Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:26 am

Algo atarantada, a mulher abriu a porta.
O luar banhou-a em cheio:
fantasmagórica, mas soberba visão, realçando-lhe o corpo de atraentes formas, eis que, trajando-se com surrada camisola de rendas brancas, o efeito foi de que toda ela estava sob a mira do luar, qual uma cascata de prata a envolvê-la, mas em contrapartida pondo em evidência o contorno íntimo do seu corpo.
Ali, em irresistível magia, as nuanças de luz e sombra extrapolavam os limites possíveis da lei dos contrastes:
com a luz solar Severo sequer notara a bela silhueta de Veridiana, que agora a Lua expunha.
Nele, o sangue circulou em incontrolável e instantânea aceleração.
Trémulo, em altissonante silêncio, entregou o ouro à mulher que em gesto lento apanhou-o, identificou-o e se petrificou, ante dois factores de intensa comoção:
o ouro e o olhar cobiçoso do homem à sua frente.
Logo, contagiou-se...
Aliás, nenhum dos dois conseguia sequer piscar.
Em menos de cinco segundos, aqueles dois desconhecidos seres, somando suas solidões, formaram a equação que a Vida armara, cujo numerador era o desejo, e o denominador, a ausência de um amor.
Ela, há anos no viver de viúva, desde mesmo antes do falecimento de Mendonza.
Ele, com as profundas brechas cavadas na alma, face às repetidas e prolongadas separações da sua Antoninha.
Sem que palavras dissessem, em muda quão paradoxal eloquência, aferroados por sentimentos desencontrados que eclodiram em abrupto erotismo, entregaram-se mutuamente, em paixão de todo irracional, fugaz na perspectiva, mas naquele momento plena de doces promessas.
E assim, os momentos seguintes testemunharam a impetuosidade da entrega recíproca e ardente, madrugada adentro.
Para metade do mundo, os albores solares trouxeram uma nova alvorada, mas para eles, particularmente, a vinculação de novos caminhos, a serem trilhados juntos.
A mulher, em súplica comovente, implorou a Severo:
— Por compaixão, tira-nos daqui.
Não suporto mais viver com tantas agruras.
— Mas, mulher, o que me pedes é impossível.
Com o ouro que te trouxe, teus problemas terminaram.
Veridiana num gesto que o desespero comandou, ofereceu-lhe:
— Toma de volta o ouro que me trouxeste, apenas te imploro que me ajudes a salvar a menina.
Se ficamos aqui mais algum tempo, enlouqueço.
Os parentes de meu marido não gostam de nós e sabendo que ele morreu e deixou-me herança, jamais permitiriam que eu saísse daqui sem que eu lhes indemnizasse a longa hospedagem que vêm me ofertando.
Mas se tu me levas, mesmo para a Colónia, quem te oporias reacção?
Ante esse gesto, Severo olhou para a criança, que agora pôde bem perceber, era desfigurada por grave deformidade. Capitulou...
Levar a criança era mesmo à conta da caridade.
Porém, naquelas circunstâncias, teve dupla utilização, pois foi usado como justificativa para Severo manter Veridiana mais algum tempo junto a si.
Desconhece a maioria dos seres humanos o quanto o sexo sem amor — sem responsabilidade, pois — é pegajoso visgo a capturar aqueles que o vivenciam, movidos tão somente pelos sentidos.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:26 am

Daí resultando tristes embates, até que a harmonia retorne.
Na origem, o sexo é de inspiração divina, posto que inserido no contexto da Vida, como avalista da perpetuidade da existência entre os seres da criação.
No homem, contudo, quando vivido com, e por Amor, é muito mais que isso: é dínamo geratriz de permanentes energias criadoras, na sacrossanta missão delegada pelo Pai, de partícipe da co-criação.
Como acréscimo da Bondade Paterna, o sexo é prazeroso e dispensário de forças que se doam em radiosa troca, mesclam-se e se fundem qual arco-íris, visitando o céu dos corações que se amam.
Assim que o dia clareou de todo, Severo convocou os familiares de Mendonza, narrou sucintamente os fatos e entregando-lhes considerável importância, em ouro, daquele que Veridiana lhe devolvera, declarou que levaria a menina para ser medicada, sendo que a mãe deveria acompanhar o tratamento.
Os parentes ficaram duplamente felizes, primeiro pelo ouro recebido e depois, por se livrarem das “duas onerosas intrusas”.
Os dois empregados do comerciante que o trouxera até ali, encontrou-os ainda sonolentos, de ressaca.
Despertou-os com reprimendas e retornaram ao armazém, de onde Severo rumou para o seu barco.
Para justificar a indesejável presença a bordo das duas, Severo mostrou ao capitão do seu navio o testamento que lavrara, quando da morte de Mendonza.
Disse-lhe também que a criança não podia mais ficar na Espanha, onde estava à míngua.
Da Colónia, na primeira oportunidade, providenciaria que fossem recambiadas para Portugal.
Àquela época era grande o respeito pelo cumprimento de testamento lavrado à morte de alguém, sendo imperdoável falta o descumprimento das suas cláusulas.
E naquele, Severo comprometera-se a prover a família de Mendonza.
Alterando do entendimento da verdade, declarou que prometera ao moribundo entregar aos herdeiros a sua parte dos bens amealhados.
— E os bens estão na Colónia — mentiu.
Na travessia atlântica, com a desculpa de que estaria a ministrar remédios a Consuelo, Severo conseguia furtivos encontros com Veridiana.
Furtivos, mas nem tanto alheios à tripulação, que via naquilo grave risco de problemas na viagem, pois, mulher a bordo era proibido, segundo leis marítimas, não oficiais, mas obedecidas com rigor, face a crendice de que seu desrespeito poderia trazer infelicidades.
Faltando duas semanas para aportar na Colónia, alta noite, todos foram acordados por Severo que, do convés, aos gritos, anunciava ataque pirata iminente.
Ao alvoroço decorrente, seguiu-se a raiva daquilo ter sido um falso alarme.
— Excelência — repreendeu-o o capitão — não se acorda os marujos desse jeito, senão sim tocando o sino de combate.
— Mas eu vi piratas na amurada do navio...
— Ora, pois: sua excelência teve assaltos da consciência, pelos desgostos que a viagem vem nos causando...
— Desgostos...?
— Sim: não quero e nem o faria, desrespeitar sua excelência, mas está atravessado nos homens o facto de irmos a Espanha antes de para cá rumar, sem que isso tivesse sido anunciado.
E, mais grave, trazer mulher para bordo...
— Mas, homem, o testamento...
— “Dom” Severo, sejamos francos, pois de uma hora para outra os piratas podem nos matar e não será bom chegar junto ao Bom Criador com falsidades ou mentiras:
todos, a bordo, sabem da sua união marital com a viúva.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:26 am

Sem qualquer possibilidade de defesa, mas também sem pudor, Severo usou o forte argumento dos fracos:
— Cada marujo desta expedição receberá salário em triplo, quando chegarmos ao Porto do Rio de Janeiro.
Ao se espalhar a notícia de tal prémio, de todo inesperado, o mal-estar geral dissipou-se, quais as brumas que o Sol espanta.
Mais uma vez o ouro, em equivocada utilização, era agente e testemunha activa de descaminhos morais, colectivos...
Na noite seguinte, novo acontecimento viria trazer permanente intranquilidade para toda a expedição: nem bem todas as estrelas já estivessem à vista, Severo, recolhido ao seu aposento, começou a gritar assustadoramente:
— Não roubei nada!
É tudo meu!
“Outro acesso do intendente-mor de el-Rei, provocado pelas almas penadas”, tais os comentários dos marujos.
Acorreram o capitão e alguns auxiliares.
Postados do lado de fora, hesitavam em arrombar a porta, trancada por dentro.
De instante a instante ouviam frases desconexas, sempre em gritos tormentosos:
— Nunca! Nunca! o ouro é de el-Rei... e meu.
...
— Sua mulher? Ela agora é minha! Muito minha.
...
— Já ajudei... já ajudei... estou levando as duas para um lugar melhor... não te traí... não te traí... nem te tomei nada.
Sem dificuldade, o pesadelo de “dom” Severo foi interpretado pelos homens rudes do mar como sendo uma vingança de um morto:
aquele que fora marido e pai, respectivamente, da mulher e da criança a bordo.
Não interferiram.
Os outros navios do comboio logo tomaram conhecimento daquele fato, pois houve contacto com eles, para troca de relatórios de viagem.
Ao amanhecer, como “dom” Severo não respondesse aos chamados do capitão, este ordenou arrombamento.
Encontraram-no com as feições alteradas, olhos esgazeados, suor abundante e roupas em desalinho total.
Certamente não dormira nem um instante.
— Sua excelência quer um caldo quente?
Severo olhou para sua caixa de objectos pessoais e qual um animal arisco, de um salto alcançou-a:
— É meu! É meu!
Já cumpri minha promessa!
Os homens saíram de soslaio, ficando apenas o capitão:
— Excelência, venha respirar a manhã e tomar um caldo.
— Daqui não saio: eles querem me roubar...
— Ninguém irá roubar seu ouro — ousou o capitão, com objectividade.
Severo olhou-o demoradamente:
— Nem sua senhoria, nem sua senhoria!
Mato-o, antes.
Percebendo que aquele homem estava “sob ataque do mal” e que, pelas regras do mar, enquanto assim estivesse não era mais dono de sua identidade, agiu segundo essas regras: determinou a três robustos marujos que subjugassem “o possesso” e que o prendessem firmemente em seu leito, com grossas tiras de couro.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:26 am

