Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:56 pm

No dia em que minha menina nasceu, Jacinto, Tíana, Balbina e Eliseu estavam ao meu lado.
Odila nasceu forte e bonita.
Minha vida estava completa, até seis dias atrás, quando eu tive que fugir.
— O que aconteceu, Lindinha?
Por que teve de fugir?
— Vou contar, mãe.
— Eu, Balbina e Eliseu estávamos tomando chá e esperando por Jacinto que devia chegar logo, quando uma das meninas chegou afobada, cansada e gritando:
— Você precisa fugir, Lindinha!
Eu me assustei e, desesperada, perguntei:
— Por quê, o que aconteceu?
— A Zefinha, que gosta do Jacinto, ficou com ciúmes porque ele não gostava dela.
Um dia desses, seguiu ele até aqui e viu que vocês estavam morando juntos.
Contou para o coronel Inácio.
Ele ficou muito bravo e, sem dizer que ia chegar, veio, prendeu o Jacinto no tronco e bateu muito nele com o chicote.
Quando Jacinto estava todo machucado, ele pegou um pedaço de pau e bateu na cabeça do Jacinto, que morreu na hora.
Tíana gritou, pediu para ele parar, dizendo que Jacinto era seu filho, mas ele não ouviu.
Lindinha começou a chorar e falou:
— Mãe! A senhora não pode imaginar o que senti ao ouvir aquilo.
Jacinto, o meu Jacinto estava morto.
Lindinha continuou falando:
— A Tíana, depois que viu o filho morto, chorando muito, entrou em casa, me chamou de lado e pediu:
— Pega essas coisas e vai até a choupana, conta para a Lindinha o que aconteceu e diz para ela fugir, porque o malvado vai matar a ela e aos meus netos.
— Eu saí escondida e vim correndo.
Foge, Lindinha! Foge!
Eu preciso voltar para casa, porque se ele descobrir que vim até aqui, vai fazer comigo o mesmo que fez com Jacinto.
Olavo se levantou e, muito nervoso, perguntou:
Mãe, aquele monstro matou o próprio filho?
Como pôde fazer isso?
— É o poder, meu filho.
O poder endurece qualquer alma.
Existem alguns que não imaginam que, ao fazerem o mal para outros, estão fazendo o mesmo ou mais para si mesmos.
Mas vamos continuar lendo.
Está tarde, precisamos chegar ao fim para podermos dormir.
— Dormir, tia?
A senhora acha que vamos poder dormir depois de tudo o que ouvimos a senhora ler?
Odila riu:
— Tem razão, Carlos.
Tudo o que li foi muito forte e ainda tem mais.
Acontecem coisas por esse mundo afora que nem imaginamos.
Odila voltou os olhos para o caderno e continuou:
Ritinha saiu correndo e voltou para a casa.
Eu fiquei parada sem saber o que fazer, até que Eliseu, pegando pelo meu braço, nervoso, falou:
— Lindinha!
Você tem que ir embora!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:56 pm

— Embora para onde?
— Pegue as crianças e essa sacola com mantimentos que Tíana mandou.
Entre na canoa e desça o rio até encontrar um povoado ou uma casa.
Dali siga com a sua vida.
— Não posso fazer isso!
Tenho medo! Não vou conseguir!
— Claro que vai conseguir, Lindinha!
Se ficar aqui, o malvado vai encontrar você e as crianças e vai matar todos!
Oxalá está ao seu lado!
Agora, chega de conversa.
Pegue logo as coisas e entre na canoa!
A correnteza fica do lado oposto ao de onde está o malvado.
Ele não vai encontrar você!
Deixe a canoa seguir.
Por aqui não tem correnteza e só pare quando encontrar um povoado ou uma casa!
— E se o malvado encontrar a gente, Eliseu?
— Ele não vai encontrar, Balbina.
A nossa choupana fica do outro lado do rio e não dá para ver daqui.
Vamos logo, Lindinha!
— Chorando e com muito medo, entrei na canoa.
Olhei para Balbina que, também chorando, mexeu a cabeça, dizendo que sim.
Eliseu não deu tempo para que eu pensasse.
Pegou Jacinto no colo e colocou Odila na cestinha de folhas que Jacinto havia feito e reuniu algumas roupas das crianças, cobertores e a sacola.
Saímos rapidamente.
Chorando e com muito medo, entrei na canoa.
Coloquei o cesto com a Odila nos meus pés e Jacinto sentado no meio das minhas pernas.
Eliseu me deu dois galhos para que eu pudesse conduzir a canoa.
Soltou o cipó que segurava a canoa e eu, com os galhos, fiz com que ela começasse a se movimentar.
Ainda chorando, abanei a mão, dando adeus.
Eu estava prestando atenção naquilo que Lindinha contava, quando, de repente, dona Justina, que não conseguia parar de chorar, se levantou, ergueu os braços para o alto e começou a gritar:
— Xangô, meu pai, onde está a sua justiça?
Como Oxalá pôde permitir uma coisa como essa?
Como pôde permitir que minha menina, ainda uma criança, tivesse de passar por tudo isso?
Não está certo, Xangô!
Não está certo!
Lindinha, ao ver o desespero da mãe, levantou-se, foi até ela e a abraçou.
Chorando, falou:
— Não fica assim, mãe.
Já passou e eu estou aqui com a senhora e não vou sair nunca mais, Oxalá me trouxe até aqui, mãe...
— Não vai mesmo, filha!
Agora, continua contando, continua.
— Quando eu não conseguia mais vê-los, remando devagar, pedi a Oxalá que me protegesse, para que eu pudesse proteger as crianças, e a Oxum, para que deixasse as águas do rio calmas.
Os dois me ouviram.
As crianças adormeceram e a água do rio continuou calma.
Deixei que a água levasse a canoa.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:56 pm

Fiquei assim, por muito tempo.
Percebi que estava escurecendo e me apavorei.
Não podia ficar no rio durante a noite, mas não sabia onde estava, pois só conseguia ver árvores e matos na margem do rio.
Jacinto acordou e disse que estava com fome.
Odila também acordou e começou a chorar.
Olhei para a margem e vi que havia um galho de árvore que caía sobre as águas.
Remando, fui até ele e, sem muito esforço, consegui amarrar o cipó nele.
Depois, peguei um pedaço de pão e dei para Jacinto.
Peguei Odila e dei de mamar.
Naquele momento, agradeci a Oxalá por ter aquele leite abençoado.
Eu também estava com fome, mas fiquei com medo de comer e não sobrar para o menino.
Quando terminaram de comer, coloquei Odila de volta no cesto.
Ela adormeceu em seguida e pedi para Jacinto ficar quietinho.
Ele entendeu e ficou olhando para a água.
O sol desapareceu.
A lua e as estrelas começaram a surgir.
Era noite de lua cheia, por isso eu podia ver o que acontecia ao meu lado.
Por não saber o que existia à frente, resolvi ficar ali até que amanhecesse para que eu pudesse continuar.
Peguei Jacinto no colo e coloquei o cesto entre minhas pernas.
Sabia que, assim, eles ficariam protegidos.
Fiquei pensando em Jacinto e em como ele havia morrido.
Só naquele momento, pude realmente entender o que havia acontecido e no desespero de Jacinto, quando foi descoberto pelo malvado.
Acho que não ligou de morrer.
Deve ter ficado preocupado comigo e com as crianças.
Como odiei o malvado, mãe!
Não entendia como alguém podia ser tão mau.
Pensei em morrer, mas não podia ser naquela hora, precisava deixar meus filhos protegidos.
Chorei muito e, sem perceber, adormeci.
Quando acordei, já estava amanhecendo.
Graças a Oxalá, as crianças dormiram a noite toda.
Jacinto acordou em seguida.
Eu estava com fome, mas sabia que ele também.
Peguei o último pedaço de pão e dei para que ele comesse.
Olhei para o lado e vi uma grande quantidade de moranguinhos vermelhos, parecia que eles estavam olhando para mim.
Peguei alguns, dei para Jacinto e comi também.
Aquele azedinho me fez muito bem, parecia que eu estava comendo a melhor comida do mundo.
Depois de comer e me sentir bem, precisava trocar a roupa das crianças, pois estavam sujas.
Na pressa, eu havia pegado só um calção e uma camisa para Jacinto e o vesti.
Odila também acordou.
Para ela, eu também só havia pegado algumas fraldas e três ou quatro trocas de roupa.
Troquei sua roupa e dei de mamar, agradecendo sempre por ter leite.
Depois de dar de mamar, coloquei Odila de volta no cesto, lavei, as roupas apenas com água, mas elas ficariam com impressão de limpas.
Depois, coloquei as roupas abertas na parte da frente da canoa.
Resolvi que estava na hora de continuar.
Peguei uma porção de moranguinhos, ao menos eu e Jacinto teríamos o que comer durante aquele dia.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:57 pm

