Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:10 pm

A decisão
Helena estava dormindo e foi acordada por Narinha:
— Acorda, mamãe!
Vamos passear?
Helena abriu os olhos e, sorrindo, disse:
— Passear, Narinha?
Para onde quer ir?
— Vamos até o parque, quero tirar muitas fotografias para mostrar ao papai quando ele voltar da viagem.
Vamos, mamãe...
— Está bem, vamos nos levantar, tomar café e, depois, vamos até o parque.
A menina ficou feliz e saiu correndo do quarto, voltando para o seu.
Helena continuou deitada e pensando:
Como posso abandonar Olavo, com a minha filha gostando tanto dele?
Preciso pensar no que vou fazer.
Esta vida que estou levando é mentirosa e só tem me trazido dor, sofrimento e humilhação.
Não estou suportando mais tanta falta de amor, de carinho.
Será que todos nós nascemos para sofrer?
Não consigo acreditar nisso.
Em algum lugar deve estar a minha felicidade.
Preciso procurar esse lugar.
Levantou-se, foi até o banheiro, olhou para o espelho.
Voltou-se e, levantando a blusa do pijama, viu suas costas que estavam horríveis.
Isso não pode continuar!
Preciso e vou encontrar uma maneira de fugir de tanta tortura, mas como fazer isso?
Narinha, além de ter uma vida muito boa, mil vezes melhor do que a minha, adora o pai.
Não sei se tenho o direito de separá-la dele.
Estava assim, pensando, quando Narinha entrou.
Estava vestida e pronta para sair.
Em suas mãos, estava a máquina fotográfica.
— Ainda não está vestida, mamãe?
Helena, através do espelho, voltou seus olhos para ela e, tentando demonstrar que tudo estava bem, respondeu:
— Já vou me vestir, minha filha.
Enquanto faço isso, ligue a televisão.
A menina voltou a sair correndo do quarto.
Helena tomou banho, vestiu-se e saiu do quarto.
Passou pela sala, onde a menina estava assistindo a um desenho, e falou:
— Pronto, Narinha, estou pronta.
Vamos tomar café e depois, poderemos sair.
Enquanto caminhava em direcção à cozinha, disse:
— Não se se esqueça de desligar a televisão.
Na cozinha, viu que Eunice, antes de ir embora, havia deixado a mesa do café colocada.
Abriu a geladeira e viu que ela, também, tinha feito o bolo de que Narinha e ela mais gostavam.
Pegou algumas frutas limpas e uma jarra de suco de uvas, o preferido das duas.
Sorriu, esquentou leite, colocou achocolatado.
Narinha desligou a televisão, entrou na cozinha, sentou-se à mesa e ficou esperando.
Helena, após colocar tudo sobre a mesa, sentou-se e começaram a comer.
Assim que terminara, saíram da casa.
Narinha, correndo, chegou junto ao carro.
Juarez, o motorista, estava terminando de lavá-lo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:10 pm

Ela entrou no banco de trás e se sentou.
O motorista olhou em direcção da casa e viu que Helena também se aproximava:
— Bom-dia, dona Helena, quer que a leve para algum lugar?
— Bom-dia, Juarez, quero sim.
Narinha quer ir até o parque.
Pode nos levar?
— Claro quer sim, dona Helena, só vou em casa pegar o meu boné.
Helena sorriu e entrou no carro.
Sentou-se ao dado de Narinha.
Logo depois, Juarez voltou e colocou o carro em movimento.
Durante o trajecto, Narinha olhava ansiosa para chegar ao parque e poder, além de brincar com as outras crianças que sempre estavam lá, tirar as fotografias para mostrar a Olavo.
Mais ou menos quinze minutos depois, Juarez estacionou o carro.
Desceu, deu a volta e abriu a porta para que Helena pudesse descer, mas quem desceu primeiro foi Narinha que, pulando sobre as pernas de Helena, foi mais rápida e desceu.
Helena, ao ver a agilidade da filha, sorriu e desceu em seguida.
Juarez, também rindo, perguntou:
— A senhora quer que eu a espere para poder ir almoçar em casa?
— Obrigada, mas não precisa, Juarez.
Volte para casa.
Não sei quanto tempo Narinha vai querer ficar aqui.
Se até a hora do almoço ela ainda não quiser ir para casa, vamos comer alguma coisa por aqui mesmo.
— Como a senhora vai para casa?
— Não se preocupe.
Quando ela se cansar, eu pego um táxi.
— O senhor Olavo vai ficar bravo comigo se souber que deixei a senhora aqui, sozinha...
— Ele não precisa saber.
Está passando o fim de semana fora e acho que vai voltar, se voltar, somente amanhã à noite.
— Está bem, se é assim que a senhora deseja, vou embora.
Ele entrou no carro novamente e foi embora.
Helena sentou-se em um banco em frente aos brinquedos, de onde podia ver Narinha brincando.
A menina estava feliz.
Ao seu lado, sentaram-se duas entidades e ficaram ali.
Helena voltou os olhos e viu que, nos outros bancos, casais também olhavam e, orgulhosos, riam de qualquer brincadeira dos filhos.
Continuou olhando e percebeu que algumas pessoas caminhavam, felizes e conversando.
Outras estavam sozinhas, mas pareciam felizes.
O lago continuava ali.
Sua água estava tão limpa que era possível ver peixes nadando tranquilos.
Junto ao lago, jovens deitados sobre a grama conversavam e trocavam carícias.
Ela sentiu o coração apertar e pensou:
Como eu era feliz quando não tinha preocupação alguma como essas pessoas que estão aqui.
Olavo, assim como os pais dessas crianças, poderia estar aqui ao nosso lado, mas não, ele está em algum lugar, fazendo carinho e agradando alguma mulher que, provavelmente, não conhece há muito tempo.
Quando vejo esses jovens apaixonados e se acariciando, me pergunto:
para onde foi aquela Helena que era tão feliz e não sabia?
Para onde foi aquela Helena que tinha liberdade e não sabia dar valor a ela?
Para onde foi aquela Helena que sonhava alto, muito mais alto do que qualquer pessoa?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:10 pm

No que me transformei?
Hoje, sou uma mulher sofrida que, embora tenha tudo, na realidade, nada tem.
Uma mulher que, embora seja casada, está sempre só.
Uma mulher que é sempre humilhada e espancada.
Uma mulher que não tem amigos, quando, antes, tinha tantos.
Uma mulher que, por vergonha ou orgulho, não sei, afastou Débora, a única amiga a quem poderia ter pedido ajuda e que certamente a ajudaria.
Não, isso não pode continuar.
Sinto que minha alma está cansada e precisa se libertar.
A única coisa que quero é ter minha vida de volta e poder sonhar, ter a minha liberdade e procurar a minha felicidade.
Não quero mais ser humilhada e espancada!
Chega, chega!
As entidades sorriram.
A mulher disse:
— Ainda bem, parece que agora ela vai começar a reagir.
— Você sabe que não vai ser fácil e que muitas vezes, nesta e em outras encarnações anteriores, ela tentou, mas nunca conseguiu.
— Tem razão, mas sempre há uma esperança.
Tomara que desta vez, ela consiga.
— Tomara...
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:10 pm

Uma nova vida para todos
Olavo abriu os olhos, olhou para a cama ao lado e viu que Carlos não estava ali.
Pelas frestas da janela, percebeu que o dia já estava claro.
Olhou para o relógio que estava em seu pulso e se assustou:
Quase onze horas! Como dormi!
Também, quando fomos dormir, já eram mais de três horas.
Levantou-se e foi para a cozinha.
Assim que entrou, encontrou Carlos e sua mãe, que tomavam café e conversavam.
Entrou e, rindo, disse:
— Bom-dia, pessoal!
— Bom-dia, meu filho.
Pensamos que não ia acordar mais!
— Também me assustei com as horas.
Dormi muito, mesmo!
— Sente-se, filho, venha tomar um café leve.
Lena já está preparando o almoço.
— Onde está o papai?
— Ele foi até a feira comprar frutas e verduras.
Depois de assistir à televisão, é o que mais gosta de fazer.
Olavo e Carlos se olharam e riram.
— É o que sempre gostou de fazer, mamãe.
Ele conhece todos os feirantes.
— Eu e a titia estávamos esperando você acordar para ela continuar com a leitura.
— Só vou tomar uma xícara de café, pois, se comer agora, não vou conseguir almoçar.
— Tome logo, estou ansioso para saber o resto da história.
Olavo sentou-se, colocou um pouco de café com leite em uma xícara, tomou e falou:
— Pronto, já tomei o café.
Podemos continuar com a leitura.
Também estou ansioso em saber o resto da história.
Odila se levantou e se encaminhou para a sala, sendo seguida por eles.
Sentaram-se nos sofás e ela, pegando o caderno que estava lendo, abriu na página marcada.
Rindo, disse:
— Vamos continuar com a leitura.
Sei que vocês vão se surpreender ainda mais.
Vamos ver o que ela escreveu:
Depois de terminar de contar sua história, Domingos se levantou e foi para a estação, pois seu amigo o estava esperando.
Eu e dona Justina fomos com Lindinha até o quarto dela.
Seu Sebastião entrou no seu.
Depois, dona Justina me acompanhou até o meu.
Assim que entramos, comecei a chorar.
Minhas costas estavam doendo por causa dos cortes e eu só me mantive forte para que os outros não notassem.
Senti que a minha combinação estava grudada no meu corpo, presa pelo sangue que escorria.
Dona Justina, sabendo o que havia acontecido, antes que eu tirasse o vestido, disse:
— Não tire o vestido, menina.
Espere que vou buscar o chá para limpar suas costas.
Envergonhada, fiquei calada e chorando.
Ela voltou logo depois, trazendo panos e a bacia tão conhecida por mim.
Com cuidado ajudou-me a tirar o vestido e fez com que eu me deitasse de costas.
Foi molhando a combinação e ela foi se soltando do meu corpo.
Quando estava toda solta, me ajudou a sentar e tirou a camisola.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:11 pm