A seguir, o capitão convocou Veridiana:
— Teu patrão está sob ataque das almas penadas e tu deverás cuidar dele...
— Pela Santa! Tenho medo!
— Todos temos, mas a obrigação é tua.
— E minha filha?
Quem cuidará dela?
— Não te preocupes:
será alimentada pelos homens.
— Eu... eu... não sei cuidar de possessos.
— Pois aí está óptima oportunidade para aprenderes, já que é por tua causa que tudo isso está acontecendo com sua excelência.
— Por minha causa? O que fiz?
Pela Virgem, capitão, juro que sou inocente.
— Sou um homem justo e sei que a carne é fraca.
Por isso mesmo é que não te denuncio aos padres, que te endereçariam à fogueira redentora, nem determinei que te atirassem ao mar: sendo inocente, como pareces, será tua a obrigação de pacificar a alma penada, que outra não é, pelo que suponho, a do teu marido.
— Meu marido?! Oh, Deus!
Ele morreu, lá na Colónia...
— E com muito ouro...
Agora quer o ouro que é dele.
— Almas não podem pegar ouro.
— É verdade, mas tu podes:
entendas-te com teu marido.
Ele te deixou ouro e quer que tu tomes posse.
Veridiana exultou ao ouvir as últimas palavras do capitão.
Mais uma vez, o fascínio do ouro, despertando a cobiça humana, dissolveu a razão, anulou o instinto de conservação e incendiou aquela mente com sonhos de poder, ao projectar devaneios que só a riqueza poderia ofertar.
Já vencendo o medo, Veridiana mudou de atitude:
— Se o senhor está mandando... só me resta obedecer.
O capitão, homem experiente, de pronto percebeu a súbita submissão da mulher.
Conduziu-a aos aposentos de Severo e trancou-os lá, de onde só sairiam se tudo voltasse à normalidade.
Senão...
Veridiana e Severo olharam-se, demoradamente.
“Por séculos”.
Subtil, extremamente subtil, a mulher aproximou-se.
Rosto a rosto, sussurrou:
— Então, meu senhor:
ele quer roubar o “teu” ouro?
— Não conseguirá.
Já morreu! É tudo meu!
— Isso mesmo:
vou ajudá-lo a vigiar.
Ninguém te roubará.
Sob delicadas carícias, Severo adormeceu.
Veridiana, então, fez o que ninguém jamais se atrevera a fazer:
abriu a caixa de pertences do intendente-mor de el-Rei e com surpresa viu nove barras de ouro, de mais ou menos um quilo, cada.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:27 am

Por três dias tratou dele com esmero e paciência.
Tamanho era seu interesse em curar “dom” Severo, que quase não se alimentava, nem dormia.
Passou a ter medo que os marujos roubassem “todo aquele ouro” se “eles” (Severo e ela) dormissem.
Ouro que, considerava, por herança deixada por Mendonza, deveria haver muito mais lá na Colónia.
Era só ela dar um jeito de chegar às minas e avaliar o quanto o marido houvera minerado...
E exigir sua parte.
Assim, da cura de “dom” Severo dependia seu futuro... e sua fortuna.
Aconteceu o que ninguém jamais poderia sequer suspeitar:
Severo, pelo menos na aparência, recuperou-se, deduzindo-se que se livrara do “inimigo do outro mundo”.
Só que, Veridiana, ela mesma, por sua vez, sem defesas orgânicas pela falta de cuidados e alimentos que a pobreza lhe impusera por tantos anos, sob a tensão daqueles dias, quase sem dormir, adoeceu.
E, facto grave:
foi acometida de escorbuto.
“Dom” Severo, já liberto das amarras de couro que o prendiam à cama, assistiu, algo impassível, Veridiana ser conduzida ao porão do navio, onde permaneceria em isolamento.
Para agasalhar-se, deram-lhe alguns pedaços de velas gastas, guardados para eventuais remendos nas que rasgassem.
Os marujos, por pequeno alçapão, davam-lhe água, alimento e principalmente limões, estes, para combater o terrível mal.
Passou ela a ter delírios e a gritar, estentoricamente:
— Eu sou a herdeira!
Sim, sim, Mendonza, o ouro é seu e meu e ele nos roubou!
Vamos acabar com ele!
Dois dias após ser isolada, só recebendo suco de limão e água, o estado de Veridiana agravou-se.
O desenlace estava próximo.
Passou a clamar pela presença de Severo, implorando-lhe:
— Senhor Severo, senhor Severo: dê-me a mão.
À beira da insanidade, clamava:
— Minha filhinha, minha filhinha, quero vê-la...
Não foi atendida: em nenhum instante Severo desceu ao porão ou sequer na abertura do tombadilho, para olhá-la. Passava quase que todo o tempo trancado em seu aposento.
Três dias após, Veridiana desencarnou, sem ver a filha.
— “Dom” Severo, “dom” Severo:
por favor, excelência, abra.
Aberta a porta, o olhar do capitão falou por ele.
— Já sei: a mulher morreu...
— Sim, excelência:
encomendamos a alma ao Salvador e entregamos o corpo ao mar.
O resto da viagem, para todos daquela excursão, há de ter sido um dos mais penosos períodos na vida de quantos homens que, desde sempre, fizeram do mar o seu ganha-pão e às vezes até mesmo o seu lar.
Faltou pouco para os homens dos outros navios se amotinarem.
Também eles se acalmaram em parte quando “dom” Severo prometeu-lhes soldo triplicado.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 8:58 am

Chegando à Colónia, Severo cumpriu a promessa.
Ao capitão, em particular, aquinhoou-o com mais, sob a condição de “esquecer” o que se passara naquela infausta travessia.
Restou um problema agudo: Consuelo.
Problema para Severo:
o que fazer com aquela criatura tão doente?
Pediu ao governador para arranjar uma família para cuidar da menina, mas a autoridade, com muito jeito, declinou:
— Até atenderia vossa excelência, mas já fiz algumas consultas a respeito e a mim me parece que nenhuma família a receberá.
— O que faremos então com ela?
O “faremos” era uma tácita divisão de responsabilidade, facto que desagradou sobremaneira ao governador.
Que logo se acalmou, ao ouvir do intendente-mor:
— El-Rei mo comissionou para administrar as minas, sendo fato que as despesas decorrentes, dúvidas não padecem, serão ressarcidas com o bom ouro delas...
No dia seguinte, Consuelo estava sob hospedagem de uma família de tropeiros, que mantinha uma pequena propriedade nos arredores, onde alguns homens tratavam de animais que eram comercializados.
Desembaraçado de tão pesado fardo, Severo organizou expedição rumo à Vila Rica e em uma semana partiu, levando a expressiva quantidade de mercadorias que trouxera da Europa.
Conhecendo bem aqueles caminhos, já tantas vezes percorridos, e sempre convocando tropeiros de sua confiança, alguns deles participantes de excursões anteriores, chegou ao destino na metade do tempo que gastara, quando da primeira vez.
Encontrou Henrique bastante modificado:
havia crescido e encorpado, barba hirsuta, longa cabeleira e tez queimada.
Mãos grossas, calejadas.
Era outro, o seu Henrique!
Em tão pouco tempo: quando viera de Portugal era um rapazote, agora era um homem!
Sentiu imenso orgulho do filho.
Horas mais tarde, saindo a passeio com ele, antes do anoitecer, buscou a privacidade necessária para inteirar-se das actividades e providências tomadas na sua ausência.
Em suma, estava ávido por saber quanto ouro havia sido colhido.
Após inventariar sobre a mineração naquele espaço de tempo, Henrique surpreendeu o pai:
— “Dom” Severo...
O senhor ficou livre dos pesadelos?
Severo sentiu que o coração quase parou de bater, como que querendo sair do peito.
Não conseguiu articular palavra.
— Então, meu pai, o que o senhor me diz?
— Como é que tu — gaguejou — vieste a saber disso?
— O Tengegê foi algumas vezes até o seu navio...
E viu o senhor Mendonza agredindo-o...
Severo não acreditava no que ouvia.
Era espantosamente impossível que aquilo tivesse acontecido.
Mas a verdade é incoercível e jamais, em tempo algum, permanece submersa o tempo todo.
De um jeito ou de outro, emerge. Sempre!
— Mas, como é possível?
— Ele tem ou usa um dom que os orixás emprestam para que ajude aos outros.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 8:58 am

