Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:52 pm

A empresa está cada vez melhor.
Já me acostumei com aos abusos de Giuseppe e à sua falta de amor e de respeito.
Entendi que não tenho o que fazer.
Alias, sei qual seria o caminho, mas não tenho coragem de seguir por ele.
Ontem, na hora do almoço, Domingos chegou.
Estranhei, porque ele sempre sai pela manhã e só volta à noite:
— O que aconteceu, senhor Domingos, para estar em casa a esta hora?
— Preciso falar com a senhora e com minha avó.
Tenho um pedido a fazer.
— Pedido?
Que pedido?
— Vamos falar com vovó e ficará sabendo.
Fomos até a casa de dona Justina.
Faz algum tempo que Domingos a convenceu de que devia parar de trabalhar e ela parou.
Ela, agora, só se dedica à arrumação da casa e me ajudar a cuidar das crianças.
Entramos. Ela estava sentada, fazendo croché.
Ao ver Domingos, também estranhou, diria até que se assustou.
Olhou para mim, depois para ele e perguntou:
— O que aconteceu, meu filho?
— Nada, vovó.
Por que estão estranhando tanto?
— Além de achar estranho, estou preocupada.
— Eu também...
Ele olhou para nós duas e disse:
— Não precisam ficar preocupadas.
Estou muito feliz!
Feliz?
— O que aconteceu, meu filho, para que você ficasse tão —feliz!
Já faz algum tempo que conheci uma moça.
Ela é linda e mulata como eu.
Começamos a namorar e, como sempre falo da minha família, ela quer conhecer todos.
Por isso, convidei-a para que viesse jantar connosco hoje à noite e ela aceitou.
Quero que a conheçam e, depois, me digam o que acharam dela.
O meu pedido é que façam um jantar especial, delicioso, como sabem fazer.
Quero que ela sinta como a minha família é maravilhosa.
Eu, ao ouvir aquilo, estremeci.
Tive Domingos tanto tempo do meu lado e senti que, com a chegada dessa moça, tudo o que sempre tivemos, ia terminar.
Dona Justina, ao contrário, ficou feliz:
— Até que enfim, meu filho!
Você é um menino muito bom, precisa ter uma mulher ao seu lado, ter a sua própria família!
Pode trazer a moça que eu e a Beatrice vamos fazer um jantar muito bom, não é, menina?
Eu fiz uma força incrível para responder:
— Vamos, sim, dona Justina.
— Está vendo, meu filho?
Eu e a menina vamos fazer um jantar de que você nunca mais vai se esquecer.
Mas, quem é essa moça?
— O nome dela é Conceição.
O pai dela é português e a mãe, uma mulata.
Ela é linda e estou gostando muito de ficar ao seu lado.
— Estou feliz, meu filho.
Você merece toda a felicidade deste mundo.
Vai almoçar?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:52 pm

— Não, vovó, vou almoçar com ela.
— Vai meu, filho, vai.
Quando chegar, à noite, o jantar vai estar preparado.
Ele saiu e dona Justina ficou falando na moça, curiosa e ao mesmo tempo feliz por Domingos ter encontrado alguém de quem gostasse.
Embora eu e Domingos nunca mais tenhamos tido algo, sempre nos tratamos com respeito e amizade.
Eu estava me sentindo muito mal.
Não consigo entender o porquê daquela minha reacção.
Meu único pensamento era de que a moça deveria ser muito chata e ruim.
Durante toda a tarde, eu e dona Justina ficamos preparando o jantar.
Quando estava chegando a hora de Domingos chegar, enquanto ela terminava de preparar a comida, eu arrumei a mesa.
Agora, depois da reforma, tanto na casa dela como na minha havia uma sala de jantar com uma mesa no meio.
Arrumei tudo da melhor forma possível, mas não conseguia controlar a minha curiosidade em conhecer a tal moça.
Na hora de sempre, eles chegaram e, quando vi a moça, fiquei com muita raiva, pois ela, realmente, é linda!
Depois das apresentações, tentei não participar do jantar:
—Desculpem, mas não posso ficar para o jantar.
Preciso alimentar as crianças.
Domingos, desolado, falou:
— Não faça isso, dona Beatrice, as crianças já estão grandes e não vejo problema algum em que jantem connosco.
Olhei para as crianças e as três balançaram a cabeça, dizendo que sim.
Mesmo a contragosto, não tive como evitar.
Mostrei o lugar em que deviam se sentar e fui ajudar dona Justina a trazer a comida para a mesa.
Meu único desejo era que ela fizesse alguma coisa que deixasse dona Justina triste ou então algo que magoasse as crianças, mas isso não aconteceu.
Ela riu, brincou com as crianças e foi muito agradável comigo e com dona Justina.
Olhei para Domingos e vi que ele estava encantado.
Assim que terminamos de comer, fiz com que Genaro se levantasse, dizendo:
— Vamos, Genaro, está na hora de você dormir.
Ele, protestando, levantou-se.
Segurei a mão dele e disse:
— Desculpem, mas está na hora de Genaro dormir.
Olhei para Conceição e, mentindo, falei:
— Fiquei muito feliz em conhecer você.
Ela sorriu com aqueles dentes lindos:
— Obrigada, também fiquei feliz em conhecer vocês.
Domingos não para de falar em todos.
Ele gosta muito de vocês.
Saí de lá o mais rápido que pude.
No quarto, coloquei Genaro para dormir e fui para o meu quarto.
Deitei sobre a cama e chorei por muito tempo.
Senti sede e fui para a cozinha, quando Giuseppe chegou.
Olhou para mim e viu que meus olhos estavam vermelhos.
— Por que você está chorando, Beatrice?
— Estou com dor de cabeça.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:52 pm

— Dor de cabeça?
Nunca vi você com dor de cabeça.
Querendo acabar com aquela conversa, peguei água e estava voltando para o quarto, quando ele gritou:
— Eu sei por que você está chorando.
É por causa dele, não é?
— Não sei sobre o que você está falando.
Ele, com violência, pegou o meu braço e fazendo com que meus olhos encontrassem com os dele, falou sem gritar, mas com muita raiva:
— Está chorando porque Domingos encontrou uma moça e vai se casar, não é?
— Você está louco!
— Louco! Louco, não! Idiota!
É isso que você sempre achou de mim!
Acredita mesmo que eu não sei o que há entre vocês dois?
Acredita que eu não sei que Genaro é filho dele?
Só se eu fosse realmente idiota, mas eu não sou!
Você, com essa cara de santa, não passa de uma traidora.
Começou a me bater sem parar.
Depois, me jogou no chão e começou a me chutar com muita violência, falando baixo:
— Não solte um pio, pois se o seu filho acordar, vai apanhar também!
Estou cansado de você e dele!
Eu fiquei ali, chorando, mas sem gritar e sem conseguir me defender.
Depois de muito me bater, ele saiu e só voltou três horas depois.
Depois que ele saiu, com muita dificuldade, consegui me levantar e fui até o quarto de Genaro.
Ele estava dormindo profundamente.
Agradeci a Deus e fui para o meu quarto.
Deitei-me e, embora quisesse, não consegui parar de chorar.
— Ela mereceu! É mesmo uma traidora!
— O que é isso, Olavo?
Como pode pensar assim!
Nada justifica uma violência igual a essa!
Olavo percebeu que havia se deixado levar pela emoção e tentou consertar:
— Ela foi mesmo uma traidora, mamãe.
Giuseppe teve razão de ficar furioso, ainda mais por ver como ela estava pelo casamento de Domingos!
O que a senhora queria que ele fizesse?
— Não posso negar que ela o traiu e que ele precisava tomar uma decisão, mas nunca a de espancar!
Ele poderia tê-la abandonado e deixado que ela continuasse sua vida e arcasse com o que havia feito.
Poderia ter deixado que ela seguisse com a sua consciência.
— Não sei se isso seria suficiente.
Talvez ele não devesse ter batido, mas também não acho que deveria tê-la deixado sozinha para que pudesse ficar com o outro.
Carlos, que tudo ouvia e sabia o motivo de Olavo estar daquela maneira, disse:
— Penso como a senhora, titia.
Nenhum homem tem o direito de exercer a força contra a mulher que, comprovadamente, é mais fraca.
— Está certo, Carlos, mas, embora ache que o homem não tem o direito, por motivo algum, de espancar uma mulher, ela também não pode se deixar espancar sem reagir.
Não digo que deva bater, também, pois isso seria quase impossível pela condição física, mas ela pode e precisa tomar a atitude de abandonar esse homem violento.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:52 pm