Soltei a canoa e ela começou a deslizar.
A canoa estava deslizando há algum tempo, quando percebi que ela começou a andar mais rápido.
As águas do rio estavam um pouco agitadas.
Comecei a ficar com medo, pois, embora eu soubesse conduzir a canoa, não sabia se conseguiria controlar, caso o rio ficasse muito agitado.
Assustada com o que poderia acontecer comigo ou com as crianças, comecei a chorar e a pedir ajuda para Oxalá e para Oxum.
O rio foi ficando cada vez mais bravo e eu só podia tentar controlar a canoa.
Tentei me aproximar da margem parra amarrar a canoa e esperar até que o rio se acalmasse novamente, mas não conseguia.
Era preciso força, que eu não tinha.
Por mais algum tempo, fui controlando, mas percebi que, se o rio continuasse daquela maneira, logo a canoa ia virar.
Estava assim, chorando e lutando contra as águas, quando uma canoa maior se aproximou.
Um homem branco estava nela e ao me ver com as duas crianças, perguntou:
— Para onde está indo, moça?
Estou fugindo com as minhas crianças e tentando encontrar uma casa ou um povoado.
— Nessa canoa não vai conseguir.
Nem você nem ela vão aguentar a correnteza.
— Nervosa e assustada comecei a chorar:
— Não sei o que fazer...
— A minha canoa é bem maior.
Com ela, vou empurrar a sua até a margem.
Depois, vou amarrar a minha e você e as crianças passam para cá.
Eu levo vocês até o povoado, que não fica muito longe.
Eu não conhecia aquele homem, mas ele ter aparecido naquela hora, só podia ter sido mandado por Oxalá e por Oxum.
Balancei a cabeça, dizendo que sim.
Ele encostou sua canoa na minha e, devagar, foi me levando até a margem.
Assim que chegamos, peguei um cipó para mim e outro para ele e amarramos as canoas em um galho bem forte que caía sobre a água.
Depois, passei primeiro Jacinto, que ele pegou com carinho.
Em seguida, o cesto onde Odila estava e, por último, eu e a sacola.
Sentei na frente da canoa e coloquei a sacola no meio dela.
Ele me passou, primeiro, Jacinto e, depois, o cesto com Odila.
Em seguida, desamarramos a canoa e ela começou a deslizar bem rápido.
Enquanto a canoa deslizava, ele perguntou:
— Você está com fome?
— Dei o último pedaço de pão para meu filho e comi alguns moranguinhos que encontrei na margem do rio.
Peguei alguns e vou dar quando ele ficar com fome.
— Ele pegou uma sacola que estava sobre seus pés, tirou uma panela enrolada em um pano branco e, me dando, disse:
— Aí tem comida.
Coma um pouco e dê para o menino também.
— Peguei a panela de barro.
Desenrolei o pano, tirei a tampa e vi que, dentro dela, havia, arroz, feijão, dois pedaços de carne, um mexidinho de ovo com cebola e alguns pedaços de torresmo.
Assim que abri a panela, senti um cheiro maravilhoso.
Fiquei paralisada, olhando para toda aquela comida.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:57 pm

Ele, vendo que eu não pegava a comida, rindo, disse:
— Pode comer.
— Mas essa comida não é para o senhor?
— É, mas pode comer.
Tenho outra aqui.
— Pegou uma cuia, também enrolada em um pano:
— Aqui tem farinha, pode comer.
— Eu estava com muita fome.
Joguei um pouco de farinha sobre a comida e comecei a fazer bolinhos, dava um para Jacinto e comia outro.
A comida estava deliciosa.
Enquanto eu comia, ele falou:
— Meu nome é Horácio.
Moro, com minha mulher e três filhos, todos homens, em uma pequena fazenda rio acima.
Tenho um amigo que vive em uma fazenda perto do povoado.
De vez em quando, eu o visito ou ele vem me visitar.
Ontem à noite, quando fui me deitar, não pensei nele, mas hoje pela manhã, assim que acordei, senti uma vontade imensa de ir até a fazenda para ver como ele está.
Minha mulher perguntou por que eu não deixava para amanhã, eu respondi que não sabia o porquê, mas que precisava ser hoje.
Por me conhecer, sabia que eu não ia mudar de ideia e preparou minha comida.
Sempre faz só uma, mas desta vez, não sei explicar, fez duas.
Acho que era só para ajudar você.
— Ao ouvir aquilo, sorri e disse:
— Era mesmo, foi Oxalá e Oxum que mandaram o senhor vir me ajudar.
Ele, rindo, disse:
— Sei que está falando dos deuses dos negros.
Não conheço nenhum deles, mas acho que tem razão.
Na vontade que eles tiveram para ajudar você, fizeram com que eu acordasse cedo e viesse antes do nascer do dia.
Eles são bons, mesmo!
— São, sim.
Já me ajudaram muito...
Dona Justina disse:
— Que homem bom, Lindinha.
— Ele é muito bom, mesmo, mãe.
Salvou a minha vida.
Lindinha continuou:
— Depois de comer, Jacinto adormeceu e eu o coloquei deitado no meio da canoa.
Odila acordou.
Eu sabia que ela estava com fome.
Tirei-a do cesto e comecei a dar de mamar.
Enquanto ela mamava, ele disse:
— Você disse que está fugindo.
Fugindo de quem?
Eu me lembrei de Jacinto e, chorando, contei tudo o que havia acontecido.
Quando terminei de falar, ele, nervoso perguntou:
— Ele matou o próprio filho?
— Matou e se, eu não tivesse fugido, tinha matado a mim e às crianças.
Ele é muito ruim...
— Como é o nome dele?
— Coronel José Maria.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:57 pm

— Já ouvi falar dele.
Dizem que é muito rico, que tem várias fazendas.
— Eu sei que ele tem aquela em que eu nasci e esta onde estão as meninas.
Quando cheguei, vi a casa grande, mas ele não parou a carroça, me levou directo para a casa onde tem muitas meninas.
— Ele ainda tem escravos?
— Tem. Naquela fazenda em que eu nasci, há muitos que trabalham na lavoura de café.
Nesta daqui não deu para eu ver.
— O que ele está fazendo é crime!
Você não sabe que a escravidão acabou?
— Acabou, como?
— A princesa Isabel libertou todos os escravos.
Princesa?
Que princesa?
— Não sei o porquê, mas ele riu e disse:
— Aquela que manda no Brasil.
— O senhor está falando que não tem mais escravos?
— Não tem mais.
Todos foram libertados.
Louvado seja!
— Você e as meninas que estão naquela casa não são mais escravas.
Todas devem ter nascido depois da Lei do ventre livre.
— Que lei é essa?
— Todas as crianças que nasceram depois dela não são mais escravas.
— Nunca ouvi falar nessa lei e acho que os meus pais também.
— Esse malvado, como você diz, é um criminoso.
Apesar da lei, ele continuou sendo dono das crianças que nasciam e tem escravos até hoje.
Não se preocupe, hoje mesmo, assim que chegar ao povoado, vou mandar uma carta para meu irmão.
Ele é comandante da polícia.
Vou contar tudo o que você falou.
O malvado vai ser preso.
— Ele vai ser preso?
— Sim, não só por ter matado o seu marido, mas também por manter, até hoje, escravos em sua fazenda.
Ao ouvir aquilo, dona Justina perguntou, gritando:
— Louvado seja!
Aquele monstro vai ter o que merece?
O senhor Sebastião, que até agora ouvia calado tudo o que Lindinha falava, levantou-se, andou alguns passos e, chorando, ajoelhou-se.
Ficou falando coisas que eu não entendia.
Mais calma, dona Justina falou:
— A maldade dele vai acabar, minha filha.
Agora, continua contando como foi que você chegou aqui.
— Ficamos na canoa por muito tempo.
Acho que umas duas horas.
Vimos uma ponte de madeira.
Ele encostou a canoa na margem e amarrou a canoa na ponte, me ajudou a descer, depois me deu Jacinto e, por último, Odila.
Depois, ele desceu e começamos a caminhar.
Ele carregava Jacinto no colo.
Eu resolvi que seria melhor não levar o cesto onde Odila estava, pois ele era pesado.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:57 pm

