Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:07 am

Escravos do ouro
Eurípedes Kühl

(Romance mediúnico)

Ditado pelo Espírito Van der Goehen

Sumário
Introdução à 1ª edição
Prolegómenos: a ambição

1. Triste África
2. Frente a frente com o ouro
3. Ouro na terra, ouro na alma
4. O brilho do ouro e da cor negra
5. Família
6. Surpresas...
7. Gratidão. Gratidão?...
8. A cor, o som e a voz do ouro
9. Cobiça: veneno da alma
10. África: instituto correccional?
11. Inexiste “acaso”
12. A tumba das almas brancas
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Ave sem Ninho

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:08 am

Introdução à 1ª edição

Este livro reproduz, com cores espirituais, uma fracção do episódio brasileiro do “ciclo do ouro” (século XVIII).
Os factos narrados se restringem ao início daquele episódio, o qual, ao final, transformaria o mundo; o autor se permitiu emoldurá-los sob a óptica espiritual e na forma de romance.
As atrocidades então cometidas contra os índios e os escravos, bem como eventuais retaliações, foram escoimadas da narrativa.
Fome e dizimação de gentios e aventureiros, também.
Tratando-se, pois, de uma fase da História mundial, e para que o carácter documental desta obra não arranhasse a verdade, nela estão anotados poucos dados reais.
Tais anotações obedecem à didáctica sugerida pelo autor espiritual.
Mas, para que a mensagem, esta de conteúdo moral, não fosse tida à conta de tribunal de consciências, os nomes dos personagens citados são fictícios, não guardando identidade com aqueles que eventualmente tenham desempenhado similares cargos e funções no Brasil-Colónia e além-mar, na Europa.
A verdade subterrânea do comportamento humano, presa à cobiça, em detrimento da moral, torna ideal o momento desta obra ser ofertada ao público em geral e não apenas aos espíritas:
seu conteúdo ultrapassa aspectos religiosos ou doutrinários, colocando em evidência como o homem vem sucumbindo à ambição.
Sobretudo, porém, evidencia como Deus, Infinita Misericórdia, desde sempre, alerta-o quanto a tal descaminho.
Sob inspiração divina, o Mestre Jesus bem que nos advertiu quanto à fatuidade dos tesouros materiais e de como, que ao ganhar a Terra, o homem perde o Céu.
O lançamento do livro é oportuno em duas vertentes:
1ª - Nosso país está completando 500 anos do seu descobrimento e esse marco histórico merece mesmo ser relembrado, como aqui, neste livro, visitando-o “por dentro do miolo” desses cinco séculos;
2ª - Será sempre proveitoso conhecer os desdobramentos espirituais — actos e factos de personagens e personalidades, aqui fictícios, mas na vida real cruzando connosco em todas as esquinas do Tempo.
Tanto quanto o conhecimento das lições da História pode impedir recidiva dos erros nela insculpidos, melhor será ser informado dos seus consequentes espirituais, para que, também e ao menos, jamais se repitam...
Esta, a finalidade desta obra.

Ribeirão Preto, SP - verão de 1998.
O médium.

PS: Esta obra foi psicografada no ano em que a Cidade de Ouro Preto/MG completava trezentos anos de sua fundação.
“Coincidência”?...
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Ave sem Ninho

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:08 am

Prolegómenos: a ambição
Leitor amigo:
O fio narrativo a seguir registra factos similares aos reais, ocorridos dois séculos após a descoberta deste abençoado país que é o Brasil.
O Tempo é o encarregado divino de reduzir mágoas e é assim que sob nossos céus ainda tardará a diluição total da sinistra nuvem da escravidão.
Há algum tempo isso já começou, com a vinda de outros irmãos africanos carentes que espontaneamente para aqui estão emigrando.
Ninguém sabe, mas talvez quem os acolhe sejam os escravizadores de então, em processo de redenção perante Deus.
Quase duzentos anos após os portugueses anunciarem aos cantos do mundo as suas descobertas d’além mar, na Europa não havia grandes interesses em se conhecer tão distantes quanto bárbaras regiões.
Apenas, pilhá-las de seus recursos naturais, abundantes...
Se a Espanha usufruía riquezas das suas conquistas, usurpadas aos incas, maias e astecas, cujas avançadas civilizações espantaram os conquistadores espanhóis, o mesmo não se poderia dizer da enorme Colónia lusitana, ultramarina...
Na Espanha, em particular, com excepção de alguns intrépidos aventureiros, que se abalançaram em cruzar o “mundo de água” que era o Atlântico, somente alguns nobres em decadência de poder cultivavam a ideia de ir à América, “a terra só de índios”.
Os países europeus se subdividiam em três correntes políticas:
a primeira, ao leste e ao sul, mais conservadora, mais rude e menos desenvolvida, primava por estreitar laços políticos, sociais e financeiros com as culturas asiáticas; a segunda facção, a dos europeus do centro:
por serem os mais desenvolvidos, eram também os mais ricos e assim, não lhes visitava a necessidade de mudanças; já a terceira zona, ao oeste europeu, esta havia desenvolvido técnicas de navegação, justamente para buscar alhures, as especiarias que faltavam a toda a Europa, além, naturalmente, de atender a si mesma.
Com isso, obtinha créditos financeiros e, mais importante, políticos.
Com efeito, os países centrais da Europa mantinham os irmãos da esquerda e da direita sob forte jugo, tutelando-os quanto às suas necessidades vitais, exigindo pagamento que nem sempre dispunham.
Exigiam e eram docilmente atendidos em suas preferências quanto a produtos oriundos das distantes Ásia e Índia, pela pequena, mas corajosa nação lusitana, que após voltear o imenso continente africano, as trazia e entregava-lhes a domicílio.
Isso, ao custo de centenas e centenas de vidas de intrépidos marujos, que buscando na aventureira travessia marítima a única chance de garantir a sobrevivência familiar, não raro encontravam a morte, nas turbulentas águas ao sul da África, única via para as fontes daqueles cobiçados produtos...
A Europa, no início do século XVIII, era assim um grande entreposto comercial, nada produzindo, mas tudo possuindo e consumindo.
Os países ricos ofertavam patrocínio financeiro aos experientes navegadores portugueses, e estes, com aval de el-Rei, escreveram as mais expressivas páginas da História, no capítulo dos desbravamentos.
Quanto ao poder, o mundo estava dividido em duas partes:
uma, dos asiáticos, onde mouros, sarracenos e povos da raça amarela (Japão e China, em particular), através de intenso intercâmbio comercial, mantinham-se em precário equilíbrio político, sempre alertas a ataques inesperados; a outra parte do mundo, então comandada pela Europa, tinha rédeas curtas manobradas por poucas potências.
Tratando-se da Europa, podemos dizer que o poder àquela época era um inquilino em constante mudança de sede, instalado num imaginário pêndulo, agitando-se não em um, mas em diversos planos, com velocidade irregular, em movimentos oscilantes e circulares.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:08 am

Inglaterra, Espanha, França — essas as episódicas sedes do poder europeu, cujos reis, acordados com o Papa, fingiam que a Itália, pátria que mais Papas deu ao mundo, também era poderosa...
Quanto aos demais países europeus, tratavam isso sim, de se garantir, obtendo o aval dos “grandes”, através teceduras de mil e uma tramas casamenteiras, mesclando sangue nobre entre si.
A longínqua quão gélida Escandinávia, tanto quanto a igualmente distante e inexpressiva Oceânia, simplesmente não contavam a quaisquer aventureiros, que as ignoravam por completo.
Os mares, esses, tinham donos intransigentes...
Portugal, na Europa Ocidental, o pequeno enclave no ponto oeste mais distante do continente, por muitos era até mal visto, aceito com reservas na comunidade europeia.
Havia quem o considerasse apenas um apêndice geográfico, sem expressão política e social.
As embarcações lusitanas destemidamente singravam os mares, indo ao outro lado do mundo buscar as especiarias que a nobreza europeia exigia para uso pessoal, doméstico ou à mesa.
Tais mercadorias: as especialidades da Índia, em tapeçarias, tecidos, perfumes e condimentos e as preciosidades da China, para uso diário ou para finíssimos adornos.
Da Colónia, lá no “novo mundo”, traziam o açúcar, a aguardente, o algodão, o café e o fumo.
Os portugueses, graças a esse contexto de úteis fornecedores às cortes europeias, a duras penas mantinham sua autonomia, conseguindo contrabalançar a distância política à qual eram mantidos.
Desde a descoberta da Colónia, dois séculos de marasmo...
Nenhuma preocupação com os nativos, no sentido de melhorar-lhes a vida:
ao contrário, a exigência de trabalho forçado, paralelo à ignomínia de trazer para aquelas inóspitas terras, sob regime trabalho escravo, milhares e milhares de africanos, abruptamente arrancados à família, ao meio ambiente e mais que tudo, à liberdade.
Grande mancha escura está sob o planeta Terra desde a desumana noite trevosa de três séculos da escravidão africana!
Pode-se com grande margem de acerto afirmar que grande parte dos desvarios sociais terrenos tem como elemento catalisador a irresponsável actividade esclavagista, que embora sempre existindo no planeta, na colonização das Américas atingiu seu triste apogeu.
Casamentos entre nobrezas, engenhosamente arquitectados pelos mais sagazes cérebros, mais se pareciam com um jogo de xadrez, onde o rei tinha que ser mantido inatingível, contando para isso com o sacrifício de todos os súbditos, desde os castelões, os religiosos, os cavaleiros — e se preciso, a própria rainha...
Não causava qualquer espanto a ascensão de um conde a barão, de um barão a duque, como também, de repente, a queda de não poucos nobres, passando a hóspedes compulsórios e perpétuos das masmorras.
Esse frágil equilíbrio, apoiado em suportes tão efémeros, volta e meia se via ameaçado, registando a História as centenas de escaramuças que transformaram a Idade Média num grande palco de intrigas e de guerras permanentes.
A realeza e a religião, forças que a tudo comandavam, não conseguiam também ficar indenes a repetidos confrontos.
Nas terras de Portugal a oeste da África, separadas pelas águas atlânticas, só existiam silvícolas e patrícios que lá se encontravam, ou por ambição, ou sob actividades determinadas por el-Rei, ou ainda sob punição.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:08 am