Depois de tirar todo o sangue, passou iodo e, enquanto fazia isso, falou:
— Para de chorar, menina.
A vida é mesmo assim, a gente tem de suportar o sofrimento.
Precisa ter paciência com seu marido.
Ele é o dono da casa.
— Sei disso, dona Justina, mas é muito difícil.
Não entendo por que Giuseppe mudou tanto.
No começo, ele era tão bom e carinhoso.
Algumas vezes, parece que ele me odeia.
— Não odeia, não, menina.
Todos os homens são iguais e nós, as mulheres, também.
Eles nasceram para mandar e nós para obedecer.
— Não aceito isso, dona Justina, e só não abandono Giuseppe e vou embora porque não tenho para onde ir nem como me sustentar.
Eu queria muito ter o meu próprio dinheiro.
— Sei como é, mas não adianta pensar assim, pois, mesmo que tivesse seu dinheiro, ia continuar tudo igual.
Eu trabalho, tenho meu dinheiro e, mesmo assim, o Sebastião continua a me bater.
Os homens precisam mostrar que mandam na gente.
Mulher não larga o marido.
Ela é largada.
Por isso, mulher sozinha, sem homem, não tem valor e é marcada.
Ela só consegue sobreviver se virar mulher da vida.
— O que a senhora está falando, tia?
Era assim, mesmo?
— Era, Carlos e, se pensarmos bem, ainda é.
Somente agora, a mulher está começando a se libertar.
Algumas estão estudando e trabalhando, tendo seu próprio dinheiro.
Mesmo assim, vai demorar muito para serem totalmente livres, para serem donas de si mesmas.
Eu tive sorte.
Talvez por ter sido criado por uma mulher que sentiu na pele o sofrimento de ter passado por tudo isso, Genaro sempre foi um bom pai e marido.
Só posso agradecer a Deus por ele.
Carlos olhou para Olavo e perguntou:
— Tia, a senhora acredita que os filhos seguem os exemplos dos pais?
— Claro que acredito, Carlos.
Uma criança criada em um lar, onde nunca presenciou uma briga dos pais, cresce tranquila e se torna uma pessoa boa.
— Eu não acho isso verdadeiro, tia.
Tenho um amigo que, embora tenha sido criado dessa maneira, hoje, espanca e humilha a mulher de uma maneira violenta.
— É difícil isso acontecer, Carlos, mas sempre existe alguém que foge à regra.
Eu disse a vocês que estou seguindo uma religião, onde aprendi que cada ser humano é um espírito e que todos nós estamos aqui na Terra para aprender e evoluir.
Nascemos e renascemos várias vezes, sempre aprendendo e evoluindo.
— A senhora acredita mesmo nessa coisa de reencarnação?
— Acredito, Carlos.
Basta olharmos a diferença que existe entre as pessoas.
Porque umas têm a vida tão diferente das outras?
Porque uma tem tudo e outras não têm nada?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:11 pm

Para aceitarmos que existe um Deus, temos de aceitar a reencarnação, pois só ela pode dar essas respostas.
Renascemos para consertar tudo o que fizemos de errado na encarnação passada.
E se continuarmos a praticar os mesmos erros?
— Infelizmente, se isso acontecer, vai ser uma encarnação perdida, mas cada um tem seu livre-arbítrio para escolher o que deseja nesta vida.
Olavo, que ouvia o que eles falavam, nervoso, disse:
Vamos acabar com essa conversa!
Quero conhecer o resto da história da minha avó.
— Está bem, Olavo, vamos continuar.
Ela escreveu:
Depois de me curar, me ajudar a colocar a camisola e me confortar, ela saiu.
Eu fiquei ali, deitada e chorando.
Giuseppe chegou quase meia noite, cheirando a bebida e a perfume.
Não entendo como ele, saindo todas as noites, pode se levantar todos os dias e ir trabalhar.
Embora estivesse acordada, fingi que dormia.
Ele se deitou ao meu lado e, quando foi me abraçar, sentindo dor, instintivamente, me afastei.
Ele, percebendo que eu estava acordada e sentido dor, passou a mão pelos meus cabelos:
— Perdão, Beatrice, prometo que isso nunca mais vai se repetir.
Eu fiquei calada e chorando, pois sei que tudo vai continuar como sempre e que só vou parar de sofrer quando um de nós dois morrer.
Com a mão sobre os meus cabelos, adormecemos.
Pela manhã, todos foram trabalhar.
Eu sentia dor nas costas, mas não comentei com Lindinha.
Não queria que ela descobrisse, pelo menos não agora.
Ela sofreu muito e não precisa ouvir coisas tristes.
Preparei o café, pois sabia que Domingos logo ia chegar.
Eu e Lindinha tomamos café, comemos pão e, enquanto ela deu de mamar para Odila, eu alimentei os meninos.
Ficamos conversando sobre a história de Domingos e sobre tudo o que havia acontecido ontem.
O tempo foi passando e Domingos não chegou.
Começamos a ficar preocupadas, pois ele chegava sempre no mesmo horário, dormia um pouco e ia trabalhar na loja ou conversar com clientes.
Lá pelas duas horas, voltava, dormia até as seis e ia trabalhar.
Essa rotina era feita há muito tempo, por isso estranhei a sua demora.
Embora preocupadas, eu e Lindinha ficamos envolvidas com as crianças e a ansiedade passou.
Eram quase onze horas da manhã.
Lindinha cuidava das crianças, eu estava estendendo roupas no varal.
Vimos que Domingos chegava e fomos ao seu encontro.
Ele se aproximou e, rindo, disse:
Vejo que estão preocupadas com minha demora.
— Realmente nos preocupamos, senhor Domingos, pois costuma chegar sempre no mesmo horário e hoje demorou.
— Pois não precisavam se preocupar, dona Beatrice.
A senhora tem café?
— Claro que sim, vamos até a cozinha.
Fomos até a cozinha e, enquanto tomava café, ele tirou dois papéis do bolso do paletó e, olhando para Lindinha, disse:
Durante a noite, estive pensando que suas crianças não podem ficar sem registo, por isso, hoje, assim que saí do trabalho, fui até a igreja, contei ao padre o que havia acontecido e que queria registrar as crianças no meu nome.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:11 pm

