Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:19 pm

Caminharam até o carro e um motorista, que eu ainda não havia visto, saiu do carro, abriu a poria traseira e os dois entraram.
— Meu Deus!
O que você fez, Rafael?
Fiquei parado, tentando entender o que estava acontecendo.
Assim que o carro desapareceu, sem pensar no que estava fazendo, fui para casa de Helena, toquei a campainha e a mãe dela apareceu na porta.
Desesperado, falei:
Dona Ondina, o que está acontecendo?
Vi Helena saindo com um rapaz que conhecemos no baile!
— Ela, do alto da pequena escada, sorrindo, respondeu:
— Está acontecendo o que precisava acontecer.
Minha filha, finalmente, encontrou o homem que merecia.
Ela vai se casar com ele e vai ter tudo o que sempre quis!
Ele é muito rico, diferente de você, que sempre foi e é um pobretão!
— Ao ouvir aquilo, senti minha perna fraquejar e quase caí.
Ela olhou para mim, entrou e bateu a porta.
— Não acredito, Rafael!
Helena conseguiu o homem rico que queria?
— Conseguiu, Angélica.
Mais tarde, fiquei sabendo que ele era e é muito rico.
Sua família possui uma empresa de calçados de muito sucesso.
— O que você fez?
— Fiquei ali, parado, olhando para a casa de Helena.
Depois, com muito custo, consegui chegar ao meu carro.
Entrei e fui para casa.
Quando cheguei, contei a minha mãe o que havia acontecido.
Depois de me ouvir, ela disse:
— Isso só demonstra que ela não gosta de você, meu filho...
— Ela gosta, mamãe!
Só está entusiasmada com o dinheiro dele!
— Não se iluda, Rafael!
Se ela gostasse, nada faria com que trocasse você por ele.
— Ela disse furiosa e me chamando de Rafael, coisa que só fazia quando estava braba.
— Então, você sabe quando sua mãe está nervosa?
Ele riu:
— Sei, Angélica, como sei.
Ela é a melhor mãe do mundo, mas não a tire fora do sério.
— O que fez em seguida, Rafael?
— Estava conversando com minha mãe, quando Débora chegou.
Olhei para ela, que estava entrando.
Apontando o dedo, fui ao seu encontro e comecei a gritar:
— Você! Você é a culpada!
Você estragou a minha vida!
— Ela, perplexa e assustada, olhou para minha mãe e depois para mim:
— O que eu fiz?
— Destruiu a minha vida!
— Não estou entendendo, Rafa!
— Minha mãe, vendo que eu estava fora de mim, colocou-se no meio de nós dois e gritou:
— Pare com isso, Rafael!
Sua irmã não teve culpa!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:19 pm

— Eu, olhando Débora por detrás de minha mãe, continuei gritando:
— Teve culpa, sim, mamãe!
Claro que teve!
— Débora, sem entender o que estava acontecendo, perguntou:
— Culpa do quê, Rafa?
— Quem respondeu foi minha mãe:
— A Helena vai se casar com Olavo.
— Débora, ao ouvir aquilo, caminhou alguns passos e sentou-se em uma cadeira.
— Não pode ser, Rafa... não pode ser...
— Pode e vai acontecer.
Ela vai se casar e você é a única culpada!
— Eu? Por quê?
— Porque, sabendo que ele era rico, apresentou-o à Helena.
— Ele é rico?
— Você não sabia?
— Não, Rafa!
Ele é apenas meu colega de faculdade!
Não era meu amigo e, geralmente, quem estuda à noite são pessoas como nós, que trabalham durante o dia.
Eu não sabia!
— Mentira! Você sabia e fez de propósito!
— Por que eu faria isso. Rafa?
— Porque queria a minha infelicidade!
Eu a odeio e nunca mais, em minha vida, vou olhar para você!
A partir deste momento, morreu para mim e não tenho mais irmã!
Angélica interferiu:
— Sua irmã não teve culpa, Rafael!
— Hoje sei disso, Angélica, mas naquele dia eu estava nervoso, desnorteado e precisava encontrar alguém para culpar.
— Encontrou sua irmã para culpar...
— Sim, e minha mãe ficou furiosa:
— Não fale assim, Rafael!
Ela é sua irmã e sempre só quis o seu bem!
Ela não tem culpa de a Helena ser gananciosa, interesseira e muito menos de ela não gostar de você!
— Fiquei mais furioso ainda, saí da sala e fui para meu quarto.
Daquele dia em diante, até hoje, nunca mais conversei com minha irmã.
— Até hoje, porquê?
— Algumas coisas aconteceram na vida de Débora e ela resolveu aceitar a oferta de um emprego em Roma.
Segundo minha mãe, ela queria ficar longe daqui e de tudo o que havia acontecido.
Durante todo esse tempo, nunca mais voltou.
Minha mãe foi para lá algumas vezes e ficou um tempo com ela.
— E você?
— Também queria ficar longe daqui e aceitei um convite para dar aula em uma faculdade no interior.
Fiquei lá por quatro anos e me acostumei a viver sozinho.
Quando voltei, não poderia mais voltar para casa de minha mãe.
Aluguei um apartamento e moro sozinho, mas, duas ou três vezes por semana, vou almoçar com minha mãe.
Hoje, sem saber que Débora havia voltado, telefonei para minha mãe avisando que eu ia almoçar lá.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:19 pm

Quando cheguei, encontrei Débora.
Pode imaginar o clima.
— Sua mãe não contou a você que ela estava em casa?
— Não, conhecendo minha mãe como conheço, acredito que ela quis provocar esse encontro.
Bem, encontrei Débora e tentei ficar distante, mas ela me contou algo que, a princípio, me fez muito feliz.
Vou contar a você.
Contou tudo o que Débora havia contado.
Quando terminou de falar, Angélica, abismada, disse:
— Quer dizer que Helena, mesmo tendo sua linda casa, empregados e um motorista ao seu dispor, apanha do marido?
— Sim, Angélica.
Pelo que Débora disse, ela não apanha, é surrada.
Tem costas marcadas, como acontecia com os escravos.
— Não posso acreditar que, ainda hoje, isso possa acontecer.
Que ainda hoje as mulheres se sujeitem a isso!
Agora entendo por que disse que ficou feliz.
Você se sentiu vingado, não foi?
— Tem razão.
Eu, naquele momento, enquanto Débora me contava o que havia acontecido, senti uma sensação jamais imaginada.
Achei que era a justiça sendo feita, mas, depois, me senti muito mal, pois acredito que não exista motivo algum que faça com que um homem bata em uma mulher.
Seria melhor se separarem.
— Por que será que ela não faz isso, Rafael?
Por que será que se sujeita a essa humilhação?
— Não sei, Angélica.
Também não entendo...
— Por outro lado, acho muito bom que você pense assim, Rafael.
A mágoa e o desejo de vingança só fazem mal a quem tem esses sentimentos.
Acredito que tudo está sempre certo e que Deus, como dizem, escreve certo por linhas tortas.
Acredito que a vida se encarrega de colocar as coisas em seus devidos lugares.
— Sabe, Angélica, também estou começando a pensar assim.
Ela voltou a olhar para o relógio e se levantou:
— Nossa, Rafael, conversamos tanto que nem vimos o tempo passar.
Está na hora de começarmos a nossa aula.
Ele também olhou para o relógio:
— É verdade, Angélica.
Desculpe por ter tomado seu tempo.
— O que é isso, Rafael, gostei da sua história e, se quiser, estarei sempre pronta a ouvi-lo e, na verdade, quero muito saber como isso vai terminar.
Se quiser, se confiar, estarei sempre pronta para ouvir você.
Na realidade, desculpe, mas estou curiosa...
Ele também se levantou e, rindo, respondeu:
— Claro que sim, Angélica.
Você é uma óptima ouvinte.
Embora ache que não há mais nada para acontecer.
Acho que a vida já colocou as coisas em seus lugares.
— Não sei, não, Rafael.
Acho que falta muita coisa para acontecer.
Ela também sorriu e, juntos, caminharam para as salas onde dariam suas aulas.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:19 pm