Às vezes, por estratégias alcoviteiras, afastando presenças inconvenientes em algum arranjo matrimonial...
Muitos cortesãos, cujas filhas ou filhos despertavam interesses e atractivos a irresponsáveis, mas poderosos nobres dos países ricos, eram “convidados” a estagiar lá nas terras do Brasil.
Compelidos a assumir o posto distante com urgência, às vezes em pleno mar transformavam-se em sogros, sem sequer o saber...
Religiosos, doentes ou dissidentes, eram também candidatos certos à catequese, que em nome da “Sagrada Cruz de Nosso Senhor de Malta”, deveriam ministrar aos silvícolas de terras tão incrédulas...
Estrangeiros, pouquíssimos.
Em todas as épocas e em todas as culturas, a ociosidade gera inércia e pensamentos fúteis, que acabam por se voltar contra a geratriz.
Isso porque a lei de acção e reacção, que no plano das actividades físicas é uma realidade cientificamente comprovada, no plano das realizações mentais tem aplicação num gradiente maior.
Isso, graças à Bondade de Deus, pois nem sempre a reacção é imediata, mas sim, processa-se ao longo do tempo, por vezes, em existências futuras.
A vida de fausto que os nobres europeus então desfrutavam, só tinha alguma graça quando algum acontecimento, qual leve brisa, soprava as cortinas do grande salão social que era a Europa Central.
Ali, convivas apáticos fingiam que eram felizes, facto que era incensado pelos que junto a eles orbitavam, os quais também fingiam que tudo ia muito bem.
Havia, como era de se esperar, uma oculta fábrica de boatos e de fatos tendentes à quebra de tão mesquinha rotina...
As intrigas, quase sempre sem fundamento, circulavam nos escaninhos certos do poder, de forma a produzir os resultados buscados.
Dessa forma, fortunas se formavam, se desfaziam, eram transferidas, eram confiscadas, ou simplesmente desapareciam, sem deixar vestígios.
A hipocrisia e a futilidade, assim, davam o tom nas cortes.
Essa quadra da humanidade — século XVIII — viria a ser abalada e de forma fantástica: dois acontecimentos, distanciados entre si, mas de efeito conjugado, iriam mudar a História.
O primeiro: ocorrência no Brasil, mas com avassaladoras consequências na Europa, da descoberta das jazidas de ouro e pedras preciosas, por cuja posse a imensa colónia foi desbravada fortemente por lusitanos e episodicamente também por holandeses e franceses.
O segundo, já a partir da Europa e lá mesmo:
o aporte no plano terreno de uma plêiade de Espíritos incumbidos de soprar a poeira que recobria o conhecimento humano — responsáveis pelas invenções que, conjugadas, passariam à posteridade com o nome de “Revolução Industrial”.
Tanto um quanto outro acontecimento, em aparência desligados, não objecta supor que talvez tenham sido meticulosamente arquitectados pelo Mestre Jesus, como sempre ofertando benesses à humanidade.
Pena que os homens, ao invés de serem gratos ao Cristo, elegeram para essas graças uma equivocada patrocinadora: a ambição.
*
Do primeiro vector: o ouro...
Poucos homens são indenes à voz, ao som e à cor do ouro.
A voz: mudo, o ouro é sempre o que fala mais alto e o que dá o último veredicto, em quaisquer situações financeiras, eis que seu representante — o dinheiro —, rende-lhe tributo permanente.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:09 am

Estocado e indevassável, intocável e imóvel, o ouro escraviza as nações que o possuem, as quais, servis, curvando-se às suas exigências de adoração, exigem (e recebem) servilidade das que não o possuem.
Assim, o ouro não fala, mas é mais ouvido e mais obedecido...
O som: sem fazer vibrar um único ciclo, uma única onda sonora, o ouro ecoa na alma dos homens, ora como os trovões em meio às tempestades, ora como o sussurro das confabulações espúrias.
Não vibra, mas repercute e reverbera em quase todas as mentes e até em muitos corações...
A cor: encanta os olhos e faz o pensamento viajar, dando asas traiçoeiras aos ambiciosos viajores, que deslizam nos céus da ambição, onde escaldantes sóis, não raro, repetem-lhes na alma o pesadelo de Ícaro.
O ouro é assim o elemento natural para o qual a Natureza reservou o amarelo, cor essa que muitas almas elegeram como sendo a da felicidade.
Tais almas, para seus voos em busca das mordomias e das quimeras do dinheiro, atiram-se do topo dos penhascos da Vida, munidos de asas feitas de cobiça e coladas com ambição...
Do segundo vector (reencarnação em série de Espíritos missionários), o empuxo evolutivo deixou marcas na História que ainda hoje não foram devidamente avaliadas.
De passagem, podemos registar que foi precisamente no século dezoito que a Humanidade, como uma consciência colectiva, foi abençoada pela Providência Divina com progresso (material) jamais sonhado.
Na esteira desse progresso, a ele indissoluvelmente ligado, veio também, num segundo passo, o progresso moral, quais clarinadas anunciando uma nova era.
O grito de “liberdade!”, sufocado por séculos em tantas almas amantes de suas pátrias, ecoou pelas pradarias, vales, montanhas e céus, multiplicando-se, ecoando no ar por dezenas de anos.
Como no planeta Terra, por enquanto, raramente se alcança a paz senão pela guerra, estas se acumularam, nos acumulados milénios.
Espíritos endividados perante si mesmos, com vastos passivos morais a serem resgatados, encontram nos rudes combates de sempre o ressarcimento que, inconscientes, buscam.
Inconscientes porque tal era-lhes — e ainda o é —, progresso reencarnatório: sucumbir fisicamente em defesa de um ideal, pela pátria.
Quase sempre em condições difíceis, para que em Espírito, libertos de tão pesados fardos, alcem voo, raso embora, mas rumo a trajectórias mais felizes — novas reencarnações —, em clima de maior equilíbrio existencial.
Ainda nesse sopro renovador mundial, Espíritos de refinadíssimas faculdades artísticas foram convidados a reencarnar junto a nós.
Os convites foram feitos por Mensageiros Siderais, sob a tutela do Mestre Jesus — Governador Moral da Terra.
Todos aceitaram!
Foi assim que o planeta experimentou expressivo avanço:
- com a já citada “Revolução Industrial” (embora sectorizada e até hoje ofertando dividendos apenas aos chamados “países ricos”), a serventia e utilidade das invenções são usufruídas quase no mundo todo;
- nas artes em geral, maravilhas aportaram no planeta, indicando o caminho para o belo:
elevação espiritual, sendo formado robusto alicerce para tempos futuros...
- espíritos heróicos e idealistas da fraternidade, gritaram com todas as forças: “liberdade!”; seus gritos indómitos, que resultaram mesmo na independência de várias nações, ainda hoje ecoam em nossos corações; no Brasil, por exemplo, estão a dizer: “Tiradentes, teu sacrifício não foi em vão!”.

O Autor espiritual
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:09 am

1 - Triste África
Severo Cantilhão, proprietário de vinhedo na cidade do Porto, há tempos vinha pensando em vender suas vinhas e passar para o ramo da comercialização marítima — o mais próspero negócio português de então.
Casado com Antónia do Amaral Borges, assim como ele de alguma descendência nobre, com ela tinha três filhos:
Henrique, dezanove anos, Carlota, dezassete, e Julialva, doze.
— Antoninha: o que pensas de deixarmos cá nossas terras e mudarmos para a Capital?
— Severo — assim o tratava a esposa, com aparente formalismo, mas na verdade sem nenhum —, é tu quem sabes.
— Mas, me diga, mulher: o que pensas?
— Diga-me primeiro, então:
porque tiveste tal pensamento?
— Não sei, mulher...
Nossos filhos estão crescendo...
Em pequenos bocados de tempo já estarão pensando em casamento...
E cá por estas bandas temos mais borra-botas (pessoas sem expressão, pobres) do que indivíduos que mereçam as crianças.
Henrique e Carlota já estão se sazonando como nossas uvas...
— Temes algum aproveitador?
Não foi o que fizeste comigo?
— Pela Cruz, ó mulher: nunca fui aproveitador, mas tu sim, foste tu que me cativaste, com este teu jeito de flor!
— ... que tu bem apreciaste em plantar no jardim do teu coração...
Beijaram-se com ternura.
Amavam-se, sinceramente.
De comum acordo, decidiram que os “fados do destino” deveriam ser respeitados, pois os Anjos do Senhor, lá do Céu, entoariam e fariam repercutir, cá na Terra, a indicação do rumo a tomar.
Tal a sua fé.
E essa a maneira pela qual, em respeitosa prece, aquele casal pedia ao Plano Maior que os orientasse quanto ao futuro.
Como nenhuma prece sincera, mesmo as impronunciadas, ficam sem deferimento-resposta, directo ou indirecto, ali não foi diferente:
indo à Capital para negociar com representantes de alguns países o embarque da sua produção vinícola daquele ano, Severo, por lá se demorou uma semana.
Acertados os prazos e preços, preparava-se para retornar à sua cidade, o que se daria dali a dois dias, quando a caravela zarparia.
Para preencher o tempo de que dispunha até o embarque, foi passear pelo porto lisbonense.
Nele, a atracção por viagens marítimas só era menor do que a compulsão que nutria pela construção de caravelas.
Desde criança, apenas com uma rude faca de sapateiro, aparava galhos de árvores e com elas construía miniaturas de barcos, que a todos encantavam, não só pela delicadeza do material, e nem também só pelas medidas adequadas ou ainda pela aparência:
mas sim, pelo deslizar suave das miniaturas nos grandes tanques de água, quando assim eram mantidos em preparação à recepção dos vinhos, nas safras das uvas.
Elegeu uma bodega, dentre outras, a que melhor lhe pareceu.
Acomodou-se numa solitária mesa e pediu pão, queijo e vinho.
Na mesa ao lado, três animados marujos conversavam, sem nenhum cuidado quanto a serem ouvidos.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:09 am