Peguei minha menina no colo e começamos a andar.
Andamos por algum tempo em uma trilha no meio do mato.
Ele caminhava, calado, com Jacinto no colo e eu, logo atrás, carregava a sacola e Odila.
Apareceu uma trilha grande com uns ferros de cada lado.
Nunca tinha visto algo igual.
Parei e fiquei olhando aqueles ferros que sumiam.
Ele, percebendo minha curiosidade, rindo perguntou:
— Nunca viu uma estrada de ferro?
— Estrada de ferro, o que é isso?
Por aqui passa o trem.
— Trem?
— Vendo que eu nunca tinha visto um trem, ainda rindo, respondeu:
— O trem anda por esse caminho de ferro.
Esses ferros se chamam trilhos.
O trem, por esses trilhos, carrega pessoas e café para São Paulo.
— Não entendi muito bem o que ele disse, mas fiz de conta que entendi.
Continuamos andando até que eu vi, ao longe, uma casa grande.
Perguntei:
— Que casa é aquela?
— É a estação de trem.
Aqui, ele pára, pega as pessoas e as sacas de café e segue viagem.
Ali, vamos encontrar algo para comer.
— Atravessamos os ferros e andamos mais um pouco.
Vi que ao lado da estrada havia muitas casinhas feitas com madeira.
Perguntei:
— As pessoas moram nessas casinhas?
— Moram. A estação acabou de ser montada aqui.
O povoado é pequeno.
É nessas casas que os trabalhadores da estrada moram.
— Chegamos e entramos na casa grande.
Ela era grande mesmo.
O senhor Horácio parou em frente a uma janela grande que tinha um balcão, igual àquele da fazenda.
Vi que lá dentro havia coisas para Jacinto comer.
Ele pediu alguns pães de queijo.
Eles estavam borrachudos, mas eu, ele e Jacinto comemos com muita vontade.
Depois de comermos, ele disse:
— Ali tem água.
Pode usar e lavar as crianças.
— Olhei para a porta que ele apontou e, com as crianças, fui até lá.
Entrei e vi coisas que nunca havia visto.
Olhei tudo, uma coisa branca no chão e outra pendurada na parede.
Na parede, em cima daquela coisa que estava pendurada, tinha outra coisa estranha.
Não sabia o que fazer.
Voltei para junto do senhor Horácio que, assim que me viu, perguntou:
— Já usou o banheiro e lavou as crianças?
— Fiquei sem saber o que responder.
Ele, percebendo que eu não tinha feito nada daquilo, riu:
Venha comigo.
— Eu o acompanhei.
Entramos e ele, olhando para aquela coisa estranha que tinha no chão, falou:
— Ali, você vai sentar e fazer suas necessidades e, ali, você vai virar assim e veja o que acontece.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:58 pm

Ele virou a coisa que tinha na parede e um monte de água começou a sair.
Eu nunca tinha visto uma coisa como aquela.
Comecei a rir.
Ele, também rindo, saiu e fechou a porta.
Com minhas mãos, peguei a água que saía, lavei meu rosto e passei um pouco pelos cabelos.
Depois, lavei Jacinto, peguei o lado do avesso do vestido que estava usando e enxuguei meu rosto e meu filho.
Fiz o mesmo com Odila que estava toda sujinha, coitadinha.
As roupas que eu havia lavado na canoa estavam secas, coloquei nos dois.
Eu não tinha pegado roupas para mim.
Apesar de estarem sujas, precisava continuar com elas mesmas.
Saímos e Horácio, como sempre, rindo, olhou para Jacinto:
— Você está muito bonito, menino!
Jacinto, também rindo, apontou para um vidro que estava no balcão:
— Quero aquilo!
— Ele estava apontando para um vidro com balas dentro.
O senhor Horácio pegou algumas balas e deu na mão dele.
Depois, disse:
— Agora, preciso pegar um cavalo e ir até a fazenda do meu amigo.
A cidade tem poucos moradores, mas acho que vai encontrar alguém que a ajude.
Infelizmente, não trouxe dinheiro para deixar com você.
Acha que vai ficar bem aqui?
— Eu não achava.
Estava com medo, mas aquele homem já havia me ajudado tanto, não achei justo pedir que fizesse mais nada.
Sorri e, segurando a mão que ele estendia, respondi:
— O senhor já fez muito por mim e pelas crianças.
Se não tivesse me ajudado, eu não teria conseguido chegar até aqui.
Vou andar por aí e encontrar alguém que me ajude.
— Ele apertou minha mão e se afastou.
Eu fiquei ali olhando de um lado para outro.
A estação estava quase vazia.
Sentei em um banco feito de madeira e fiquei pensando no que poderia fazer.
Eu só tinha visto aquelas casas, pequenas, ao lado da estrada.
Não sabia se, além delas, havia outras.
Precisava sair dali e procurar ajuda, mas quem ia me ajudar?
Outra vez, pedi ajuda para Oxalá e para Oxum.
Se alguém pudesse me ajudar, naquele momento, seriam eles.
O homem que estava atrás do balcão saiu e veio até onde eu estava.
Aproximou-se e perguntou:
— Para onde você está indo, moça?
— Comecei a chorar e respondi:
— Não sei, só sei que preciso de ajuda.
Minhas crianças são muito pequenas.
— Por que está viajando sozinha com essas crianças?
— Não sei por que, mas contei para ele o que havia acontecido comigo e com o meu Jacinto.
Ele perguntou o nome do malvado.
Eu disse e ele, parecendo assustado, disse:
— Você não pode ficar por aqui.
Ele é conhecido e vem sempre para tomar o trem e ir para São Paulo.
— Fiquei desesperada e com muito medo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:58 pm

Chorando, perguntei:
— O que vou fazer?
Se ele me encontrar, vai me matar e também às minhas crianças!
— Acalme-se, moça.
Daqui a pouco, aquela janela vai se abrir e um homem vai começar a vender as passagens para São Paulo.
— Não tenho dinheiro, como vou pagar por uma passagem?
— Vou conversar com ele e ver o que pode ser feito.
Ele é um bom homem e, se puder, vai ajudar você.
Agora, preciso voltar para o balcão.
Fique aqui e vamos esperar que ele chegue.
— Fiquei ali por mais algum tempo.
Vi que um homem entrava na sala onde havia uma janela.
Logo depois, ele abriu a janela e o homem do balcão foi conversar com ele.
Enquanto conversavam, olhavam para mim.
Eu estava ansiosa para ver o que iam resolver.
Depois de conversarem, o homem do balcão veio até onde eu estava e falou:
— Conversamos.
Ele não pode deixar você embarcar no trem se não tiver uma passagem, porque, durante a viagem, o fiscal vai conferir.
Se você não tiver passagem, quando chegar à estação, manda prender você.
Ele disse que o que pode fazer é colocar você e as crianças em um vagão de carga.
É apertado, mas você pode viajar sem medo, pois o fiscal não vai lá.
— Fiquei ali, sentada, olhando para todo o lado.
As pessoas começaram a chegar.
Algumas carregavam malas, outras sacolas e iam se acomodando.
Olhavam para mim, mas não diziam nada.
Depois de algum tempo, ouvi um barulho muito alto, parecendo que um pássaro muito grande cantava.
Vi uma coisa grande se aproximando.
Deduzi que aquilo devia ser o trem.
As pessoas foram indo para perto dos trilhos e, assim que ele parou, começaram a entrar.
Eu continuei ali, sentada, esperando para ver o que ia acontecer.
Sabia que não tinha a passagem e que, por isso, não poderia entrar.
Um homem desceu do trem.
Ele usava uma roupa igual a outros homens que estavam ali.
Foi até a janela e ficou conversando com ele.
Conversavam e olhavam para mim.
Depois de algum tempo, se aproximou e falou:
— Moça, sou o maquinista.
Estava conversando com o José, aquele que vende as passagens, e ele pediu que eu a levasse para um vagão de carga.
Vou levar você para um que não está muito cheio.
Venha comigo.
— Eu, sem saber para onde estava indo, mas acreditando na bondade dos deuses, peguei Jacinto pela mão, a sacola e, com Odila no colo, acompanhei o homem.
Ele me fez entrar em uma caixa grande, dizendo:
— Aqui não é muito confortável, mas vai ficar bem.
Não pode descer nem quando o trem parar na estação.
Somente amanhã bem cedo, quando chegarmos a São Paulo, eu venho até aqui e vou acompanhar você até fora da estação.
Ele fechou a porta e foi embora.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 7:58 pm

