Não olhe para trás / Elisa Masselli

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:14 pm

— Calma, Olavo!
Vou continuar.
— Depois que a senhora apresentou o Giuseppe para a sua patroa e ela mostrou os sapatos para as amigas, elas começaram a fazer encomendas, ele está ganhando muito dinheiro.
Logo, vamos nos mudar e a senhora, se quiser, poderá vir morar connosco.
Acha que vou deixar o meu velho sozinho?
Eu não acreditei no que ela estava falando e, nervosa, perguntei:
— Ele bate na senhora quase todos os dias.
Como pode estar preocupada com ele, como diz que não pode deixá-lo?
— Ele é meu marido e a gente já sofreu muito junto.
A vida dos negros é diferente da dos brancos.
Quando o nosso sinhó viu que eu já era mocinha, fez com que eu e o meu velho fôssemos morar juntos.
Ele queria que a gente tivesse muitos filhos para ter escravos sem ter de pagar para poder vender.
— Quantos filhos a senhora teve?
— Oito. Cinco meninos e três meninas.
Sempre que um nascia, o sinhó já queria que, mesmo eu estando no resguardo, a gente fizesse outro.
Meu velho nunca obedeceu a essa ordem, ele sempre respeitou a minha situação.
— Onde estão seus filhos?
— Não sei.
Quando o sinhó via que eles já estavam grandinhos, os levava embora, sem dizer para onde os estava levando.
Sempre que isso acontecia, eu e o meu velho quase morríamos.
— Que homem horrível, mamãe!
Ao ouvir Olavo dizer aquilo, Carlos, surpreendido, olhou para ele e perguntou:
— A que homem está se referindo, Olavo, ao senhor de escravos ou ao marido que batia nela?
Olavo, também surpreendido por aquela pergunta, após alguns segundos, respondeu:
— Aos dois, Carlos, pois ambos são uns covardes.
Odila, sem ter a menor ideia sobre o que eles estavam falando, disse:
— Ainda bem que pensa assim, meu filho, pois, para mim, ambos eram uns monstros.
Um por usar do seu poder para humilhar e ofender seus escravos sem se importar com seus sentimentos.
O outro por usar de sua força física para descontar na mulher todas as suas frustrações.
Ainda bem que as coisas estão mudando muito antes do que Beatrice previu.
As mulheres desta geração estão criando seus filhos e, principalmente, suas filhas no sentido de fazer com que cada um entenda que todos são seres humanos, portanto iguais, com todos os direitos e deveres.
A maioria das meninas de hoje está aprendendo que precisa ter uma profissão para que possa ter seu próprio dinheiro e se manter sem precisar depender de homem algum de ninguém.
Por esse motivo, todas são livres para escolherem o seu destino.
Da maneira como a coisa está indo, acredito que, quando chegar o novo milénio, tudo vai ser diferente.
As meninas de hoje, que serão mulheres de amanhã, terão seu emprego, seu dinheiro e aprenderão que não precisam ficar ao lado de um homem para serem respeitadas e felizes.
Quando esse dia chegar, os casais só ficarão juntos se realmente se gostarem.
— A senhora acha que isso vai acontecer, tia?
— Espero que sim.
Deve-se levar em conta que as pessoas, quando se casam, o fazem por se gostarem e por quererem ter uma vida juntos, seus filhos e construir um lar.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:15 pm

Quando, por motivo de ciúmes, poder ou traição, acontece a primeira discussão, está na hora de marido e mulher repensarem o que estão fazendo juntos, pois, depois da primeira, as brigas vão ficando cada vez mais violentas, até ocorrer a agressão física.
Quando isso acontece, dificilmente tem volta.
O melhor a fazer é marido e mulher se separarem e cada um tomar o seu rumo.
Principalmente se tiverem filhos.
Ninguém, neste mundo, tem o direito de fazer uma criança sofrer.
— Também penso assim, por isso me separei da Celina e acho que nunca vou me casar.
Só vou fazer isso, quando tiver certeza de que será para sempre.
— Parabéns, Carlos.
É assim que deve pensar.
Enquanto falava, Carlos olhava para Olavo que, calado, ouvia o que os dois diziam.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:15 pm

Mudança de vida
Odila virou a página do caderno e continuou lendo.
— Ela só voltou a escrever quase três meses depois.
Hoje, estou muito infeliz, pois, ontem à noite, aconteceu algo que me deixou assustada.
Como faço todos os dias, preparei o jantar e esperei por Giuseppe, mas, pela primeira vez, ele não chegou no horário de sempre.
O tempo foi passando e ele não chegava.
Fui ficando nervosa e apreensiva, pois suspeitava que algo muito grave havia acontecido.
Não tinha a quem recorrer.
Domingos estava no trabalho, eu mal conhecia os rapazes que moravam nos outros quartos e não quis acordar dona Justina e seu marido, pois sabia que, hoje, teriam de trabalhar.
A única solução foi ficar esperando até o amanhecer e, se Giuseppe não chegasse, pelo menos Domingos chegaria e poderia me ajudar.
Eram quase três horas da manhã quando Giuseppe chegou.
Assim que entrou no quarto, pulei da cama e, chorando desesperada, abracei-me a ele e perguntei:
— O que aconteceu, Giuseppe?
Estou desesperada sem saber o que fazer e a quem recorrer!
Ele me empurrou e, rindo de uma maneira estranha como eu nunca havia visto, respondeu:
— Nada aconteceu, mulher.
Eu estava com alguns amigos.
Furiosa, perguntei:
— Com amigos! Que amigos?
— Amigos que você não conhece.
— Só naquele momento, percebi que ele cheirava a bebida e a perfume.
Ainda mais furiosa, voltei a perguntar:
— Você estava com uma mulher?
Ele me empurrou e, rindo, respondeu:
— Você está maluca, mulher!
Estava com uns amigos, só isso.
— Não, Giuseppe, esse perfume não é de homem, é de mulher!
Como pode fazer isso comigo?
— Fazer o quê?
— Como o quê?
Fiquei aqui louca de preocupação, imaginando mil coisas ruins e você estava na farra com outra mulher?
Ele, nervoso e tentando terminar com aquela discussão, deu um soco em meu rosto.
O soco foi tão grande que caí na cama.
Furiosa, levantei-me e agarrei-me a ele.
Descontrolado, ele deu outro tapa, só que agora mais forte, que pegou o meu rosto, perto dos olhos.
Assustada e com dor, fiquei deitada.
Ele, nervoso, saiu do quarto.
Assim que ele saiu, fiquei ali, chorando, desesperada, sem saber o que fazer.
Eu não conhecia aquele homem que havia saído do quarto.
Ele sempre fora terno e gentil.
Nunca havia levantado a voz.
Foi a nossa primeira briga, depois de tanto tempo de casados.
Com dor, levantei-me, saí do quarto e fui até a cozinha.
Precisava tomar um chá para ver se conseguia me acalmar.
No fogão, ainda havia algumas brasas e uma chaleira com água que, todas as noites, eu deixava ali para que, quando fosse de manhã eu pudesse fazer o café.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:15 pm