— Veja só, homem — dizia um deles, que aparentava ser o mais velho —, se os fados cantassem para o meu bolso, bem que eu compraria aquele tumbeiro.(*)
Tenho cá comigo que em cinco anos ficaria rico.
— Rico, mas com a pele mais enrugada — troçou um dos homens.
— Isso mesmo — confirmou o terceiro:
não é brincadeira fazer duas viagens por ano lá nas terras d’África às da Colónia.
— Eu sei, eu sei — contemporizou o mais velho, aduzindo: duas por ano, dez em cinco anos.
Cada travessia, levando na ida as bugigangas que eles gostam e na volta, chegando à Colónia com uns trezentos negros, façam as contas!
Falaram, comentaram, sonharam e comeram ainda por algum tempo.
Quando foram pagar a despesa, tiveram grata surpresa:
o “rico senhor” ao lado já a havia quitado...
Surpresos de início, mas logo gratos, desmancharam-se em mesuras ao desconhecido benfeitor, que se apresentou:
— Sou Severo Cantilhão, das terras “d’uva” lá no Porto.
Ouvi os senhores confabulando e me interessa ouvi-los mais, se dispuserem de um quarto “d’hora” para mais um copo de vinho...
A oferta era simplesmente irrecusável.
Servidas generosas doses do “melhor vinho”, como mentirosamente apelidou aquele cuja qualidade nem chegava aos pés dos que produzia, Severo percebeu quando era a hora de recuperar o “capital que estava investindo”:
— Digam-me lá, ó rapazes, então vocês que são do mar, estão a sonhar com viagens às Áfricas?
— É... mais ou menos...
— E já foram até lá muitas vezes?
— Muitas!
— O que me dizem, então?
Ganham todos?
— Os tripulantes e suas famílias conseguem sobreviver, mas os donos dos navios ganham muito mais...
Estão todos ricos!
— Então o frete compensa?
Os três, sem qualquer cerimónia, gargalharam.
Um deles captou que não seria aconselhável rir da “autoridade”, por sinal bem generosa.
O vinho pago deu-lhe bons modos:
— Frete?!
Isso não existe, excelência:
o mar não cobra pelos ventos nas velas, o ganho é com a captura de escravos que são levados para os fazendeiros...
E as Áfricas também não cobram pelos negros...
Gargalharam novamente, considerando-se engraçados.
— Fazendeiros?
Que fazendeiros? — inquiriu Severo.
— Os donos de plantações e de escravos... esses cada vez ficam ainda mais ricos...
Não fazem nada, a não ser nos explorar, nós que somos os homens do mar.
Um dos marujos, com ar desanimado, completou:
— Aliás, fazem sim, outra coisa, e até demais: quase todos judiam dos escravos.
Perdão, deixe-me corrigir, excelência:
não judiam, por qualquer deslize, simplesmente os matam.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:09 am

Um dos marujos, mais embriagado do que os outros, propôs:
— Por um bom preço, oferecemos a vossa excelência uma fantástica informação... sobre...
Os outros dois arregalaram os olhos.
Inquietaram-se muito.
Dir-se-ia que sua embriaguez desaparecera.
Havia algo no ar... com cheiro de fortuna...
Veio mais vinho, mas os homens recusaram-no.
Severo, ladino, qual jogador em lance arriscado, ofertou:
— Está bem.
Guardarei segredo...
Os homens entreolharam-se, temerosos, desconfiadíssimos.
— Cinquenta moedas a cada um!
Mas têm que merecê-las...
O mais velho, vencida toda resistência, confidenciou:
— Descobriram ouro na Colónia.
Por enquanto não estão divulgando, pois há temor de confisco pelas autoridades.
— Ouro?! Onde?
Como souberam disso?
— Nossas vidas não valerão nada se souberam que fomos nós que contamos...
O ouro está lá para dentro do sertão da Capitania do Rio de Janeiro, numas terras selvagens, de ninguém...
— Mas, digam-me e o digam com força da verdade:
como souberam disso?
Os homens encolheram-se, simultaneamente.
Após longa pausa, um disse:
— Temos um conhecido, meio parente, que é pirata, mas pirata de terra Fica rondando pelo porto, observando o movimento, para dar as “deixas” aos colegas do mar:
um amigo dele, que é tropeiro, ficou sabendo do ouro, que por enquanto está sendo escondido lá no mato.
Ouro! Ouro!
Severo sentiu o súbito fulgor que a ambição desperta na alma das criaturas que buscam os poderes terrenos, concedidos apenas aos que têm fortunas.
Calculista emérito, num segundo viu-se embrenhando nas terras selvagens, dominando os ignorantes que ali existiam e dos quais se tinha poucas referências.
Nada mais lhe disseram os homens, que embora trôpegos, se retiraram.
Ao chegar em casa, falando baixo, como que temendo ser ouvido na América, confidenciou à esposa:
— Antoninha, desta vez vamos que vamos...
— Cruzes, ó homem: para onde?
— Ao novo mundo!
— Este cá está muito bom e ainda sou de pouca idade para ir conhecer o Salvador pessoalmente...
— Então não percebes, mulher, do que te falo?
Ninguém está pensando em morrer.
Estou falando de forrar nosso baú de ouro e ali depositar tanto dele que nem se possa fechá-lo!
— Vais roubar o Tesouro da Pátria?
Está sempre à míngua...
— Nada disso, mulher:
estou falando em ir do lado de lá do Atlântico, buscar a fortuna que dorme dentro daquelas matas.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:10 am

— Estás louco?
Quem te disse que o dinheiro, em qualquer lugar do mundo, precisa ser acordado?
— Deixe te contar:
vou até lá, sozinho, vejo o que se passa e volto com a resposta que há tempos estou a buscar.
— Resposta?!
Qual a pergunta?
— Como ser convidado de el-Rei e levar minha família em palácio?
De quanto vou dotar os futuros consortes de Carlota e Julialva, que já a primeira e logo mais a outra, ora pois, hão-de querer o matrimónio, duvidas?
— Bem perguntado, ó marido!
O Salvador te guie!
E te responda.
Severo era bem relacionado junto aos fornecedores de vinho à nobreza lusitana.
Alguns deles, nobres, inclusive, atendiam Sua Majestade, el-Rei.
Valdeiro Borba, também residente na cidade do Porto, comerciante com trânsito junto à realeza, era seu primo em segundo grau, além de ser padrinho de Henrique.
Severo procurou-o:
— Ó primo, estou a querer aventura...
— Santo Deus!
Com tua idade?
E a comadre?...
— O que tem ela a ver com isso?
— Aventura? Ouça, meu amigo e compadre: aventura, para mim, lembra romances, noitadas, perfumes...
— Não é nada disso, homem: quero ir à América!
— Te livre a Cruz dessa loucura!
Só os perdidos vão para lá... e não sei de ninguém que voltasse...
— Pois vou, de um jeito ou de outro.
Quero que o primo me arranje um modo de ir, a mando da Coroa!
Assim, estarei lá oficialmente e poderei voltar em qualquer navio, quando quiser, ou para buscar a família ou para desistir do que lá veja.
— Eta! Pois que não bates bem da cabeça:
uma nomeação dessas só se dá para banir indesejáveis...
— Sei disso, tanto que vou comprar essa nomeação de el-Rei.
— Comprar?! Amalucaste, homem?
A Coroa gasta para estes expurgos e tu queres essa tristeza e ainda pagar por ela?
Que pretendes fazer lá?
Precisas é de um bom doutor que te remende a cabeça...
— Escute cá:
a Coroa não anda bem das pernas, todos sabem disso.
Vou fornecer ao palácio real um ano do meu bom vinho sem ressarcimento, em troca de uma nomeação como ajudante de Sua Majestade, também por um ano.
No decreto com meu nome será recomendado aos patrícios que por lá estejam que me hospedem, à conta da Coroa, me facilitando o exercício de procurador real.
— Mas, Severo, volto a perguntar:
o que vais fazer lá naquelas distâncias, que não possas fazer aqui?
— Tens algo do meu sangue e por isso vou contar-te:
sinto cheiro da fortuna que vem d’além mar.
Cá por estas bandas pouco se pode progredir.
O leão do norte (referência à Inglaterra) está a rugir para a esquerda e para a direita e a turma do centro faz de tudo para desgostá-lo.
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Ave sem Ninho