A mulher precisa reconhecer o seu lugar dentro do lar, não como se fosse uma escrava, mas sim, como o esteio da família.
— É verdade, tia.
A senhora tem razão.
Olavo ouviu o que eles falaram e permaneceu calado.
Odila voltou os olhos para o caderno e continuou lendo:
Hoje, estou com o corpo todo doendo.
Levei os meninos para a escola e Odila está brincando no quintal com sua boneca.
Estou cansada desta vida de violência, mas, por mais que pense, não encontro um meio de me livrar de tudo isso.
Penso em abandonar Giuseppe, mas como fazer isso?
Tenho meu filho e, mesmo sabendo que não é dele, Giuseppe, embora não seja carinhoso nem comigo nem com Genaro, não nos deixa faltar nada.
Definitivamente, sou uma covarde e vou ter que seguir ao lado dele até o fim da minha vida.
— Aqui, ela parou de escrever novamente.
Bem, agora vamos dar uma paradinha e vamos tomar um café ou um refresco?
— Boa ideia, titia.
Estou com sede.
— Eu também, mamãe.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 7:53 pm

Fim da história
Depois de tomarem o refresco, Odila voltou para o caderno:
— Beatrice voltou a escrever seis meses depois.
Minha vida continua como sempre.
Minha única razão para viver são as crianças, elas preenchem todas as minhas horas e minha vida.
Giuseppe continua da mesma maneira, chegando tarde, cheirando a bebida e a perfume de mulher.
Continua encontrando qualquer motivo para me bater.
Agora, não é mais só nas minhas costas, mas em todo o meu corpo.
Ainda bem que tenho dona Justina para me consolar e para cuidar das minhas feridas.
Sem ela, não sei o que seria da minha vida.
Eu, como não tenho coragem para tomar uma decisão, continuo ao lado dele.
Conceição continua vindo aqui em casa.
Eu me esforço para não deixar transparecer o que estou sentindo.
Por mais que eu queira encontrar um motivo qualquer para achar que ela não devia ficar com Domingos, não consigo.
Ela é uma pessoa maravilhosa, não só comigo e dona Justina, mas muito mais com as crianças, que a adoram.
Domingos comunicou que vai começar a construir uma casa para que possam morar, assim que se casarem.
Ao ouvir o que ele disse, meu coração se apertou ainda mais.
Definitivamente, eles vão se casar e eu vou perder o único homem que sempre me protegeu.
Eu, por minha vez, vou tentar ser amiga de Conceição e vou dar todo apoio para que sejam felizes.
Odila levantou os olhos do caderno:
— Ela só voltou a escrever seis meses depois.
Vou aproveitar que Genaro está dormindo e que Giuseppe ainda não chegou para escrever algo maravilhoso que aconteceu hoje.
Está tudo pronto para o casamento.
A casa ficou pronta e está linda.
Eu queria odiar Conceição, mas não foi possível.
Ela é uma moça maravilhosa.
Convidou a mim e dona Justina para que fôssemos com ela comprar os móveis e tudo o que vai precisar para a casa.
Ela disse que sua mãe está doente e não pode acompanhá-la.
Eu aceitei, embora a cada coisa que ela comprava, mais o meu coração doía.
Ela está muito feliz.
O casamento vai ser amanhã.
Eu e Giuseppe vamos ser os padrinhos.
O dia passou normalmente com todos nós preparando tudo para a festa, que vai ser no nosso quintal.
Giuseppe, Domingos e alguns amigos colocavam uma lona para proteger as mesas se, por acaso chovesse.
Dona Justina fez o bolo e os doces.
Eu cuidei dos salgados e das carnes que serão servidas.
Domingos e Conceição não convidaram muitos amigos.
No meio da tarde, quando paramos para tomar café e comer um lanche, para nossa surpresa e muito mais de Domingos, Maria Rita, uma das irmãs dele, chegou.
Desde aquele dia em que ele as trouxe e depois as levou embora, poucas vezes elas vieram até o cortiço.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:20 pm

Quando faziam, sempre pediam para que ele deixasse que elas morassem aqui, mas ele nunca deixou.
Dava algum dinheiro e as levava de volta.
Elas continuavam trabalhando no hotel e morando no mesmo quarto.
Domingos ainda pagava o aluguel, mas ele se recusava a tê-las por perto.
Assim que ela viu que alguma festa estava para acontecer, correu e abraçou-se a Domingos.
— Domingos! Vai ter uma festa aqui?
Ele se desenvencilhou dela e respondeu:
— Vai sim, Maria Rita, vou me casar amanhã.
— Vai se casar com quem?
— Ela não está aqui, mas o que você faz aqui?
— Vim visitar você e estou constrangida.
— Constrangida, por quê, Maria Rita?
— Como você pode se casar sem nos convidar?
Somos suas irmãs!
— Agora, diz que são minhas irmãs, porque precisam da minha ajuda, mas, quando eram ricas e poderosas, chamaram-me de negrinho e colocaram-me para fora, roubando, assim, tudo a que eu tinha direito.
Por favor, pode ir embora, nada mais temos o que conversar.
— Você não pode fazer isso, Domingos.
— Não posso, porquê?
— Quando precisamos, você nos ajudou, nos deu um tecto e nos arrumou um emprego, humilhante, quero destacar, mas, mesmo assim, moramos, por todo esse tempo, naquele quartinho infecto e trabalhamos em serviços humilhantes, não condizentes com a nossa anterior condição.
Reconhecemos que erramos e aprendemos com a lição que você nos deu, mas agora é diferente.
Maria Cecília está muito doente do pulmão e não pode mais trabalhar.
O médico disse que ela precisa ficar em um lugar arejado, sob pena de sua situação de saúde piorar e não conseguir se curar nunca mais.
Por isso, estou aqui, para pedir, mais uma vez, que nos ajude.
Ela está doente e preciso cuidar dela, portanto, também não posso mais trabalhar.
Atónito, Domingos olhou para nós, que conhecíamos toda a história.
Ia dizer alguma coisa, quando Maria Rita se ajoelhou, agarrou suas pernas e falou, chorando:
— Por favor, ajude...
Domingos, sei que não merecemos, mas nos ajude!
Constrangido, Domingos fez com que ela se levantasse, dizendo:
— Levante-se, Maria Rita. Vou ajudar.
Só que não vai ser hoje.
Estou pensando somente no meu casamento.
Na segunda-feira, vou até onde moram e vamos encontrar uma solução.
Por favor, agora, vá embora e me espere.
Ele a ajudou a se levantar.
Ela pegou sua mão e beijou.
Domingos se afastou e, apontando para fora do cortiço, disse:
— Agora vá, Maria Rita.
Precisamos continuar com os preparativos para o casamento.
Ela, com a cabeça abaixada, saiu caminhando devagar.
Domingos voltou a olhar para todos nós, respirou fundo e disse:
— Agora, vamos continuar.
Temos muito a fazer.
Continuamos com nosso trabalho.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:20 pm

Quando tudo estava pronto, Giuseppe olhou no relógio e, olhando para mim, disse:
— Preciso sair, tenho um compromisso.
Não me espere porque vou chegar tarde.
Embora estivesse envergonhada, fiquei calada.
Ele tomou banho, perfumou-se e saiu.
Como já estava acostumada com essa atitude, Justina ia preparar o jantar para mim e Genaro, quando dona disse:
Não precisa preparar comida, menina.
Sobrou muita da hora do almoço.
Você e Genaro podem comer comigo, com Domingos e com as crianças.
— Está bem, dona Justina, mas preciso lavar e arrumar a cozinha.
A senhora pode dar comida para Genaro?
— Claro que dou.
Pode ir cuidar da sua cozinha.
Domingos, você vem?
— Não, vovó, preciso conversar com dona Beatrice a respeito de algumas coisas sobre o casamento.
— Está bem. Vou cuidar das crianças.
Ela chamou as crianças e entrou em casa.
Eu olhei para Domingos e, curiosa, perguntei:
— O que o senhor quer falar comigo, senhor Domingos?
Parece que tudo está perfeito para o casamento.
— A senhora poderia me dar um pouco de café, para podermos tomar enquanto conversamos?
— Claro que sim.
Vamos para a minha cozinha e vou coar um bem fresquinho.
Entramos na cozinha e Domingos se sentou em uma cadeira.
Enquanto eu colocava para o meio do fogão a chaleira com água que estava sobre a chapa, Domingos falou:
— O que a senhora está achando do meu casamento, dona Beatrice?
Fiquei espantada com aquela pergunta.
Queria dizer que estava triste, que não queria que ele se casasse, mas como estava virada para o fogão, me voltei para ele e menti:
— Acho que o senhor vai ser muito feliz.
Conceição é uma moça maravilhosa.
— Está certa do que está dizendo?
— Claro que sim, por que não estaria?
— Pois eu não.
Não acredito que vou ser feliz.
— Como pode dizer uma coisa como essa, senhor Domingos?
Está tudo pronto para o casamento!
— Sei que está tudo pronto e, agora, estou arrependido de deixar que as coisas tenham chegado até aqui.
Não posso me casar, dona Beatrice...
— Por que não?
— Porque não a amo, portanto não vou ser feliz.
— Não estou entendendo.
Se não a ama, como pôde chegar até aqui?
Se não se casar, o que vai ser dela?
O senhor já pensou nisso?
— Claro que pensei e tenho pensado há muito tempo.
Tentei conversar com Conceição, mas ela, não sei se por desconfiar, assim que eu começava a falar, mudava de assunto e não permitia que eu continuasse.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:20 pm