O desabafo
Quase uma hora depois, Eunice voltou ao quarto de Helena.
Bateu e entrou.
Helena, ainda chorando, permanecia deitada com as costas voltadas para o alto.
Com a bandeja nas mãos, Eunice se aproximou da cama e falou:
— Achei que a senhora não ia querer comer.
Mesmo assim, preparei esta sopa.
A senhora precisa se levantar.
Vou colocar a bandeja aqui sobre a penteadeira e a senhora poderá se sentar no banquinho.
Assim, não vai encostar as costas.
Helena levantou os olhos e, tentando sorrir, disse:
— Você me conhece muito bem, não é, Eunice?
— Estou com a senhora desde que cheguei do Nordeste.
— Estive pensando naquilo que você falou, Eunice.
— Desculpe-me, senhora.
Eu não tinha o direito de me intrometer na sua vida.
— Não diga isso.
Você é a única amiga que tenho e teve razão em tudo o que disse.
— Sua única amiga?
— Sim, sabe que Olavo me proibiu de frequentar a casa de minhas amigas e de recebê-las aqui.
— Hoje, a senhora recebeu aquela moça e parece que é muito sua amiga.
— Ela chegou de surpresa e eu não tive como não a receber.
É minha amiga de muito tempo.
Mesmo depois do que fiz contra seu irmão, ainda continuou minha amiga.
— O que a senhora fez?
Helena contou o que havia acontecido.
Eunice, após ouvir, perguntou:
— A senhora se casou por causa de dinheiro?
— Não sei, Eunice.
Confesso que a vida de luxo que Olavo me oferecia me atraiu, pois foi sempre o que desejei, mas ele era bom, me tratava com carinho e eu me sentia amada e protegida.
Sempre gostei do Rafael, mas ele não tinha ambição.
Queria ser professor que, na época, para mim, era uma loucura.
— Dona Helena, professor é uma profissão linda!
Já imaginou se não existisse professor.
O que seria de todos?
As crianças não aprenderiam a ler e a gente não ia ter nem médico.
— Hoje entendo isso, mas, naquele tempo, eu não pensava assim, só queria ter uma casa linda para morar, muitas roupas bonitas, filhos e um carro lindo com motorista...
— Tudo o que tem hoje?
Outra vez o rosto de Helena se crispou:
— Sim, Eunice, tudo o que tenho hoje...
— Será que valeu a pena, senhora?
Será que não teria sido mais feliz se tivesse se casado com o professor?
— Acha que já não pensei nisso um milhão de vezes?
Mas não adianta pensar.
Eu fui a culpada de tudo, até da mudança de atitude de Olavo para comigo...
— O que a senhora fez para ele?
Helena parou de falar, ficou com vontade de contar para Eunice o que havia feito, mas achou melhor não dizer:
— Talvez algum dia eu conte a você, mas, hoje, não estou com coragem.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 30, 2017 7:20 pm

Foi terrível demais.
Olavo me surra, mas tem razão.
Eu mereço muito mais.
— Não, senhora!
Não existe motivo algum para que um homem bata na mulher, ainda mais da maneira violenta como ele faz com a senhora!
— Existe, Eunice... existe sim...
— Já que pensa assim, só posso dizer que, mesmo que tenha feito algo tão grave contra ele, já pagou, já sofreu todos esses anos.
Portanto está na hora de se libertar.
Sua amiga saiu daqui muito nervosa.
O que aconteceu?
Ela viu suas costas?
— Viu, Eunice, e eu quase morri de vergonha...
— A senhora não tem que ter vergonha.
Já pedi desculpas por ter me intrometido na sua vida, mas vou me intrometer novamente.
Vá embora, dona Helena.
Seu marido tem muito dinheiro e, com a separação, vai ter que dar uma boa pensão e a senhora vai viver muito bem com a Narinha.
— Não posso fazer isso, Eunice...
Eunice, mesmo reconhecendo o seu lugar, não conseguiu esconder sua indignação:
— Não pode, por quê?
Mulher alguma precisa se sujeitar a viver da maneira como a senhora vive!
Desculpe-me, senhora, mas não importa o que tenha feito para ele, seu marido é um monstro!
— Você sabe que ele nem sempre foi assim.
Ele era bom e fazia de tudo para que eu fosse feliz.
— Eu me lembro.
Vim trabalhar aqui cinco ou seis meses antes de a senhora engravidar.
Ele era carinhoso.
O que aconteceu para que ele mudasse dessa maneira?
A sombra voltou a passar pelos olhos de Helena.
Ela ficou calada, pensando no passado.
Eunice, vendo que Helena estava distante, perguntou:
— Ele mudou depois que a senhora ficou grávida.
Já estavam casados há muito tempo, dois ou três anos, não é?
— Quase quatro anos...
— Será que ele tem ciúmes da filha?
Tem homem que sente muito ciúme dos filhos.
A senhora vivia só para ele, depois teve de dividir sua atenção com ela.
Será que é isso, dona Helena?
Helena sorriu e respondeu:
— Não, Eunice, esse não é o motivo, pois, apesar de tudo o que aconteceu, ele gosta muito de Narinha.
Tanto que nunca sequer brigou comigo, nem me bateu na sua frente.
Ele bate nas minhas costas para que ela não veja as marcas.
Já me disse isso muitas vezes.
— É por isso que ele quis que a menina ficasse na escola durante o dia inteiro, assim, poderia bater na senhora sempre que quisesse...
— Você tem razão, Eunice, é por esse motivo que ela fica na escola durante o dia.
— Não sei o que a senhora fez de tão grave, mas, seja o que for, não existe motivo para continuar com ele.
Está na hora de tomar uma atitude.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:03 pm

— Desde que conversamos, estive pensando sobre isso.
Ele vai passar todo o fim de semana com a outra, vou ter tempo de pensar no que fazer.
Talvez você tenha razão em outra coisa.
Para fugir da violência, posso pegar minha boneca e procurar abrigo no lugar a que sempre fui:
a casa de Débora e da sua mãe...
Eunice sorriu, colocou as mãos nos ombros de Helena e, emocionada, disse:
— Faça isso, senhora.
Pense muito e tome uma atitude.
— Vou pensar, Eunice.
Não estou com fome, mas, mais tarde, posso sentir.
Prepare alguma coisa para o jantar e pode ir embora.
Hoje é sexta-feira, trabalhou a semana toda, merece descansar.
— Tem certeza de que vai ficar bem, senhora?
— Tenho. Pode ir sossegada.
Vou ficar bem, mas, se precisar de alguma coisa, sabe que tanto o Juarez como a Valdice estão logo aí, na casa dos empregados.
— Está bem, senhora.
Sendo assim, vou preparar o jantar.
Dizendo isso, Eunice saiu do quarto.
Helena olhou para a travessa com sopa.
Com o auxílio de uma concha, lentamente, colocou um pouco de sopa em um prato e começou a tomar.
Algum tempo depois, Eunice voltou ao quarto.
Helena ainda continuava sentada em frente à penteadeira, olhando para o espelho.
Eunice entrou e disse:
— Seu jantar está pronto, senhora.
Tem certeza de que posso ir embora?
Helena se voltou, olhou para ela e, sorrindo, respondeu:
— Pode ir, Eunice, estou bem.
Não se preocupe.
Eunice sorriu e saiu.
Helena tornou a se voltar, olhou para o espelho e falou:
— Vou pensar... vou pensar...
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:04 pm

