Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:45 pm

O pior vai começar daqui a uns dez minutos.
— Pior? O que é?
— Espere, não vai demorar.
— Meus avós, intrigados, ficaram esperando.
Não precisaram esperar muito.
Após alguns minutos, ouviu-se uma discussão e, em seguida, umas pancadas e dona Justina chorando e gritando.
Minha avó, assustada, perguntou:
— O que está acontecendo, senhor Domingos?
Ele está batendo nela?
— Está, dona Beatrice.
Sempre que bebe, quando ele vem para casa, começam a brigar e ele faz o que está fazendo agora.
Bate nela com uma cinta.
Amanhã, ela vai estar toda machucada.
— Precisamos ir até lá e impedir, Giuseppe!
— Minha avó disse isso, olhando para meu avô, que começou a caminhar em direcção ao quarto de Justina, mas foi impedido por Domingos:
— Espere, Giuseppe! Não faça isso!
— Como não, Domingos!
Ele vai matar a pobre mulher!
— Todos os que moram aqui já tentaram e foram rechaçados.
Eles não admitem que ninguém se envolva nos problemas deles.
— Nem ela?
— Nem ela, dona Beatrice.
Amanhã, se a encontrar, ela vai dizer que estavam brincando.
— Não pode ser.
Homem algum tem o direito de bater em uma mulher dessa maneira...
Ao dizer essas últimas palavras, Olavo olhou para Carlos que também olhava para ele.
Engoliu fundo, respirou e falou:
— Bem, pessoal, já conversamos bastante.
Prometo que está quase no fim, mas, agora, precisamos parar por uns quinze minutos.
Vamos tomar café e ir ao banheiro.
O que acham?
Alguns reclamaram, pois queriam ouvir o fim da história, mas Olavo saiu da sala e foi seguido por Carlos.
Enquanto caminhavam para a sala de Olavo, Carlos perguntou:
— O que aconteceu lá dentro, Olavo?
Por que falou sobre a negra que apanhava do marido?
Isso não tem nada a ver com a história da empresa.
— Não sei, Carlos.
Não sei por que contei essa parte.
Quando me dei conta, estava falando tudo aquilo e não consegui parar.
No momento em que repeti as palavras de minha avó, senti um aperto no coração, um calafrio e me lembrei de Helena, dos momentos em que bati nela.
Não consegui ficar lá dentro, precisei sair para tomar um pouco de ar.
— Vai parar de bater em Helena?
— Não sei, Carlos.
Não sei. Preciso pensar...
Entraram na sala.
Olavo sentou-se em sua cadeira e Carlos na que estava em frente à mesa.
Ficaram em silêncio.
Logo depois, a secretária entrou, trazendo café que os dois, ainda em silêncio, começaram a tomar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:46 pm

Procurando ajuda
Depois que Eunice saiu do quarto, Helena ficou, por algum tempo, pensando em tudo o que havia se passado em sua vida.
Olhou para o relógio e pensou:
Eunice tem razão, preciso tomar uma atitude.
Já sofri muito.
Fui surrada, humilhada e, se cometi algum erro, já paguei.
Para que eu possa tomar essa atitude, preciso de ajuda.
Não posso fazer o que Eunice sugeriu, não posso ir para a casa de Débora, embora saiba que, se fizesse isso, seria bem recebida como sempre fui.
Não, não posso ir para lá.
A única pessoa que poderá me ajudar será minha mãe, mas duvido muito que o faça.
Mesmo assim, preciso tentar, pois se ela não me estender a mão, não sei o que fazer.
Levantou-se, abriu a porta do guarda-roupas.
Escolheu uma saia preta e uma blusa, também preta, com estampas em rosa e azul.
Jogou-as sobre a cama, saiu do quarto e foi até a cozinha, onde Eunice provavelmente estaria.
Tinha razão.
Ela estava junto da pia, lavando a louça.
Aproximou-se e disse:
— Vou tentar fazer o que sugeriu, Eunice.
Vou conversar com minha mãe e, se ela aceitar, vou pegar a minha boneca e deixar esta casa e Olavo.
— Será que ela vai ajudar a senhora, dona Helena?
— Penso que não, mas não custa tentar.
— E se ela não ajudar?
Helena, respirando fundo, respondeu:
— Não sei, Eunice.
Não sei o que vou fazer.
— Não se preocupe com isso.
No momento em que resolver se libertar nada vai impedir.
Acho até que vai ter ajuda do céu.
— Ajuda do céu?
O que está dizendo, Eunice?
— Sigo, há muito tempo, uma Doutrina que nos ensina isso que somos espíritos livres e, por isso, não devemos nos deixar aprisionar por nada nem por ninguém.
Graças ao que aprendi, tive coragem de tomar a atitude mais terrível da minha vida, mas, hoje, posso dizer que sou livre.
— Que Doutrina é essa?
— A Doutrina espírita de Allan Kardec.
— Deus me livre!
Aquela do diabo?
Eunice começou a rir:
— Não sei se ela é do diabo, mas, se for, o diabo é muito bom, porque, através do que aprendi com ela, sou outra pessoa.
Ela nos ensina que tudo está sempre certo, que nascemos para cumprir uma missão, resgatarmos erros passados, sermos felizes e, o mais importante, que nunca estamos sós, principalmente nos momentos difíceis.
— O que é tudo isso?
Como não vamos nos sujeitar a alguém se somos mulheres e sempre dependemos de um homem?
Nosso pai, irmão, marido e, no final, os filhos?
Resgatar erros passados?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:46 pm

Talvez eu tenha cometido algum erro nesta vida, mas garanto que não foram tão graves assim e, por último, que missão é essa da qual fala?
Está dizendo que tenho uma missão, mas qual?
Onde esteve ou está essa ajuda da qual está falando, sempre que Olavo me espanca?
— Ainda é muito cedo para ter essas respostas.
Quando chegar a hora, a senhora vai encontrá-las sem fazer muita força.
Elas virão até a senhora.
O que precisa saber, agora, é que a senhora é um espírito livre e que não pode nem deve se sujeitar a nada nem a ninguém.
Helena sorriu:
— Tem razão, hoje não estou com cabeça para pensar essas coisas elevadas.
Tenho um problema que preciso resolver agora.
O que fiz ou o que deixei de fazer vai ficar para outra hora.
Agora, avise ao Juarez para que traga o carro.
Vou até a casa da minha mãe e, quando chegar a hora, vou com ele buscar a Narinha na escola.
O Olavo não vai telefonar, mas, se o fizer, diga a mesma coisa.
Vou ao meu quarto trocar esta saia e volto em seguida.
— Está bem, senhora.
Vou fazer isso.
Quando Helena voltou, Juarez já estava com o carro em frente à porta principal da casa.
Juarez, que já a esperava, abriu a porta traseira do carro.
Ela entrou e tomou cuidado para não encostar as costas no banco.
Ele fechou a porta, entrou e saiu com o carro.
Enquanto o carro andava, Helena pensava:
No íntimo, sei que estou perdendo meu tempo.
Minha mãe não vai me ajudar.
Para ela, nunca existiu homem melhor do que Olavo.
Como nunca disse a ela que ele me espanca, talvez, sabendo disso, ela mude de ideia.
Vinte minutos depois, o carro entrou em uma rua com casas grandes e bonitas.
Juarez parou o carro em frente a uma delas.
Ele desceu do carro, abriu a porta para que Helena pudesse descer.
Ela desceu e falou:
— Não vou me demorar muito, Juarez.
— Está bem, senhora.
Estarei aqui esperando.
Com pisadas firmes, Helena caminhou até o portão e tocou a campainha.
Logo depois, a porta se abriu.
Uma senhora muito bem vestida e penteada, ao ver Helena, abriu os braços e sorriu:
— Helena! O que está fazendo aqui?
Por que veio sem me avisar?
Helena, enquanto retribuía o abraço da mãe, disse:
— Calma, dona Ondina.
A senhora vai saber o motivo da minha visita sem avisar.
Enquanto entravam, Ondina perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu, mamãe, mas antes vamos nos sentar e eu vou contar tudo.
— Está me deixando nervosa, Helena!
— Garanto que vai ficar ainda mais.
Sentaram-se em um sofá que havia na sala.
— Fale logo, Helena!
O que aconteceu?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:46 pm