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:10 am

Sei que a maioria dos países cá da Europa temem os britânicos, donos dos mares.
Ninguém ousa desafiá-los e submetem-se aos preços absurdos que cobram pelos produtos que trazem das Índias.
Até os muçulmanos, desde que se instalaram em terras da Espanha, não tentam ampliar seus negócios.
Estão satisfeitos com a quota de comércio que ali realizam.
A Grã-Bretanha só não os aniquilou porque então será provável que perca a confiança e a preferência dos asiáticos, não sendo nada útil sustentar uma guerra naquelas paragens, quando o lucro está por aqui mesmo na Europa.
Respirou fundo e disse com firmeza:
— Respondendo tua pergunta: vou buscar dividendos para el-Rei, pois a Colónia é para isto mesmo e até agora de lá pouco se tem tido de retorno, estando os piratas e os corsários a lucrar mais que todos.
— Homem, tu tens visão de águia, até parece que voas mesmo sobre a História actual!
— Então? Vais me arranjar o salvo-conduto real?
— Que os fados de protejam:
vou tentar, lá isso vou mesmo.
Nas semanas seguintes, Severo esteve sempre perambulando pelo cais lisbonense, qual ave ciscadeira, catando aqui e ali, aleatoriamente, notícias das terras e das gentes da outra margem do Atlântico.
Em suas pesquisas, pouco descobriu que ainda não soubesse.
Marujos — senão todos, grande maioria —, de todos os navios e de todos os tempos, nos dias e nas noites que eles ficam atracados, sempre vão à terra firme, onde se entregam primeiro ao álcool, sabidamente chave de onde estão guardados os sentimentos.
Depois, quase sempre com a moral anestesiada pela bebida, mantêm encontros clandestinos, promíscuos e não raro perigosos, seja por causa dos assaltos frequentes ao bolso ou do assalto à saúde — contracção de moléstias.
Mas, o pior de todos os assaltos, em qualquer época, local ou circunstância, é aquele à moral, onerando o Espírito:
a prática do sexo irresponsável, isto é, o sexo pelo sexo.
Severo já nem mais conseguia dormir, com pensamento fixo e crescente nas terras coloniais.
No pouco que dormia, sonhava invariavelmente com índios, escravos e ouro, muito ouro.
Seu pensamento era um só: ir ao Brasil, sob protecção real, lá fazer um bom investimento e retornar à Pátria, deixando alguém de confiança para cuidar dos negócios e da remessa dos lucros.
Via-se circulando em palácio, conversando e bebendo vinho com nobres e com o próprio el-Rei.
As filhas, Carlota e Julialva, antevia-as bem casadas.
Henrique... bem, Henrique só tinha a seguir-lhe os passos e herdar toda a “imensa fortuna” que desde já existia em sua mente.
Passou a recepcionar, pessoalmente, todos os cavaleiros, carroças, carros de bois e até mesmo andarilhos que sempre passavam por suas terras.
A cada sinal de que alguém se aproximava, a ansiedade fazia-lhe o coração bater mais forte, imaginando que seria Valdeiro, com a sonhada designação real.
Dois meses após seu encontro com o compadre, no qual fizera o pedido de intercessão junto a el-Rei, Severo já começava a se perguntar se tudo aquilo não passava de um pesadelo.
Sim, porque em todas as suas mal dormidas noites, acordava após sonhar com ouro... muito ouro.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:10 am

Antoninha, prudente, temia tocar no assunto e arranjar uma grande confusão.
Contudo, mais amiga do que prudente, aliás, amando sinceramente ao marido, orava ao “Nosso Senhor Salvador”, para que o “seu Severino” tivesse, da vida, aquilo que fosse melhor para ele e para a família - da qual, ela própria, fazia parte...
A mulher percebia a inquietação do marido, aumentando noite e dia e reflectia que só mesmo com a oração é que poderia ajudá-lo.
Finalmente, aconteceu:
Valdeiro, com a família, veio visitá-los.
Recepcionados com a cortesia e o carinho tradicionais dos portugueses dispensados aos parentes, logo à refeição ninguém disse palavra sobre aquilo que Severo mais queria ouvir.
Severo, contudo, viu no brilho do olhar do compadre o clarão e a força de um canhão, no instante do disparo.
Intuiu que seu pedido houvera sido deferido.
Demonstrando inaudita calma e absoluto controlo, até despistou nas poucas vezes que o assunto pendia para o mar, para outras terras...
Quem não conseguiu reprimir a pressão do que lhe ia na alma foi Valdeiro:
algo trémulo pegou no cotovelo de Severo e sugeriu:
— Ó compadre, temos uns tantos assuntos a falar e não devemos cansar as mulheres e crianças.
Vamos ao Riacho D’Antas?
O Riacho D’Antas, nome dado por Severo — e que foi acatado por todos —, era um córrego de águas límpidas que cortava as terras do imenso vinhedo.
O nome devia-se ao facto de na nascente existirem antas (monumentos de pedras sobrepostas).
Foram. Severo em passo lento. Valdeiro, querendo acelerar...
Antes de se aproximarem das águas, que cândidas e cantantes passavam marulhando, Severo atordoou o compadre com uma pergunta à queima-roupa:
— Quando posso partir?
Valdeiro estacou, boquiaberto:
— Então, compadre, estás a me sair um belo adivinho...
— Sim, sim — atalhou Severo, agora impaciente:
diga-me, homem, el-Rei concedeu-mo o predicado?
— Pela Cruz, sabes das coisas:
quando quiseres, iremos juntos à Capital e tu deverás passar na Casa do Tesouro, para que o tesoureiro-mor te dê as incumbências e o salvo-conduto.
— Perfeito!
Iremos amanhã mesmo.
Mas agora, temos cá um pato que só dona Antoninha sabe preparar, ao “molho do Amaral”.
Sabes que quando se trata dos assados, meu sogro é um homem que tem todos os segredos do forno e foi ele que incrementou o modo de preparar tais aves.
— Mas o vinho é teu, pois não?
— Justo, homem:
para o molho e para a boca.
No dia seguinte, Valdeiro e Severo foram a Lisboa.
Severo levava um considerável lote do bom vinho que produzia, facto que lubrificou seu ingresso naquele vetusto quão importante estabelecimento da Coroa — a casa de el-Rei de Portugal!
As finanças reais não estavam mesmo equilibradas e não poucas eram as preocupações de Sua Majestade.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:10 am

Caiu bem em palácio a proposta feita por Valdeiro, de el-Rei enviar um fiscal de rendas e de aduana às Terras da Santa Cruz.
Pois, além de certamente aumentar a arrecadação devida ao Rei de Portugal, esse fiscal ainda forneceria bom vinho para a corte durante o prazo de sua missão.
Naturalmente sua remuneração seria em comissão, proporcional ao aumento da arrecadação que resultasse de suas providências.
Foi com mãos trémulas e voz brecada que Severo pegou a carta régia nomeando-o intendente-auxiliar do Tesouro de Portugal.
Pelo documento, eram-lhes abertas todas as “portas portuguesas instaladas além-mar”, sendo-lhe garantida passagem em “cabine de conforto nas naus portuguesas sobre o mar”, para quaisquer viagens marítimas que desejasse — com ou sem a família.
Aliás, se levasse a família, essa também teria as regalias de viagem e de hospedagem, por conta da Coroa Real...
Se a família ficasse, seria “protegida de el-Rei”.
Assim, hospedagem e viagens eram-lhes ofertadas, a ele e familiares, em nome de el-Rei, pelo que tudo lhe seria proporcionado sem quaisquer ónus.
Foi estabelecido um prazo de validade para a missão: três anos.
Uma cota de vinhos seus para a corte, gratuitos, também por três anos...
Ao deixar o Tesouro Real, Severo não conseguia conter o júbilo, sorrindo à toa e dando pulos de quando em quando.
Foi directo ao porto.
Ao exibir a carta régia “lavrada por el-Rei”, pôde bem depressa testemunhar o valor e a força que lhe houveram sido dados.
O chefe da aduana lisboeta, todo mesuras, informou-o das partidas previstas para o Brasil:
uma, em duas semanas e outra para dentro de dois meses.
— Irei na próxima.
Agora, quero que o brigue (navio de pequena tonelagem) que será capitania do “meu” comboio, me leve à minha cidade do Porto, onde vou recolher pertences e utilidades para a viagem à Colónia.
No retorno, os quatro galeões se juntarão ao brigue, para escoltá-lo na travessia.
— Sim, senhor Severo.
Às suas ordens.
Chegando a casa, Severo narrou à esposa como as coisas tinham se passado.
Concluiu:
— Minha querida Antoninha:
vais ficar sem mim por algum tempo, mas é só até eu ficar rico, ou antes, se tu quiseres me acompanhar...
— Sabes que não posso, Severo.
Penso nos nossos três filhos:
que futuro poderiam ter junto a índios e escravos?
— Sei que tens razão, porém te prometo, mulher, que se as coisas por lá se encardirem, volto em seguida.
— Vê lá o que vais fazer e com quem vais andar...
— Essa é outra promessa:
ser-te-ei fiel, de alma, coração e sangue!
E enquanto cá ficares sem mim, terás a protecção de el-Rei.
Assim, deixando instruções quanto ao suprimento vinícola à Sua Majestade, Severo arrumou as malas, prevendo voltar uma vez ao ano, por durante os três anos da missão.
Ou a qualquer momento, se assim as coisas isso indicassem...
Na véspera do embarque da cidade do Porto para a Capital, de onde partiria para a Colónia, chamou os filhos e com sentida emoção despediu-se deles, prometendo-lhes um futuro alvissareiro, motivo do seu sacrifício no presente.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:11 am