Uma tarde, há uns três meses, disse a ele que estava preocupado com o senhor, pois eu sentia um aperto no peito quando pensava na sua viagem.
De repente, o Tengegê deu um pinote maluco e passou a falar com uma voz estranha.
Severo já tinha visto cena semelhante...
— Tu te lembras do que ele dizia, então?
— Não sei explicar ao senhor, mas o Tengegê não era mais o Tengegê e sim, um menino chamado Gangê.
Esse tal de Gangê mo esclareceu que falava pelo corpo do Tengegê.
Aí disse que o senhor estava amarrado numa cama com cordas de ouro e que o dono das cordas, o “sinhó Mendonza”, estava apertando cada vez mais...
— Cordas de ouro... ou de couro?
— Ele disse que as cordas de couro prendiam seu corpo, mas que as cordas de ouro sufocavam-lhe a alma...
— Disse mais alguma coisa?
— Não sei se devo...
— Exijo que mo contes tudo!
— Bem, meu pai, disse que o sinhó Mendonza o estava acusando de ser ladrão duas vezes:
do ouro e da mulher dele...
— Socorram-me os Santos do Céu:
isso só pode ser um pesadelo.
Não há explicação para isso, a não ser, magia negra.
Henrique captou que tudo aquilo tinha mesmo acontecido:
— Sabe, meu pai, também pensei isso, mas conhecendo o Tengegê como conheço, e lembrando de como esse tal de Gangê salvou-me a vida, da mesma forma como contou sobre sua viagem, não é possível que seja mau e que nem essas coisas sejam magia negra.
Aliás, se o senhor mo permite, o Gangê, mais ou menos uns dez dias após esse diálogo comigo, voltou a contar que a mulher do “sinhó Mendonza” agora estava abraçada com ele, isto é, tinha morrido...
— Mal posso acreditar.
Mais alguma coisa existe?
— Sim: o Gangê recomendou-me que fizesse orações aos “meus” santos e que ele faria aos orixás “dele”, em defesa do senhor...
— Defender-me?!
De quê, meu Deus?
— Do casal:
os dois juraram vingança contra o senhor.
Por três dias pai e filho não tocaram mais naquele assunto.
Em Severo, uma ideia nebulosa a princípio, mas que pela persistência se aclarou, tomou vulto em sua mente: o desperdício do ouro a ser dado aos escravos...
Sim: o que importava a eles, escravos, retornarem ao selvagem continente africano, se na Colónia estavam mais seguros?
Para que gastar uma fortuna com aquela despropositada repatriação?
Tais pensamentos martelavam-lhe o cérebro, dia a dia.
E outros ângulos negativos surgiam:
e se el-Rei viesse a saber que ele dera ouro aos escravos?
Como esconder isso da Pátria, ele que lhe era guardião?
Certamente ele e a família sofreriam...
Passou a temer a morte, pois, se acusado de desviar ouro de el-Rei, seria taxado de alta traição.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 8:59 am

E traidores, antes de tudo, eram pecadores imperdoáveis, “cúmplices do mal”, cujas almas só encontrariam salvação ao lhes serem postos os corpos nas fogueiras do Santo Ofício.
Taciturno, cada vez mais ensimesmado, “dom” Severo passou a percorrer as várias concessões que fizera em nome de el-Rei, inspeccionando as actividades mineradoras.
Passou a agir com mão de ferro, isto é, guarnecido de um reforçado pelotão de guardas, bem armados, interrogava serviçais das minas, descobrindo não poucas falcatruas.
— “Lesa Pátria”!
Essa, a terrível invectiva que Severo bradava, apavorando aos donos das minas ou das “faisqueiras” que fossem pilhados “em burla à Sua Majestade”, ocultando ouro, para eximirem-se do “quinto”.
Na primeira vez, a punição era pagar o dobro do devido tributo...
Na segunda, a concessão era anulada e o responsável expulso daquelas terras, não devendo a elas jamais retornar.
Essas “multas”, Severo não as consignava em relatórios.
“Pertenciam-lhe”, julgava.
Roubos entre mineradores, não raro precedidos de assassinato, quando identificados os ladrões, eram sumariamente fuzilados.
O terror espalhou-se de vez naquelas perdidas paragens, pois “notícias ruins” andam mais depressa que os ventos das tempestades.
Outro ano transcorreu.
Nova quantidade de ouro estava armazenada.
A ideia de “desaforriar” Tengegê e seus companheiros, há tempos alimentada por Severo, só não fora ainda posta em execução ante a revolta que certamente eclodiria, com graves prejuízos.
Decidiu: agir com a sinuosidade da serpente, a esperteza da raposa, a cautela da onça e a astúcia dele próprio, o precioso e “nobre” intendente-mor.
Absorto em tais pensamentos deu uma volta pela sede.
Ele que pensara em animais não se deu conta que:
- seguia-lhe um humilde cãozinho vira-lata, fazendo-lhe festas, desinteressado de qualquer alimento, apenas por boa índole;
- num terreiro, várias pombas, catando eventuais migalhas, arrulhavam, namorando-se vivazes;
- sequer ouviu um sabiá cantando apaixonado nas grimpas de uma frondosa mangueira;
- uma gata modorrenta, junto à tosca cerca, amamentava seus cinco filhotes;
- perto da gata, um boi ruminava pacato, leccionando calma.
Não viu nada disso: só pensava em cobras, raposas e onças...
Chamou Tengegê:
— É chegada a hora de vocês partirem...
O jovem sorriu com imensa alegria, logo lhe vindo à tona lágrimas de felicidade.
Não conseguia responder.
— Já planeei seu retorno.
Só temos que acertar as contas com o dono do navio.
— Sim sinhó...
Sim sinhó.
— Quero que você me dê todo o ouro que guardou, pois teremos que fazer as coisas com extremo cuidado.
Se el-Rei vier a saber que vocês guardaram ouro da Pátria, terão que ser todos fuzilados...
— O sinhó também?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 8:59 am

A pergunta foi feita com incrível senso de lógica.
Severo, mesmo estando preparado para qualquer eventualidade, vacilou:
— Por que...
Eu “também”?
— Pois, se temos o ouro, alguém há de nos ter dado...
— Por isso é que precisamos agir com o máximo cuidado.
— Mas, meu sinhó, fizemos um trato, o ouro que temos dá para pagar a viagem e sobrar, para nós refazermos nossas vidas lá nas terras onde nascemos...
— Sei disso.
Não me esqueci.
Mas deixe seu ouro comigo e quando chegarmos lá eu entrego a vocês o saldo.
Se o ouro for visto por alguém com vocês, serão acusados de roubo.
E isso el-Rei não perdoa...
Tengegê captou que para ele e seus amigos não havia alternativa:
teria mesmo que entregar todo o ouro ao sinhó. Fez isso.
Em pepitas, bem acondicionado em sacolas de couro, quase trezentos quilos de ouro passaram das mãos dos escravos para as de Severo.
Suficiente para a viagem de ida e volta e ainda sobrar.
O intendente-mor, conforme planeara, dividiu em dois grupos os cinquenta ex-escravos, aos quais há tempos alforriara, aí se considerando os companheiros de Tengegê e outros mais, comprados por Zangigi.
O primeiro grupo seguiria breve com ele e o segundo, iria na próxima viagem.
Sendo essa a forma encontrada para não despertar suspeitas.
Tengegê e seus companheiros foram mesmo forçados a aceitar tal condição.
— Ficarei com os amigos do segundo grupo — disse altaneiro ao sinhó Severo, arrematando incisivo:
primeiro irão as mulheres, as crianças e os mais velhos.
— Isso será feito porque era isso mesmo que eu decidira...
Quando a expedição partiu da Vila Rica, comandada por Severo, Henrique foi junto.
Tengegê recebeu a incumbência de zelar quanto à dedicação dos companheiros africanos, respondendo com a vida por qualquer dano à Coroa portuguesa.
Os vários administradores aos quais “dom” Severo delegou competência para administrar a Vila Rica em sua ausência receberam também ordens de agir com rigor, quanto à fiscalização de tudo por ali.
Essa foi a primeira vez que a expedição, partindo da Vila Rica, levava escravos.
O mesmo, depois, quanto ao comboio comandado por Severo, que deixou o porto do Rio de Janeiro rumo a Lisboa, com muito ouro... e escravos.
Ao espanto que isso causava em todos, o intendente-mor justificava dizendo que os negros iriam para Portugal, onde seriam serviçais de várias famílias, a cujas encomendas estava atendendo.
E assim foi feito:
o comboio passou ao largo da África.
Tendo os negros sido bem tratados, essa foi talvez, uma das raríssimas travessias marítimas em que não houve “perdas em trânsito”, como se dizia da morte dos escravos, conduzidos nos trágicos navios negreiros, popularmente também denominados “navios de danação”.
Em Lisboa, o ouro foi descarregado e entregue à Sua Majestade.
Os negros alforriados seriam conduzidos para a “Quinta dos Favos”, onde deveriam permanecer trabalhando, à espera dos companheiros do segundo grupo.
Esse o magistral golpe de Severo:
levar os escravos para suas propriedades, iludindo-os quanto ao futuro...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 8:59 am

Com isso, contentara os que ficaram na Colónia, obtivera mão de obra gratuita e com facilidade poderia descartar eventuais descontentes, tanto de um, quanto do outro grupo.
O que ninguém contava é que os rumos da vida, insondáveis quase sempre, causam mesmo grandes surpresas.
E, como já dissemos, algumas boas, mas quase sempre, no mínimo, desconfortáveis.
Tivessem mais fé, todas as criaturas acatariam com naturalidade os acontecimentos inesperados, creditando-os à Sabedoria de Deus, que invariavelmente, de todos eles, principalmente dos tristes, faz resultarem benefícios.
Quando Severo desembarcou na Capital e entregou o ouro em palácio de el-Rei, foi recepcionado com honrarias jamais sonhadas.
Em êxtase, eufórico, sorvia em goles demorados o precioso licor da glória e da fama.
Sua Majestade convidou-o a “ficar em palácio” por três dias, como hóspede mui ilustre, para receber comendas.
“Dom” Severo respondeu ao nobre palaciano que foi o portador do convite real:
— Peça a nosso Rei permissão para eu ir buscar minha família, pois quero para os meus a bênção real.
— Mas, excelência...
Vossa família partiu...
— O quê?
— Então, não sabeis?
Há duas semanas a ilustre senhora Antónia e as vossas duas juvenis filhas vieram à Capital e por intercessão do senhor Valdeiro, conseguiram autorização real para irem se encontrar com vossa excelência, na Colónia.
— Mas, homem: como é que partiram?
E a “Quinta”?
Quem ficou responsável?
Não é possível:
deves estar enganado.
O silêncio do interlocutor confirmou tudo.
Contrariado e aflito, Severo despediu-se dele e ia já a alguma distância, quando ouviu:
— Vossa excelência irá a palácio ter com el-Rei?
— Nunca faltaria!
Voltou ao porto e narrou a Henrique a mudança da família.
Encarregou-o de permanecer ali, “tomando conta” dos escravos, até ele ir à “Quinta dos Favos” para apurar melhor o que de facto sucedera.
Chegando à sua propriedade, de repente, Severo deu-se conta que toda aquela imensa porção de terra, os vinhedos, as instalações, a casa e tudo o mais, nada representavam para ele, sem a família.
Empregados estranhos ali se movimentavam, sem que ele sequer fosse recepcionado por nenhum deles.
Quando ia entrando, na sua bela carruagem, notou que era olhado com desdém.
Ao estacionar, encaminhou-se para a entrada e nem chegou a por os pés no primeiro degrau de acesso à varanda, sendo interceptado por um estranho:
— Senhor:
não está o proprietário.
— Não mo diga:
não sabes quem sou eu?
Como te atreves a me impedir de entrar na minha casa?
— A propriedade agora é do senhor Valdeiro...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:00 am