— Vou me separar de Olavo.
Ondina se levantou e, quase gritando, perguntou:
— O quê? Ficou maluca?
Como pode pensar em abandonar um homem como ele que não deixa faltar coisa alguma a você e a sua filha?
Um homem que deu a você uma casa linda como a sua?
Um homem que colocou à sua disposição um carro maravilhoso com motorista e tudo?
Um homem que me deu esta casa linda, neste bairro?
Já imaginou o que os vizinhos pensaram quando o seu carro chegou e você desceu dele?
Garanto que muitas das minhas vizinhas estão morrendo de inveja.
Helena sorriu:
— Tudo isso tem um preço, mamãe.
Garanto que o preço é muito alto.
— Não tem preço algum, Helena, e, mesmo se tiver, você tem de pagar com muito gosto.
— Não consigo mais, mamãe.
Tentei, mas agora não dá mais.
— O que ele fez para que você ficasse tão revoltada?
Helena se levantou e tirou a blusa.
Depois, voltou-se e mostrou as costas, onde ainda havia algumas gotas de sangue.
Ondina, assustada, perguntou:
— O que é isso, Helena?
Helena começou a chorar:
— São cintadas que Olavo me deu hoje, sobre outras que vem dando há muito tempo.
Não suporto mais essa vida, mamãe...
Ondina, ainda assustada, perguntou:
— Quando começou isso, Helena?
— Desde que fiquei grávida.
— Por quê?
— Não sei, mamãe.
Ele nunca me disse o motivo.
Fica dizendo que eu só me casei com ele por causa do dinheiro, que sou mentirosa...
— Não, Helena, você está me escondendo alguma coisa.
Ele não pode, depois de tanto tempo de casados, ter mudado dessa maneira!
O que você fez?
— Não sei, mamãe, mas, mesmo que eu tivesse feito alguma coisa, nada é motivo para eu continuar sendo espancada quase todos os dias...
Com a voz irónica, Ondina mudou de atitude:
— Então, por causa disso, quer abandonar seu marido e tudo o que ele deu a você e a sua filha?
— Não posso mais viver assim e preciso da sua ajuda...
— Quer que eu a ajude a abandonar seu marido?
Como posso fazer isso, se ele é um homem tão maravilhoso, que, além de dar a você tudo, ainda me deu esta casa?
Apanhar não é motivo para isso.
Apanhei durante toda minha vida e estou aqui, enquanto seu pai já está queimando no fogo do inferno há muito tempo.
— Não quero ter a vida que a senhora teve, mamãe.
A senhora não pode imaginar o quanto eu sofria, sempre que eu via aquelas brigas lá em casa.
— Sofria, mas gostava de morar naquela casa, ter uma cama e comida boa!
— Eu era uma criança, mamãe...
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:46 pm

— Uma criança que cresceu e que, graças a minha ajuda, encontrou um homem maravilhoso pelo qual deveria agradecer a Deus todos os dias.
— Eu preferia não ter nada e ter a paz e o amor que só vi na casa da dona Clélia.
Foi ela quem sempre me acolheu enquanto a senhora era surrada e eu chorava sem parar.
— Paz e amor?
Você se lembra daquele quartinho onde eles moravam?
Em que pobreza eles viviam e em como ela trabalhava para dar comida aos filhos?
Eu não! Nunca faltou nada em nossa casa.
Seu pai podia ter o defeito que tivesse, mas sempre nos deu tudo!
Nunca precisei trabalhar fora!
— O preço que a senhora pagou não conta?
Foi surrada durante a vida toda...
— Nunca me preocupei com isso e nunca me passou pela cabeça a ideia de deixar o seu pai.
— Admiro a senhora, mas eu não aguento mais...
— O que aconteceu para que ele ficasse tão bravo e fizesse isso?
Helena contou da visita de Débora.
Quanto terminou de falar, Ondina, revoltada, disse:
— Está vendo?
Eu sabia que ele tinha razão!
— Razão, por quê, mamãe?
— O que ela foi fazer na sua casa?
Levar um recado do irmão?
— Claro que não, mamãe!
Nem falamos dele!
Ela sempre foi minha amiga, mesmo depois que terminei o casamento com Rafa.
Esteve fora por muito tempo, chegou e veio me visitar.
Nada além disso!
— Você é ingénua mesmo, Helena!
O que acha que aquela solteirona foi fazer na sua casa?
Ela morre de inveja de tudo o que você conseguiu!
Foi conhecer sua casa e ver o marido maravilhoso que você tem!
É uma invejosa, isso que ela é!
— Ela não ligou para nada disso, mamãe, só viu as minhas costas.
— Entendi, foi ela quem colocou essa ideia louca de abandonar seu marido?
É uma invejosa, Helena!
— Ela não tem motivo para ter inveja, mamãe!
Ela tem uma profissão, ganha seu próprio sustento e a senhora sabe muito bem o motivo pelo qual ela não se casou.
— Não importa qual foi o motivo!
Poderia ter encontrado outro marido, se tivesse a sua qualidade, a sua beleza!
Como não encontrou, agora morre de inveja do seu!
— Pare com isso, mamãe!
Por sempre ter sido uma interesseira, a senhora está procurando um motivo para o que Olavo faz comigo, mas não vai encontrar, porque não existe, neste mundo, motivo algum para que uma mulher seja espancada!
— Nem para que uma mulher abandone seu marido por causa disso!
Helena, vendo que sua mãe não a ajudaria, disse:
— Está bem, mamãe.
Já vi que não vai me ajudar, mas vou encontrar uma maneira de fazer isso.
Agora, vou embora.
Preciso pegar Narinha na escola.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:47 pm

— É bom que esteja pensando na sua filha, porque, se abandonar Olavo, ele vai ficar com a menina e, se precisar, eu mesma vou falar com o juiz para que isso aconteça.
Não vou permitir que minha neta sofra privações por causa da insanidade da mãe!
Chorando e sem se despedir, Helena saiu da casa da mãe e entrou no carro onde Juarez já a esperava com a porta aberta.
Ondina saiu em seguida e, balançando a cabeça de um lado para o outro, num sinal de reprovação, ficou olhando o carro se afastar.
Depois que o carro sumiu, olhou para a rua e viu algumas mulheres conversando na calçada.
Pensou:
Estão morrendo de inveja da minha filha e de mim.
Já no carro, Helena disse:
— Agora, Juarez, vamos até a escola.
Está quase na hora de Narinha sair.
— Está bem, senhora.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:47 pm

O início da empresa
Olavo e Carlos estavam terminando de tomar o café, quando o telefone tocou.
O número chamado era o particular de Olavo e só era conhecido por algumas pessoas da família, Helena e, claro, Hortência.
Olavo atendeu:
— Alô!
— Ainda bem que você está aí, já liguei mil vezes!
— Olá, Hortência!
Eu disse que estava trabalhando, não disse?
— Sim, você disse.
Vai ficar aí até que horas?
— Não sei. Por quê?
— Estive pensando que, já que você me fez cancelar as nossas reservas de hotel e do avião, poderíamos passar o fim de semana juntos, aqui em casa.
Olavo olhou para Carlos que começou a rir.
Rindo, também, mas tentando fazer com que ela não percebesse, falou:
— Não vai dar, Hortência.
— Não vai dar por quê?
— Surgiu um problema e, quando eu terminar de dar minha palestra com os vendedores, preciso ir para casa, mas outro dia nos encontraremos.
— Quando?
— Não sei, Hortência!
Quando eu resolver os meus problemas.
— Que problemas?
— Os problemas são meus e eu preciso resolver.
Quando tudo terminar, prometo que você vai ser a primeira a saber.
— Está me deixando preocupada.
— Preocupada, por quê?
— Você nunca me tratou assim!
— Assim como?
— Sempre foi carinhoso, nunca falou áspero da maneira como fala agora.
Estou achando que você voltou para ela.
Olavo ficou nervoso e quase gritou:
— Não! Isso nunca vai acontecer!
Nosso casamento terminou há muito tempo!
— Se isso fosse verdade, você já teria se divorciado e já estaria casado comigo.
— Já disse a você mil vezes que não posso me divorciar!
Tenho uma empresa e preciso manter as aparências.
Além disso, tenho minha filha que não tem culpa dos meus problemas com a mãe!
— Nunca achei que esses motivos fossem verdadeiros!
Acho que você esteve brincando comigo durante todo esse tempo!
— Você não tem o direito de me cobrar coisa alguma, pois, desde o início, sempre soube que eu era casado e que não pretendia me separar!
— Sei disso, mas sempre tive a esperança de que essa situação mudasse.
— Não vai mudar!
— Já se deu conta do tempo enorme e das oportunidades que perdi por estar à sua disposição?
Olavo, agora, estava tremendo de nervoso.
Gritou:
— Foi muito bem paga por esse tempo perdido!
Eu sempre dei a você todo dinheiro que me pediu, dei um carro e muitas jóias e até um apartamento!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:47 pm