Por eu ser homem, ele concordou e aqui estão os registos das crianças.
A partir de hoje, você é a mãe e eu sou o pai.
Sabe como é importante para um negro ter seu registo de nascimento.
Disse ao padre que vou levar dona Justina e o senhor Sebastião para registarem você.
Lindinha pegou os papéis e ficou olhando durante alguns minutos.
Depois, embora estivesse rindo, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Disse:
— Eu não sei ler, Domingos.
Tudo o que você disse está escrito aqui?
— Está, sim, Lindinha.
Nesses papéis está escrito que eles são nossos filhos, netos da dona Justina e do seu Sebastião, da minha mãe Iara e do meu pai, o Barão.
Ela, sem que ele esperasse, se abraçou a ele com muita força e chorando, ficou agradecendo, sem parar.
Domingos, embora não quisesse demonstrar, também estava muito emocionado.
Eu não conseguia esconder a minha emoção nem evitar que as lágrimas escorressem pelo meu rosto.
Carlos, demonstrando tristeza, interrompeu Odila:
— Foi isso que aconteceu, tia?
Eu sempre pensei que ele fosse o meu avô.
Vejo, agora, que não é...
— Também fiquei surpresa quando descobri que ele não era meu pai, mas nos criou a mim e ao seu pai como se assemos seus verdadeiros filhos.
Foi um pai muito carinhoso.
— Quanta coisa aconteceu com a nossa família que não sabíamos, mamãe.
É verdade, Olavo, mas tudo o que aconteceu não nos impediu de termos, hoje, uma família linda.
Eu e seu pai estamos casados há tanto tempo e, embora algumas vezes tenha havido algumas rusgas, nos amamos e somos felizes.
Você, meu filho, está casado e feliz com Helena e com a nossa linda Narinha.
E você, Carlos, quando vai se decidir e se casar com a Celina?
Ela é uma boa moça.
Carlos olhou para Olavo e respondeu:
— Não sei, tia.
O casamento é um passo muito importante e só vou dar esse passo, quando achar que vai ser para sempre.
— Isso você só vai descobrir quando se casar.
Somente a convivência vai mostrar a você se o casamento vai durar para sempre.
Na vida precisamos fazer de tudo para sermos felizes, até nos arriscarmos a descobrir o desconhecido.
— Tudo isso é muito bonito, mamãe, mas podemos continuar com a leitura?
— Claro que sim, meu filho.
— Então continue...
— Beatrice continuou:
Depois do abraço, Domingos se afastou e, tentando encobrir a emoção, disse:
— Estive pensado em algumas coisa e, assim que dona Justina e o senhor Sebastião chegarem, vamos conversar.
— Agora que sabe que eles são seus avós, por que continua chamando-os pelos nomes próprios?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:12 pm

— Acho que é o costume, dona Beatrice.
Somos vizinhos há tanto tempo que vai demorar para eu me acostumar, mas esse dia vai chegar.
Lindinha, curiosa, perguntou:
— O que quer falar com meus pais, Domingos?
— Agora, estou com sono, preciso dormir um pouco.
Quando eles chegarem, vamos conversar e você vai ficar sabendo.
Dizendo isso, ele foi para o seu quarto.
Eu e Lindinha nos olhamos e fomos cuidar do almoço e das crianças.
Dona Justina chegou mais cedo do que o de costume.
Estranhei:
— O que aconteceu, dona Justina?
Por que chegou mais cedo, está doente?
Ela abraçou e beijou Lindinha e respondeu:
— Nada aconteceu, menina.
Contei para a minha patroa tudo o que aconteceu e ela deixou que eu saísse mais cedo para que pudesse ficar mais tempo com a minha filha e os meus netos.
Ela é uma mulher muito boa.
Lindinha foi até o quarto e trouxe os papéis que Domingos havia lhe dado e os entregou para dona Justina que, depois de olhar, olhar, falou:
— Sabe que não sei ler.
O que está escrito aqui nesses papéis, Lindinha?
Domingos registou meus dois filhos como se fossem dele.
Agora, as minhas crianças têm nome, como as brancas, mãe!
Dona Justina, com lágrimas nos olhos, disse:
— Oxalá seja louvado!
Esse menino é muito bom, ele vale ouro!
Esteve todos esse tempo ao meu lado e eu nunca desconfiei de que fosse da minha família... como isso pode acontecer?
— Isso não importa, mãe!
Agora ele está aqui do nosso lado.
O mais importante é que estamos todos juntos outra vez!
— É verdade, minha filha.
Agora, vou brincar com os meninos.
Faz tempo que não tenho uma criança por perto.
— Vai, mãe. Vai brincar muito com eles.
Dona Justina tirou do bolso uma bola de meia que ela havia feito, jogou para Jacinto que correu para pegar.
Genaro, embora não andasse, também foi, engatinhando, atrás da bola.
Eu e Lindinha rimos da felicidade que dona Justina estava sentindo.
Os gritos de Jacinto e Genaro correndo atrás da bola e rindo sem parar acordaram Domingos, que saiu na porta e, rindo, falou:
— O senhor Pedro tinha razão quando disse que não queria crianças, porque as pessoas reclamavam que, com o barulho delas, não conseguiam dormir.
Elas me acordaram.
Ao ouvir aquilo, eu e Lindinha corremos para pegar as crianças no colo e tentar fazer com que se calassem.
Foi a pior coisa que poderíamos ter feito.
Elas, ao serem tiradas da brincadeira, começaram a chorar.
Domingos, ainda rindo, falou:
— Deixem as crianças.
O barulho delas é maravilhoso!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:12 pm

São crianças e precisam mesmo brincar.
Acordei porque já havia dormido o suficiente.
Boa-tarde, dona Justina.
A senhora está bem?
Boa-tarde, meu neto.
Estou bem e feliz por você ter registado as crianças.
Só assim elas poderão ter um sobrenome e os direitos de serem brasileiras, não é?
— Isso mesmo, dona Justina.
Achei importante e fiz, mesmo sem consultar a senhora e você Lindinha.
— Não diz isso, Domingos eu e a mãe estamos felizes, não é, mãe?
— Claro que estamos, Domingos!
O que você fez foi uma caridade!
Obrigada, meu neto.
Estou muito feliz por ter encontrado você.
— Também estou, dona Justina.
Assim que o senhor Sebastião chegar, precisamos conversar.
— Quer conversar sobre o quê?
— Pretendo falar só uma vez, portanto, é preciso esperar que ele chegue.
Agora, enquanto ele não chega, vou me preparar para o trabalho.
Assim dizendo, entrou no quarto.
Curiosas, nós nos olhamos.
Algum tempo depois, seu Sebastião chegou e, como sempre, carregando os sapatos sobre os ombros.
Assim que se aproximou, beijou Lindinha e Jacinto, que estava em seus braços.
Dona Justina, ao ver aquilo, se emocionou.
Somente ela sabia que, apesar de calado, ele havia sofrido com a separação dos filhos.
Ele me cumprimentou e entrou em seu quarto.
Dona Justina foi atrás.
Logo depois, Domingos saiu do quarto vestido para o trabalho.
Trazia em suas mãos o chapéu que sempre usava.
Vendo que nem dona Justina nem seu Sebastião estavam li, perguntou:
— Onde eles estão?
Ouvi quando seu Sebastião chegou.
— Estão no quarto, vou chamar.
Lindinha foi chamar e eu, sem saber o que ele ia falar, disse:
— Já que precisa conversar com eles, acho melhor eu pegar o Genaro e ir passear com ele na rua.
— Não precisa fazer isso, dona Beatrice.
A senhora já faz parte da nossa família.
O que pode fazer é nos emprestar um banquinho para que possamos nos sentar.
A conversa não vai ser longa.
Eu respirei fundo, não conseguia disfarçar a curiosidade que estava sentindo..
Ele deve ter percebido, por isso, disse:
Podia também nos fazer um café.
Assim, a conversa vai ficar melhor.
— Vou fazer isso.
Entrei na cozinha, peguei a chaleira que estava com água e coloquei sobre a chapa para que fervesse.
Depois, peguei os dois banquinhos e coloquei em frente à porta da minha cozinha.
Dona Justina, acompanhada pelo senhor Sebastião e Lindinha, saíram do quarto.
Assim que Lindinha viu Domingos sentado no banquinho, voltou para o quarto da mãe e pegou mais dois.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:12 pm