O trem apitou novamente e começou a andar.
As crianças adormeceram.
Na caixa, tinha algumas sacas de café.
O cheiro era forte e eu comecei a sentir falta de ar.
Percebi que as forças me faltavam.
Sentia muita tontura e não conseguia segurar a cabeça.
Sem conseguir me controlar, tive uma vontade imensa de deitar.
Achei que ia morrer e fiquei preocupada com as crianças.
Algum tempo depois, eu melhorei e vi que tinha frestas entre as madeiras da caixa.
Fui até uma delas e respirei com muita força.
Aquele ar gelado me fez bem.
Voltei para junto das crianças e arrastei os sacos em que elas estavam deitadas para junto da fresta.
Depois, peguei outro saco e as cobri.
Em seguida me deitei ao lado delas e também adormeci.
Só acordei quando a porta se abriu e vi o maquinista que, tentando sorrir, falou:
Chegamos à cidade grande.
Não sei o que vai ser de você, moça.
Confie em Jesus Cristo e em Nossa Senhora que alguém vai aparecer para ajudar você.
Agora, pegue a sua sacola e as crianças, desça e acompanhe as pessoas que estão saindo do trem.
Elas vão para fora da estação.
As crianças ainda estavam dormindo.
Acordei Jacinto, peguei Odila e a sacola e saí do trem.
As pessoas saíam e eu fui junto com elas.
Quando cheguei, vi aquela casa grande e bonita.
Sentei. Estava fraca.
Senti que ia morrer e resolvi que precisava dar as minhas crianças para alguém cuidar.
Foi aí que apareceu Domingos.
O resto vocês já sabem.
Agora, não me importo com nada do que aconteceu, porque eu encontrei a senhora e o senhor de novo.
Tive de passar por tudo isso, para estar aqui.
Apesar de estar sozinha com as crianças, nunca me senti abandonada.
Parecia que sempre tinha alguém para me ajudar a chegar até aqui.
Acho que foram os deuses que tomaram conta de mim e das minhas crianças.
Dona Justina pegou o marido que ainda estava ajoelhado, fez com que se levantasse e, chorando, os três se abraçaram:
— Foram eles sim, minha filha!
Eles trouxeram você para os nossos braços de novo!
Todos nós estávamos tomados de muita emoção.
Imaginávamos tudo o que aquela menina havia passado e a felicidade que sentia pelo reencontro com os pais.
Após alguns minutos, dona Justina voltou-se para Domingos e, ainda tomada de muita emoção, disse:
— Agora é o senhor, seu Domingos.
Como tem um colar igual àquele que dei para os meus filhos?
Quem deu para o senhor?
Sei que é da minha família, só não sei como.
Precisa me dizer.
Domingos, parecendo se lembrar do passado, disse:
— Também quero essas respostas, dona Justina.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:23 pm

Não sei de que maneira, mas, mesmo assim, estou feliz em pertencer a sua família.
Para descobrirmos isso, acho que precisam conhecer a minha história.
Só assim, teremos as respostas.
Vou contar, só que não pode ser hoje.
Assim que terminarmos de jantar, vou para o meu trabalho.
— Não pode faltar, apenas hoje?
— Não, dona Beatrice, tenho responsabilidade.
Amanhã cedo, quando o trem chegar, a estação precisa estar limpa e os passageiros têm que ser bem recebidos.
Vou para o trabalho.
Prometo que, amanhã, conto tudo o que aconteceu em minha vida.
Odila fechou o caderno, dizendo:
— Essa é a história da minha mãe.
Ela foi uma heroína.
— Foi mesmo, tia.
Tão nova e já com tanta responsabilidade.
Se pensarmos bem, foi bom tudo aquilo ter acontecido.
Só assim ela conseguiu voltar para os pais.
Olavo, que ouviu a história atentamente, perguntou:
— Mãe, acho estranho eles dizerem que foi Oxalá e Oxum que a ajudaram.
Para mim, ela encontrou pessoas boas.
Foi só por acaso.
Eles estavam lá quando ela precisou.
— Não existe acaso, meu filho.
Hoje, aceito de coração que existem coisas além da nossa imaginação e que sempre, nos piores momentos, temos protecção.
Sinto que, todas as vezes em que precisei, alguma coisa ou alguém apareceu para me ajudar.
Elas acreditavam que foram Oxalá e Oxum.
Eu acredito que foram amigos espirituais, mas os nomes não importam.
O que importa é que nunca estamos sós, sempre temos protecção.
— Acredita mesmo nisso, mãe?
— Claro que sim, Olavo.
Estamos na Terra como se estivéssemos em uma escola.
Aqui, aprendemos sempre e cada vez mais, até o dia em que conseguiremos atingir a perfeição.
— Ora, mãe! Isso de religião é conversa!
Deus não existe, nascemos, vivemos e morremos!
O resto é tudo enganação para que as religiões continuem com o poder!
Simples assim.
— Simples assim?
Sinto muito por você, Olavo, se contentar com tão pouco.
— Como tão pouco?
— Em achar que a vida se resume aos poucos anos que vivemos aqui.
A humanidade, desde a sua criação, sempre acreditou em deuses, em algo além.
Houve um período em que se adorou o sol, a lua e até gatos.
Todas as religiões, sem excepção, acreditam em uma continuação depois da morte.
— É tudo enganação, mãe!
Continuo dizendo que, quando eu morrer, acabou, não tem essa de céu ou de inferno.
Não existe nada!
Pois acredito, e muito, que haja alguma coisa, sim!
Acredito que somos responsáveis por nossas acções e que, para cada acção, sempre existe uma reacção.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:23 pm

Tudo o que fazemos de bom ou de mau, é sempre nossa responsabilidade e, para qualquer coisa que fizermos, sempre haverá volta.
— Eu prefiro continuar pensando que não existe nada além desta vida.
— Nada posso fazer para que mude de ideia, meu filho.
A vida sempre se encarrega de nos mostrar a verdade.
Carlos olhou para o caderno que estava na mão de Odila e perguntou:
— Por que a senhora fechou o caderno, tia?
Ela abriu o caderno, mostrou a última página e, rindo, disse:
— Porque acabou.
— Como acabou?
Precisamos saber o resto da história!
— Não se preocupem, tem outro caderno.
Está no meu quarto.
Não peguei porque não achei que íamos ficar aqui até tão tarde.
Poderia ir buscar, mas olhem o relógio, são três horas da manhã.
Precisamos dormir!
— Não, mãe! Eu não estou com sono!
Você está, Carlos?
— Nem um pouco!
A senhora está cansada, tia?
— Eu estou cansada, mas acho que o melhor e continuarmos.
Já li esses cadernos muitas vezes.
Conheço bem a história e poderia contá-la, mas acho que, contada pelas palavras de Beatrice, nos mínimos detalhes, fica muito melhor.
— Também acho, mãe.
— Está bem, vou pegar o caderno.
Espero que Genaro não acorde, pois, se isso acontecer, ele vai ficar muito bravo.
Saiu da sala.
Olavo e Carlos ficaram ali, esperando ansioso para saber o restante da história.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:23 pm

A história de Domingos
Logo depois, Odila voltou com outro caderno na mão.
Sentou-se, abriu o caderno e, sob o olhar atento de Olavo e Carlos, começou a falar:
Beatrice continuou escrevendo:
No dia seguinte, Domingos trouxe carne, batata e um litro de vinho.
Enquanto eu e dona Justina preparávamos a comida, ele e o senhor Sebastião pegaram em suas cozinhas duas mesas e as colocaram no quintal.
Quando a comida ficou pronta, Lindinha deixou Odila deitada na cama e, com Jacinto no colo, sentou-se ao lado da mãe.
Coloquei Genaro no seu cadeirão e me sentei ao lado dele.
Domingos e o senhor Sebastião sentaram-se do outro lado.
Alegremente, começamos a comer.
Giuseppe não costumava vir para o jantar, por isso não esperamos por ele.
Porém, ele chegou e ao nos ver ali sentados, comendo e conversando, foi directo para o quarto.
Pela maneira como estava colocado o chapéu em sua cabeça, percebi que ele havia bebido.
Normalmente, ele colocava chapéu um pouco virado para o lado direito.
Quando bebia, colocava-o todo para trás.
Sabia que, se fosse outro dia qualquer, provavelmente me espancaria, mas ali, com todos nós juntos, ele não se atreveria.
Percebendo que ele não estava bem, levantei-me e entrei no quarto.
Ele estava tirando a camisa e parecia nervoso.
Assim que entrei, olhou-me com muita raiva e perguntou com a voz baixa para que os outros não ouvissem o que falávamos.
— O que está acontecendo, que festa é essa?
— Resolvemos fazer um jantar.
— Jantar? Porquê?
O que temos a ver com isso?
— São nossos amigos e estou feliz por dona Justina.
— Feliz, por quê?
São apenas nossos vizinhos!
— São mais do que vizinhos!
Dona Justina me trata como filha e eu a considero como uma mãe!
— Mãe? É apenas uma negra velha!
— Foi ela quem levou você para conhecer sua patroa!
É por causa dela que tem a sua empresa e ganha muito dinheiro!
— Tenho minha empresa e consegui muito dinheiro porque sou bom no que faço!
Se não trabalhasse bem, não adiantaria ela ter me apresentado a ninguém!
— Como você pode ser tão ingrato, Giuseppe?
Ele, furioso, agarrou-me pelos ombros e me jogou sobre a cama deitada de bruços!
Em seguida, pegou minha caixa de costura, pegou uma agulha e, enquanto tirava minha blusa, falou em minha orelha:
— Não quero que ninguém ouça o que está acontecendo aqui.
Por isso, não se preocupe.
Embora mereça, não vou bater em você com a cinta.
Respirei fundo e agradeci a Deus, mas, para meu desespero, ele começou a enfiar a agulha, bem profundamente, em minhas costas.
Eu sentia a picada, mas não gemi, muito menos gritei, pois sabia que, se fizesse qualquer coisa, ele ficaria mais furioso e não se importaria em me bater, mesmo que todos ouvissem.
Eu não queria isso, pois morreria de vergonha.
Naquele momento, senti muita raiva dele, pois sabia que depois voltaria me pedindo perdão.
O pior é que eu, como sempre aconteceu, perdoaria e ficaria esperando pelas próximas cintadas ou agulhadas.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:23 pm

