domingos, por detrás do ombro de Giuseppe, me olhou assustado e com os olhos arregalados.
Eu apenas sorri e disse:
— Ainda não tenho certeza, precisamos esperar mais um mês, Deus queira que seja verdade, pois todos sabem que é tudo o que quero.
Domingos sorriu e, afastando-se de Giuseppe, rindo, disse:
— Parabéns, dona Beatrice, tomara que seja verdade!
A senhora merece essa felicidade.
— Obrigada, senhor Domingos.
Ele se despediu e foi embora.
Estava terminando o jantar, quando dona Justina chegou e, ao ver Giuseppe em casa, disse:
— Boa-tarde, seu Giuseppe!
Já sabe da novidade?
Eufórico, ele respondeu:
— Sei! Beatrice me contou!
Tomara que seja verdade!
— É verdade! Nunca me enganei.
O senhor, agora, precisa cuidar muito bem dessa menina.
Ela vai precisar de muito carinho.
Ele, envergonhado, por saber que ela sabia tudo o que ele fazia, abaixou a cabeça e disse:
— Vou cuidar, dona Justina.
Vou cuidar.
Ela sorriu e foi para seu quarto.
Depois de jantarmos, também fomos dormir.
Ontem, depois de muito tempo, dormimos abraçados, como fazíamos antes de ele haver mudado tanto.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:46 pm

— Parece que tudo se acertou, tia.
Giuseppe parou de bater nela?
Ela, rindo, respondeu -— Não sei, vamos continuar lendo.
Quando dona Justina e Giuseppe saíram para o trabalho, fui preparar o meu café.
Sabia que Domingos ia chegar logo mais.
Eu precisava esperar que ele chegasse, pois ele merecia saber o que estava acontecendo.
Hoje, depois de tanto tempo, estou me sentindo bem.
Giuseppe me tratou com tanto carinho que nem acreditei.
Estava tomando café, quando Domingos chegou e, ansioso, parou em frente à porta da minha cozinha.
— Bom-dia, dona Beatrice.
Ao ouvir sua voz, estremeci.
Tentado manter a calma, respondi:
— Bom-dia, senhor Domingos.
Ele, demonstrando muita preocupação, perguntou:
— Aquilo que Giuseppe disse é verdade?
A senhora está mesmo esperando uma criança?
— Não tenho certeza, mas espero que sim.
— Já pensou que essa criança pode ser minha?
— Já. Pensei muito.
— A senhora sabe que, se for minha, não tem como esconder, não sabe?
— Sei e estou com muito medo, mas não tenho o que fazer.
Sempre quis um filho e ele está chegando.
Garanto que, aconteça o que acontecer, ele será criado com muito amor.
— Nunca quis prejudicar a senhora, mas, se essa criança for minha, e Giuseppe não a aceitar, não se preocupe, eu cuidarei da senhora e dela.
— Jamais esperei outra coisa do senhor, mas não se sinta obrigado.
O que aconteceu foi só por minha culpa, portanto tenho de arcar com as consequências.
— A culpa não foi só sua, foi minha também e só não se repetiu porque a senhora não quis.
Para a senhora foi só uma atitude de momento, mas eu sempre gostei da senhora, desde o primeiro dia em que a vi na estação.
Portanto, se quiser ficar comigo, a qualquer momento, estarei sempre aqui e pode morar comigo sem qualquer condição.
— Obrigada, senhor Domingos, mas, como só estivemos juntos, poucas vezes, acredito que essa criança é de Giuseppe.
De qualquer maneira, só nos resta esperar.
— Tem razão. Agora, preciso me deitar.
O trabalho foi muito pesado esta noite.
Ele foi para o quarto e eu fiquei ali, pensando na minha vida e em tudo o que havia acontecido até então.
Odila olhou para o relógio e disse:
— Já está tarde.
Não acham melhor deixarmos o resto para amanhã?
— Não, tia!
Estou muito curioso em saber como é que somos parentes da dona Justina.
A senhora está cansada?
— Eu não. E você, Olavo?
Olavo, um tanto distante, pensando em sua vida, respondeu:
— Não, mamãe, não estou cansado e também, assim como Carlos, estou curioso para conhecer o final dessa história.
— Sendo assim, vou continuar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:46 pm

Voltou a olhar para o caderno e começou a falar:
Já se passaram quase seis meses desde o dia em que dona Justina disse que eu estava esperando criança.
Ela tinha razão, meu corpo não respondeu e eu já estou com a barriga grande.
Não está muito, mas dá para ver.
Giuseppe, desde aquele dia, nunca mais me bateu e também não me tocou.
Ele diz que é para não machucar a criança, mas eu sei que é mentira, porque, quase todos os dias, ele vem para casa com o cheiro daquele perfume.
Isso não me incomoda mais.
Há muito tempo deixei de gostar dele e de me preocupar com sua vida.
Domingos está sempre preocupado em saber como estou.
Ele, sim, apesar de não fazermos mais nada, me dá paz e tranquilidade e, neste momento, é tudo o que quero e do que preciso.
Agora, preciso parar de escrever.
Tenho de preparar o jantar.
Odila virou a página e continuou:
Hoje, com a ajuda de dona Justina, meu filho nasceu!
Ele é lindo!
Vai se chamar Genaro e espero que seja muito feliz!
Ele nasceu com a pele clara.
Portanto, é filho de Giuseppe, embora eu quisesse que não fosse.
Giuseppe, durante todo o tempo em que estive esperando o meu filho, não me bateu mais, porém me ignorou.
Entrava em casa e saía na hora que queria e mal me olhava.
Estava sempre cheirando àquele perfume.
Era como se eu não existisse, por isso eu queria que o menino fosse filho de Domingos, que sempre esteve ao meu lado.
Mas, como a vida não é como imaginamos, só preciso ficar feliz pelo meu menino e criá-lo com todo carinho e amor.
Demorei a escrever porque não tenho tido tempo.
Depois que Genaro nasceu, minha vida virou de cabeça para baixo.
Nunca imaginei que uma criança precisasse de tanta atenção.
Agora, ele está com seis meses e já começou a engatinhar, porém, até os três meses, quase não dormi, pois ele tinha muita dor de barriga.
Ele está, a cada dia, mais bonito.
Tem a pele branca, os cabelos bem crespinhos e o nariz chatinho como o do pai.
Hoje, tenho certeza de que ele é filho de Domingos.
Não sei se Giuseppe desconfia, nunca comentou.
Também não me preocupo com isso, pois, desde que o menino nasceu, ele voltou a me bater, sempre nas costas para que ninguém veja.
Eu continuo ao lado dele e vou ficar até morrer, pois, embora não concorde, cheguei à conclusão de que ele é, sim, meu marido, senhor e dono e de que meu filho precisa de um pai legítimo.
Olavo falou alto:
— Meu Deus do céu!
Odila e Carlos olharam para ele.
Ela perguntou:
— O que aconteceu, Olavo?
— Como pode me perguntar isso com essa calma toda, mamãe!
— Não deveria estar calma, por quê?
— Como por quê, mamãe?
Se meu pai é filho de Domingos, a senhora se casou com seu irmão!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:46 pm

Odila começou a rir e disse:
— Você acha que, quando eu li isso pela primeira vez, também não pensei nessa possibilidade e não me apavorei?
Estamos exactamente na página, onde sua avó conta como tudo aconteceu.
Mas, agora, já que vamos continuar acordados, acho melhor tomarmos café.
Os dois riram e, acenando com a cabeça, disseram que sim.
Odila se levantou e saiu da sala.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:47 pm