— Ah, é?
E desde quando?
— Comprou-a da senhora dona Antoninha.
— Não acredito:
minha mulher não faria uma coisa dessas sem minha ordem.
— Oh, então o senhor deve ser... o intendente-mor... mil perdões, excelência, mil perdões... não o conhecia ainda, pessoalmente.
— Pedes-me dois mil perdões: dou-te apenas um.
Agora, conte-me direito essa história do compadre ter comprado minha Quinta.
— Sou apenas o humilde administrador.
Nada sei.
Severo, dali mesmo foi directo à propriedade de Valdeiro, a quem passou a considerar duplo traidor:
primeiro, delatara sobre o ouro escondido em rapaduras, a Joaquim; agora, comprara a propriedade, sem sequer consultá-lo. Imperdoável!
Recebido por um serviçal, teve que aguardar dez torturantes minutos, antes que o “traidor” se dignasse atendê-lo, em audiência.
Valdeiro, vindo de uma dependência contígua à grande sala de visitas olhou-o fixo.
Não estava com ninguém.
Demorara de propósito, para melhor estudar a reacção do compadre, a quem saudou:
— Ora viva!
Que apareces, então?
— Vou dizer-te o que me traz:
com que então compraste minha Quinta, sem mo consultares?
Quero ouvir de tua boca esse despautério.
— É verdade... é verdade, mas não foi despautério nenhum:
dona Antoninha estava decidida e, inclusive, informou-me que tu mesmo querias vender a Quinta...
Levamos o caso a el-Rei e Sua Majestade autorizou-me comprar a “Quinta dos Favos”.
Agora, se isso te perturba, podemos procurar el-Rei e requerer que desfaça a autorização real.
Devolvo-te toda a propriedade e tu me devolves o que por ela paguei.
Severo atordoou-se.
Jamais poderia supor tamanha surpresa.
Ladino, Valdeiro contemporizou:
— Deves pensar que te trai, com teu ouro na adega e agora, comprando-te a Quinta, em tua ausência, pois não?
— E não?!
— Não: embora o Joaquim tenha feito os buracos na tua adega, agora minha, na verdade, o culpado de tudo foi teu filho:
quando Joaquim contou-me do rapto de Quintino, nada disse a ele do teu ouro; acontece que ele sabia que o tinhas, pois o Henrique viu-nos naquele dia e contou à tua filha Carlota:
esta deu com a língua nos dentes repassando o facto ao Quintino, que ao ser sequestrado, contou aos piratas e estes, ao Joaquim.
Como vês, esse terrível tombo de dominó, iniciou-o o teu filho Henrique.
— Concedo, quanto às “rapaduras”.
Mas, e a venda da Quinta?
O que deu na Antoninha para fazer a loucura que fez?
E tu, que tiveste a ver com isso tudo?
— Não foi loucura:
convocou-me e se pôs a desabafar:
em primeiro lugar, não suportava mais tua ausência; em segundo, com Joaquim e Quintino presos, a senhora Verona vivia atormentando-a, fazendo escândalos, inclusive, acusando-te de carrasco do marido e do filho; chegou a um ponto em que tua filha Carlota uniu-se à mãe de Quintino, pondo em risco a união da tua família, eis que Julialva, tua caçula, diante de tantos tormentos, adoeceu dos pulmões e a custo superou grave crise.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:00 am

Somando tudo isso, a senhora Antoninha decidiu que indo para a Colónia, para estar contigo, a família voltaria a se unir.
Carlota tinha certeza absoluta que tu providenciarias a soltura do noivo e futuro sogro.
Pretende ela morar na Colónia após casar-se, indo mesmo para longe daqui, onde só lhe restam tristes lembranças.
— E posso saber quanto pagaste pela Quinta?
— Sua Majestade arbitrou e a mim só me coube indemnizar.
— Quanto?
— Mais moedas de escudos do que os cachos de uva de um ano todo...
— Quando minha família partiu e em que navio?
— Há cerca de cinco semanas, no “Rosa dos Mares”.
Severo saiu dali sem se despedir, rompendo em definitivo com Valdeiro, por não se convencer de que ele lhe fora sincero ou amigo. Foi directo ao palácio real. El-Rei não poderia atendê-lo, porém designou o tesoureiro-mor para “dispensar a “dom” Severo tudo aquilo que o leal intendente-real solicitasse”.
— Quero que o senhor Valdeiro devolva a “Quinta dos Favos”, pois foi negociada sem meu consentimento, quando estava ausente a serviço de Sua Majestade.
— Oh, então é isso... — o tesoureiro sorriu e pousou a mão no ombro de Severo, aduzindo:
— Valdeiro não comprou a “Quinta dos Favos” sem teu consentimento.
Ao contrário:
há mais de ano concluímos um grande acordo internacional com a Inglaterra e Valdeiro, nosso segundo vinhateiro, depois de ti, que és o primeiro, fez parte da comissão real que acertou os termos do contrato.(*)
— Não estou entendendo:
o que tem a ver minha Quinta com a Inglaterra?
— Não é a tua Quinta que tem a ver com a Inglaterra: é a Pátria!
— ?!
— Desde que Portugal assinou acordo com a Inglaterra, as coisas mudaram por aqui:
1° - os ingleses passaram a ser os guardiães marítimos de todas as naus portuguesas, em todos os mares do mundo;
2° - o transporte de escravos africanos para a Colónia, ficou sob integral responsabilidade deles;
3° - nossos vinhos, desde então, têm prioridade de compra pelos ingleses, lá adentrando com reduzidas taxas alfandegárias, menores daquelas que pagam os vinhos de Espanha e Itália...
Fazendo pausa, logo completou:
— Percebes?
Toda a nossa produção vinícola está sendo comprada pela Inglaterra, homem!
Achas isso pouco?
— Mas, o que a Inglaterra vem lucrando em escoltar os navios portugueses e ainda por cima comprar nossos vinhos?
— Não captas?
Para compensar, em contrapartida, somos clientes compradores preferenciais dos produtos têxteis deles, além de outros manufacturados.
E cá estão chegando às toneladas!
— Escolta, tecidos e manufacturados valem muito mais que nossa produção de vinhos...
Um dia vai faltar dinheiro para a indemnização...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:00 am

— És bom matemático:
justamente por também termos feito esta conta, sugerimos a el-Rei que as vinhas fossem incentivadas a produzir mais vinho... e aí é que Valdeiro citou a “Quinta dos Favos”...
— Citou? Para quê?
— Quando os ingleses cá vieram quiseram ver e inspeccionar uma produção vinícola em actividade.
A tua, de longe, sempre foi a principal.
Assim, nós os levamos lá e como não estavas, pedimos a Valdeiro que fosse o cicerone.
Portou-se ele como se dono fora, informando, contudo, que assim agia por tua delegação.
Os ingleses gostaram do que viram e sabedores que não mais estavas à testa da produção, questionaram el-Rei a respeito.
— E o que disse nosso Rei?
— Agindo com a sabedoria de sempre, comprometeu-se a, pessoalmente, incrementar a produção.
Decorridos estes anos, sem ti à frente da vinícola, estávamos mesmo propensos a sugerir-te que a transferisse.
Nesse ínterim, sempre pensando em ti e em tua família, da qual se fez tutor desde que foste para a Colónia, considerando ainda que dona Antoninha vinha se queixando de tua ausência, sinalizando vontade de ir ter contigo, o mesmo se dando com tuas filhas, sugeriu que Valdeiro comprasse e gerisse a “Quinta dos Favos”.
Patrioticamente, ele, Valdeiro, acatou a solução real.
O resto, tu já sabes:
a venda foi consumada, oficialmente.
Como que se lembrando de algo, o tesoureiro-mor completou:
— Ah, ia me esquecendo:
o dinheiro pago pela tua Quinta, há tempos, está nesta tesouraria real, à tua disposição.
— Como assim?
E com que dinheiro minha família viajou?
— Tua mulher agiu com prudência:
não quis levar tal importância na viagem que faria ao teu encontro:
utilizou o suficiente para a viagem de ida e volta, de forma que quando tu viesses a Lisboa poderias concordar com a venda ou devolver o dinheiro ao senhor Valdeiro.
— Primeiro, conversarei com minha família e depois decidirei.
Desorientado, Severo retornou aos navios atracados no porto, nos quais os ex-escravos ainda estavam alojados, sob supervisão de Henrique.
No seu aposento, que determinara ser mantido trancado, havia muito ouro, que reservara para sua posse.
Adentrou, conferiu a fortuna, embriagou-se e dormiu até alta madrugada.
Despertou com a mente confusa, levantou-se e sem saber as horas.
Permaneceu andando de lá para cá, por longo tempo, tentando recompor os factos que de forma tão drástica alteraram sua vida.
Recostou-se para voltar a dormir.
Alguns minutos se passaram e sem saber se estava acordado ou dormindo, sentiu um hálito quente bafejar seu rosto.
Não se mexeu, presa de pavor.
Viu-os:
o capitão-pirata, sequestrador de Quintino, com vários marujos, os três ladrões que expulsara da Vila Rica e que morreram à míngua nas matas, além dos que mandara fuzilar.
Todos se acercaram do leito e sem dizer palavra, apontaram-lhe o indicador.
Gesto terrível!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:01 am