Como eu quero deixar esta vida, pegar o meu filho e abandonar Giuseppe, mas ir para onde?
Sei que, se eu quiser, Domingos ficará comigo, mas nunca poderemos nos casar e eu não quero nem posso viver em pecado.
Meus pais, mesmo se soubessem o que Giuseppe faz comigo, nunca aceitariam.
Não sei o que fazer.
Queria tanto ter coragem.
Queria tanto não ser covarde...
— Coitada, tia.
Aquele tempo era bem diferente de agora.
— Nem tanto, Carlos.
Embora naquele tempo a sociedade fosse diferente, a mulher sem marido era desrespeitada e julgada como uma perdida.
Ainda hoje existem mulheres que se deixam espancar por medo, vergonha, e falta de coragem de tomar uma atitude.
Elas não se sentem capazes de tocar a vida sem um homem ao seu lado.
Naquele tempo, diferente de hoje, a mulher não tinha como trabalhar, como se sustentar, muito menos aos filhos.
Hoje, existe muito trabalho.
Mesmo assim, muitas continuam com medo de enfrentar a vida sozinhas.
— Não entendo como um homem pode ter a coragem de espancar e humilhar uma mulher, tia.
— Nem eu, Carlos.
Odila notou que Olavo permanecia calado, não participava da conversa nem dava opinião.
Perguntou:
— O que você acha de tudo isso, Olavo?
Parecendo voltar de um lugar distante, nervoso, respondeu:
— Acho sobre o quê, mamãe?
— Como o quê, Olavo?
Não ouviu o que eu li a respeito do que Giuseppe fazia com Beatrice?
— Ouvi, mamãe, claro que ouvi, mas fiquei pensando que estamos ouvindo apenas um lado da história.
Não podemos nos esquecer de que ela o traiu!
— Entendo que ela o traiu e que não deveria ter feito isso, mas não podemos nos esquecer de que ele, antes disso, já a espancava.
Será que se ele continuasse a ser como no começo, um marido bom, cuidadoso e que a respeitasse como mulher dele, aquela que escolheu para viver ao seu lado para sempre, ela teria feito isso?
Ele, nervoso, levantou-se e falou alto:
— Assim como vocês dizem que não há justificativa para que um homem bata em uma mulher, também não há justificativa para que haja a traição!
A traição dói como se fosse uma cintada!
— Por que está nervoso assim, Olavo?
Por que essa história de traição?
Você foi traído?
Só naquele momento, ele percebeu que havia se exaltado.
Tentando remediar o que havia dito, tentando sorriu e respondeu:
— Não, mamãe, nunca fui traído, mas imagino o que uma traição deve fazer em qualquer ser humano.
Deve doer muito.
— Tem razão, deve ser destruidor, mas, antes de responder com pancadas, o melhor a fazer é que haja uma separação, pois, no momento em que a traição acontece, significa que não existe mais amor ou respeito.
Carlos, que até aí estava calado ouvindo os argumentos dos dois, olhando, primeiro para lavo e depois para Odila, disse:
Concordo com a senhora, tia.
Para esses dois casos, o melhor remédio é a separação.
Só assim ambos poderão recomeçar suas vidas.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:24 pm

Olavo, percebendo que aquela conversa estava caminhando por um caminho que ele não queria, interrompeu:
— Acho melhor pararmos com essa conversa.
Afinal, estamos acordados até agora para conhecermos a história de nossos avós.
Pode continuar lendo, mamãe?
— Claro que sim, Olavo.
Beatrice escreveu:
Depois que se cansou de enfiar as agulhas, Giuseppe vestiu uma camisa limpa e saiu do quarto.
Eu sabia que ele ia para a farra e que voltaria bêbado, como já fazia há algum tempo.
Fiquei ali deitada com dor e sentindo que o sangue corria pelas minhas costas, mas a pior dor que sentia era a de não ter coragem de reagir, de ir embora ou até mesmo de me matar.
Continuei ali, deitada, sem coragem de sair do quarto.
Alguns minutos depois, dona Justina bateu de leve à porta e a abriu.
Perguntou baixinho:
— Você não vem jantar, menina?
Ao ouvir sua voz, chorando, levantei-me e abracei-me a ela:
— Não posso sair, sei que todos sabem o que aconteceu.
Estou com dor e com muita vergonha por não reagir, por não deixar Giuseppe, mesmo que fosse para cair na vida...
— Deixe disso, menina.
Ele é seu marido e você tem de ter paciência.
Os homens são todos iguais.
Eles sabem que são os nossos donos.
Vamos fazer o quê?
— Não está certo, dona Justina!
Não está certo!
— Também acho que não está certo, mas é assim que é, menina.
Agora, enxugue os olhos, passe um pente pelos cabelos e vamos jantar.
Todos estão esperando por você.
Hoje é um dia especial e feliz, não vamos deixar que seu marido estrague a nossa felicidade.
Vamos, menina...
Não podia permitir que Giuseppe estragasse mais uma noite.
Fiz o que ela havia sugerido, passei o pente pelos cabelos e saí, tentando sorrir.
Sentei-me ao lado do cadeirão onde Genaro estava sentado e começamos a comer.
Nenhum deles disse coisa alguma a respeito do que havia acontecido e o porquê de Giuseppe ter ido embora em um dia tão importante como aquele.
Eu procurei me mostrar feliz e conversar como se nada tivesse acontecido, pois, no meu íntimo, estava feliz pela felicidade daquelas pessoas que haviam nos ajudado tanto.
Enquanto comíamos, dona Justina olhava com carinho para Lindinha que comia rápido, como se aquela fosse a última vez que comeria.
Quando terminamos de comer, Domingos, levantando-se, disse:
— Enquanto comia, estive pensando que preciso contar minha história, pois só assim vamos descobrir quem sou eu na sua família, dona Justina.
— Quero muito que você conte, meu filho.
— Preciso trabalhar, não posso faltar.
A estação precisa estar em ordem até amanhã, quando o trem chegar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:24 pm