Peguei um pouco de chá de cidreira, coloquei em uma caneca, joguei água por cima e fiquei esperando o chá se misturar com a água.
Enquanto esperava, lembrei-me das conversas que tivera com dona Justina.
Envergonhada e chorando, pensei:
Como é fácil julgar as pessoas.
Eu me senti no direito porque tinha um marido bom que me trava com carinho e respeito e, hoje, estou aqui, na mesma situação, sem saber o que fazer.
Eu, que tinha todas as soluções para ela, não tenho nenhuma para mim.
Poderia voltar para a fazenda.
Meus pais, com certeza, me receberiam de volta e os pais dele nunca perdoariam a ele, mas como fazer isso?
Na última carta que escrevi, contei como estávamos felizes e quanto dinheiro Giuseppe estava ganhando.
Meu Deus, como as coisas podem mudar tão de repente?
Fiquei ali, chorando e pensando em uma maneira de deixar aquele homem que eu havia amado até ali, mas não encontrava uma forma de fazê-lo.
Não tinha dinheiro algum em casa, pois tudo do que precisava, pegava com o senhor Pedro e Giuseppe pagava no fim do mês.
Depois de pensar muito, cheguei à conclusão de que não havia o que fazer, pelo menos naquele momento.
Percebi que o tempo havia passado e que dona Justina, o marido e os rapazes iam se levantar para irem ao trabalho.
Envergonhada, sem querer que me vissem daquela maneira, ainda chorando, voltei para o quarto e fiquei deitada.
Algum tempo depois, Giuseppe abriu a porta do quarto e entrou.
Fingi estar dormindo.
Não queria falar com ele, pois não tinha o que dizer.
Ele se deitou ao meu lado e, abraçando-me, disse, carinhoso.
Sei que não está dormindo, Beatrice.
Não sei o que fazer para que você me perdoe.
Não sei o que deu em mim.
Deve ter sido a bebida, mas prometo que isso nunca mais vai acontecer.
Encontrei alguns amigos, saímos para beber e conversar.
Como não estou acostumado a beber, alguns goles foram suficientes para que eu perdesse a razão e fui ficando, bebendo cada vez mais.
Depois, eles me levaram para uma casa de mulheres e fiquei lá por algum tempo, mas juro que nada aconteceu.
Quando percebi o que estava fazendo, vim para casa.
Preciso que me perdoe.
Prometo que isso nunca mais vai acontecer.
Estive pensando e, se você ainda quiser, podemos ter um filho, nos mudar daqui e ser felizes.
Aquilo era tudo o que eu queria ouvir.
Acreditei no que ele falava, voltei-me e nos abraçamos.
Pela primeira vez, nos amamos sem medo de uma gravidez e foi maravilhoso.
Duas horas depois, ele se levantou e foi trabalhar.
Disse que estava cansado, mas que tinha uma encomenda para entregar e não podia faltar.
Ele saiu e eu continuei deitada.
Sabia que meu rosto estava inchado.
Não queria que as pessoas me vissem daquela maneira, principalmente dona Justina.
Fiquei ali, até ouvir que ela e seu marido, haviam saído para o trabalho.
Depois, ouvi os rapazes saírem, conversando.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:16 pm

Não eram nem seis horas da manhã.
Sabia que Domingos só chegaria depois das oito.
Eu tinha tempo de tomar café e comer alguma coisa.
Depois de tudo o que acontecera e da minha felicidade em poder ser mãe, estava com fome.
Queria ficar forte para que meu corpo recebesse bem a minha criança.
Levantei-me e fui para a cozinha.
Giuseppe, antes de sair, havia deixado a chaleira sobre a chapa do fogão, por isso, estava quase fervendo.
Peguei a chaleira e coloquei sobre as brasas e, enquanto a água fervia, passei manteiga em um pedaço de pão e coloquei sobre a chapa para que esquentasse.
Em pouco tempo, a água estava fervendo.
Eu já havia colocado o pó no coador, peguei a chaleira e joguei a água sobre o pó.
Nesse instante, ouvi Domingos, dizendo:
— Bom-dia, dona Beatrice.
Que cheiro bom de café.
Pode me oferecer uma caneca?
Estremeci.
Não queria que ninguém visse o meu rosto e, agora, não poderia evitar.
Com a voz trémula, respondi.
— Bom-dia, senhor Domingos.
Chegou mais cedo, hoje?
— A senhora não vai acreditar, mas tive dor de dente a noite toda.
Não aguentei mais, pedi para um amigo continuar o meu trabalho e vim para casa.
Eu estava um pouco tonto e não aguentaria carregar as bagagens.
Vou me deitar e tentar dormir, mas acho que não vou conseguir.
As dez horas, vou ao dentista.
Ainda de costas para ele, peguei uma caneca que estava sobre a pia, enchi de café e, sem me voltar, dei a caneca para ele.
Sem perceber o que estava acontecendo, ele puxou o banquinho que estava embaixo da mesa, sentou-se e falou:
Vejo que está esquentando pão com manteiga.
Não querendo aproveitar, poderia me dar um pedaço?
Balancei a cabeça, dizendo que sim.
Peguei outro pedaço de pão, passei manteiga e coloquei sobre a chapa do fogão.
Quando o primeiro pedaço estava quente, ainda de costas, estiquei o braço e dei para ele.
Só aí foi que ele percebeu que alguma coisa estava errada.
Desconfiado, perguntou:
— O que está acontecendo, dona Beatrice, está incomodada por eu estar aqui na sua cozinha?
Por alguns instantes, fiquei sem saber o que responder.
Depois, disse:
— Não é isso.
Quantas vezes o senhor entrou na minha cozinha e tomou café?
— Muitas vezes.
Por isso, estou estranhando a sua atitude.
— Não ligue, senhor Domingos.
Hoje, não estou bem.
— Está bem.
Não precisa se preocupar comigo, não vou tomar café nem comer pão.
Meu dente está doendo muito.
Embora eu estivesse nervosa com aquela situação, não queria que ele entendesse mal a minha atitude.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:16 pm

Nervosa, disse:
— Não se ofenda, por favor.
Tome seu café e coma seu pão.
Sem que eu esperasse, ele se levantou e, segurando-me pelos ombros, virou-me e viu o meu rosto.
Nervoso, perguntou:
— O que aconteceu com seu rosto, dona Beatrice?
Envergonhada, abaixei a cabeça e respondi:
— Tropecei e bati a cabeça na cabeceira da cama.
Profundamente irritado e gaguejando de raiva, disse:
— Essa resposta é a mais antiga de todas!
Diga a verdade, Giuseppe bateu na senhora?
Vendo que não poderia esconder nem negar, com a cabeça disse que sim.
Ele ficou possesso:
— Vou matar aquele carcamano!
Como pode fazer uma coisa dessa com a senhora?
Chorando e com vergonha, respondi:
— Ele estava nervoso e tinha bebido um pouco, mas agora está tudo bem.
Hoje, antes de sair para o trabalho, pediu perdão e disse que isso nunca mais vai se repetir...
— A senhora acreditou?
— Por que não acreditaria?
Ele sempre foi um bom marido e nunca nem sequer falou alto comigo.
Foi um deslize, mas ele está arrependido e disse que podemos ter um filho.
Sabe que é o que mais desejo.
— Tomara que esteja certa, mas não acredito.
Depois que o homem bate a primeira vez, nunca mais deixa de bater.
Vejo muito isso acontecer lá na estação.
Muitas mulheres passam por lá fugindo de seus maridos violentos e algumas me contam sua história.
— Giuseppe é diferente, ele nunca mais vai fazer isso.
— Espero que esteja certa, mas, infelizmente, não posso acreditar nisso.
Agora, preciso tentar dormir um pouco.
Obrigado pelo café.
Dizendo isso, afastou-se e eu fiquei ali, envergonhada e querendo morrer.
Duas horas depois de ter ido se deitar, Domingos saiu do quarto.
Eu estava na cozinha preparando o almoço.
Ele me cumprimentou secamente e foi embora.
Ele não costumava fazer isso.
Era muito conversador e sempre tinha uma história para contar.
Fiquei sem saber se ele fizera aquilo por estar com dor de dente ou por raiva pelo que Giuseppe havia feito comigo.
A tarde, recolhi a roupa que havia lavado pela manhã e, esquentando o ferro sobre a chapa do fogão, passei toda ela e guardei.
Estava chegando a hora de dona Justina voltar.
Eu não queria que ela me visse daquela maneira.
Entrei no quarto e fiquei quieta.
Algum tempo depois, ouvi os passos dela, que eram inconfundíveis, aproximando-se da minha porta.
Engoli seco e fiquei desejando que ela passasse sem parar, mas isso não aconteceu.
Ela parou, bateu à porta e, vendo que eu não respondia, disse:
— Sei que está aí, menina.
Abre essa porta.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:16 pm

