Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:01 am

— Mas o que meu pai fez para merecer esse castigo do céu?
— Se eu falar posso magoá-lo e me expor...
— Confie em mim: não direi nada a ninguém e nem vou ficar magoado com você.
— No mundo existem pessoas que os orixás conversam com elas e dão recados, avisos, alertas, repreensões; eu sou uma dessas pessoas e seu pai também, só que ele não fala pelas almas, mas as vê e sabe o que querem.
Ninguém pede essa faculdade, mas também não consegue escapar dela, quando a tem.
Lá na minha terra quem é o escolhido para essas coisas já nasce assim e quando cresce tem que usá-las para ajudar os outros; isso não é prémio, mas sim, oportunidade de pagar dívidas...
Os mais velhos me ensinaram e acreditamos nisso, que já vivemos outras vezes, acumulando actos bons e maus, que definem as outras vidas que teremos, depois desta...
— Custa-me deveras crer nisso, embora respeite sua crença.
Uma coisa posso aconselhar-lhe: essa coisa de falar com quem já morreu poderá custar-lhe a vida, pois a Igreja condena os que se põem a consultar os mortos.
— Não consulto as almas:
elas é que me procuram!
— Seja como for, cuidado:
mas, diga-me o que é que você escutou “das almas” que perturbam meu pai?
— Seu pai mandou matar um pirata capitão de navio, que morreu segurando barras de ouro; depois, mandou matar soldados ladrões e desertores:
mandou matar, ainda, escravos fujões; sonegadores de impostos pilhados em reincidência foram abandonados, por ordem do sinhó Severo, à própria sorte e muitos morreram; Zangigi morreu nessas tais “fogueiras divinas”, por acusação do seu pai; a alma do sinhó Mendonza grita que seu pai roubou seu ouro, infamou a viúva e abandonou a filhinha; a alma da própria viúva confirma que ele abusou dela, roubou-lhe ouro e sequer protegeu a filha doente.
Respirou fundo, fez silêncio e inquiriu, algo aflito:
— É muita coisa ruim, não é mesmo?
— Mal posso acreditar que meu pai tenha feito tantas maldades!
Até o nosso amigo Zangigi quer se vingar dele?
— É o único que o perdoou...
Quanto Tengegê acabou de pronunciar essas palavras, entrou em transe mediúnico, assustando Henrique:
— Sinhozinho, eu vim aqui atendendo seu chamado...
Henrique não sabia o que dizer ou o que fazer.
Não havia chamado ninguém...
Contudo, havia pensado tão firmemente e com tanta saudade que praticamente evocou Zangigi, que o atendeu.
— Então, meu filho — encorajou-o o Espírito Zangigi — seu pai foi avisado, tantas vezes...
Mas nunca deu ouvidos aos orixás e agora está “vem não vem” para cá...
Henrique ainda estava chocado com aquilo que presenciava, mas que não conseguia acreditar.
Gostava de Zangigi, a quem sempre respeitara, mas daí a conversar com o “morto” Zangigi...
— Sabe, meu sinhozinho — prosseguiu o Espírito Zangigi — você é, no momento, a única pessoa que pode ajudar seu pai.
Ele precisa ouvir umas verdades, de alguém que fale mais ao coração dele do que aos ouvidos.
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Ave sem Ninho

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:02 am

Só assim, talvez, não faça essa viagem que é maior do que todas as travessias oceânicas somadas.
Eu não guardo raiva dele, merecia mesmo ser queimado, para queimar uns pecados antigos, que estavam guardados na minha consciência e que não estavam me deixando melhorar.
Os pecados pesam muito mais que o ouro, meu filho!
Nunca se esqueça disso!
Henrique, como se um clarão lhe iluminasse a mente, confirmou quem falava, do que falava, e com que finalidade.
Tartamudeou, com os olhos marejados, presa de forte emoção:
— Zangigi, meu bom amigo.
Peço desculpas pelo meu pai, ele é bom, mas está muito dirigido para a posse de mais ouro.
Concordo com você, muito ouro não traz felicidade, sinto tanta falta de mamãe e das minhas irmãs...
— Elas... estão queimando também um pouco de pecados...
— Santa Virgem! Morreram?
— Não, sinhozinho, não morreram, mas estão longe, muito longe...
— Onde?! Pelo amor de Deus, ou do seu Olorum, onde? Onde?!
Zangigi retirou-se.
Tengegê reflectiu, alegre por ter começado, naquele dia, a ter consciência do que tinha falado, sob inspiração do Espírito ao qual emprestava sua voz:
— Olorum sabe o que faz!
Pelo menos, sabemos que elas estão vivas!
Alguma coisa me diz que cedo ou tarde, nós a encontraremos.
Mas agora, é preciso cuidar do seu pai.
Henrique não se conteve:
beijou as mãos daquele jovem negro, que acabara de plantar esperanças em seu coração.
E mais que isso:
dizendo com tanta sinceridade aquele “nós”, sorrindo feliz por saber que sua mãe e as irmãs estavam vivas, além de preocupar-se com a saúde do seu pai, mais se diria ser um seu irmão, jamais um desconhecido escravo.
____________________________
(*) Embora de difícil narração, incluímos aqui esse triste veredicto, não para condenações, mas para que seja evidenciado o quanto o mundo já progrediu espiritualmente, eis que hoje não padece a menor dúvida, em nenhum canto do planeta, que os negros, de todos os tempos, têm alma.
Para os milhões de homens que crêem na reencarnação, os negros eram, são e serão aqueles mesmos Espíritos, que no pendular das vidas sucessivas, ora serão brancos, ora amarelos...
____________________
(*) A “Guerra dos Emboabas” foi um terrível acontecimento:
vitimou centenas de pessoas, durando de Maio-1707 a Novembro-1709.
Regista a História que os paulistas, que foram os descobridores das minas e dos caminhos que davam acesso a elas, ao verem chegar milhares de “emboabas” (forasteiros), vindos de todos os cantos da Colónia, mas principalmente de Portugal, haviam há sete anos solicitado ao Rei de Portugal que lhes desse exclusividade na mineração.
Como a Portugal isso não interessava, e sim que o maior número possível de mineradores ali estivesse em acção, a petição não foi deferida.
Quando em 1707, nas proximidades da hoje São João Del Rei um paulista assassinou um português, eclodiram lutas sangrentas, na maior parte tecidas por emboscadas.
Somente pela força a Coroa lusitana pôs fim aos sangrentos entreveros, em 1709, sendo substituída a governadoria, até então sob as ordens de um governador paulista.
Portugal decidiu separar a região da capitania do Rio de Janeiro, criando a capitania de São Paulo e Minas de Ouro.
Excluídos do controle das minas, os paulistas outra vez deram mostras do carácter indómito que os levara até ali:
em nova arriscada aventura, embrenharam-se sertão adentro, rumo a Mato Grosso e Goiás.
Como resultado, novas minas auríferas seriam descobertas, além de pedras preciosas.
Em 1720, Minas se tornaria capitania independente.
(Emboaba: vem do tupi “amo-abá” = estrangeiro).
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:02 am

10 - África: instituto correccional?...
Tudo o que Deus fez, faz e fará é de perfeição irretocável.
A natureza, espelho da obra da Criação, na formação planetária concentrou e fundiu elementos, aglomerando átomos, sob inimagináveis temperaturas, desencadeadoras de tormentas magnéticas que bombardearam a superfície, no fantástico fenómeno físico que os cientistas hoje denominam de “sopa fervente”.
Como resultante, o planeta teria variados elementos naturais, dentre eles o ouro.
Agora, uma pergunta:
— Por que teria Deus concentrado tanto ouro “nas minas”?
Apenas como conjectura podemos reflectir que talvez estivesse destinado ao Brasil, há cerca de três séculos, desencadear também outra “sopa fervente” de progresso mundial.
Esta, sob o aval do Mestre Jesus, governador planetário.
Uma vez decidida sua ocorrência no mundo, ela se daria inexoravelmente.
Se tal não coube ao Brasil, reflectimos também que isso se deu face o livre-arbítrio humano, sempre respeitado pelo Plano Maior.
À Inglaterra coube essa tarefa:
patrocinar a “Revolução Industrial”.
Assim, o progresso material, antessala do moral, não deixou de aportar na Humanidade.
No suceder das existências terrenas de cada criatura, via reencarnação, em menos de um século nenhum inglês sobreviveu à instalação do ciclo completo daquela “revolução” progressista.
E foi sem a menor dificuldade que os Espíritos encarregados dos trâmites reencarnatórios, sob rígida justiça, puderam recolocar “os homens certos nos lugares certos”, isto é, nas terras que lhes cabia auxiliar a progredir...
Em simples exercício imaginativo, alguns espíritas conjecturam que ontem foram “franceses”; isso até pode ter acontecido, só que anteontem, pois, ontem, muitos fomos mesmo ingleses, não necessariamente os que alavancaram a citada “Revolução Industrial”...
Não será devaneio, mas sim reflexão, atentarmos para a configuração planetária:
- a água, elemento preponderante, não tem pátria (o Sol, as nuvens, os ventos e as chuvas levam-na daqui para ali, sem consultar qualquer autoridade...);
- os lagos, rios, mares e oceanos, representam, pela pesca, infindável celeiro de provisão alimentar;
- na Europa foi sedimentada a base cultural dos povos emergentes, que o futuro se encarregaria de trazer, parte deles vindo de planetas onde seu nível moral os tornara incompatíveis, conquanto intelectualmente adiantados em relação à Terra;
- no Oriente Médio, a Natureza alocou petróleo, fruto da sedimentação de material orgânico, ao longo de milhões de milénios;
- a África sempre se prestou a lar de criaturas em rudes processos evolutivos:
uns, nos albores da humanização, outros, bastante civilizados, mas orgulhosos por demais, necessitando todos de ostentarem a epiderme negra, sublime emblema de matrícula em cursos de humildade; ali, ao lado da exuberância natural da fauna e da flora, no subsolo foram incrustadas portentosas minas de diamantes, num paradoxal enigma económico, que ainda hoje não foi decifrado pelos homens; mas a lição salta aos olhos: mil vezes preferível colher grãos alimentares a diamantes.
Colocando a África ao lado das Américas, não faltou previsão aos Espíritos Cândidos e Sábios que sob a orientação segura de Jesus, ajudaram-no na elaboração do programa evolutivo do mundo e dos seus habitantes.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:02 am