Vou até a casa de um amigo e ver se ele pode ir no meu lugar.
Se ele puder, volto aqui e conto tudo o que aconteceu comigo.
— Faz isso, meu filho, vá até lá e volte logo!
Ele, sorrindo, levantou-se e saiu.
Nós ficamos ali.
Conversamos mais um pouco, tiramos a louça da mesa e fomos até a minha cozinha para lavar.
Mais ou menos meia hora depois, Domingos voltou e, rindo, disse:
— Meu amigo concordou em ficar trabalhando na estação até que eu chegue, por isso não posso me demorar muito.
Ele não perguntou nem eu contei o motivo, mas preciso saber que parentesco tenho com a senhora, dona Justina e com o senhor, seu Sebastião.
Para descobrirmos isso, vou contar a minha história.
Dona Justina, abraçada a Lindinha, sorriu:
— Conta, meu filho, conta.
Ele começou a falar.
O barão, meu pai, que havia ficado viúvo e tinha duas filhas pequenas, comprou minha mãe, que só tinha doze anos, para que o ajudasse a cuidar das meninas.
A maior tinha oito; a outra, seis.
Minha mãe me contou que a mãe dela ficou desesperada, porque ela era sua primeira filha e não queria que fosse levada.
Pediu e implorou.
Mesmo assim, o seu senhor, que era muito mau, vendeu minha mãe e ela teve de ir embora.
Nesse dia, minha avó fez e deu o colar para minha mãe, que me contou essa história um pouco antes de morrer.
Ao ouvir aquilo, dona Justina, largou Lindinha, olhou para o marido e, chorando, se abraçou a Domingos:
— Obrigada, meu pai!
Conta, meu filho, conta qual é o nome da sua mãe..
Domingos, também emocionado, continuou falando:
— O nome dela era Iara.
— Iara? Olha, meu velho, ele é filho da nossa Iara!
Ele é nosso neto!
O senhor Sebastião, que ainda chorava abraçado à Lindinha, se aproximou de Domingos e, chorando, se abraçou a ele, mas, emocionado, não conseguiu dizer uma palavra.
Depois do abraço, afastou-se de Domingos que, com lágrimas nos olhos, continuou falando:
— Quando ela chegou à casa do barão e as meninas viram que ela era escrava, acharam que podiam fazer com ela o que quisessem.
Minha mãe disse que elas fizeram todo tipo de maldade:
davam-lhe beliscões, puxavam-lhe os cabelos, batiam nela com um chicote e faziam com que ela comesse todo tipo de coisas nojentas.
Criança, sem saber se defender e achando que, por ser escrava, precisava suportar tudo aquilo, ela apenas chorava e implorava para poder voltar para casa, para junto de seus pais.
Ela disse que o barão era diferente e que sempre a tratava com carinho e que, quando descobria que as meninas estavam fazendo maldade com ela, castigava as duas.
Domingos continuou:
— Ela não me contou como aconteceu, só sei que, quando ela tinha quatorze anos, eu nasci.
Ela disse que por eu ser homem, o barão ficou muito feliz e começou a tratá-la como se fosse sua esposa.
Comprou uma escrava para que a ajudasse a cuidar de mim.
Lembro-me dele sempre ao meu lado, brincando e até me ensinou a andar a cavalo.
Contratou professores para me ensinar a ler e a escrever.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:24 pm

As filhas dele nunca aceitaram minha mãe nem a mim, mas eu não entendia e sempre que elas faziam algo para me magoar, eu contava a ele.
Ele, além de brigar com elas, que já eram grandes, dizia que tinham de me respeitar e cuidar de mim, pois eu era irmão delas.
Eu era uma criança muito feliz.
Não sabia da diferença que existia entre brancos e negros.
Minha mãe ficou doente e morreu quando eu tinha oito anos.
Ao ouvir aquilo, dona Justina, ainda chorando, disse:
— Pobre da minha filha.
Levada embora tão cedo...
Domingos continuou:
— Enquanto viveu ao lado do meu pai, ela foi muito feliz, dona Justina.
Meu pai, o barão, como gostava muito dela, ficou infeliz e calado.
Não tinha com quem conversar, pois seus amigos mais antigos, quando souberam de mim e de minha mãe, se afastaram.
Suas filhas aproveitaram a tristeza dele e me batiam.
A todo momento me chamavam de negrinho sujo.
Eu não me importava e, por ser menino e mais esperto, sempre conseguia fugir delas.
Meu pai dizia que eu era o negrinho mais lindo que ele já tinha visto e que, quando ele morresse, eu tomaria conta de tudo o que ele tinha.
Em uma tarde em que eu e ele estávamos lendo na biblioteca, ouvi um gemido.
Corri para ele, que estava com a mão esquerda sobre o peito.
Tentei segurá-lo, mas não consegui.
Ele caiu no chão e não se mexeu mais.
Gritei por ele e, chorando, chamei minha babá, Jussara, que estava no quarto ao lado.
Ela, ao ouvir meu grito, veio correndo, olhou para meu pai e viu que ele estava morto.
Eu não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo.
Só sentia que algo muito ruim havia acontecido com ele.
Nos dias que se seguiram, foi só tristeza.
Jussara me contou que ele havia morrido e que seria enterrado ao lado de sua primeira esposa.
Perguntei:
— Por que ele não vai ser enterrado ao lado da minha mãe?
Sei que ele gostava muito dela.
— Ela sorriu e, beijando minha testa, disse:
— Gostava, sim, meu menino, mas a família não permitiria uma coisa como essa.
Porém, não se preocupe, sei que, neste momento, eles estão juntos.
Nunca vi um amor tão bonito como o deles.
— Dois dias depois de meu pai ser enterrado, descumprindo as ordens dele, suas filhas se aproximaram.
Maria Rita, a mais velha, trazia uma sacola nas mãos e, furiosa, gritou:
— Negrinho sujo!
Sua boa vida acabou!
Pegue esta sacola e vai embora daqui!
— Não vou! Esta casa é minha!
Sua? Coisa nenhuma!
Ela era de nossos pais e, agora que os dois morreram, é só nossa!
— Embora eu tivesse doze anos, ainda não tinha me desenvolvido e era pequeno.
Para mim, elas eram como gigantes.
Vendo que eu não me mexia, elas começaram a me bater e a me empurrar para fora da casa.
Continuaram fazendo isso pelo quintal, até chegarmos ao portão de ferro, onde havia o brasão do meu pai.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:25 pm

Com muita força, me jogaram para fora.
Enquanto elas me empurravam e batiam, alguns escravos da casa tentaram me proteger, mas elas os ameaçaram e eles tiveram de ficar parados.
Minha babá chorava sem parar, mas nada pôde fazer.
Só naquele momento, eu percebi a diferença que existia entre brancos e negros.
Entraram e mandaram que um dos escravos fechasse o portão.
Ele, com lágrimas nos olhos, foi obrigado a obedecer.
Fiquei ali, por muito tempo, batendo no portão e chamando por elas, mas nada aconteceu.
Depois de algum tempo, entendi que com apenas doze anos, estava sozinho e precisava encontrar um lugar para ficar.
Carlos, ao ouvir aquilo, não suportou.
Levantou-se e falou alto:
— Tia! Quanto mais a senhora lê, mais revoltado eu fico!
Como, naquele tempo, havia tanta maldade!
Odila, tentando sorrir, disse:
— Realmente, Carlos, havia muita maldade, mas você acha que hoje é diferente?
— Não vejo coisas assim acontecendo.
— Talvez não no nosso meio, entre as pessoas que conhecemos.
Entretanto, será que a maldade não existe entre aquelas que não conhecemos?
Você não acha que, ainda hoje, existam aqueles que, aproveitando-se do poder que exercem sobre as outras pessoas, não praticam actos maldosos contra elas?
Você acha que, ainda hoje, não existem homens que surram suas mulheres que, por terem menos força e medo de viver sozinhas, aceitam, caladas?
Carlos olhou para Olavo que estava com os olhos abaixados e respondeu:
— É verdade, tia, ainda existe muita maldade.
Talvez, por causa das leis que hoje existem, elas sejam de uma maneira diferente, mas não há dúvida de que elas existem.
— Existem e vão continuar a existir por muito tempo, até o dia em que as pessoas se reconhecerem como iguais.
Segundo a minha doutrina, reconhecendo-se como espíritos livres, as pessoas podem libertar-se e enfrentar a vida como ela vier.
Olavo, que até ali ouvia, calado, o que os dois falavam, disse:
— Continue lendo, mamãe.
O que o menino fez?
Vou continuar lendo o que Beatrice escreveu.
Tem muita coisa ainda.
— Domingos continuou:
— Ao ver que elas não iam abrir o portão e que eu estava sozinho no mundo, me levantei, peguei a sacola e, batendo com força no portão, gritei:
Eu vou crescer, vou voltar e matar vocês duas!
Beatrice, ao ouvir aquilo, indignada, perguntou:
— Perdido, com doze anos?
Como sobreviveu, senhor Domingos, o que fez?
— Quando me vi na rua, fiquei sem saber o que fazer ou para onde ir.
Comecei a andar de um lado para outro até chegar à estação.
Estava escurecendo.
Depois de andar o dia todo, eu estava com fome e com muito medo.
Olhei para um lado e para outro, percebi que não havia muitas pessoas.
Sentei atrás de um banco que estava quase encostado à parede e fiquei quieto.
O espaço era pequeno, mas eu sabia que, ali, seria difícil alguém me encontrar e me fazer mal.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:25 pm