Encontro emocionante
Odila voltou alguns minutos depois, trazendo uma bandeja de prata com um bule, açucareiro e duas xícaras.
Colocou tudo sobre a mesinha de centro e, após tomarem o café, pegou o caderno, abriu e disse:
Beatrice demorou quase seis meses para voltar a escrever e contou o que havia acontecido. Vou ler.
Não tenho tido tempo para nada, mas, hoje, preciso escrever.
Aconteceu algo importante.
Estou aproveitando, agora, que Genaro está dormindo e que Giuseppe ainda não chegou.
Preciso escrever o que aconteceu hoje.
É inacreditável.
Como faço todos os dias pela manhã, coloquei Genaro no cadeirão e comecei a preparar o café, esperando por Domingos, pois todos os dias, quando chega e antes de ir dormir, conversamos.
Porém, hoje foi diferente.
Ele chegou acompanhado por uma moça negra e duas crianças.
O maiorzinho, um menino, estava no seu colo e ela carregava um bebé enrolado em um cobertor.
Ele se aproximou e disse:
— Bom-dia, Dona Beatrice, encontrei essa moça na estação.
Ela está doente e não tem para onde ir.
Hoje, vai ficar no meu quarto até eu conversar com seu Pedro e ver o que podemos fazer.
Como ele aceitou a sua criança, pode ser que aceite estas duas, nem que seja preciso eu falar com os rapazes, alugar um quarto para eles em outro cortiço e pagar dois ou três meses adiantados.
Como a senhora nem dona Justina vão reclamar do barulho das crianças, talvez ele concorde em deixar que ela more aqui.
Eu, atónita, olhei para a moça que, mesmo sendo negra, estava pálida.
Ela estendeu os braços em minha direcção e, após eu pegar a criança, começou a cambalear.
Domingos percebeu e, rapidamente, segurou-a com outro braço.
Abraçando-a, disse:
— Ela não está bem.
Faz dias que não come.
Vou levá-la e ao neném para meu quarto.
A senhora poderia preparar um pouco de café com leite, pão com manteiga e leite para as crianças?
Depois eu passo no senhor Pedro e devolvo.
Eu, sem entender o que estava acontecendo, respondi:
— Claro que sim, senhor Domingos.
Ele, quase empurrando a mulher, levou-a para o quarto e eu, segurando o bebé, o acompanhei.
Com carinho, depois de colocar o menino no chão, ele a deitou e a cobriu.
Pegou o bebé que estava no meu colo e colocou-o junto a ela.
Depois, voltamos para minha cozinha.
Eu tinha, sobre a chapa do fogão, dois pedaços de pão que sempre esquentava para que, quando ele chegasse, pudéssemos comer e conversar.
Peguei um e dei para o menino que, desesperadamente, começou a comer.
Enchi duas canecas com café e leite e, enquanto eu carregava o menino, Domingos levava o outro pão e a caneca.
Juntos, voltamos ao quarto.
A moça estava deitada de lado e o bebé estava mamando ferozmente.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:24 pm

Aquela cena me comoveu.
Com a ajuda de Domingos, e apoiada em um travesseiro, ela conseguiu se levantar e se sentar, mas não tirou o bebé do peito.
Domingos colocou o menino ao lado dela e ela começou a comer quase sem mastigar.
Percebi que, realmente, Domingos estava com muita fome.
Quando terminaram de comer, disse:
— Agora, você precisa dormir.
Quando acordar, vai ter uma surpresa que, sei, vai deixar você muito feliz.
A moça nada falou, apenas deitou-se e fechou os olhos.
O menino, assim que terminou de comer o pão e tomar o leite, deitou-se ao lado da mãe e, colocando seus bracinhos em volta dela, adormeceu.
Sorrindo, Domingos colocou seus braços em volta do meu ombro e voltamos para a cozinha.
Do filão, cortei mais dois pedaços de pão e coloquei sobre a chapa para que esquentassem.
Domingos pegou um pouco de café e, como sempre fazia, sentou-se no banquinho e disse:
— Sei que a senhora está intrigada com tudo isso.
Hoje, aconteceu algo que nunca imaginei que poderia acontecer.
Eu estava varrendo o saguão da estação, quando vi essa moça com as crianças, que choravam sem parar.
Percebi que ela não estava bem, me aproximei e perguntei:
— O que está acontecendo, moça?
Ela, com os olhos vermelhos de tanto chorar, respondeu:
— Estou perdida, moço.
Fugi, com meus filhos, de um homem muito mau, mas sinto que não vou poder ficar com eles.
— Não vai, por quê?
— Estou doente e acho que logo vou morrer.
— O que é isso?
Você é muito jovem e vai ficar com seus filhos, sim.
— Era o que eu mais queria, mas não vai acontecer.
O senhor poderia cuidar deles para mim?
Como?
— Não me importo de morrer, já sofri muito, só estou triste por não saber o que vai acontecer com eles.
Quem sabe o senhor e sua mulher podem cuidar deles.
Sabendo que eles estão bem, eu vou embora e não volto nunca mais.
— Não posso ficar com eles.
Sou solteiro e moro em um quarto num cortiço.
Não tenho como cuidar deles.
— Então, a única solução é eu deixar os dois em um orfanato.
Como não conheço nenhum orfanato, pensei em deixar com o padre.
Ele deve conhecer pessoas que querem ter filhos e não podem.
O único problema é que, embora sejam mulatos, sempre serão considerados como negros, assim como deve acontecer com o senhor.
Um casal de brancos não vai querer um negro como filho e os casais negros acabaram de ser libertados e não têm condições de criar duas crianças.
Juro que não quero fazer, mas como sei que vou morrer, preciso deixar os meus tesouros em segurança.
O senhor pode fazer isso para mim?
Fiquei sem saber o que fazer, mas, diante de tanta dor, disse:
— Está bem, vou levar as crianças até o padre, contar o que aconteceu e ver no que ele pode ajudar.
Ela começou a chorar copiosamente e, entre soluços, disse:
— Sei que eles ficarão bem e, só assim, poderei morrer em paz.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:24 pm

— Não fale assim.
Sem as crianças, poderá ir até a Santa Casa e receber um tratamento.
É jovem, vai se recuperar.
Enquanto eu levar as crianças, vai me esperar aqui e, quando eu voltar, vou com você até lá.
— Está bem, vou esperar, só preciso de mais um favor.
Qual?
Ela, soluçando, tirou de dentro de uma sacola dois colares feitos de sementes e disse:
— Peça ao padre que, por favor, guarde esses colares e, quando as crianças crescerem, entregue-os para elas e diga que é para elas usarem e que, se um dia tiverem filhos devem fazer colares iguais e dar a eles.
Quando ouvi, fiquei atónito.
Depois, ela abriu o primeiro botão da blusa que estava usando, tirou de peito um colar igual aos das crianças e falou:
— Quando o homem mau me levou embora de casa, minha mãe me deu este colar e disse:
Nunca tire do pescoço.
Esse colar é a marca da nossa família.
Mesmo que passe muito tempo, um dia, se se cruzarem neste mundo de Deus, vão saber que fazem parte da nossa família nem que demore cem anos, sei que Iansã vai reunir todos vocês novamente.
Eu fiz um colar igual a esse para todos os seus irmãos que foram levados e falei essas mesmas palavras.
Estou entregando você para Oxalá, sei que ele vai proteger todos nós.
Ao ouvir o que ele falou, fiquei toda arrepiada.
Lembrei-me da história que dona Justina havia me contado e comecei a chorar.
Ia contar, mas ele continuou falando:
— Quando ela parou de falar, abri minha camisa e mostrei um colar igual ao dela que minha mãe me deu no dia que descobriu que estava doente e me falou essas mesmas palavras.
Ficamos olhando um para o outro e, sem que nada neste mundo pudesse impedir, nos abraçamos e choramos muito.
Não nos conhecíamos, mas sabíamos que pertencíamos à mesma família e, como um dia minha avó havia desejado e previsto, estávamos nos encontrando, neste mundo de Deus.
Eu não sei quem é essa moça nem o nome dela, dona Beatrice, nem o que aconteceu com ela.
Só sei que vou fazer tudo o que puder para que fique ao meu lado para sempre.
É ainda uma menina, precisa de protecção.
Percebi que, talvez, ela não esteja doente, apenas cansada e com muita fome.
Não deixei que falasse.
Pensei no que fazer com ela e achei que só havia um lugar para onde eu poderia levá-la e alguém que pudesse me ajudar.
O lugar é aqui e a pessoa é a senhora.
Preciso da sua ajuda.
Quase sem conseguir falar, de tanto que chorava, disse:
— Vai ter, senhor Domingos.
Vai ter toda ajuda de que precisar.
Eu ia contar sobre dona Justina, mas ele continuou falando:
— Agora que ela está dormindo, vou aproveitar para ir até o trabalho do Djalma e conversar com ele, contar o que aconteceu e fazer a minha oferta para que me ceda seu quarto.
Como ele mora sozinho, talvez aceite.
Depois de acertar tudo com ele, vou falar com o senhor Pedro.
Quando ela acordar, a senhora dá almoço para ela e para as crianças?
— Claro que sim, senhor Domingos.
Pode ir sossegado.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:24 pm