— Por que está conversando sobre isso comigo, senhor Domingos?
— Porque a senhora pode me ajudar a tomar uma decisão.
— Eu? Como?
— A senhora foi a única mulher que amei e continuo amando.
Embora, desde aquele dia nunca mais tenhamos tido coisa alguma, eu, que já a amava desde o dia em que encontrei a senhora e Giuseppe na estação, respeitei o seu desejo.
Durante todo esse tempo, muita coisa aconteceu.
Nosso filho nasceu, a empresa cresceu e tenho muito dinheiro guardado.
Posso fazer à senhora um último apelo.
Eu estava tremendo muito, nervosa, sem saber o que fazer ou falar.
Ele continuou:
— Como disse, tenho muito dinheiro guardado, o suficiente para irmos embora para bem longe daqui e começarmos uma nova vida juntos.
Se a senhora aceitar, minhas dúvidas terminam.
Sei que poderemos ser felizes.
Ao ouvir aquilo, fiquei apavorada, confusa e sem saber o que responder.
Ele continuou:
— Sei que a senhora também sempre gostou de mim.
Podemos realizar nossos sonhos, dona Beatrice...
— Não posso, não posso!
Não posso abandonar Giuseppe!
— Como não, se ele, durante todo esse tempo, tem violentado e espancado a senhora!
Chega de sofrer, a senhora pode e merece ser feliz.
Garanto que, ao meu lado, isso vai acontecer.
Podemos levar Genaro connosco, ele é nosso filho e eu o amo...
Fiquei sem saber o que falar.
Durante tanto tempo, eu sonhei em viver com ele, que é um bom homem, carinhoso e atencioso, tão diferente de Giuseppe, mas não consegui aceitar:
— Não posso, senhor Domingos.
Se lhe fizer bem, vou dizer que também sempre gostei muito do senhor e que estou muito triste pelo seu casamento, mas não posso.
Giuseppe é meu marido e eu jurei ficar com ele até o fim da minha vida e vou fazer isso.
— A senhora tem certeza disso?
Quer continuar com essa vida, de sofrimento ao lado de um homem que não a ama nem a respeita?
Chorando, respondi:
— Sim, tenho certeza e agradeço por tudo o que disse.
Suas palavras me fizeram muito feliz.
Desejo do fundo do meu coração que o senhor seja e faça Conceição muito feliz.
Ela é uma boa moça e merece a felicidade que eu nunca tive, mas que o senhor tem condições de dar a ela.
Agora, por favor, me deixe sozinha.
— Está certa disso?
Quero dizer à senhora que, se eu sair daqui, sozinho, nunca mais vou tocar nesse assunto.
Eu queria me jogar em seus braços, mas não consegui e apenas disse:
— Saia, por favor, senhor Domingos.
Ele saiu e eu fiquei ali, chorando, sem conseguir parar.
Aquilo que eu mais desejei aconteceu e eu não tive coragem para aceitar.
Sempre que Giuseppe me espanca, tenho vontade de sumir, mas nunca consigo.
Agora que tive uma chance, fui covarde e mereço continuar sendo espancada.
Olhei para o fogão e a água estava fervendo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:20 pm

Coei o café, coloquei-o em uma caneca, sentei-me e, tentando controlar meu choro, tomei-o bem devagar.
Desde o começo, percebi que esse homem foi um canalha!
— O que está dizendo, Olavo?
Ele não foi um canalha!
— Como não, Carlos?
Ele traiu o amigo e um dia antes de se casar faz uma proposta como essa e você diz que ele não foi um canalha?
— Claro que não!
Ele fez uma última tentativa para ficar com a mulher que amava e que só sofria!
Ele a amava, Olavo, será que você não entendeu isso?
— Entendi que ele, com esse pedido, traiu não só o amigo como, também, a mulher com a qual ia se casar e que o amava!
Foi isso que entendi!
Foi, sim, um canalha!
— Você acha que, por ele amar Beatrice, foi um canalha, mas não ouvi você dizer qualquer coisa parecida contra Giuseppe, que sempre a maltratou.
Não estou entendo você, Olavo.
— São coisas diferentes, mamãe.
— Como diferentes?
A única coisa diferente é que Domingos a amava e Giuseppe a espancava, essa era a diferença.
— Será que a senhora não entende que Giuseppe foi traído e criou Genaro como seu filho, mesmo sabendo que não era.
— Nisso você tem razão, mas, mesmo assim, não deixou de ser um canalha por espancar sua mulher.
— O que a senhora queria que ele fizesse, mamãe?
Ele foi traído...
— Não se faça de desentendido, Olavo.
Ele já a espancava antes disso e garanto a você que, se ele tivesse sido um bom marido, essa traição jamais teria acontecido.
Ela aturou muito, se fosse eu, na primeira vez em que ele me espancasse, eu o teria abandonado.
— O que você acha, Carlos?
— Acho que os dois têm bons argumentos, mas, ainda assim, o da titia é melhor.
Não consigo aceitar a ideia de um homem bater em uma mulher.
Não encontro motivo algum para justificar isso.
Acho que, se ele não está feliz com qualquer situação, deve abandoná-la para que os dois possam seguir com a sua vida.
— Isso mesmo, Carlos.
— Titia, a senhora disse que acredita na reencarnação.
Será que as coisas se repetem?
— Por tudo o que estou aprendendo, repetem-se, sim.
E vão continuar se repetindo até que o espírito aprenda a respeitar e exija ser respeitado, pois, perante Deus, ninguém é melhor do que o outro.
— Interessante essa posição.
O que acha, Olavo?
Será que se repetem mesmo?
— Como vou saber, Carlos?
Nem sei se acredito nisso?
Para mim, parece mais uma loucura!
Onde já se viu nascer e renascer?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:21 pm

É algo inconcebível!
Odila, percebendo que Olavo estava alterado, interrompeu:
— Não entendo essa sua reacção, Olavo, mas acho melhor continuar com a leitura.
— Também acho, mamãe.
Precisamos voltar para casa.
— Você não disse que só ia amanhã?
— Disse, mas quero ir hoje.
Estava curioso para saber da história, agora que já sei, estou satisfeito.
Continue, por favor, mamãe.
— Está bem, vou continuar.
Beatrice só voltou a escrever na noite do dia seguinte:
Giuseppe acabou de sair e, como sempre, bem vestido e perfumado.
Genaro está dormindo, por isso, posso escrever.
O casamento foi muito bonito.
Conceição estava linda e Domingos também.
Ele estava emocionado e na hora de dizer o sim, olhou para mim e eu, com os olhos molhados, apenas sorri.
Naquele momento, senti que minha vida havia terminado.
A festa foi muito boa.
Domingos tem muitos amigos.
Daqui para frente, vou ter de me acostumar a viver sozinha, pois, embora viva ao lado de Giuseppe, não sinto mais coisa alguma por ele.
Domingos, durante todos esses anos, tem sido a minha companhia.
Agora, vou tentar dormir e esperar que Giuseppe tenha uma óptima noite para, quando chegar, não descontar em mim.
Não sei por que sou tão covarde e não luto pela minha felicidade.
Também, acho que felicidade não existe.
Acho que algumas pessoas nasceram só para sofrer.
— Como sofreu essa mulher.
— Ela desistiu da felicidade, tia.
Por que será que preferiu ficar com um marido tão mau?
— Vai se saber, Carlos.
Até hoje, existem mulheres que têm medo de ficar sozinhas, sem marido.
Naquele tempo, a mulher era criada para servir ao marido e aos filhos, mas, agora, as coisas estão mudando.
A mulher está estudando e se preparando para ter o seu próprio dinheiro e, quando isso acontecer, só vai ficar com um homem se o amar e for amada por ele.
A liberdade só vem depois de se conseguir a liberdade financeira.
Sem ela, a mulher ou qualquer um fica na dependência, não tem jeito.
Sempre foi assim e vai continuar a ser.
Beatrice, talvez por ter passado por tudo isso, já me criou com esses valores, sempre me falando da importância de sermos livres para podermos decidir sobre a nossa vida.
— Até hoje ainda existem mulheres assim, tia.
Conheço algumas que, mesmo sendo espancadas e torturadas, não têm coragem de se separar, de viver sozinhas.
— É verdade, Carlos, mas o novo milénio está chegando.
Quando ele chegar, as filhas da minha geração serão as mães e saberão orientar suas filhas e seus filhos para que respeitem suas mulheres.
Carlos olhou para Olavo, que permaneceu calado.
Depois, voltou os olhos para o caderno e continuou:
— Ela só voltou a escrever um ano depois.
Desde o casamento de Domingos, eu não tive coisa alguma para escrever.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:21 pm