Como tudo começou
Olavo, nervoso e carregando uma maleta onde havia colocado algumas roupas, saiu de casa e caminhou em direcção ao carro que estava estacionado em frente à porta principal da casa.
Assim que chegou junto a ele, abriu o porta-malas e colocou a maleta, depois, fechou-o.
Entrou no carro, colocou a chave, ligou o motor e saiu.
Tremendo e nervoso, enquanto dirigia, pensava:
Sei que bater em uma mulher é errado, mas não consigo me controlar!
Ela merece o que fiz e o que vou fazer outras vezes!
Eu sempre fui sincero, dei a ela tudo o que nunca teve e muito mais!
Como pôde fazer o que fez?
Eu a odeio e vou continuar batendo pelo resto de nossas vidas.
Continuou dirigindo, prestando atenção no trânsito.
Quando chegou ao estacionamento da empresa, respirou fundo e pensou:
Preciso me acalmar, pois tenho uma reunião importante com vários vendedores que foram contratados recentemente.
O Carlos me critica, dizendo que, como eu sou presidente da empresa, não deveria me preocupar com esses assuntos, mas gosto de ter essas reuniões com os novos funcionários para contar a história da empresa, como ela nasceu e no que se tornou.
Quero que, assim como eu, eles tenham orgulho de trabalhar aqui.
No final, gosto de contar a história da minha família, tenho orgulho dela.
Assim que entrou, um rapaz veio sorridente ao seu encontro:
— Ainda bem que chegou, Olavo!
Todos os vendedores estão na sala a sua espera.
Tem certeza de que quer mesmo fazer essa reunião?
— Sabe que sim, Carlos.
Esse é a primeira e talvez a última vez em que vou me encontrar com eles.
Quero contar a história da empresa.
— Não acha que essa história pode deixá-los entediados?
— Não sei se isso vai acontecer, mas acho importante que saibam que qualquer pessoa, independente de classe, pode se transformar em um empresário de sucesso.
Quero demonstrar que tudo depende, claro, de um pouco de sorte, mas, sobretudo, da vontade de trabalhar.
— Está bem, já que insiste, vamos para lá.
Entraram em uma sala tipo um auditório.
Na frente, havia uma grande mesa e em frente a ela, várias poltronas confortáveis, onde havia mais ou menos vinte pessoas entre homens e mulheres.
Após ser apresentado por Carlos, Olavo sorriu e sentou-se ficando de frente para as pessoas que o olhavam, curiosas.
Olavo olhou para todos e, calmamente, começou a falar:
— Todos vocês foram contratados para trabalharem como vendedores na nossa empresa.
Como já sabem, sou o presidente desta empresa, que é familiar.
Vou contar uma história que foi contada ao meu pai que contou a seus filhos, inclusive a mim, com o compromisso de que fosse contada para nossos filhos.
Pretendo contar a minha filha para que ela conte aos seus filhos.
Para vocês, que querem trabalhar aqui, é importante que a conheçam.
Meu avô, Giuseppe, nasceu em um pequeno vilarejo, nos arredores de Milão, na Itália.
Seu pai era um sapateiro e ensinou a profissão aos filhos que eram três homens e duas mulheres.
No final do século dezanove, como aconteceu com muitos europeus que viviam no meio de conflitos e pobreza, resolveu vir ao Brasil, pois a escravidão estava terminando e o país precisava de trabalhadores para trabalhar nas fazendas de café.
Como tantos outros, a família se preparou e tomou um navio que traria a todos para a terra de dinheiro farto.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:04 pm

Meu avô tinha vinte anos.
Durante a viagem, conheceu uma moça, Beatrice, com dezasseis anos, que também viajava com a família.
Assim que se encontraram, sentiram que algo diferente aconteceu.
Fugindo à vigilância dos pais, conversaram muitas vezes e ele se declarou.
Juraram amor eterno e que se casariam assim que fosse possível.
Quando chegaram, foram enviados para a mesma fazenda.
Meu avô começou a trabalhar como agricultor.
O trabalho era quase escravo, mas nada podia ser feito.
Em pouco tempo, o sonho de riqueza fácil terminou.
Olavo parou de falar e, enquanto tomava um pouco de água, pensava:
Carlos disse que eles poderiam ficar entediados, mas parece que estão gostando, ao menos estão prestando atenção.
Terminou de beber a água e continuou:
— Dois anos depois, ele e Beatrice se casaram.
Algum tempo depois do casamento, resolveram ir morar na Capital.
Seus pais ficaram preocupados.
Sua mãe disse:
— O que vai fazer na Capital, meu filho?
Não conhece ninguém, vai trabalhar com o quê?
— Não se preocupe, mãe, aqui não temos futuro.
O que ganhamos, depois de trabalhar tanto, fica quase tudo com o dono da fazenda.
Quero tentar outra vida que seja diferente desta.
Quando eu conseguir bastante dinheiro, mando buscar todos.
— Se não der certo, meu filho?
— Se não der certo, vamos voltar para cá.
Olavo respirou fundo e continuou:
— Depois de conversarem muito, ambas as famílias concordaram.
Meu avô conseguiu guardar um pouco de dinheiro e as famílias deram outro tanto.
Não era muito, mas o suficiente para que pudessem pagar um lugar para morar e viver até que ele encontrasse trabalho.
Despediram-se de todos e, carregando duas malas com roupas e uma sacola com comida para a viagem, felizes e confiantes, partiram em um trem que os levaria até a cidade grande.
Quando chegaram à estação do Braz, em São Paulo, ficaram tontos e assustados com tantas pessoas que andavam de um lado para outro.
Meu avô carregava as malas.
Minha avó, com uma mão carregava a sacola com os restos de comida da viagem, e, com a outra, segurava no braço de meu avô.
Começaram a caminhar em direcção à saída da estação.
Quando chegaram à rua, ficaram olhando de um lado para outro, sem saberem para onde ir.
Um carregador de malas, ao perceber que estavam perdidos, se aproximou:
— Quer que eu carregue as malas, senhor?
— Meus avós olharam para ele que começou a rir.
Meu avô, intrigado, perguntou:
— Do que está rindo, senhor?
— Desculpe.
É que todos os imigrantes que chegam aqui à estação, quando me ouvem falar pela primeira vez, ficam com a cara que vocês estão.
— Meu avô também riu:
— Realmente, o senhor fala de uma maneira estranha, como nunca havia ouvido antes.
Embora eu tenha entendido o que disse, fala diferente dos negros que conhecemos na fazenda de onde viemos.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:04 pm

Também não é tão negro como os escravos que conhecemos.
— Embora seja negro, meu pai é branco, por isso sou um pouco mais claro.
Sou mulato. Nunca fui escravo.
Quando nasci, já existia a Lei do ventre livre.
— Lei do ventre livre?
Que Lei é essa?
— Quando essa lei surgiu, todos os negros nascidos dali para frente seriam livres.
Portanto, nasci livre.
Minha mãe era escrava na casa de um barão do café.
Vivi naquela casa com ela até que, quando eu ia fazer oito anos, ela morreu.
Por ter vivido sempre na cidade, não conheço uma fazenda.
Minha mãe sempre disse que, já que eu não era escravo, não devia viver nem falar como tal.
Disse que eu precisava falar direito.
Meu pai, o barão, conversava muito comigo.
E me ensinava a falar.
Por isso não falo como os escravos.
— Meu avô olhou para minha avó e estranhou aquele homem que mal conheciam contar tantas coisas de sua vida.
O mulato, parecendo saber o que eles pensavam, disse:
— Desculpem-me por falar demais.
Sou assim mesmo, gosto de ter muitas amizades, de conversar com todos que conheço.
— Meus avós sorriram.
Ele estendeu a mão e continuou:
— Meu nome é Domingos.
Meu pai me deu esse nome, por ser o nome do pai dele.
Eram portugueses.
— Meu avô apertou a mão dele e, sorrindo, respondeu:
— Meu nome é Giuseppe e esta é minha mulher, Beatrice.
— Após apertaram as mãos, Domingos perguntou:
— Quer que eu leve vocês para algum lugar?
Conheço tudo por aqui.
Trouxe um papel com o endereço?
— Meu avô olhou para minha avó e respondeu:
— Não temos endereço algum.
— Domingos arregalou os olhos:
— O que está dizendo?
Vieram sem um endereço ou a casa de um amigo para ficar?
— Sim. Pensamos encontrar um lugar, assim que chegássemos aqui.
Sabe de algum lugar para alugar, onde poderemos ficar?
— Domingos pensou por algum tempo, depois respondeu:
— Eu moro em um cortiço que fica aqui perto.
Se quiserem, posso levar vocês até lá.
Sempre tem um quarto vago.
— Cortiço, o que é isso?
— Os imigrantes, vindos da Europa, começaram a chegar aos montes.
A maioria, quando chegou, foi trabalhar nas fazendas, outros resolveram ficar por aqui e outros, assim como vocês, ficaram por algum tempo nas fazendas e resolveram vir tentar a vida aqui.
Os moradores locais que possuíam terrenos grandes começaram a construir quartos e cozinhas para alugar e oferecer aos que chegavam.
Um vizinho contou ao outro e, hoje, existem muitos cortiços espalhados pelos arredores da estação.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:04 pm