Sabiam eles, com a segurança da luz integral que já lhes nimbava, que o ser humano, nas rudes lides evolutivas, não conseguiria defender-se das armadilhas da cobiça;
- na Ásia, inicialmente região mais habitada da Terra, ao lado de fabulosas porções de terras férteis e grandes acúmulos de minerais preciosos, em contrabalanço, haveria também muito gelo e areia;
- nas terras do porvir (as Américas), que aos mais velhos caberia descobrir, desbravar e auxiliar a progredir, protegendo sua gente indígena, sendo-lhes professores de cultura e alunos de simplicidade, foram plantadas árvores de todas as espécies, dando frutos, centenas de espécies deles, cada um mais saboroso que outro; para tanto, o solo seria abundante de nascentes naturais, gerando muitos rios, incrementando todos eles vida e progresso; a maior floresta mundial, lá inserida, abrigaria biliões e biliões de seres nos lances primordiais de sua existência — de insectos a aves —, mas simultaneamente, colaboradores exímios da manutenção da vida vegetal, a se perpetuar pelos incessantes transbordos de sementes daqui para ali, milhões de vezes executados a cada dia; além disso, seria a floresta vigoroso polo de atracção de chuvas, estas, mães generosas das bacias hidrográficas; não bastasse, as florestas colaboram ainda, e muito, com o clima.
O mundo, não é difícil ajuizar, na verdade é uma grande hospedagem para todos os seres vivos, produzindo meios de sobrevivência para todos.
Os desajustes — os clamorosos casos de fome, desabrigo e dor — decorrem do egoísmo humano, cujo livre-arbítrio, embora respeitado pela Espiritualidade, não se perpetuará, quando continuamente exercido sem fraternidade.
O caso da África, por exemplo:
se ali encontramos os mais tristes bolsões de miséria da actualidade, nunca será demais reflectir que o “continente negro” é tido à conta de importantíssimo instituto correccional, segundo Espíritos responsáveis pelos roteiros reencarnatórios.
Embora não sejamos um desses abnegados Espíritos, não nos objecta logicar o que ali acontece em termos de reajuste e aprendizado moral:
nossos irmãos africanos que enfrentam duríssimas lides, com miséria rondando-os até mesmo antes de serem dados à luz, e depois dela, por vezes pouco resistindo, vindo a desencarnar à míngua de tudo — é inescapável admitir que estejam resgatando pesados débitos.
Ao quitá-los, desfrutarão a paz de quem pouco ou nada mais deve.
Aí, é recomeçar!
Tendo agora, porém, o incomparável aprendizado de como a fraternidade é construção de todos, para a futura Terra, regenerada, plena de jardins celestes, perfumando seus canteiros floridos de harmonia e bondade.
E que ninguém jamais se julgue indene de vir a passar por aquilo que passam os que resgatam, como por exemplo, os irmãos da África sofrida.
Somos todos inquilinos de um mundo de provas e expiações, o que nos coloca na lista de “com contas a pagar...”, ninguém sabendo o que nos reservam as vidas futuras...
Tempos após, “dom” Severo permanecia apresentando delírios esporádicos, trazendo grande intranquilidade à Vila Rica.
Aliás, embora conseguisse ingerir alguns caldos e chás que Tengegê lhe preparava, estava cada vez mais fraco.
Adormecia várias vezes ao dia, acordando em delírios que, pela repetição, demonstravam ao filho que o jovem ioruba estava certo, quando dissera que “várias almas” estavam perturbando o pai.
Almas de gente que já morrera e cujas mortes, de uma forma ou de outra, atribuíam-lhe a culpa.
Henrique e Zangigi se desdobravam para ocultar o possível tais surtos, principalmente dos padres...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:03 am

Henrique pediu a Tengegê que o acompanhasse numa volta, fora das vistas e ouvidos do pessoal.
Afastando-se, confidenciou-lhe:
— Sabe, Tengegê, não sei se “dom” Severo vai sarar ou se vai morrer, mas alguma coisa me diz que está muito próxima essa decisão.
Tengegê ouvia, mudo.
— Sonhei esta noite — prosseguiu Henrique — que um homem cheio de luz por dentro entrou no quarto do meu pai e muitas daquelas pessoas más que lá estavam atormentando-o saíram na mesma hora.
Esse homem de luz pousou a mão na testa dele e aí aconteceu uma coisa estranha:
a luz saía do homem e entrava no meu pai, principalmente na cabeça...
Acordei, olhei “dom” Severo e vi que ele estava com o semblante calmo, como há muito tempo eu não o via.
Soluçou:
— Será que ele vai morrer?
Será que foi a morte que veio buscá-lo?
Tengegê pegou a mão de Henrique e confortou-o:
— Desde criança aprendi com os mais velhos que só o Grande Olorum sabe a hora da nossa morte.
Muitas vezes, para os doentes, parece que essa hora está chegando, no entanto, quantos se curam e vivem muito tempo ainda.
Outras vezes, de forma surpreendente e por isso mesmo mais dolorosa, crianças e jovens são levados de volta para a companhia das almas sem corpo.
Agora, quanto ao seu pai, respeitando a sagrada decisão de Olorum, que desconhecemos, alguma coisa me diz sim que diante dele será colocada a última chance de ainda cumprir a missão pela qual nasceu.
E outra coisa:
se a alma que você viu tinha luz, só pode ser um amigo, e protector.
— Mas Tengegê, pelo amor de Deus, isto é, pelo amor do seu Olorum, a missão de “dom” Severo é mandar ouro para el-Rei e isso ele vem fazendo com bastante responsabilidade.
— Henrique, Henrique:
não há diferença entre Deus e Olorum, pois na verdade, trata-se do mesmo Pai.
Nós é que damos nomes diferentes para Ele.
Quando nasce uma criança, com certeza só um homem na Terra é o pai dela.
Mas, todas as crianças do mundo são filhas do Pai que está em toda parte, dentro de nós, nas florestas, nas pedras, nas montanhas, nos mares, no céu e até depois dele:
o Grande Olorum, para nós e Deus para vocês!
E da mesma forma que o sinhó Severo ensinou você a fazer as coisas e lhe dá tarefas, Olorum também ensina os filhos a trabalhar e lhes empresta um corpo, durante um tempo, para essas tarefas.
Meditando, em pausa, acrescentou:
— E faz tantos outros empréstimos até que a alma se ilumine.
Henrique jamais poderia sequer suspeitar que aquele jovem tivesse conhecimento para discorrer sobre aquelas coisas, as quais, ele próprio nunca havia pensado.
Embevecido, ouvia Tengegê, que após ligeira pausa, prosseguiu:
— Você nunca parou para pensar como é que todos os filhos da criação nascem, crescem, trabalham e morrem?
E logo outros seres vão nascendo e fazendo a mesma coisa?
Arrematou o raciocínio:
— É aí que está a tarefa que cada um tem que cumprir em cada vida.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:03 am

Pode observar que até os animais lutam pela vida, pois os mais ferozes enfrentam inimigos à altura ou até mais poderosos:
enquanto as mães cuidam dos filhotes, outros cuidam da protecção do bando; os mais mansos, com dedicação, humildade e muitas vezes até com afeição, fazem-nos companhia fraterna, sem exigir qualquer pagamento.
Pensou um pouco mais e concluiu:
— Uma vez Zangigi me disse que os animais mansos, há muitas vidas passadas foram ferozes e hoje, aprendendo com a dor as lições terríveis de serem presas dos predadores, ou então, a humildade de servir sem retribuição, muitas vidas depois... vão ser gente.
— Tengegê, faça-me o favor: isso não é possível!
— Pois então observe, sinhozinho, como tanta gente ainda tem características de animais; e também, como tantos outros homens agem como verdadeiros orixás; a vida é uma escada, que vai de dentro do chão ao céu e em cada degrau estão os filhos de Olorum, subindo degraus acima sem parar, uns mais depressa, outros mais devagar...
Henrique estava pasmo com tudo o que ouvira.
Na verdade, fazia sentido o que dissera aquele rude ex-escravo.
Depois de prolongado silêncio, inquiriu-o:
— Essa escada... meu pai está caindo dela?
— Não, de jeito nenhum: ninguém cai do degrau que já alcançou, mas se não trabalhar dentro da tarefa prometida, para o bem, terá feito algo que atrapalhou alguém e nesse caso, ficará estacionado ali, em grande perturbação, pois as pessoas que de forma directa ou indirecta quiserem se vingar dele, também estarão nesse mesmo degrau...
— Começo a entender a sua lógica.
E a solução, qual seria?
— Vou contar um segredo para responder sua pergunta:
quando lá na nossa terra nós fomos laçados, o que mais doeu foi o facto de sermos aprisionados pelos próprios irmãos de cor (chamados sobas), para entregar-nos aos brancos, em troca de tecidos, ferramentas e aguardente; sem saber o que nos reservava o destino, Zangigi era o mais forte dentre todos os que foram aprisionados; com os olhos em lágrimas, foi amarrado a uma árvore, juntamente com alguns parentes e amigos, além de jovens como eu; passamos dois dias amarrados, só recebendo água e frutas que algumas mulheres da nossa comunidade nos traziam, sempre sob vigilância armada de guardas africanos, isso até consertarem as velas do navio que nos traria para cá; na hora de partir, o Zangigi implorou ao capitão do navio, por gestos, que liberasse as mulheres e crianças; recebeu uma bofetada e embora tivesse o dobro da força daquele homem, não reagiu; quando em alto mar perguntei-lhe por que, com a força que tinha, não matou aquele homem ou ao menos se defendeu, respondeu-me, calmo:
— O milho plantado só vai crescer se Olorum mandar a chuva molhar a terra, ou então, se no lugar de Olorum, nós levarmos um pouco de água na plantação...
Da mesma forma, se eu devolver uma agressão, estarei sendo o homem que, ao invés de molhar a terra, pisou nas sementes e não deixou as espigas nascerem; além de passar fome vai ter que replantar tudo e obedecer às leis da vida, que recomendam sempre plantar o que se quer colher.
— Mas, Zangigi — retruquei-lhe:
Olorum gosta de covardes?
— Não, não gosta desses tais.
Acontece, minha criança, que retribuir o mal com o mal não é valentia, é ignorância.
A força de um homem deve ser medida pela sua coragem em pensar nos outros, antes de si mesmo, e nesse caso, eu pensei que se de facto agredisse o capitão, ele mandaria matar pessoas que amo... talvez, para começar, uma criança: você...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:03 am