Portanto, não venha com reclamações!
Agora vou desligar, preciso voltar à palestra!
Ela ainda usou o último recurso.
— Venha me ver, Olavo.
Estou morrendo de saudade e esperando por você com muito carinho e muito amor...
— Assim que puder eu vou. -— dizendo isso, desligou o telefone.
Carlos, admirado, perguntou:
— O que foi isso, Olavo?
— Isso, o quê?
— Por que falou com ela dessa maneira?
Ontem mesmo disse que iam passar o fim de semana juntos.
Por que mudou dessa maneira?
Olavo, que havia se levantado enquanto falava com Hortência, voltou a se sentar:
— Não sei, Carlos, mas depois que falei aquilo na palestra, senti algo muito ruim.
Acho que, pela primeira vez, percebi o quanto tenho sido malvado com Helena.
No início, eu devia ter me separado.
Foi ignorância insistir para continuarmos casados.
Se eu tivesse feito isso, muita coisa teria sido evitada e eu não teria me tornado o homem que me tornei.
— Fico feliz em ouvir isso, Olavo.
Embora sejamos primos, eu o considere mais do que a um irmão.
Sempre fiz e farei tudo o que for possível para ver você feliz.
— Sei disso, meu amigo.
O mesmo digo em relação a você.
Agora, está na hora de voltarmos à palestra. Vamos?
— Vamos, mas, por favor, limite-se a falar somente sobre a empresa.
Esqueça o outro lado da história que nós só descobrimos quando sua mãe encontrou aquele caderno de sua avó, depois que ela morreu.
Nele ela contava tudo o que havia acontecido em sua vida.
Olavo começou a rir e Carlos continuou:
— Você se lembra do escândalo que aquele caderno causou na família?
— Lembro-me de alguma coisa, mas éramos crianças e nunca tomávamos parte das conversas dos adultos.
— Tem razão, Olavo, mas não se esqueça de que até hoje as crianças ficam isoladas dos problemas.
É verdade.
Embora naquele tempo eu ficasse bravo, hoje entendo.
Para que as crianças precisam participar dos problemas?
Elas vão ter muito tempo para isso.
Precisam viver a idade delas.
Brincar e fazer tudo o que gostam.
— Está certo, mas, agora, chegou a hora de voltarmos para a sala de reunião.
O pessoal já deve estar esperando.
Rindo, foram para a sala, onde os vendedores já os esperavam.
Olavo tomou seu lugar e, enquanto se sentava, disse:
— Bem, agora, vamos continuar.
Espero que estejam gostando.
Prometo que está quase no fim.
Os assistentes sorriram.
Olavo continuou falando:
— Daquele dia em diante, todos os dias, Domingos trazia e levava sapatos.
Meu avô trabalhava sem parar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:47 pm

Ele trazia sapatos não só de seus colegas de trabalho, como também de suas esposas, filhos e filhas.
Logo conseguiu não só pagar o dinheiro que Domingos havia lhe emprestado como recursos para ele comprar os materiais que ia precisando.
Minha avó, sempre ao seu lado, além de cuidar da casa, ajudava em tudo o que podia.
Aprendeu a limpar os sapatos para que parecessem novos.
Dona Justina, sempre que chegava do trabalho, parava para conversar.
Aos poucos, foi nascendo uma amizade entre elas.
Ela continuava apanhando do marido, mas, seguindo orientação de Domingos, minha avó, embora se revoltasse com aquilo, nunca falou com ela sobre aquele assunto.
Um dia, não suportando mais ver a dificuldade com que ela andava, perguntou:
— Dona Justina, desculpe a minha curiosidade, mas preciso fazer uma pergunta à senhora.
— Pode fazer, minha filha.
— A senhora sente dor nos pés?
A negra sorriu:
— Não pode imaginar o quanto.
Sempre fui escrava e nunca usei sapato.
Quando fiquei livre, vim trabalhar na casa da minha patroa.
Ela é muito boa e o trabalho também é bom, mas a minha patroa não quer que eu fique descalça e me deu esse sapato.
Ela disse que na casa dela não pode ficar descalça.
Esse sapato machuca os meus pés, mas eu não tiro não.
Preciso me acostumar.
Meu velho também usa os sapatos para trabalhar, mais depois do trabalho ele tira e coloca nos ombros.
Eu não faço isso, não.
Sei que ainda vou me acostumar.
— Minha avó olhou para meu avô que, embora estivesse costurando um sapato, prestava atenção à conversa delas.
Ele sorriu, levantou-se do banquinho onde estava sentado, entrou na cozinha e voltou trazendo uma folha de jornal.
Estendeu no chão, olhou para minha avó que, sorrindo, disse:
— Tire os sapatos, dona Justina.
— Não vou tirar, minha filha!
Preciso me acostumar!
— Pode tirar, dona Justina.
Meu marido vai desenhar os seus pés e vai fazer um sapato do tamanho deles.
A senhora vai gostar.
— Um pouco desconfiada, ela tirou os sapatos e colocou os pés sobre a folha de jornal.
Meu avô, com o auxílio de um lápis, contornou os seus pés.
Depois, olhou para ela e falou:
— Vou fazer um par de sapatos que a senhora vai achar que está descalça.
— Eu ia ficar contente, mas não vai dar, não sinhó.
Minha avó se admirou:
— Não vai dar, por quê, dona Justina?
— Não tenho dinheiro para comprar sapato.
Só uso aqueles que a minha patroa dá.
— Não se preocupe com isso.
Tenho muitos retalhos.
Vou fazer seus sapatos e não vou cobrar nenhum tostão.
— Vai fazer isso?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 02, 2017 7:47 pm

— Vou, sim. Só que talvez demore um pouco, porque tenho muito trabalho, mas vou fazer e a senhora vai gostar.
— Meu avô ficou animado em fazer um par de sapatos.
Ele já havia feito na Itália, mas, aqui no Brasil, seria o primeiro.
Depois de alguns dias, quando dona Justina chegou, minha avó, com o par de sapatos nas mãos, recebeu-a com um sorriso:
— Dona Justina, olhe aqui seus sapatos!
A senhora, quando viu os sapatos, deu uma gargalhada, mostrando os dentes.
— Que bonito! Posso usar?
— Claro que pode! Ele é seu!
— Meu avô, constrangido, disse:
— Como tive de fazer com restos de material, precisei misturar couro com camurça.
Isso não é comum, mas a senhora precisava de um sapato bem confortável.
— Dona Justina nem ouviu o que ele disse.
Tirou os sapatos velhos e colocou os novos.
Naquela época, os sapatos das mulheres eram botas abotoadas.
Como meu avô não tinha botões, fez de couro um cadarço que amarrava nos lados no lugar dos botões.
Dona Justina, quando terminou de amarrar os sapatos, começou a andar de um lado para o outro.
Ria como se fosse uma criança quando ganha um doce.
— Bem que o senhor disse que ia parecer que eu estava descalça.
Não é que parece mesmo!
Gostou?
— Muito, minha filha!
Ele é bonito e gostoso de andar!
Meu avô também riu e voltou para o seu trabalho.
No dia seguinte, dona Justina foi toda faceira para o seu trabalho.
Ela estava saindo e encontrou Domingos, que chegava do trabalho:
— Bom-dia, dona Justina!
— Bom-dia, seu Domingos!
O senhor viu o meu sapato novo?
— Domingos olhou para os seus pés e, sorrindo, disse:
— São muito bonitos, dona Justina!
— Também muito gostosos de andar!
Até parece que tô descalça!
Foi o seu Giuseppe quem fez para mim!
Domingos se admirou:
— Também faz sapatos, Giuseppe?
— Eu faço, Domingos.
Aprendi com meu pai.
— Isso é muito bom!
Quero que faça um par de sapatos para mim.
Vou mostrar aos meus amigos e garanto que vai ter muitas encomendas!
— Acredita nisso?
— Claro que acredito!
Você pode fazer sapatos mais baratos do que aqueles que têm no mercado.
As pessoas não compram muitos sapatos, mas precisam comprar ao menos um par por ano.
Sem todo o optimismo de Domingos, meu avô disse:
— Está bem, vou fazer.
— Faça isso, meu amigo.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:04 pm

