Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:52 am

Entregou uma pepita para cada guarda, para “emprestarem” roupas limpas ao prisioneiro.
Duas horas depois, Severo deixava a lúgubre prisão levando Quintino, com a mão sobre o ombro dele, como se o guiasse.
O exemplar do livro sagrado ia com Quintino...
Dispensando a hospedagem real que foi oferecida, Severo preferiu ficar instalado em seu navio-capitania.
E foi para lá que conduziu Quintino.
O rapaz não disse qualquer palavra até chegar ao cais.
Ao subir ao tombadilho do navio, porém, olhou demoradamente para o horizonte, onde o mar fazia fronteira com o céu e murmurou:
— Meu pai... onde está?
Só então Severo lembrou-se que Joaquim também tinha sido preso e igualmente indultado.
Emocionando-se ao ver Quintino na prisão, esquecera-se de Joaquim.
Atrapalhado, indeciso, prometeu:
— Não sabemos...
Mas vamos procurá-lo.
— Meu pai: quero meu pai.
— Sim, sim: vamos buscá-lo.
Retornando ao presídio, sozinho, os guardas deram-lhe a triste notícia:
Joaquim, num ataque de nervos, há cerca de dois anos, suicidara-se.
E aqui, sem estendermos comentários, não podemos nos eximir de reflectir o quanto é enganosa a “solução” encontrada pelos suicidas:
intentando livrarem-se de problemas, na verdade, arranjam mais um.
E, infinitamente mais grave.
Todos os problemas anteriores permanecem no passivo, acrescidos agora de outro:
a longa jornada de reconstrução (doloridas existências futuras), para valorização da Vida, doação divina, desprezada.
O espírito imortal que somos, ao cometer o auto-homicídio, ingressa no rol dos sofredores do além:
desperta em palcos sombrios, tendo por companhia outros suicidas; neles todos, as dores físicas e morais, ultrapassam todos os limites, eis que, muitas vezes, permanecem junto aos próprios despojos físicos em decomposição.
Não há maior sofrimento!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:52 am

12 - A tumba das almas brancas
Arrasado, Severo retornou ao navio, encontrando Quintino debruçado na amurada, olhando as águas...
Quando subiu ao convés, o jovem, qual felino, saltou sobre ele e começou a esganá-lo, gritando:
— Pessoa má: tiraste-me a família, tiraste-me a vida.
Morra, infame!
Uma bem aplicada pancada na cabeça, desferida por um marujo, fez com que soltasse a presa.
Por segunda vez isso acontecia...
Tengegê veio correndo acudir Severo, que sufocado, quase não conseguia falar.
Mas, ao invés de atender ao patrão, quando olhou para Quintino, desmaiado pela pancada, dirigiu-se a ele.
Colocou-o precariamente sentado com as costas na amurada e massageou-lhe o peito e a nuca.
Quintino despertou surpreso, com tanta gente à sua volta.
Perguntou:
— O que aconteceu?
Os homens olharam-se, mudos, ressabiados...
Sabiam o que aquilo significava: ao atacar “dom” Severo, o rapaz tinha sido “instrumento das almas penadas”.
Disfarçando, afastaram-se, temerosos.
Severo, Tengegê e Quintino se olhavam, mentes fervilhando.
— Vamos ao seu camarote — sugeriu Tengegê a Severo.
Foram, os três. Tengegê anunciou:
— O menino (referia-se a Quintino) precisa tratar a alma...
Ante o espanto dos dois, o jovem africano explicou:
— Almas boas querem trabalhar pelas mãos dele, mas como ele se recusa, as más usam-no como escravo, para fazer coisas ruins.
— E como você sabe disso tudo?
— Para falar a verdade, não sabia até há pouco.
Só agora ouvi um orixá contar-me.
— Por Deus e por Jesus:
tu falas pelas almas e agora elas te sopram aos ouvidos; eu, vez por outra, as vejo também e sei o que querem; e se não bastasse, agora, temos cá o rapaz, que se entende muito bem com elas:
se alguém vier a saber disso, nos mandam aos três, para as fogueiras, sem apelação.
— Ele tem razão — atalhou mansamente Quintino, como que se libertando de uma grande dúvida e aduzindo:
vejo e sinto almas rondando-me, umas boas, outras más, como essa de há pouco:
era um escravo “fujão” que o senhor mandou eliminar; sempre sei o que querem as almas, pois as ouço com ouvidos “que não existem”, dentro da minha cabeça; as amigas me convidam a trabalhar...
Trabalhar de outro jeito...
Dizem que posso curar doentes...
— Pela Virgem, meu rapaz:
trabalhar como?
Pois então que já não és soldado de el-Rei?
Vou reconduzir-te ao posto que tinhas!
— Na verdade, devo ser soldado sim, mas de Jesus.
— Padre?! Queres ser padre?
O silêncio e a placidez no olhar de Quintino deram a resposta, altamente confirmadora.
Severo, sem poder conter-se, disparou:
— Ao menos, lembras de quando eras soldado de el-Rei?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:53 am