Em seguida, entrou no quarto que estava usando e pegou mais um.
Logo, todos estavam sentados.
Entrei novamente na cozinha e vi que a água já estava fervendo.
Coloquei o pó de café no coador e joguei a água por cima.
Logo, o aroma do café invadiu o quintal.
Coloquei-o em canecas de alumínio e entreguei-as para eles.
Com Genaro no colo, também me sentei.
Domingos começou a falar:
— Desde que fui expulso da minha casa, muita coisa aconteceu.
Durante todo esse tempo, sempre senti muita falta de ter uma família, de me sentir protegido dentro de um lar.
Hoje, essa falta não existe mais,— - parou de falar, olhou para mim, sorriu e continuou -— vovó, vovô e você, Lindinha, minha linda tia, são a minha família e estou muito feliz por ter encontrado vocês.
Por isso fiquei pensando e acho que é meu dever ajudar a todos da melhor maneira que eu conseguir.
A senhora, vovó, já trabalhou e sofreu muito.
Acho que não precisa mais trabalhar.
Pode ficar em casa.
Para minha surpresa, dona Justina se levantou e, nervosa, disse:
— Não, meu filho, eu não quero parar de trabalhar!
— Por que não?
A senhora já trabalhou tanto!
— Nasci escrava e, somente agora, depois de trabalhar e ter o meu próprio dinheiro estou totalmente livre!
Gosto de trabalhar, gosto da minha patroa e gosto de ter o meu dinheiro.
Sem ele eu ia depender de você e isso não quero!
Enquanto Oxalá me der forças, vou trabalhar e sei que vou ser feliz.
— Está bem, vó, se a senhora prefere que seja assim, assim será, mas, se precisar de alguma coisa e sentir que não quer ou não pode mais trabalhar, eu estou aqui.
A senhora só deve fazer o que quiser.
Achei que ia querer ficar em casa, descansar.
Não quero, não, meu filho.
Não quero não.
— Eu gostaria muito de trabalhar, mas não posso, preciso cuidar das crianças.
— Sei disso, Lindinha, e em nenhum momento pensei que pudesse trabalhar.
Se quiser trabalhar e ter o seu próprio dinheiro, Lindinha, posso cuidar das crianças.
— A senhora faria isso?
— Fico o dia inteiro em casa, Giuseppe não quer que eu trabalhe.
Posso cuidar das suas crianças junto com Genaro.
— Ele vai deixar?
— Acho que sim, dona Justina.
Ele não gosta que eu saia de casa.
Quando sabe que fui dar um passeio com Genaro ou fui até o senhor Pedro comprar alguma coisa que está faltando, fica bravo.
Por isso, vai ficar contente em saber que, cuidando de três crianças, não vou ter tempo para sair de casa.
— Pode ser, menina, mas acho melhor falar antes com ele.
— Vou falar , dona Justina, mas sei que vai concordar.
— Se ele concordar, você consegue um emprego para mim, Domingos?
— Posso conversar com o senhor Miguel, aquele que me abrigou.
Dona Isabel, sua mulher, trabalha em um hotel perto da estação, mas você não precisa trabalhar, Lindinha.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:13 pm

Além do meu trabalho na estação, ainda ganho um bom dinheiro com a empresa de sapatos.
Sou sócio e posso sustentar vocês todos.
— Sei disso, mas já fez muito por mim e por minhas crianças.
Quero trabalhar e tentar cuidar delas sozinha.
— Está bem, se é isso o que quer, vou conversar com o senhor Miguel.
Inesperadamente, Lindinha se abraçou nele:
— Obrigada, meu sobrinho, você é um anjo que Oxalá mandou para me ajudar.
Domingos a abraçou também.
Depois, a afastou e, rindo, disse:
— Não, não, não.
Eu não vou chamar você de tia!
É ainda uma menina!
— Posso ser uma menina, mas sou sua tia!
Você precisa me respeitar!
Ainda rindo, ele balançava a cabeça, dizendo não com ela.
Foi para o seu quarto.
Alguns minutos depois, foi para o trabalho.
Odila fechou o caderno e disse:
— Agora, vamos almoçar.
Depois podemos continuar.
— Normalmente, eu não ia querer parar, tia, mas estou com fome.
— Eu também!
Eles olharam para a porta e viram Genaro que entrava carregando uma sacola com as frutas e verduras que havia comprado na feira.
Rindo, foram para a sala de jantar, onde a mesa já estava colocada.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:13 pm

A hora da vingança
Enquanto almoçavam, Genaro, de muito bom humor, rindo, perguntou:
— Então, meninos, gostaram da história tenebrosa da nossa família?
Odila, também rindo, respondeu:
— Por que tenebrosa, Genaro?
Não é tenebrosa, é linda!
— Como, linda, Odila? Foi tenebrosa.
Nunca imaginamos, você e eu, que meu pai era aquele homem violento e que maltratava tanto a minha mãe.
Ela nunca se queixou.
Diante de nós estava sempre rindo.
Parecia feliz.
— Nisso você tem razão, Genaro.
Ela foi uma mulher maravilhosa tanto para você, seu filho, como para mim e para o Jacinto.
Nunca fez diferença.
Por isso foi que, quando li os cadernos, fiquei abismada.
Jamais poderia imaginar.
Não consigo acreditar que existam homens capazes de fazer uma maldade como seu pai fazia com ela...
Carlos olhou para Olavo, que abaixou os olhos.
— Também não acredito, tia, mas, infelizmente, devem existir muitos.
— Não entendo como as mulheres, ainda hoje, aceitam esse tipo de coisa.
Olavo, que estava comendo, ainda com os olhos baixos, ficou calado e continuou comendo.
Depois de terminarem o almoço, tomaram café e Genaro disse:
— Sei que vocês estão loucos para conhecer o resto da história.
Como já a conheço e não quero ouvir aquelas atrocidades novamente, vou me deitar.
Nada como um bom sono depois do almoço.
— Não precisa encontrar uma desculpa, Genaro.
Todos sabemos que você, todos os dias, depois do almoço, tira uma sonequinha.
Pode ir. Eu vou continuar lendo para os meninos.
Genaro, rindo, saiu da sala.
Odila se levantou, foi para a sala e foi seguida pelos dois que estavam ansiosos para conhecer o resto da história.
Sentaram-se.
Ela abriu o caderno e começou a falar:
— Beatrice demorou para voltar a escrever.
Mais de quatro meses depois, ela escreveu:
Estou quase louca cuidando de três crianças, por isso não tenho escrito.
Vou aproveitar agora, que almoçaram e estão dormindo, para escrever.
Cuidar deles foi a melhor coisa que podia ter me acontecido.
Giuseppe ficou feliz por eu estar cuidando das crianças, pois assim tem certeza de que eu não posso sair de casa.
Eu não me importo, adoro as crianças e, para mim, são meus filhos.
Quando Domingos quis se mudar com sua família, Giuseppe disse que, para não nos separarmos, eles poderiam comprar o cortiço e todos nós continuaríamos juntos.
Domingos gostou da ideia e fizeram uma proposta para o senhor Pedro que aceitou.
Hoje, o cortiço é nosso.
Acho que foi Deus quem mandou essas crianças para mim.
Somente elas podem fazer com que eu consiga seguir com a minha vida tão sofrida.
Giuseppe continua me tratando mal e sempre encontra um motivo para me castigar.
Sofro, mas não tenho o que fazer.
Não posso sair de casa, pois não tenho para onde ir.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:13 pm

Preciso fazer tudo para que as crianças não percebam.
Quero que elas cresçam com tranquilidade.
Lindinha está trabalhando no hotel.
Ela está forte e feliz por ter encontrado a família.
Domingos, dona Justina e o senhor Sebastião continuam com a rotina de sempre.
Estava tudo caminhando bem, até hoje pela manhã.
Vi Domingos chegando acompanhado por duas senhoras que pareciam mendigas e cada uma trazia uma mala de roupas.
Estranhei e fiquei esperando que se aproximassem.
Assim que chegou, ele, sorrindo, perguntou:
— Bom-dia, dona Beatrice, eu trouxe visitas.
A senhora tem um pouco de café?
Disfarçando a minha curiosidade, respondi:
— Bom-dia, senhor Domingos.
Tenho café, sim, vou pegar.
Entrei na cozinha, peguei três canecas, coloquei café e saí dando para eles.
Por estar quente, beberam devagar.
Quando terminaram de beber, Domingos disse:
— Conhecendo a senhora como conheço, sei que está curiosa, por isso vou apresentar.
Essa é Maria Cecília e ela, Maria Rita.
São minhas meias-irmãs.
Ao ouvir aquilo, quase desmaiei.
Não conseguia acreditar que aquelas mulheres eram as mesmas as quais o haviam expulsado de casa, mas me calei, pois, conhecendo a história, não estava entendendo o que estava acontecendo.
Ele, parecendo adivinhar meus pensamentos, disse:
— Eu as trouxe porque estão cansadas.
Vou deixar que descansem no meu quarto.
Como aqui não há mais quartos vagos, vou sair e encontrar em um outro cortiço um quarto para elas.
Dizendo isso, acompanhado por elas, entrou em seu quarto.
Eu fiquei ali, parada, tentando entender o que estava acontecendo, pois ele, apesar de ser um homem bom, sempre disse odiar aquelas duas.
Eu não conseguia deixar de pensar no que havia acontecido para que elas estivessem naquela situação e ele, apesar de sempre ter dito que as odiava, agora as estava ajudando.
Após alguns minutos, ele saiu do quarto e, sem nada dizer, com a mão se despediu e foi embora.
Eu fiquei ali, curiosa, sem saber o que fazer.
Jacinto brincava com um carrinho feito com madeira que Domingos trouxera e Genaro, que já dava os primeiros passos, tentava também brincar com outro carrinho.
Odila dormia deitada dentro de uma caixa de frutas que eu forrei com palha e que ficava sempre ao meu lado.
Depois de pensar um pouco, peguei dois pedaços de pão, passei manteiga, coloquei leite em duas canecas e, tentando descobrir alguma coisa, bati à porta do quarto onde elas estavam.
Alguns minutos depois, uma delas abriu a porta.
Era a mais nova.
Eu, um pouco constrangida, mas muito curiosa, falei:
— As senhoras não me conhecem.
Moro aqui há muito tempo, conheço Domingos e sua família que também moram aqui.
— Ele tem família?
— Tem. Os avós, uma tia e dois sobrinhos.
O menino é aquele que está brincando e a menina está naquela caixa.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:13 pm