Eu continuei quieta, encolhida e chorando.
Ela insistiu:
— Abre a porta, menina!
Sei que está aí e sei o que aconteceu.
Você se esqueceu de que nossos quartos são grudados.
Do meu, pude ouvir o que seu marido fez.
Abre a porta, minha filha.
Precisa conversar com alguém e não existe, neste mundo, pessoa melhor do que eu para que possa fazer isso.
Percebendo que ela sabia o que havia acontecido, não tive alternativa.
Soltei os cabelos e joguei-os sobre o meu rosto, do lado em que estava todo roxo e abri a porta.
Ela, ao me ver, sorriu e abriu os braços.
Eu, ainda chorando, me abracei a ela que, passando as mãos sobre meus cabelos, disse:
— Não fica assim, menina.
Não adianta.
Com o tempo você vai se acostumar.
Todo homem é igual.
— Perdão, dona Justina...
— Por que está me pedindo perdão?
— Por achar que tinha um marido bom, senti-me no direito de julgar a senhora.
Agora que isso aconteceu, estou morrendo de vergonha.
Ela me afastou, olhou em meus olhos e, sorrindo, disse:
— Não precisa ter vergonha.
Eu sou velha e não posso abandonar o meu velho, pelo motivo que contei, mas você é jovem, tem pai, mãe e um lugar para onde voltar.
Faça isso, minha filha, volte para seus pais, para a sua família.
— Não, dona Justina!
Giuseppe fez isso por estar alterado pela bebida, mas prometeu que nunca mais vai se repetir e, o mais importante, disse que agora poderemos ter um filho e nos mudar para uma casa maior!
Isso é o que mais desejo!
— Não acredite nisso, minha filha.
Ele bateu pela primeira vez e não vai parar nunca mais.
Sempre vai encontrar um motivo.
Não tenha um filho com esse homem.
Você ainda tem tempo.
— Não posso voltar.
A senhora sabe o que significa uma mulher largada pelo marido?
Sabe o que todos vão dizer.
Vou ficar marcada para sempre...
Sei, sim, e sinto muito por isso, mas será que está certo?
Outro dia, você me disse uma porção de coisa que me fez pensar muito.
A mulher é, sim, um ser humano igual ao homem e precisa ser respeitada como tal.
Alguém tem de começar.
Quem sabe não é você esse alguém?
Você disse que as coisas precisavam mudar, não disse?
Mais envergonhada do que nunca, abaixei os olhos e respondi:
— Disse, dona Justina.
Sei o que fazer, mas não tenho coragem.
— Está bem, menina.
Quem sabe você, um dia, tenha essa coragem.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:16 pm

Ainda tem tempo.
Agora, preciso preparar o meu jantar, porque, senão, quando meu velho chegar e não estiver tudo pronto, quem vai apanhar sou eu.
Rindo, afastou-se e eu entrei no quarto.
Deitei-me e fiquei pensando.
Odila parou de ler.
Olhou para eles e disse:
— Nesse dia, ela parou de escrever.
Estão vendo o motivo de eu ter ficado chocada quando li este caderno, Olavo?
Nunca poderia imaginar que sua avó havia passado por isso.
— Não entendo.
Como não sabia, mamãe!
Sempre disse que sua mãe morreu quando ainda era pequena e que, praticamente, tinha sido criada por Beatrice!
— O que eu sabia era que, quando minha mãe morreu, eu tinha dois anos e o seu pai, Carlos, ia fazer três.
Portanto, fui criada por ela e nunca percebi.
Continuando a ler o caderno, entendi qual era o motivo.
— Ele nunca mais bateu nela?
— Você disse que queria ler o caderno porque queria saber os detalhes.
Se quiser, eu conto.
— Tem razão, mamãe.
Continue lendo.
— Vou continuar.
Só que estou com a boca seca.
Que tal tomarmos um chá?
Depois, voltaremos à leitura.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:17 pm

Ansiedade sem fim
Enquanto isso acontecia, Hortência, no apartamento que Olavo havia lhe dado, andava de um lado para outro.
Olhava, a todo instante, para o telefone e pensava:
Já são mais de dez horas!
Ele não vem mais!
Já telefonei mil vezes para a empresa e ninguém responde.
Deve estar tudo fechado.
O que será que aconteceu para ele mudar da maneira como mudou?
Hoje, foi ríspido, sarcástico e até cruel!
Estava tudo certo para passarmos um fim de semana maravilho!
Só nós dois!
De repente, do nada, sem me consultar, ele mudou os planos e me deixou, aqui, sozinha, sem maiores explicações.
Preciso saber o que aconteceu, senão vou ficar louca!
Será que ele fez as pazes com a mulher?
Não, não pode ser!
Ele não faria isso comigo!
Ele sempre diz que a odeia e sempre acreditei nisso!
Foi até o bar, pegou um copo e encheu de vinho.
Sentou-se em um sofá e, olhando para o telefone, começou a beber e a pensar:
Ele não pode ter feito as pazes com ela!
Ele a odeia!
Não sei o motivo, nunca me contou, mas sei que ele a odeia!
Não posso continuar nesta agonia!
Preciso saber o que aconteceu!
Olhou novamente para o telefone.
Pensou:
Já sei o que vou fazer!
Vou telefonar para a casa dele e tomara que ele atenda.
Pegou o telefone e começou a discar os números.
Quando chegou ao último, parou e colocou o telefone de volta no gancho.
Voltou a sentar, pegou o copo, tomou mais um gole e continuou pensando:
Não posso fazer isso, pois, se ela atender e desconfiar, ele vai ficar bravo, embora nunca tenha me proibido de telefonar para a casa dele.
Acho até que ela sabe de mim!
Outro dia, ele me contou que havia batido nela.
Não acreditei, pois, comigo tem sido sempre gentil e amoroso.
Acho que disse aquilo só para aparecer, mas, se for verdade, por que ela aguenta e não se separa dele ou morre?
Se isso acontecesse, ele ficaria comigo para sempre e seríamos felizes!
Levantou-se, foi até o vitrô da sala que dava para uma praça, olhou para o céu.
A lua estava na fase quarto crescente, brilhava muito e havia muitas estrelas.
Ela continuou pensando:
A noite está linda!
Perfeita para ser vivida com muito amor.
Tudo o que eu queria era estar ao lado dele.
Quando começamos, pensei que seria por pouco tempo, apenas uma aventura, mas não, estamos juntos há quase quatro anos.
Sempre acreditei que ele gostasse de mim e que, a qualquer momento, se separaria dela e nos casaríamos, mas, hoje, demonstrou que tudo pode mudar.
Meu Deus, o que será que aconteceu?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:17 pm

Não aguento mais essa incerteza!
Enquanto Hortência permanecia com toda aquela ansiedade, Helena, depois que pegou Narinha na escola, deu o jantar a ela e a colocou para dormir.
Estava sentada em uma cadeira na varanda, olhando para o mesmo céu que Hortência, pensando em tudo o que Eunice e sua mãe haviam dito.
As duas falaram coisas certas.
Não sei o que fazer.
Se fizer o que Eunice disse, pegar minha boneca e ir embora, tenho certeza de que dona Clélia me receberia como sempre fez, porém sei que Olavo não se conformaria e entraria na justiça para que eu perdesse a guarda de Narinha.
Usaria como argumento o facto de eu estar morando com a família do meu antigo noivo.
Talvez o juiz não aceite esse argumento, mas como posso ter certeza?
Como posso arriscar perder a minha filha, depois de tudo o que fiz para que ela nascesse?
Minha mãe tem razão em algumas coisas.
Apesar de tudo, Olavo é um bom pai e Narinha, se permanecer ao lado dele, terá uma vida que eu, sozinha, não posso proporcionar a ela.
Como me arrependo de não ter estudado, pois, se tivesse feito isso, estaria como Débora, com um bom emprego e viajando pelo mundo, mesmo que fosse a trabalho.
Na minha ignorância, achei que, se me casasse com um homem rico, seria feliz.
Hoje, estou aqui, casada com um homem muito rico, morando nesta mansão e me sentindo a mulher mais infeliz deste mundo.
Hortência, quase alucinada, pegou o telefone novamente e, desta vez, discou todos os números.
Helena pegou um livro.
Sentou-se em um sofá e ficou tentando ler.
Ao ouvir o telefone, pensou:
Será que é minha mãe que pensou melhor e resolveu me ajudar?
Atendeu.
Hortência ficou calada por alguns segundos.
Depois, perguntou:
— Boa-noite. O doutor Olavo está?
Helena estremeceu e, indignada, respondeu:
— Não, ele não está.
Pegou uma maleta e disse que ia passar o fim de semana viajando, pensei que fosse com você, mas, pelo visto, deve estar com outra.
Você acha que o tirou de mim?
Pelo que parece, outra o está tirando de você.
A vida é assim, sempre tem a volta.
Boa-noite!
Helena bateu o telefone com força.
Hortência ficou com o dela na mão, sem saber o que fazer ou pensar.
Tomou mais um gole, começou a chorar e a falar alto:
— Não pode ser!
Ele não ia fazer isso comigo!
Ela deve estar mentindo.
Ele deve estar no banheiro ou tomando banho.
Não deve ter ouvido o telefone!
Será que está com outra?
Será que esqueceu todo o nosso amor?
Sei que me amava, demonstrou isso de muitas maneiras.
Passamos várias noites e fins de semanas juntos.
Não pode ser! Não pode ser!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:17 pm