Ele saiu e eu não falei sobre a história que dona Justina havia me contado.
Depois, pensei melhor.
Achei que não tinha o direito de contar.
Seria melhor que eles, ao se encontrarem, se reconhecessem.
Como Giuseppe, ontem, comprou carne e legumes e a moça estava muito fraca, achei melhor fazer uma sopa bem forte.
Assim, todos nós poderíamos comer, inclusive Genaro e o menino maior.
O outro é muito pequeno, ainda não devia estar comendo.
Cortei o legume, coloquei junto com a carne em uma panela grande e levei ao fogão.
Depois, fui até o quarto de Domingos e, bem devagar, abri a porta.
A moça estava deitada, abraçada ao filho e chorando.
Vendo que ela chorava, perguntei:
— Por que está chorando, moça?
Ela me olhou e, entre soluços, respondeu:
— Estou feliz por estar com meus filhos.
Sei que estou doente e que não vai ser por muito tempo, mas sei também que eles não vão ficar abandonados.
Meu coração ficou apertado ao ver o sofrimento daquela menina, quase uma criança.
Sorrindo, disse:
— Tudo isso já passou.
Você não deve estar doente, acho que está muito fraca pelo sofrimento e pela fome que deve ter passado.
Depois de descansar e se alimentar as forças vão voltar e você vai ficar bem.
Domingos vai cuidar de vocês.
Agora mesmo, ele saiu para conseguir alugar o quarto aqui ao lado para você ficar com as crianças.
— Oxalá seja louvado.
Eu sabia que ela estava falando de Jesus e disse:
— Para sempre seja louvado.
— Por causa do colar, sei que somos parentes, mas não sei se somos primos.
Ele disse alguma coisa?
— Não, também não sabe.
Mais tarde, quando ele chegar, poderão conversar e descobrir.
— É verdade, temos muito que conversar.
Vi o seu menino, ele se parece muito com Domingos.
A senhora é mulher dele?
Senti que todo o sangue do meu corpo subiu para a cabeça e, tentando sorrir, respondi:
— Não, ele é nosso vizinho.
Sou italiana e casada com Giuseppe.
Ele está trabalhando.
Mais tarde, você vai poder conhecê-lo.
Ela sorriu e eu, para mudar de assunto, perguntei:
— Está com fome?
Estou preparando uma sopa bem forte.
O seu menino, quando acordar, vai estar faminto, não vai?
— Vai sim, coitadinho, faz muito tempo que não come nada quente, muito menos sopa.
Só tenho conseguido pão e água para dar a ele.
— Como eu disse, tudo isso vai mudar.
Agora, vocês estão protegidos.
Ela sorriu e eu, para terminar com aquela conversa, disse:
— Enquanto termino o almoço, fique deitada e tente dormir mais um pouco.
Quando estiver pronto, volto aqui.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:24 pm

Saí e voltei para minha cozinha.
A sopa estava quase pronta, quando Domingos chegou.
Ele estava feliz e, rindo, disse:
— Está tudo certo, dona Beatrice!
Djalma aceitou na hora!
Além dos três meses adiantados, comprei os móveis dele!
Disse que, hoje mesmo, posso ficar com o quarto, só vai pegar suas roupas.
Isso é bom, porque estou cansado e precisando dormir um pouco.
Conversei com o senhor Pedro e ele disse que, se não houver reclamações, ele não se importa com as crianças.
— Não vai haver reclamação alguma.
Dona Justina vai ficar feliz em ter essas crianças por perto.
Ele, ainda rindo, disse:
— Claro que aumentou o preço do aluguel, mas não me importo, pois ela precisa ficar aqui.
Não pude deixar de rir, pois o senhor Pedro, sovina do jeito que era, não ia deixar escapar uma oportunidade como aquela.
Achei melhor preparar uma sopa para a moça.
Fiz com carne, legumes e engrossei com fubá.
Está pronta.
Se quiser, pode tomar um pouco.
— Vou agradecer, depois, vou me deitar.
Ela ainda está dormindo?
— Deve estar. Está muito fraca.
Daqui a pouco, vou ver como ela está e, se o menino estiver acordado, vou aproveitar e dar um pouco para ele e para Genaro.
— Não imagina como estou agradecido por tudo o que está fazendo.
Quando eu acordar, vou conversar com ela e tentar descobrir qual é o grau de nosso parentesco.
Sinto que essa conversa vai ser difícil e estou muito cansado.
Lembrei-me de dona Justina e, com a voz embargada, disse:
— Tenho certeza de que vai descobrir e ficar muito feliz.
— Mesmo sem saber quem ela é, já estou feliz.
Sorri e coloquei sopa em uma tigela.
Ofereci a ele, que aceitou.
Sentou-se e começou a comer.
Enquanto ele comia, fui até o quarto.
A moça estava acordada, mas continuava na mesma posição.
O bebé estava grudado em seu peito e o menino, sentado ao seu lado.
— Está com fome?
Preparei uma sopa bem forte.
— Obrigada, senhora.
Vou me levantar.
Assim dizendo, tirou o bebé do peito, colocou-o do seu lado e tentou se levantar, mas cambaleou e voltou a sentar-se sobre a cama.
Ajudando-a se deitar novamente, disse:
— Não precisa se levantar, vou buscar e trago aqui.
Você está muito fraca.
Deitou-se novamente e disse:
— Obrigada, senhora.
Nunca vou poder agradecer o que está fazendo por mim e por meus filhos.
A senhora é um anjo que apareceu na minha vida.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:25 pm

Sorri e saí.
Quando cheguei à cozinha, Domingos não estava mais lá.
Enchi outra tigela e levei-a para ela.
Coloquei a tigela sobre uma cómoda e ajudei-a a se sentar.
Depois, dei a tigela para ela, peguei o menino, dizendo:
— Vou dar sopa para meu filho e para ele também.
Ela sorriu e eu, levando o menino no colo, saí do quarto.
Depois de alimentar os dois, coloquei Genaro no chão para engatinhar e soltei o menino no quintal para que pudesse correr.
Pouco tempo depois, Genaro começou a chorar.
Sabia que estava na hora de ele dormir.
Peguei os dois, um em cada braço, e fui para meu quarto.
Dei banho nos dois, coloquei-lhes roupas limpas e deitei-os juntos, no berço.
Pouco tempo depois, estavam dormindo.
Sorri e voltei ao quarto.
Ela havia terminado de comer e ainda estava recostada no travesseiro.
Disse:
— Preciso trocar minha filha.
Deve estar assada, pois, desde ontem, eu não troco sua fralda.
Saí fugida, às pressas, e não peguei roupas para mim nem para eles.
— Não se preocupe com coisa alguma.
Tenho fraldas, meu filho ainda usa.
Vou pegar. Depois, Domingos vai comprar o que precisar.
Fui para meu quarto, peguei fraldas e roupas de Genaro.
Para o menino maior não serviriam, mas para a bebé, sim.
Fui até a cozinha peguei a bacia que eu dava banho em Genaro, coloquei água e levei para o quarto.
Quando cheguei, a moça estava tirando as roupinhas da menina.
Coloquei a bacia sobre a cama e ela me entregou a menina.
Assim que a vi, me apaixonei.
Ela é linda!
A moça percebeu o meu encantamento e disse:
— Ela é linda, não é?
— Maravilhosa!
Qual é o nome dela?
Odila.
Olavo, que ouvia atentamente a leitura da mãe, levantou-se:
— Era a senhora, mamãe?
Odila, com os olhos cheios de água e, ao mesmo tempo rindo, respondeu:
— Sim, meu filho, era eu.
— Então, a senhora não é filha de Domingos?
— Não, Olavo, não sou.
— Meu pai também não é filho dele?
— Não, Carlos, também não é.
Só ficamos sabendo, quando lemos este caderno.
— Não entendo. O que aconteceu?
— Também não estou entendendo, mamãe...
— Será que vocês não podem ter só mais um pouco de paciência.
Estamos quase chegando lá.
Quando terminarmos de ler, terão todas as respostas.
— Está bem, continue lendo, mamãe.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:25 pm