Dez pessoas, de ar sombrio, com olhar vingativo, apontando-lhe o indicador, transformaram seu aposento num imenso tribunal, onde havia um único réu: ele!
Quis gritar, mas a garganta não obedeceu.
Quando o “grande júri” do além se desvaneceu Severo ficou, agora todo ele, como que petrificado, imóvel, até o amanhecer, que não tardou.
Tinha consciência plena da visão e do significado:
aquelas almas, inquilinas do inferno certamente, vinham em busca de duas coisas: vingança e ouro.
Quanto à vingança, se armaria para defesa; quanto ao ouro, não o levariam! Reforçaria a guarda.
Deixou o navio e dirigiu-se à igreja mais próxima, onde confessou, narrando ao confessor que ladrões da Pátria tinham sido justiçados por sua ordem.
Foi indultado pelo padre.
A seguir, assistiu à missa, tomou a hóstia e assim, estando “quites com o Céu”, nada tinha a temer das almas penadas.
Acalmou-se.
Reflectiu, durante todo o dia e concluiu que talvez fosse melhor mesmo mudar-se em definitivo para a Colónia, onde a filha mais velha talvez se libertasse da lembrança do noivo prisioneiro, além, sobretudo, de reagrupar a família, que iria residir na cidade do Rio de Janeiro.
Esteve com el-Rei, deslumbrando-se com as homenagens reais que lhe foram prestadas.
Envolvido, participou dos salamaleques palacianos, vazios de conteúdo, plenos de futilidade.
Levou um grande susto quando el-Rei inquiriu-lhe:
— Tens escravos a bordo e não os desembarcaste?
— Levo-os à Colónia.
Comprei-os há pouco — mentiu, aduzindo:
serão úteis na cata do ouro de Vossa Majestade.
De volta ao navio, o grande problema:
o que fazer com os escravos?
Qualquer passo em falso e poria tudo a perder, com eles e com el-Rei.
Chamou Zangigi, chefe do grupo e expôs os factos, à sua moda:
— Só há duas alternativas para vocês:
ficarem aqui, como trabalhadores nas vinhas ou retornarem comigo à Colónia, onde se reagruparão com os que lá ficaram, aguardando ocasião de voltarem para sua terra, todos de uma só vez, prometo-o!
— Por que o sinhó não passa agora na nossa terra e nos deixa lá, como o combinado desde o início da nossa viagem?
— Porque el-Rei não permite que escravos voltem.
Alguém delatou a presença de vocês.
Tive que mentir, dizendo que comprei-os, há pouco.
Assim, não posso chegar à Colónia sem vocês, a menos que fiquem trabalhando aqui e com outro sinhó...
— Sinhó — disse-lhe Zangigi, humilde:
já conhecemos o sinhó e não queremos ficar aqui, onde nada temos, ninguém nos conhece.
Voltaremos com o sinhó, já que temos sua palavra que vai nos ajudar no retorno para nossa terra.
Quando chegarmos na Colónia vamos nos unir aos que ficaram e em seguida seguir todos juntos de volta para nossa terra.
Alugaremos um navio só pra isso e o sinhó espalha que fugimos e não foi possível nos capturar.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:01 am

— Óptimo: sua decisão é a mais sábia.
Severo mandou um recado lacónico para o compadre Valdeiro:
“À Quinta dos Favos não retornarei, eis que minha família me é mais importante e não a quer mais.
Que as safras te sejam prósperas, para o bem da Pátria.
As minhas rapaduras, aquelas mesmas do género que tu de princípio não apreciaste, recolhi-as todas de onde bem armazenadas estavam, pois apetitosas me sabem...
A sociedade que de princípio te propus fica sem efeito.
Recomendações gentis a excelentíssima família,
Do compadre que te estima, Severo”.
Assim, em menos de duas semanas, “dom” Severo, com grande quantidade de equipamento, víveres, vinho, rum, roupas, calçados e armas, fez retornar seu bem defendido comboio à Colónia.
De novo, os africanos foram bem tratados...
Mas eis que uma passageira não convidada acompanhou-os, tomando o rotineiro assento da morte, ainda dessa vez ausente.
Essa companhia, constante durante toda a viagem, era a tristeza, ao verem adiada a tão sonhada volta.
____________________________
(* )A referência é ao célebre “Tratado de Methuen”, celebrado em 1703, pelo qual a Inglaterra abriu a importação de vinhos portugueses, taxando-os com apenas um terço do tributo cobrado aos vinhos franceses, então, os maiores concorrentes dos de Portugal.
Por esse Tratado, Portugal se solidarizava à Inglaterra, Áustria e Holanda, os quais, aliados políticos, apoiavam a monarquia dos Habsburgo contra os Bourbon, na guerra espanhola da sucessão.
Se por tal Tratado Portugal, ficou livre da ameaça da dominação franco-espanhol, enredou-se inapelavelmente à Inglaterra, tornando-se-lhe dependente financeira.
Com efeito, a Inglaterra passou a ser fornecedora de seus produtos têxteis a Portugal, impedindo-o de desenvolver-se.
O Tratado de Methuen seria extinto em 1840, quando a estagnação no desenvolvimento industrial português já era praticamente irreparável.
Há historiadores que debitam o início da dívida externa brasileira a essa fase, pois que em decorrência da Independência do Brasil (1822), a Coroa portuguesa transferiu para o país recém-liberto, o ónus que acumulou enquanto Colónia lusitana, pelas centenas de navios negreiros ingleses que nela descarregaram escravos africanos, até início do séc. XIX.
O governo britânico aboliu a escravidão em 1807 e desde então passou a pressionar os demais países a fazerem o mesmo, no Atlântico.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:01 am

9 - Cobiça: veneno da alma
Já entendendo algo de navegação, Severo conseguiu de el-Rei que seus navios fossem equipados de velas novas, para navegar mais rápido e com mais segurança.
A grande quantidade de carga que transportavam os navios, também autorizada por Sua Majestade, era de fundamental importância para o presente que periodicamente o intendente-mor trazia para el-Rei: ouro!
Com tudo isso, para Severo, aquela foi a mais angustiosa de todas as travessias.
Oprimido diante do futuro que se lhe apresentava, absolutamente imprevisível, olhando para o mar infindável, passava horas contando e recontando as pequenas ondas das virações marinhas, que em paralelo com o navio, iam também rumo à Colónia.
Nem com o filho conseguia conversar, pois as alterações havidas na sua vida tornaram-no taciturno.
Embora os negros estivessem acomodados no porão, dessa vez “dom” Severo autorizara-lhes livre acesso ao convés, nunca porém em número maior que cinco, de cada vez.
Aliás, no porão, espaçosas escotilhas, sempre abertas, permitiam renovação do ar e aquecimento solar directo, funcionando como abençoadas luzernas.
Citadas escotilhas, diminutas em navios negreiros, não raro, eram arrombadas por escravos, que por elas atiravam-se ao mar, preferindo mil vezes a morte com dignidade, do que a infâmia da escravatura.
O antigo alçapão, acesso único entre o porão e o tombadilho, foi retirado, em definitivo. Dessa vez, também, os negros podiam cantar hinos devocionais aos seus orixás, o que, de certa forma, ajudava o tempo a passar.

Sobre o Tempo...
Seus referenciais dependem do estado d’alma das pessoas:
- namorados, lamentam que horas não lhes durem mais que minutos;
- prisioneiros, sofrem ante os minutos que lhes parecem horas;
- para o doente, a dor de um minuto se eterniza...
- para o médico, um minuto pode ser a diferença entre a vida e a morte;
- a noite bem dormida é sinónimo de relógio que salta as horas;
- a insónia é o mesmo que uma tortura das horas paradas;
- a gravidez é para os pais tempo de expectativa e reflexões;
- a prece é bálsamo e enlevo, antes, durante e após o exercício da fé;
- para a criança, o dia é curto e insuficiente para suas realizações;
- para os idosos, os anos são pequenas anotações em papéis amarelecidos, guardados na gaveta da memória;
- para o professor, o tempo tem o coeficiente adequado à sua missionária tarefa;
- para o aluno, as lições diárias são fracções de um grande conjunto, rumo à formação académica;
- para o engenheiro, do projecto à obra, há escala cronométrica a ser observada, qual escada a ser construída, degrau a degrau;
- para o pedreiro dessa obra, cada tijolo é um passo a mais na estrada em que anda, mas na qual, ao final, não ficará...