Agora, vou tomar meu café e ir dormir.
Esta noite não foi fácil.
Chegaram muitas pessoas.
Não estou reclamando, não!
Quanto mais pessoas, mais eu ganho!
Meus avós riram e ele entrou na cozinha.
Meus avós passaram o dia trabalhando.
Quando dona Justina voltou do trabalho, aproximou-se e rindo, disse:
— Vocês não podem imaginar o que aconteceu!
— O que foi, dona Justina?
A negra olhou para minha avó e, ainda rindo, respondeu:
— Quando a minha patroa viu que eu estava andando direito, preguntou o que tinha acontecido.
Eu mostrei os meus sapatos e disse que o senhor tinha feito para mim, que tinha tirado as medidas rabiscando no jornal e que tinha feito tudo na mão e que tinha até costurado.
Ela pediu para o senhor ir lá na casa dela para tirar as medidas dos pés dela.
Quer que o sinhó faça um sapato para ela.
Disse que, se gostar, vai mandar fazer para as três filhas, para o marido e para os dois filhos.
O sinhó vai, não vai?
Meu avô olhou, primeiro, para minha avó, depois para Domingos e, rindo, feliz, respondeu - — Vou, claro que vou, dona Justina!
No dia seguinte, meu avô acordou antes das seis horas, pois sabia que aquela era a hora em que dona Justina costumava sair para o trabalho.
Levantou-se, vestiu-se rapidamente, pegou uma toalha e foi para os fundos do quintal, onde, no tanque, lavou o rosto e a boca.
Quando estava voltando, Dona Justina abriu a porta de seu quarto.
Já estava pronta para sair.
— Bom-dia, dona Justina.
Estou pronto para ir com a senhora.
Vamos ver se sua patroa vai mesmo querer que eu faça sapatos para ela e para a família.
— Ela vai querer, sim, ela gostou muito do meu!
— Meu avô passou pelo quarto, despediu-se de minha avó, que ainda estava deitada, e acompanhou dona Justina.
Quando chegaram à frente da casa, ele parou.
Já tinha visto muitas casas iguais àquela, mas nunca havia entrado em uma.
Dona Justina, percebendo que ele estava preocupado, disse:
— Não fica preocupado, não.
Minha patroa é muito boa.
Nem parece que tem tanto dinheiro.
Nós vamos entrar pelos fundos até a cozinha, e, enquanto o sinhó fica tomando café, vou chamá-la.
— Dizendo isso, saiu e voltou logo depois, acompanhada por uma senhora.
Assim que elas entraram na cozinha, meu avô, constrangido, se levantou.
Ela, ainda sorrindo, disse:
— Não precisa se levantar e pode continuar tomando o seu café.
— Meu avô voltou a se sentar e ela continuou:
— Justina disse que o senhor fez para ela o par de sapatos que está usando.
— Fiz, sim senhora.
— Ao ouvir meu avô falar, ela perguntou:
— O senhor é italiano?
— Sou, senhora.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:04 pm

Meu nome é Giuseppe.
— Como pode ver, pelo meu sotaque, também sou italiana.
Cheguei ao Brasil há quase trinta anos.
Portanto, também sou imigrante.
Meu nome é Assunta.
Meu marido é comerciante de café.
Por isso conhecemos toda a alta sociedade desta cidade.
Justina disse, também, que o senhor tirou as medidas dos seus pés e fez os sapatos sob medida.
— É verdade. Notei que ela tinha problemas com os pés, por isso, tirei as medidas e ficou muito bom.
Ela está andando sem problema algum.
— Percebi. Foi por isso que pedi que viesse até aqui.
Tenho joanetes nos dois pés, por isso não consigo ficar confortável com qualquer sapato que use.
Se o senhor conseguir fazer um sapato que eu possa usar e com o qual possa me sentir bem, pagarei o preço que quiser.
— Vou tentar fazer um sapato que agrade a senhora e não vou cobrar um preço que não seja justo.
Preciso de uma folha de jornal para tirar suas medidas.
— Assunta olhou para Justina e não se admirou por ela já estar com a folha de jornal nas mãos.
Meu avô tirou as medidas, quando terminou, ela disse:
— Gostei muito do modelo do par de sapatos que fez para Justina.
Queria que fizesse os meus com couros diferentes como fez os dela, só que preferia que, ao invés daquele laço, colocasse botões.
— Está bem, senhora.
Vou fazer o melhor que puder.
— Em seguida, meu avô se despediu e, feliz, saiu dali com o coração cheio de esperança.
Depois de sair pelo portão, voltou-se, olhou para a casa que ficava no meio de um jardim imenso e pensou:
— Se Domingos estiver certo, vou mesmo, ficar rico!
Quando chegou a casa, encontrou minha avó e Domingos que, ansiosos, esperavam por sua volta.
Ele, rindo, disse:
— Consegui uma encomenda!
A mulher gostou muito dos sapatos que fiz para dona Justina!
Disse que, se gostar, vai encomendar para toda a família!
— Domingos abraçou meu avô e disse:
— Não disse que você ia ficar rico!
Alguns dias depois, meu avô voltou à casa de Assunta levando três pares de sapatos:
um feito em couro; outro, em camurça; e outro, com os dois materiais misturados.
Ela veio até a cozinha para encontrá-lo e, após os cumprimentos, ele, entregando-lhe os sapatos, disse:
Trouxe três pares para que a senhora escolha o que mais gostar.
Ela pegou um a um e foi experimentando, andou de um lado para outro.
Em seguida, com um par nos pés e outro nas mãos, sorrindo, disse:
— Quero os três!
Além de serem lindos, são confortáveis.
Até parece que estou descalça!
Nem me lembro de que tenho joanetes!
Qual é o preço de cada um?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:05 pm

Um pouco receoso, mas seguindo o conselho de Domingos, meu avô cobrou vinte vezes mais do material usado.
Matilde nem piscou.
Para ela, ele cobrou muito barato.
Sorrindo, disse:
— Só isso? Não seja modesto, senhor Giuseppe!
Seu trabalho tem muito valor, portanto, precisa cobrar o preço justo, pago muito mais pelos sapatos que tenho comprado até aqui e garanto que nenhum deles me causou tanto conforto.
Vou pagar o dobro do que pediu e quero que faça sapatos para toda a minha família.
Vi como fez para tirar as medidas dos meus pés, vou fazer o mesmo com todos aqui de casa.
Depois, a Justina leva para o senhor.
Percebi que posso confiar no seu bom gosto.
Quando estiverem prontos, traga e eu pagarei o preço que quiser.
Depois, falarei do senhor com as minhas amigas.
Garanto que vai ter tanta encomenda que vai precisar de ajudantes!
Naquele momento, nasceu a nossa empresa.
Meu avô fez os sapatos que ela encomendou.
Conforme o prometido, ela o indicou para suas amigas e, em pouco tempo, ele se tornou conhecido.
Como Domingos havia dito, precisou alugar uma loja para poder trabalhar.
Continuou consertando os sapatos dos trabalhadores da estação e, claro, precisou contratar ajudantes.
Abriu uma empresa e colocou Domingos como seu sócio.
Quis ensinar o trabalho para ele, que recusou.
Rindo, ele disse:
— Não sirvo para ficar preso durante o dia todo.
Você continua fazendo o seu trabalho com maestria como faz e eu vou continuar fazendo o que gosto, conversar com as pessoas e conseguir mais clientes.
Olavo, rindo, continuou:
— A empresa cresceu, meu pai nasceu e, mais tarde, se casou com a filha do Domingos.
Eu sou neto de Giuseppe.
Carlos, que está aqui, sempre ao meu lado é meu primo, amigo e mais que irmão.
Ele é neto de Domingos.
Eu cuido da parte financeira e ele, da comercial.
Faz exactamente a mesma coisa que o avô, conversa e consegue bons clientes e bons vendedores como vocês.
Como podem ver, ficou tudo em família.
Acredito que todos entenderam o porquê de eu contar essa história.
Meu avô, um imigrante, sem dinheiro algum a não ser sua vontade de trabalhar, encontrou Domingos, um mulato, também sem muita esperança e, juntos, construíram a potência que é a nossa empresa.
A empresa foi iniciada em mil novecentos e dois.
Portanto, neste ano, vai comemorar setenta anos de existência.
Vamos fazer uma bela festa!
Todos vocês estão iniciando o trabalho na nossa empresa e, através da história deles dois, entenderam que, trabalhando com afinco e dignidade, poderão crescer juntamente com todos nós.
Agora, estão liberados.
Espero que voltem na segunda-feira com muita vontade de trabalhar, pois trabalho não falta.
A plateia aplaudiu entusiasmada.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:05 pm