Como eu havia previsto, as nossas conversas nunca mais foram possíveis.
Domingos trata Conceição com muito carinho e ela a ele.
Hoje pela manhã, ele pediu que eu e dona Justina ficássemos com Conceição.
Saiu apressado e voltou com a parteira.
A parteira, eu e dona Justina ficamos ao lado de Conceição, ajudando-a para a hora do parto.
Quase seis horas da tarde, uma menina nasceu.
Domingos está feliz, dona Justina e Conceição também.
Eu, embora preferisse que fosse minha filha, não posso ficar triste e desejo que ela tenha uma vida muito feliz.
Os meninos cresceram, terminaram o primário e estão indo para a empresa.
Eu não queria, pois acho que ainda são crianças e que precisavam brincar, mas tanto Giuseppe como Domingos acham importante que eles comecem desde já a conhecer o trabalho, porque eles terão de cuidar de tudo quando ambos não puderem mais.
Embora saiba que eles têm razão, gostaria que os meninos pudessem viver como crianças, sem responsabilidade.
Odila está linda!
Ela é a minha companheira.
Eu estou ensinando a ela tudo o que vai precisar saber para que, quando se casar, não fique perdida e possa cuidar da sua casa muito bem.
Porém, também a estou ensinando que deve sempre tentar ser livre e nunca ser covarde como eu.
Por isso, precisa estudar e se preparar para poder ter uma profissão.
Ela diz que quer ser professora.
Espero que seja.
Ela fica brincando com as bonecas e repetindo as palavras para que elas aprendam a ler.
Sempre que a vejo assim, fico orgulhosa da minha menina, pois, além de ser linda, é muito inteligente e vai ser uma óptima professora!
Olavo começou a rir:
— Do que está rindo, Olavo?
— A senhora está inventando essa parte, mamãe!
Ela não escreveu isso!
Odila, parecendo ofendida, disse:
— Claro que ela escreveu, Olavo!
Por que diz isso?
Não me acha bonita?
Não fui uma óptima professora?
— A senhora é linda, mamãe, e uma óptima professora.
Só estranhei a senhora ler como se estivesse falando de outra pessoa!
Carlos apenas sorriu.
Odila continuou:
— Deixe de debochar, Olavo, vou continuar a leitura.
Está quase terminando e, também, na hora de tomarmos o lanche da tarde.
Vamos esperar mais um pouco até que seu pai acorde.
Ela só voltou a escrever alguns meses depois:
Estou vivendo os dias mais infelizes da minha vida.
Tudo o que Giuseppe me fez sofrer e ainda me faz não se compara ao sofrimento que estou sentindo agora.
Pela manhã, Domingos fez o que não fazia há muito tempo.
Saiu da sua casa e veio até a minha.
Bateu, de leve, à porta e, quando atendi, sorrindo, perguntou:
— A senhora pode me oferecer um café, dona Beatrice?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:21 pm

Fiquei sem saber o que fazer.
Embora sobre um dos meus olhos houvesse uma mancha preta, eu já não escondia mais.
Notei que ele viu, mas fez de conta que não estava vendo.
Um pouco nervosa, respondi:
— Entre, por favor, senhor Domingos...
Ele entrou, sentou-se e disse:
— Desculpe-me, mas hoje senti vontade de tomar seu café como fazíamos antigamente.
A Conceição e a Dorinha estão dormindo.
Resolvi não acordá-las.
Vim, então, conversar um pouco com a senhora, tomar do seu café.
Vi que Giuseppe saiu com Genaro.
— Sim, eles foram trabalhar.
— Também vou daqui a pouco, mas antes vou tomar o seu café.
Um pouco desajeitada, peguei uma panela com água e coloquei sobre a chapa do fogão para que fervesse.
Ainda de costas, ouvi quando ele perguntou:
Ele ainda continua maltratando a senhora, não é?
Voltei-me e respondi:
— Não tenho como negar, ele está cada vez mais violento, mas já me acostumei.
Cheguei à conclusão de que nasci para sofrer e contra isso nada tenho a fazer.
— Nunca acreditei que precisamos sofrer, dona Beatrice.
Acho que tudo depende de nossas escolhas.
A senhora teve a chance de terminar com todo esse sofrimento, sabe bem disso.
Lembrei-me do dia em que ele me convidou para que fôssemos embora.
Sorri:
— O senhor disse que nunca mais ia tocar nesse assunto.
— Disse e não pretendia.
Estou feliz ao lado de Conceição.
Ela é uma mulher admirável, vive para mim e para Dorinha, que eu amo muito, mas ela não é a senhora.
Embora esteja tocando minha vida, fico infeliz ao constatar que a senhora ainda sofre dessa maneira.
A senhora precisa reagir, dona Beatrice.
Agora, sei que não posso mais ir embora com a senhora, mas ainda posso ajudar com dinheiro e encontrando um lugar onde possa ficar.
Apesar de eu estar casado, não posso negar que a senhora foi a única mulher que amei e que continuo amando.
Não sei o porquê de eu estar aqui falando essas coisas, mas senti que precisava dizer.
Agora vou embora e nunca mais vou tocar nesse assunto.
Não se esqueça de que, quando quiser tomar uma atitude, eu estarei aqui para ajudar a senhora no que for preciso.
Eu queria me jogar nos braços dele.
Tentei falar alguma coisa, mas não consegui.
Ele se levantou e a única coisa que consegui falar foi:
— O senhor não vai tomar café?
— Não, dona Beatrice.
Obrigado, mas preciso ir embora.
Não devia ter entrado aqui e muito menos falado o que falei.
Estou sentindo algo estranho que não sei o que é, mas nunca senti isso.
Vou indo e, embora me arrependa de estar aqui, não me arrependo do que disse.
A senhora foi a única mulher que eu amei e que continuarei a amar por toda minha vida.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:21 pm

Se existir outra vida depois da morte, vou continuar amando a senhora.
Ele sorriu e saiu.
Fiquei ali com um caroço na garganta, fazendo um esforço enorme para não chorar e não correr atrás dele.
Depois de alguns minutos, chorei muito.
Eu sempre fui covarde e continuo a ser.
Nunca tive coragem de tomar uma atitude e ainda não tenho.
Porém, a vida precisa continuar e fui cuidar dos meus afazeres.
Eu e dona Justina ajudamos Conceição a cuidar da menina que está ficando, a cada dia, mais bonita.
Queria odiar Conceição, mas não posso.
Ela é uma pessoa muito boa.
Eu estava terminando de lavar roupas, precisava fazer o almoço para dar a Odila e depois levá-la à escola.
Conceição cuidava da sua casa.
Dona Justina e Odila brincavam no quintal, quando vimos Giuseppe chegando.
Ficamos surpresas, pois ele não costumava estar em casa àquela hora.
Quando ele se aproximou, notei pela expressão do seu rosto que algo havia acontecido.
— O que foi que aconteceu, Giuseppe?
Por que está aqui a esta hora?
Ele fez algo que não fazia há muito tempo, abraçou-me e falou baixinho para que dona Justina não ouvisse:
— Domingos morreu...
Ao ouvir aquilo, senti que minhas pernas amoleceram e só não caí porque Giuseppe estava me abraçando.
Por detrás do ombro de Giuseppe, olhei para dona Justina, que percebeu que algo estava acontecendo.
Ela, que estava sentada um em um banquinho, levantou-se, veio para junto de nós e perguntou:
— O que está acontecendo, menina?
Por que você está nervosa desse jeito?
Ao ver o estado dela, percebi que não podia me deixar levar pela emoção e que precisava cuidar dela.
Larguei Giuseppe e, abrindo os braços, fui até ela e a abracei.
Ela, já com a voz chorosa, perguntou:
— Que foi que aconteceu, menina?
Sem conseguir impedir que as lágrimas corressem pelo meu rosto, respondi:
— Domingos está morto...
Ela se afastou, levantou os braços para o alto e gritou:
— Oxalá, meu pai!
Por que está fazendo isso comigo?
Por que está levando embora a minha família que custei tanto a encontrar?
Por que não me levou, já que estou velha?
Depois disso, sentou no chão e ficou chorando sem parar.
Eu estava com o coração partido pela morte de Domingos e pela situação dela.
Conceição, ao ouvir o grito de dona Justina, saiu à porta e perguntou:
— O que está acontecendo?
Por que estão chorando?
Ao olhar para ela, fiquei sem saber o que dizer.
Dona Justina, assim que ouviu sua voz, se levantou e, chorando, disse:
— Domingos foi embora, Conceição, ele deixou a gente.
Foi para o céu...
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:22 pm