Pensei que as senhoras talvez devessem estar com fome, por isso trouxe pão e leite.
Se não quiserem, não precisam tomar.
— Realmente, estamos com fome, mas dissemos a Domingos que não estávamos.
Ele fez muito em nos trazer para cá e vai providenciar um quarto para podermos ficar.
— Ele é um homem muito bom.
Quando eu e meu marido chegamos do interior, ele nos encontrou na estação e nos ajudou muito.
— A senhora tem razão.
Ele é, sim, um homem bom e a senhora, por mais que pense, nunca vai poder imaginar o quanto.
Por favor, entre. Minha irmã está deitada.
Ela não está se sentindo muito bem e, enquanto comemos o pão e tomamos o leite, poderemos continuar a nossa conversa.
Embora estivesse morta de curiosidade, não podia entrar.
Precisava ficar de olho nos meninos que continuavam brincando.
— Desculpe, mas não posso entrar, preciso cuidar dos meninos.
Eles ainda são muito pequenos.
— É uma pena, gostaríamos de conversarmos com a senhora para sabermos mais a respeito de Domingos.
— Eu também gostaria, mas, como pode ver, agora, isso não vai ser possível.
Ela sorriu e fechou a porta.
Decepcionada, voltei para minha cozinha, precisava preparar uma sopa para as crianças.
Eu não fazia almoço.
Todas as tardes, quando Giuseppe chegava, eu precisava estar com o jantar pronto e quente.
Se isso não acontecesse, ele ficava nervoso e me castigava.
Ele chegava, tomava banho, jantava, se trocava, se perfumava e saía.
Eu ficava rezando para que a noite fosse boa para ele, pois se não fosse, ele descontaria em mim.
Enquanto cortava os legumes para fazer a sopa, não conseguia entender o que havia acontecido para que aquelas duas mulheres estivessem ali no quarto de Domingos.
— É estranho, mesmo, mamãe.
Ele odiava as irmãs e tinha motivos para isso, por que as trouxe para sua casa?
— Quando li, também, assim como vocês, fiquei abismada, mas o melhor a fazer é continuar lendo.
— Tem razão, tia, continue lendo.
Odila continuou:
Terminei de fazer a sopa e Domingos não chegava.
A porta do quarto se abriu e as duas saíram e se aproximaram.
Haviam trocado de roupas e estavam usando vestidos bonitos e limpos.
Aproximaram-se, jogaram os vestidos sujos no tanque e a mais velha disse:
— Eu e minha irmã estivemos conversando e percebemos que não tivemos a oportunidade de conversar muito com Domingos nem com a senhora.
Estranhei e fiquei olhando para elas tentando entender o que estava acontecendo.
Ela continuou:
— Desculpe-me, a senhora não nos conhece.
Domingos tenha falado nosso nome, talvez não se lembre.
Eu sou Maria Cecília e esta é minha irmã, Maria Rita.
Muito prazer. Estamos fazendo isso, porque Domingos disse o seu nome, mas não nos lembramos.
Estávamos cansadas.
Muito prazer.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 8:14 pm

— Muito prazer.
Desculpe, mas eu não me lembrava mesmo das senhoras.
Meu nome é Beatrice.
Posso ajudar em alguma coisa?
Embora elas estivessem tentando ser agradáveis, não sei se, por conhecer a história, não conseguia me sentir bem ao lado delas.
Elas me pareceram pedantes.
Maria Cecília continuou:
— A senhora nos disse que Domingos mora aqui com sua família.
Pode nos contar mais a esse respeito?
Fiquei preocupada com aquela pergunta:
— Por que querem saber da vida dele?
— A senhora ouviu quando ele disse que somos suas meias-irmãs. Ele é filho de nosso pai.
Gostaríamos de saber mais sobre esse outro lado da família.
Ao me lembrar de tudo o que elas haviam feito com ele, senti uma raiva imensa e continuava sem entender o porquê de Domingos ter trazido aquelas duas para casa.
Perguntei:
— Ele, sendo meio irmão das senhoras, o que aconteceu para estarem separados?
— Ele nunca contou?
Como eu queria saber o outro lado da história, menti:
— Não, ele não fala sobre seu passado.
— Como pode ver, ele é mulato, filho do nosso pai com uma escrava.
Fiz uma cara de surpresa e ela continuou:
— Quando nossa mãe morreu, nosso pai trouxe uma escrava para cuidar de mim e da Maria Rita.
Com o tempo, ele se deitou com a escrava e Domingos nasceu.
Meu pai gostava muito dele.
Ele teve a mesma educação que nós.
A mãe dele morreu, mas meu pai nunca deixou de dar-lhe tudo o que ele precisava.
Éramos felizes até o dia em que meu pai também morreu.
Não sabemos o motivo, mas Domingos desapareceu e, embora tenhamos procurado muito por ele, nunca mais o encontramos.
Isso só aconteceu hoje, quando nos encontramos na estação e ele nos trouxe para cá.
Senti muita raiva por ouvir tanta mentira, mas me contive.
Ela continuou:
— Por isso estamos interessadas em saber o que aconteceu depois que ele fugiu de casa.
Como foi que ele encontrou essa outra parte da família?
Com muita raiva das mentiras que estavam contando, respondi:
— Acho que aconteceu o mesmo que com as senhoras.
Ele encontrou uma tia na estação e, quando a trouxe, descobriu que dona Justino e o senhor Sebastião, que moravam aqui há muito tempo, eram avós dele.
Desde então, todos moram aqui.
— Ele não parece estar muito bem de vida, pois, se estivesse, não moraria em um cortiço como este.
Teria uma bela casa.
Ao ouvir aquilo, fiquei mais nervosa ainda:
— Ele está muito bem, sim.
É sócio na empresa de calçados do meu marido e estão ganhando muito dinheiro.
Este cortiço pertence a ele e ao meu marido.
Ela, parecendo não acreditar, olhou para a irmã, que sorriu, demonstrando claramente que também não acreditava.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:50 pm

Eu fiz um esforço muito grande para não deixar minha raiva transparecer.
Elas, apesar de parecerem mendigas, se comportavam como se tivessem o rei na barriga.
Resolvi me calar sobre aquele assunto e perguntei:
— As senhoras querem um prato de sopa? Acabei de fazer.
Elas, mesmo disfarçando, respiraram fundo.
Pela primeira vez, a mais nova, Maria Rita, respondeu:
— Se a senhora não se importar, gostaríamos muito.
Não queremos dar trabalho...
— Não é trabalho algum. Entrem e sentem-se.
Ainda bem que Domingos e meu marido fizeram uma reforma e a cozinha está maior.
Se fosse antes, não teriam como entrar e se sentar.
Eu sabia que elas não estavam interessadas se tinha dado trabalho ou não.
Queriam era comer, pareciam famintas.
Coloquei a panela com a sopa sobre a mesa e dois pratos:
Sirvam-se à vontade.
Elas não esperaram falar duas vezes.
Rapidamente, encheram os pratos e começaram a comer.
Eu saí da cozinha, peguei os meninos que brincavam e fui cuidar de Odila, que começou a chorar.
Como os três já haviam tomado a sopa, estavam com sono.
Após trocar a fralda de Odila, coloquei os três para dormir.
Quando vi que estavam dormindo, saí do quarto e vi que Domingos chegava.
Ele, ao me ver, veio ao meu encontro.
— Onde elas estão, dona Beatrice?
— Eu fui cuidar das crianças.
Elas estavam na cozinha, tomando sopa.
— Estamos aqui, Domingos.
Olhamos e vimos Maria Cecília que, ainda sentada e tomando a sopa, foi quem falou.
Eu e Domingos fomos até elas.
Assim que entrou, ele disse com a voz grave:
— Aluguei um quarto para vocês em um cortiço de um amigo meu.
Podemos ir agora.
Maria Rita, que ainda estava sentada, levantou-se e, colocando-se ao lado da irmã, falou:
— Vai nos levar para um cortiço?
— Sim. Paguei o aluguel por seis meses.
Vocês poderão ficar lá por esse tempo.
Só paguei o aluguel.
O resto vai ficar por conta de vocês.
Também conversei com meu amigo e ele vai arrumar um emprego para vocês como arrumadeiras, no hotel dele.
— Arrumadeiras? Nós não podemos ser arrumadeiras.
Não sabemos nem arrumar uma cama!
Sempre tivemos quem fizesse isso para nós!
— Isso foi em outros tempos.
Agora, tudo mudou.
Precisam sobreviver e eu as estou ajudando a recomeçar.
Eu estava ouvindo-o falar, mas não estava reconhecendo aquele homem que sempre fora doce e gentil.
Estava tenso e falando com firmeza.
Maria Cecília, olhando para mim, disse:
— Esta senhora disse que você é o dono deste cortiço.
Vimos que tem muito terreno vazio.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:50 pm