Olavo agradeceu e, ao lado de Carlos, voltou para sua sala.
Carlos estava entusiasmado:
— Você viu como eles aplaudiram, Olavo!
Rindo, Olavo respondeu:
— Não fique tão entusiasmado, Carlos.
Eles estavam aplaudindo o patrão!
Garanto que, se fosse outra pessoa, eles não dariam atenção.
— Você não tem jeito, mesmo.
Se seu avô e o meu pensassem como você, não teriam chegado aonde chegaram.
Olavo, ainda rindo, disse:
— Está bem. Acho que agradei, isso aconteceu porque a história é muito boa!
De repente, Olavo ficou com o olhar distante.
Carlos percebeu e, preocupado, perguntou:
— Em que está pensando, Olavo?
Olavo, parecendo voltar de um lugar distante, respondeu:
— Não sei, Carlos, mas, enquanto contava a história, fiquei curioso em saber o que aconteceu, na realidade, em nossa família.
Por que o caderno que minha mãe encontrou, quando minha avó morreu, causou tanto transtorno.
Você sabe de alguma coisa?
— Tanto quanto você.
Éramos crianças.
Acho que eu tinha oito anos, portanto, você devia ter sete.
Olavo concordou com a cabeça e perguntou:
— Você tem alguma coisa para fazer hoje?
— Não. Sabe que depois que terminei o namoro com a Celina, nunca mais encontrei outra pessoa que me fizesse ficar ao seu lado.
— Você ainda gosta dela, não é?
— Gosto, mas isso não é o suficiente para ficarmos juntos.
Ela é orgulhosa, teimosa e muito ciumenta.
As brigas foram tantas, que não suportei e para não fazer com ela o que você faz com Helena, achei melhor nós nos separarmos.
Sou da paz, não gosto de violência.
Além disso, não sei o que acontece comigo, mas não consigo gostar, realmente, de ninguém.
Só gostei de uma mulher.
Ela é a coisa mais linda deste mundo, mas não deu certo.
— Não deu certo, por quê, Carlos?
— Ela era casada...
— Você nunca comentou isso comigo.
Eu a conheço?
— Não, Olavo.
Eu a conheci na França no tempo em que estudei lá e que você não quis ir.
— Naquele tempo, eu tinha outros interesses.
Gostava da farra, de namorar todas as meninas.
— Depois, voltei para o Brasil, namorei algumas meninas.
Celina foi com quem eu fiquei mais tempo, mas não dava mais e resolvi me separar.
Ouvi dizer que a moça de quem gostei está de volta ao Brasil, acompanhada pelo marido.
Quem sabe, um dia, poderemos nos reencontrar em uma situação diferente.
Até lá, vou ficar sozinho, pensando nela todos os dias.
Olavo não estava interessado naquela história.
Seu interesse era outro.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:06 pm

Olhando para Carlos, perguntou:
— Você não tem curiosidade em saber o que aconteceu com a nossa família?
— Nunca tive, mas, agora, depois do que disse, estou curioso.
— Estive pensando em ir até a casa de minha mãe e pedir que ela me fale do que aconteceu e que me mostre o caderno.
— Está dizendo que quer ir até Porto Alegre, Olavo?
Olavo começou a rir:
— O que tem demais?
Ainda não são quatro horas, vamos correndo para o aeroporto, pegamos um avião e, quando chegarmos a Porto Alegre, alugamos um carro e chegaremos à casa da minha mãe na hora do jantar.
— Não pode apenas telefonar e pedir que sua mãe conte o que aconteceu?
— Não sei o que aconteceu, mas, desde que falei sobre minha avó e você me lembrou dos podres da família, fiquei curioso.
Preciso ver e ler esse caderno!
— Não posso viajar assim, Olavo.
Não tenho roupas para trocar!
— Não precisa se preocupar com isso.
Voltaremos no domingo e tenho na minha maleta roupas que separei para o fim de semana.
Temos o mesmo corpo, elas vão ficar bem em você.
— Precisa telefonar e perguntar se eles estão em casa e se não pretendem viajar.
Sabe que, depois que seu pai e o meu nos passaram a direcção da empresa, vivem só viajando, como eles dizem, curtindo a vida.
— Tem razão, Carlos.
Vou telefonar e, se eles não tiverem planos para este fim de semana, iremos.
Está bem?
Sem alternativa, Carlos concordou com a cabeça.
Olavo telefonou e sua mãe atendeu:
— Olavo! Que surpresa é essa?
Quase nunca nos telefona!
— Não reclame, mamãe, sabe que telefono ao menos uma vez por semana.
Só não converso mais com a senhora porque estão sempre viajando!
Rindo, ela disse:
— Tem razão, meu filho.
Eu e seu pai adoramos viajar.
É só o que resta para os velhos fazerem.
— Velhos, coisa nenhuma, vocês estão na flor da idade.
Precisam e devem aproveitar.
— Enquanto tivermos saúde, é isso mesmo que vamos fazer.
Bem, cumprimentos à parte, qual é o motivo do seu telefonema a esta hora?
Olavo olhou para Carlos que acompanhava a conversa e, rindo, disse:
— Não sabia que precisava cumprir um horário para conversar com meus pais!
— Sabe que fico feliz sempre que telefona.
Quando você vem aqui em casa?
Estou com saudade da Helena e de Narinha.
Como elas estão?
— Estão bem, mamãe.
Uma hora qualquer, vou com elas até aí.
Estou telefonando para dizer que eu e o Carlos estamos indo até aí.
— Quando?
— Hoje. Estamos saindo, agora, para o aeroporto.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:06 pm

— Já que vem, traga Helena e Narinha.
— Hoje não, mamãe.
Estamos indo para conversarmos sobre um assunto de família e não quero que Helena tome conhecimento do que vamos conversar.
— Assunto de família?
Está me deixando assustada.
A empresa está com algum problema?
— Não, mãe! A empresa está muito bem.
Não precisa ficar assustada.
— Que assunto é esse, Olavo?
— A senhora se lembra daquele caderno que a vovó escreveu e que a senhora só descobriu quando ela morreu?
— Não queria me lembrar, mas lembro, sim.
Por que está falando sobre isso?
— Preciso muito ler aquele caderno, mãe.
A senhora ainda o tem?
— Está guardado, mas por que quer, agora, ler o caderno?
Faz mais de trinta anos que sua avó morreu.
— Quando eu chegar aí, conto para a senhora o motivo.
Agora, preciso desligar para ir ao aeroporto.
Logo mais chegaremos aí.
— Está bem, meu filho.
Quer que seu pai vá buscá-los no aeroporto?
— Não precisa, mamãe.
Assim que chegarmos, alugaremos um carro.
— Sendo assim, vou preparar um jantar delicioso.
Do jeitinho que você e Carlos gostam.
Até logo, meu filho.
Olavo desligou o telefone, olhou para Carlos e disse:
— Pronto, está tudo certo.
Vamos agora mesmo.
Deixamos os nossos carros aqui e vamos para o aeroporto.
Sem alternativa, Carlos concordou.
Cada um pegou seu paletó e saiu.
Chamaram um táxi e foram para o aeroporto.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:06 pm