Embora não houvesse diálogo entre brancos e negros, o certo é que o clima a bordo era de relativa calma, sem tormentos ou desconfortos, de parte a parte.
Não cruzaram com nenhum outro navio.
O mar era todo deles...
Quando o marujo que estava alojado no cesto da gávea (assento instalado no topo do mastro real) gritou “terra à vista”, um grande e saudável arrepio percorreu todos a bordo, da cabeça aos pés.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:02 am

Após atracar e providenciar a descarga do material que trazia, Severo diligenciou para localizar a família.
Dirigiu-se às autoridades portuárias, certo de que obteria resposta positiva, pois por sua ordem, há tempos todos os navios que chegavam ou partiam, eram vistoriados e lavrado registro da viagem, feita ou a empreender.
Perguntou ao encarregado pelo “Rosa dos Mares”.
Consultado o livro-registro de entrada, a resposta:
“ali não aportara, ainda...”.
Sentiu-se mal.
A perspectiva era sombria: morte!
Em total desespero, procurou o governador, que pouco ou nada, pôde ajudá-lo, não obstante prontificar-se ao que fosse necessário.
Desorientado, retornou ao porto carioca, onde perguntou a vários marujos que perambulavam por ali se tinham visto chegar uma mulher branca, com duas filhas.
Ninguém lhe deu disso notícias.
Procurou os entrepostos e perguntou se em alguma expedição rumo aos sertões, alguém tinha visto uma mulher branca e suas duas filhas.
Ninguém relatou tal presença nas últimas expedições.
Nesse ínterim, soube de algo importante:
corriam boatos que muitos aventureiros estavam dirigindo-se para Mato Grosso e Goiás, e não para “as minas”, eis que naquelas lonjuras foram descobertas jazidas inimagináveis de pedras preciosas.
Por cinco semanas adiou o retorno à Vila Rica.
Perambulava pelo porto, intuindo que ali estaria a resposta que tanto buscava, sobre o paradeiro da mulher e das filhas.
Não podendo mais manter os negros no alojamento precário que lhes destinara, procurou Zangigi e contou-lhe a verdade: teriam que trabalhar como domésticos, até que resolvesse seu problema.
— O sinhó é quem sabe — aquiesceu Zangigi, acrescentando:
não posso silenciar uma voz que me assopra, não no ouvido, mas no coração, dizendo que vem tempestade no seu caminho...
— Tempestade? Vem vindo?
Já veio: estou no meio dela!
— Só tem um jeito de esses ventos acalmarem...
— Diga-mo: qual é?
— Pedir ao bom Olorum que sopre ao contrário.
— Mas, pelo profeta, o que é isso de Olorum soprar ao contrário?
— Olorum é o orixá maior, o Pai de todos os outros e também nosso Pai.
Quer sempre o nosso bem. É dono do Céu.
Manda nas nuvens, no ar, no fogo, nos ventos, nas águas, nas pedras e em tudo quanto é bicho vivo.
Sopra na direcção que quer, com força que pode tirar o mar do lugar.
— E esse mar que está saindo do lugar está vindo para cima de mim?
— Na verdade, não: o que vem chegando perto do sinhó é uma tempestade na sua alma, mil vezes pior que a do mar.
Pior, porque só o sinhó pode se ajudar... a ser ajudado.
— Não estou entendendo nada do que dizes.
— Não se zangue com esse escravo velho, meu sinhó, mas existem verdades que brilham como o Sol, embora algumas pessoas só vejam outro brilho, o do ouro...
— O que tem o ouro a ver com meu problema?
— O ouro é bom, se bem utilizado, mas torna-se veneno das almas, se é motivo de cobiça.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:02 am

Assim como uma pessoa não consegue almoçar duas vezes, nem dormir sem acordar por uma semana, nem voar, nem morar debaixo d’água, querer muito ouro é o mesmo que tentar fazer todas essas imprudências.
Agora, se alguém tem muito ouro e ainda quer mais, já não está tentando:
está, de facto, vivendo desse jeito errado. Logo perderá o apetite, perderá o sono, não conseguirá nem andar, quanto menos voar, não se sentirá livre, mas afogando-se sob o mar da insegurança, com medo de ladrões.
Concluiu, abanando a cabeça em gesto emblemático:
— Tempestade, meu sinhó... Tempestade...
Severo ficou impressionado.
Súbito, veio-lhe suspeita à mente que aquele ex-escravo, embora se expressando com coerência, estava planejando algo, talvez roubar-lhe ouro...
Estava pensando nisso quando Zangigi deu um pulo para trás e com os olhos arregalados, advertiu:
— Tem muitos bandidos atiçando o sinhó...
São lá do cafundó dos mares ruins, atrás dos céus...
— Como atiçando? E que mares?
— Almas penadas, sinhó:
um capitão de navio, muitos marujos, soldados e escravos fujões, apontando o dedo para o sinhó.
Por Olorum:
aqueles cinco pobres coitados que o sinhó mandou matar também estão ao seu lado e enquanto três deles querem esganá-lo, os outros dois estão lhe dizendo que eu...
Sou perigoso...
E que quero roubar-lhe seu ouro.
Na verdade, aqueles Espíritos haviam se agrupado por sintonia, desde que em todos havia o desejo de vingança contra Severo.
Como já dissemos, essa influência espiritual perniciosa é tratada pelo Espiritismo, com muita propriedade, como sendo obsessão.
Sabem os espíritas, pelos postulados da Codificação da Doutrina dos Espíritos — o Espiritismo — realizada em cinco livros básicos, por Allan Kardec (1804-1869), que somente o perdão pode neutralizar essa influência, harmonizando as partes.
Não há duvidar:
só terão paz aqueles que não abriguem pensamentos negativos.
A obsessão é de difícil desate justamente por isso:
com a mente inflada de ideias infelizes, tanto os vingadores quanto seu alvo distanciam-se do Evangelho de Jesus Cristo.
Os Espíritos, sabendo-se descobertos, temeram Zangigi e dirigiram contra ele sua acção maléfica.
Nada conseguiram, eis que o africano tinha em torno de si uma luminosa aura, qual campo magnético de protecção, indene às invectivas deles.
Mudaram de estratégia:
concentraram sua acção sobre Severo, facilmente submisso, e passaram a gritar-lhe aos ouvidos: “magia negra”, “magia negra”.
Severo, sob forte magnetismo hipnótico dos obsessores, invisíveis para ele, passou a considerar Zangigi perigoso:
o ex-escravo sabia do ouro, tivera frustrada a volta à África e, para vingar-se, era provável que tentasse prejudicá-lo, no ponto mais sensível:
roubar-lhe ouro.
— Magia negra! — bradou, colérico.
Nada mais que eco, daquilo que os Espíritos bradavam-lhe...
Henrique, debalde, tentou demover o pai daquela infame acusação.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:02 am

Zangigi tremeu, pois sabia o que o aguardava, sem apelação.
E foi o que aconteceu: acusado por “dom” Severo de heresia — conversar com as almas do Purgatório —, foi recambiado a Lisboa, sob guarda.
E lá, não restou ao pobre Zangigi outro destino que não a fogueira “saneadora do mal”, pois não negou uma única das vidências (Espiritismo = visão de Espírito[s] desencarnado[s] ou de cenas, no Plano Espiritual) que tivera, relatando-as aos inquisidores.
Estes, boquiabertos, decretaram: “o réu é confesso de praticar gravíssima heresia, em parcimónia com o mal; só o fogo eliminará o mal que nele se implantou, não havendo o que lamentar, eis que os negros não têm alma”.
A Igreja em Portugal encaminhou informe confidencial ao governador do Rio de Janeiro e ao intendente-mor, informando-lhes o destino dado “ao negro, instrumento do mal”, conforme Zangigi tinha sido considerado. (*)
Muitos meses após, ainda sem quaisquer notícias da família, Severo decidiu que iria à Vila Rica, não fazendo retornar os escravos restantes, os quais distribuiu como domésticos em várias casas de patrícios, sob indicação do governador.
Deixou Henrique no Rio de Janeiro, com ordem de prosseguir nas investigações quanto ao paradeiro da família.
De Zangigi, nem mais se lembrava, nenhum remorso...
Chegando à Vila Rica convocou o capataz, inteirou-se de todos os acontecimentos havidos na sua ausência e principalmente, conferiu a quantidade de ouro lavrada.
Novos veios haviam sido descobertos.
Pensou: parece que aqui tem mesmo mais ouro do que terra...
— Excelente: el-Rei ficará feliz — exclamou.
Já pensava em voltar ao Rio de Janeiro. Por dias não dirigiu palavra a Tengegê.
Tal facto demonstrou ao jovem e robusto ex-escravo que as coisas não haviam se passado conforme o programado.
Mas cuidou de não se dirigir ao patrão, por cautela.
Até que Severo convocou-o:
— Sabes, rapaz, muitas coisas contrárias aconteceram.
Tivemos que voltar de Portugal para a Colónia, pois minha propriedade foi vendida na minha ausência e o que é pior:
minha mulher e minhas duas filhas vieram para o Brasil e no caminho desapareceram.
Tengegê apenas ouvia.
Severo prosseguiu:
— Não pude levar seus amigos para a África e por ordem de el-Rei eles ficariam em Portugal trabalhando nas vinhas que eram minhas, ou voltavam.
Zangigi preferiu voltar.
Ficaram no Rio de Janeiro, aguardando vocês, quando forem...
Nisso, Tengegê estremeceu e entrou num “daqueles” transes.
Severo, dessa vez, não se alterou.
Estava decidido a acabar com essas — assim julgava — “baboseiras heréticas”.
Iria dar um ultimato a Tengegê para acabar de vez com aquilo. Senão...
— Então, sinhó:
a tempestade vem vindo?
O poderoso emissário de el-Rei assustou-se.
Não era possível:
Aquelas palavras eram as mesmas ditas por Zangigi, pouco antes de ser acusado de heresia... por ele, Severo.
A custo acreditava no que ouvira.
Tengegê era quem falava, mas o que dizia, não podia ser do conhecimento dele...
Quanto a isso, não havia dúvida. Mas como?
Tremenda confusão, esta, de alguém ser outro...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 14, 2017 9:03 am