— É um bom lugar para se morar?
— Bem, Giuseppe, é um lugar pobre, sem conforto.
— As pessoas que moram lá, como são?
— Pessoas pobres, imigrantes e negros que, após o fim da escravidão, começaram a trabalhar como domésticos em sua antiga casa ou em outras.
Existem alguns que, posso dizer, não gostam de trabalho nem das leis, mas a maioria é gente honestas e trabalhadora.
Quer conhecer?
— Meu avô olhou para minha avó que apertou seu braço e falou em italiano:
— Giuseppe, nós não conhecemos esse homem, mesmo assim que ir com ele?
Se for um bandido, vai roubar as nossas coisas.
— Ele, também em italiano, respondeu:
— Não temos o que fazer.
Não temos para onde ir e não conhecemos ninguém...
— Domingos olhou para os dois e, rindo, disse:
— Trabalho há muito tempo aqui.
Converso com muitas pessoas de todos os lugares, por isso, entendo um pouco de italiano.
Não precisa se preocupar, senhora.
Embora seja mulato, todos me consideram um negro.
Sofro toda espécie de preconceito.
Conheço as dificuldades que estão enfrentando.
Não sou bandido, só quero ajudar.
— Meus avós se olharam.
Minha avó sorriu, meu avô disse:
— Obrigado, Domingos, vamos com o senhor.
— Pare com isso de senhor!
Garanto que temos mais ou menos a mesma idade.
Vamos até o cortiço onde moro, se não tiver um quarto ali, vamos procurar em outro lugar.
Posso garantir que, hoje, vão ter um lugar para ficar.
Esperem um pouco que vou encontrar um amigo que deve estar me esperando.
Este ponto é dele, mas divide comigo.
Eu, por ser solteiro, trabalho durante a noite e ele, durante o dia.
Começo a trabalhar às oito horas da noite e paro às oito horas da manhã.
— Pegou o carrinho e saiu.
Meu avô abraçou minha avó e disse:
— Estamos começando uma nova vida.
Vai dar tudo certo, Beatrice.
— Ela encostou sua cabeça no ombro dele e, sorrindo, disse:
— Sinto que vai mesmo, Giuseppe.
Mas, no final, Deus é quem sabe. Não é?
— Ele, rindo, a abraçou com mais força.
Algum tempo depois, Domingos voltou e disse:
— Agora, podemos ir. Gostei de vocês.
Tomara que tenha um quarto no cortiço onde moro, mas, se não tiver, encontraremos outro!
Garanto que, hoje mesmo, vão ter um lugar para ficar!
— Meus avós se olharam, sorriram.
Ele pegou uma das malas, Domingos a outra e minha avó a sua sacola com os restos de comida.
Olavo parou de falar.
Olhou para a plateia e, sorrindo, disse:
— Já falei por muito tempo, acho que estão cansados.
Todos moveram a cabeça dizendo que não.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:06 pm

— Vocês podem não estar cansados, mas eu estou.
Carlos mandou preparar um lanche.
Vamos parar por meia hora.
Depois, continuaremos.
Todos gostaram da ideia.
Um a um foram se levantando e caminhando em direcção a Carlos que, com um sorriso, indicava a direcção que deveriam seguir.
Olavo foi para sua sala, entrou e sentou-se em sua cadeira.
Ficou pensativo com o olhar perdido no horizonte.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:06 pm

O início na cidade
Meia hora depois, Carlos entrou na sala onde Olavo estava e, sorrindo, disse:
— Que boa ideia você teve, Olavo!
Olavo se voltou e perguntou:
— Que ideia, Carlos?
— A de contar a história da empresa, desde o início.
Durante o lanche, conversei com alguns dos ouvintes e ouvi de outros que estão interessados em saber o resto da história.
Pensei que ficariam entediados, mas, ao contrário, querem saber como que um imigrante que chegou sem esperança alguma, a não ser a de trabalhar em uma fazenda como lavrador, conseguiu montar uma empresa tão grande e respeitada como a nossa.
Olavo levantou-se e, rindo, disse:
— Até parece que você não conhece a história, Carlos!
— Conheço! Claro que conheço, mas, contada por você, parece ser outra história!
Você tem um dom, Olavo.
Olavo continuou rindo:
— Que dom é esse?
— O da comunicação!
Você sabe como falar e o momento exacto de respirar ou de se calar.
Parou de contar em um momento em que todos estavam interessados em saber do resto.
— Você sabe que a história é interessante e só parei porque estava na hora do lanche.
Olavo olhou para o relógio em seu pulso e falou:
— Falando em horário, está na hora de voltarmos.
Se você estiver certo, todos devem estar sentados nos esperando.
Foram para a sala.
Como Carlos havia dito, todos, ansiosos, os esperavam.
Olavo sentou-se em sua cadeira no centro da mesa e Carlos, ao seu lado.
Após se sentar, Olavo perguntou:
— Como foi o lanche, estava bom?
Todos riram demonstrando satisfação e ele continuou:
— Isso é muito bom.
Agora, vamos continuar com a história da empresa.
A plateia ficou calada e Olavo começou a falar:
— Meus avós seguiram Domingos.
Não sabiam quem era aquele rapaz, mas, mesmo não sabendo o motivo, meu avô confiou nele.
Caminharam por mais de meia hora e chegaram a um armazém.
Meu avô percebeu que ali era vendido de tudo.
Domingos, sorrindo, disse:
— É aqui. O cortiço pertence a um português.
Ele é um tanto avarento, mas uma boa pessoa.
Vamos entrar?
— Entraram. Por detrás de um balcão, estava um senhor gordo e com um enorme bigode.
Assim que viu Domingos, disse:
— Olá, Domingos!
Não diga que veio me dizer que não vai pagar o aluguer!
— Domingos olhou primeiro para meu avô, depois para o português e disse rindo:
— Não é isso, senhor Pedro.
Estamos no meio do mês e eu só pago no dia trinta.
— Pedro também riu:
— Tem razão, mas sabe como é, sempre que algum inquilino vem falar comigo antes do dia do pagamento, quer que eu espere mais um pouco e eu não posso esperar.
As despesas com a minha propriedade são muito altas.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:07 pm

— Domingos olhou para meu avô, piscou um olho e, ainda rindo, falou:
— Sei disso, senhor Pedro.
Suas despesas são muito altas.
— Pedro estava curioso:
— Pois bem, a que devo a sua visita?
— Este é meu amigo, Giuseppe.
Chegou hoje do interior e precisa de um lugar para morar.
O senhor tem algum quarto vago?
— Pedro continuou rindo:
— Veja como são as coisas.
Olhe esta placa, agora mesmo eu ia colocar aí na frente.
— Mostrou uma placa, onde estava escrito " Alugam-se um quarto e cozinha."
— Após mostrar a placa, continuou falando:
— Domingos, você conhece a Leda, não conhece?
— Claro que conheço, ela é a minha vizinha de portal.
Ontem à tarde, ela se mudou.
Sabe que ela trabalha na noite.
Disse que arranjou um coronel que quer que ela more em um lugar melhor e se mudou.
Portanto, tenho um quarto vago.
Embora esteja um pouco triste.
— Triste por quê?
— Ela é muito bonita e eu gostava de ver quando ela passava por aqui com aquele corpo maravilhoso e aquele rebolado.
— Olhou para minha avó e continuou:
— Ela é tão bonita quanto a senhora.
— Meu avô, ao ouvir aquilo, colocou o braço sobre o ombro de minha avó e, ríspido, disse:
— O senhor tenha respeito!
Esta senhora se chama Beatrice e é minha esposa!
— Domingos, percebendo que meu avô estava nervoso, interferiu:
— Acalme-se, Giuseppe.
Com o tempo, vai se acostumar.
O senhor Pedro gosta de brincar.
— Meu avô respirou fundo e, tentando disfarçar seu nervosismo, disse:
— Está bem, desde que suas brincadeiras não sejam em relação à minha esposa.
— Pedro, constrangido, olhando para Domingos, perguntou:
— Domingos, já falou para ele o valor do aluguel e a forma de pagamento?
Não. Não sei se vai cobrar o mesmo que cobra pelo meu.
— São setenta mil réis e mais vinte tostões pela água.
Se quiser luz eléctrica, precisa pagar mais cinquenta tostões.
— Meu avô se assustou:
— Tudo isso? Não é muito caro?
— Não, senhor, não é!
Um quarto como esse deve custar mais de oitenta mil réis e não fica perto da estação como aqui.
— Está bem. Vou olhar e, se gostar, vou alugar o quarto e a cozinha.
— O senhor tem três meses para pagar adiantado?
— Ríspido, meu avô respondeu:
— Sim e vou pagar em dia todos os meses.
— Assim sendo, está bem.
Domingos, leve o senhor, mostre o quarto, os tanques e os banheiros.
Se ele gostar, faremos um papel com todas as normas.
— Domingos segurou o braço de meu avô que, ainda com os braços em volta do ombro de minha avó, o acompanhou.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:07 pm