Deve ter acontecido algum acidente e ele deve estar sozinho, em algum hospital ou morto!
Meu Deus, preciso fazer alguma coisa, mas o quê?
Tomou outro gole de vinho e continuou pensando:
Já sei, vou telefonar para Celina.
Sei que ela se separou de Carlos, mas deve saber alguma coisa, pois, se Olavo arrumou outra, Carlos, que vive sempre grudado nele, deve saber e pode ter contado para Celina.
Hoje é sexta-feira, será que ela está em casa?
Não sei, mas não custa tentar.
Sem se preocupar com o horário, discou o número de Celina, que atendeu.
Eufórica, Hortência disse:
— Ainda bem que você está em casa!
Fiquei com medo de que você tivesse saído.
— Como pode ver, estou em casa, só na preguicinha, assistindo a um filme na televisão.
Sou eu quem está admirada de você me telefonar neste dia e a esta hora.
Não ia passar o fim de semana com Olavo?
— Eu ia, até comprei as passagens do avião e reservei o hotel, mas, hoje à tarde, ele disse que não poderia chegar na hora, pois tinha que fazer não sei o que na empresa e que me telefonaria mais tarde.
Só que, até agora, ele não chegou nem telefonou!
Fiquei e estou desesperada.
Tanto que telefonei para a casa dele e a mulher dele atendeu.
Celina, indignada, perguntou:
— O que você fez, Hortência, telefonou para a casa dele?
— O que queria que eu fizesse, Celina?
Eu estava e estou desesperada!
— Você é louca, Hortência!
Não tem um pingo de juízo!
O que a mulher dele fez, quando atendeu ao telefone?
Hortência contou o que Helena havia dito e terminou, dizendo:
— Ela é uma grossa e mal-educada!
Celina, ao ouvir aquilo, começou a rir e disse:
— Grossa, mal-educada?
O que queria que ela fizesse, Hortência?
Você é a amante do marido dela e teve a cara de pau de telefonar para sua casa!
Pense um pouco, o que você faria se estivesse no lugar dela?
— Eu jamais estaria no lugar, pois, se tivesse um marido como Olavo, que tem amante e não esconde, já o teria abandonado há muito tempo!
Ela, sim, é que é cara de pau, pois aguenta tudo isso e não se separa dele!
Será que, se fosse você, se separaria, realmente, Hortência?
Logo você que gosta tanto de dinheiro, deixaria um marido rico como Olavo?
Duvido muito!
— Pensando dessa maneira, talvez eu demorasse um pouco para me decidir, mas já estou com ele há quase quatro anos e ela sabe!
Estou esperando o dia em que ela não aguente mais, se separe dele ou morra!
— Pare com isso, Hortência!
Não ouviu o que ela disse?
Tudo tem volta.
Você fica desejando a morte dela e, no final, quem pode morrer é você.
— Vire essa boca para lá, Celina!
Estou batendo na madeira!
Não vou morrer, não tenho nem vinte e cinco anos!
Tenho muito para viver e ao lado de Olavo!
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:17 pm

Celina começou a rir novamente e perguntou:
— Afinal de contas, por que está me telefonando?
O que você quer realmente?
— A mulher dele disse que se ele não está com ela nem comigo, deve ser porque está com outra.
Você acredita que isso possa estar acontecendo?
— Como posso saber, Hortência?
Nunca tive muita intimidade com Olavo.
— Mas tinha muita com Carlos e ele sabe tudo o que se passa na vida de Olavo!
Você ficou com ele tanto tempo.
Se aconteceu alguma coisa, ele deve ter comentado.
— Não, ele nunca comentou a vida de Olavo comigo.
Só fiquei sabendo que você estava saindo com ele, quando você mesma me contou.
Carlos é muito discreto.
— Você acha que Olavo pode ter outra mulher?
— Não sei, mas, como a mulher dele disse, ele a trocou por você, pode bem estar trocando você por outra...
— Não, isso não pode acontecer!
Pare com isso, Celina!
Telefonei para você me acalmar, não para me deixar mais nervosa ainda!
— Desculpe, mas você perguntou e eu só posso dizer o que penso.
— Não! Ele não vai me trocar por outra, deve ter acontecido algum acidente.
Ele deve estar em algum hospital...
— Quem precisa parar é você, Hortência!
Nada aconteceu com ele, pois, se tivesse acontecido algum acidente, a mulher dele saberia e teria contado.
Sabe que notícia ruim chega rápido.
— Não sei, não, Celina.
Você mesma disse que ela tinha motivo para estar nervosa.
Acha que, só para me atormentar, ela teria coragem de não me contar o que aconteceu com ele?
Novamente, Celina começou a rir:
— Pare de viajar, Hortência!
Ele não veio e pronto.
A única coisa que pode fazer é tentar dormir e, amanhã, encontre uma maneira de conversar com ele.
— Está bem, vou tentar fazer isso.
Agora, mudando de assunto, você não me contou por que largou o Carlos.
— Vamos corrigir isso, Hortência.
Não fui eu quem o largou, ele me largou.
— Foi ele? Por quê?
O que você fez?
— Segundo ele, eu sou ciumenta, teimosa e possessiva.
Agora quem riu foi Hortência.
— Preciso concordar que ele tem um pouco de razão.
Não que você seja muito, mas que é um pouco de cada coisa, você é.
Celina, também rindo, disse:
— Você até que tem um pouco de razão, mas neste caso a culpa não foi totalmente minha.
Nunca me senti feliz e segura ao lado de Carlos.
— Por quê?
Ele não a tratava bem?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:17 pm

— Ao contrário, sempre foi muito atencioso e me tratava com carinho.
Só que, algumas vezes, ele ficava distante, parecendo pensar em outra pessoa ou em outra coisa.
Nessas horas, eu me atormentava, começávamos a brigar e ele me acusava de ciumenta.
— Não era ciúme?
— Até poderia ser, mas eu não conseguia me controlar.
As brigas foram se tornando cada vez mais frequentes, até que ele resolveu que seria melhor darmos um tempo.
Você sabe o que isso significa, não é?
— Claro que sei.
Quem não sabe? Você aceitou?
— Aceitei sem dizer coisa alguma, porque, lá no fundo, eu sabia que ele não gostava de mim, não da maneira como eu queria e acho que mereço.
— Somos amigas há tanto tempo, porém, tão diferentes, não é, Celina?
— É verdade, Hortência.
Quando você começou a sair com Olavo, eu disse a você que ficar com um homem casado quase nunca dá certo, mas você não me ouviu e, hoje, está nesse desespero todo.
— Por que está dizendo isso?
Não está achando que Olavo encontrou outra, está, Celina?
— Eu não disse isso, Hortência, mas sempre há uma possibilidade, pois, se ele fez uma vez, poderá fazer outra.
Acho melhor você ficar preparada.
— Está dizendo isso, porque foi abandonada, entregou-se a um amor e não conseguiu coisa alguma.
Comigo foi diferente.
Olavo me deu muitos presentes, até o apartamento onde moro.
Se ele me trocar por outra, não terei ficado ao lado dele de graça.
Celina ficou calada por algum tempo, até que disse:
— Se coisas são importantes para você, não tem do que reclamar.
Olavo cumpriu bem o seu papel.
Pagou pelo serviço prestado.
— Você está me ofendendo, Celina!
— Foi você quem disse que, se ele for embora, ao menos deu a você muitas coisas.
Só completei o seu pensamento.
Já conversamos muito.
Está na hora de dormirmos.
Não se desespere. Durma que amanhã, com certeza, será outro dia.
Boa-noite, Hortência.
— Tem razão, Celina.
Conversamos tanto que nem vi a hora passar.
Vou fazer o que você disse, me deitar e tentar dormir.
Amanhã, vou tentar descobrir o que aconteceu com Olavo.
Boa-noite.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:18 pm