Odila continuou:
Depois de dar banho na menina, coloquei-a de volta nos braços da mãe.
Chorei.
Beijei sua testa e disse:
— Ela é tão pequena e já sofreu tanto.
Espero que Oxalá proteja você, minha filha, e que não sofra nunca mais.
— Ela não vai sofrer, pois encontrou Domingos e ele é um bom homem.
— Onde ele está?
— Dormindo no quarto ao lado.
Daqui a pouco, ele vai acordar e poderão conversar.
Deve estar com fome e precisa se alimentar bem para poder ficar forte.
Vou trazer um pão e pegar mortadela na cozinha de Domingos.
— Obrigada.
Nunca mais desejo passar fome.
É muito triste.
— Imagino que seja.
Quando saí do quarto para fazer o lanche, ouvi o choro de Genaro.
Fui até meu quarto e ele estava em pé no berço.
O outro menino ainda dormia.
Tirei Genaro e, passando a mão pela cabecinha do menino disse baixinho:
— Durma bem, meu anjo.
Você nunca mais vai sofrer.
Com Genaro no colo, saí e fui para a cozinha de Domingos.
Peguei a mortadela e na minha cozinha peguei um pedaço de pão e uma caneca com leite.
Levei tudo para a moça cujo nome ainda não sabia.
Quando saí no quintal, o menino estava em pé na porta do quarto, segurando um dos carrinhos que Giuseppe havia comprado para Genaro.
Parecia impossível, mas ele não estava chorando.
Rindo, me aproximei dele e estendi minha mão, que ele agarrou com muita força.
Juntos, fomos até minha cozinha.
Coloquei Genaro no cadeirão e dei café com pão e leite para o menino, que comeu com ferocidade.
Depois, levei o lanche para ela e, enquanto comia, levei os meninos para o quintal.
Sentei-me no banquinho, fiquei com Genaro no colo e soltei o menino que ficou, com o carrinho na mão, correndo de um lado para o outro.
Mais ou menos meia hora depois, vi dona Justina entrando no corredor.
Meu coração começou a bater forte.
Não sabia quem era aquela moça, mas que ela e Domingos pertenciam à família de dona Justina, disso eu tinha certeza.
Ela se aproximou e, ao ver o menino correndo, perguntou:
— Onde arrumou esse negrinho, menina?
— Ele é filho de uma moça que Domingos encontrou, perdida na estação.
— Perdida, com um filho? Coitada...
— Um filho não, dona Justina, são dois.
Tem mais uma menina.
A moça está fraca e doente.
— Doente? Onde ela está?
Vou ver como está e, depois, vou preparar um chá e ela vai ficar boa bem depressa.
— Está com a filha, deitada no quarto do Domingos.
Sem esperar que dissesse coisa alguma, ela foi até o quarto e, ao ver a moça, começou a gritar:
— Lindinha, minha filha!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:25 pm

Depois, ajoelhou-se no chão, levantou o braço direito e gritou mais alto ainda.
— laparrei, lansã!
Iaparrei, minha mãe!
A moça, ao ver e ouvir a mãe, cambaleando, levantou-se, abraçaram-se, beijaram-se, choraram e foram para o quintal.
A moça, quase sem conseguir falar, disse:
— Mãe, precisei tanto da senhora.
Louvado seja Oxalá que me levou para a estação.
— Louvado seja, minha filha.
Depois de dizer isso, dona Justina olhou para mim e disse:
— Eu não disse a você que Oxalá nunca abandona seus filhos e que lansã ia encontrar e trazer meus filhos de volta para mim?
Eu, emocionada, e sabendo sobre Domingos, só consegui balançar a cabeça, afirmativamente.
Fiquei ali, parada, sem conseguir me mover, só chorando de emoção e de felicidade por poder presenciar aquele reencontro.
O grito foi tão alto que acordou Domingos.
Assustado, ele saiu de seu quarto e, ao ver as duas abraçadas e chorando, sem entender o que estava acontecendo, olhou para mim que, sem conseguir falar, apenas ria.
Lindinha, ao ver que ele estava ali, chorando, disse:
Mostra o colar para ela! Mostra!
Domingos, começando a entender o que estava acontecendo, desabotoou o primeiro botão da camisa, tirou o colar e mostrou para dona Justina.
Esta ao ver o colar, ainda chorando, abriu os braços e caminhou na direcção dele, dizendo:
— Domingos, não poder ser.
Esteve todo esse tempo perto de mim e nunca desconfiei que você era meu, que era da minha família!
Não sabia que Oxalá tinha trazido você para mim...
— Nem eu, dona Justina. Nem eu...
Embora emocionada, olhei para Lindinha e vi que ela, encostada na porta do quarto, estava quase caindo.
Corri para junto dela e, abraçando-a levei-a de volta para dentro do quarto e, enquanto a deitava, disse:
— Ela está muito fraca.
É melhor entrarem e conversarem aqui dentro.
Eles entraram e sentaram-se na cama.
Só naquele momento, lembrei-me de Genaro e do menino.
Saí do quarto e vi que o menino, alheio a tudo o que estava acontecendo, continuava brincando com o carrinho e Genaro, sentado no cadeirão, acompanhava, rindo, todos os seus movimentos.
Fiquei junto à porta, prestando atenção nos meninos e ouvindo o que conversavam.
Dona Justina pegou Odila no colo e, chorando e ao mesmo tempo rindo, beijou-a várias vezes, dizendo:
— Que negrinha linda você tem, minha filha!
Deixa eu ver o outro que está lá fora.
Quando cheguei, vi que ele estava brincando, mas não olhei direito.
Saiu, pegou o menino no colo e começou a beijá-lo sem parar.
Ele, assustado, olhou para mim e chorou.
Ela, rindo, colocou-o no chão, dizendo:
— Eta negrinho birrento!
Depois, entrou no quarto, sentou-se na cama ao lado de Lindinha, pegou Odila no colo e ficou acariciando a cabecinha dela.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:25 pm

A história de Lindinha
Domingos, muito emocionado e com os olhos marejados, sentou-se em uma cadeira.
Dona Justina, também emocionada e sem conseguir evitar que as lágrimas descessem por seu rosto, disse:
— Conta, minha filha, conta o que aconteceu, desde o dia em que aquele malvado levou você embora e como você chegou à estação.
— Quando ele me levou atrás da carroça e eu fiquei olhando para senhora até ele virar a carroça, eu não consegui enxergar mais.
Andamos muito tempo.
Eu chorava de tristeza por ter de deixar a senhora e o pai.
Onde ele está, mãe?
— Vai chegar daqui a pouco e vai morrer de felicidade quando vir você, minha filha, mas continue contando.
— Andamos muito, muito tempo.
Não sei se, pelo balanço da carroça ou por estar sentada na madeira dura, eu estava com o corpo todo doendo.
Já estava quase anoitecendo, quando chegamos a uma porteira.
Ele entrou com a carroça e pude ver uma casa bem grande.
Pensei que era ali que eu ia mora, mas estava enganada.
A carroça passou pela casa e continuou andando.
Andamos mais ou menos meia hora, até que apareceu outra casa, menor que a primeira, mas, mesmo assim, grande.
Ele parou a carroça, dizendo:
— Desce, negrinha, é aqui que vai morar.
— Desci, peguei a trouxa com minhas roupas e fiquei parada.
Um rapazinho mulato se aproximou, olhou para mim e sorriu.
Assim que nossos olhos se encontraram, senti um bem enorme.
O malvado, sem perceber, disse:
— Jacinto, dê água para o cavalo.
Ele, coitado, está cansado.
— Sim, senhor.
— Eu estava com fome e com sede, mas o malvado não se importou e começou a me empurrar.
Levou-me para dentro da casa.
Em uma sala grande, havia cinco mesas que estavam cobertas por toalhas brancas.
Sobre elas, havia velas acesas.
Sentadas nas cadeiras que havia em volta delas, estavam meninas, negras, como eu.
Respirei aliviada.
Elas, para mim, eram bonitas e estavam com vestidos lindos, diferentes dos meus.
O malvado, parado no meio da sala, disse:
— Esta é Lindinha.
É a nova irmã de vocês.
— Eu fiquei olhando para elas e sorri, mas nenhuma delas sorriu para mim.
Ficaram paradas da mesma maneira que estavam quando entrei.
O malvado continuou me empurrando e fomos parar na cozinha.
Lá, havia uma senhora negra que estava cozinhando. disse:
Ele me empurrou com força para dentro da cozinha e disse:
-— Tíana!
Dê um banho e passe perfume nessa negrinha.
Depois, coloque um vestido nela.
Esta noite vou dar uma festa.
Ela vai ser a novidade e precisa estar perfeita.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:26 pm