Enquanto caminhavam, meu avô, ainda muito nervoso, disse:
— Esse homem é um atrevido!
— Tem razão.
Acontece que todos os seus inquilinos são pessoas pobres que não têm dinheiro para pagar um aluguel mais caro em outro lugar.
Por ele ser muito rico, algumas mulheres se oferecem para receber seus favores.
— Algumas podem fazer isso, mas Beatrice não!
— Entraram por um pequeno portão que ficava ao lado do armazém.
Chegaram a um corredor.
Meu avô calculou que o corredor devia ter mais ou menos quatro metros de largura.
Domingos, apontando com a mão, disse:
— Do lado esquerdo ficam os quartos e do direito, em frente, as cozinhas.
— Caminharam e pararam em frente a uma porta que estava aberta.
Domingos disse:
— Este era o quarto de Leda.
Fica ao lado do meu.
— Entraram e viram um quarto não muito grande.
Perceberam que ali não caberia muita coisa, talvez uma cama, um pequeno guarda roupas e uma cómoda.
Domingos, que entrou por último, disse:
— Como pode ver, não é muito grande, mas o suficiente para que possam ficar por um tempo até conseguirem se mudar para um lugar melhor.
— Meu avô olhou para minha avó e perguntou:
— O que acha, Beatrice?
— Está bom, Giuseppe.
Não é maior daquele que tínhamos na fazenda e, como o moço falou, vai ser por pouco tempo.
Sei que vai conseguir um bom trabalho e logo poderemos nos mudar.
— Está bem, só tem um problema, como vamos dormir?
Não tem cama!
Vai precisar comprar.
O senhor Pedro tem outra loja de móveis.
Ele vende à prestação.
Vamos falar com ele e ver se tem uma cama e um colchão que possam ser entregues ainda hoje.
— Não tendo alternativa, meu avô aceitou a oferta.
Saíram do quarto e foram para a cozinha que ficava em frente.
A porta também estava aberta. Entraram.
Igual ao quarto, também não era grande.
Em um dos cantos, havia um fogão a lenha, onde algumas brasas ainda ardiam.
Aquele fogão não causou surpresa, pois era igual ao que tinham na fazenda.
Construído com tijolos, havia sobre ele uma chapa de ferro onde eram colocadas as panelas.
Embaixo, havia um buraco onde se colocava a lenha para queimar.
Minha avó olhou para o fogão, atentamente.
Ao ver o interesse dela pelo fogão, Domingos disse:
— Vejo que a senhora está olhando para o fogão.
Como deve saber, as brasas nunca podem se apagar totalmente, pois é difícil acender novamente.
Se precisar acender, acho que deve saber que, embora tenha uma chaminé, ela não funciona muito bem.
Sempre que a senhora precisar acender ou estiver cozinhando é preciso deixar a porta aberta e ficar do lado de fora, pois a fumaça é intensa.
— Meus avós sorriram e continuaram olhando.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:07 pm

Viram que havia uma pia, também construída com tijolos assim como a cuba e sobre ela uma camada de cimento queimado.
Meu avô abriu a torneira e, dela, saiu um fio de água.
— Essa pia está imunda, Beatrice!
— Sabe que não é fácil limpar esse cimento, Giuseppe.
— É verdade, mas sei que você vai conseguir melhorar.
— Continuaram olhando e viram que somente caberia uma mesa e um armário para guardar a louça.
Nada além disso.
Saíram dali e acompanharam Domingos até os fundos do quintal.
Assim que chegaram, ele falou:
— Olhem o terreno imenso que ainda está vazio.
Com certeza, o senhor Pedro vai construir mais quartos.
Ele disse que logo vai ter vinte quartos alugados.
Descobriu uma mina de ouro.
— Ao lado do último quarto, havia dois banheiros para as cinco famílias que moravam ali.
Domingos parou de andar e falou:
— Só há estes dois banheiros.
Como podem ver, é difícil se encontrar vaga na hora da necessidade, por isso todos têm nos quartos um urinol e uma bacia grande para tomarem banho.
Há dois tanques que também são usados por todos.
Cada um tem um horário certo para poder lavar suas roupas.
— Após ver tudo, meu avô disse:
— Não é o que pensei, mas é o que posso pagar e preciso de um lugar para morar.
Vamos falar com o português, alugar, comprar uma cama e um colchão.
As outras coisas de que precisamos, vamos comprar mais tarde.
— Precisam comprar alimentos.
O senhor Pedro também vende, assim como a lenha para o fogão.
— Meu avô, rindo, disse:
— Ele ganha de todas as maneiras.
— É verdade, mesmo assim diz que tem prejuízo com o cortiço.
— Riram e foram conversar com o português.
Olavo parou de falar, olhou para Carlos e pediu um copo com água.
Depois de beber a água, continuou falando:
— Assim que chegaram ao armazém, combinaram tudo.
Meu avô disse que queria alugar o quarto.
O português entregou um papel ao meu avô, perguntando:
— O senhor tem filhos?
— Não, por quê?
— Porque, se tivesse, eu não poderia alugar o quarto.
— Não poderia, por quê?
— Já tive muitos problemas com crianças.
Os inquilinos reclamaram porque elas gritavam, corriam e jogavam bola no corredor.
Para evitar problemas, resolvi não alugar para famílias com crianças.
— Meu avô não entendeu, mas, mesmo assim, assinou um papel alugando o quarto.
Comprou uma cama, colchão, dois travesseiros, um lençol, duas fronhas, um cobertor e uma toalha de banho que seria dividida pelos dois.
Compraram, também, duas panelas grandes, um escorredor de macarrão, um bule, uma chaleira, uma leiteira e um coador de café feito de pano e o pedestal de alumínio para que o café pudesse ser coado.
Pedro prometeu que entregaria tudo naquela tarde.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:08 pm