— O que a senhora está falando, dona Justina?
Está dizendo que Domingos Morreu, morreu?
- filha... morreu...
— Como aconteceu? Onde ele está?
Preciso estar ao lado dele!
Só naquele momento, percebi que nem eu nem dona Justina perguntamos aquilo.
A surpresa foi tanta que só pensamos na sua morte, não como havia acontecido.
Giuseppe contou:
— Estávamos conversando sobre o andamento da empresa.
De repente, ele colocou a mão no braço esquerdo, dizendo que estava doendo muito, em seguida caiu e percebi que ele estava morto.
Acho que foi um ataque do coração.
— Onde ele está, Giuseppe?
— A polícia veio e levou o corpo, Conceição, vim até aqui para avisar vocês e, agora, vou tratar dos documentos.
Dizendo isso, ele saiu apressado.
Eu fiquei pensando no dia em que Domingos contou a forma como seu pai havia morrido.
Meu coração estava apertado e eu tinha na garganta como se fosse um caroço.
Quase não conseguia respirar.
Senti como se meu coração fosse explodir.
Aquilo não podia ter acontecido, não com ele que sempre foi um homem tão bom.
Conceição e dona Justina estavam inconsoláveis, mas eu sabia que precisávamos preparar a casa para receber Domingos que voltaria para cá, pela última vez.
Embora estivesse com o coração despedaçado, sabia que era preciso.
Chorando muito, fui afastando os móveis da sala para que o corpo pudesse ser colocado sobre a mesa.
Algumas horas depois, chegaram os homens da funerária e forraram todas as paredes da sala com panos pretos e, nos quatro cantos da mesa, colocaram velas grossas e altas.
Eu olhava para tudo aquilo e não conseguia me conformar.
Como aquilo podia ter acontecido?
Estava assim, pensando, quando as irmãs de Domingos chegaram.
Maria Rita apoiava Maria Cecília, que quase não conseguia andar.
Desde que ela ficou doente, Domingos alugou uma casa maior e melhor, onde elas passaram a morar e também começou a mandar, todos os meses, uma boa quantia para que elas pudessem viver com tranquilidade, sem que precisassem mais trabalhar e Maria Rita pudesse cuidar da irmã.
Sempre admirei aquela atitude, embora achasse e continue achando que elas não merecessem.
Elas olharam tudo.
Choraram muito e gritaram alto, tanto que eu e alguns vizinhos que estavam ali para esperar o corpo nos emocionamos e choramos também.
Depois se aproximaram de mim e Maria Rita disse:
— Assim que um rapaz chegou, dizendo que o seu marido o mandou lá em casa para nos avisar que Domingos havia morrido, nos apressamos.
A senhora sabe que Domingos cuidava de mim e da minha irmã.
Estamos aqui para pedir e, se for preciso, nos humilhar para que seu marido continue nos ajudando.
Sabemos que nosso irmão é sócio da empresa e que, portanto, temos algum direito.
Não acreditei no que estava ouvindo.
Como elas podiam estar ali não por causa da morte do irmão, mas para garantir que continuariam a receber dinheiro e, principalmente, reclamando uma parte na empresa a que claramente não tinham direito, pois ficaria para Conceição e Dorinha.
Triste, entendi que, apesar de tudo o que tinham passado, não haviam aprendido coisa alguma.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:22 pm

Sem responder, me afastei e fui para casa de dona Justina onde ela e Conceição estavam.
Assim que entrei, vi que elas continuavam chorando, desoladas.
Dona Justina não se conformava por Oxalá ter levado Lindinha e Domingos e tê-la deixado ali.
Conceição chorava por ter perdido o marido tão jovem e a quem tanto amava.
Olhei em volta e não vi Odila.
Ia perguntar, mas achei que não tinha o direito de interromper a dor que sentiam.
Resolvi procurar pela casa e, no quarto, ela e Dorinha dormiam.
Agradeci a Deus, em pensamento, por elas estarem, pelo menos naquele momento, ausentes de todo sofrimento.
Acho que elas não tinham a compreensão do que estava acontecendo.
O corpo chegou e foi colocado sobre a mesa.
Muitas pessoas vieram, amigos e clientes.
Flores chegaram, através de crianças do bairro que o conheciam e gostavam dele.
Foram de casa em casa pedir flores.
A dor que eu senti foi imensa.
Hoje pela manhã, fomos ao cemitério e o enterramos.
Ao ver a terra sendo jogada sobre o caixão, senti que uma parte de mim também estava sendo enterrada.
Eu sabia que a minha vida e a de todas as outras pessoas ia continuar.
Porém, a minha, embora continuasse, não teria mais por perto aquele homem, que não sei se amei ou apenas admirei.
Eu continuaria ao lado de Giuseppe, mesmo sabendo que seria maltratada até o fim dos meus dias, mas iria até o fim.
Odila fechou o caderno e falou:
— Esse foi o último dia que ela escreveu.
Os dois se admiraram:
— Terminou como, mamãe?
— Não sei o motivo, mas é tudo o que tem nesses dois cadernos.
— O que aconteceu com os outros, dona Justina, Conceição, as irmãs dele e Giuseppe?
— Eu acho que ela nunca mais escreveu porque, como ela mesmo disse, uma parte dela havia morrido com ele.
Eu não entendi muito bem o que aconteceu naquele dia.
Só sabia que Domingos havia morrido.
Sofri muito, mas logo esqueci, pois, como criança, e pelo amor que tanto eu, como Genaro e Jacinto tínhamos em casa, nossa atenção foi levada para outras coisas.
Lembro-me de que, naquele dia, as três passaram a usar roupas pretas.
Vovó Justina e Beatrice usaram preto até o último dia de vida.
Conceição, após algum tempo, não sei quanto, casou-se com um português.
Lembro-me bem daquele dia porque Beatrice me fez um vestido azul que amei.
Depois que ela se casou, foi morar com o marido em Portugal.
Beatrice, depois da morte de Domingos, chamou as irmãs e permitiu que elas fossem morar na casa que era dele com Conceição.
Elas sempre estavam bravas e brigavam por qualquer coisa.
Por isso, nunca gostamos delas.
Maria Rita, por incrível que pareça, morreu antes de Maria Cecília, que sempre foi a doente.
Depois de algum tempo, Maria Cecília também morreu.
Beatrice e vó Justina cuidaram das duas.
Vovó Justina morreu acho que cinco anos depois de Domingos.
Ela ficou muito doente, até hoje não sei qual foi a doença, só sei que Beatrice cuidou dela com muito carinho.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:22 pm