Tengegê continuou:
— Esse foi o segundo maior susto que levei na vida, pois ser aprisionado foi e sempre será a primeira e mais terrível lembrança; quando o Zangigi me disse aquilo, captei a grandeza da sua alma: humilhou-se, pensando em nós; o mais extraordinário é que nas noites de tempestade no mar, quando nos convidava a rezar aos orixás para acalmarem as ondas, pedia para eles salvarem nossas almas, caso viéssemos a afundar; contudo, para espanto geral, pedia também para que eles salvassem as almas dos brancos, e em particular, a do capitão.
Nesse ponto do diálogo foram interrompidos por um trabalhador que, esbaforido, veio chamá-los:
— Sinhó Henrique, venha correndo, seu pai o sinhó dom Severo levantou e estava para vir procurá-los, pois chegou um mensageiro do chefe governador lá de longe...
— Do Rio de Janeiro?
E meu pai levantou-se? Então está bem?
A tantas perguntas, feitas de atropelo, o ex-escravo não respondeu a nenhuma. Henrique voltou às pressas.
Seu pai, demonstrando estar mesmo relativamente bem, aguardava-o ansioso:
— Temos que partir...
Temos que partir...
Agora mesmo!
— Mas, meu pai, de quê se trata?
— Sua excelência, o governador, mandou-me uma mensagem secreta.
Veja-a você mesmo.
Passando um canudo de papelão para o filho, “dom” Severo explodiu em lágrimas.
Destampando o tubo, Henrique retirou a folha de papel e leu:
“Sua excelência dom Severo:
Mui digníssimo Intendente-mor de el-Rei de Portugal:
A Virgem abençoe o Rei e a nós também.
A mui honrada senhora Antónia Borges do Amaral Cantilhão, sua esposa, com as queridas Carlota e Julialva, gentis senhorinhas, filhas suas, estão em poder de piratas, infames com certeza; acham-se as presas estacionadas sob vigilância em terras d’África, segundo mo disse um recado anónimo, que me chegou às mãos de forma intempestiva.
Narro-o a sua Excelência, sem a certeza de serem verdadeiros tais factos, mas porque o malvado anónimo disse que somente à sua pessoa, aqui nesta cidade do Rio de Janeiro, será dito o local em que estão as mui santas prisioneiras.
Com a estima do excelentíssimo senhor Governador.
Para as vossas providências.
Terras da Governadoria do Rio de Janeiro, ano cristão: 1710”.
Dom Severo, ante tal notícia, como que sarou, de repente.
As crises que amiúde o acometiam haviam enfraquecido suas resistências físicas e morais, predispondo-o a mudanças comportamentais.
Tanto que a saudade da esposa e filhas vinha fustigando sua alma.
Sua ideia fixa no ouro estava dividida pelo amor à família.
Com grande atropelo de ordens, algumas para recompor a faina duríssima da mineração sob sua administração, em paralelo, organizou uma expedição com destino ao Rio de Janeiro. Urgentíssima!
Com forte escolta, de espingardeiros rudes, mas obedientes e leais, amealhou o ouro já catado e só então se deu conta de que havia muito mais do que supunha.
As toscas barras de ouro iriam para el-Rei.
Há tempos tendo sido descoberto caminho mais curto entre as minas e a governadoria do Rio de Janeiro, parte do percurso aproveitando rios.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:03 am

Assim, “dom” Severo não demorou mais que três semanas para chegar, logo procurando a autoridade:
— Excelência, senhor governador:
que o manto da Virgem proteja el-Rei e também à vossa excelência.
Vim ligeiro, pois meu coração está ferido de morte, sem minha mulher e minhas filhas.
Diga-me lá, por favor, descobriu quem mandou o recado?
— A mesma bênção retribuo a vossa excelência.
Infelizmente, a despeito das diligências que venho determinando nestes anos todos e agora em particular, nada foi apurado.
Mas continuam as investigações:
mandei mais de quinze indivíduos descobrirem algo sobre o paradeiro de sua família, ou, ao menos, quem são os sequestradores.
— Sou-lhe grato.
Vou permanecer alguns dias como seu hóspede, antes de ir ter com Sua Majestade, para entregar-lhe o que lhe é de direito.
O governador não conseguiu disfarçar:
— Dom Severo, quantas arrobas, desta vez?
— Muitas, excelência, muitas...
Deixarão el-Rei feliz, por certo.
O governador pigarreou:
— Tivemos despesas por aqui... procurando sua família...
— Quantas despesas, excelência?
— Talvez, algo assim como meia arroba...
— Vou passar às suas contas uma arroba, para que as buscas prossigam.
Não registarei essa indemnização, debitando-a a despesas de viagem, pois não?
Mas conto com sua energia contra os bandidos.
— Mui generoso, “dom” Severo.
Também não a registaremos.
Quanto aos malvados, mobilizaremos novos recursos para achá-los.
Tão grande é a vibração mental que energiza negativamente a maioria das fortunas — de que o ouro é o representante mais usual na Terra — que a presença de “dom” Severo ali no Rio de Janeiro, vindo das minas e com tão poderosa escolta, não deixava dúvidas da fortuna que trazia.
Essa dedução, elementar, fizera-a todos os serviçais que ajudaram a carregar os pesados baús para o palácio do governador, onde a guarda, reforçada desde que “dom” Severo a deixara, foi triplicada.
Por essa época, coincidindo com a presença de “dom” Severo no Rio de Janeiro, a cidade foi alvo de um ataque de aventureiros franceses, que objectivavam fundar uma “pequena França” naquela região; para tanto, atacaram justamente o palácio do governador, à noite, após um desembarque furtivo no porto carioca; como a guarda estava reforçada, foram rechaçados, impiedosamente, tendo seu chefe sido torturado e morto, sem contemplação.
Enquanto não obtivesse notícias da família, “dom” Severo não partiria para Portugal e assim, passaram-se semanas...
O intendente-mor pressentia que os piratas exigiriam ouro e por isso não seria prudente levar todo para Portugal, pois precisaria de algum, para salvar a família.
Estava já a ponto de explodir, tamanha sua ansiedade e tão forte eram as suspeitas de que jamais veria seus familiares, quando, finalmente, recebeu notícias alentadoras:
estando perambulando pelo cais, como vinha fazendo há meses, quase teve uma síncope quando a viu:
— Tu?!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:04 am

— Sim, excelência, eu mesma...
— Minha mulher, minhas filhas...
— Estão longe... muito longe...
— Diga, mulher: o que queres?
Quanto? Quanto?!
— Vosso filho cá esteve tanto tempo, mas só com vossa excelência queríamos acertar as contas.
Se não tivésseis vos escondido lá nas minas, já há tempos poderíeis ter recuperado vossa família.
Porém, acalmai-vos, homem, precisamos acertar uns detalhes...
— Não me recomendes calma.
Mando-te açoitar!
— Ah, é? Pois então, por que não o fazeis já?
Sois herói de fancaria.
Outra bobagem como essa de me ameaçar e aí mesmo é que jamais as vereis.
— Estou aflito: minha família há tantos anos não a vejo.
Nem sei se estão vivas...
Sem possibilidade de detê-las, lágrimas ardentes rolaram pela face do poderoso intendente-mor.
— Chorais? Pois sabeis que eu também, quando vós matastes meu companheiro, naquela noite vil em São Gonçalo.
Para vingá-lo, quis roubar-vos ouro na Vila Rica, mas novamente eliminastes amigos meus.
Roubar vossa família foi minha última chance de vingança.
— Todos os que morreram eram bandidos...
Sequestradores...
— Não sabeis o que é perder familiares:
o capitão pirata era meu marido.
Narrei vossa traição a muitos piratas e por isso, vossa excelência jamais poderá estar ao mar sem que algum deles esteja querendo matá-lo.
Recomendei-lhes apenas que aguardassem minha dor passar, enquanto a vossa aumentava.
A hora é chegada...
— Pelo amor da Virgem:
onde estão minha mulher e minhas filhas?
— Já falais agora em ajuda dos céus...
Pois bem:
dai-me duas arrobas de ouro e as terás de volta.
— Duas arrobas?
Estás louca!
— Por cada uma das prisioneiras!
No total, exijo seis arrobas.
Não vos façais de inocente: sabemos ambos que em palácio estão estocadas dezenas, talvez até mais de cem arrobas para seu rei.
Severo calou-se.
Ia retrucar, mas na verdade sabia que estavam estocadas cerca de cem arrobas de ouro. Como a mulher sabia disso?
Antes de ele perguntar, ela adiantou-se:
— Estais sendo vigiado, de perto.
Ao menor sinal de traição, do que sois useiro e vezeiro, as operações de resgate ficam suspensas e talvez mesmo, concluídas...
— O que queres dizer com “concluídas”?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 15, 2017 11:04 am