Não conseguiu dormir, senão breves cochilos, deles logo despertando, agitado, pois, num sonho recorrente, uma terrível imagem teimava em se repetir:
via-se prisioneiro de escravos, enfurecidos, que juntamente com piratas, não menos ferozes, torturavam-no...
Quando o brigue “Santa Inês” se afastava do cais, ainda distinguiu sua bela Antoninha acenando-lhe, com as lágrimas a sufocá-la.
Os filhos, com olhar de espanto e incredulidade ante aquela brutal mudança do convívio familiar, choravam de angústia plena.
Chorou ele também.
Para trás ficava o grande tesouro do seu coração — a família.
À frente, ia buscar a fortuna para seu bolso... o ouro.
Ia para um destino incerto, sem nenhuma alma amiga ou sequer conhecida, numa terra inóspita e desconhecida, ofertando seu futuro aos fados.
Vieram-lhe à mente inquietas interrogações:
— “Meu Deus: o que estou fazendo neste navio?”.
— “Será que isto é um pesadelo?”.
— “Será que estou louco e não percebi?”.
Livrou-o do tormentoso estado mental o capitão do navio, que vendo-o a cismar e sabedor de sua importância, julgou prudente ganhar-lhe a amizade, com o que, mais à frente, só teria a lucrar:
— Com a sua licença, senhor Severo, se me permite, posso prestar-lhe algum favor, por pequenino que seja?
Sou seu criado!
— Obrigado, homem.
Diga-me lá, quanto tempo estás nesta vida de navegar e navegar?
— Muito tempo, senhor... muito tempo...
— Como são a terra e as gentes da Colónia?
— A terra é de fartura, para tudo.
Mas as pessoas... essas são de raças que mais parecem um caldeirão de sopa, pois lá temos patrícios, mas encontramos silvícolas, africanos-escravos, cafuzos e mestiços.
— A mim me interessa cumprir a missão de confiança que me distinguiu el-Rei, por isso eu te pergunto e só me respondas se tu sabes.
Sobre os patrícios:
como vivem, aparentam posses, obedecem às leis da Coroa?
— Seria fátuo se dissesse a vossa excelência que conheço a resposta.
Mas há quem a sabe:
os senhores de engenho!
Qualquer um deles.
— O que vai nosso comboio fazer no Brasil?
A pergunta, feita de chofre, encabulou o capitão:
— Ora, pois: levar o senhor Severo!
Matreiro, o capitão adulou o emissário real, buscando ganhar tempo para arquitectar resposta melhor.
— Obrigado, meu capitão.
Só que embarquei muito depois da viagem já estar decidida...
— Hum... senhor... não posso me comprometer...
— Sabes que aqui el-Rei fala pela minha boca.
Se não me dizes o que te perguntei, ponho em caldo de suspeita o proceder do meu capitão e o futuro deste brigue.
Aquela não era uma ameaça:
era uma ordem, taxativa.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 07, 2017 10:11 am

O capitão percebeu que lidava com um homem de grande psicologia, nada parecido com os tantos nobres que já hospedara a bordo.
Severo, como se dando mais linha ao peixe fisgado, com sensibilidade e senso de oportunismo, deixou-o à vontade:
— Não te amofines, meu capitão.
Minha missão não é em águas do Atlântico, e sim lá nas Terras da Colónia.
O que se disser aqui neste tombadilho, nem os peixes hão-de ouvir ou saber.
— Sim, senhor Severo, sei que vossa excelência é um homem bom e muito inteligente, senão Sua Majestade não o teria nomeado para tarefa tão importante.
Mas estamos no mar, e para os homens do mar, existem leis que não podem ser quebradas.
Um falsete com as coisas do mar pode custar caro...
Agora era o capitão que assumia as rédeas do inquietante diálogo.
Nos navios que comandava, jamais deixava que alguém superasse sua autoridade.
Nada temia, a não ser os piratas.
Por algumas vezes já se defrontara com eles, mas além da sua competência no posicionamento das velas, para fuga, os fados também o haviam protegido.
Severo, em guarda, contemporizou:
— Então, se também estou no mar, sob escudo real, que as águas permaneçam azuis.
Se tu achas prudente não me contar algo que sabes bem, a decisão é tua.
Nem ameaça, nem ordem, mas incómoda perspectiva.
O capitão resolveu aliviar a tensão, até porque se nada mais dissesse, pairariam suspeitas sobre ele.
E aquele “homem do rei” não era nada bobo...
— Muito bem, senhor Severo, ouça lá o que digo a vossa excelência:
sou homem de fé, de palavra e de honra, não traio nem a um cão.
Mas se vossa excelência está indo para as terras coloniais, será prudente que se capacite de que por lá só há uma lei — a da sobrevivência.
— Espere lá, capitão: não estamos indo à África, mas sim a um pedaço do mundo que pertence a Portugal...
— Sei disso, senhor, mas o mar é um muro muito grande, muito alto... cá da Europa ninguém vê os de lá... e eles nada têm a temer dos de cá, pois quem vai dizer-lhes o que fazer?
— Quando o meu capitão diz “eles”, a quem te referes, me faz o favor?
— Com todo o respeito, se fosse vossa excelência, buscaria me entrosar com os donos de engenho... eles mandam em todo mundo.
Inda agora nossa viagem é patrocinada por eles.
Nossos quatro galeões de apoio, vieram lotados de açúcar e agora, de retorno, levam-lhes suprimentos para lavoura.
Só que dessa vez estão indo mercadorias diferentes... para outra actividade...
Severo intuiu que outra actividade era essa: mineração.
Disfarçou:
— Bem, parece que ao menos em uma pessoa não mandarão...
— Touros a brigar recomenda a prudência aos novilhos deles se afastarem...
— Mas não me dirijo à Colónia para qualquer combate, menos ainda como cão de guarda da Coroa, apenas como inspector-conselheiro do Rei — que o Criador o proteja!
Não levo ameaças na bagagem, não pretendo me confrontar com quem quer que seja, nada pretendo modificar, não é minha intenção consertar o mundo.
Respirou fundo e concluiu:
— Leva-me o ideal de construir um futuro para minha família...
— Mas, senhor Severo, indo à Colónia, como vossa excelência poderá garantir esse futuro?...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:20 am

— Não sei... não sei... um impulso muito grande me colocou neste navio e às vezes até já me perguntei se isto foi uma coisa boa... voltando aos senhores de engenho, é tanto assim seu poder?
— Não tem limites senhor, eis que as terras do Brasil até parecem que são a metade do mundo, ninguém consegue chegar-lhe aos limites e em assim sendo, também não há fronteiras para o comportamento, não havendo a menor possibilidade de se saber a verdade.
— Capitão: a que verdade te referes?
— Dinheiro, excelência, dinheiro!
Da mesma forma como o decreto manuelino determina um quinto da produção de minérios à Pátria, imagino que está a fazer falta uma fiscalização no cumprimento da lei para a captura de escravos, que estão sendo levados aos magotes.
— Compreendo, compreendo. Contrabando de negros, pois não?
O silêncio do capitão homologou o entendimento.
Novamente, bailaram no ar referências à mineração... ouro...
E era da África, triste África, o ónus brutal, com seus filhos sendo arrancados à terra-mãe e serem levados além-mar alavancar o progresso da Colónia lusitana Brasil, ali derramando seu generoso sangue, seu profícuo suor, e suas não menos tristes lágrimas.
Nos dias que se seguiram nada mais comentaram a respeito, Severo e o capitão do navio.
Na falta do que fazer, Severo passava a maior parte do tempo no tombadilho.
Gostava de olhar ora um cardume que passava rente ao casco do galeão, ora grandes peixes que com incríveis piruetas saíam do mar, projectando-se a cerca de dois metros acima da água, para logo mergulharem e desaparecer.
O que pretendiam tais peixes?
Ver o Sol? Fugir do mar? Voar?
Mudar de vida, assim como ele?...
A faina a bordo seguia rotina dolente, dia após dia, noite após noite, só havendo alvoroço quando os ventos prenunciavam tempestade, que às vezes nem aconteciam, embora ameaçassem.
Em conversa com os marujos, logo Severo compreendeu que o grande, imenso, insuportável perigo, não eram os ventos fortes, mas sim, a ausência de qualquer vento.
Nessas oportunidades, pois aconteceu por três vezes, Severo pôde notar o verdadeiro estado de histeria que se apossava dos homens:
olhos arregalados, emudecidos, com perda do apetite, entreolhavam-se cismarentos.
As calmarias — asseguravam os homens —, felizmente, não duravam muito, mas quaisquer que fossem, seu tempo era uma angustiosa eternidade.
Contaram que algumas vezes, raras, acontecia de ser encontrado um navio fantasma, isto é, alguma embarcação que por falta de ventos, não se deslocava de determinada área, esgotando os suprimentos de víveres e principalmente de água.
Aí, à medida que os homens a bordo iam morrendo, seus despojos eram lançados ao mar, pois havia o temor de doenças contagiosas.
Ou então, viajando em comboio, às vezes acontecia de uma nau ser pilhada na calmaria prolongada e a tripulação a abandonava, em batéis, com os quais se transferia para os navios que iam à frente.
Nessas manobras, não poucos barcos conseguiam alcançar o navio, que fugia célere dali... e o destino dos que vinham nos batéis, era trágico.
Quando aconteceu a primeira calmaria, dois marujos do “Santa Inês” tiveram que ser amarrados, no porão, pois se descontrolaram a tal ponto que ameaçavam, a todo instante, se jogar no mar, “para ir a nado até a Colónia”...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:21 am