Lembro-me de que ela chorou muito.
Giuseppe ficou muito doente e Beatrice cuidou dele até o fim.
Ele ficou tuberculoso.
Hoje, acho que foi pela vida desregrada que sempre teve, com bebidas e mulheres.
Quando ele morreu, Genaro e Jacinto já conheciam todo o trabalho da empresa e continuaram.
Quando eu e Genaro resolvemos nos casar, Beatrice ficou muito contente.
Disse que ia continuar com seus dois filhos.
Nós nos casamos e continuamos morando com ela até o dia em que morreu.
Jacinto se casou com a filha de uma família de portugueses.
Teve dois filhos, você, Carlos, e sua irmã.
Beatrice, depois de ficar doente por um tempo, também morreu.
Eu, seguindo o exemplo dela, fiquei a seu lado até o seu último suspiro e, até hoje, sempre que penso nela, tenho certeza de que foi uma grande mulher.
Eu a amei e amo muito.
Tomara que tudo o que estou aprendendo nessa doutrina que estou estudando seja verdade, porque, assim, vou poder encontrar Beatrice novamente.
Se isso acontecer, vou ser muito feliz.
Hoje, vocês estão à frente da empresa e sinto muito orgulho dos dois.
— Mas eu queria saber mais, mamãe!
— Beatrice contou a história deles, Olavo.
Agora, a história da nossa família está nas mãos de vocês, que precisam continuá-la, com orgulho da família que tiveram, para que, um dia, algum de seus filhos possa contar para aqueles que vão chegar, com o mesmo orgulho que contei hoje.
— Pois eu gostei muito, titia, e, como a senhora, também acho que Beatrice foi uma grande mulher.
Aceitou tudo o que Giuseppe fez e, além de ficar ao seu lado todo o tempo, ainda cuidou dele quando ficou doente.
— Como pode dizer isso, Carlos?
Ela gostou o tempo todo de outro, Carlos!
— É verdade, mas, mesmo assim, apesar de ser maltratada e violentada, ficou ao lado dele.
Poucas mulheres fariam isso.
— Vocês ainda estão lendo este caderno?
Voltaram-se e viram Genaro que, com cara de sono, havia perguntado.
— Já terminamos, Genaro.
Estávamos só conversando a respeito de tudo o que lemos, sobre a história da nossa família.
— A nossa família é única, acho que não existe outra igual, meninos -— disse, rindo.
Todos riram.
— Já que você acordou, Genaro, vamos tomar o lanche?
— Vamos lá, pessoal.
Sempre acordo do meu sono da tarde com muita fome.
Foram para a sala de jantar.
A mesa já estava colocada e começaram a comer.
Enquanto comiam, foram conversando sobre a história da família.
De repente, Olavo olhou para Carlos e perguntou:
— Você precisa voltar hoje, Carlos?
— Não! Foi você que disse que queria ir.
Não tínhamos combinado que só iríamos amanhã?
— Não sei o que aconteceu.
Enquanto eu ouvia a senhora lendo os cadernos, em certo momento, fiquei muito nervoso e quis ir embora.
Mas, agora, estou cansado, mamãe.
Vamos amanhã, mesmo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:22 pm

— Que bom, meu filho!
Vou ter você por mais um dia!
Não sabe como isso me deixa feliz!
— Claro que sei, mamãe, e só não me mudo para cá por causa da empresa, mas, assim que eu me aposentar, eu venho para cá.
Genaro começou a rir:
— Você ouviu o que ele disse, Odila?
O safado ainda nem começou a trabalhar e já está pensando na aposentadoria!
Todos começaram a rir.
Maria Tereza, uma das entidades que estiveram ali o tempo todo, olhou para o companheiro e falou:
— Está quase chegando a hora, Tomás.
— Sim, Maria Tereza.
Todos estão em um momento de decisão e precisam conversar em um ambiente tranquilo.
Maria Tereza sorriu e voltou os olhos para os quatro que, felizes, continuavam conversando.
À noite, foram a uma churrascaria e comeram.
Somente Odila e Genaro tomaram cerveja.
Olavo e Carlos não entenderam porquê, mas não quiseram beber e tomaram apenas água, o que bastou para que Genaro risse muito.
Depois do jantar, foram se sentar em uma praça que havia perto do restaurante e continuaram conversando.
Odila e Genaro estavam felizes por terem ali com eles o filho e o sobrinho, coisa que quase nunca acontecia.
Depois, foram para casa.
Odila preparou um chá e, após tomarem, foram se deitar.
Assim que se deitaram, Olavo perguntou:
— O que você achou da história da nossa família, Carlos?
— Confesso que fiquei surpreso, jamais poderia imaginar que tantas coisas haviam acontecido.
Nossa avó parecia ser uma pessoa tão séria, nunca pensei que tivesse tido uma vida tão cheia.
Não só ela, mas todos.
— Também fiquei surpreso.
Nunca imaginei que o nosso avô, que não conhecemos, tivesse sido tão violento.
— Não imaginou por quê, Olavo?
Você é igual a ele!
— Tenho meus motivos.
— Não vou mais discutir isso com você, sei que não adianta.
Estou pensando no colar de dona Justina.
— No colar, por quê?
— Você sabe que meu pai, antes de morrer, ficou muito doente.
No dia em que ele morreu, no meio da tarde, ele mandou me chamar na empresa.
Assim que entrei em seu quarto, ele tirou um colar do pescoço e me deu, falando:
— Este colar representa a história da nossa família.
Fique com ele e, quando tiver seus filhos, não importa quantos, homens ou mulheres, dê a cada um deles um colar para que passem para seus filhos.
Este colar deve estar sempre presente em todas as gerações da nossa família.
Todos que tiverem um igual pertencerão a nossa família.
Promete que vai fazer isso, meu filho?
Eu não dei atenção para o que ele disse e nem queria aquele colar feito com sementes e tão pobre, mas a ansiedade que vi no rosto dele quando fez a pergunta, fez com que eu respondesse:
— Vou fazer, papai, claro que vou fazer...
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:22 pm

— Conversei um pouco mais com ele, mas, como tinha muito trabalho, me despedi.
Coloquei o colar no bolso do paletó e fui embora.
Às dez horas da noite, o telefone tocou.
Era Suzana, a enfermeira que cuidava do meu pai.
Assim que atendi, ela falou:
— Seu pai partiu, Carlos.
— Embora estivesse esperando por aquele momento, senti um aperto no coração.
Peguei meu paletó e saí.
A única coisa que me confortou era saber que ele, finalmente, ia encontrar com minha mãe.
Eles se amavam muito.
No dia seguinte, após o enterro, fui para casa.
Assim que coloquei a mão no bolso para pegar a chave, passei a mão pelo colar.
Segurei-o por alguns segundos na mão e o coloquei sobre a mesa.
Nunca imaginei que um colar feito com sementes tivesse tanto valor.
Onde está o colar, Carlos?
— Não sei, em algum lugar na minha casa.
Nem sei se a empregada não o jogou fora.
Assim que chegar a casa, vou perguntar.
— Nunca vi um colar assim.
Será que minha mãe não guardou?
— Como vou saber?
Amanhã, você pergunta.
— Vou fazer isso, mas agora estou com sono.
Acho melhor dormirmos.
— Está certo, também estou com sono.
Boa-noite, Olavo.
— Boa-noite, Carlos.
Adormeceram em seguida.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:22 pm

Surpresa
Pela manhã, assim que Carlos acordou, olhou para a cama ao lado, onde Olavo dormia profundamente.
Sentou-se sobre a cama e pensou:
Depois de tudo o que faz com Helena, como pode dormir dessa maneira?
Levantou-se, olhou novamente para Olavo, sorriu e saiu.
Entrou na sala de jantar.
Odila e Genaro tomavam café.
— Bom-dia, vocês acordam cedo aqui, não é?
Ainda mais em um domingo!
— Durante toda minha vida, sempre acordei cedo.
Acho que meu corpo se acostumou.
Odila, ao ouvir aquilo, rindo, disse:
— E eu, que não tinha nada a ver com o trabalho dele, também acordava e também me acostumei.
Sente-se, Carlos, venha tomar café.
— Vou até o banheiro e já volto.
Preciso escovar os dentes e lavar o rosto.
Carlos saiu.
Genaro e Odila continuaram comendo.
Assim que entrou no corredor e deu alguns passos, viu que a porta do banheiro estava aberta e que Olavo escovava os dentes.
Encostou-se à porta:
— Bom-dia, Olavo.
Parece que dormiu bem.
— Dormi, sim, e você?
— Também dormi.
Vamos embora depois do almoço, não é?
— Estou pensando em tentar pegar um voo mais cedo.
— Por que isso, Olavo?
— Quero chegar a casa o mais rápido possível.
Preciso conversar com Helena e tentar acertar a nossa vida.
— Por que isso, Olavo?
— Não sei, Carlos, mas depois que conheci a história de Giuseppe e Beatrice, acho que a vida que eu e Helena estamos vivendo não está certa.
Quero mudar tudo e recomeçar.
— Fico contente em ouvir isso, Olavo.
Helena é uma boa mulher e merece ser feliz.
— Agora, vamos tomar café?
— Vamos, sim.
Vá na frente, que vou em seguida.
Olavo saiu do banheiro, Carlos entrou e, olhando para o espelho, pensou:
Helena merece ser feliz, mesmo.
Olavo entrou na sala e foi recebido com alegria pelos pais.
Sentou-se e começou a tomar o café.
Carlos chegou logo depois.
Enquanto comia, Genaro perguntou sobre a empresa e eles o colocaram a par de tudo.
Rindo, Olavo perguntou:
— Pai, o senhor não sente vontade de voltar ao trabalho?
— Quem, eu? Não, meu filho.
Só trabalhei na empresa porque meu pai quis.
Se eu pudesse ter escolhido, teria feito outra coisa.
— Que coisa, papai?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 7:23 pm