Meu avô comprou, também, lenha, alguns alimentos e, lembrado por Domingos, uma bacia para o banho e um urinol.
Pedro marcou em uma caderneta e, depois de tudo certo, falou:
— O senhor é o primeiro italiano que vai morar em uma das minhas propriedades, espero que se dê bem com seus vizinhos.
— Meu avô ficou calado.
Apenas olhou, tentou sorrir e pensou:
— Definitivamente, não gosto desse homem.
— Depois que saíram dali, voltaram para o quarto.
Enquanto caminhavam até ele, meu avô, preocupado, disse:
— Estou com um problema, Domingos.
— Que problema?
— Não vim com muito dinheiro e gastei quase tudo com o aluguel e a compra das coisas.
Preciso encontrar um trabalho.
Não teria uma vaga na estação?
— Não, na estação não tem.
Como eu disse, divido o turno com meu amigo e as outras pessoas que trabalham lá fazem a mesma coisa, dividem o turno.
O que sabe fazer, além de plantar?
— Na Itália eu era sapateiro, assim como meu pai e meu avô.
— Você é sapateiro?
— Sim, por que o espanto?
— No momento, não tem profissão melhor!
— Por quê?
— Depois da libertação dos escravos, muitos vieram para a cidade e trabalham como domésticos nas casas de pessoas ricas.
Os imigrantes começaram a chegar e a trabalhar como pedreiros, pintores e tudo o que diz respeito à construção.
O salário dessa gente é muito pequeno.
— Domingos parou de falar e, rindo, continuou:
— Assim como eu, essas pessoas não têm muito dinheiro, mal ganham para comprar comida e pagar o aluguel, muito menos comprar roupas e calçados, que estão pela hora da morte.
Garanto que vão ficar felizes quando eu disser que conheço alguém que pode consertar seus sapatos para que possam usar por mais algum tempo.
O que acha?
lha que conheço muita gente!
— Meu avô ficou empolgado:
— Isso seria muito bom, Domingos!
Eu trouxe da Itália algumas ferramentas.
Não são muitas, mas vai dar para eu começar!
— Está bem. Agora, preciso dormir.
Como sabe, trabalhei a noite toda, mas, quando for trabalhar à noite, vou falar com algumas pessoas.
Garanto que você vai ter muito trabalho!
Só tem um problema, Domingos.
Qual?
— Onde vou trabalhar e onde vou comprar o material de que vou precisar?
— Domingos pensou um pouco.
Depois, disse:
— Pode começar no quintal, em frente à sua cozinha.
Claro que, só quando sua mulher não estiver cozinhando, pois aí não vai ter fumaça.
Depois, quando conseguir uma boa freguesia, pode alugar um comércio pequeno.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:08 pm

Há muitos lá pelos lados da estação.
Quanto ao material, não sei onde pode comprar, mas vou me informar.
— Meu avô, comovido, disse:
— Sabe de uma coisa, Domingos, você é um anjo da guarda que Deus colocou na nossa vida.
— Minha avó, que ouviu, sorriu e acenou com a cabeça, concordando com o marido.
Chegaram junto à cozinha de Domingos, que falou:
— Vamos entrar?
Deve ter leite e café, pão e mortadela.
Depois de comer, preciso dormir.
— Meus avós, só naquele momento, lembraram-se de que estavam sem comer há muitas horas.
Meu avô tentou não aceitar:
— Não, Domingos, você já nos ajudou tanto, não é justo comermos da sua comida.
— Domingos, que tinha sempre um sorriso, disse:
— Deixe para lá, amigo.
Estou ajudando você, porque, quando precisei, encontrei um anjo, que, como disse, também me ajudou muito.
Outra hora, eu conto minha história para vocês.
Garanto que, assim como estou fazendo, hoje, vocês vão ter a oportunidade de ajudar muita gente que está chegando por aí.
Vamos comer?
— Está bem.
A que horas você costuma acordar, Domingos?
— Lá pelas quatro horas da tarde.
— Quando acordar, Beatrice já deve ter cozinhado alguma coisa.
Você é nosso convidado para o jantar. Aceita?
— Outra vez o rosto de Domingos se iluminou.
Claro que sim.
Faz muito tempo que não como uma comida feita em casa e por uma mulher!
— Meus avós também riram.
Entraram na cozinha e, realmente, em um canto da chapa do fogão que só tinha pequenas brasas, havia uma leiteira, uma chaleira com água quente e um pão italiano que estava quente.
Domingos colocou a água no lugar em que a chapa estava mais quente.
Tirou um pedaço de mortadela do armário, que estava enrolada em um pano branco.
De dentro de um pote, pegou um pouco de pó de café, colocou no coador de pano e sobre o pedestal de alumínio e disse:
— Agora, é só esperar a água ferver e o café passar pelo coador.
— Depois de coar o café, tomaram-no e comeram pão.
Quando terminaram, meus avós foram para o quarto que haviam alugado e Domingos para o seu.
Meu avô abraçou minha avó e disse:
— Hoje vamos dormir aqui, mesmo com esse cheiro de mofo, mas amanhã bem cedo vou comprar cal, uma brocha e vou pintar o quarto para ver se esse cheiro some.
— Depois que fizer isso, vou lavar com sabão.
Este quarto está muito sujo, Giuseppe!
— Parece que tudo vai dar certo, Beatrice.
— Vai sim, Giuseppe.
Isso vai acontecer porque nós estamos com vontade e nossos anjos da guarda devem estar aqui.
— Meu avô beijou a esposa, sorriu e foram para a cozinha e, após minha avó terminar de fazer um macarrão com molho vermelho, comeram.
Resolveram sair para conhecer a rua e os arredores de onde iam morar.
Andaram, viram tudo e aproveitaram para comprar cal, uma lata de óleo grande e uma brocha.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:08 pm

Quando voltaram, Domingos já havia acordado.
A comida estava pronta sobre a chapa do fogão.
Mesmo tendo comido antes, meus avós estavam prontos para comerem novamente.
Comeram e Domingos foi para o trabalho.
Como o prometido, dois negros chegaram até o quarto e entregaram o que meu avô havia comprado.
Como já estava escurecendo, meu avô montou a cama e colocou o colchão.
Minha avó arrumou a cama.
Deitaram-se e, abraçados, adormeceram.
Olavo olhou para a plateia, respirou fundo e, sorrindo, disse:
— Falando em comer, está na hora do almoço.
Falei tanto que nem percebi a hora passar.
Espero que estejam gostando.
A plateia se levantou e o aplaudiu.
Ele agradeceu e, acompanhado por Carlos, saiu da sala.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:08 pm

A primeira intervenção
Assim que entraram na sala de Olavo, rindo, Carlos disse:
— Até aqui você está indo muito bem, Olavo.
Está contando a história como nos contaram, mas, daqui para frente, vai contar o outro lado, isto é, os problemas da família?
Olavo olhou para Carlos e, rindo, respondeu:
— Claro que não, Carlos!
Só vou contar a respeito da empresa.
Sei que, quando minha vó morreu, minha mãe encontrou um caderno.
Não sei o que tinha escrito nele, só sei que minha mãe ficou arrasada com o que leu.
Ela e meu pai comentaram por vários dias.
— Seja o que for que esteja escrito nele, aconteceu há tanto tempo que não faz parte da nossa vida.
— Tem razão, Carlos.
Nada temos a ver com o que aconteceu no passado.
Precisamos viver as nossas vidas, aqui e agora.
— Embora nada tenha a ver com a nossa vida, confesso que estou curioso.
O que será que aconteceu para que minha mãe ficasse daquela maneira?
O telefone tocou.
Olavo atendeu:
— Alô!
— Sou eu, meu amor.
Podemos conversar?
Olavo olhou para Carlos que, curioso, desejava saber quem era.
Com a mão, Olavo fez um sinal com a mão para que Carlos saísse e respondeu à pergunta:
— Olá, Hortência!
Podemos conversar, sim.
Carlos, assim que ouviu o nome dela, rindo, saiu da sala.
Olavo também riu e continuou falando:
— Por que está telefonando, Hortência?
— Como assim?
Estou muito empolgada com a nossa viagem.
Vai ser um fim de semana maravilhoso!
Como você pediu, o hotel está reservado e o avião sairá às oito da noite.
Quero saber se você vai passar aqui em casa ou prefere me encontrar no aeroporto?
Olavo ficou em silêncio.
Hortência estranhou:
— O que está acontecendo, por que se calou?
— Não vamos viajar, Hortência.
— O quê? Por quê?
— Estou dando uma palestra para os novos vendedores.
Não sei a que horas vai terminar.
— Você deve estar brincando, Olavo!
— Não, Hortência, não estou brincando.
— Não pode fazer isso!
Esperei tanto por este fim de semana...
— Sei disso, mas, infelizmente, vamos ter de deixar para outra vez.
— O que vou fazer com o hotel e com as passagens de avião?
— Tente cancelar, se não conseguir, diga quanto é que eu pago.
— Não pode estar fazendo isso comigo, Olavo...
— Sinto muito, agora, preciso ir almoçar para poder voltar a minha palestra.
É importante motivar os vendedores.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 01, 2017 8:09 pm