Após essa primeira experiência das calmarias, Severo passou a ter pesadelos:
todas as noites sonhava que o mar se transformava em vinho — seu vinho —, e que o brigue, após rodopiar num grande vórtice, era tragado pelas águas, afundando qual uma garrafa sem rolha jogada nos grandes tonéis da sua vinicultura.
A seguir, invertia-se o sentido do vórtice, em cujos formidáveis rodopios, o vinho saía do mar e ia para o céu, onde se transformava em brumas, fugindo dali em direcção à terra.
Acordava assustado, com taquicardia, molhado de suor.
À sensação de grande alívio por tudo aquilo ser apenas um mau sonho, sobrepunha-se-lhe na mente aflitiva pergunta:
“O que será que está acontecendo com Antoninha, meus filhos e minha quinta?
Será que acertei em deixá-los?”.
Tentava decifrar o sonho: tempestade, perda do vinho no mar e posterior fuga desse mesmo vinho para longe...
Sua vida! Sim, esse era um quadro de um futuro sombrio...
“Ainda bem que tudo não passava de sonhos”, reflectia, acalmando-se e indo para o passadiço, onde, à excepção do timoneiro, firme a postos, parecia que o mundo todo estava parado.
Estrelas, milhares delas, contemplavam os dois homens.
Severo instalava-se próximo ao timoneiro e ali permanecia por longo tempo, só meditando.
Mudos, ambos.
Mas suas almas debatiam-se em diferentes turbilhões de lembranças, saudades, dúvidas, aflições, planos para o futuro...
Depois da longa travessia, decorridos cerca de dois meses, o “Santa Inês” e os quatro galeões que o acompanhavam, aportaram no Rio de Janeiro, porção mais ao sul do vice-reinado da Colónia, este com sede em Salvador, na Bahia.
A autoridade máxima da governadoria veio recebê-los.
A Severo, por honra, direito e respeito ao que dele esperava el-Rei, coube-lhe descer em primeiro lugar.
— Bem-vindo quem o mar nos traz... sou Dom Fernando Serra Silveira, autoridade-mor cá onde el-Rei de Portugal mo comissionou.
Todo mesuras, ávido por notícias da Pátria, o mandatário lusitano daquela parte colonial não disfarçou um ligeiro abalo ao ver o édito real que Severo entregou-lhe, segundo o qual el-Rei o nomeara intendente-auxiliar do Tesouro Real, com jurisdição em todo Portugal e Reino Unido de Algarve.
Ali, isso era o mesmo que colocar-lhe um cão de guarda nos calcanhares.
Severo também não disfarçou o mal-estar que sentiu, ante a reacção do patrício.
Já ali captou que sua missão não seria nada fácil.
— Pois então, vossa excelência — contemporizou —, por quem somos dedicados, el-Rei, manda-lhe efusivos cumprimentos.
— Ah!, senhor Severo, grato, gratíssimo.
É de meu prazer saber que Sua Majestade está bem.
— Sim, excelência, eu é que no momento não estou lá muito firme, pois o mar castigou-mo com a rotina, logo eu que sou homem de muitos quefazeres.
Preciso de um pouco de repouso, de algo apetitoso e... de sua amizade.
— Mas, então, homem:
sou todo teu, ou melhor, a Colónia se rende a tão ilustre visitante!
— Perdão, excelência, não sou visitante: venho para ficar.
Percebendo o escorregão diplomático, Silveira remendou:
— Eu é que peço desculpas, senhor Severo.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:21 am

Num gesto de confraternização, Severo cochichou, maroto:
— Trago para vossa excelência o melhor dos vinhos da minha quinta.
Desta safra, só el-Rei e nós beberemos...
— Terei alegria em hospedar-te nas dependências governamentais.
Tudo o que o senhor Severo precisar, eu fornecerei.
A seguir, Severo convocou o capitão do “Santa Inês”, que se mantinha a cerca de dez metros, aguardando ordens:
— Ó, meu capitão, grato pela travessia:
és competente e um bom homem do mar.
O brigue está em boas mãos.
— Nosso capitão — disse, dirigindo-se à autoridade —, retornará quando o açúcar estiver embarcado nos galeões. Para a Inglaterra.
Vinte dias após, Severo pouco sabia do que se passava nas imensas e perdidas terras da Colónia.
Às vezes, pensava em viajar, mas primeiro precisava estar certo de onde ir, com quem e com qual finalidade.
Tudo se reduzia a um imenso vazio...
Então, inesperadamente, desapareceu o vácuo existencial:
— Senhor intendente — procurou-o o governante daquelas terras, informando:
estou de partida para o sertão, mais para dentro e para o norte, pois meus informantes trouxeram-me rumores estranhos...
— Hum...
— Pois é: alguns contrabandistas chegaram doentes, vindos de lá e ao serem socorridos, antes de morrerem, contaram que o ouro brotou do chão... em seus pertences, foram encontradas pepitas de ouro...
Estou indo às terras onde as encontraram. Vossa excelência não quer ir com a comitiva?
— Rumores são suficientes para levar vossa excelência?
— Dizes bem, contudo, além dos rumores, há mais:
o facto é que há quatro anos dei de armação a um espanhol ordens e meios para ir para lá e agora recebi recado dele, vindo por um mensageiro de Taubaté, de que realmente “algum ouro” foi encontrado.
Imagino que el-Rei gostará de saber que fui conferir, pois não?
Severo não deixou por menos:
— Nesse caso, não recebo a oferta como convite e sim como obrigação leal à Sua Majestade, pois se para cá vim ser o intendente real, como poderia a comitiva não mo levar?
— Mas é óbvio — emendou Silveira, algo irónico:
vossa excelência será o olho do nosso Rei e eu serei os braços de Sua Majestade.
— De que vale um sem o outro? — inquiriu Severo, irritado.
Partiram dois dias após, rumo ao sertão, fortemente escoltados, em busca de algo que há cerca de dois séculos, do lado de lá do Oceano Atlântico, o reino português, agora em dificuldades financeiras, vinha aguardando.
O Tesouro real, literalmente, sonhava com um milagre que caísse do céu, aliviando-o, dando-lhe a alegria dos filhotes de aves sendo são alimentadas pela mãe, ao retornar esta ao ninho, após seus voos de busca.
Se para Severo a travessia marítima fora dificultosa, apática, pelo absoluto marasmo, só arranhado quando de tempos em tempos mareou, só agora percebia como aquela caminhada em terra firme era muito mais áspera:
veículos rudes, puxados por cavalos, e uma enorme carga no lombo de dezenas de muares, recebiam permanentes intrusos como acompanhantes:
insectos, roedores, cobras e diversos animais.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:21 am

Assim era, dia e noite, noite e dia.
Os escravos, necessariamente cabisbaixos, por ordem dos feitores que os controlavam, volta e meia carregavam nas costas as duas autoridades da armação: o governante e o intendente, isso, nas travessias de pequenos cursos d’água ou em áreas lodosas.
Nunca será exagero comparar a coragem e as asperezas enfrentadas pelos marujos de então com as dos sertanejos, desafiando aqueles, a vastidão do mar, e estes, a imensidão das florestas, movidos ambos pelo indomável sonho humano de progredir e progredir cada vez mais...
Infelizmente, ambição de parelha...
O ímpeto das travessias marítimas, a partir dos descobrimentos, há cinco séculos, dava continuidade à eterna busca humana de um mundo melhor (a felicidade), da mesma forma que o faziam e alguns ainda fazem:
- os beduínos e os nómades, de vários países, cruzando as dunas saarianas;
- os vikings, arrojando-se das águas geladas às mais quentes;
- os peregrinos, de todas as religiões, seitas e credos;
- os caraveleiros, na busca do “mundo novo”;
- os bandeirantes, mergulhando nas matas e sertões;
- os homens do campo, vindo para as cidades;
- os migrantes, emigrantes e imigrantes que, a bordo de um sonho, deixam sua região ou seu país e, de forma voluntária ou sob pressão económica, vão para outras plagas ou outros países;
- os astronautas, orbitando a Terra, preparando para desembarcar em outros mundos...
Na raiz dessa dinâmica humana, encontraremos o espírito imortal agindo incessantemente, sob o impulso e o influxo, felizmente inexoráveis, da Lei do Progresso, de autoria de Deus.
Progresso moral, “no fim das contas...”.
*
Seis semanas depois a comitiva alcançou quase que o ponto pretendido, sem que nenhum fato marcante ocorresse.
Ali era um pequeno e desconhecido vilarejo, onde acamparam.
Os armeiros do governante logo desapropriaram uma casa, “em nome de el-Rei de Portugal”, para usufruto no tempo necessário, onde as autoridades se instalaram.
Os donos, voltados para a plantação de alguns grãos, exaustivamente inquiridos, nada disseram que levasse o governante a confirmar as notícias de mineração por aquelas bandas.
Ao contrário, estarrecidos ficaram todos, ao saber que poucas semanas atrás, índios ferozes eliminaram uma expedição que os tentara escravizar.
Consultando seus mapas, Silveira propôs a Severo que, estando próximos à área de destino, a armação se dividisse em duas e cada metade avançaria em arco, rumo ao ponto final, logo se reencontrando.
Tal deslocamento proporcionaria varredura integral da região, única forma capaz de se certificarem do que de verdade havia.
E assim, aceita a sugestão, no dia seguinte, lá foram Silveira e Severo rumo mais para o interior daquelas terras inóspitas, cada um comandando a metade do grupo inicial.
Severo não se acostumara a viajar ao lado de homens que jamais supusera ter como acompanhantes, mas aquela era a jornada que afinal iniciava a concretização do seu sonho de fortuna: achar ouro.
Mas, à frente, tudo poderia acontecer.
E, verdadeiramente, muita coisa aconteceu...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:22 am