— Que embarcaremos de supetão e vossa mulher com as filhas serão entregues a comerciantes de escravas, que nos pagarão bem por elas, pois lá para os lados da Ásia serão apreciadas...
— Jamais, jamais: farei o que mandares.
Mas, por favor, que seja para logo.
Já não resisto por muito tempo essa angústia.
— Falais manso, quando estais por baixo.
Aviso a vossa excelência:
à menor suspeita, nunca mais vereis vossas queridinhas.
E não adianta mandardes matar-me: as ordens são para levá-las para a Ásia, caso aconteça-me algo inesperado...
Fazendo pausa, com olhar fortemente fixado no homem, ordenou:
— Em uma semana, ide para Portugal, com vosso comboio de um brigue e dois galeões, e em “passo” lento.
Em dois, talvez cinco, quem sabe dez dias, vereis um barco com duas bandeiras, uma vermelha e outra branca, no topo do mastro real.
Arrie bote ao mar e ide até esse barco, em pessoa, com dois remadores.
Lá recebereis instruções.
Os acontecimentos que envolvem as criaturas, pela Lei Divina de acção e reacção, são de duas categorias
os delineados e os reflexivos:
- os primeiros, judiciosamente programados por Espíritos Siderais, prevêem factos marcantes na etapa reencarnatória: tempo de vida física, condições orgânicas adequadas ao roteiro que deva ser seguido, sendo também delineadas as condições sociais, financeiras e profissionais; além dessas, igualmente são programadas as doenças graves, acidentes inesperados e outros factos expressivos, tais como a constituição de família e pessoas com as quais será longa a convivência, sempre objectivando aparar arestas com tais pessoas;
- já os factos reflexivos, são gerados pelo livre-arbítrio e abrem-se em infinito leque de possibilidades; alguns, inclusive, alteram substancialmente aos delineados:
ora é alguém que se mantém solteiro, apesar da previsão de unir-se a outra pessoa e com ela formar lar com filhos; ora é um casamento desfeito, por ausência de tolerância, ocasionando prejuízos graves à criação dos filhos; ora é alguém que deveria seguir determinada carreira profissional e desiste na última hora, quando tudo já estava arranjado; noutro caso, revoltado com a pobreza, o indivíduo torna-se criminoso e faz fortuna, à custa de crimes; em outra circunstância, abusando de drogas, de vícios, de excessos de toda natureza, ou mesmo da prática de maldades, a pessoa desestrutura seu tónus vital, físico e espiritual, vindo a desencarnar muitos anos antes da programação elaborada a seu benefício por aqueles Benfeitores.
Em todos esses casos, onde não se cumpre o previsto, os factos não ficam cancelados, como pode parecer:
simplesmente ficam adiados, para vidas futuras.
Cedo ou tarde, os débitos terão que ser resgatados.
Reflectimos que foi isso que o Mestre Jesus quis dizer quando nos alertou:
“E dali não saireis enquanto não pagardes o último ceitil” (Mateus, 5:26).
Ajuizamos assim que os programas reencarnatórios de cada criatura não se assentam sobre trilhos, mas sim, percorrem trilhas:
não há inflexibilidade, ou fatalismo, o que há é sublime dinâmica de merecimento, por actos positivos ou negativos, os quais podem alterar parcialmente citados programas (roteiro existencial), segundo a segundo.
No caso de Severo:
suas actividades, desde a opção de buscar fortuna nas terras dalém mar, alteraram profundamente o rol das tarefas que teria que cumprir.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:21 am

Talvez até tivesse mesmo que mudar-se de Portugal para a Colónia, mas jamais tendo a cobiça por bússola infiel.
Assim, estar ali no Rio de Janeiro, presa de forte angústia, não era necessariamente fato inevitável.
Inevitável, sim, foi aquela cidade ser surpreendida, naquele momento, por feroz ataque de quase seis mil franceses, sob o comando de um vingativo amigo daquele outro francês que há meses fora morto pelas autoridades lusitanas.
Quando o inimigo, fortemente armado dominou o comando da cidade, o ouro que deveria ser levado para Portugal funcionou como salvo-conduto para serem poupadas vidas e o inimigo retirar-se, dando-se por satisfeito quanto à sua vingança, pois além de cinquenta arrobas de ouro, levava animais de transporte, de montaria e suprimentos para o retorno da armada à França. (*)
Severo, ardilosamente, conseguira esconder as outras cinquenta arrobas — suficientes para o resgate de sua família e ”outros gastos eventuais”.
Mas, se salvara a cidade, temia ter perdido de vez a família, pois talvez a mulher já houvesse rumado mar adentro e não o encontrando, venderia para mercadores de almas.
Pôs-se a beber. No cais...
Henrique, por mais que tentasse, não conseguiu impedir tão infeliz do pai, a de se entregar ao álcool...
O máximo que podia fazer era pagar as bebidas e levar o pai para a hospedagem.
Por alguns dias, o governador, informado por seus auxiliares, recuperava “dom” Severo “daquele ambiente sórdido”, mas com a repetência das bebedeiras, deixava-o entregue ao álcool e à própria sorte.
Aliás, de que valia o intendente-mor, bêbado e sem ouro?
Pois que ele recusava-se retornar à Vila Rica para buscar mais, dizendo que para lá só voltaria com a mulher e as filhas; recusava-se também a partir para Portugal levando o ouro do espólio que restara do furioso ataque dos franceses.
Numa dessas bebedeiras, num momento em que Henrique foi pagar o consumo de bebidas do pai, desconhecidos sequestraram Severo, que foi levado para os fundos de uma casa e quando despertou ela estava lá!
— Então, homem, destes para beber?
O tratamento agora era despido de quaisquer formalidades.
— Onde estão elas? Mato-te se...
— Ih, outra vez o herói de areia.
Um dos homens deu-lhe tremenda bofetada.
— Mato aos dois! — esbravejou, saindo da embriaguez.
— Assim está melhor: estás curado do álcool e agora podemos conversar.
Ainda sobrou ouro?
Diga logo e não minta!
— O suficiente para resgatar minha família.
— Muito bem, se queres meu conselho, exija da autoridade que lavre uma ata informando do ataque daqueles franceses e dizendo que roubaram todo o ouro de el-Rei.
Teu rei ficará contente em saber que estão a caminho cerca de outras cem arrobas de ouro. verificar
— Estás demente: cem arrobas?
És hilária, mulher. Mesmo que fosse verdade, como é que tu saberias disso?!
— Não sou nem uma coisa, nem outra:
o vento, homem, o vento me trouxe notícias.
Enquanto bebias como um gambá, gente minha chegou do sertão, além das minas, e ficamos sabendo que por lá, se já não bastasse a descoberta também de algum ouro, foram achadas grande quantidade das pedrinhas que luzem: diamantes!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:22 am

Ante o espanto de Severo, complementou:
— E tem mais:
sertão adentro, subindo, outras minas de diamante, esmeralda, topázio e turmalina estão enchendo as burras do pessoal:
os mesmos paulistas que tu magoaste e que por isso abandonaram a Vila Rica, sentindo-se desprezados pelas autoridades lusitanas: tu!
Mordaz, complementou:
— E el-Rei — teu el-Rei —, nada sabe, por enquanto.
Serás um herói, ao chegar com a novidade.
Mas repetindo o plano anterior: em uma semana partes tu e partimos nós.
Vá em três navios.
Em alto mar verás o navio das duas bandeiras que te falei.
Vá até ele, de canoa, com dois remadores e serás informado do que fazer.
Fazendo um muxoxo de desprezo, a mulher foi embora.
Trémulo, Severo chegou ao palácio do governador e, ladino, atiçou-lhe a cobiça:
— Sabeis, excelência, tenho olheiros a meu soldo e são boas as novas vindas das minas. E não só delas...
Antes de tudo, Severo entregou-lhe cinco arrobas de ouro, “para pagar as despesas gerais”.
Ali começaram os tais “gastos eventuais”.
A seguir, narrou a descoberta das pedras preciosas e sem dificuldade recebeu a ata que a autoridade lavrou e sobre a qual apôs o selo oficial.
Na ata, constava que o inimigo roubara todo o ouro, menos as trinta arrobas que “dom” Severo levava e que já estavam a caminho da Coroa portuguesa.
Severo, assim, reservara para si, quinze arrobas.
Com facilidade convenceu-o da urgência para ir a Portugal levar pessoalmente a novidade a el-Rei e informar o grave ataque francês ao Rio de Janeiro.
Solicitou três navios, foi atendido e em uma semana partiu, levando Henrique.
Por sete longos dias, de expectativa crescente, nada aconteceu.
Porém, já iniciando a segunda semana de viagem, o pequeno comboio de Severo avistou o navio que trazia duas bandeiras, uma branca e outra vermelha.
Reduzida a velocidade, pelo recolhimento de dois terços das velas, logo se aproximaram, à distância de milha.
Seguindo as instruções, Severo baixou escaler ao mar e com dois remadores, foi ter com a nau.
Quando se aproximou à distância de voz, recebeu instruções para chegar junto ao casco e subir a bordo.
A “mulher do cais” esperava-o:
— Vens à caverna dos lobos, hein?
Com efeito, na quilha daquele navio estava escrito seu nome:
“Lupus” (do Latim = lobo).
Severo, até então em grande ansiedade, de repente raciocinou que fora muito imprudente em ter vindo assim até ali, sem mais nem menos.
Não conseguindo disfarçar a emoção, perguntou:
— Onde estão minha mulher e filhas?
— “Onde estão” as minhas seis arrobas de ouro?
— Primeiro, minha família, depois, o ouro...
— Muito bem: se vais bancar o pilantra, acabou-se a brincadeira; olhe homem, vou falar-te algo e já estou sem paciência contigo:
vais trazer-me agora mesmo o combinado e a seguir terás tua família.
— Então elas estão aqui?!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:22 am