Nova atitude
Após terminarem de tomar o chá, Odíla, Carlos e Olavo voltaram para a sala e sentaram-se.
Ela pegou o caderno, que estava aberto na página que estava lendo, e começou a falar:
— Sua avó escreveu no dia seguinte, Olavo.
— O que ela escreveu?
Ontem, diferente dos outros dias, Domingos saiu para o trabalho, antes de Giuseppe chegar.
Passou por mim, cumprimentou-me secamente e foi embora.
Preparei um jantar especial para Giuseppe, queria que ele ficasse feliz, e, assim, poderíamos tentar fazer o nosso filho.
Depois que o jantar ficou pronto, fui para o quarto e me preparei para esperá-lo.
Porém, a hora que ele costumava chegar passou e ele não chegou.
Comecei a ficar assustada e com muito medo de que se repetisse tudo aquilo que havia acontecido ontem à noite, embora não quisesse acreditar, pois ele havia prometido que nunca mais faria aquilo.
Apreensiva, deitei-me, fiquei esperando e olhando para o relógio.
Quanto mais o tempo passava, mais meu medo aumentava.
Era mais de meia-noite, quando ele chegou.
Assim que entrou no quarto, eu me levantei e, antes que eu perguntasse alguma coisa, ele me empurrou com tanta força que caí sobre a cama.
Gritando, perguntou:
— Precisava ter contado ao Domingos o que aconteceu ontem?
Precisava ter falado mal de seu marido?
Chorando e desesperada, respondi:
— Eu não ia contar, mas ele viu o meu rosto e deduziu...
— Deduziu?
Deduziu, também, que você só vai continuar ao meu lado por quer ter um filho?
Deduziu isso?
— Ele perguntou porque eu não abandonava você e eu disse que você havia me prometido que nunca mais ia se repetir o que havia ocorrido e que, agora, poderíamos ter um filho.
Foi só isso que aconteceu...
— Você quer ter um filho, não quer?
Sem conseguir parar de chorar e apavorada pela atitude dele, respondi:
— Sabe que sim, Giuseppe.
— Então, você vai ter!
Naquele momento, ele fez algo que nunca mais em minha vida vou esquecer.
Com muita raiva, rasgou minha roupa e me tomou com violência.
Sem ter o que fazer, apenas chorei e ele disse, gritando:
— Já que Domingos só soube porque viu o rosto, não vai saber nunca mais.
De agora em diante, só vou bater em suas costas, onde ninguém pode ver e seu rosto continuará perfeito, lindo como sempre foi!
Depois, virando-me de costas, tirou a cinta que estava presa a suas calças e bateu muitas vezes em minhas costas.
A dor que senti em minhas costas foi imensa, mas, pior que a dor, foi a humilhação que senti.
Depois, ele simplesmente virou-se para o lado e adormeceu.
Eu fiquei ali, chorando, sem conseguir me mexer de tanta dor.
Pela manhã, como aconteceu ontem, ele chorou e pediu perdão.
Embora não acreditasse mais nas suas promessas, com medo, fiquei calada.
Nesse momento, Carlos, olhando primeiro para Olavo e depois para Odila, disse:
— Tia, eu já ouvi uma história como essa.
Conheço um homem que bate nas costas da sua mulher, para que ninguém saiba que ele faz isso...
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 04, 2017 8:18 pm

— Que horror, Carlos!
Esse homem é um canalha!
Como, nos dias de hoje, isso ainda pode acontecer?
— Também não entendo, mas acontece.
Eu já disse a ele, mil vezes que, se não gosta mais da mulher, deve se separar, mas ele se recusa.
Disse que nunca vai deixá-la.
— Ele é um monstro!
Carlos olhou para Olavo que, sem perceber, se encolheu no sofá.
Odila, sem ter a menor ideia que Carlos estava falando de seu filho, falou:
— Como pode ver, Olavo, sua avó sofreu muito.
Por ele nunca bater no rosto dela, é que eu, mesmo morando quase toda minha vida com eles, não tinha a menor ideia de que isso acontecia.
Por isso fiquei tão abalada quando comecei a ler o caderno e, durante a leitura, fui me abalando cada vez mais.
Assim, tenho certeza de que vocês se abalarão.
Vou continuar a leitura.
Assim que ele saiu para trabalhar, mesmo com muita dor por todo o meu corpo, levantei-me, coloquei uma blusa larga sem o corpete e fui para a cozinha.
Sabia que, agora, não precisava mais esconder.
Dona Justina devia ter ouvido tudo o que aconteceu e, assim como os rapazes, já tinha saído para trabalho Domingos ia demorar a chegar.
Chorando e quase sem poder me mexer, peguei uma caneca, coloquei um pouco de leite e de café e me sentei no banquinho.
Comecei a tomar e a pensar:
Preciso ir embora daqui.
Como Domingos disse, ele não vai parar de me bater e, a cada dia, vai ficar pior.
Não sei qual é o motivo.
Nunca imaginei que fosse tão violento.
Como não tenho dinheiro, preciso juntar um pouco, o necessário para pagar uma passagem de trem.
Eu não queria, mas vejo que não há alternativa.
Estava assim, tomado o café com leite, quando ouvi:
— Bom-dia, dona Beatrice.
Como a senhora está?
— Bom-dia, senhor Domingos.
Estou bem, mas, hoje, o senhor chegou mais cedo?
— Acho que meu dente inflamou e não consegui trabalhar com tanta dor que sentia.
Quando voltei, era pouco mais da meia-noite.
Daqui a pouco, vou voltar ao dentista e ver o que está acontecendo.
Ao ouvir aquilo, estremeci, pois, assim como dona Justina, o quarto dele era ao lado do nosso, portanto, ele devia ter ouvido tudo o que havia acontecido.
Sem que eu conseguisse evitar, lágrimas começaram a cair dos meus olhos.
Ele se aproximou.
Com as mãos, levantou meu rosto e, com a voz trémula e olhando em meus olhos, disse:
— Preciso pedir perdão à senhora.
— Perdão por quê?
— Ontem, fiquei tão bravo com Giuseppe que, antes de ir ao dentista, passei pela loja e disse algumas verdades para ele.
Disse que a senhora não merecia o que ele estava fazendo e que não ia abandoná-lo porque ele havia prometido que não faria mais aquilo.
Ele, parecendo envergonhado, disse que, com certeza, não ia se repetir o ocorrido.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:43 pm

Fiquei tranquilo e fui ao dentista.
Quando cheguei, ouvi que ele gritava e que era por minha causa, por eu ter ido falar com ele.
Só naquele momento percebi o mal que, tentando ajudar, eu tinha feito para a senhora.
Depois, pude perceber tudo o que aconteceu.
Ouvi o barulho da cinta em suas costas e os seus gemidos.
Minha vontade foi de arrombar a porta e dar uma surra nele, mas o medo de piorar as coisas fez com que eu ficasse parado e sofrendo a cada cintada que a senhora recebia.
Precisa abandoná-lo, dona Beatrice.
Ele sentiu a força do poder que exerce sobre a senhora e não vai parar nunca mais.
— Já pensei muito nisso, senhor Domingos, mas não tenho dinheiro algum.
Embora esteja recebendo muito, Giuseppe não me dá nenhum tostão.
Sabe que tenho dinheiro, muito mais do que tinha quando nos conhecemos e de eu começar a trabalhar com ele.
Posso dar à senhora tudo o que desejar e precisar.
Precisa ir embora, antes que ele a mate!
Fiquei tentada a aceitar, mas disse:
— Obrigada, senhor Domingos, mas não posso aceitar o seu dinheiro.
Vou dar um jeito e encontrar uma maneira de conseguir o dinheiro com ele.
Ele, com carinho, beijou minha testa e disse:
— Está bem. Faça como quiser, mas, se precisar, a qualquer momento estou pronto a ajudá-la.
É só falar, sem constrangimento algum.
Agora preciso ir ao dentista, essa dor de dente está me matando.
Dizendo isso, afastou-se e eu fiquei olhando até que ele sumisse no fim do corredor.
Na realidade, o que eu sentia mesmo era medo de abandonar Giuseppe, voltar para casa e meus pais não acreditarem ou acharem que, como mulher, eu devia permanecer ao lado dele.
Se ao menos eu tivesse um trabalho para me manter, poderia cuidar da minha vida sozinha, mas, isso, hoje em dia é quase impossível.
A mulher depende e vai depender por muito tempo do homem, não só pelo dinheiro, mas e, especialmente, para ser aceita pela sociedade.
Um dia, tudo isso tem de mudar...
— Ela estava prevendo o futuro, tia?
— Prevendo, não, desejando.
Olavo, nervoso com tudo o que estava ouvindo, quase gritou:
— Pare de atrapalhar a leitura, Carlos!
Deixe mamãe continuar!
Carlos, com um sorriso triste, disse:
— Está bem, Olavo.
Sei que essa leitura está interessando muito a você.
Olavo entendeu o que Carlos estava querendo dizer, mas Odila não tinha a mínima ideia e, virando a página, disse:
— Vamos continuar a ler o que Beatrice escreveu.
Depois que Domingos saiu, terminei de tomar o café e, como todo o meu corpo doía, com muita dificuldade caminhei até o meu quarto e me deitei com as costas para cima.
Fiquei imóvel, chorando e pensando.
Na hora do almoço, comi qualquer coisa e voltei para a cama.
Só queria dormir e não acordar nunca mais.
Acordei com os passos de dona Justina.
Sabia que ela ia parar e ver como eu estava, pois, com certeza, ela havia ouvido o que acontecera, mas, para minha surpresa, ela não parou.
Respirei fundo e agradeci a Deus.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:43 pm