— Sei lá, médico, advogado, qualquer coisa que tivesse um "doutor" na frente.
Todos começaram a rir.
— É por isso que o senhor queria que eu fosse médico?
— Foi, meu filho, mas você não quis.
Preferiu trabalhar na empresa.
Sempre disse que ela era como se fosse sua desde o início.
Nunca entendi muito bem, mas, fazer o que, você quis...
— Eu sempre gostei muito.
O senhor não se lembra de como, desde criança, sempre queria ir lá?
Odila olhou para Carlos:
— Você também sempre gostou da empresa não é, Carlos?
— É verdade, tia. Sempre e ainda gosto.
Não me vejo fazendo outra coisa.
Adoro lidar com os clientes e os vendedores.
— O motivo de ela sempre ter dado certo foi justamente isso, a paixão que sentimos por ela.
— É verdade, Olavo.
Para que algo dê certo é preciso paixão.
Conversaram mais um pouco e, assim que terminaram de tomar café, Olavo se levantou e disse:
— Agora vamos embora.
— Já, você não disse que só iriam depois do almoço?
— Eu disse, mamãe, mas, depois de conhecer a história da nossa família, fiquei com uma vontade imensa de ver Helena e Narinha.
Estou morrendo de saudade...
— Que pena, meu filho.
Eu ia fazer um almoço delicioso...
— Fica para outra vez, mamãe.
Adorei estar aqui, mas preciso ficar com a minha família.
Trabalho a semana inteira até tarde, quase não tenho tempo de ficar com elas.
Preciso dar atenção para elas, a senhora não acha?
Maria Tereza e Tomas, que estavam atrás de Odila, estenderam as mãos sobre a cabeça dela, que falou:
— Também estou morrendo de saudade delas, principalmente da minha neta.
Tive uma ideia.
Genaro, vamos com eles?
Podemos passar alguns dias e ficar com a nossa neta.
O que você acha?
— Pensando bem, até que eu vou gostar.
Assim poderei visitar a empresa e ver como tudo está por lá.
Carlos olhou para Olavo, que estava muito nervoso, por não poder impedir que eles fossem.
Ao ver o amigo naquela situação, tentou argumentar:
— Poderiam deixar para outro dia.
Estamos muito ocupados na empresa.
— Nós não queremos que vocês fiquem ao nosso lado.
Vamos visitar Helena e Narinha.
Tem algum problema, Olavo?
— Claro que não, mamãe!
Elas vão ficar muito felizes.
Então, Genaro, venha me ajudar a arrumar as malas!
— Vamos. Estou feliz com a ideia que você teve!
Maria Tereza e Tomas sorriram.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 pm

Assim que eles saíram, Carlos, preocupado, perguntou:
— O que vai acontecer se sua mãe descobrir o que está acontecendo?
— Também estou preocupado, mas não tive como evitar.
Assim que chegar, vou conversar com Helena e ela não vai se atrever a contar.
— Tomara que isso aconteça, pois, se sua mãe descobrir, você está perdido...
— Não se preocupe com isso, Carlos.
Na minha casa, tenho tudo sob controle.
— Tomara que tenha mesmo...
Depois de algum tempo, Odila e Genaro voltaram.
Ele carregava uma mala.
Odila disse:
— Como não vamos ficar muito tempo, estou levando pouca roupa.
Olhe o que encontrei em uma das minhas gavetas, Olavo!
Olavo olhou para a mão de Odila, que mostrava um colar.
- — Assim que você nasceu, eu comprei as sementes e fiz.
Guardei para dar a você, quando tivesse condições de entender, mas acabei me esquecendo.
Hoje, enquanto lia, me lembrei dele.
Leve com você.
Dê a Narinha e conte o que ela precisa fazer.
Em homenagem à vovó Justina, vamos continuar com a tradição?
Olavo pegou o colar em suas mãos e sentiu um arrepio por todo o corpo.
— Claro que sim, mamãe.
Acho que é muito importante.
— Estou feliz por ter lido e por ter me lembrado dele.
Agora, podemos ir?
— Está bem, mamãe. Podemos ir.
— Espere. Vamos até o quarto pegar as malas.
Vamos, Carlos?
Foram até o quarto, pegaram as malas e voltaram para a sala.
Olavo, sem alternativa, pegou sua mala e a dos pais e saíram.
Odila e Genaro estavam felizes.
Carlos e Olavo estavam preocupados.
Olavo conseguiu trocar as passagens e comprar a dos pais.
Esperaram um pouco e tomaram o avião.
Assim que chegaram, chamaram um táxi e foram para a casa de Helena.
Enquanto o táxi andava, Olavo falou:
— Como a senhora não me deixou avisar Helena de que estamos chegando, ela não está nos esperando, por isso, vamos ter de almoçar fora.
Tem algum problema, mamãe?
— Claro que não, Olavo!
Quero fazer uma surpresa e abraçar as duas com muito carinho.
— Elas vão ficar muito felizes, mamãe.
Tanto uma como a outra gostam muito da senhora e do papai.
Depois de algum tempo, o táxi parou em frente a casa.
Desceram. Olavo e Carlos pegaram as malas.
Ele abriu o portão e entraram.
Odila, olhando para a entrada da casa e o jardim, disse:
— Eu não conhecia esta casa, Olavo.
Ela é linda! Parabéns.
— É linda, mesmo, meu filho.
Quem mora aqui só pode ser feliz...
Carlos olhou para Olavo, que abaixou os olhos.
Eles, Maria Tereza e Tomas entraram.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 pm

Encontro inesperado
Assim que entraram, para surpresa de Olavo, Eunice se aproximou:
— Boa-tarde, senhor Olavo.
Olhou para os outros e sorriu:
— Boa-tarde, dona Odila, senhor Genaro e senhor Carlos.
Todos responderam ao cumprimento.
Olavo, curioso, perguntou:
— Eunice, hoje é domingo, o que está fazendo aqui?
— Ontem à tarde, dona Helena pediu para que Juarez fosse até minha casa e pediu que eu viesse e ficasse aqui até que o senhor chegasse.
— Por que ela fez isso?
Onde ela está?
— Não sei, senhor.
Quando cheguei nem ela nem Narinha estavam aqui.
Só encontrei esse envelope sobre a mesa.
Olavo olhou para a mesa que Eunice apontava.
Viu um envelope, pegou, abriu e leu.
À medida que lia, seu rosto foi se transformando.
Quando terminou de ler, colocou o envelope dentro do bolso e caminhou em direcção ao quarto.
Odila e os outros perceberam que alguma coisa ruim havia acontecido.
Ela seguiu Olavo, perguntando:
— O que aconteceu, Olavo?
Onde estão Helena e Narinha?
O que está escrito nesta carta?
Sem responder, ele entrou no quarto e começou a abrir as portas e gavetas do armário e constatou que estavam quase vazias.
Furioso, voltou para a sala e, olhando para Eunice, perguntou, gritando:
— Para onde ela foi, Eunice?
— Não sei, senhor.
Quando cheguei ela não estava mais aqui, havia somente o envelope.
— Sei que você está mentindo!
Pensa que não cansei de ver vocês cochichando?
Sei que você conhece cada movimento dela!
— Desculpe-me, senhor, mas não sei.
Furioso, com o rosto totalmente transtornado, saiu da casa e caminhou em direcção a casa onde o motorista morava.
Juarez, que viu quando eles chegaram, estava em frente da garagem.
Olavo se aproximou e, colocando o dedo em frente ao rosto de Juarez, perguntou, gritando:
— Para onde ela foi, Juarez?
— Não tenho ideia, senhor.
Ela saiu.
Pediu-me para ir buscar a Eunice e, quando voltamos, ela não estava mais aqui.
— Está falando a verdade?
— Claro que sim, senhor.
Por que eu mentiria?
— Pare com isso, Olavo!
Você precisa se acalmar!
— Como posso me acalmar, papai?
Ela foi embora e levou minha filha!
— Você tem razão para ficar assim, mas precisa se acalmar para poder resolver o que vai fazer.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 pm