— Não, estão em lugar que só eu sei.
— Sem minha família não posso entregar-te o resgate em ouro.
— Podeis e vais fazê-lo.
Não há alternativa para ti. Primeiro o ouro e depois te digo onde as encontrarás, sãs e salvas.
E basta de conversa, que tu não és pessoa que me agrada a companhia.
Traga o ouro e venha tu mesmo à frente, pois assim não pensarás em traição, já que se tentares, serás o primeiro a morrer.
Na imensidão daquelas águas, Severo deu-se conta de que fora pilhado num terrível redemoinho, como aqueles que as lendas diziam que tragavam navios inteiros.
A mulher fora concisa:
não tinha alternativa mesmo.
Retornou à sua nau e mandou a tripulação transferir aqueles pesados caixotes do seu camarote para três botes, que logo rumaram para o “Lupus”.
As tripulações dos navios portugueses, desconfiadas, logo se deram conta de algo “desonesto”.
Intuíram que o ouro, que estava sendo naquele momento trasladado para aquele barco solitário, era sintoma evidente de conluio...
Os piratas tinham a promessa de partilha do ouro, feita pela mulher que os comandava.
Já os marujos que tripulavam os navios de Severo, sabendo que havia ouro a bordo, tinham ajustado entre si que, após mais ou menos dez dias de viagem, eliminariam o rico intendente.
Não foi difícil convencer a guarda para serem cúmplices.
Simulariam ataque de piratas e voltariam à Colónia, indo porém para o norte.
O ouro saqueado seria repartido entre eles, em partes iguais.
Tanto os piratas quanto os portugueses desconheciam que, indelevelmente agregadas a eles, terríveis maltas de Espíritos desencarnados, respectivamente sintonizados com seus maus propósitos, faziam com que cada um daqueles navios estivesse com tripulação quintuplicada, embora sem acréscimo físico de um único miligrama.
Flechas mentais, energizadas de cobiça e ódio, partindo dos navios, entrecruzavam-se no espaço aéreo...
A distância entre os dois navios permanecia a mesma.
As tripulações, tanto as dos três navios portugueses, quanto a do navio pirata — aproximadamente duzentos homens, e apenas uma mulher — sabiam exactamente o que estava acontecendo...
Ali, apenas uma alma, dentre mais de mil, estava em paz, aquela paz própria dos justos: Tengegê.
Dessa forma, naquela perdida área oceânica, centenas e centenas de espíritos, encarnados e desencarnados, em sinistra simbiose de pensamentos cobiçosos, tinham um único pensamento: ouro, ouro, ouro.
Os três botes com o ouro foram aproximando-se do “Lupus”...
________________________
(*) Os franceses, de facto, realizaram diversas invasões ao Brasil-Colónia.
a) Em 1555 invadiram o Rio de Janeiro e aí fundaram a “França Antártica; aliaram-se aos índios tamoios; em 1567 seriam expulsos;
b) Expulsos do Rio de Janeiro, dirigiram-se ao litoral acima de Pernambuco, disso resultando lutas que proporcionaram o povoamento da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará;
c) Em 1612, invadiram o Maranhão, fundando a França Equinocial e a povoação de São Luís, em homenagem ao rei Luís XIII; foram expulsos três anos mais tarde;
d) Em 1710, voltaram a invadir o Rio de Janeiro, sendo derrotados; seu chefe, um corsário francês, foi preso e assassinado;
e) Em 1711, outro corsário francês, agora com 18 navios e comandando 6.000 homens invadiu o Rio de Janeiro, conquistando-o; poucos meses depois retornou à França, tendo exigido e recebido, como resgate, grande importância em dinheiro, 500 caixas de açúcar e gado para abastecimento da sua esquadra; na travessia, numa tempestade, perderiam dois dos seus melhores navios e 1.200 homens.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:22 am

11 - Inexiste “acaso”
Perdoem-nos os leitores, mas vamos dizê-lo pela terceira vez: “o homem põe e Deus dispõe”.
Mares e oceanos são bênçãos para toda a humanidade, pelas sublimes energias que neles são usinadas, através da incidência dos raios solares.
Se isso não bastasse, incide-lhes mais alguma luz à noite, pela suave claridade do grande espelho lunar, que por refracção, reparte com a Terra os raios solares que recebe.
É assim que, gota a gota, as águas marinhas, qual se dinamizadas homeopaticamente, são plenas de energias salutares.
Aflorando e permanecendo logo após a superfície das águas, esse incomparável fluxo energético é dirigido para o litoral, viajando a bordo das ondas, que as brisas marinhas impulsionam, sob o influxo das marés e do céu estrelado, potencializando os continentes.
Não nos favorece o conhecimento de grandezas tais, mas exercitando deduções, arriscamos a penhorar aos mares grande parte da vitalidade de todos os seres vivos!
De todos os reinos!
Naquela área específica, onde duas facções humanas, opostas quanto aos objectivos, mas similares na ambição pelo ouro, travavam terrível batalha mental, destilando ódio recíproco, ocorreu mesmo inevitável entrechoque fluídico, fruto do altíssimo teor mental negativo.
Há Espíritos dedicados aos fenómenos marinhos, trazendo em si mesmos fantástico potencial estruturador de equilíbrio e domínio sobre o movimento das águas dos oceanos, de que as citadas correntes marinhas são resultado.
Por elas, organizam-se os climas terrestres.
Tais benfeitores do planeta Terra, anónimos e ainda transitando em faixas evolutivas densas, conquanto de grande apuro técnico quanto às suas tarefas, são contudo voltados para o fiel cumprimento do dever assumido junto a instrutores celestiais que os supervisionam.
São rígidos e disciplinados. E fortes.
Ali, ante tal desorganização de procedimentos e pensamentos, gerando condensação espiritual deletéria, formou-se uma nuvem astral gosmenta, que aos poucos foi envolvendo o espaço circunscrito pelas naus.
O ódio que Severo e a “mulher do cais” dardejavam, um em direcção ao outro, funcionou como estopim aceso da “bomba fluídica” que ambos vivificaram, sob competente assessoria das suas tripulações.
E de centenas de Espíritos afinados ou com um, ou com outro grupo.
Severo, por ver o ouro escapar-lhe, com ele indo meses de trabalho insano, além do risco de perder seu cargo e até mesmo de ser tido à conta de traidor da Pátria.
E, nem tinha certeza de que a família ainda estava viva.
Sentia-se inexoravelmente massacrado por aquela mulher horrorosa.
Ela, a mulher, ao ver os botes se aproximarem, regozijava-se duplamente:
consumava sua vingança e ficava rica!
Benfeitores espirituais bem que tentaram por várias vezes modificar a tela mental daquelas almas em litígio pelo ouro, ambição edificando neles barreira intransponível ao bem, a bons conselhos.
É sabido que os protectores do Plano Maior tentam incansavelmente ajudar aos Espíritos desvairados, encarnados ou desencarnados, mas sendo repelidos incessantemente, afastam-se em oração a Deus.
Não vão embora. Permanecem de prontidão para a ajuda, ao menor sinal de que o bom senso, o sentimento do perdão e da paz tenha por fim se instalado nos corações endurecidos.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:22 am

Não podia mesmo suceder outra coisa: invisível àquelas pessoas, subitamente os ventos “descontrolaram-se” e sem que desse tempo dos botes chegarem ao “Lupus”, as ondas, enfurecidas, transformaram-se em terrível ameaça, quais aríetes trombando os frágeis botes.
O desespero da mulher pela provável perda do ouro — ela em relativa segurança no “Lupus” —, só era menor do que o pavor de “dom” Severo e dos remadores dos três botes, ante a morte iminente.
Velas, as poucas içadas, dos quatro navios, mal tiveram tempo de serem arriadas, sendo que algumas viraram trapos, em segundos.
Acrescentando pavor, a ventania zunia diferente...
A única possibilidade dos tripulantes dos botes serem salvos era chegarem até o “Lupus”, perto e ao mesmo tempo tão distante...
Os botes não resistiram: sob o tumulto das ondas, viraram.
Pela segunda vez a “mulher do cais” via o mar acolher, nas suas profundezas, a tão desejada fortuna, que também por duas vezes, chegava-lhe a poucos metros das mãos e se esvaía, como o relâmpago que foge do céu e mergulha no espaço infinito, sumindo na amplidão da noite escura, ninguém sabendo onde vai parar...
Dizem as tradições folclóricas e até algumas religiosas, recheadas todas de crendices e de contra-senso, que o “inferno” é todo ele feito de uma chama só, onde o fogo, perpétuo, se queima, não destrói, isto é, qualquer que seja o combustível, também o é de duração infinita, imortal, pois.
Hoje, definitivamente, o Espiritismo desfez tal alegoria.
Mas ali, em meio às águas revoltas, em vogas formidáveis, o vento sibilava furioso, mil vezes mais apavorante do que qualquer outro quadro que se possa imaginariamente pintar de algum lugar onde a “justiça dos céus” esteja a punir as almas dos pecadores.
Vimos, também, como se formou a tempestade:
nada de sobrenatural no fenómeno, apenas desconhecimento da causa.
Evitável, pois...
Agravante do cenário de horror, raios enceguecedores saíam de dentro das nuvens e mergulhavam no abismo das águas profundas.
Nuvens, mães dos raios, paradoxalmente escuras como nunca se viu, iam baixando, baixando, qual gigantesca prensa celeste, em vias de esmagar o que estivesse abaixo delas e sobre as águas...
Dir-se-ia que o mar entrara em guerra com o céu, usando nesse insólito combate o turbilhão das águas como armas, contra o inimigo que, também usando água como arma, fez desabar chuva torrencial, além de raios e trovões.
Pavor inaudito assomou aos marujos, os quais, pelo influxo mental de desrespeito pleno ao bem, haviam catalisado aquilo tudo.
Fato inacreditável:
a força dos ventos, soprando em direcções opostas, provocou descontrole das ondas, fazendo com que os quatro navios se aproximassem, com risco de colisão!
Tudo indicava que a morte ceifaria todas aquelas vidas humanas.
Vendo todas as esperanças da sua vida ser tragadas pelo mar, que qual monstro faminto devorava as pesadas caixas com o “seu” ouro, a mulher, em total desvario, precipitou-se naquele inferno de águas em fúria.
Invisível a olhos humanos, agarrado a ela, mergulhou também o espírito do seu marido, o capitão do navio pirata afundado em São Gonçalo.
Aliás, o tresloucado gesto da mulher, resultou da forte influência mental que o ex-pirata transmitia àquela que fora sua companhia e hoje era perfeita antena receptora, sintonizada na mesma frequência mental.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:22 am