Sem eles, não haveria empresa.
Mais tarde eu vou telefonar para você.
Sem dar chance a ela para que dissesse alguma coisa, desligou o telefone, ficou olhando para ele e pensando:
Por que não quis ir viajar?
Claro que não vou segurar os vendedores por muito tempo.
Teria tempo suficiente para ir até o aeroporto.
Estive contando a história da empresa, que é vitoriosa, para os vendedores, mas, como Carlos disse, não posso me esquecer do que aconteceu no plano familiar.
Será que estou cometendo os mesmos erros que meu avô cometeu?
Neste momento, Carlos voltou para a sala e perguntou:
— Já terminou de falar com Hortência?
Sem empolgação, Olavo respondeu:
— Terminei. Ela ficou nervosa.
— Nervosa, por quê?
Vocês não vão viajar hoje?
Não vão passar o fim de semana, juntos?
— Não, eu disse que não ia e esse é o motivo do nervosismo dela.
— Não vão viajar, por quê?
Você estava tão empolgado!
— Não sei. Perdi a vontade...
— Deve ter algum motivo.
Ninguém muda de pensamento sem motivo.
— Estive em casa, briguei com Helena e bati nela.
Carlos perguntou, quase gritando:
— Outra vez, Olavo?
Isso não pode continuar!
Você precisa parar!
— Sei disso e, sempre que bato nela, juro que vai ser a última vez, mas não consigo me controlar.
Porém, desta vez, eu tive motivo.
— Não existe motivo algum para que um homem bata em uma mulher, ainda mais em uma mulher como Helena!
Ela é amável e sei que gosta muito de você.
Ela não merece isso, Olavo!
Qual foi o motivo, desta vez?
— Fui para casa para pegar a minha mala.
Assim que cheguei, vi sobre a cama um vestido.
Perguntei para Helena que vestido era aquele e ela me disse que ganhou da nossa amiga, Débora, que estava em Roma.
Fiquei nervoso e bati nela, acho que com muita violência.
— Ficou nervoso, por quê?
— Você sabe que Débora é irmã do Rafa, aquele que foi noivo de Helena.
— Isso é motivo, Olavo?
Débora é uma amiga que estava longe!
Não é o irmão!
— Sei disso, mas tenho certeza de que ela fez essa visita somente para dar algum recado do irmão!
— Como pode ter certeza disso, Olavo?
Já está casado há tanto tempo e ainda está inseguro em relação ao amor de Helena!
Precisa parar!
Ela não reagiu?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:44 pm

— Não! Não reagiu e isso é que me deixa mais nervoso!
Ela só chora e quanto mais chora, mais sinto vontade de bater!
— O melhor seria que você saísse de casa.
— Não vou sair de casa!
Aquela casa é minha!
— E se ela sair?
— Ela não vai fazer isso. Tem Narinha.
Ela sabe que nunca vou deixar que ela leve a menina e ela nunca vai abandonar a filha!
— Em uma disputa judicial, a mãe sempre fica com os filhos.
— Isso não vai acontecer!
Ela não tem coragem nem o direito de ficar com a filha!
— Você não pode decidir isso!
Sempre quem fala mais alto é a lei e ela está ao lado de Helena, ainda mais se ela disser que você é violento e que a espanca.
Olavo ficou nervoso.
Levantou-se, com a mão bateu com força na mesa e gritou:
— Eu já disse a ela que, se me deixar e tentar levar a menina, eu a mato, mato Narinha e depois me mato!
Ela nunca vai sair do meu lado! Nunca!
— Pare com isso, Olavo!
Sabe que, embora sejamos primos, gosto de você como se fosse meu irmão, mas não aceito a sua atitude!
Até hoje não sei qual é o motivo de ter mudado tanto!
Vocês foram felizes por tanto tempo.
Helena sempre foi uma boa esposa!
O que aconteceu?
— Isso não importa!
Ela sabe que tem culpa, por isso não reage!
Tem vezes que eu a odeio!
— O que pretende fazer?
Vai continuar batendo nela?
— Juro que não quero, mas a vontade que sinto de bater é maior do que tudo!
— Espero que mude.
Qualquer que seja o motivo, precisa parar.
Agora, está na hora do almoço, você precisa voltar para a palestra.
Garanto que nenhum dos vendedores que está ouvindo você falar com essa voz de locutor de rádio imagina o que você é em casa.
— Nem eles nem ninguém.
Vamos almoçar.
Saíram e foram ao restaurante que ficava a uma quadra dali.
Depois do almoço, voltaram para a sala, onde os vendedores já os esperavam.
Olavo, completamente refeito, sorriu, sentou-se e perguntou:
— Estão prontos para ouvir o resto da história?
Todos acenaram com a cabeça, dizendo que sim.
Olavo recomeçou a contar a história:
— No dia seguinte, meus avós acordaram cedo e foram para cozinha.
Ele colocou lenha sobre algumas brasas que ainda ardiam.
A fumaça invadiu o ambiente e eles foram obrigados a sair e esperar até que as brasas se formassem e a fumaça terminasse.
Foram para os fundos do quintal e chegaram aos tanques.
Àquela hora, todas as portas estavam fechadas.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:45 pm

Minha avó perguntou:
— Será que todos estão ainda dormindo, Giuseppe?
— Não sei, talvez sim, ou já foram para o trabalho.
— Lavaram o rosto e a boca.
Estavam ali, quando uma senhora negra se aproximou, trazendo nas mãos uma toalha pequena.
Aproximou-se:
— Bom-dia.
Vocês são novos por aqui?
— Meu avô respondeu:
— Somos. Nós nos mudamos ontem.
— Ao ouvir meu avô falar, ela se admirou:
— O senhor fala diferente.
De onde é?
— Meu avô olhou para minha avó e, sorrindo, respondeu:
— Somos italianos, viemos da Itália.
— Itália? Onde fica isso?
— Na Europa.
— Na Europa... sei...
— Meus avós perceberam que ela não tinha a mínima ideia do que era Europa e onde ficava:
— Meu nome é Giuseppe e esta é minha mulher, Beatrice.
— Muito prazer, madama.
Meu nome é Justina.
Moro naquele quarto com meu velho.
Eu trabalho na casa de uma família muito rica e ele arruma os trilhos dos trens.
Acordou bem cedo e só vai voltar de noitinha.
— Minha avó sorriu e disse:
— A senhora também fala diferente, mas nós a entendemos, pois, na fazenda onde a gente morava, havia muitas pessoas que falavam assim igual à senhora.
— Fui escrava toda minha vida e só fui libertada com a abolição.
Nunca aprendi a ler nem fui à escola, moça, mas sei muito da vida.
— Saber da vida é a melhor coisa que uma pessoa pode ter.
Não olhe para trás.
— É verdade. Agora, preciso ir embora.
Está na hora de eu ir para o trabalho.
Bom-dia.
Dizendo isso, afastou-se.
Meus avós ficaram olhando para ela e riram.
De repente, minha avó disse:
— Giuseppe, você viu como ela anda com dificuldade, por que será?
— Não sei, Beatrice, deve ser por causa dos sapatos que está usando.
São muito grandes para os pés dela.
Beatrice, rindo, disse:
— Só mesmo você para olhar para os sapatos e perceber o defeito.
— Sou sapateiro, mulher!
— Riram e, após meu avô encher a lata com água, voltaram para o quarto.
Minha avó foi para a cozinha e, como a fumaça ainda estava muito densa, saiu.
Meu avô estava colocando água na cal que estava em uma lata e mexia com o cabo de uma vassoura que encontrou por ali.
Entraram no quarto, tiraram e dobraram o lençol e o cobertor.
Meu avô desmontou a cama e levou-o para fora, juntamente com o colchão e começou a pintar com a cal.
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Ave sem Ninho