Ele saiu e eu, olhando para a senhora, perguntei:
— Vai mesmo me dar banho, passar perfume e colocar um vestido novo?
Ela, com os olhos cheios de água, respondeu:
— Vou, sim, menina.
Vou fazer tudo isso.
Na hora, eu não entendi por que parecia que ela estava chorando e não me importei.
Eu só queria colocar o vestido e ficar bonita como as outras meninas estavam.
Ela pegou uma tina, colocou no chão da cozinha e encheu com água.
Enquanto fazia isso, disse:
— Como é o seu nome?
Lindinha.
— Lindinha? Que nome é esse?
— Minha mãe disse que, quando eu nasci, era muito bonita e por isso me colocou esse nome.
Eu gosto dele!
— Você é linda de verdade, mas isso é uma pena...
— Por que a senhora está dizendo isso?
— Por nada. Agora, tire a roupa e entre na tina.
— Entrei e a água estava quente.
Eu me senti muito bem.
Ela, com cuidado, começou a me banhar.
Depois, me deixou ali e saiu.
Quando voltou, trazia em suas mãos um vestido lindo.
Todo colorido.
Fiquei encantada:
— A senhora vai me dar esse vestido?
— Vou, sim, menina, e vou dizer mais uma coisa:
daqui a pouco, alguns homens vão chegar.
Depois de muita bebida, um deles vai ficar com você e fazer coisas que você não vai gostar, mas precisa ficar quieta e fazer tudo o que ele mandar, porque, se não fizer isso, o sinhó vai castigar você.
Eu não liguei para o que ela disse.
Só queria colocar aquele vestido lindo.
Ela me ajudou a sair da tina e, finalmente, me vestiu.
Depois, antes do perfume, perguntou:
— Está com fome?
— Com a cabeça, eu disse que sim.
Ela colocou arroz, feijão e um pedaço de carne bem grande.
Eu nunca tinha comido tanta carne.
Como estava com muita fome, comi quase sem mastigar.
Quando terminei de comer, ela lavou meu rosto, penteou meus cabelos, colocou uma fita e passou perfume por quase todo meu corpo.
O perfume era gostoso e eu estava muito feliz.
Lembrei-me da senhora, mãe, e comecei a chorar.
Ela, sem entender o que estava acontecendo, perguntou:
— Por que está chorando, Lindinha?
— Queria que minha mãe estivesse aqui.
Ela ia ficar feliz por me ver tão bonita.
— Por você estar bonita, ela ia ficar feliz, mas por estar aqui, acho que não.
— Só mais tarde, descobri sobre o que ela estava falando.
Depois de eu estar pronta, ela disse:
— Agora, você vai lá para a sala e se senta em qualquer lugar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:26 pm

— Feliz por estar linda eu fui.
Entrei na sala e percebi que as meninas estavam da mesma maneira, paradas e caladas.
Sorri, mas elas não.
Sem entender por que elas me olhavam daquela maneira, sentei-me em uma cadeira e fiquei pensando:
Por que será que elas, apesar de estarem tão lindas, parecem tristes?
Olhei para uma e para outra e sorri, mas não houve resposta.
Parecia que eu não existia.
Algum tempo depois, o malvado entrou na sala.
Olhou para todas nós e, rindo, disse:
— Vocês estão muito bonitas!
Sabem que, hoje, vamos ter uma festa e, como sempre, sabem que, quando meus amigos chegarem, vocês precisam tratar a todos eles muito bem.
Sabem, também, que, se não fizerem isso, serão castigadas.
— Ao ouvir aquilo, estremeci e olhei para elas, que continuavam caladas.
Somente uma sorriu.
Percebendo que elas não queriam conversar, assim como elas, fiquei calada e olhando para tudo.
Algum tempo depois, ouvi barulho de carruagens e de cavalos.
Alguns homens começaram a entrar.
Estavam bem vestidos.
Logo percebi que eram ricos.
O malvado recebeu a todos com um sorriso, demonstrando felicidade.
Após todos chegarem, o malvado pegou pela minha mão e me levou ao centro da sala.
Enquanto me rodopiava, com um olhar estranho, dizia:
— Olhem que jóia eu trouxe para vocês.
Esta menina, além de ser muito bonita, é pura como uma flor.
Estou curioso para saber quem de vocês vai desabrochar esta flor.
Quem vai dar mais?
Os homens começaram a oferecer dinheiro.
Eu não entendia o que estava acontecendo.
Um deles, um senhor de mais de cinquenta, anos ganhou.
O malvado sorriu e falou:
— Coronel, o senhor vai ser o felizardo!
O homem se levantou e veio até mim e, com um olhar estranho, começou a me abraçar.
Eu fiquei apavorada, olhei para a porta de entrada e vi que ela estava aberta.
Rapidamente, fui até lá e saí correndo.
Jacinto, que estava lá fora, ao me ver correndo, apontou para um buraco que havia embaixo da casa e falou:
— Entre nesse buraco e fique quieta.
— Apavorada e sem conseguir pensar, entrei no buraco e fiquei quieta.
O malvado, muito nervoso, saiu da casa e perguntou:
— Jacinto, você viu para onde a cabritinha foi?
Ele, apontando a mão para um lado, respondeu:
— Para lá, Coronel.
Tentei segurar a menina, mas não consegui.
Ela foi muito rápida.
Quer que eu vá atrás dela?
— Não, está escuro e ela não vai poder ir muito longe.
Deixe que passe fome e frio.
Amanhã, quando clarear, quero que pegue os cachorros e vá atrás dela.
Depois, vou ver o que fazer com ela.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:27 pm

Ao ouvir aquilo e imaginar os cachorros me pegando, comecei a tremer e a chorar baixinho.
O malvado entrou na casa e, rindo, disse:
A cabritinha fugiu, mas não fique triste, coronel.
Amanhã ela vai ser achada e garanto que, na semana que vem, ela vai estar aqui e vai realizar todos os seus desejos.
Agora, vamos continuar a nossa festa?
Jacinto permaneceu no mesmo lugar.
De onde eu estava, através do brilho da lua, podia ver que ele olhava para mim e ria.
A festa continuou por muito tempo.
Com o passar das horas, fui me acalmando e fiquei ali esperando para ver o que ia acontecer.
Percebi quando os homens começaram a sair.
Jacinto trouxe o cavalo para aqueles que não estavam com carruagens.
Em pouco tempo, todos foram embora.
O malvado também montou em seu cavalo e, antes de sair, disse:
— Jacinto, amanhã, bem cedo, quando eu voltar, juntos, vamos procurar a cabritinha.
Prepare os cães.
Quando ela chegou, trocou de roupas.
Peça para Tíana dar essas roupas para que os cachorros possam cheirar.
Ela não vai escapar! Não vai mesmo!
Vai saber o quanto custa me desafiar!
— Está bem. Quando o senhor voltar, ela vai estar aqui.
— Ao ouvir aquilo, estremeci.
Assim que o malvado desapareceu, Jacinto foi para os fundos da casa.
Não entendi o que ele estava fazendo, pois eu estava com fome e muito frio.
Resolvi esperar mais um pouco e, se ele não voltasse, eu ia para a mata, tentar voltar para casa.
Algum tempo depois, ele se aproximou do buraco em que eu estava.
Encostou-se na casa e disse:
— Não pode continuar aqui.
Vou levar você para um lugar onde vai ficar bem.
Vou entrar na casa e, quando eu fizer isso, corra pela estrada até que não consiga mais ver a casa.
Pare e espere por mim.
Não podemos ser vistos juntos por ninguém da casa.
Eu não o conhecia, mas senti que podia confiar nele.
Também, não tinha mais o que fazer.
Sabia que precisava desaparecer, pois, se o malvado me encontrasse, nem queria imaginar o que ele ia fazer.
Ele voltou para a casa.
Saí correndo sem olhar para trás.
Só parei quando estava cansada.
Olhei pelo caminho que havia corrido e não vi mais a casa.
Parei e me sentei no chão para descansar, pois quase não conseguia respirar.
Logo depois, vi uma luz que se aproximava de mim.
Fiquei com medo, mas continuei sentada.
Quando a luz se aproximou, vi que era Jacinto montado em um cavalo.
Ele carregava uma tocha presa em um pedaço de pau.
Quando chegou perto de mim, desceu e, enquanto colocava um cobertor sobre minhas costas, falou:
— Você não pode ficar aqui.
Precisamos ir para um lugar seguro.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:27 pm