O preço da liberdade
Eunice saiu da casa de Helena.
Precisava andar quase cinco minutos para chegar ao ponto de ônibus.
Estava acostumada, pois, todos os dias, fazia o mesmo trajecto.
Enquanto caminhava, pensava:
Quem vê ou conhece a casa de dona Helena jamais poderia imaginar o que acontece nela.
Como uma mulher igual a ela pode suportar tudo o que aquele homem faz?
Além de ser surrada, precisa suportar a ideia de saber que ele vai passar o fim de semana com outra.
Por mais que eu queira, não consigo entender.
O melhor que tenho a fazer é cuidar da minha vida.
Deus deu uma vida para cada pessoa para que cuidasse dela, só dela...
Começou a rir e continuou caminhando.
Chegou ao ponto de ônibus.
Aquele era o primeiro e ficaria nele por quinze ou vinte minutos.
Depois, tomaria outro que levaria quase uma hora para chegar ao bairro onde morava.
Naquele horário, sabia que não encontraria um banco para sentar, pelo menos não no começo da viagem.
Conseguiu um pequeno espaço no metal que ficava nas costas de um dos bancos e segurou firme.
Após um tempo, desceu, pegou o segundo ônibus e continuou seu caminho.
Parou em vários pontos, onde as pessoas começaram a descer e ela pôde se sentar.
Depois de meia hora mais ou menos, finalmente, o ônibus chegou ao bairro onde morava.
O bairro ficava distante do centro.
Alguém contou que ele havia sido uma chácara que pertencera a um senhor português.
Ele plantava e vendia verduras e legumes.
Eunice não o conheceu, mas ouviu dizer que ele criou, ali, oito filhos.
Assim que ele morreu, os herdeiros resolveram dividir a chácara em vários lotes e venderam.
Por ser afastado de tudo e sem estrutura alguma, os lotes não puderam ser vendidos por um preço muito alto, o que propiciou que pessoas pobres pudessem comprar e pagar em prestações.
Eunice foi uma delas.
Comprou um terreno e construiu um quarto, cozinha e um banheiro.
Aquele tipo de casa, naquele lugar, era comum.
Todos que ali construíram suas casas também não tinham recursos.
Algumas famílias, com muitas pessoas que trabalhavam, conseguiram construir vários quartos no mesmo terreno e ali moravam todos os irmãos casados, com seus filhos.
Eunice, por se levantar muito cedo e voltar muito tarde, não conhecia muito bem os vizinhos.
Sabia que a maioria era formada por trabalhadores braçais e que as mulheres trabalhavam em fábricas ou eram, como ela, domésticas.
A minoria ficava em casa cuidando dos filhos.
Ela desceu do segundo ônibus e começou a caminhar novamente.
Teria de percorrer quase dez minutos para chegar à sua casa.
Continuou caminhando.
Encontrou várias pessoas com as quais, embora não tivesse uma amizade muito profunda, sabia que eram suas vizinhas.
Finalmente, chegou à sua casa.
Entrou e encontrou sua mãe, que estava muito nervosa.
Antes mesmo de Eunice dizer qualquer coisa, a mãe falou:
— A gente precisa mudar daqui, Eunice!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:09 pm

— Por quê, mãe?
O que aconteceu?
— O Roberto chegou bêbado e bateu muito na Cacilda e nas crianças!
Ela ficou toda machucada e as crianças também!
— Outra vez, mãe?
— Outra vez, Eunice!
Eu não suporto mais tanta violência!
Sempre que alguma vizinha é surrada, eu me lembro de tudo o que passamos e fico neste estado.
Não dá para aguentar...
Eunice se aproximou, abraçou a mãe e disse:
— Acalme-se, mãe. Tudo vai ficar bem.
A senhora já deveria ter se acostumado.
Quando mudamos para cá, a Cacilda já morava aqui e já era surrada pelo marido.
— Eu sei disso, mas não consigo me acostumar.
A gente precisa ir para um lugar melhor.
Este lugar é muito pobre!
As pessoas que moram aqui não têm instrução e alguns homens vivem sempre bêbados!
Neste lugar, muitas mulheres apanham, Eunice!
Não suporto mais.
— Mãe, não pode se preocupar com isso.
Eunice sorriu.
Sentou-se em uma cadeira junto a uma mesa que ficava ao lado de sua cama e falou:
— A senhora sabe que não somente as mulheres pobres são surradas e maltratadas.
A senhora acha que, se mudarmos daqui e formos morar em um bairro melhor, não vai assistir a essas mesmas cenas?
— Claro que não vou ver essas cenas, Eunice.
Em um bairro melhor, as pessoas são instruídas.
Os homens sabem respeitar suas mulheres.
— Como pode dizer isso, mãe?
Logo a senhora?
— É verdade, minha filha.
Eu seria a última pessoa que poderia criticar, mas este lugar é muito ruim.
Não é só a Cacilda que é surrada, muitas outras mulheres também apanham!
É um horror!
A gente precisa mudar daqui!
— A senhora pensa que só mulher pobre apanha?
— Claro que não!
Você não vê que quase todos os dias aparecem na televisão, no rádio e nos jornais, mulheres que são espancadas, algumas até são assassinadas e todas são pobres?
Eunice voltou a sorrir e disse:
— Só aparecem mulheres pobres, porque elas não têm como esconder.
Aqui no nosso bairro, a maioria das casas não tem nem muro nem cercas.
Todos vivem muito próximos, mas, na classe rica, as mansões são rodeadas por muros altos ou são construídas no meio de jardins ricamente construídos, como é a casa onde trabalho.
— Está dizendo que sua patroa também apanha?
— Eu achava que não, mas, depois de algum tempo que comecei a trabalhar na casa dela, descobri que estava enganada.
— A sua patroa apanha do marido?
— Eu nunca comentei com a senhora.
Sabe que não gosto de falar sobre o que acontece na casa dos meus patrões, mas hoje, depois do que a senhora disse, vou contar o que acontece lá.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:09 pm

Dona Helena é surrada quase todos os dias.
Hoje foi terrível.
— O quê?
— Isso que ouviu, mãe.
Vou contar o que aconteceu hoje...
Começou a contar como era a vida de Helena e terminou, falando:
— Como pode ver, o que a senhora pensou não é verdade.
Minha patroa é rica, muito rica e apanha igual ou mais que qualquer mulher daqui deste bairro pobre.
— Por que ela, tendo dinheiro, não abandona esse homem, esse monstro?
— Mãe, a senhora sabe que não é fácil.
Algumas mulheres sentem vergonha dos amigos e de parentes.
Outras, apesar de tudo, continuam gostando do homem que as surra e outras não têm como sair de casa por não terem como sustentar a si e aos filhos.
Algumas acreditam nos pedidos de perdão e acham que eles vão mudar, mas sabemos que isso não acontece.
Depois de bater a primeira vez, eles não param nunca mais.
Outras se sentem culpadas, como é o caso da dona Helena.
— É verdade, você tem razão, mas por que sua patroa se sente culpada?
O que foi que ela fez?
— Ela não disse, mas a senhora sabe como é, sempre tem uma desculpa para se continuar ao lado de um homem violento.
É melhor ficar com ele do que sozinha.
É importante ter um marido do lado, não importando se ele é decente ou um monstro.
A senhora sabe que mulher sozinha fica falada, por isso, por dar atenção ao que os outros falam, ela não quer viver sozinha, não quer que as pessoas digam que foi largada e tantas outras desculpas que inventam para se proteger.
A mãe de Eunice ficou calada.
— Eu sei de tudo isso e você tem razão.
É muito difícil se afastar de um homem violento, mas você conseguiu, não foi, minha filha?
Eunice respirou fundo:
— Consegui, mãe, mas isso só aconteceu depois de quase dez anos e a senhora sabe que o preço que paguei pela minha liberdade foi alto, muito alto...
— Tem razão, o preço foi alto, mas, hoje, está livre, minha filha.
— Sim, consegui minha liberdade.
Fugi com minhas duas filhas, comprei este terreno e o material de construção a prazo e paguei o pedreiro com o pouco de dinheiro que consegui, mas estamos vivendo no que é nosso, mãe!
Porém, para conseguir a minha liberdade, tive de tirar das minhas filhas uma vida de luxo.
Hoje, elas, que já tiveram tudo, vivem na pobreza como as outras crianças daqui.
Eu, que tinha várias empregadas, sou empregada.
— Não entendo como isso teve de acontecer, Eunice.
Você está sentindo falta de tudo o que tinha, mas as meninas estão sentindo muito mais.
Elas, que tiveram tudo, hoje não têm mais.
É difícil aceitar.
Não tem medo de que elas, mais tarde, possam culpar você pela pobreza em que viveram?
— Não sei o que elas vão fazer.
Só sei que eu precisei fazer aquilo e, como ele sempre disse, eu teria de deixar minhas filhas.
Se, quando elas crescerem, me julgarem, nada poderei fazer.
Quanto a elas estarem vivendo esta vida, segundo o que aprendi na doutrina que estou estudando, nada acontece sem uma razão.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:10 pm