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:45 pm

Estava fazendo isso, quando Domingos chegou.
Trazia, em suas mãos, um saco de estopa bem cheio.
Aproximou-se e, virando o saco, esparramou pelo chão cinco pares de sapatos masculinos.
Rindo, disse:
— Foi só eu dizer que conhecia um sapateiro, todos os meus amigos que trabalham à noite e que moram perto da estação foram buscar seus sapatos que precisavam de conserto.
Olha, meu amigo, você vai ter muito trabalho!
— Meu avô foi pegando os sapatos, um por um e olhando qual era o conserto que precisava ser feito.
Depois de olhar todos, disse:
— Todos eles têm conserto.
Só não sei como vou fazer isso, pois não tenho o material necessário.
— Não se preocupe com isso!
Um amigo meu que trabalha na estação disse que tem uma loja que recebe material de couro que vem do Rio Grande do Sul.
Disse que eles têm tudo lá.
Agora mesmo, antes de eu dormir, vamos até lá ver se tem o que você precisa.
Vejo que está terminando de pintar o quarto.
Enquanto faz isso, vou tomar café e comer pão.
Trabalhei a noite toda e estou morrendo de fome.
— Está bem, faça isso.
Beatrice tem leite, café e pão.
— Obrigado, Giuseppe.
Eu ainda ia ter de coar o café.
Estando pronto é bem melhor.
Só vou buscar a minha mortadela.
— Assim dizendo, entrou em sua cozinha e minha avó foi para a sua ver se o leite estava quente.
Meu avô continuou pintando o quarto.
Assim que ele terminou de pintar o quarto e Domingos acabou de comer, os dois saíram.
Minha avó permaneceu em casa.
Chegaram à loja de couros.
Meu avô disse ao vendedor tudo do que precisava.
O vendedor foi pegando e colocando sobre o balcão.
Quando o material estava todo sobre o balcão, meu avô perguntou pelo preço.
O vendedor foi anotando em um papel o preço de cada coisa e apresentou ao meu avô, que olhou e falou:
— Não posso levar, Domingos.
— Não pode, por quê, Giuseppe?
— Gastei quase todo o dinheiro que eu tinha para alugar o quarto.
O que tenho, agora, é muito pouco e preciso guardar para uma emergência.
Domingos pensou um pouco e disse:
— Pode levar, Giuseppe, tenho algum dinheiro guardado e vou emprestar a você.
Meu avô, incrédulo, perguntou:
— Emprestar? Você mal me conhece.
— Você também não me conhece nem aos portugueses.
Fique sabendo que quase todo português tem um tino para o negócio.
Estou vendo que você, com a sua profissão, vai ganhar muito dinheiro e, com certeza, vai devolver o que estou emprestando hoje.
Sinto que você vai crescer muito e, quem sabe, no futuro, eu não possa ser o seu sócio.
Não é?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:45 pm

— Meu avô rindo respondeu:
— Antes de me emprestar o dinheiro, precisa saber que a profissão de sapateiro não dá muito dinheiro, mas, se der, e eu ganhar muito, você vai ser meu sócio, sim!
— Domingos assinou uma nota promissória que foi aceita sem restrição, quando ele disse que trabalhava como carregador na estação.
Todos sabiam que os carregadores recebiam boas gorjetas.
Depois que o vendedor embrulhou o todo material, Domingos disse:
— Aí está, meu amigo!
Agora é só trabalhar e ganhar muito dinheiro!
— Feliz e esperançoso, meu avô pegou o material e voltou para o cortiço.
Antes de entrar pelo corredor, passou no armazém e comprou um banquinho que ia precisar para trabalhar.
Quando chegaram, já estava na hora do almoço.
Como minha avó sabia que Domingos estava com sono e que levaria muito tempo para preparar o almoço, resolveu fazer uma quantidade que daria para os três.
Enquanto a comida cozinhava no fogão, ela, com muita dificuldade, montou a cama, carregou o colchão que não era pesado, pois fora feito com palha de milho, e colocou-o sobre a cama.
Depois, afofou a palha, colocou o lençol, as fronhas e o cobertor.
Quando meu avô viu o que ela havia feito, não se admirou, pois sabia que ela não era mulher de esperar pelo marido.
Desde pequena, fora criada trabalhando muito e, por isso, era forte.
Ao ver que eles carregavam vários pacotes, ela perguntou:
— Encontrou tudo de que vai precisar, Giuseppe?
— Encontrei, Beatrice.
Naquela loja tinha tudo!
Comprei até um suporte de ferro que eu não tinha para que possa pregar a meia sola.
Só preciso preparar a cola, mas vou fazer depois.
Ainda bem que você montou a cama, assim já posso começar a trabalhar.
— Minha avó sorriu e abraçou o marido.
Domingos, vendo a felicidade dos dois, sorrindo, disse:
— Agora vou preparar o meu almoço e vou dormir.
Estou cansado e preciso ficar pronto para voltar ao trabalho.
— Eu sabia que vocês iam chegar tarde, por isso preparei a comida para nós três.
Vamos almoçar juntos, Domingos.
— Ao ouvir aquilo, Domingos respirou fundo e disse:
— Obrigado, dona Beatrice.
Giuseppe, sua mulher vale ouro!
— Meu avô rindo beijou a esposa na testa e disse:
— E eu não sei?
— Almoçaram. Domingos foi dormir.
Meu avô sentou do lado de fora da cozinha e começou a trabalhar.
Minha avó pegou um pedaço de sabão feito de cinzas, que havia comprado no armazém, algumas roupas que estavam sujas e foi lavar em um dos tanques nos fundos do quintal.
Às seis horas da tarde, quando Domingos acordou, meu avô já havia consertado cinco pares de sapatos.
Domingos se admirou:
Fez tudo isso, Giuseppe?
— O conserto não foi difícil.
O pior foi estender o couro no chão da cozinha e ter de me abaixar para poder cortar uma meia sola para um par de sapatos, uma sola para outro par e saltos para o outro.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:45 pm

Passei cola e, enquanto a cola secava para que eu pudesse pregar, costurei, a mão, os outros dois pares.
Depois voltei aos sapatos que estavam secando e estou terminando de pregar os últimos pregos.
Esses pares de sapatos vão durar por muito tempo.
— Se continuar assim, vai ganhar muito dinheiro!
— Não sei se vou ganhar muito dinheiro, mas preciso ganhar algum para sobreviver.
— Vai conseguir isso e muito mais.
Falando em dinheiro, já pensou no preço que vai cobrar?
— Já calculei.
Vou cobrar apenas o material que usei e um pouco de mão de obra.
Vou cobrar o mais barato possível.
Quero fazer uma boa freguesia.
— Se fizer isso, vai ter uma freguesia maior do que está pensando.
— É isso que quero!
— Minha avó, depois de recolher as roupas que havia lavado e que já estavam secas, encontrou dona Justina que voltava do trabalho.
Esta, sorrindo, disse:
— Boa-tarde. Está tudo bom com a senhora?
— Está tudo bem.
E a senhora, como está?
— Um pouco cansada, mas depois que eu fizer a comida, vou descansar.
— Também vou fazer a minha comida.
— As duas continuaram andando, uma para cada lado.
Minha avó se voltou e pensou:
Ela tem dificuldade para andar.
— Minha avó continuou andando e, depois de cumprimentar Domingos, entrou na cozinha e começou a cozinhar.
Domingos pegou uma toalha e entrou na cozinha.
Meu avô continuou consertando os sapatos.
Depois que o macarrão estava pronto, meu avô convidou Domingos para jantar.
Ele se recusou:
— Desculpe, mas não posso aceitar.
Não é justo vocês comprarem comida e eu aproveitar.
Já estou com minhas batatas cozidas.
Vou colocar um pedaço de carne sobre a chapa do fogão.
Falando nisso, no dia da minha folga, vocês vão comer uma comida portuguesa.
Vou fazer um bacalhau de dar água na boca.
— Meus avós riram e agradeceram.
Estavam conversando, quando passou por eles um senhor negro que olhou para eles e falou:
— Boa noite, seu Domingo.
— Boa noite, seu Benedito.
— O senhor continuou andando.
Ele caminhava cambaleando.
Estava descalço, carregando sobre os ombros dois sapatos amarrados pelo cardaço.
Minha avó estranhou:
— Ele está bêbado, senhor Domingos?
— Esta sim, dona Beatrice.
Ele bebe quase todos os dias.
— Por que ele está descalço e carregando os sapatos.
Foi escravo, nunca usou calçado, por isso não se acostumou com sapatos, mas é obrigado a usar para poder trabalhar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

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