— Quero voltar para minha casa...
— Não pode voltar para lá.
— Não posso, por quê?
— Ele vai sempre lá e, se estiver ali, vai encontrar você.
— Para onde eu vou?
— Tem uma choupana que era do meu avô.
Do seu avô?
Ele não era escravo?
— Era, mas essa é outra história e um dia eu conto.
Agora, preciso levar você para lá. Venha.
Vou ajudar você a montar no cavalo.
É longe e preciso estar aqui pela manhã, antes que ele volte.
— Ele me ajudou a montar e colocou em meu colo uma corda.
De um lado havia uma trouxa com roupas e, do outro, uma sacola.
Eu não sabia o que havia nela e não me importei, apenas segui com ele, pois o que eu queria mesmo era ficar bem longe do malvado e daquele lugar.
Depois de ter me ajudado a montar, ele montou por trás de mim e só então fez com que o cavalo começasse a andar.
A noite estava escura e só pudemos caminhar graças a tocha.
Eu não tinha relógio, mas acho que andamos por mais de duas horas.
Depois, saímos da estrada, ele parou o cavalo, desceu e me ajudou a descer.
Amarrou o cavalo em uma árvore e disse:
— Daqui para frente, precisamos ir a pé por uma trilha.
A choupana fica perto daqui.
— Tirou do cavalo a sacola e a trouxa e começou a andar.
Eu o segui por dentro da mata.
Andamos por muito tempo.
Quando ia pedir a ele que parasse um pouco para que eu pudesse descansar, vi uma choupana.
Sem saber o motivo, respirei fundo e sorri.
Assim que nos aproximamos da porta, ele tirou a trouxa e a sacola das costas e colocou-as no chão.
Depois, abriu a porta e entramos.
A choupana não era grande. Tinha um cómodo.
Com a luz da tocha, pude ver que, bem no meio, havia um fogareiro a lenha, igual àquele que a gente tinha, mãe.
Vi, também, uma esteira.
Jacinto olhou para mim e, sorrindo, disse:
— Não é muito, mas aqui vai ficar segura.
Vou acender o fogo e logo vai ficar quente, mas, antes, você precisa comer.
— Dizendo isso, tirou da sacola uma panela.
Dentro dela, tinha arroz, feijão e um pedaço de carne.
Pegou também uma garrafa e uma caneca:
— Come essa comida e bebe café com leite.
Tem também um pedaço de pão para você comer amanhã.
É melhor do que nada, não é?
A comida está fria, mas...
— Não respondi, misturei a comida, fui fazendo bolinhos e, passando pela farinha comi, quase sem parar.
Enquanto isso, ele colocou lenha no fogareiro e acendeu.
Depois disso, enquanto a lenha queimava para virar brasa, tirou de dentro da sacola uma lamparina, acendeu e falou:
— Logo, essas chamas do fogão vão se apagar, transformar-se em brasa e vai ficar escuro.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:27 pm

Por isso, não deixe que a lamparina se apague.
O óleo que tem nela vai dar até amanhã cedo.
Depois, você precisa colocar mais óleo que está nesta garrafa.
— Ainda comendo, sem parar, abanei a cabeça, dizendo que sim.
Depois de preparar tudo, ele foi até a porta e disse:
— Agora, preciso ir.
Amanhã, quando ele chegar, vamos sair para procurar você.
— Ao ouvir aquilo estremeci.
— Ouvi quando ele disse que vai colocar os cachorros para me procurar.
Sei que eles vão me encontrar...
— Ele começou a rir e mostrou seus dentes lindos:
— Não se preocupe com isso.
Tíana colocou sua roupa na tina com sabão.
Até amanhã, ela não terá cheiro algum, por isso os cachorros não conseguirão achar você.
Além do mais, vou dizer a ele que você fugiu para o outro lado.
Pode dormir tranquila.
— Gostei da dona Tíana.
Ela foi carinhosa comigo.
— Ela também gostou de você.
Por isso, está ajudando.
Foi ela quem me deu tudo o que trouxe na sacola e na trouxa de roupas.
— Ela é uma boa pessoa.
Um anjo que surgiu na minha vida.
Ele, rindo, disse:
— Também é minha mãe.
Ela é tudo isso e muito mais.
Sua mãe?
— Sim. Infelizmente, o malvado é meu pai.
Ela nasceu na fazenda e, quando completou treze anos, ele se aproveitou dela e eu nasci.
Para poder ficar comigo, ela teve de ficar aqui cuidando das meninas para que ele pudesse ganhar muito dinheiro.
Por isso, ela ajuda as meninas em tudo o que é possível.
Muitas, com a ajuda dela, conseguiram fugir.
Agora, preciso ir.
Está quase amanhecendo e ele vai chegar.
A tarde, depois que ele for embora, eu volto.
Procure dormir e, quando acordar, ande na trilha que tem em frente à porta e vai chegar ao rio.
Lá, você pode pegar água, trazer para cá e também tomar banho.
Eu ouvia o que aquela menina falava e consegui imaginar tudo o que ela passou.
Um frio correu por minha espinha.
Domingos também ouvia sem mover um músculo do rosto.
Dona Justina, a todo instante, enxugava, com uma das mãos, as lágrimas que corriam por seu rosto.
A menina, que estava no colo de dona Justina, começou a chorar.
Todos olhamos para ela.
Lindinha sorriu e, com lágrimas nos olhos, disse:
— Mãe, ela deve estar com fome.
Coloca ela aqui deitada do meu lado, vou dar de mamar.
Ainda bem que, apesar de tudo o que passei, não perdi o meu leite.
Se isso tivesse acontecido, ela teria morrido de fome.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:28 pm

Dona Justina colocou a menina no peito de Lindinha que continuou falando:
Ele foi embora e eu me deitei na esteira.
Fiquei ali por muito tempo sem conseguir dormir.
Estava com muito medo de que o malvado me encontrasse, mas, depois de algum tempo, cansada, adormeci.
Quando acordei, o sol estava brilhando.
Levantei-me.
Saí da choupana e olhei para o céu.
O sol estava nascendo atrás da montanha.
Olhei em volta e só vi muito mato.
Não sabia que lugar era aquele, mas, sem saber a razão, me senti protegida.
Entrei novamente na choupana.
As brasas ainda estavam acesas.
Peguei alguns pedaços de lenha que havia ali, coloquei-os sobre as brasas, abanei com a tampa de uma panela e, logo, as chamas ficaram vivas.
Sorri e peguei a sacola.
Dentro havia pão, um pedaço de queijo, carne, ovos e óleo para a lamparina e, em uma panela, arroz e feijão.
Pensei:
Tíana pensou em tudo.
Hoje, vou ter o que comer.
Tomara que Jacinto volte logo.
Com ele ao meu lado, sinto que nada de mal vai me acontecer.
Peguei uma lata que estava ali e caminhei pela trilha até chegar ao rio, que era estreito.
Através da água bem clara, vi pequenos peixes que nadavam tranquilos.
Sentei-me na margem e fiquei olhando a água que corria bem devagar.
Fiquei ali por um bom tempo, pensando em tudo o que havia me acontecido, na senhora e no pai, mãe.
Sabia que estavam sofrendo por, como já havia acontecido com meus irmãos, não saberem para onde o malvado havia me levado e como eu estava.
Conseguia ver a senhora chorando.
E, naquele momento, eu odiei o malvado e só pensava em uma maneira de acabar com ele, de fazer com que sofresse.
Depois de muito pensar, lavar o meu rosto e chorar, enchi a lata com água, coloquei sobre a cabeça e voltei para a choupana.
No fogão, as chamas se apagaram e só havia brasas bem fortes.
Olhei em volta e percebi que a choupana estava com muita poeira.
O chão de barro estava seco.
Em um armário feito com galhos de árvores e amarrados com cipó, havia duas panelas, uma chaleira e um bule que também estavam empoeirados.
A mesa, igual ao armário, também foi feita com galhos e cipó.
Enquanto colocava tudo para fora, pensei:
Jacinto disse que seu avô morou aqui.
Não entendi, já que ele era escravo, como pôde ficar aqui, tão longe da fazenda?
Preciso esperar para ter essa resposta.
Jacinto disse que depois vai me contar.
Do lado de fora, havia uma vassoura feita com galhos de árvore.
Depois de colocar a esteira e as panelas para fora, peguei água, coloquei em uma panela e, com as mãos, fui respingando pelo chão.
Depois, varri.
Lavei as panelas, as canecas e o bule.
Coloquei a esteira aberta para que tomasse sol.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 06, 2017 8:28 pm