A fome era muita.
Meu estômago doía, mas, com medo e com muita raiva daquelas duas desalmadas, fiquei ali.
Eu não sabia o que fazer.
Lembrei-me de minha mãe que sempre dizia:
— A gente tem um anjo da guarda que cuida da gente o tempo todo.
Se algum dia, você ficar sozinho, com medo, reze para o seu anjo.
Sei que ele vai ajudar.
— Assim que me lembrei do que ela sempre dizia, comecei a rezar:
— Mãe, a senhora está no céu, junto do meu pai e do meu anjo da guarda, pede para ele me ajudar.
Estou com fome e com muito medo.
Não sei, mas acho que ela me ouviu, um homem estava varrendo a estação, quando me viu ali, todo encolhido.
Aproximou-se e perguntou:
— O que está fazendo aí escondido, menino?
— Não entendi o que ele perguntou.
Nunca tinha ouvido alguém que falasse daquela maneira.
Mais tarde, vim saber que era espanhol.
Com medo por ter sido descoberto, levantei e tentei fugir, mas ele me segurou pelo braço e falou, só que agora, bem devagar, tentando colocar algumas palavras em português:
— Não precisa ficar com medo.
Não vou fazer mal a você, só preciso saber o que está fazendo sozinho e escondido a esta hora da noite.
Entendi mais ou menos o que ele falou e me lembrei da minha mãe e do anjo da guarda e comecei a chorar.
Ele fez com que eu me sentasse no banco e, sorrindo, de uma maneira que nunca vou me esquecer, perguntou:
— Você está com fome?
Tentando parar de chorar, mas sem conseguir, apenas fiz com a cabeça que sim.
Ele, passando carinhosamente a mão pelos meus cabelos, disse:
Também estou com fome.
Só falta um pedaço pequeno para eu varrer e passar um pano molhado.
Depois, vou parar para comer.
Trouxe comida, está ali, naquela sacola.
Não tem muita, mas vai dar para nós dois.
Espere só mais um pouco.
Não vou demorar muito.
— Olhei para o lugar que ele apontava e vi, sobre um dos bancos, uma sacola.
Sorri. Ele continuou varrendo.
Olhei para o outro lado e vi que tinha uma lata de óleo com água e um pano dentro.
Junto à lata vi um esfregão e pensei que, se eu o ajudasse, ele terminaria depressa e poderíamos comer.
Estava morrendo de fome.
Fui até lá e, enquanto ele varria, tirei o pano de dentro da lata, espremi, coloquei em volta do esfregão e comecei a passar pelos lugares por onde ele varria.
Ele, ao ver o que eu estava fazendo, sorriu e continuou varrendo.
Em pouco tempo, terminamos de limpar o que faltava.
Sorrindo, ele disse:
— Agora, vamos ver o que minha mulher colocou na sacola?
Estou morrendo de fome!
— Fomos até o banco onde a sacola estava.
Ele a abriu e tirou de dentro dela uma panela coberta por um pano.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:26 pm

Curioso e faminto, acompanhei tudo o que ele fazia.
Ele tirou o pano e a tampa que cobria a panela.
Dentro dela, tinha arroz, macarrão e um pedaço de carne.
Como ele havia dito, não era muito, mas ele separou mais ou menos a metade, colocou sobre a tampa e me deu.
A outra metade ele deixou na panela e, rindo, perguntou:
— Como é o seu nome?
Domingos.
— Pois bem, Domingos.
Meu nome é Miguel.
Estamos com um problema.
— Que problema?
— Só temos um garfo.
Vamos fazer o seguinte:
como parece que faz muito mais tempo que você não come do que eu, acho melhor você comer primeiro.
Depois que terminar, eu como.
Peguei a tampa da panela, o garfo e comecei a comer rápido.
Quando terminei, ele limpou o garfo no pano que cobria a panela e, rindo, disse:
— Estava mesmo com fome, Domingos!
Agora, vou comer.
Enquanto eu faço isso, quer me contar o que está fazendo aqui, sozinho a uma hora desta?
Onde você mora?
Precisa voltar para casa.
Tenho de limpar mais um saguão.
Precisa ser agora que quase não tem ninguém na estação.
Amanhã, bem cedo, quando o trem chegar, isto aqui vai ficar fervilhando de gente.
Depois que terminar, vou embora.
Se quiser, posso levar você até sua casa.
— Não tenho casa...
— Como não tem casa?
Contei a ele tudo o que me havia acontecido e, chorando, terminei dizendo:
— Como disse, não tenho casa, não tenho ninguém.
Ele, revoltado, falou alto:
— Como essas moças puderam fazer isso com você?
É ainda uma criança!
Ainda chorando, respondi:
— Não sei... não sei.
Só sei que vou crescer e vou matar as duas!
Ele, rindo, disse:
Nem pense nisso, menino.
Você vai crescer e será um homem de bem.
Não se preocupe com a vingança, ela não faz bem.
Deixe a vingança para Deus, Ele toma conta de tudo.
— Ele disse aquilo, mas eu não acreditei nele, assim como não acreditava em um Deus que tinha permitido que minha mãe morresse, depois meu pai e, agora, deixado que elas fizessem aquilo comigo.
Elas sabiam que meu pai gostava muito de mim, por isso nunca deveriam ter me abandonado.
Eu tinha certeza de que ainda me vingaria.
Sem imaginar o que eu estava pensando, Miguel continuou falando:
— Agora, não precisa chorar mais.
Moro aqui perto com minha mulher e meus dois filhos.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:26 pm

Julinho tem oito anos e Paulinha, seis.
Vamos lá para casa.
Você não pode passar a noite aqui.
Vou deixar você em casa e, depois, volto para cá.
Tenho, ainda, muito o que fazer.
Vai dormir esta noite lá e, amanhã cedo quando eu largar o trabalho e for para casa, vamos resolver o que fazer.
Está bem assim?
— Lembrei-me da minha mãe, do anjo da guarda e, sorrindo, com a cabeça, disse que sim.
Ele conversou com outro homem que limpava o outro lado da estação e me levou.
Andamos cinco minutos e chegamos à sua casa.
Quando chegamos, sua mulher, dona Isabel, estranhou.
Primeiro por ele estar em casa àquela hora; segundo, por eu estar ao lado dele.
Curiosa, perguntou:
— O que aconteceu, Miguel, para estar em casa a esta hora e quem é este menino?
— Só vim trazer este menino.
O nome dele é Domingos.
Ele foi abandonado e não tem onde passar a noite.
Comeu metade da minha comida, mas ainda deve estar com fome.
Prepare alguma coisa para ele comer e um lugar para que possa dormir.
Amanhã, quando eu voltar, vamos pensar no que vamos fazer com ele.
Dizendo isso, pegou um pedaço de pão, passou manteiga e saiu apressado.
Eu estava apavorado.
Olhei para o quarto que era um pouco maior do que temos agora.
Havia duas camas, uma de casal e outra de solteiro.
Um menino e uma menina estavam sentados sobre a cama de solteiro e, calados, me olhavam.
Mais tarde, disseram-me que se assustaram por eu ser mais escuro do que eles.
Dona Isabel, embora desconfiada, me deu um pouco de macarrão e um copo de leite.
Depois, tirou a menina da cama de solteiro e, colocando-a na sua cama.
Olhando para mim, disse:
— Vocês vão dormir aqui.
Um na cabeceira e o outro nos pés da cama, mas, antes disso, precisa trocar suas roupas. Tem alguma?
Só naquele momento, abri a sacola para ver o que tinha dentro.
Havia uma calça e três camisas.
Ela, ao ver as roupas que eu tinha, disse:
— Está bem. Lá na cozinha tem água sobre o fogão e uma bacia.
Lave seus pés e troque essas roupas.
Ainda assustado, obedeci.
Fui até a cozinha, lavei-me e voltei para o quarto.
Olhei para ela que, apontando para a cama, disse:
— Deite-se ali e procure dormir.
Deitei-me.
Demorei muito para dormir.
Não me conformava com aquela situação.
Até aquele dia, eu tinha uma boa vida, uma cama só minha e o carinho do meu pai.
Agora, estava ali, naquela casa de pessoas desconhecidas.
Outra vez, pensei:
elas vão pagar pelo que fizeram comigo!
Finalmente, adormeci e só acordei quando Miguel chegou pela manhã.
Trouxe pão fresco e uma garrafa de leite.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:27 pm