Por que não manda construir um quarto e, assim, poderemos morar aqui?
Ele me olhou de uma maneira que me fez estremecer.
Depois, disse:
— Isso não poder ser.
Este cortiço é somente para a minha família e para a família de Giuseppe, meu amigo.
— Como pode dizer isso, Domingos?
Somos sua família! Somos suas irmãs!
Ele olhou nos olhos de cada uma e, sorrindo, disse:
— Quando meu pai estava vivo, sempre achei que pertencia àquela família, mas, depois que ele morreu, descobri, a duras penas, que nunca pertenci realmente a ela.
— Não fale assim, Domingos.
Somos suas irmãs e sempre gostamos muito de você...
Domingos, parecendo não escutar o que elas falavam, disse:
— Vamos embora.
Vou levar vocês até lá e depois, quando voltar, vou dormir.
Estou cansado.
— Não entendo, Domingos.
Se tem tanta raiva de nós duas, por que nos ajudou na estação e nos trouxe para cá?
— Ajudei vocês, Maria Cecília, como sempre ajudei qualquer pessoa que encontrei perdida sem um caminho para seguir, somente isso.
Depois que contaram que haviam se casado com dois irmãos e que eles jogaram no baralho toda a fortuna do meu pai e que vocês perderam tudo, até a casa, percebi que a justiça de Deus já havia sido feita e que eu podia me sentir vingado.
Por isso, resolvi ajudar vocês a recomeçarem.
— Não pode fazer isso.
Não pode nos jogar na rua da amargura...
— Não diga isso, Maria Rita.
Estou deixando vocês abrigadas em um cortiço com quarto e cozinha, muito mais do que você fizeram comigo, ainda uma criança.
Acho que tudo o que nos acontece na vida sempre tem um motivo e um aprendizado.
Vocês, que sempre foram tão pedantes, orgulhosas, egoístas e poderosas, vão, daqui para frente, conhecer uma vida de trabalho e sacrifício, como acontece com a maioria das pessoas de bem.
Maria Cecília, não conseguindo se controlar, quase gritou:
— Soubemos que você encontrou sua família.
Deve ser composta de negros como você!
— Sim, são negros, e eu amo todos eles e sou amado também.
Agora, chega de conversa.
Vamos embora!
Ao verem que Domingos não ia mudar de ideia, para minha surpresa, jogaram-se aos pés dele e, enquanto Maria Rita chorava, Maria Cecília implorava:
— Por favor, Domingos, nos perdoe!
Quando fizemos aquilo com você, éramos jovens, não sabíamos o que estávamos fazendo, não nos odeie... perdão, perdão...
Domingos olhou para mim que, abismada, olhava aquela cena.
Ele se afastou e, ainda com uma voz firme que eu não conhecia, disse:
— Levantem-se. Eu não odeio vocês, mas não sou obrigado a conviver com as pessoas que pensaram em me fazer tanto mal.
Porém, não conseguiram, porque Deus, que sempre esteve ao meu lado, colocou, no meu caminho, pessoas maravilhosas para me ajudar.
Estou dando um recomeço, um lugar para que possam morar.
Agora, cabe a cada uma de vocês seguir em frente, tirando algum ensinamento de tudo isso.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:50 pm

Vamos embora!
Dizendo isso, fez com que as duas se levantassem e, pegando as malas que estavam junto à porta do quarto, começou a andar em direcção à rua.
Eu fiquei ali, atónita, olhando que eles saíssem do cortiço.
Eu estava assim, parada, quando ouvi o choro de Odila.
Entrei no quarto e as crianças estavam acordadas.
Dei leite para os três, coloquei os meninos no quintal para que brincassem, peguei Odila, coloquei-a na caixa e a levei para junto do tanque, onde eu precisava lavar roupa.
Com as reformas que Giuseppe e Domingos fizeram no cortiço, havia um banheiro para cada casa.
Eles também colocaram o tanque junto à cozinha.
Assim, eu não preciso mais ir até os fundos do quintal e posso, enquanto lavo roupa, ficar de olho nas crianças.
Estava lavando roupa, quando vi Domingos.
Ele caminhava com os passos lentos, parecia estar cansado.
Aproximou-se, perguntando:
— O que a senhora achou de tudo o que aconteceu?
Fiquei sem saber o que responder, pois não queria magoá-lo.
Ele, vendo que eu não respondia, disse:
— A senhora acha que fiz bem?
— Nunca poderia imaginar que algo assim poderia acontecer, senhor Domingos.
— Nem eu, dona Beatrice.
— Como as encontrou?
— Eu estava me preparando para sair da estação, quando vi duas mulheres sentadas em um dos bancos.
Percebi, pelo estado de suas roupas, que estavam com problemas.
Resolvi me aproximar para ver se poderia ajudar.
Quando me aproximei e vi aquelas duas na minha frente, meu corpo estremeceu.
Quase desmaiei.
Por muito tempo, pensei nesse encontro e em como poderia me vingar mas, quando o meu desejo foi realizado, fiquei sem saber o que falar ou fazer.
Eu não acreditava que eram elas que estavam naquela situação deprimente.
Elas, que sempre foram tão altivas, orgulhosas e más, estavam ali em uma situação deplorável.
Tentei me afastar, mas Maria Cecília, ao me ver, levantou-se e, segurando o meu braço, quase gritou:
— Domingos, é você mesmo?
— Sou eu, Maria Cecília.
O que aconteceu para estarem aqui e nessa situação?
Ela começou a chorar e foi acompanhada por Maria Rita, que chorava copiosamente.
— Nós nos casamos com dois rapazes maravilhosos.
São irmãos, achamos que seríamos felizes para sempre, mas isso não aconteceu.
Eles perderam, no jogo de baralho, todo o nosso dinheiro.
Faz três dias que fomos despejadas da nossa casa.
Pudemos pegar apenas algumas roupas que colocamos nessas malas.
Temos comido restos de comida do lixo de um restaurante.
Estamos perdidas, Domingos!
Não temos onde dormir nem o que comer.
Estamos, há três dias, sem destino.
Hoje, depois de caminharmos a noite toda, resolvemos vir até aqui para podermos nos sentar e descansar um pouco.
Foi a melhor ideia que pudemos ter, pois, só assim, conseguimos encontrar você, meu irmão.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:50 pm

Você precisa nos ajudar, Domingos...
— Incrédulo, ouvi tudo o que ela disse e pensei:
Isso não pode estar acontecendo, devo estar sonhando.
Como Deus é justo...
Elas continuaram falando, contando em detalhes como haviam sido enganadas pelos dois irmãos.
Enquanto elas falavam, eu tentei olhar para elas como se fossem mais algumas das pessoas que tantas vezes encontrei na estação, lugar em que um dia fui encontrado e ajudado.
Fiquei pensando no que podia fazer para ajudar aquelas duas pessoas tão ruins, mas que agora estavam ali, amargando os seus erros.
Resolvi que eu devia perdoar, mas não quero conviver com elas.
Por isso eu as trouxe para cá.
Sabia que um amigo meu poderia alugar um quarto no cortiço onde mora e que outro poderia arrumar emprego no hotel.
Foi o que fiz. Aluguei o quarto e arrumei o emprego.
Daqui para frente, elas que vivam a vida como quiserem.
Só não quero que elas vivam ao lado da minha família, que são pessoas de bem.
Não sei se fiz o certo ou o errado, mas estou bem com a decisão que tomei.
Não preciso me vingar mais delas.
Deus ou a própria vida se encarregou disso.
— Acho que fez bem, senhor Domingos.
A raiva e o ódio só atrapalham a nossa vida.
O senhor vai procurar saber como elas estão?
— Não, não pretendo fazer isso.
Já fiz tudo que eu tinha a fazer.
Agora, sinto que posso continuar a minha vida ao lado das pessoas que amo e pretendo ser feliz.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Odila começou a chorar.
Eu fui atender a ela e Domingos entrou em seu quarto.
O dia havia sido de muita emoção e ele precisava dormir.
Odila parou de ler e olhou para eles, que continuavam atentos.
Perguntou:
— O que acharam da atitude de Domingos?
— Quanto mais eu ouço a senhora falar dele, mais o admiro.
— Pois eu acho que ele não devia ter ajudado aquelas duas!
— Por quê, Olavo?
— Elas foram más, jogaram um menino no meio da rua sem se preocuparem com o que aconteceria com ele.
Perderam tudo, bem feito!
Ele deveria era, sim, morrer de rir e ter deixado que elas procurassem o caminho que deveriam seguir, na miséria e passando fome, como fizeram com ele!
— Pois eu acho que ele fez muito bem, meu filho.
Ele, ao perdoar às irmãs, tirou de cima de seus ombros o ódio, que sempre faz muito mal.
Como disse seu primo, eu o admiro muito.
Ele foi um homem de bem.
— Admira? Homem de bem?
Ele foi um traidor, mamãe!
Enganou e traiu seu melhor amigo!
Homem de bem foi Giuseppe, porque, mesmo sabendo que Genaro não era seu filho, sempre o tratou muito bem!
Ele, sim, foi um homem de bem!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:51 pm