_______________
(*) Tumbeiros: nome dado aos navios que transportavam escravos, da África, para a Europa, antes do descobrimento da América, e depois disso, para esta, no período da colonização.
O nome indica o risco do seu triste destino:
servir de sepultura (tumba) aos escravos.
Também chamados “navios da danação”, ou “navios negreiros”, em seus porões os escravos eram lançados, sem quaisquer cuidados ou higiene, em alguns casos até tendo que fazer toda a viagem amontoados.
Tamanha era a mortalidade nas travessias da África às Américas (em alguns casos até 40%), que tais navios eram mesmo tumba para muitos dos escravos aprisionados.
Não foram raros os casos de doenças epidémicas a bordo, matando igualmente grande parte das tripulações.
Se não bastasse todo esse quadro de horror, erros de navegação, calmarias ou tempestades, igualmente ceifaram milhares de vidas nessas terríveis expedições ao ”Novo Mundo”, realizadas durante três séculos.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:22 am

2 - Frente a frente com o ouro
O fascínio do ouro sobre a alma, desde os tempos imemoriais, turba a razão e provoca surdez à consciência, levando a maioria dos homens, equilíbrio ausente, a procedimentos brutais.
Designar um estrangeiro para embrenhar-se nos sertões com uma expedição oficial, porém disfarçada, fora estratégia das autoridades portuguesas, desconfiadas de que, se por acaso a descoberta das minas fosse feita por nativos ou patrícios, dificilmente um delataria o outro, antes, fariam acordo.
Com prejuízo da Coroa Real...
Um estrangeiro, caso acontecesse tal descoberta, teria necessariamente que se reportar à autoridade em exercício na Colónia, para usufruir o que conseguisse.
Assim, Mendonza, disfarçado de um misto de entradeiro e tropeiro, espanhol, financiado por autoridades portuguesas, secretamente agindo como espião realizava várias excursões, partindo do Rio de Janeiro com destino a Goiás, passando por Mato Grosso.
Levava mantimentos, ferramentas, tecidos e aguardente para negociar com as entradas e bandeiras de quantos aventureiros que, em busca de ouro e pedras preciosas, iam para tão longe, sendo que muitos nunca mais voltavam (aliás, só voltavam aqueles que enriqueceram, minoria...).
A função de Mendonza, dessa forma, era disfarçada:
embora agisse como tropeiro, na verdade, era espião oficial de Portugal.
Para despistar, volta e meia comprava escravos, pelo caminho.
Até então, nada soubera sobre o sonhado descobrimento de ouro e pedras valiosas.
Se isso já tivesse acontecido, certamente ele seria um dos primeiros a saber, devido ao contacto permanente com quase todas as intrépidas expedições.
Em 1694, recebera a missão de comandar a armação oficial, que seguiu viagem disfarçada de Entrada Santa Virgem.
Em 1696, após serem vencidas montanhas e florestas, permeadas de riachos e cachoeiras, a Santa Virgem acampou numa pequena clareira, que conhecia bem.
Não só ele: também ali acampavam algumas vezes aqueles que se dirigiam mais para o norte e que elegeram aquele sítio como pouso, na ida e na volta.
Agora, ali, um facto iria mudar a história da Terra!
Sim, porque grande parte do ouro que ali lavrado se destinaria a Portugal e de lá para a Inglaterra, face acordos comerciais entre os dois países, dos quais Portugal era forte devedor.
E com o ouro assim amealhado, a Inglaterra o destinaria a financiar a chamada Revolução Industrial .
O local:
a actual cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, de início consagrada como “Vila Rica”, pela abundância de ouro e pedras preciosas ali encontradas, há três séculos.
A título de reconhecer nova rota, o espanhol ordenou a Tengegê, um jovem escravo de quinze anos, que escalasse o topo de um monte próximo.
Aliás, em todas aquelas expedições, que vinham se repetindo e arrastando há cerca de dois anos, Tengegê, qual um cabrito, se especializara em subir montanhas, sozinho.
Depois, lá do alto, observava o longínquo horizonte à frente e ao descer narrava a paisagem ao sinhó.
Com isso, funcionava como precária bússola humana e precursor do caminho a seguir.
Dessa vez, escalando o monte e chegando ao topo, seus ouvidos, sempre atentos, ante a ameaça de ser atacado por algum animal, captaram a existência de uma queda d’água.
Indo conferir, na encosta do monte, oposta à clareira, e de onde vinha o ruído, viu uma nascente semi-encoberta por árvores.
As águas desciam mansamente...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:22 am

Árvores frondosas umas, baixas outras, mas quase todas com galhos emaranhados em vegetação de cipoal, como que abraçavam aquele curso d’água, mais que isso: eram-lhe singular manta.
Tal simbiose, só os milénios poderiam decifrar quando tivera início.
Certo que árvores e águas se renovavam, mas a paisagem, essa só Deus mesmo sabe quando e como se formou.
E porque...
Desceu com cuidado ao lado das águas que despencavam mansamente e caminhou, agora dentro do curso delas que se seguia, que mal lhe cobriam os pés.
As águas, após formarem um pequeno lago, prosseguiam em suave declive por um pequeno leito de mais ou menos cem metros, dali despencando noutra queda de mais ou menos vinte metros, mas com pouco ruído, pois galhos cruzavam e se antepunham na trajectória delas, amortecendo o jacto.
Curioso, continuou descendo pela encosta, ao lado da pequena cachoeira, para ver “o que acontecia lá embaixo”.
E viu que o leito prosseguia, ainda calmo, mas ainda quase invisível, pois as árvores eram-lhe caprichosa coberta.
Decidiu acompanhar o riacho, andando dentro do leito.
“Rio Tengegê”, pensou, denominando aquele riacho com o próprio nome, pois reflectiu que assim como ele, nascera livre, nas terras sagradas da África e, no entanto, ali estava, longe dela, cativo.
“Não era isso mesmo que acontecia com aquele riacho que ele descobrira?
Não nascia lá no alto, onde tinha pequena vida e logo era abocanhado pelo lago, que a seguir levava suas águas para longe da nascente?”.
Antes, agachou-se para beber um pouco daquela “água irmã”.
Por um desses fortuitos caprichos do destino — aqui nos utilizamos da linguagem poética, não a correta, espírita, que sabe não haver o acaso —, um raio do Sol aproveitou a traquinagem do vento e no momento que o jovem se curvou para beber água, aquele cobertor vegetal se abriu numa fresta, deixando que a luz solar incidisse directamente à frente do seu rosto.
E o Sol, vindo de tão longe, mostrou-lhe como ali, tão perto, a alguns centímetros dos olhos, saudava-o reluzente pepita de ouro...
Saudação que durou menos que um segundo, pois logo o vento foi embora e o galho retornou à posição de calma.
Mas, na mente do jovem, aquele brilho jamais se apagaria.
Atónito e deslumbrado paralisou a sede e o piscar.
Quase sofrendo por invadir “o reino das águas”, ao qual devotava idolatrado respeito, Tengegê, o jovem escravo, pousou a mão sobre a suave correnteza, mantendo-a segundos suspensa.
Fez uma brevíssima oração.
A seguir, com insuspeitada delicadeza, catou a pepita.
Só um pedacinho brilhava, pois o resto estava envolvido por uma lama preta, solidificada.
Raspou a lama e viu-a brilhar por inteiro!
Mais atónito ficou ao verificar que debaixo daquela, e ao lado, existiam outras... muitas mais!
Disfarçadas, pois todas tinham uma camada de um lodo preto, envolvendo-as.
Aquela que brilhou, só num pedacinho — e somente ela — foi como se a chave de um cofre fosse entregue ao escravo...
Ia passando a mão no leito, em gestos lentos e mansos, apanhando as maiores pepitas, lembrando-se de quando se deliciava nas jabuticabeiras:
assim procedia, apanhando as maiores, que eram mais doces, por estarem mais maduras...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:22 am