Em gestos selvagens, como que duelando com o mar e com o céu em fúria, conseguiu aproximar-se de um dos botes, no instante em que este emborcou.
Em absoluto descontrole, tentou agarrar o caixote com as barras de ouro, mas não teve forças sequer para deslocá-lo, quanto mais apará-lo, pois uma onda mais forte, logo o arremessou a vários metros, levando-o para o fundo e para o sono infinito.
Só então a mulher deu-se conta que a morte se avizinhara.
“Tarde demais”, pensou, “que loucura, a minha, vou morrer...”.
Nesse instante supremo, algo jamais suspeitado ocorreu-lhe: como se fosse mera assistente, sozinha numa sala de espectáculos, viu desenrolarem-se todos os acontecimentos da sua vida, desde tenra idade.
Sentiu o calor do seio materno alimentando-a e mais que isso, aquecendo-a com transbordantes gestos de carinho e amor.
Revendo-se jovem, penitenciou-se por ter optado pelos descaminhos que se lhe desfilaram todos, desde que se conluiara com o capitão pirata, daí resultando a vida criminosa que estava prestes a findar-se.
Prodígio dos prodígios, das profundezas da sua alma, mais oculto que o próprio fundo do mar, emergiu o arrependimento sincero!
Por uma fracção infinitesimal de tempo, imaginou-se qual aquele oceano, que revolto na superfície, tinha ouro repousando sereno em leito acolhedor e imperturbável.
Reflectiu: “por minha culpa, todos vão morrer...”.
A última cena que reviu, do roteiro integral da sua vida, foi a da mãezinha, alquebrada pela tristeza de ver a filha naquela rota infeliz:
— “Filha da minha alma, sei que não mais nos veremos nesta vida, pois estou de partida... eu abençoo você, em nome de Deus.
De onde estiver, se o Pai permitir e eu puder, virei ajudá-la, se precisar”.
Pensou na mãe e orou:
“Perdão, meu Deus, perdão minha mãe”.
E chorou...
Lágrimas de arrependimento têm tanta força quanto as altas ondas...
— De quantas gotas é feito o mar?
Simplesmente, incontáveis.
Pois as lágrimas (poucas gotas) da mulher, contendo um imenso potencial energético de Amor, ali representado no arrependimento pelos actos que acabaram por carrear a morte iminente para tantos homens, além da vontade de tudo recomeçar, de reconstruir sua vida, tiveram o condão de chegar até os tarefeiros espirituais das forças da natureza, nas duas pontas do seu escalão:
sensibilizando os coordenadores (Espíritos elevados) e comovendo os coordenados (Espíritos agentes).
— Quanto tempo tinha se passado?
Nem dez segundos...
E, no entanto, se poderá dizer que aquela mulher, nesse espaço, vivera outra vida.
O Espírito que a obsidiava, pela enganosa associação que os unira, fruto da amizade oriunda de motivações comuns, igualmente electrizou-se com aqueles factos da vida da ex-esposa, que lhe foi dado ver na tela mental, por Protectores que se acercaram deles.
Se motivações similares negativas formam clima corporativista, mais forte ainda será quando nas uniões a tónica é o Amor.
Tanto assim que o sofrido ex-pirata, saltimbanco de algumas vidas de equívocos morais, foi tocado também de arrependimento.
E com ele, tocados do mesmo efeito positivo foram as dezenas, talvez centenas de Espíritos, que há tempos, vinham excursionando em sintonia mental paralela às das tripulações dos quatro navios.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:23 am

Probante que não há força superior ao Amor aconteceu algo mais espectacular ainda do que a colossal demonstração da natureza.
Na expedição estava Tengegê, que Severo trouxera consigo, intuído que fora pelo Espírito Marcília, sua avó, para a eventualidade de agir como guia e intérprete nas terras da África.
Pois Zangigi não dissera que a família estava “longe... bem longe...”?
Além disso, Severo raciocinara que se “a mulher do cais” marcara um encontro em alto mar, na rota da África, era lá que sua família estava aprisionada.
Aliás, no Rio de Janeiro, “aquela mulher horrorosa” também dissera a ele, várias vezes, que a família estava “longe... muito longe... nas terras d’África”.
Então sua dedução era verdadeira! Na África!
O jovem ioruba, alma em franco progresso moral, pois em todos os verdes anos da existência nunca executara uma única traição ou vingança, nem sequer guardara ódio de quem quer que fosse — e muitos foram os motivos para que sucumbisse ao rancor —, vendo, do navio em que estava, o sinhó Severo ser tragado pelo mar raivoso, teve um gesto reflexivo:
atirou-se às águas, para salvá-lo.
Quando Henrique também ia socorrer seu pai foi atingido e lançado ao mar por um mastro que se quebrou.
Os marujos e os guardas dos três navios lusitanos que testemunhavam aquela descomunal tempestade, jamais vista igual por nenhum deles, intuíram que a breve tempo todos estariam aniquilados por ela.
Mal puderam crer no que viam:
o jovem negro, destemido, com seu gesto desafiou, a um só tempo, o mar revolto, os ventos uivantes e os raios que literalmente pipocavam naquele embate de forças impetuosas.
Na alma daquele moço, que nunca experimentara a sensação de ser respeitado, ou que nunca fora alvo de uma única demonstração de amizade de um branco, exclusive a de Henrique, só havia um sentimento:
aquele homem que detinha o poder de vida e de morte sobre ele e seus companheiros de infortúnio, não resistiria à tormenta.
Tantos e tantos anos sob suas implacáveis ordens, auxiliando-o a realizar seu plano de vida, que era levar ouro para el-Rei e ao mesmo tempo enriquecer, vincularam aquelas duas almas:
- uma, o senhor dos escravos, administrando-lhes o presente, o que compreendia um futuro só de trabalhos forçados, até o final de suas existências;
- a outra, o escravo, que por razões desconhecidas, fora o “eleito dos orixás” para descobrir onde havia o ouro destinado a impulsionar o progresso “do mundo”; progresso que se realiza de forma inexorável, a despeito de que, como acontece com o ser humano, ante as benesses divinas, de início quase sempre é deturpado pela ambição.
As braçadas vigorosas do jovem Tengegê não surtiriam o menor efeito ante a agitação das ondas.
Contudo, sua força advinha do sentimento nobre de um ser que arrisca, ou melhor, que praticamente doa sua vida, na tentativa de salvar a do próximo, em instante de altíssimo risco.
Tal a força do Amor!
Ninguém viu, mas vindo do muito alto, um feixe luminoso incidiu sobre o valoroso Tengegê, envolvendo-o como se ele fosse uma abelha a beijar uma rosa sob ventania, sendo de repente abraçado e protegido pelas pétalas.
Misteriosas e insondáveis, as forças da natureza, ali em aparente descontrole, como que se organizaram e formaram uma pequena e breve corrente marinha que levou o jovem para perto de “dom” Severo, este, afogando-se.
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Ave sem Ninho

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:23 am

Tengegê alcançou-o e com forças redobradas, oriundas do elevado sentimento que o motivava, conseguiu fazê-lo manter a cabeça fora d’água, em repetidos lances, possibilitando-o recuperar a respiração, a pouco fadada a se perder, de vez.
Severo já estava semi-desmaiado.
Um bote emborcado, que uma onde trouxe para perto deles, serviu-lhes de porto flutuante, em meio à tempestade que prosseguia, invencível, aterrorizante.
O “Lupus”, navio clandestino e sem qualquer manutenção, começou a dar demonstrações que submergiria, pois a calefacção, antiga, não resistiu aos impactos das ondas.
Logo começou a fazer água.
Seus tripulantes, petrificados de medo ante a violência dos fenómenos naturais, perceberam que seriam infrutíferos quaisquer esforços de esvaziar a água que adentrava pelo convés, vindo não só do mar, mas do céu também...
O velho barco, minutos após, começou a adernar.
Tanto ficar nele como jogar-se ao mar, o resultado seria um só: a morte.
Quase todos os tripulantes atiraram-se às águas revoltas.
Dentre os poucos que ficaram no navio prestes a afundar, dois piratas, que jamais em toda a sua vida de crimes nunca pronunciaram uma única palavra dirigida a Deus, naquele momento dramático, sentiram descobrir-lhes no peito a Chama Divina da sua criação.
Ante os gritos e gestos desesperados dos companheiros atirando-se ao mar, e a imobilidade diante do pavor, de outros, um deles, de joelhos e em lágrimas ardentes, bradou:
— Dieu, mon Dieu: sauvez-nous!
(Deus, meu Deus: salvai-nos!).
Logo, o outro marujo fez-lhe coro de fé:
— Jesus, mío Jesuzito, tiene piedad de éste pecador! (Jesus, meu “Jesuzinho”: tende piedade deste pecador!).
Em segundos, o mar demitiu o “Lupus” da sua criminosa carreira.
Devido à perturbação das águas, foi de pequena proporção o terrível “efeito sucção” que se segue ao afundamento de navios.
A “mulher do cais”, afogando-se, derramou mais lágrimas ao ver o “Lupus” submergir, como indefesa presa ante um predador.
Voltou a se dirigir a Deus, em pensamento: “meu Deus, meu Pai:
sou a culpada de tudo, não deixe os homens morrerem”.
Tengegê, agarrado à borda do bote, que conseguira desvirar, mantinha Severo firmemente seguro, pelo pulso.
Severo, atordoado, testemunhou o mergulho fatal do “Lupus”.
Antes, vira o lance desesperado da “mulher do cais”, jogando-se ao mar.
Inúteis suas tentativas de vê-la em meio aquele vendaval.
Reuniu forças e gritou para Tengegê:
— Por Jesus: a mulher não pode morrer:
ela atirou-se às águas e se ela morrer é a única que sabe onde está minha família.
Tengegê exclamou:
— Olhe ela ali, está...
Não concluiu a frase:
mergulhou em direcção à mulher, salvando-a, pois conseguiu trazê-la para o bote no qual Severo estava agarrado.
Sabendo-se ambos prestes a morrer, amoleceu-lhes o coração.
Severo deu-lhe a mão, auxiliando-a.
Olharam-se com tanta emoção, que se diria serem amigos reencontrando-se depois de longa separação.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:23 am