— Como pode falar isso, Olavo?
Giuseppe maltratava e humilhava a mulher física e moralmente!
— Era o que ela merecia por haver traído o marido!
— Você está se esquecendo de que ele, mesmo antes da traição, já a maltratava?
Não estou defendendo Beatrice, mas foi o que a levou à traição.
Se ele tivesse sido o homem que era quando se casaram, garanto que a traição não teria acontecido.
— Para mim, mamãe, traição não tem perdão!
— É muito ruim que pense assim, pois a mágoa e o ódio só trazem sofrimento.
Carlos ouvia-os discutindo, mas permaneceu em silêncio.
Sabia o que se escondia por trás das palavras de Olavo, pois ele, assim como Giuseppe fazia com Beatrice, também maltratava Helena.
— Está bem, meu filho.
Vamos parar com essa conversa.
Com o tempo, você vai entender que o ódio e a mágoa só podem trazer sofrimento.
Vamos dar uma paradinha?
Preciso tomar um café.
Vocês querem também?
Com a cabeça, disseram que sim.
Odila fechou o caderno.
As entidades, que a tudo acompanhavam, sorriram.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:51 pm

A Surpresa
Terminaram de tomar o café e Odila voltou a abrir o caderno:
— Beatrice deixou de escrever coisas importantes por muito tempo.
Só foi anotando a felicidade que sentia nos dias dos nossos aniversários, nosso primeiro dia de aula e como estava feliz por nós três falarmos perfeitamente italiano e português.
Só voltou a escrever algo sério seis anos depois.
Aqui falou da reforma da casa.
A empresa está muito bem.
Giuseppe continua o mesmo, deixa-me sozinha, volta com manchas de batom e continua bebendo.
Continua me violentando.
Não há um centímetro de minhas costas que não tenha uma marca, mas eu não tenho o que fazer.
Dou todo o meu amor para as crianças.
Domingos deixou de trabalhar na estação e está se dedicando apenas à empresa.
O cortiço foi reformado novamente.
Agora, foram construídas duas casas grandes, com todo conforto uma para mim com Giuseppe e Genaro; outra para dona Justina, Domingos, Lindinha e as crianças.
O senhor Sebastião morreu há algum tempo.
Ele ficou muito doente por causa da grande quantidade de bebida que tomou durante toda sua vida.
Dona Justina deixou de trabalhar e, apesar de tudo o que ele havia feito com ela, cuidou dele com todo o carinho.
Agora, estamos vivendo bem melhor de que quando chegamos.
Eu vou levando minha vida, tentando ter alguns minutos de felicidade com as crianças.
Queria ter coragem de abandonar Giuseppe, mas sempre penso no que seria de mim sem ele para me dar tudo do que eu e Genaro precisamos.
— Ela deixou de escrever por mais alguns dias e voltou só dez dias depois.
Hoje estou muito triste.
Meu coração está apertado e por mais que eu tente evitar para que as crianças não percebam que estou sofrendo, as lágrimas insistem em cair.
Lindinha, durante todo esse tempo, nunca deixou de trabalhar e eu, de cuidar das crianças.
Há três dias, pela manhã, quando saiu para o trabalho, como sempre faz, beijou as crianças e a mim, dizendo:
— Obrigada, dona Beatrice, pelo carinho com que cuida das minhas crianças.
Vou trabalhar tranquila, pois sei que elas, com a senhora, estão melhor do que comigo.
A senhora é a verdadeira mãe delas.
— Não fale assim, Lindinha.
Você trabalha para dar o melhor para elas.
— Sei disso e a senhora sempre deixou isso bem claro para elas, dizendo que eu era mãe, mas, se alguma coisa me acontecer, promete que vai cuidar delas como se fossem suas?
— Que bobagem é essa, Lindinha?
É jovem e nada vai acontecer com você.
— Não sei, dona Beatrice, mas estou com um pressentimento muito ruim.
— Pressentimento coisa nenhuma!
Pare de falar besteiras e vá trabalhar.
A noite, quando chegar, todos estaremos esperando por você!
— Eu vou, mas não se esqueça de cuidar bem das minhas crianças.
Elas são tudo para mim.
Se não fosse por elas, eu não teria aguentado tudo o que passei e a saudade que sinto de Jacinto.
Ela beijou as crianças e foi embora.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:51 pm

Depois de algum tempo, coloquei o uniforme da escola em Jacinto e em Genaro e, pegando Odila pela mão, fui levar os dois para a escola.
Odila é muito pequena, ainda não vai à escola.
Depois de deixar os meninos na escola, eu e Odila voltamos para casa.
Ela está linda.
Não lembra nem de longe a bebezinha que eu vi pela primeira vez.
Assim que chegamos, enquanto ela brincava com uma boneca de pano que dona Justina fez, fui cuidar dos meus afazeres e do almoço.
Estava distraída junto ao fogão que, agora, era novo e não soltava mais fumaça como fazia antes, quando vi Giuseppe chegando.
Estranhei, pois ele saía todos os dias bem cedo e só chegava à tardinha, tomava um banho, trocava de roupa, saía e só voltava lá pela meia-noite.
Por isso, admirei-me de ele estar em casa àquela hora.
Perguntei:
— O que aconteceu, Giuseppe, para você estar em casa a esta hora?
— Sente-se, Beatrice.
— Sentar-me, por quê?
— Aconteceu uma coisa que sei que vai deixar você muito triste...
— O que foi, Giuseppe?
Fala logo, está me deixando assustada!
— Lindinha foi atropelada por uma carroça e não sobreviveu.
— O que está dizendo, Giuseppe?
— Isso que você ouviu, Beatrice.
Ela está morta.
— Como morta?
Você disse que foi atropelada por uma carroça, como uma coisa como essa pôde acontecer?
— Disseram que ela estava atravessando a rua para entrar no hotel e que uma carroça estava se aproximando.
Aconteceu alguma coisa que assustou o cavalo e ele começou a pular de um lado para outro.
O cocheiro perdeu o controle, a carroça virou e caiu sobre Lindinha.
— Meu Deus do céu!
Ela não viu que a carroça estava se aproximando?
— Dona Isabel, a mulher do Miguel, que é amigo do Domingos e que também trabalha no hotel, disse que estava em frente à porta do hotel e viu como tudo aconteceu.
Disse que a carroça estava distante e que dava para Lindinha atravessar, mas, quando o cavalo se assustou, fez com que a carroça andasse mais rápido até virar.
Foi ela quem foi até a loja nos avisar.
Fiquei sem saber o que fazer ou falar, somente chorei.
Depois de alguns segundos, perguntei:
— Dona Justina já sabe?
— Depois de irmos até a delegacia para saber o que havia acontecido, Domingos foi até o trabalho dela para contar.
Agora, ela já deve estar sabendo.
— Meu, Deus. Ela deve estar desesperada.
— Imagino que sim.
Já devem estar chegando.
Eu estava inconformada.
Não conseguia entender como uma coisa igual aquela havia acontecido.
Lindinha era tão jovem e já havia sofrido tanto.
Agora, que estava feliz, refazendo sua vida, morreu sem explicação alguma.
Eu não conseguia parar de chorar e imaginava como dona Justina devia estar desesperada.
Olhei para o relógio que estava pendurado à parede e vi que estava na hora de ir pegar os meninos na escola.
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Ave sem Ninho