Na minha frente, contou para dona Isabel o que havia acontecido comigo e terminou, dizendo:
— Como ele não tem onde ficar, vai morar aqui em casa.
Ontem, ele me ajudou no trabalho.
Acho que pode ir trabalhar comigo todos os dias.
O que acha, Domingos?
Eu ainda não acreditava que tudo aquilo estivesse acontecendo.
Só sabia que não tinha onde ficar ou para onde ir.
Com a voz trémula, respondi:
— Para mim, está bem.
Vou trabalhar muito para que o senhor não se arrependa de ter me ajudado.
Miguel sorriu:
— Agora, preciso dormir.
Você vai ficar aqui e, se quiser, pode ajudar a Isabel naquilo que ela precisar.
Hoje à tarde, vamos trabalhar juntos na estação.
Vamos ver o que você é capaz de fazer.
Ele foi dormir.
Dona Isabel pegou as crianças e fomos para o quintal.
Enquanto ela cuidava da comida, eu brinquei com os meninos e a ajudei com a lavagem de roupas.
Embora aquela casa fosse diferente da que havia vivido até ali, eu me senti bem.
Dona Isabel não falou muito, mas, quando chegou a hora do almoço, ela me deu a mesma comida que ela e os filhos comeram.
Quando Miguel acordou para ir trabalhar, eu estava pronto para acompanhá-lo.
Fui com ele para a estação e limpamos tudo.
Pela manhã, quando o trem chegou, me assustei com tantas pessoas carregando malas e sacolas.
Elas andavam apressadas.
Parecia que elas queriam sair dali o mais rápido possível.
Enquanto Miguel carregava, no carrinho, algumas malas, eu ia ao seu lado carregando sacolas e pacotes.
Quando a estação ficou vazia, tirei do meu bolso algumas moedas que eu havia ganhado.
Eu estava feliz, pois nunca em minha vida havia visto tanto dinheiro, ainda mais ganhado por mim, com o meu trabalho.
Com as moedas nas mãos, olhei para ele que, rindo, disse:
— Esse dinheiro é seu, Domingos.
O que pretende fazer com ele?
— Olhei para as moedas e para ele e, também rindo, respondi:
— Vou dar ao senhor, pois, se vou morar na sua casa, preciso ajudar de alguma maneira.
— Você é ainda um menino.
Não precisa pagar, pois fui eu quem quis que morasse na minha casa.
É um menino bom, merece que eu o ajude.
— Eu não preciso de dinheiro, nem sei o que fazer com ele.
— Mas eu sei.
Você não pode continuar dormindo na cama junto com os meninos.
Por isso, agora mesmo, vamos à loja de um turco, amigo meu, ele tem tudo lá.
Vamos comprar um colchão para que possa dormir.
Como o quarto é pequeno e não cabe mais uma cama, você vai ter que dormir no chão.
Está bem assim?
— Para mim, está óptimo.
— Saímos dali e fomos para a loja do turco.
Com as minhas moedas, demos entrada e nos comprometemos a pagar o restante todos os meses.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:28 pm

O turco sabia que as minhas moedas não seriam suficientes para pagar as prestações, mas, confiando no senhor Miguel, aceitou.
O colchão, por ser feito de palha, não pesava muito.
Colocamo-lo sobre as nossas cabeças e o carregamos.
Continuei trabalhando e morando com eles.
Nunca mais fui à escola, mas, como meu pai havia pagado um professor que dava aula em casa para mim e para minhas irmãs, eu sabia ler e escrever muito bem.
Quando eu completei dezassete anos, o senhor que trabalhava durante o dia ficou doente e o senhor Miguel conseguiu a vaga dele.
Daquele dia em diante, comecei a trabalhar à noite e ele, durante o dia.
Com isso, passei a ganhar mais e resolvi que estava na hora de morar sozinho.
O senhor Miguel concordou e me alugou este quarto em que moro.
Quando conheci a senhora e o Giuseppe, dona Beatrice, a minha vida mudou.
Como sócio da empresa de sapatos, passei a ganhar mais dinheiro.
Poderia, se quisesse, parar de trabalhar, mas não posso fazer isso.
Gosto do meu trabalho.
Lá, conheço pessoas que é o que mais gosto de fazer.
Hoje, posso me considerar um homem feliz.
A única coisa que ainda desejo é conseguir me vingar daquelas duas e ainda vou conseguir!
Essa é a minha história.
— Que história, tia!
Outro qualquer, assim que tivesse tido a oportunidade que ele teve, após conseguir ganhar mais dinheiro, teria abandonado aquele emprego e se dedicaria somente à empresa.
— Assim que li, também pensei isso, mas dona Justina, com sua sabedoria, descobriu o motivo e Beatrice contou:
Domingos parou de falar.
Todos nós estávamos emocionados por sua história.
Dona Justina, que estava sentada, levantou-se, abraçou-se a Domingos e, chorando, disse:
— Você foi muito corajoso, filho.
Apesar de tudo, conseguiu se manter honesto e trabalhador.
Embora não soubesse, precisava continuar trabalhando na estação porque precisava encontrar e trazer a minha Lindinha para junto de mim.
A gente não sabe nada...
Domingos, emocionado, olhou para Lindinha, que chorava e, com a cabeça, concordou e disse:
— A senhora tem razão, pois, se eu não estivesse ali, jamais a teria encontrado.
Por isso, vou continuar trabalhando na estação.
A senhora disse que teve oito filhos.
Só encontrou duas.
Quem sabe não vão aparecer os outros, não é?
— É verdade, filho.
A estação é o melhor lugar para encontrarmos as pessoas.
Oxalá proteja você para encontrar todos eles.
— Vou encontrar, minha avó, a senhora vai ver.
— Ele encontrou, mãe?
— Encontrou mais do que imaginava.
— Quem ele encontrou, tia?
Odila olhou para os dois e, rindo, disse:
— Agora chega.
Estou cansada e com sono.
Vamos dormir e, amanhã, continuamos.
— Não, tia!
Não faça isso!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:28 pm

— Estou com sono, Carlos.
Quase não consigo ficar com os olhos abertos!
Amanhã teremos tempo de ler o resto.
Achei que ia terminar logo, porque me esqueci deste outro caderno.
— Mamãe tem razão, Carlos.
Ela não tem mais idade para ficar acordada até tão tarde.
Vamos dormir.
Confesso que, apesar de estar muito curioso com a história, também estou com sono.
Amanhã, vamos acordar revigorados e vamos conhecer o resto da história.
Carlos deu de ombros e concordou.
Odila fechou o caderno, levantou-se e eles fizeram o mesmo.
Ela foi para o seu quarto e eles, para o deles.
Olavo e Carlos entraram no quarto e se deitaram.
Carlos olhou e viu que Olavo estava deitado de costas, olhando para o tecto.
Perguntou:
— No que está pensando, Olavo?
— Na história da nossa família.
Alguma vez você imaginou que tinha sido dessa maneira?
— Não. Nunca imaginei que Domingos não fosse meu avô.
— Nem eu que Giuseppe também não fosse meu avô.
Sempre tive muito orgulho dele.
Foi um homem que chegou sem nada e conseguiu criar uma empresa como a nossa.
Claro que contou com a ajuda de Domingos.
Para mim, sempre foi um grande homem.
— É verdade. Eles faziam uma boa dupla.
Eles não teriam chegado aonde chegaram se não tivessem se unido, pois, enquanto Giuseppe inventava os modelos e montava-os, Domingos conseguia os clientes.
— Ainda pensa que Domingos foi um grande homem, Olavo?
— Por que está me perguntando isso?
— Só para saber.
— Depois de conhecer toda a história, sinto que ele não era tão bom assim.
Foi, sem dúvida, um bom profissional e empresário, mas como homem, deixou a desejar.
— Por quê, Olavo?
Você sentiu que tem algo em comum com ele?
— Enquanto mamãe lia os cadernos, parecia que eu estava ali, vivendo aquela vida.
Que coisa louca, não?
— Também senti isso.
Será que essa história de reencarnação é verdadeira?
— Claro que não, Carlos!
Trata-se apenas de mais uma religião das muitas que existem.
— Não sei, não.
Por que nos identificamos tanto com essa história?
— Ora, isso acontece até quando lemos um livro.
Muitas vezes nos identificamos com ele.
— Quando titia leu a forma como ele batia em Beatrice, lembrei-me do que você faz com Helena.
É muito igual, Olavo.
Você também só bate nas costas para que ninguém veja.
Se essa história de reencarnação existir realmente, você deve ser a reencarnação de Giuseppe.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 7:28 pm

Olavo começou a rir:
— Então, você deve ter sido Domingos!
Deixa disso, Carlos.
Isso não faz sentido algum!
Carlos, também rindo, disse:
— Tem razão, é loucura!
Agora está na hora de dormirmos.
Quando voltarmos para casa, vou procurar saber mais a esse respeito.
Boa-noite, Olavo.
— Boa-noite.
Carlos ajeitou o travesseiro e fechou os olhos.
Olavo fez o mesmo, porém não conseguiu dormir.
As cenas de Giuseppe batendo em Beatrice e as dele batendo em Helena não saíam da sua cabeça.
Por que será que estou tão incomodado com a história de Giuseppe?
Não poderia ficar assim, ele tinha seus motivos para bater em Beatrice.
Ela o traiu com seu melhor amigo.
Embora, Carlos tenha razão, ele batia nela antes de isso acontecer...
Continuou pensando por mais alguns minutos e, cansado, sem perceber adormeceu.
Duas entidades que estavam ali desde que Odila começou a ler, sorriram.
A mulher disse:
— É, Tomas, está chegando a hora...
— Verdade, Maria Tereza, chegou a hora...
Olharam novamente para Olavo, que dormia.
Sorriram e desapareceram.
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