Deslumbrado com as pepitas, nem por isso deixou de sentir a saudade das suas jabuticabas...
Trocaria cada pepita que pudesse pelas jabuticabas.
Foi assim que, andando dentro do leito por uns duzentos metros, identificou que ele desembocava num riacho maior, que passava lá do outro lado da montanha.
Volteou-a e pela fumaça identificou onde estavam o sinhó e todos os demais componentes da Entrada.
Voltou ao “Rio Tengegê” e devolveu-lhe as pepitas, menos três.
Esgueirando-se, despistando de onde vinha, dando a impressão de que da mesma direcção da ida, voltou ao acampamento.
Narrou ao Sinhó que a paisagem que se avistava do topo era a mesma que a dali.
À noite, com a cumplicidade da escuridão, retirou as pepitas do bolso e entregou-as a Zangigi, o mais velho dos escravos, por isso mesmo acatado e tido como seu líder moral.
Até mesmo o dono da Entrada respeitava essa liderança, pois não poucas vezes a ela recorria para resolver crises ou aplacar eventuais movimentos revoltosos dos escravos.
Tengegê, em sussurros, contou a Zangigi como a “rainha das águas” lhe mostrara o ouro.
“Minhas jabuticabas”, brincou.
Zangigi demonstrou terrível preocupação:
multiplicadas rugas assomaram-lhe à fronte.
O olhar, mesmo no escuro, ao invés de brilhar ante o ouro, ficou embaçado...
Tengegê não esperava essa reacção. Assustou-se.
Apenas com um olhar de espanto perguntou-lhe o porquê daquela atitude.
— Meu filho, salve-nos Olorum, o Criador dos mundos.
Os escravos daquela Entrada eram oriundos do “Reino dos Iorubas”, lendariamente vindos do delta do Rio Níger, estabelecendo-se, na época da Idade Média, no golfo da Guiné, numa região onde hoje se situa a Nigéria.
Para os iorubas, Olorum é “o Senhor do Céu”, ou “Mestre do Céu”, (o Deus dos cristãos), e os orixás, as divindades secundárias (os santos, no caso, da Igreja Católica Apostólica Romana).
O monoteísmo ioruba, embora primitivo, como primitiva era a prática do intercâmbio entre o Plano Espiritual e o material, bem dão mostras de como aquele povo já trazia no Espírito apreciável elevação moral.
Pegou as três pepitas e sentenciou, acabrunhado:
— Aqui em nossas mãos, temos a chave da nossa liberdade...
— ?!
— Não entende, criança?
As pepitas que estão lá no “seu riacho” são suficientes para comprar todos os escravos desta Entrada, isto é, os outros dezoito irmãos nossos.
— “Meu riacho”?
— É: como ninguém ainda o viu imagino que você vai dar seu nome a ele.
O jovem admirou mais uma vez o incrível dom de Zangigi de “adivinhar” pensamentos...
Balbuciou:
— O senhor está certo.
Quanto a ouro, lá tem muito mais...
— Bem utilizado, poderá impedir que outros escravos sejam arrancados da terra-mãe, tão distante, e trazidos para cá, onde não nasceram, mas onde com certeza irão morrer...
Cheias de angústia, as palavras de Zangigi calaram fundo na alma de Tengegê.
— O que podemos fazer?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:23 am

— Podemos fazer muitas coisas, mas por enquanto devemos fazer apenas uma: silêncio!
— Deixar todo aquele ouro lá?
— Tengegê, minha criança, lá onde está é um cofre seguro, cuja chave o Criador dos mundos deu para você.
Chegará o momento de ser aberto tal cofre, do contrário não teria sentido o que aconteceu.
— Mas... o nosso dono está indo embora por esses dias...
— E o que tem isso?
O cofre é da Natureza, a chave é sua, mas a hora de usar o ouro é do Tempo.
Após meditar alguns segundos, Zangigi devolveu as pepitas:
— Onde quer que você vá, dê um jeito de enterrar as pepitas e só quando sair do lugar desenterre-as e leve-as com você.
Ante a docilidade do jovem, o ancião advertiu-o:
— Jamais, mas jamais mesmo, diga uma única palavra sobre esse achado.
É quase certo que se você não souber esperar a hora certa, gente nossa, a começar talvez de você, vai morrer... e gente branca também.
Você não quer isso, não é mesmo?
Tengegê baixou a cabeça, anuindo.
Beijou a rugosa mão de Zangigi e esgueirando-se qual criatura da noite, foi até um ponto do acampamento e enterrou as pepitas.
Quando a Entrada de Mendonza partiu, deixava ali um imenso tesouro material, representado pela abundância aurífera que os milénios construíram e acumularam, mas que só dois homens conheciam.
Dois anos após, distante dali, cinco escravos recém-incorporados àquela Entrada fugiram.
Recuperar escravos fujões e dar-lhes exemplar castigo, então, era ponto de honra e de sobrevivência a qualquer responsável por aquelas destemidas incursões.
Intentavam, com isso, desencorajar novas fugas, aliás, bem fáceis, pois fugir para onde?
Fazer o quê?
Viver se escondendo pelo resto da vida?
Terríveis eram as consequências quando escravos fugiam, fossem ou não recapturados.
Na primeira hipótese, eram supliciados.
Na segunda, inocentes pagavam.
Após dias e dias de buscas infrutíferas, Mendonza decidiu suspendê-las, eis que oneravam mais do que a compra de outros, em reposição.
Mas, como de costume, cinco outros escravos seriam exemplarmente castigados, até à morte, para servir de lição aos demais.
Por “motivos económicos”, era praxe que nessas ocasiões fossem descartados os escravos mais velhos, ou doentes, pois eram os que menos forças tinham para o trabalho, e por isso mesmo, pouco valiam.
Foram dadas quarenta e oito horas para que os fugitivos retornassem.
Mendonza esperava, com esse aviso-prévio, que algum escravo conseguisse comunicar-se com os desertores, sensibilizando-os a retornar.
Zangigi encabeçava a lista fatal, da qual duas mulheres faziam parte.
Antes de o Sol raiar, no segundo dia, se os fugitivos não retornassem, a infâmia teria curso.
Para tanto, os condenados já estavam amarrados em troncos de árvores e bem vigiados.
Tengegê há dois dias não conseguia dormir, chorando sem parar, com o sangue afluindo às têmporas, dilatando-lhe as veias da cabeça, fazendo parecer que os olhos iam explodir, eis que a revolta tomara-lhe toda a mente.
Grande a dor pela perda dos companheiros, mas insuportável seria ver morrer Zangigi — ainda mais de forma cruel.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:23 am

Alta madrugada, sem poder aproximar-se dos condenados, os quais estavam em jejum de alimento e de água, Tengegê cochilou, ou pelo menos, assim lhe pareceu, pois viu um antigo amiguinho, dos tempos ainda da África, todo cheio de luz, mostrar-lhe as três pepitas.
Despertou sobressaltado, primeiro porque assistira o amiguinho de infância morrer, pois tinha graves problemas de saúde; segundo, porque entendeu que ele tinha lhe dado um recado; terceiro, porque pela tradição ioruba, avisos dados por amigos que morreram só aconteciam quando aquele que o recebia tinha sido eleito babalaô (babalaô = sacerdote, na cultura africana e adivinho, no Brasil.
Podemos dizer de uns e outros: são pessoas dotadas de faculdades mediúnicas acentuadas, todavia ainda não devidamente disciplinadas, no sentido de as exercerem tão-somente com objectivos de ajuda espiritual).
Tomou drástica decisão:
contrariando normas rígidas e pondo em risco a vida, de peito erguido, andando em passos cadenciados, deixou seu local de recolhimento.
A madrugada ia a meio.
Um guarda logo lhe apontou o mosquete:
— Ô, você aí, neguinho bobo: quer morrer?
— Morrer não quero não senhor, mas se o senhor atirar vai ter que pagar ao sinhó Mendonza o quanto eu valho.
— Cale a boca seu moleque atrevido e só fale se eu perguntar. O que você está fazendo, fora do seu canto sujo?
— Preciso falar com o sinhó...
— Ah! eu já sabia...
Bem que o patrão recomendou que ficasse alerta esta noite, pois logo mais ao amanhecer vamos economizar comida de cinco bocas velhas...
Tengegê mordeu forte os lábios, a ponto de sangrar.
Conteve-se.
O guarda assobiou e logo mais três companheiros surgiram, com facão à mão, prontos para eventual combate.
Vendo apenas Tengegê, sobranceiro, calmo, imponente na postura dos que têm a consciência do cumprimento do dever, os homens odiaram-no, de imediato.
Até então apenas o consideravam um escravo a mais, jovem, saudável, forte e obediente.
Mas aquela atitude, naquela hora, daquela noite, era simplesmente imperdoável.
Lançaram-se sobre ele, quais feras sobre a presa abatida, pois nenhuma reacção o jovem lhes interpôs.
Amarraram-no, junto a uma árvore e começaram a dar-lhe vigorosas cintadas, sem aguardar o veredicto de Mendonza — a quem cabia decidir, o como, quanto, e onde castigar eventuais desobediências.
Já sangravam as costas de Tengegê quando todos ouviram áspera ordem:
— Que estánquen eso! (parem com isso!).
Furioso, Mendonza vinha verificar que tumulto era aquele.
Ao ver um escravo ser chibatado, sem sua ordem, exigiu explicações.
Os homens, covardes, justificaram:
— Ele queria fugir, ele queria fugir!
E nos enfrentou!
Mendonza olhou Tengegê, por quem nutria alguma simpatia, eis que nunca fora desobedecido por aquele jovem e jamais fizera cara feia diante de qualquer trabalho.
Ralhou, inquirindo:
— É verdade? Por que quis fugir?
Não sabe que com isso mais um irmão seu iria para lá? — apontou para o céu...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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