Não queria falar com ninguém, muito menos com ela.
Algum tempo depois, ouvi os passos dela novamente.
Percebi que se dirigiam para a minha porta.
Ela parou, bateu à porta e disse:
— Sei que você não quer conversar, mas precisa se tratar.
Abra essa porta.
Prometo que não vou dizer uma palavra.
Sabendo que não adiantaria me negar, pois ela não iria embora, levantei-me e abri a porta.
Ela estava com uma bacia com água nas mãos, um pedaço de pano e algumas ervas.
Sem esperar que eu a convidasse, entrou, dizendo:
— Precisa cuidar desses machucados, senão vão inflamar.
Tire a blusa.
Sem reacção alguma, tirei a blusa e voltei minhas costas para ela que, não demonstrando sentimento algum, disse:
— Deite aí, menina.
Logo não vai mais sentir dor, a não ser a da alma.
Deitei-me e comecei a chorar por tudo aquilo que estava acontecendo.
Calmamente e em silêncio, ela foi molhando o pano e colocando sobre minhas costas.
Deixava um pouco, tirava, molhava e colocava novamente.
Fez isso várias vezes.
Aos poucos, fui sentindo que a dor começou a desaparecer.
Feliz, eu disse:
— Dona Justina, não está doendo mais!
Que ervas são essas?
Ela, rindo de felicidade, disse:
— É uma mistura de muitas ervas.
Isso é remédio dos nossos caboclos e dos pretos velhos que já se foram, minha filha.
Sempre que um escravo era açoitado, outro escravo ia à mata, pegava essas ervas e passava no lugar machucado.
Não entendi o que ela disse e perguntei:
— Quem são esses caboclos e pretos velhos?
A senhora disse que já se foram?
O que quer dizer?
Eles estão mortos?
Ela, rindo, perguntou:
— Você gosta de algum santo?
— Gosto e rezo para muitos.
— Quais são esses santos?
— Em primeiro lugar, está Jesus, depois, Santa Barbara.
Quando eu era criança, tive um problema nas vistas.
Minha mãe fez uma promessa para ela e eu sarei.
Desde então, ela se tornou minha santa de devoção.
— Além disso, ela é sua mãe!
Você é filha de Iansã.
— Iansã? Quem é essa?
Minha mãe se chama Genoveva.
— Isso é coisa de religião dos escravos.
Quando os brancos roubaram e trouxeram os negros para cá, não sabiam que eles tinham seus deuses e, quando descobriram, proibiram que eles continuassem com sua religião, adorando seus deuses.
Diziam que era coisa de pagão.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:43 pm

Sem entender bem o que ela estava dizendo, perguntei:
— Que deuses?
— Lá na Africa, onde os negros moravam, não conheciam Jesus, mas acreditavam na natureza.
Acreditavam, também, que há um deus que cuida de cada pedaço da natureza.
E mais: cada um dos vivos tem um pai e uma mãe da natureza.
Por isso, eu disse que você era filha de Iansã, a deusa dos ventos e dos trovões e seu pai é Oxóssi que cuida das matas.
Os filhos desses santos são guerreiros, podem até perder uma luta, mas não desistem nunca.
Por isso, minha filha, você, agora, está vivendo um pedaço ruim da sua vida, mas tudo vai passar e Iansã, ou se preferir, Santa Bárbara, com seus ventos, vai afastar tudo de ruim para bem longe de você e Oxóssi, com seu arco e flecha, vai ficar na sua frente, impedindo que o inimigo ganhe a batalha.
Tenha fé nisso, menina.
Os negros, quando perceberam que os brancos não aceitavam a religião deles, para não serem castigados, começaram a fazer um altar e a colocar, sobre ele, imagens dos santos dos brancos.
Para cada um dos santos, deu o nome de seus deuses.
Assim, poderiam continuar homenageando seus santos, sem sofrerem castigo algum.
Foi assim que sua Santa Bárbara se transformou em Iansã.
Entendeu?
Eu não acreditei, nem entendi muito bem tudo aquilo, mas achei a história bonita.
Ela, talvez percebendo o que eu estava pensando, disse:
— Também sou filha de Iansã e vou contar um pouco da minha vida, pois não contei antes.
Você vai ver que, apesar de tudo, eu nunca desisti de ter esperança de encontrar um ou todos os meus filhos.
Depois que ela passou aquela água nas minhas costas, eu estava me sentindo muito bem.
Ela tirou o pano das minhas costas, pegou minha blusa e me ajudou a colocar.
Depois, perguntou:
— Quer ouvir o resto da minha história?
Apesar de tudo, eu estava bem.
Ela havia chegado há muito tempo e não havia tocado nem uma vez no nome de Giuseppe nem no que ele fizera naquela noite.
Com a cabeça, concordei.
Ela, sorrindo, começou a contar:
— Sempre que eu ficava esperando uma criança, com o coração partido, eu ia na mata, pegava uma porção de sementes coloridas e fazia um colar.
Quando a criança ficava grandinha e eu sabia que o meu senhor logo ia levá-la embora, eu colocava o colar no pescoço dela e falava:
Nunca tire esse colar do pescoço, pois, se algum dia você se perder da sua família, vai poder encontrar alguém que tenha um colar igual e vai saber que é seu irmão, sobrinho ou tio, até filho ou neto.
Para cada filho que tiver, precisa fazer um colar igual e falar o que estou falando.
Nem que seja daqui a cem anos, nossa família vai se reunir.
Dizendo isso, ela abriu a blusa, tirou um colar e me mostrou:
— Também tenho este, que é igual ao deles.
Quem sabe, um dia, eu encontro qualquer um dos meus filhos ou, quem sabe, um neto.
Quando a minha primeira filha tinha treze anos, o meu senhor a vendeu para um amigo seu.
Ela foi a primeira.
Eu e o meu velho choramos, imploramos, mas não adiantou.
O malvado levou a nossa filha e nunca mais tivemos notícia dela.
Depois, um a um foi levado e só Deus sabe onde eles estão.
Dois anos antes de os negros serem libertados, ele levou minha última menina.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:44 pm

Ela, quando nasceu, era tão bonita que eu a chamei de Lindinha.
Ela tinha só treze anos.
Era uma menina ainda, mas aquele malvado não se importou e a levou não sei para onde.
Quando os escravos foram libertados, eu e meu velho não pensamos duas vezes, saímos da fazenda e viemos para a cidade com a esperança de encontrar um deles.
Só quando chegamos aqui, conversando com um e outro, descobrimos que há muito tempo havia uma Lei chamada Lei do ventre livre.
Por causa dessa lei, nenhum negrinho que nascesse depois dela devia ser escravo.
— A senhora não sabia dessa lei?
Eu gostava de ouvir suas histórias e, conversando com ela, apesar de tudo, eu me sentia muito bem.
— Não, escravo não sabia ler e nunca participava das conversas dos brancos.
Só aí eu e o meu velho entendemos o porquê do nosso senhor aumentar a idade dos negrinhos que nasciam.
Fiquei indignada e triste ao ouvir aquela história.
Como um ser humano foi capaz de fazer tanta maldade.
Disse:
— Não consigo imaginar o quanto a senhora sofreu, dona Justina.
Mesmo assim, tem tanta força, tanta fé e esperança...
— Fé e esperança, a gente adquire, mas a força, está dentro de cada um.
Basta deixar que ela aflore.
Agora, preciso cuidar do jantar.
Até amanhã, minha filha.
Deus te abençoe.
Vou rezar aos meus orixás para que eles fiquem ao seu lado.
Agradeci e ela, pegando a bacia com o pano dentro, foi para seu quarto.
Ao ouvir o que Odila lia, Olavo olhou para Carlos e os dois, com os olhos arregalados, olharam para ela, que, rindo, disse:
— Sei o que estão pensando.
Eu e Genaro, quando lemos isso pela primeira vez, também arregalamos os olhos, assim como estão fazendo agora.
— Mamãe, a senhora está dizendo que somos parentes da dona Justina?
— Parece mentira, mas somos.
— Como pode ser?
— Você não disse que queria saber os detalhes, Olavo?
— Eu disse, mas nunca imaginei que a história da minha avó chegasse a esse ponto!
Que tivesse uma revelação desta!
— Ainda há muitas revelações que vocês, realmente, não imaginam.
— Tenha dó, tia!
Agora, a senhora precisa contar!
— Está quase chegando a explicação, Carlos.
Espere só mais um pouco.
Conhecendo Odila como conheciam, sabiam que ela estava se divertindo com a ansiedade deles e que não iria contar e continuaria lendo.
Foi o que fez:
— Vamos ver o que Beatrice escreveu.
Depois que dona Justina saiu do quarto, fiquei pensando em tudo o que ela falou e comecei a escrever.
Agora, preciso parar, pois, se Giuseppe chegar na hora de sempre, quero que encontre a comida pronta.
Odila parou de ler e, olhando para o relógio que estava na parede, disse:
— É quase meia-noite.
Não acham que está na hora irmos dormir?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:44 pm