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:51 pm

— Giuseppe, está na hora de pegar os meninos na escola.
Você poderia fazer isso?
Estou muito nervosa.
Ele, que por um momento voltou a ser o homem que eu havia conhecido quando nos casamos, me abraçou, beijou minha testa e respondeu:
— Vou, sim. Fique aqui esperando dona Justina chegar.
Ela vai precisar de muita ajuda.
Vou ficar e tentar consolá-la.
Giuseppe saiu e eu fiquei ali, chorando e me lembrando da conversa que havia tido, pela manhã, com Lindinha e de como ela havia previsto sua morte.
Estava assim, quando vi dona Justina que entrava no quintal, acompanhada por Domingos.
Corri para eles e, chorando, me abracei a ela:
— Dona Justina, que desgraça... como isso pôde acontecer... ela era tão jovem e estava feliz com a vida.
Para minha surpresa, ela também, abraçando-me, disse:
— Vai se saber, menina.
Oxalá é o único que sabe.
Acho que ele quis que a minha menina ficasse junto dele lá no céu.
Acho que ele devia ter me levado e deixado a minha menina para terminar de criar seus filhos.
Eu já estou velha e cansada.
Acho que ele não precisa de mim, mas precisa dela.
Meu único desejo é que ela esteja bem, junto a Oxalá, os anjos do céu e ao lado de Oxum, em quem ela acreditava muito.
Conheço muito bem a minha Lindinha, por isso sei que ela está lá, sim.
Para de chorar, menina.
Ela precisa saber que a gente está bem e que as suas crianças também vão ficar bem.
A minha única preocupação é que estou velha e que, logo mais, vou morrer e elas vão ficar sozinhas.
— Pelo amor de Deus, dona Justina, não fale isso!
A senhora ainda vai viver muito, vai ver as crianças crescerem!
Vou contar a conversa que tive, hoje pela manhã, com Lindinha.
Parece que ela sabia que ia morrer.
Contei toda a conversa.
Quando terminei, ela, sorrindo, disse:
— Ela não sabia, mas sentia, menina.
Oxalá, nosso deus, está no comando de tudo e achou que estava na hora de levar a minha Lindinha para que ela, assim como uma estrela, pudesse brilhar lá no céu.
Ao ouvir aquilo, fiquei parada e pensando:
como uma pessoa, que eu julguei que ia chorar, gritar e se desesperar, podia estar ali, com toda calma, falando coisas tão lindas.
Definitivamente, eu não entendo nada da vida e dessa religião.
Ela olhou para mim e para Domingos.
Sorriu:
— Agora vocês vão me dar licença, preciso ficar sozinha para poder rezar.
Dizendo isso, afastou-se.
Eu olhei para Domingos e perguntei:
— Como ela pode reagir assim, senhor Domingos?
— Não sei, dona Beatrice.
Também estranhei a reacção dela, quando contei o que havia acontecido.
Ela somente levantou os braços para o alto e falou:
— Faça boa viagem, minha filha.
Oxalá acompanhe você.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:51 pm

— Essa crença deve ter surgido na Africa e foi trazida de geração a geração até hoje.
— Deve ser isso, senhor Domingos.
Deve ser isso...
Também acredito que seja.
Agora, vou até a delegacia para ver como está a papelada.
Precisamos enterrar a nossa Lindinha.
— Vá, eu, por minha vez, vou cumprir a promessa que fiz.
Vou criar essas crianças como se fossem minhas e sempre contar para elas a grande mulher que a mãe foi.
— Estou tranquilo, sei que a senhora vai fazer isso.
— Ela cumpriu a promessa, não foi, mamãe?
Odila, com os olhos cheios de lágrimas, respondeu.
— Cumpriu, sim, meu filho.
Criou-nos com muito carinho.
Esteve sempre presente em todos os momentos da nossa vida.
Ensinou-nos a falar, a ler e a escrever em italiano.
Nunca, nunca mesmo, deixou que nós sequer desconfiássemos das atrocidades que Giuseppe fazia com ela.
Foi uma grande mulher e mãe.
Se houver mesmo uma nova encarnação, ela vai ser muito feliz e vai ter, ao seu lado, um homem que a ame e a faça feliz.
Carlos olhou para Olavo, que estava com a cabeça abaixada.
Falou:
— A senhora tem razão, tia.
Se essa encarnação existir mesmo, ela vai ser feliz.
— Eu me lembro desse dia.
Beatrice foi para a cozinha e preparou o almoço.
Quando os meninos chegaram com Giuseppe, almoçamos e, como fazíamos todos os dias, fomos brincar.
À tarde, a vó Justina veio com um bolo de chocolate, que ela sabia que nós gostávamos.
Colocou sobre a mesa e, após nos sentarmos, ela deu um pedaço para cada um.
Beatrice também se sentou e comeu do bolo.
Quando terminamos, a vó disse:
— Um dia, Deus chamou a mãe de vocês e falou:
Você precisa nascer lá na Terra, para deixar nascer duas crianças que eu amo muito.
Ela ficou contente, nasceu e deixou que vocês nascessem.
Hoje, Deus chamou ela de novo e falou:
Lindinha, agora preciso que você volte para me ajudar aqui no céu.
Ela ficou um pouco triste por ter de deixar vocês aqui, mas sabendo que eu, a dona Beatrice e o Domingos vamos cuidar de vocês, ela atendeu ao chamado de Deus e voltou para o céu.
Deus ficou contente e, para que ela pudesse ver vocês todas as noites, fez com que ela se transformasse em uma estrela.
Então, todas as noites, quando vocês sentirem saudade, vão lá para fora, olhem para o céu e vão ver uma estrela que vai piscar.
É a mãe de vocês que está olhando para e baixo, sorrindo.
— Nós olhamos para ela e para Beatrice, não entendemos muito bem o que ela quis dizer, mas ficamos felizes por saber que nossa mãe tinha virado uma estrela e, à noite, nós três fomos para fora para poder olhar para o céu e ver a nossa mãe.
E não é que uma estrela piscou mesmo!
Durante muito tempo, fizemos isso, até que deixamos de fazer, talvez por termos crescido e entendido o que havia acontecido realmente.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:52 pm

Mesmo assim, de vez em quando, eu ainda olho para o céu e vejo a estrela piscando.
No dia seguinte, como acontecia todos os dias, Beatrice levou os meninos para a escola.
Fui junto, só que naquele dia foi diferente.
Quando chegamos, ela conversou alguma coisa com a professora.
Depois as duas vieram para onde eu estava e a professora falou:
— Hoje você vai ficar aqui na escola, Odila.
Está quase na hora de você começar a estudar, por isso, vai ficar para ver se gosta.
— Como eu tinha muita curiosidade em saber o que acontecia na escola, fiquei feliz.
Beatrice me deu um beijo.
A professora pegou na minha mão e entramos.
Essa era Beatrice, sempre preocupada com os nossos sentimentos e com o nosso bem-estar.
Bem, agora vamos continuar com a leitura?
Dona Justina conversou com as crianças de uma maneira linda, transformou Lindinha em uma estrela, disse que ela estaria todas as noites olhando para elas.
Parece que as crianças estão bem.
Depois de todos os papéis ficarem prontos, fomos enterrar Lindinha.
Ela estava linda no caixão, nem parecia que estava morta.
Quando chegamos diante da sepultura, dona Justina, com lágrimas nos olhos, disse:
— Não entendo por que Deus levou você, tão jovem, e não me levou, já que estou velha e cansada.
Ele deve ter seus motivos e precisamos aceitar.
Trouxemos você até aqui.
Daqui para frente, vai ter de seguir sozinha.
Vai com Deus, minha filha, e que Oxalá a acompanhe.
Todos os que estavam ali não conseguiram evitar as lágrimas.
Dona Justina olhou para o céu e sorriu, parecendo ver Lindinha partir.
Domingos ficou calado o tempo todo.
Acho que estava relembrando o dia em que a encontrou na estação e, por isso, reencontrou sua família.
Depois que o enterro terminou, Domingos levou dona Justina para casa.
Eu e Giuseppe fomos até a escola buscar as crianças.
Elas saíram e, como sempre, estavam rindo, felizes.
Não imaginavam o que havia acontecido.
Eu, Domingos e dona Justina resolvemos que elas não deveriam ver Lindinha morta para que pudessem guardar na lembrança a imagem dela sempre linda, brincando e feliz.
Desde o enterro, fiquei cuidando das crianças e sabendo que sempre as amaria como se fossem meus filhos.
Só hoje, tive vontade de escrever, para que, quando crescerem, possam lembrar com carinho da mãe.
Odila, com a voz embargada, disse:
— Nós só ficamos sabendo como nossa mãe havia morrido quando já tínhamos idade para entender.
Beatrice nunca deixou de nos falar como ela era e tudo o que havia feito para nos salvar.
— Quanto mais a senhora lê, mais eu admiro essa mulher.
Continue, tia.
Esses cadernos são tão bons que poderiam se tornar um livro.
— Eu e Genaro já pensamos nisso.
Vamos ver o que vai acontecer.
Ela voltou a escrever quatro meses depois.
Desde que Lindinha morreu, todos nós ficamos mais tristes.
Mesmo assim, procuramos fazer com que as crianças não percebam.
Não podemos reclamar de falta de dinheiro.
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