Depois, entrei, peguei um pedaço de pão, cortei com as mãos, coloquei, dentro dele, um pedaço de queijo e coloquei no canto do fogão para que esquentasse.
Em outra panela, coloquei água para fazer um chá com erva doce que eu peguei quando voltava do rio.
Quando o pão esquentou e a água ferveu, coloquei o chá em uma caneca, peguei o pão, saí da choupana e me sentei em um banquinho que havia junto à porta, também feito com galhos e cipó.
Estava comendo quando me lembrei de que, naquele momento, os cachorros deviam estar procurando por mim.
Estremeci e peguei a esteira, entrei novamente na choupana e fiquei deitada, quase paralisada.
Ao ouvir o que Odila lia, Carlos interrompeu:
— Como ela sofreu, tia!
Odila olhou para o sobrinho e, com os olhos cheios de lágrimas, disse:
— Sofreu muito, Carlos.
Pobre da minha mãe, tão criança...
— Como um ser humano pode cometer tanta maldade, tia?
— É o poder, meu filho.
Qualquer um que tenha um pouco de poder, sente-se no direito de usá-lo contra seu semelhante.
Olavo permanecia calado, tentando imaginar Beatrice e as outras pessoas de quem ela falava.
Sem querer, seu pensamento foi para Helena e sentiu vontade de estar ao seu lado.
Odila olhou para o relógio que estava em uma das paredes e, rindo, disse:
— Olhem, meninos, já são quase três da madrugada.
Acho que está na hora de irmos dormir.
Poderemos continuar amanhã...
— Não, mãe! Vamos continuar!
Está quase acabando...
— Olavo tem razão, tia.
Não estamos com sono!
Não vamos conseguir dormir.
— Está bem. Eu já conheço toda a história, mas vocês devem, sim, estar curiosos.
Vou continuar.
Voltou os olhos para o livro e começou a falar:
Todos nós estávamos extasiados com a história que Lindinha contava.
De vez em quando, eu olhava para as crianças que continuavam ali.
Jacinto corria de um lado para outro e Genaro brincava com um carrinho que eu havia lhe dado.
Estávamos prestando atenção ao que ela falava e nem percebemos quando o senhor Sebastião, trazendo os sapatos sobre o ombro, se aproximou:
O que está acontecendo aqui?
Ao ouvir aquela voz, todos nos voltamos.
Dona Justina, assim que o viu, levantou-se e, abraçando-se a ele, respondeu:
— Olha quem está aqui, meu velho!
Eu, que estava parada em frente à porta, me afastei para que ele pudesse entrar, mas, para minha surpresa, ele ficou parado e não entrou.
Seus olhos ficaram parados olhando para a filha, como que não acreditasse que era ela mesma.
Dona Justina, vendo que ele não se movia, chorando, disse:
— Entra, velho!
Vem abraçar a nossa menina!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:55 pm

Ela voltou!
Ele, com os olhos presos na filha, falou:
— Está bom... está bom...
Depois de dizer isso, se afastou e entrou em seu quarto.
Nós ficamos nos olhando sem entender o que estava acontecendo.
Dona Justina, que conhecia muito bem seu marido, rindo, entre lágrimas, disse:
— Não liga não, Lindinha.
Ele é assim mesmo.
Esconde o que sente e, como homem não chora, deve estar lá dentro chorando sem parar.
Depois ele vem falar com você.
— Eu sei, mãe... eu sei...
Genaro começou a chorar e Jacinto se aproximou.
Entrou no quarto, subiu na cama e ficou deitado do lado da mãe.
Eu me dei conta de que estava na hora de começar o jantar, pois eu não sabia se Giuseppe iria chegar, mas, se chegasse e eu não estivesse com o jantar pronto, seria um motivo para que ele me espancasse.
Sentindo muito, eu disse:
— Gostaria muito de ouvir o resto da sua história.
Lindinha, mas preciso fazer o jantar e dar banho nos meninos.
Eles estão cansados.
Dona Justina se levantou da cama onde estava sentada e, rindo, falou:
— Não precisa se preocupar, menina.
Hoje é dia de festa e eu quero cozinhar.
Quero fazer a comida de que você gosta, Lindinha, e todos nós vamos comer juntos.
Só vou ver se o meu velho tem dinheiro para eu comprar um bom pedaço de carne...
Ao ouvir aquilo, Domingos também se levantou da cadeira em que estava sentado e falou:
— Pode deixar, dona Justina.
Fala o que vai precisar que eu vou lá na mercearia comprar e, assim, as duas vão poder cozinhar juntas.
Depois, vou pegar as nossas mesas, colocar no quintal e vamos comemorar.
O que acham da minha ideia?
Claro que todos nós concordamos.
— Não podem se esquecer de que preciso trabalhar.
Portanto, esse jantar não pode demorar muito.
Concordamos. Aquele dia era, sim, especial.
Domingos estava saindo, quando Djalma chegou carregando uma mala.
Ao ver todos nós juntos, rindo disse:
— Parece que hoje é dia de festa!
Domingos, vim pegar minhas roupas.
O quarto que você encontrou é muito bom e perto do meu trabalho.
Acho que fiz um bom negócio.
Domingos, também rindo, falou:
— Também fiz um bom negócio.
Obrigado por me ceder o seu quarto.
Pode pegar sua roupa.
Troquei o lençol, porque precisei dormir no seu quarto.
Você não imagina como é importante ter essa moça aqui com seus filhos.
Como você disse, hoje é dia de festa e, se quiser, pode vir comemorar com a gente.
— Bem que eu gostaria, mas não posso.
Vou encontrar a minha namorada.
Todos nós rimos.
Ele era jovem e estava na idade de namorar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:55 pm

Ele também, rindo, entrou em seu antigo quarto, pegou suas roupas e foi embora.
Domingos foi à mercearia.
Lindinha tentou se levantar.
Ela queria ajudar na preparação do jantar, mas dona Justina disse:
Não se levante não, Lindinha.
Você está muito fraca.
Fica aí deitada e cuidando da sua menina.
Eu e a Beatrice vamos cuidar da comida.
Dona Justina foi para o seu quarto, eu fui para a minha cozinha.
Peguei um pedaço de carne e comecei a preparar um molho de tomates que seria misturado ao macarrão.
Atrás da porta da cozinha, havia duas bacias, uma pequena onde eu dava banho em Genaro, e outra grande, para mim e Giuseppe.
Peguei água que estava sobre o fogão, coloquei a bacia sobre a mesa e depois a água.
Dei um banho em Genaro.
Depois, com ele no colo, fui para o meu quarto.
Após vesti-lo, coloquei-o no berço.
Enquanto ele ficava ali, dei banho em Jacinto.
Depois dei sopa para os dois.
Após o jantar, levei Genaro de volta para o berço e Jacinto para junto de Lindinha.
Eles estavam cansados pelo longo tempo em que ficaram brincando e adormeceram.
Somente depois disso consegui me dedicar ao jantar.
Estava colocando uma panela com água no fogo, quando vi dona Justina e o marido saindo do quarto e indo para o quarto onde Lindinha estava.
Não aguentei de tanta curiosidade e fui também.
Eles entraram e eu, como antes, fiquei parada junto à porta.
Ele aproximou-se, inclinou-se e, abraçando a filha, começou a falar:
— Perdão, minha filha, por eu não ter impedido aquele malvado de levar você embora.
Eu fiquei com vontade de matá-lo, mas não tive coragem.
Sou muito covarde.
Ao ouvir aquilo, sorri.
Ele se julgava covarde para enfrentar um homem, mas muito corajoso para bater na mulher.
Senti uma revolta muito grande.
Apesar de tudo, aquele momento era de muita emoção.
Lindinha, abraçando e beijando o pai, disse:
— Tudo já passou, pai.
Agora estou aqui e me sinto protegida.
Não quero e nunca mais vou sair de perto do senhor nem da mãe.
Oxalá e Iansã me trouxeram de volta e eles vão proteger a gente.
— Louvado seja Oxalá!
Agora, minha filha, conta o que o malvado fez com você, conta.
— Está bem, pai.
Senta que vou contar desde o dia em que ele me levou.
Vendo que ela ia contar tudo o que já nos havia contado, voltei para a cozinha.
Domingos chegou com as compras.
Eu e dona Justina, cada uma em sua cozinha, ficamos cozinhando.
A comida não podia demorar muito, pois logo mais ia escurecer e apesar de termos luz nos quartos e nas cozinhas, elas eram muito fracas para iluminar o quintal, onde Domingos colocou as mesas.
Depois de colocar as panelas no fogo, peguei os dois pratos que tinha, coloquei sobre a mesa.
Dona Justina e Domingos fizeram o mesmo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:55 pm