Esse seu nervosismo não vai levar você a lugar algum.
Vamos entrar e pensar qual vai ser o nosso próximo passo. Vamos...
— Seu pai tem razão, meu filho.
Você está muito nervoso, vamos entrar e conversar.
Olavo parou e viu que eles estavam com a razão.
Todos caminharam em direcção à porta da casa.
Carlos sabia muito bem o que havia acontecido e qual fora o motivo, mas sabia também que Olavo não teria coragem de contar aos pais, principalmente à mãe, tudo o que havia feito.
Assim que entraram, Odila fez com que Olavo se sentasse e falou para Eunice, que ainda estava parada no mesmo lugar:
— Eunice, por favor, traga um copo com água para que Olavo possa beber.
— Sim, senhora, vou buscar.
Eunice, assim que saiu da sala, começou a sorrir e a pensar:
Finalmente, a senhora tomou uma atitude, dona Helena.
Pegou sua boneca e foi embora, sem olhar para trás.
Bem que esse monstro merece o que está acontecendo.
Quero ver se ele vai ter coragem de contar para os pais e para o senhor Carlos o que tem feito durante todos esses anos.
Vai pagar por tudo o que tem feito, seu monstro...
No mesmo instante, lembrou-se de tudo o que havia aprendido com aquela nova doutrina que estava estudando.
Levantou os olhos para o céu e pensou:
Perdoe-me, meu Deus, por esses pensamentos de felicidade ao ver um irmão sendo descoberto, mas não consegui me conter.
Ele é, realmente, um monstro e o Senhor sabe disso.
Entrou na cozinha e foi pegar água.
Enquanto fazia isso, Odila, inconformada com tudo o que estava acontecendo, perguntou:
— O que aconteceu para que Helena tomasse uma atitude como essa, Olavo?
O que está escrito nesta carta?
— Ela me traiu, mamãe...
— Como pode dizer uma coisa como essa, Olavo?
Helena é uma moça muito boa!
Jamais faria algo assim!
— Tenho certeza de que ela me traiu!
— Como pode ter certeza?
Você pegou a traição, alguém contou?
— Não, não peguei traição alguma e ninguém me falou algo a respeito, mas eu sei!
— Como pode saber, Olavo?
O que ela escreveu nesse papel?
Deixe-me ver!
Nervoso, ele colocou a mão no bolso para tirar o papel.
Quando tirou a mão, o colar que estava ali veio junto.
Eunice, que estava entrando com uma bandeja com quatro copos e uma jarra com água, deixou a bandeja cair e os copos se quebraram.
Todos olharam para ela, que estava branca como cera olhando para o colar.
Preocupada, Odila perguntou:
— O que aconteceu, Eunice?
Por que está tão nervosa?
Ela, ainda olhando para o colar, respondeu:
— Este colar... tenho um igual na minha casa.
Ele faz parte da tradição da minha família...
Eles se entreolharam e depois voltaram os olhos para Eunice.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 pm

Odila disse:
— Sente-se aqui, Eunice, na ponta da mesa e nós vamos nos sentar ao redor da mesa para podermos olhar nos seus olhos enquanto nos contas a sua história.
— Preciso pegar mais água...
— Deixe para depois.
Agora, nos conte o que esse colar representa para você.
Ainda muito emocionada, com os olhos cheios de lágrimas, Eunice começou a falar:
— Minha tataravó era escrava.
Quando seus filhos começaram a ser levados embora, ela fez para cada um deles um colar igual a esse para que fosse passado de geração a geração.
Ela disse que, se eles fizessem isso, mesmo que se passassem cem anos, sua família poderia ser reunida novamente.
Todos estavam muito emocionados.
Descrente, Olavo perguntou:
— Você sabe o nome dela?
— Sei, minha mãe me contou toda história.
O nome dela era Justina.
Odila não conseguiu evitar que as lágrimas caíssem por seu rosto.
— O nome de seu avô ou avó, qual era?
O nome do meu avô era Domingos, um português.
A minha avó, chamava-se Conceição e minha mãe chama-se Dora.
Agora, todos faziam força para não chorar.
Odila só conseguiu falar:
— Meu Deus...
Eunice, intrigada e sem entender o que estava acontecendo, perguntou:
— Por que todos estão me olhando dessa maneira?
Odila, que estava chorando, levantou-se, caminhou até a ponta da mesa onde Eunice estava sentada, fez com que ela se levantasse e, chorando, abraçou-a com muita força e falou:
— Vovó Justina tinha razão, quando dizia:
mesmo que se passem cem anos, se vocês guardarem e passarem este colar para seus filhos, nossa família vai se reunir novamente."
Você faz parte da nossa família, Eunice.
Genaro é filho de Domingos e eu, sua tia, mas fui criada por ele como filha e carrego o seu nome.
Carlos é filho de meu irmão que também foi criado por ele.
Conheci vovó Justina, que era uma mulher muito carinhosa.
Conheci, também, sua avó Conceição e, no dia do seu casamento, minha mãe me fez um vestido azul tão lindo que nunca mais esqueci.
Quando criança, brinquei muito com sua mãe, Dorinha.
Eunice se afastou:
— Não pode ser.
Quando minha mãe me deu o colar e disse que era para eu fazer um igual para cada uma das minhas duas filhas, não dei muita atenção a ela e jamais acreditei que aquela história fosse verdadeira.
— É verdadeira, sim.
Muito verdadeira.
Tremendo e tentando se levantar, Eunice disse:
— Desculpe, dona Odila, mas quem está precisando beber água agora sou eu.
Ao ouvir aquilo, Carlos se levantou e, também emocionado, disse:
— Eu vou buscar.
Continue sentada, Eunice.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele foi para a cozinha.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 pm

Voltou em seguida trazendo uma bandeja com copos para todos.
Não viram, mas tanto Maria Tereza, como Tomas jogaram luz branca e brilhante sobre a água.
Todos beberam a água e Odila perguntou:
— Quando sua avó se casou, foi para Portugal e levou sua mãe.
Como você está aqui?
— Minha mãe me contou que houve uma gripe muito forte que matou muitas pessoas, entre elas o meu pai e meus dois irmãos.
Quando isso aconteceu, vendo-se sozinha, minha avó resolveu voltar para o Brasil e foi morar com seus pais.
Minha mãe se casou com um homem importante e foi com ele para Fortaleza.
Eu me casei com um homem da sociedade de Fortaleza e tive duas filhas.
— Se você se casou com um homem da sociedade, como está aqui, vivendo e trabalhando como empregada?
Só aí ela se lembrou de Helena e de Olavo e respondeu:
— Meu marido era muito violento, me batia todos os dias.
Isso durou muito tempo, até o dia em que consegui fugir com minhas filhas.
Hoje, vivo como doméstica, mas sou mais feliz do que era no tempo em que vivia com ele e tinha tudo o que muita gente quer.
Minha mãe voltou de Fortaleza para me ajudar com as crianças.
— Fez muito bem, Eunice.
Mulher alguma precisa viver ao lado de um homem que a maltrata e humilha.
Somos todos filhos do mesmo Deus e merecemos tudo o que houver de bom aqui na Terra.
— Também acho, dona Odila.
Ao ouvir aquilo, Olavo levantou-se, colocou o papel no bolso novamente e, nervoso, falou:
— Preciso encontrar Helena!
Você não sabe, mesmo, onde ela está, Eunice?
— Não, senhor, não sei.
Agora, preciso recolher os cacos de vidro e secar o chão.
— Não consigo entender por que Helena fez isso.
Deve ter algum motivo.
Olavo, você tem certeza de que não sabe o motivo?
— Já disse, ela me traiu!
— Como é que pode dizer isso?
— Narinha não é minha filha!
— Como não? Está louco!
De onde tirou essa ideia?
— Estou dizendo porque sei, mamãe!
Odila olhou para Carlos e Genaro, que perguntou:
Como pode dizer que sabe, Olavo?
Ela contou a você?
— Esperem!
Ele saiu da sala e foi para o seu quarto.
Abriu um cofre que estava preso a uma parede e cujo código só ele sabia.
Tirou de dentro dele um papel e voltou para sala.
Entrou na sala e entregou o papel para Odila que, após ler, muito nervosa, entregou para Genaro que, assim como ela, nervoso, deu para Carlos que, assim que terminou de ler, perguntou:
— Você é estéril, Olavo?
— É o que está escrito aí nesse papel!
— Por que fez esse exame?
— Helena queria muito um filho e, como não acontecia, resolvi fazer o exame.
Quando vi o resultado, fiquei envergonhado e não comentei com ela.
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