Os dois gritaram, juntos:
— Não!
Olavo, desesperado, pediu:
— Por favor, mamãe, não pode parar agora!
Amanhã é sábado e poderemos dormir até mais tarde...
— Eu estava brincando, não teria coragem de deixar vocês nessa ansiedade.
Também, está quase terminando.
Odila virou a página, recomeçou a ler e disse:
— Ela só voltou a escrever quatro dias depois.
Está tudo bem.
Giuseppe voltou a ser como sempre foi, tem chegado todos os dias no horário de sempre e está me tratando com carinho.
Disse que está arrependido do que fez e que, pela primeira vez, quer um filho tanto quanto eu.
Disse que está ganhando muito dinheiro e que vai precisar alugar outra loja e contratar mais ajudantes.
Domingos está cuidando disso.
Estou preocupada com Domingos, pois, desde a última vez que conversamos e que ele se desculpou por ter falado com Giuseppe e causado outra briga, está distante.
Apenas me cumprimenta quando sai e quando chega.
Sinto falta das nossas conversas.
Dona Justina tem, todos os dias, cuidado das minhas costas com aquelas ervas maravilhosa.
Estou feliz e ansiosa esperando a hora de ser mãe.
Sinto que isso vai acontecer a qualquer momento.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:44 pm

Escolhas da vida
Odila parou de ler e, olhando para eles, disse:
— Foi só isso que escreveu nesse dia.
Só voltou a escrever três dias depois.
Hoje, pela manhã, aconteceu e sei que vou me arrepender pelo resto da minha vida, mas não tive como evitar.
Estava humilhada, com raiva e frustrada.
Ontem à noite, Giuseppe voltou a chegar tarde, cheirando a bebida e a perfume de mulher.
Outra vez, bateu no meu rosto, que voltou a ficar inchado e, com a cinta, voltou a me açoitar, fazendo com que minhas costas sangrassem outra vez.
Dessa vez, lembrando-me do que dona Justina havia dito que a força está dentro de cada um, apesar da dor, não chorei, aguentei calada, não soltei qualquer gemido.
Somente olhei para ele com muita raiva.
Quando ele viu que eu estava daquela maneira, parou de me bater e saiu do quarto.
Bati, com a mão na parede que dava para o quarto de dona Justina, e gritei:
— Minha força está chegando, dona Justina!
Eu ainda vou matar esse homem!
Mesmo sem poder ver o rosto dela, sabia que estava rindo.
Algum tempo depois, Giuseppe voltou e, calado, se deitou e não me tocou.
Pela manhã, quando acordei e depois que ele foi trabalhar, resolvi que aquilo nunca mais ia se repetir e que eu não tinha de sentir vergonha por aquilo que ele estava fazendo.
Ele era o errado, não eu.
Meu rosto e minhas costas estavam doendo, mas a raiva era tanta que quase não sentia.
Sabia que só precisava esperar até a tarde, quando dona Justina cuidaria de mim outra vez.
Depois de pensar isso, cansada, adormeci novamente.
Mais tarde, levantei-me, vesti minha roupa e, como todos os dias, coloquei um pedaço de pão para esquentar na chapa e a água para ferver.
Assim que fervesse, eu a passaria pelo coador e faria um óptimo café.
Após o pão esquentar e o café ficar pronto, sentei no banquinho e comecei a comer.
Estava assim, pensando, Domingos passou e disse:
— Bom-dia, dona Beatrice.
Antes que eu respondesse ao cumprimento, ele continuou andando.
Rapidamente, levantei-me e, da porta da cozinha, gritei:
— Giuseppe me bateu outra vez!
Ele se voltou e, indignado, respondeu:
— Novamente, dona Beatrice?
— Decidi que isso nunca mais vai se repetir.
Pensei bem e, se o senhor ainda está disposto a me emprestar o dinheiro que ofereceu, vou aceitar, só que não quero voltar para minha família.
Teria de dar muitas explicações e não sei se entenderiam.
Conhecendo meu pai como conheço, provavelmente, ele me traria de volta.
— O que pretende fazer?
— Estive pensando que, se o senhor puder me emprestar uma quantia que dê para eu alugar um quarto e viver até que eu consiga um emprego em algum lugar, nem que seja como mulher da vida, eu vou aceitar, mas esse homem nunca mais vai tocar em mim!
Ele deu alguns passos e, pegando minhas mãos, disse:
— Acalme-se, dona Beatrice.
Não precisa chegar a esse extremo.
Vamos encontrar uma solução.
Como eu disse desde o princípio, quando o homem bate pela primeira vez e tem aquela sensação de poder, não para nunca mais.
Por isso, vou ajudar a senhora.
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Ave sem Ninho

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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:44 pm

Todo meu dinheiro está no banco.
Assim que ele abrir, vou até lá, pego uma quantia para que a senhora possa viver por algum tempo.
Quanto ao quarto, não precisa se preocupar, eu vou me encarregar disso.
Só tem uma coisa.
Qual?
— Giuseppe nunca pode saber que eu ajudei a senhora.
Ele pode ser um mau marido, mas é um bom amigo e não quero perder sua amizade.
— Está certo, nunca vou contar.
Também tenho uma condição.
Qual?
— Vou aceitar o seu dinheiro e, não sei como, mas prometo que vou pagar até o último centavo.
Não quero que o senhor se ofenda, mas estou sozinha, carente e com muita raiva.
Estou precisando de carinho.
O senhor poderia me fazer esse carinho?
Preciso de um homem que me tome com amor e delicadeza.
O senhor faria isso?
Ele, assustado, deu um passo para trás e quase gritou:
— Não precisa fazer isso, dona Beatrice!
Vou emprestar todo o dinheiro de que precisar e não precisa me pagar, muito menos dessa maneira!
— Já disse que vou devolver todo o dinheiro que me emprestar, mas também preciso de carinho.
Já fui tão humilhada que perdi toda a vergonha e posso confessar.
Desde que o vi na estação, no dia em que chegamos, senti algo diferente dentro de mim, um carinho muito grande.
Parecia que já o conhecia há muito tempo.
Depois, conversando com o senhor e o conhecendo melhor, percebi que era o homem que eu queria para ficar comigo, por toda a minha vida.
Durante todo esse tempo, tenho reprimido esse sentimento, mas agora, depois da atitude de Giuseppe, não tenho mais o que reprimir.
Amo o senhor, senhor Domingos.
Ele ficou parado sem saber o que falar.
Eu abri meus braços, dei um passo para frente e o abracei e beijei com paixão.
Ele resistiu um pouco, mas também se entregou àquele beijo e, em poucos minutos, estávamos em seu quarto nos amando de uma maneira como eu nunca havia amado antes.
Quando tudo terminou, voltei para meu quarto e chorei sem parar, mas, por incrível que pareça, foi de felicidade.
Domingos ficou em seu quarto como fazia todos os dias.
Depois disso, comecei a escrever.
Carlos começou a rir:
— Que mulher danada, tia?
Ela teve coragem de fazer aquilo e de escrever?
— Teve, Carlos.
Imagine o que isso significava naquele tempo.
Mas, como ela disse, tinha sido tão humilhada que havia perdido toda a vergonha.
— Entendo isso, tia, mas acho que essa não é a solução para uma mulher que sofre esse tipo de humilhação nas mãos de um homem.
O melhor teria sido ela deixá-lo e ir cuidar da sua vida.
Ela era jovem, bonita e, com certeza, encontraria alguém que a respeitasse.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:44 pm