*
A comunicação entre os seres humanos, quando situados nos dois planos da Vida — o material e o espiritual —, sempre foi uma constante na humanidade.
Desde 1857, com o lançamento de “O Livro dos Espíritos”, por Allan Kardec, foi assentada na humanidade, sob supervisão do Mestre Jesus, a pedra fundamental da codificação do Espiritismo, onde esse intercâmbio passou a denominar-se mediunidade.
Desde tempos imemoriais — provam-no inscrições rupestres — os homens foram visitados por Espíritos, os quais, por intermédio de encarnados com a faculdade mediúnica adequada, com eles conversavam, ensinavam, auxiliavam e orientavam. Esse intercâmbio, outrora, tanto quanto hoje, muita vez se operou através sonhos.
A Bíblia — livro sagrado — é toda ela um repositório de acontecimentos mediúnicos, já a partir do livro primeiro: “Génesis”.
Assim, não deveria haver nenhum assombro nesse relacionamento, sendo certo que, pela lei de afinidade e sintonia vibratória, tais visitas somente podem ocorrer em duas situações:
a primeira, é aquela na qual um Espírito mais evoluído, em missão caridosa, reflui sua condição e apresenta-se, humilde, no meio terreno ao qual se propôs ajudar; na segunda, muito mais frequente, acontece quando Espíritos, de planos diferentes, comungam os mesmos propósitos, estabelecendo atracção compulsória, eis que sintonizados estão na mesma frequência, compondo assim clima energético propício ao entrelaçamento mental.
Estando no plano material é rotina que os encarnados só se dêem notícia da vinda de desencarnados.
Contudo, é também intensa a visita que encarnados fazem “ao lado de lá” (ao plano espiritual), na maioria das vezes malbaratando o sono e os sonhos, sublime oportunidade engendrada pelo Criador, para sequência do aperfeiçoamento moral a que estão programados todos os homens.
É por bênção divina que os sonhos nem sempre são recordados ou correctamente analisados, pois do contrário o intercâmbio poderia acentuar-se em níveis inimagináveis, entre os que tramam maldades, carreando para eles próprios débitos só resgatáveis a longo, muito longo prazo.
Sonhos bons são minoria porque a maioria dos sonhadores terrenos, ainda somos criaturas com pouco acervo no Bem.
Mas, como a lei divina é perfeita, indivisível e sem excepções, primando pelo equilíbrio que só a justiça integral confere, igualmente aqueles que souberem aproveitar as horas de liberdade parcial que a noite traz ao espírito, poderão usufruir de benesses.
Visitarão conscientemente — desde que merecedores sejam dessa lembrança — núcleos de aprendizado, de paz e de elevação espiritual.
A intenção sincera da caridade, aliada à constância evangélica, os transformará em “enfermeiros das estrelas”, eis que serão convidados a participar de equipas nocturnas de socorristas.
Tais equipes, mistas, de encarnados e desencarnados, prestam socorro a irmãos em desespero, já a partir do próprio plano espiritual, bem como no material.
O já riquíssimo intendente-real, que por repetidas vezes havia sido contemplado com a bênção desses alertas vindos directamente de Espíritos amigos, nem assim modelava imagens positivas na tela mental.
Enamorado, ou melhor, fascinado pelo ouro, que se transformara em comandante absoluto dos seus pensamentos, tinha como projecto de vida um único objectivo: ter mais ouro.
O duro golpe do extravio da esposa e das duas filhas não era sua preocupação maior, como deveria ser.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:00 am

Todo seu potencial estava canalizado para acção junto às lavras, sob as quais detinha autoridade total.
Preocupar-se com a família, preocupava-se, mas não a ponto de dispensar presença física junto aos diversos exploradores de lavras, nas minas cuja região ia cada vez alargando-se.
Exultava ante o testemunho de que ali, até parecia que Deus havia colocado mais ouro que terra, como voltou a reflectir.
E era justamente naqueles generosos mananciais auríferos, aonde a invencível atracção pelo ouro vinha escravizando aventureiros sem conta, que ele, o poderoso representante de Sua Majestade, o Rei de Portugal — dono absoluto de tudo —, via-se submetido a um poder invisível, emanado de um simples jovem africano.
Não lhe causava qualquer reacção o facto de muitos e muitos homens morrerem, uns por terem contraído várias doenças palustres, não se tratando para catar mais e mais ouro ou então por não disporem de recursos para se medicarem, ou ainda por ninguém socorrê-los; outros, em número até maior, simplesmente apareciam mortos, sabendo-se que por disputas de simples barrancos, à cata do ouro que ali abundava; e outros mais, sequer se ficava sabendo que fim tinham levado: sumiam, da noite para o dia, não sendo raro que tempos mais tarde, ocasionalmente, alguns tinham seus despojos encontrados em grotões, ou semienterrados, quase sempre com vestígios de morte violenta.
Não desconheça ninguém que num tal clima, onde numerosas mentes estão mantidas unidas e atracadas pela âncora da cobiça, por certo tal região transforma-se em irresistível ímã a atrair mais e mais espíritos desencarnados, estacionados também na posse do ouro, não poucos, em estado de demência pura.
Tengegê, em meio aquilo tudo, era qual um lírio no pântano.
Podemos imaginar que Severo tinha merecimento para ser contemplado com os alertas que vinha recebendo.
Contudo, também podemos supor, num exercício de reflexão, que seu desprezo a tal ajuda, a suprimiria, e para breve, assumindo ajuda a pedagogia da dor...
*
— Quem... o quê... quer você? — tartamudeou Severo.
— Meu sinhó, esse escravo ainda é seu.
— Por Cristo: você é...
— Sou, sim sinhó: sou o velho Zangigi.
— Meu Deus, meu Deus:
mortos não falam...
Então os mortos... não morrem?!
Severo, confuso, amedrontado, sentia o coração acelerar e o ar faltar-lhe aos pulmões.
Tantas vezes fora auxiliado pelo plano espiritual e ainda duvidava...
Tengegê, o jovem escravo, agora meio curvado, aproximou-se e num gesto de meiguice colocou as mãos sobre a testa do sinhó.
Este, presa de emoção nunca dantes experimentada, posto que comandada por incipiente arrependimento, começou a soluçar.
Utilizando a faculdade mediúnica do amigo Zangigi falou mansamente:
— O meu Olorum é o mesmo Deus do sinhó e tem um filho:
Oxalá, que os brancos chamam de Jesus Cristo.
Foi o “nosso” Jesus que deixou eu vir aqui, para dizer ao sinhó que não guardo mágoa do que me aconteceu, pois as dores do mundo são bênçãos para o espírito que errou.
Severo, à beira de entrar em choque emocional, ao ouvir falar de Deus e de Jesus, acalmou-se em parte.
Mas chorava ainda, qual criança aflita.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:01 am

— Lá em cima — prosseguiu Tengegê falando, com a voz algo diferente, um tanto arrastada e apontando para as alvas nuvens que sobrepairavam sobre eles — está cheio de gente boa, que sabe tudo das nossas vidas.
Falaram-me que depois que Oxalá foi judiado pelos soldados, eu andei pondo fogo nuns brancos que gostavam d’Ele.
Por isso, este escravo está muito feliz de ter se livrado daquela dívida tão antiga...
— E... o que quer agora? — murmurou Severo, a custo.
— Não vou poder voltar aqui tão breve, mas tive a graça de poder conversar estes minutos com o sinhó.
O motivo principal da minha vinda é para dizer que não guardo nenhum rancor do sinhó.
Como todos os filhos de Olorum, sei que é um homem bom, bem lá dentro do peito.
O problema está do lado de fora...
— O que quer dizer com “do lado de fora”?
— O sinhó sabe melhor que eu: o ouro, meu sinhó, o ouro: nunca chega perto do coração, só mora na cabeça de quem o tem e é ai que as tempestades alcançam qualquer em primeiro lugar...
— Tempestade?
Que tempestade é essa que dizes a toda hora?
— Está nas mãos do sinhó melhorar as coisas por aqui, pois muita gente está sofrendo, e não me refiro só aos negros, mas tem brancos que também deixaram suas terras do outro lado do mar e hoje são mais escravos do que libertos:
escravos do ouro, meu sinhó!
— E... Como eu poderia melhorar a vida dessa gente?
— Fazendo o que Oxalá ensinou e fez:
ouvir o coração antes de fazer qualquer coisa e nunca deixar de ajudar quem precisa.
Tengegê saiu do transe.
Severo parecia estar chumbado ao chão, já que não conseguia se mexer.
A mente fervilhava.
Aquilo tudo era inacreditável, por ser perigosa e incrivelmente verdadeiro.
Tengegê afastou-se, sem dizer palavra.
À custa de alguma reflexão, acostumara-se em parte com aquela coisa estranha que o acometia, quando tinha a nítida impressão de que sua alma saía do corpo e ficava ao lado, ouvindo alguma pessoa que já morrera e que, por seu intermédio, dava recados.
De início, não sabia identificar quem assim usava sua voz, mas, pela repetição do acontecimento, passou a saber sim quem se aproximava, o que queria e o que deveria retransmitir, para jamais prejudicar quem quer que fosse.
Aliás, estava tornando-se rotina “almas que já não tinham mais o corpo físico” se acercarem dele.
Com alguma clareza identificava-as.
Lutou contra isso, sabendo-o perigosíssimo, ali na Colónia.
Mas tais impulsos foram mais fortes e deles não conseguiu livrar-se.
Decidiu, em boa hora, administrar tais ocorrências, só dando vazão em determinadas circunstâncias:
sem público, só na presença da pessoa à qual o recado se destinava, sem espalhafato, como muitas almas queriam e pediam-lhe e sempre em locais calmos.
Inda agora, seu coração estava apertado:
se Zangigi falara por ele, dizendo que não guardara rancor, é porque...
Isso mesmo:
o sinhó Severo disse que Zangigi não poderia falar, pois tinha morrido...
Chorou muito, pela perda do velho amigo e conselheiro.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:01 am