Com respeito e dignidade, mas com um pacificador carinho, Severo passou a mão na cabeça da “horrorosa mulher do cais”, que naquele momento era “uma filha de Deus”, milagrosamente salva, e por quem passou a sentir um puro sentimento de fraternidade.
Os protectores invisíveis abençoaram a força divina do Amor, ali, naquele turbilhão apavorador, selando o primeiro segundo de fraternidade mútua de dois inimigos.
E puderam energizar a ambos.
Também invisível a todos, o ex-capitão pirata, que se debatia, como que colado à mulher, sentindo-se afogar pela segunda vez, ao ouvir os clamores de Severo, foi tomado de surpresa maior do que o pavor que o dominava, se isso fosse possível.
Ouvindo a palavra “Jesus” e no contexto, como salvação para sua ex-companheira, tocou-se de um sentimento há muito e muito tempo adormecido: amizade.
No mesmo instante, sentiu por Severo o oposto do que até então sentira.
E isso lhe trouxe outra surpresa:
viu-se amparado por três jovens que de forma inacreditável, levantaram-no no ar, ficando a pequena distância da superfície das águas.
— Somos amigos — disse um deles.
— Jesus nos mandou — complementou o outro.
— Olhe à mulher que você ama — sugeriu o terceiro.
Olhando-a, viu-a sendo socorrida por Severo. Adormeceu.
Tengegê, captando a magia do momento, olhou para o céu e para espanto de Severo e da mulher, conversou com as nuvens, com os raios e com os trovões:
— Sei que em cada um de vocês está um orixá, zangado com nós todos, que estamos desrespeitando a terra e o ouro, seu filho, e o que é pior, junto das águas do mar...
Mas, em nome de Olorum, peço a vocês uma oportunidade para que todos sejamos perdoados.
Raramente, no mundo todo, uma prece tão humilde tenha a emoldurá-la tanta fé.
E como todas as preces sinceras são atendidas, as dos marujos, a da “mulher do cais” e mais que todas, a do jovem e anónimo herói, juntas, alcançaram esferas espirituais elevadas.
As águas se acalmaram, as nuvens como que por encanto começaram a se dissipar e a ir embora, levando com elas os raios e trovões, cujo ribombar noticiava que ainda estavam vivos, mas distanciando-se.
Só um navio restou da pequena frota de Severo, de três.
Os dois navios lusitanos que afundaram, levaram com eles quase a totalidade dos homens que os tripulavam — marujos e guardas.
Assim, além da tripulação do “Estrela da Manhã”, de quarenta marujos cerca de quinze guardas, salvaram-se Tengegê, Severo, a mulher, dez náufragos portugueses dos dois galeões afundados e os dois marujos piratas.
Ao todo, cerca de cento e cinquenta homens perderam a vida, conquanto, pelas luzes espíritas, na verdade ganharam quitação de recônditos e expressivos débitos.
Ao serem trazidos os náufragos para o convés, Severo, dentre todos, era o que mais estava abalado, mal podendo suster-se de pé gemeu:
— Meu filho? Salvou-se?...
— Sim — respondeu-lhe um dos tripulantes, informando que caiu no mar, mas se agarrara a um mastro que quebrara.
Os demais, modo geral, estavam em estado de choque.
Naquele convés salvador, ninguém era inimigo de ninguém.
Alguns homens estavam feridos, gravemente.
Não havia comandante nem comandados.
Os que podiam, seguravam a amurada e olhavam para a amplidão oceânica, desacreditando que instantes atrás, haviam presenciado a maior tempestade já vista no mar.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:23 am

Na alma de todos havia uma certeza:
forças invisíveis os espreitavam...
Os dois piratas, por medo e arrependimento, decidiram que jamais voltariam àquela vida de saques e crimes, às vezes, hediondos.
Num gesto instintivo, um marujo ajoelhou-se.
Mãos unidas, erguidas aos céus, começou a orar em voz trémula, mas plena de gratidão:
— Pai Nosso que estais no Céu...
Um a um, inclusive alguns feridos, foram ajoelhando-se também e repetindo as palavras da oração sugerida por Jesus.
Em meio às frases do “Pai Nosso”, proferidas em Português, ouvia-se também as correspondentes em Francês e em Espanhol, pois os dois auxiliares da mulher eram dessas respectivas nacionalidades.
A força dessa oração transcende línguas, e assim, o que lhes ia na alma, transitava da Terra ao Céu, sob embalagem da Fé.
Terminada a oração, presas ainda de espanto, os sobreviventes viram a mulher aproximar-se de “dom” Severo, visivelmente em estado de choque.
Em gestos quase maternais, alisou-lhe a fronte, dizendo:
— Perdão, criatura de Deus, perdão!
Tengegê chegou perto e começou a massagear o peito do patrão, que se deitou, com pequena convulsão.
O jovem virou-o de bruços e ficando de pé sobre ele, com as pernas entreabertas, agarrou-o pela cintura e ergueu-o com firmeza, de um golpe.
No mesmo instante Severo regurgitou, causando espanto a quantidade de água do mar que estava dentro dele...
Aos poucos, recuperou-se.
Viu a mulher, que lhe sorria, fraternal.
Tocado de grande emoção, sem dizer palavra, estendeu-lhe a mão, repetindo a forma carinhosa pela qual fora chamado por ela:
— Criatura de Deus, criatura de Deus...
Começou a chorar, em pranto incoercível.
Todos aqueles rudes homens do mar, tocados de emoção, choravam também.
A mulher, lacrimosa, acolheu-lhe a fronte junto ao regaço e voltou a acarinhá-lo, fraternal, sem qualquer outra conotação.
Severo conseguiu propor:
— Vamos nos perdoar, um ao outro...
E que Deus nos perdoe, a todos!
Deram-se as mãos num gesto de confraternização.
Demonstrativo fiel da força do perdão, todos os demais homens a bordo daquela embarcação, sem dizer palavra uns aos outros, deram-se também as mãos.
Magnífica cena!
Depois, Severo veio até Tengegê e beijou-lhe a mão.
A mulher fez o mesmo.
Os marujos, todos, fizeram um círculo sobre o único negro a bordo e bradaram, a uma só voz, o grito de saudação dos homens do mar, após as tempestades:
— Odin! Thor! — acrescentando: Tengegê!
Citar o nome do africano junto aos dos deuses — pai e filho — que na mitologia escandinava eram, o primeiro, o deus supremo e o segundo, o deus das tempestades, raios e trovões, foi a maior homenagem que jamais um escravo africano recebeu.
Não tanto pela possibilidade de ser equiparado a um deus mitológico, mas sim, pela sinceridade daqueles homens brutos, no primeiro minuto da sua conversão moral.
Severo ia implorar algo à mulher, mas ela intuiu o que ele queria:
— Não sei onde elas estão, confesso-te de coração!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:24 am

— Santo Deus!
Estão perdidas para sempre?
— Não e não: há quem sabe onde estão...
— Pela Virgem: quem?
— Aquele que quase te foi genro e que esteve connosco alguns meses...
Ficamos amigos...
Quase se tornou um dos nossos...
— Quintino? Não pode ser!
Mas, por que seria ele?!
— Por algum tempo ficou estacionado numa região da África, aguardando que os chefes nativos trouxessem escravos para meu companheiro levar à Colónia, onde renderiam bom dinheiro.
Quando dei ordens de sequestrar tua mulher e tuas filhas, determinei à tripulação que as levassem para esse tal lugar.
Agora o mar levou meus tripulantes que sabiam onde era esse ponto do imenso litoral africano...
Em lágrimas sinceras, balbuciou:
— Eu, na verdade, nunca estive lá...
Severo avaliou a situação: estava ainda muito longe da costa africana e os géneros e a água a bordo com certeza não seriam suficientes para a tripulação, agora sensivelmente aumentada, pelos náufragos.
Assim, prosseguir viagem para o continente negro seria arriscado.
Outro problema: temendo ser assaltado em alto mar, dividira o ouro para el-Rei nos dois navios que afundaram.
Dessa forma, como chegar a Portugal “de mãos vazias”?
Seu ouro, bem escondido lá, esse era só seu.
Melhor retornar à Colónia...
Mas o principal motivo que o levou a essa decisão foi a dedução de que só Quintino, em todo o mundo, poderia indicar onde sua família estava sequestrada.
Preso, só poderia ser solto por graça de el-Rei.
Desde que el-Rei estivesse feliz, isto é, recebesse bastante ouro.
Aí, qualquer favor real que pedisse obteria deferimento.
Abaladíssimo com a lembrança viva da tempestade e ao mesmo tempo feliz pela confraternização geral da qual participara, recolheu-se para descansar.
Deitou-se e começou a reflectir que, há poucos instantes estivera frente a frente com a morte:
“minha vida poderia terminar, num segundo e de que vale todo o ouro que acumulei, se ele não pode livrar-me de desastres como esse que me alcançou?”.
Compenetrou-se, com sinceridade, de como todos os seus esforços para amealhar ouro, num segundo, poderiam se diluir.
Amargou uma certeza, que lhe invadiu a alma:
“ouro, ouro, ouro... só venho pensando em fortuna, há doze anos...
Deixei família, bajulei a realeza, oprimi e supliciei escravos, justicei com morte piratas e contraventores e ladrões, mandei pessoas para a cadeia, expropriei donos legítimos de minas, legislei com prepotência, desrespeitei um lar...
Meu Deus! Qual será meu castigo?
As chamas eternas?...”.
Remorso profundo visitou-o.
Nesse estado de espírito, extremamente sensibilizado, não só pelo intenso perigo da tempestade marinha, lembrou-se dos conselhos de Zangigi, relativos à outra tempestade — à da alma —, maior esta que aquela...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:24 am

“Não era exactamente isso que agora sentia?
Não estava com a alma em meio a outra tempestade, moral, ardendo de tanto arrependimento?”.
Orou o “Pai Nosso”, em intenção das almas que prejudicara...
Com os olhos cerrados, no suave torpor que antecede ao sono, viu surgir à sua frente, sorridente e envolto em luz, o “velho” Zangigi.
Dialogaram mentalmente:
— Zangigi: que bom que você veio me visitar nessa hora!
— Oh, sinhó: sua prece me trouxe.
Vim com muito gosto, pois estou sabendo das “pesadas” dificuldades que o afligem...
— Sei do que você fala: do peso do ouro!
É mesmo um peso...
Meus pecados, somados, pesam mais que ele.
Agora estou com a alma no meio da maior tempestade:
o remorso pelo mal que venho causando a tantos!
Não tenho mais forças para carregar meus erros...
— Antes que o mar ou a terra guardem o seu ouro que sobrou, por que o sinhó não se alivia plantando ele no céu?
— ?!
— Pois é, sinhó, se o ouro servir para ajudar quem precisa, ele fica tão leve que parece uma pena de passarinho novo solta no ar, que o vento faz subir e se esconder nas nuvens.
Lá, no céu, vai se transformar em árvore de bons frutos.
— Mas, Zangigi, venho pecando muito...
— O Pai Grande vê tudo!
Quando o pecador se arrepende de coração dos seus erros e socorre quem está desamparado, Ele abençoa esse benfeitor e na mesma hora dá-lhe forças para carregar as dolorosas consequências dos maus actos.
E o próprio pecador, que segundo o tribunal íntimo da alma sabe que causou dores físicas ou morais em suas vítimas, busca reconstruir o que destruiu.
Começa pelo remorso e por pedir-lhes perdão, mas é indispensável auxiliá-los no que puder.
E sobretudo, não voltando a cometer os mesmos equívocos.
— No meu caso, quando isso vai acontecer?
— Já começou, meu sinhó!
Com o seu arrependimento sincero.
— Não estou entendendo...
— Sinhó, sinhó, só de reconhecer seus erros, já está consertando os estragos produzidos e mais importante que tudo, já está abrindo a prisão em que estava sua alma, cujas grades são de ouro.
— Mas como é que poderei consertar tanta coisa errada que fiz?
— Quando, a partir de agora e após algumas vidas futuras, sua alma olhar para trás e ver que arrumou as coisas que desarranjou e que ninguém tem nada contra si, principalmente aqueles que judiou...
— Vidas futuras: será que vou viver mesmo de novo?
Quantas vezes? E como escravo?...
— Que o sinhó e todo mundo vive muitas vidas, não se pode duvidar, sob pena de não aceitar a Justiça de Olorum.
Quanto a ser escravo, é possível.
Por exemplo: se o sinhó, depois que morrer, aceitar com humildade vestir a pele de escravo, já vai aliviar muitas culpas; depois de outra morte, se for homem do campo, continuando humilde, outra porção de pecados desaparecerá.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:24 am