— Isso pode e deve ser feito nos dias de hoje, quando a mulher está caminhando para sua independência, mas não podemos nos esquecer de como era naquele tempo, de como a mulher era reprimida.
Carlos, para provocar Olavo, perguntou:
— Está calado, Olavo.
O que acha disso que ela fez?
Olavo, entendendo qual era a intenção dele, respondeu:
Estou chocado, pois, apesar de tudo o que o marido fez, ela não tinha o direito de tê-lo traído assim, ainda mais com seu melhor amigo!
Odila interferiu:
— Você não ficou chocado quando ele veio para casa cheirando a bebida e a perfume de mulher e a espancou?
— Ele devia ter suas razões, talvez estivesse desconfiado dela com Domingos.
Odila ficou possessa:
— Que razões, Olavo?
Não existe motivo ou razões para que um homem bata numa mulher e a humilhe da maneira como ele fez!
Carlos, depois de ter provocado aquela situação, falou:
— Continue lendo, tia.
Está ficando cada vez melhor.
Odila voltou os olhos para a página e disse:
— Nesse dia, ela escreveu só isso.
Olavo, visivelmente alterado, falou:
— Só isso? A senhora acha que foi só isso?
Não entendo como ela teve coragem de escrever isso, ainda mais dizendo que estava escrevendo esse caderno, para que fosse lido no futuro por seus descendentes?
— O que é isso, meu filho, por que está tão alterado?
— Não suporto traição de mulher!
— Mas homem pode trair, não é?
— Homem é homem!
— Meu Deus do céu!
Nunca imaginei que tivesse criado um homem assim, tão intransigente, machista e egoísta!
Homem é homem, mulher é mulher!
Por isso é que não são mais obrigados a ficar juntos.
No momento em que surge uma traição, chegou a hora de se separarem.
Não estou dizendo que aquilo que ela fez foi o certo, só estou dizendo que, diante das circunstâncias e da época, talvez tenha sido a única coisa que poderia ter acontecido.
Para se proteger, já que a mulher precisava ter ao seu lado um homem, ela procurou em outro aquilo que o marido não lhe dava mais.
— A senhora tem razão, ela fez para se proteger, para ter um homem que a sustentasse!
Até hoje isso acontece!
Todas as mulheres são assim!
Só ficam ao lado do homem que poderá lhes proporcionar uma boa vida!
Por mais que a senhora fale, eu odeio traição!
Odila olhou para Olavo e, com voz firme, perguntou:
— Você e Helena estão bem?
Olavo, naquele momento, tomou sentido de que havia se excedido.
Desviando o olhar, respondeu:
— Claro que sim, mamãe, por que está perguntando isso?
— Não sei, parece que você está muito preocupado com algo que aconteceu há tanto tempo.
— É impressão sua.
Só tenho meus princípios.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:45 pm

— Está bem, mais tarde voltaremos a conversar sobre isso.
Agora, vou continuar lendo.
Eu, ao mesmo tempo em que estava feliz pelo que havia acontecido também me sentia amargurada.
No meu íntimo, eu sabia que o que havia feito não era certo, mas foi uma reacção de momento, embora fosse verdadeira a atracção que sentia por Domingos e isso ficou mais marcante nos dias em que ele me evitou.
Senti sua falta. Como senti.
Algum tempo depois, Domingos saiu de seu quarto e bateu à porta do meu.
Com o coração acelerado, abri a porta.
Ele sorriu e disse:
— Estou indo ao banco pegar o dinheiro que precisa e vou conversar com algumas pessoas para ver se encontro um quarto para onde possa ir.
Olhei em seus olhos e, sorrindo, disse:
— Não, Domingos, não faça isso.
— Não estou entendendo!
Há menos de uma hora era tudo o que queria e agora não quer mais?
Por quê?
— Como eu disse, há menos de uma hora, eu estava magoada, triste e com raiva.
Agora, não estou mais.
Estou feliz pelo que aconteceu e não quero estragar tudo por causa de dinheiro.
Eu gosto de você, realmente, mas, se aceitar esse dinheiro, você nunca vai acreditar.
Se ainda fôssemos apenas amigos, eu aceitaria, mas sabe que nossa amizade deixou de existir e o que sentimos, agora, um pelo outro é outra coisa muito maior.
Ele olhou de um lado para outro e viu que não havia ninguém.
Abraçou-me com cuidado, pois sabia que minhas costas estavam machucadas, me beijou, e me arrastou para seu quarto e nos amamos outra vez, com mais paixão do que da primeira vez.
Quando terminamos, juramos que aquilo nunca mais ia acontecer, mas sabíamos que seria difícil manter aquele juramento.
Depois, ele foi dormir e eu voltei para meu quarto.
Eu não estou me conhecendo.
Giuseppe, com sua atitude, conseguiu me transformar nesta mulher que eu nunca imaginei que existisse.
Quando me casei, era pura e mal sabia da vida.
Só queria ter uma família e ser feliz, porém, agora, não sei o que será de mim, mas, no momento, estou feliz.
Odila parou de ler, olhou para eles e disse:
— Nesse dia, foi tudo o que ela escreveu.
Eles se olharam e Carlos disse:
— Apesar de tudo, ela era uma mulher maravilhosa, tia.
Gostava mesmo de Domingos.
Tinha razão, foi Giuseppe quem a empurrou para os braços dele.
— Também penso assim, Carlos.
Olavo, o que pensa a respeito de tudo isso?
— Não sei, mamãe, estou um pouco atordoado com tantas revelações...
Odila sorriu e virando a página do caderno, disse:
— Entendo, meu filho.
Para mim, também foi difícil entender, mas quem somos nós para julgar.
Como vamos saber o que ela sentiu naquele momento.
Não acho que tenha sido a melhor escolha, mas, na hora da desilusão, da dor e da vergonha, muitos de nós podemos fazer a escolha errada, não é?
Olavo olhou para Carlos e, calado, abaixou a cabeça.
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 05, 2017 7:45 pm

Um sonho realizado
Odila olhou para a página:
Ela só voltou a escrever um mês depois.
Não tenho escrito, pois nada mudou.
Giuseppe continuou me batendo, mas eu não soltei um gemido sequer, pois sei que dona Justino, com suas ervas, vai curar o meu corpo e que Domingos, com seu amor, vai curar minha alma.
Eu e Domingos temos nos visto todos os dias, mas não tivemos chance de nos amar novamente.
Assim que Giuseppe sai para o trabalho, fico ansiosa, esperando Domingos chegar.
Sei que não é certo, mas não consigo evitar.
Não contei a dona Justina o que está acontecendo, mas parece que ela sabe.
Outro dia, enquanto passava a água com as ervas nas minhas costas, disse:
— É difícil encontrar a felicidade, menina, mas quando se encontra, não há dinheiro que a pague nem coisa alguma que a impeça.
Sorri e com a cabeça concordei.
Faz dias que Giuseppe está dizendo que já tem dinheiro para comprar uma casa e nos mudaremos daqui, mas eu não quero.
Aqui, tenho Domingos e dona Justina e, apesar de tudo, sinto-me protegida.
Estou escrevendo porque hoje, assim que me levantei, fiquei enjoada, tonta e tive de voltar para a cama.
Depois de algum tempo, fiquei bem e parecia que nada havia acontecido.
Quando dona Justina chegou do trabalho, contei a ela o que havia acontecendo.
Rindo, ela disse:
— Conseguiu o que mais queria, minha filha, vai ter uma criança.
Comecei a rir e, sem acreditar, perguntei:
— Como a senhora sabe disso?
— Esqueceu que já tive oito filhos?
Sei como é.
— Como vou ter certeza?
— Marca o dia de hoje e, se daqui a um mês seu corpo não der notícia, é porque está, mesmo, esperando criança!
Piscando um dos olhos, ela continuou:
— Se isso acontecer, tomara que o pai fique contente.
Só naquele momento pensei que, se estivesse mesmo esperando uma criança, eu nunca saberia quem era o pai.
Mas, no mesmo instante me dei conta de que Domingos era negro, portanto, se o meu filho fosse dele, nasceria igual ao pai. Negro.
Estremeci, senti meu coração quase parar, pois, se isso acontecesse, Giuseppe nunca ia aceitar a mim nem à criança e, com certeza, nos largaria no mundo.
Nesse mesmo instante, pensei:
Só assim poderei ficar com Domingos para sempre, sem medo, sem culpa.
O mais importante é que estou feliz.
Finalmente, vou ter um filho e não me importo com quem seja o pai!
Odila virou outra página e disse:
— Ela parou de escrever e só voltou no dia seguinte.
Como tem feito na última semana, Giuseppe chegou cedo.
Contei o que dona Justina havia dito e terminei, dizendo:
— De hoje em diante, até termos certeza de que estou mesmo esperando uma criança, você não vai me bater mais, pois, se fizer isso e eu perder meu filho, você vai ser um assassino e aí, sim, vou embora para sempre.
Entendeu, Giuseppe?
Ele, parecendo assustado com minha atitude, respondeu:
— Entendi, entendi, mas você tem certeza?
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Re: Não olhe para trás / Elisa Masselli

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