Deve ter uma razão para que elas e eu estejamos passando por tudo isso.
Lágrimas começaram a correr pelo rosto de Eunice.
Sua mãe, abraçando-a, disse:
— Não chore, minha filha, pois, se não tivesse feito o que fez, hoje, estaria morta.
Não tinha como conviver com toda aquela violência.
Ele se aproveitava de todo o amor que você tinha pelas meninas, pensava que você nunca teria coragem de abandoná-las e batia sempre mais.
Lembra-se de que, na última vez, tentou estrangular você e só não conseguiu porque cheguei na hora?
Não, minha filha, você não tinha condições de viver ao lado daquele monstro!
— Sei disso, mãe.
Naquele dia, tive de decidir, de tomar uma atitude.
Não sei se fiz a coisa certa, mas era o que eu poderia fazer.
Com sua ajuda, peguei as meninas e fugi.
Consegui trazer um pouco de dinheiro e ficamos em uma pensão.
Graças a Deus, dois dias após estarmos aqui, comecei a trabalhar na casa de dona Helena.
Ela é uma pessoa muito boa, por isso fico triste com tudo o que acontece com ela.
Apesar de tudo, ele sempre foi um bom pai e, ao lado dele, elas continuariam tendo comida, boa cama para dormir, escola e tudo do que necessitassem, enquanto que, ao meu lado, estão tendo esta vida de pobreza.
Elas eram muito pequenas e não podiam decidir.
Tive de decidir por elas.
Já faz cinco anos.
Laurinha, hoje, está com oito anos e Lurdinha, com seis.
Sei que ele e a megera da mãe dele, que nunca aceitou o nosso casamento, estão me procurando para me tirarem as meninas.
Por isso precisamos continuar morando aqui, neste bairro bem longe, onde ele nunca pensaria em me procurar.
Espero que elas entendam e me perdoem.
Sofro todos os dias, com medo de que ele nos encontre, mas, hoje, quando vi o que o seu Olavo fez, novamente, com dona Helena, entendi que fiz o melhor para mim e para as meninas.
Elas ao menos, não crescerão vendo toda aquela violência.
Entende por que a gente não pode se mudar daqui, mãe?
O bairro é pobre e violento, mas foi tudo o que pude conseguir.
Sabe que tenho uma longa batalha pela frente.
Preciso economizar dinheiro, pois, se ele nos encontrar e tentar me tirar as meninas, tendo um bom dinheiro, vou poder contratar um advogado e lutar por elas, na justiça.
Lágrimas continuavam a correr pelo rosto de Eunice, que continuou falando:
— Por tudo o que passei, sei o que dona Helena sente.
Gostaria de poder ajudar, mas sei, também, que não adianta falar.
Por mais que se fale, a mulher que é surrada e maltratada, embora saiba que precisa tomar uma atitude, dificilmente consegue se decidir.
A mãe, vendo que Eunice chorava, levantou-se da cadeira em que estava sentada e abraçou a filha que, agora, chorava com muita dor.
— Não fique assim, minha filha.
Sei que sou a culpada de você ter ficado dessa maneira.
Depois que o tempo passou e eu me esqueci de tudo o que aconteceu, senti-me no direito de julgar Cacilda e trouxe de volta todo o sofrimento que você viveu.
Eunice, com as mãos, enxugou as lágrimas e disse, rindo:
— Sabe, mãe, não adianta sofrer.
O que eu tinha de fazer, fiz.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:10 pm

Talvez eu tenha de pagar um preço ainda maior, o desprezo das minhas filhas, mas seja tudo o que Deus quiser.
Aprendi que só Ele sabe de todas as coisas.
O pior já passei.
Hoje sou livre para decidir a minha vida.
Portanto, neste momento, decido agora que estou com fome. -— disse, rindo.
Chame as meninas, mãe, e vamos comer.
A mãe, também rindo e caminhando em direcção ao quintal, onde as meninas brincavam, disse:
— Eu preparei uma comida gostosa.
Enquanto vou chamar as meninas, coloque os pratos e as panelas na mesa.
Eunice levantou-se, pegou, no armário, os pratos e colocou-os sobre a mesa.
A mãe e as meninas chegaram e todas elas se sentaram.
Comeram, com vontade, a comida que a mãe havia preparado.
Eunice cheirou o prato e, rindo, disse:
— Pelo cheiro está muito boa esta comida, mãe!
— Está sim, mas isso não é novidade, minha comida sempre foi e é boa.
— Por ter aprendido a cozinhar com a senhora, posso hoje trabalhar como cozinheira na casa de dona Helena.
Ela e o monstro do marido adoram minha comida.
Com o prato na mão, voltou para a mesa, sentou-se e começou a comer.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:10 pm

Lendo o caderno
Olavo e Carlos chegaram a Porto Alegre.
Após alugarem um carro, seguiram para a casa de seus pais.
Em quarenta minutos, estavam diante da casa que ficava em uma rua do bairro mais nobre.
Como todas as outras da rua e da vizinhança, a casa não tinha muro nem portão.
Assim que chegou diante da casa, Olavo buzinou e entrou pelo corredor que o levaria até os fundos, onde estava a garagem.
Quando ouviu a buzina, Odila abriu a porta da cozinha e saiu para encontrá-los.
Saíram do carro e abraçaram-se.
Genaro, o pai de Olavo, também saiu pela porta e abraçou os dois.
Rindo, felizes, entraram na casa e foram directo para a sala de jantar, onde a mesa estava colocada, somente para os dois.
Pelo adiantado da hora, Odila e Genaro já haviam jantado.
Olavo e Carlos se deliciaram com a comida que Odila, com muito carinho, havia preparado.
Enquanto jantavam, Odila, curiosa, perguntou:
— Afinal, Olavo, por que esse interesse pelo caderno da minha mãe?
— Não sei, mamãe, apenas estou curioso.
Hoje, dei uma palestra para alguns vendedores e contei sobre o nascimento da nossa empresa.
Enquanto contava, percebi que sabia tudo sobre a empresa, mas nada sobre a vida de Giuseppe e Beatrice.
— Para saber isso, não precisa do caderno.
Posso contar.
Eu li o caderno.
— Eu sei que a senhora leu e sei, também, que nele deve ter algo terrível.
— Por que diz isso?
— Quando a vovó morreu, eu era criança, mas lembro-me de que a senhora ficou assustada e nervosa.
— Fiquei muito assustada, sim, mas tudo passou.
Nada como o tempo para colocar as coisas em seus devidos lugares.
— Por isso, preciso ler o caderno, mamãe.
Quero saber o que aconteceu.
Sei que a senhora pode contar, mas pode se esquecer de algum detalhe e preciso saber tudo!
— Está bem. Termine o jantar, vou até o meu quarto pegar o caderno.
Depois, vamos ler.
Olavo olhou para Carlos e, rindo, disse:
— Até que enfim vamos conhecer a verdadeira história da nossa família.
— Ainda bem, pois, se você não ler, vai ficar louco e me deixar louco também.
Odila voltou do quarto, trazendo o caderno nas mãos.
Olhou para Genaro e, suspirando, disse:
— Você vai acompanhar a leitura, Genaro?
— Não, Odila.
Sabe que esse assunto não me faz bem.
Meninos, se não se importarem, vou me deitar.
Olavo e Carlos se levantaram.
Olavo disse:
— Fique à vontade, papai.
Sinta-se em casa!
Genaro abraçou os dois e foi para seu quarto.
Eles terminaram o jantar e acompanharam Odila até a sala de visitas.
Sentaram-se em um sofá, um de cada lado dela.
Ela pegou o caderno e deu para Olavo que, apressado o abriu.
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Ave sem Ninho