E assim por diante...
— Mas, como é que nascendo escravo ou agricultor os pecados desaparecem?!
— É que a pobreza, a ingratidão e dores físicas e morais serão suas companhias, professoras e testemunhas, ajudando o sinhó a expiar pecados, mas também a provar sua fé na Justiça do Pai Grande.
E isso não é castigo, que Olorum não é de castigar, nem de dar prémios.
O que Ele faz é dar tantas oportunidades às criaturas quantas elas necessitem para progredir.
Isso para fazer com que a balança que está na consciência de cada um, com os pratos do bem e do mal, cedo ou tarde, venha a pender só para o primeiro.
Mas, para isso, nessas horas, nada de revolta, nada de xingamentos, só paciência com os “sinhó” e perdão para aqueles que o maltratarem, além de ser caridoso com quem chegar perto, nos caminhos dessas vidas...
Severo, imaginando-se escravo e lavrador, ainda ia perguntar mais alguma coisa, mas despertou do sono breve.
Tão nítido fora o encontro com Zangigi que o diálogo com ele, naquele cochilo, bailava-lhe por inteiro na memória.
Decidiu, ali mesmo, com firmeza inaudita: todo o seu ouro, que estava guardado em local secreto e seguro, juntamente com o que amealhara e escondera na Colónia seria aplicado em actividades que pudessem beneficiar pessoas pobres, de preferência escravos africanos e humildes lavradores...
Ainda pensando na força das águas, dos ventos, dos raios e dos trovões, veio até o convés, contemplou as águas onduladas e os milhares de estrelas que enfeitavam a noite e fez um voto:
“no mar me salvei de duas tempestades, por isso, que ele seja testemunha, para sempre, da minha decisão”.
Julgava-se solitário, naquela paisagem...
Intrigado, não soube explicar como é que tivera a impressão de ter ouvido um coral, cantando distante...
Retornando ao Rio de Janeiro, organizou expedição à Vila Rica.
Caminhando em ritmo acelerado, chegou em dezoito dias.
Após duas semanas, tinha ajuntado grande quantidade de ouro.
Na alma, certeza indelével: aquela era a última vez!
Reuniu todos os companheiros de Tengegê, liberando-os para exporem publicamente a tão sonhada e há tempos concedida carta de alforria.
Igualmente, alforriou agora muitos outros escravos que vinham prestando bons serviços nas minas.
Seleccionou guardas de confiança para o retorno ao Rio de Janeiro.
Antes, convocou Tengegê e participou-lhe que levaria para a África todos aqueles que quisessem.
Para sua surpresa, mais de vinte ex-escravos, agora alforriados e adaptados aos afazeres da mineração, pediram para ficar.
Tengegê quis voltar.
Quando se despediu da Vila Rica, lá nomeando um substituto, conhecido de el-Rei, Severo sentiu, dentro do peito, um gosto de adeus.
Chegando ao Rio de Janeiro, reagrupou os ex-companheiros de Tengegê que tinham ficado em labores domésticos, sendo que também muitos deles pediram para permanecer na Colónia.
Os guardas que seleccionara dariam segurança à viagem e ao ouro que levava para a corte, além do que cada escravo conseguira amealhar.
Preparava-se para zarpar rumo a Portugal quando um menino entregou-lhe um bilhete:
“Estou indo para o sul da Colónia, com alguns amigos, criar e vender animais de tropa.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:24 am

Deixei para sempre “aquela vida” no mar, que só problemas me trouxe.
De bom, daquele tempo, só guardei, bem guardada no coração, a tua amizade. Espero que encontres tua família, com saúde e em paz.
No que me restar de vida, espero agir de forma a ser perdoada por Deus.
É o mínimo, diante do teu próprio perdão.
A mulher do cais”.
Olhou demoradamente à sua volta e não a viu.
Depois ficou fitando o bilhete, também por longo tempo.
Em gesto suave, colocou a folha de papel na água e pensou:
“que o mar seja testemunha do arrependimento dela... e do meu perdão”.
Na viagem, dias e dias pensou naquela mulher estranha.
Sequer sabia-lhe o nome, mas sentia-a alma amiga.
Tengegê e Henrique, amigos inseparáveis, conversavam o tempo todo, fazendo planos futuros de como não deixar morrer sua amizade.
Absorto em reflexões, Severo alegrou-se ao ouvir os negros começarem a cantar:
a África estava à vista!
Todos no convés, uma mulher, com três filhos, chorando copiosamente, aproximou-se de “dom” Severo e beijou-lhe a mão.
As demais, em lágrimas silenciosas, seguiram-lhe o exemplo.
As lágrimas eram de felicidade, pela reconquista do bem supremo da vida: a liberdade!
Os homens, todos, humildes, também beijaram aquela mão branca que um dia fora-lhes cruel.
Hoje, abençoavam-na.
Ancoraram a distância relativa da praia e aos poucos, os africanos desembarcaram, sendo levados pelos botes.
O local era relativamente próximo àquele no qual a maioria deles tinha sido aprisionada.
— Meus amigos não são desta região, mas não terão dificuldade em encontrá-la.
Até porque, lá, o mar é perigoso...
Era Tengegê.
Apenas ele permaneceu a bordo.
Severo olhou-o profundamente, inquirindo só com o olhar:
“E tu: não vais?”.
Também com os olhos Tengegê respondeu:
“Não”.
Com os companheiros acenando-lhe, o jovem, na popa, cada vez via sua África querida distanciar-se.
— Por que não arriaste, com os outros? — perguntou-lhe Severo, agora de viva voz.
— O senhor vai precisar de mim para encontrar sua família...
— Como sabes?
— Quando chegarmos à sua terra o senhor verá.
Chegando mesmo em Portugal e fazendo entrega de tanto ouro, não foi difícil a Severo que el-Rei lhe concedesse graça e deferimento ao pedido de indulto de Quintino e do pai, presos há seis anos.
Indo pessoalmente providenciar a soltura, com o édito real à mão, “dom” Severo foi conduzido à cela “solitária”, onde Quintino estava encerrado.
Custou a reconhecê-lo: barba e cabeleira hirsutas, mais parecia um animal enraivecido.
Os guardas advertiram:
— Cuidado, excelência, pois o rapaz tornou-se agressivo.
— Mas, por quê?
Desde quando?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 10:25 am

O que fizeram com ele?
— Ao chegar aqui quis bancar o nobre, mas depois de algumas semanas, começou a esbracejar e tornar-se violento.
Aí, só restou-nos confiná-lo em solitária.
— Há quanto tempo vive assim como bicho?
— Praticamente, desde que cá chegou.
Tem uns estranhos acessos, falando sozinho, em voz alta.
— E o que diz, nessas horas?
— Conversa com cinco escravos invisíveis, prometendo a três deles que vai matar o responsável pela morte deles, pois os outros dois já perdoaram; outras vezes, diz a um amigo invisível que cedo ou tarde iria recuperar o ouro que foi para o fundo do mar...
Outras vezes, é esse amigo invisível que fala por ele, pois manda ele matar o amigo de el-Rei.
Há algumas semanas acalmou-se e não mais teve essas crises.
Um dos guardas, cauteloso diante da autoridade, justificou:
— Só não foi para as fogueiras santas porque, numa dessas crises, deu um remédio para o comandante desta prisão, que estava muito doente e sarou.
Depois, disse que foi uma alma que o ensinou a fazer aquele remédio, de raízes, folhas e flores.
Aí, o prisioneiro foi obrigado a beijar a Bíblia, o que fez de gosto, ganhando-a de presente...
Até hoje não para de estudá-la...
Severo mal podia acreditar no que ouvira.
Sabia do que se tratava.
Determinou, enérgico:
— Abram!
— Excelência... ele é perigoso!
— Abram!
Quando os guardas, ressabiados, abriram aquela porta que há anos não se mexia, os trincos rangeram sinistros.
Quintino correu para um canto e ficou de cócoras, olhar esgazeado.
Severo, homem destemido, aproximou-se:
— Sou teu amigo.
Vim libertar-te.
Ante o silêncio do prisioneiro, determinou aos guardas:
— Deixem-me a sós com ele.
Os guardas saíram, mas ficaram por perto, de plantão, certos de que o prisioneiro atacaria furiosamente o importante amigo de el-Rei.
No chão, só uns trapos sujos e malcheirosos, sobre os quais Quintino dormia. Severo vinha vivendo fortes emoções, encadeadas umas às outras.
Lembrou-se de como era bonito e saudável o agora farrapo humano que estava à sua frente.
Por culpa sua...
Tocado de sincero arrependimento, aproximou-se de Quintino, num gesto suave colocou a destra na face do rapaz e com os olhos mareados, implorou baixinho:
— Quintino, meu Quintino: quero teu perdão!
Quintino encolheu-se mais ainda.
Nele, de há muito, pavor substituíra à cólera.
E o medo é um dos maiores tormentos humanos...
Ante a imobilidade do jovem, “dom” Severo determinou aos guardas que o banhassem, após fazerem-lhe a barba e aparar o cabelo.
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