Consolou-o a certeza de que, afinal, não “perdera” o amigo:
apenas estava separado dele, fisicamente.
Mente arguta, deduziu que os planos de retorno à África estavam desfeitos, havendo perigo rondando-o e a seus amigos.
E que só com redobrada prudência conseguiriam reverter a situação.
O retorno prometido pelo sinhó tinha sido adiado várias vezes...
A África, que tanto ele e os companheiros amavam ia ficando cada dia mais longe...
Não tardou e suas suspeitas se mostraram corretas:
Severo, em atitude irreconhecível, desmembrou o grupo de ex-escravos, mandando alguns para regiões afastadas, alegando necessidade deles repassarem conhecimentos de lavra de ouro e que breve retornariam.
Duas semanas após, grave acontecimento iria frustrar todos os planos do intendente-mor de logo retornar ao Rio de Janeiro para continuar na busca da família.
Muitos portugueses tinham vindo para aquelas bandas.
Como ele, todos buscavam fortuna:
ouro, cuja maioria encontrara, pois quanto mais se procurava, mais se achava.
Alguns poucos, argutos comerciantes tinham instalado postos de comércio de tudo:
desde escravos até ferramentas, utensílios, animais de transporte de carga (muares), roupas e principalmente alimentos e aguardente.
Quem estava preocupado com o ouro, precisava de tais serventias e por elas podia pagar, eis que quanto mais se buscava, mais e mais ouro era garimpado.
Severo não titubeara:
havia taxado também essas mercadorias, cobrando tributo pelo trânsito (por terra ou pelos rios), entrada e comercialização em “área estratégica da Coroa”...
E diante de tanta movimentação, a Vila Rica havia se tornado movimentadíssimo povoado.
Crescente, sempre.
O ouro, generosamente, como que “brotava da terra”.
Henrique foi mantido no Rio de Janeiro, como representante legal do “intendente-mor”, mas principalmente para que pesquisasse sobre o paradeiro da mãe e das irmãs.
Por mais dois anos, cada vez mais fascinado, “dom” Severo apropriou-se de porções de terra — as mais produtivas de ouro —, chegando mesmo a pouco se lembrar da família.
À medida que sua fortuna aumentava, a saudade diminuía...
Como decorrência, mais negros eram buscados na África...
Aumentando as minas produtivas, na mesma razão aumentaram as levas de pessoas que chegavam, trazendo muita cobiça na alma.
Em contrapartida, começaram a acontecer crimes...
O mais grave crime aconteceu justamente quando Severo preparava-se para partir para o Rio de Janeiro:
um sertanista assassinou um português, em outro vilarejo, distante da Vila Rica.
Assim, eclodiu nas regiões das minas aquela que seria denominada ”A Guerra dos Emboabas”, incensada por ódio e ressentimentos. (*)
A partida de Severo teve que ser adiada...
Atendendo ao pedido que o mensageiro especial levara, embora tenha demorado, chegou um batalhão de guardas portugueses, mandados por el-Rei, tendo ordens reais de se apresentar a Dom Severo, mui competente intendente-mor, doravante responsável pela recém-criada “Intendência das Minas”.
Com isso, não tardou e a “Guerra dos Emboabas” chegou ao fim.
O poder de Severo ali era absoluto.
Mandava e era obedecido.
Só que, mais três anos haviam se passado.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:01 am

Nesse tempo, Severo sempre determinara a Henrique a permanecer no Rio de Janeiro, periodicamente indo a Portugal.
As notícias que recebia dele eram as de que nada havia ainda sobre o desaparecimento da família — nem cá, no Brasil, nem lá, em Portugal.
Ouro, já muitas toneladas estavam estocadas!
À vista de ouro tanto, Severo sentia vertigens, imaginando tudo o que aquele tesouro poderia proporcionar-lhe, desde honrarias e mordomias — poder absoluto!
No seu desvario mental, atribuía-se maior importância do que a do próprio rei, a quem servia.
Assaltou-lhe grande desconforto ao raciocinar que estava ali com tanto ouro, no meio do mato, tão distante da Capital, onde nobres enfarinhados de pós perfumados e enfeitados de rendas, nada produziam...
Era urgente corrigir essa situação.
Mas, como?
Se fosse para junto da corte, passaria a ser mais um parasita palaciano e quem tomaria conta das minas de ouro, cada vez mais se multiplicando?
Estava assim absorto por demorados minutos, quando foi subtraído desse devaneio por Tengegê:
— Sinhó Severo, preciso conversar com o sinhó...
— Ahn... o que queres?
— Voltar para minha terra, com meus amigos.
Esperamos a guerra acabar para pedirmos ao sinhó que cumpra nosso acordo.
Severo assustou-se.
Já nem mais se lembrava do acordo feito com os ex-escravos, aos quais prometera permissão para retornarem à África, assim que lavrassem determinada quantidade de ouro.
— Para que gastar teu ouro com a viagem tão ruim, voltando para aquelas selvas?
Aqui não têm todos vocês o conforto?
Vão trocar a civilização pela selvageria?
— O sinhó me desculpe, mas nós não somos selvagens.
E nem há diferença destas terras, aqui nos barrancos, com as nossas terras do lado de lá do mar.
Além do mais, lá estão nossos familiares...
Pelo menos, os que não foram aprisionados e vendidos como animais pelos ingleses, espanhóis ou pelos seus patrícios...
— Estás a me sair um negrinho insolente.
Cuidado! Não me agradam tuas palavras.
Pareces mais um cobrador do que um escravo.
— Ex-escravo, sinhó.
Já esqueceu que nos alforriou, com a promessa de trabalharmos até ajuntar muito ouro?
Aliás, pelas nossas contas, há muito já ultrapassamos a quantidade combinada.
E também há anos já deveríamos ter voltado...
— Pois, mesmo:
estás imbuído de autoridade!
No teu lugar, teria mais cautela com a língua...
Aquela era uma ameaça directa.
Terrível ameaça:
a de cortar a língua dos escravos inconvenientes com as palavras.
Tengegê, inteligente e sensível, embora jovem, já estava temperado nas duras lides da escravatura que o apanhara em suas cruéis malhas ainda na adolescência.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:01 am

Assim, julgou por bem contemporizar, sem contudo rebaixar-se:
— Não falo nada para ofender o sinhó, a quem muito respeito, mas o facto é que no meu coração arde a vontade de voltar.
O sinhó também não quer voltar para a sua terra, para a sua família, para a sua gente?
Severo foi pego de surpresa.
Sim: queria voltar para a família (mas, onde estava sua família? teria morrido?).
Afrouxou a tensão:
— Vamos pensar melhor.
O retorno de vocês será decidido por mim.
Até lá, continue a catar ouro e diga aos seus amigos para fazerem o mesmo.
Não voltes a interpelar-me como fizeste agora.
De forma inesperada, “dom” Severo passou a ter delírios, acordando em meio às madrugadas, gritando:
— Não abandonei tua filhinha!
Ela sempre foi doente e se alguém a abandonou foste tu.
Se ela hoje sente solidão e fome a culpa é tua.
Quanto à tua mulher, traiu-te sim, bem mereceu o fim que teve, pois que tentou roubar-me o ouro, todo meu.
Não a queres mais?
Arranja-te com ela e te apures da minha presença.
Tinha espasmos violentos, ficava estático e com outra voz dizia:
— Tu também estás a me perseguir?
Querias que te entregasse, de mão beijada, o ouro?
Meu romance contigo foi fruto de um momento de solidão, nada mais que isso.
Se alguém te deu infâmia, foi teu marido, abandonando-te e à tua filha, deixando-as ao léu.
Em meio àquela região pouco desbravada, onde se aglomerava população crescente quanto ímpia, Severo delirava por horas, saía da crise, mas em outras noites, havia recidiva dos delírios.
Durante o dia, livre daquele tormento, de ver e discutir com almas do outro mundo, às quais bem conhecia, sentia-se ameaçado: se algum padre o pilhasse naquelas “crises”, talvez nem mesmo seu poder o livraria do destino reservado aos heréticos.
Pensou em se confessar: temeu e desistiu.
Elegera o ouro o seu ideal, próximo, futuro, eterno...
Despótico, exorbitando no rigor, atraía mais e mais inimigos...
Nisso, Henrique retornou à Vila Rica, com saudades insuportáveis do pai, decorrido tanto tempo sem a mãe e as irmãs.
Desolado, informou-lhe que nem no Rio de Janeiro, nem em Lisboa, nada descobrira ou transpirara sobre o paradeiro da família.
Amargurados, ambos, passaram a considerar que talvez as três estivessem mortas...
Mas, tantos eram os afazeres na Vila Rica que Severo, envolvendo-se completamente com eles, mais e mais se dedicava... ao ouro.
Foi inescapável: adoeceu, gravemente.
Sabendo o que representava para ele e seus amigos a vida do sinhó Severo, Tengegê, não apenas por isso, mas também por legítimo sentimento de caridade, pediu a Henrique permissão para ajudar na cura do pai.
Henrique ficou-lhe grato, aquiescendo e comentando:
— Sabe, Tengegê, o que me preocupa em papai é que não está doente só da febre, mas pior, está com “coisa ruim”.
— Não posso falar abertamente dessas coisas, pois tenho medo de ser mandado para as “fogueiras do céu”, como falam os padres e os brancos católicos, mas a verdade é que o sinhó Severo tem inúmeras almas em volta dele, querendo vingança...
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