Sabendo que logo ia escurecer, coloquei algumas velas.
Depois de tudo arrumado, entrei na minha cozinha e percebi que o macarrão já estava cozido.
Coloquei na panela onde estava cozinhando o molho e levei para a mesa.
Dona Justina preparou arroz, feijão e uma farofa.
A carne que Domingos trouxe seria assada na chapa do meu fogão.
Lindinha conseguiu se levantar e veio se sentar.
Após todos estarem acomodados, felizes, começamos a comer.
Estávamos assim, quando Giuseppe chegou.
Parou diante da mesa eu lhe mostrei um prato que havia reservado para ele:
— Sente-se, Giuseppe.
A comida está muito boa.
Ele, calado, entrou em nosso quarto.
Todos olharam para ele e depois para mim, que fiquei parada, morrendo de vergonha.
Após algum tempo, levantei-me e fui para o quarto.
Assim que entrei, vi que ele estava trocando de roupa.
Perguntei:
— Não vai jantar, Giuseppe?
— Não! Não entendo por que está comendo no meio do quintal e com essa gente!
— Essa gente são nossos amigos, Giuseppe, e estamos comendo todos juntos porque dona Justina reencontrou a filha que havia sido levada...
— Eles não são nossos amigos, são apenas nossos vizinhos.
Quando vai entender que, agora, a nossa vida mudou, Beatrice?
Tenho muito dinheiro e vamos nos mudar daqui!
Estou procurando uma casa!
Ao ouvir aquilo, estremeci.
— Você só tem dinheiro porque dona Justina e Domingos ajudaram muito!
Ele trouxe sapatos para você consertar e ela levou você à casa da sua patroa!
— Ele trouxe os sapatos e ela me levou lá, mas se eu não fosse um bom sapateiro, de nada ia adiantar!
Não ia conseguir consertar nem criar os sapatos!
— Eu não quero me mudar, Giuseppe.
Gosto daqui e de dona Justina.
Ela me trata como sua filha e eu a considero como mãe.
Sabe que nossa família está tão distante e que não conheço ninguém a não ser eles...
— Tem a mim e ao seu filho, não precisa de mais ninguém!
Eu decido, cuido de vocês, não deixo faltar coisa alguma!
Por isso, você precisa se preocupar só com o fogão, o tanque e a pia!
— Trocou de roupa?
Para onde você está indo?
— Para um lugar onde haja música, bebida e gente feliz!
Não suporto ver sua cara sempre chorosa!
Agora, venha arrumar a minha gravata!
Eu fiquei parada, ele me puxou com força e falou baixo, porém firme:
— Arrume a minha gravata!
Tremendo, arrumei sua gravata.
Sabia que nada podia fazer, pois ele era o meu marido e precisava fazer tudo o que ele desejava.
Depois que arrumei sua gravata, ele me abraçou e, com as duas mãos, beliscou com muita força as minhas costas, me jogou violentamente sobre a cama e saiu.
Fiquei ali, deitada e chorando por um bom tempo, até que dona Justina entrou no quarto e, ao me ver chorando, disse:
— Levante, menina.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:55 pm

Venha comer, venha...
Olhei para ela, enxuguei meus olhos, envergonhada, levantei-me e voltei para a mesa.
Dona Justina me acompanhou, sentou-se.
Os outros continuaram a comer sem nada comentar.
Depois de algum tempo, ela, olhando para Lindinha, disse:
— Conta, Lindinha, o que aconteceu, como você viveu depois e como teve essas crianças.
Lindinha sorriu e começou a falar:
— Naquela tarde, Jacinto voltou e trouxe com ele uma cabra, disse que era para eu ter leite.
Continuou vindo todos os dias, arrumou a choupana para que não chovesse, fez uma horta e trouxe algumas galinhas.
Sempre que o malvado não estava na fazenda, ele dormia comigo.
Foi um tempo muito feliz, de paz e tranquilidade.
Depois de algum tempo, minha barriga começou a crescer.
Jacinto disse que podia ser bicha e que ele ia falar com sua mãe para ver se ela tinha algum remédio.
No dia seguinte, ela veio com ele e, depois de mexer e olhar a minha barriga, disse:
— Você não está doente, está esperando criança.
— Eu e Jacinto nos olhamos, nem eu nem ele sabíamos como se fazia criança.
Ela, vendo o nosso espanto, começou a rir:
— Não se preocupem com isso, o importante é que você se alimente bem, Lindinha, e, quando chegar a hora, Jacinto me avisa e eu venho aqui para ajudar você.
Na casa das meninas nunca faltava carne, frutas nem verduras.
O malvado dizia que elas precisavam se alimentar bem para ficarem bonitas e com cara de saúde.
Quando os amigos dele viessem, deveriam ter boa impressão delas.
Assim, Tíana conseguia separar comida e frutas para que eu me alimentasse bem.
Em uma tarde, estava quase escurecendo e eu sabia que Jacinto não ia vir, pois o malvado estava lá.
Comecei a sentir muita dor na barriga, não me preocupei, pois pensei que tinha comido qualquer coisa que estava me fazendo mal.
O tempo foi passando e a dor foi aumentando.
Comecei a ficar preocupada, mas não sabia o que fazer.
Passei toda a noite com muita dor.
Pela manhã, a dor era tanta que eu não conseguia deixar de gritar.
Naquele momento, pensei na senhora, mãe, e como queria que estivesse ali.
Pedi a Oxalá que me ajudasse, achei que ia morrer.
Estava ali, chorando, gritando de dor, quando uma senhora apareceu na minha porta.
Ao me ver daquela maneira, correu para junto de mim, me abraçou e, com muito carinho, disse:
— Não se preocupe, tente ficar calma, estou aqui e vou ajudar você.
— Eu não sabia quem era aquela mulher, mas, mesmo assim, agradeci a Oxalá por ela estar ali.
Ela me deitou, avivou o fogo e colocou água para esquentar, depois, pegou uma faca, colocou sobre as brasas e deixo ali até que ficasse vermelha.
A dor ficava cada vez mais forte, mas agora eu já não estava desesperada.
Logo depois, senti uma dor mais forte ainda e senti quando o meu filho nascia.
Assim que eu vi a carinha dele, a dor sumiu e eu nem me lembrava mais de como era.
— Quem era aquela mulher, Lindinha?
— Depois que ela banhou o meu menino e me limpou, eu, curiosa, perguntei quem era ela e de onde tinha vindo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:56 pm

Ela, após colocar o menino no meu colo, sorriu e respondeu:
— Meu nome é Balbina.
Eu e meu nego fugimos da fazenda em que morávamos.
O coronel era muito ruim e, por qualquer coisa, mandava chicotear os escravos.
Depois de ter vendido nosso último filho, meu nego se revoltou e tentou matá-lo.
Como não conseguiu, para não ser morto, tivemos de fugir.
Construímos uma choupana do outro lado do rio e estamos morando lá, bem longe da fazenda.
Isso já faz dois meses.
Esta noite, quase não consegui dormir, sonhei muito e acordei várias vezes.
Quando estava quase amanhecendo, não suportei e me levantei.
Saí da choupana, olhei para este lado e senti uma vontade imensa de vir até aqui.
Acordei meu nego e o convenci a vir também.
Atravessamos o rio com uma canoa que ele fez de um tronco de árvore para poder pescar e, quando vimos a sua choupana, resolvemos nos aproximar.
Assim que cheguei e vi como você estava, fiz um sinal para que o meu nego esperasse.
Ele se afastou e deve estar por aí.
Assim que vi você, entendi que era a vontade de Oxalá eu estar aqui.
Que Oxalá seja louvado!
Ela estava falando quando pela porta, vi um negro que sorrindo perguntou:
— Já nasceu?
— Já, meu nego, é um menino lindo!
— Louvado seja Oxalá.
Ele era alto, forte, com dentes muito brancos e olhos brilhantes.
Entrou, olhou para o menino que estava deitado ao meu lado na rede e disse:
— Esse menino é filho de Oxalá!
— Agora, você precisa dormir, pois passou por maus momentos.
Pode dormir sossegada que nós vamos ficar aqui cuidando do seu neném.
— Eu ouvi o que Balbina disse.
Não queria, mas estava, realmente, muito cansada e, sem perceber, adormeci nem sei por quanto tempo.
Quando acordei, Jacinto estava ali com o nosso menino no colo.
Ele, ao mesmo tempo em que estava feliz com o menino, também estava triste por ter me deixado sozinha.
Eu disse para ele não ficar triste porque Oxalá tinha mandado um anjo para me ajudar.
Eu, que ouvia o que Lindinha contava, me arrepiei.
Como existiam coisas que eu não entendia.
Para mim, aquilo havia sido um milagre e o interessante é que para Lindinha e provavelmente para os outros que estavam sentados naquela mesa era coisa de Oxalá.
Lindinha tomou um pouco de água e continuou falando:
— Daquele dia em diante, minha vida mudou.
Jacinto trouxe dois serrotes e ele e o Eliseu, marido de Balbina, fizeram uma canoa para que eu ou eles pudéssemos atravessar o rio sempre que quiséssemos.
Fizeram um forno feito com barro e eu e Balbina fazíamos bolos e pães deliciosos.
Agora, mesmo quando Jacinto não podia estar comigo, eu tinha, ao meu lado, além do meu filho, Balbina e Eliseu.
Todos os dias eu ou eles atravessávamos o rio e nos encontrávamos.
Foi um tempo de muitas paz e alegria.
Jacinto contou que seu avô havia feito aquela choupana, porque, como acontece muito, teve de fugir do malvado.
Quando este maltratou Tíana, ficou com muita raiva e quis matar o malvado.
Não conseguiu e, para não morrer, fugiu e se escondeu ali até morrer.
Quando minha barriga começou a crescer outra vez, eu sabia o que ia acontecer.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

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