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:10 pm

Após olhar para as primeiras páginas, olhou para a mãe e disse:
— Está escrito em italiano?
Odila começou a rir:
— Claro que está!
Sua avó era italiana, falava, lia e escrevia em italiano.
Ele, desapontado, olhou para Carlos e disse:
— Não adiantou termos vindo para cá.
Não sei ler em italiano, você também não.
Portanto, não saberemos o que está escrito no caderno.
Carlos, também desapontado, disse:
— Tem razão.
Talvez demore um pouco, mas podemos mandar traduzir.
— Que óptima ideia, Carlos!
É isso o que vamos fazer!
Na segunda feira, assim que chegar ao trabalho, vou pedir para a Mariela providenciar um tradutor.
Como você diz, vai demorar um pouco, mas saberemos o que está escrito neste caderno.
— Vocês podem parar de falar e me ouvir?
Eles olharam para ela, que, rindo, continuou:
— Não vão precisar mandar traduzir coisa alguma.
Esqueceram-se de que fui criada por sua avó, Olavo?
Ela me ensinou a falar e escrever em italiano.
Dizia que era muito importante a mulher saber ler.
Como não sabia muito bem o português, resolveu conversar comigo, com meu irmão e com seu pai em italiano.
Eles, felizes, a abraçaram:
— Mamãe, a senhora é a nossa salvadora!
— Pare com isso, Olavo!
Vamos logo ao que interessa.
— Vamos, sim, tia!
Odila olhou para Carlos e, rindo, disse:
— Eu devia ter ficado triste quando você disse que não tinha adiantado vir até aqui.
— Triste, mamãe, por quê?
— Você demonstrou que não estava com saudade, enquanto eu morro de saudade de você e da minha neta.
— Não é nada disso, dona Odila.
Falei aquilo por falar.
Mas a senhora sabe que também sinto saudade e que a senhora e o papai estão morando aqui, distante, por vontade própria.
Eu gostaria que morassem perto de mim.
— Está certo.
Dessa vez vou deixar passar.
Agora, vamos à leitura.
Eu diria que este caderno é como se fosse um diário.
Sua avó, todos os dias, escrevia alguma coisa.
— Nas primeiras páginas, ela escreve como era sua vida na Itália e sobre a decisão de seu pai em vir para o Brasil.
Conta como conheceu Giuseppe, quando se casaram e como vieram para São Paulo.
— Isso tudo nós sabemos, mamãe!
Quero saber o que aconteceu depois que Giuseppe e Domingos fundaram a empresa.
Está bem. Vamos procurar.
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Ave sem Ninho

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:11 pm

Odila foi passando as páginas, até que parou e, sorrindo, falou:
— É aqui! Está datado de quinze de janeiro de mil novecentos e um.
Ela escreveu:
Hoje, Giuseppe e Domingos, quando chegaram, estavam muito felizes.
Faz seis meses que Giuseppe fez os sapatos para aquela italiana e ela gostou.
De lá para cá tem tido tantas encomendas que não está dando conta.
Precisa contratar alguém para ajudá-lo.
Queria ensinar Domingos, mas ele se recusou e, rindo, disse que nunca poderia ficar preso em uma sala o dia inteiro, que gostava de falar com as pessoas.
Giuseppe concordou.
Hoje, pela manhã, saíram para procurar uma porta de comércio e voltaram felizes porque encontraram não uma, mas duas.
Em uma, Giuseppe vai trabalhar com os ajudantes de que, com certeza, vai precisar.
Na outra, vão colocar os sapatos em exposição.
Claro que não aqueles feitos para a sociedade, mas, sim, aqueles populares, para as pessoas de poucas posses.
Estou feliz, porque, agora, parece que nossa vida vai mudar.
Logo poderemos mudar daqui e eu poderei ter o meu filho, que é o que mais desejo.
Ontem, dona Justina foi surrada novamente.
Hoje pela manhã, quando saiu para o trabalho, estava com os olhos roxos.
Como ela pode aguentar isso?
Uma mulher não nasceu para ser surrada por homem algum, ainda mais um tão forte como é o marido dela.
Queria conversar com ela a respeito disso, mas ela se nega.
Nada posso fazer.
Ela é a única com quem converso aqui.
Os outros quartos são alugados por rapazes que moram sozinhos, assim como Domingos.
Quase não os vejo.
Giuseppe fica nervoso quando me vê escrevendo.
Ele não entende o porquê de eu fazer isso.
É difícil para ele entender que estou contando a nossa história.
Quero que meus filhos, netos e até bisnetos nos conheçam melhor.
Por hoje é só.
Odila parou de ler e, olhando para eles, disse:
— Nesse dia, ela só escreveu isso.
— Muda de página, mamãe!
Vamos saber o resto da história!
— Calma, Olavo! Estou mudando.
Virou a página e voltou a ler.
Ela escreveu esta página quase um mês depois.
Demorei para escrever porque nada aconteceu de especial.
Giuseppe está trabalhando muito.
Está ganhando, também, muito dinheiro.
Estou triste porque conversamos e eu disse:
— Giuseppe, já que está ganhando tanto dinheiro, podemos pensar em ter o nosso filho.
Você sabe o quanto desejo isso...
— Ainda não é a hora, mulher!
Se tivermos um filho, vamos ter que nos mudar daqui e isso eu não quero!
O aluguel, aqui, é muito barato.
— Sei disso, mas, agora, já pode pagar...
— Vamos conversar sobre isso em outra hora.
Hoje, estou cansado para falar sobre isso.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 03, 2017 8:11 pm

Não entendo o porquê de ele não querer um filho.
Estou muito sozinha e quase sem ter o que fazer.
Pedi para ele me deixar ir trabalhar ao seu lado.
Eu disse que poderia ficar no balcão vendendo os calçados, mas ele não quer.
Diz que mulher tem de ficar em casa, cuidando do marido.
Eu não concordo, mas não tenho o que fazer.
Ele é um bom marido.
Hoje à tarde, eu estava na cozinha, escrevendo, quando dona Justina chegou do trabalho e, como sempre, ela estava com o rosto inchado e os olhos roxos.
Ontem, o seu marido chegou bêbado e, como sempre o faz quando chega nesse estado, bateu nela.
Assim que ela passou pela cozinha, viu que eu estava ali, parou.
Ela com aquela maneira diferente de falar, mas com a qual eu já havia me acostumado e entendia.
Ela, por conviver com uma família italiana, entendia o que eu falava.
Diante da porta, disse:
— Boa-tarde, menina.
Como você está?
— Estou bem, e a senhora?
— Como Deus quer. Como Deus quer...
Eu estava sentada e ela em pé na porta.
Não suportava ver aquela mulher batalhadora sendo tratada daquela maneira.
Nervosa, falei:
— A senhora não pode estar bem, dona Justina!
Está toda machucada.
Dá para ver o rosto, mas não quero nem posso imaginar como está o seu corpo!
Ela deu um sorriso triste:
— Já estou acostumada.
Sempre fui escrava, sempre apanhei e sempre fui mandada.
Minha vida é assim mesmo...
— Por que a senhora continua com esse homem?
— Vou fazer o quê?
— Pode ir embora.
Não tem filhos!
— Embora para onde, menina?
Hoje, trabalho na casa de uma família que me trata muito bem.
Quando dá a minha hora, volto para minha casa.
Ganho dinheiro pelo meu trabalho, coisa que antes não acontecia.
Já estou velha, não posso esperar muito da vida.
— Quantos anos a senhora tem?
— Não sei muito bem.
Acho que vou fazer cinquenta e cinco ou cinquenta e seis no mês que vem.
Carlos interferiu:
— Com cinquenta e poucos anos, ela não era velha, tia!
— Para os tempos de hoje, não, mas naquele tempo as moças casavam e tinham os filhos muito cedo e, se isso não acontecesse até que tivessem vinte anos, já eram consideradas solteironas.
Com quarenta ou cinquenta anos, então, já eram velhas.
Só usavam roupa preta e viviam na igreja.
Eu ainda me lembro de ver várias delas assim.
— Pare de atrapalhar a leitura, Carlos!
Continue lendo, mamãe!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

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