— Faz muito tempo...
Muito tempo...
— Foste à África, preso por piratas...
— Inesquecível...
Inesquecível!
Severo sentiu a brisa marinha adentrar-lhe os pulmões, “nas veias e na mente, refrescando o sangue e a alma”, aplacando o fogo das angústias e aflições pela família, que há anos não via.
Intuía, ou melhor, sabia que só aquele rapaz poderia indicar-lhe onde encontrá-la.
Trémulo, perguntou em voz baixinha e pausada:
— Sabes aquele ponto da costa d’África, onde tu e os piratas passaram vários dias, consertando o navio deles?
Quintino fechou os olhos, como se mergulhasse no passado.
Após instantes eternos de silêncio, murmurou também:
— Os africanos que lá existem fazem cultos estranhos...
— Sabes então onde é o ponto exacto da costa?
— ... falam com as almas...
— Por Cristo: sabes onde é o tal lugar?
—... chamam as almas de orixás.
Não são maus. Gosto deles!
Severo cobriu o rosto com as mãos, tentando ocultar as pesadas lágrimas que escorriam abundantes.
Implorou, aos prantos:
— Leve-me até lá, pelo amor de Jesus!
Como que saindo de um longo torpor, Quintino fez outro sol brilhar, este na alma de “dom” Severo, na já radiosa claridade daquela hora:
— Com certeza, “dom” Severo.
Quando o senhor quiser.
Por ordem de el-Rei cinco galeões, sob comando de “dom” Severo foram generosamente abastecidos de víveres, ferramentas, vestuário, armas e objectos diversos.
Antes, passaram por rigorosa revisão, objectivando a manutenção das boas condições de navegabilidade.
Isso porque os dois navios que afundaram na tempestade, se lhes atribuiu “falta de cuidados”, internos e externos...
Antes de zarpar, Quintino pediu para despedir-se da mãe.
Severo foi com ele.
Ao chegarem, Verona sentiu a maior felicidade da vida, vendo o filho; contudo, preocupou-se ao vê-lo acompanhado “do demónio em pessoa”:
Severo. Mas pareciam tão “fraternais”...
Quando Quintino expôs-lhe a vocação eclesiástica emergente e essa, talvez, foi a única notícia que poderia dar alguma alegria e alento de vida àquela sofrida mulher, cujo marido suicidara e que o filho, considerava-o em “prisão perpétua”.
Tratada gentilmente por Severo acatou a sugestão de desfazer-se da Quinta, pouco produtiva.
Abençoou o filho e decidiu ir residir com as “Irmãs de Caridade do Perpétuo Socorro”, a quem nutria devoção.
Com o dinheiro da venda da Quinta, iria ajudá-las nas obras assistenciais do velho convento, que atendia centenas de pobres.
Os conceitos e preconceitos de Verona quanto a Severo implodiram-lhe na alma de vez, quando ele, respeitosamente, pediu-lhe que também o abençoasse.
Embora em grande perturbação, o Espírito Joaquim, pai de Quintino, foi ali trazido por Benfeitores Espirituais, e testemunhando como Severo havia mudado o tratamento ao filho, além de rever sua Verona, sentiu-se fortalecido.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:53 am

Em lágrimas, feliz, suplicou aos Protectores:
— Ajudem-me a reconstruir “meu destino”.
— Já começaste a fazê-lo, ao abrigar o perdão no coração...
Ao zarpar, com a bênção de el-Rei, da qual um padre se fizera portador, a ansiedade de “dom” Severo passou a aumentar a cada hora, a cada dia...
O padre, a pedido pessoal de “dom” Severo, que el-Rei deferira, iria na viagem à Colónia, preparando o jovem Quintino, para ingressar na ordem religiosa.
Quintino, do alto da vigia, olhava atentamente a sinuosa silhueta da costa africana, para identificar o ponto que “dom” Severo buscava.
Passava os dias todos naquele posto: num minuto lia a Bíblia, no outro lançava o olhar ao litoral.
À noite, as naus não navegavam, com receio de perder a cota buscada.
Por isso, a viagem se tornara mais longa.
Descendo da vigia, Quintino e Severo conversavam sobre vários assuntos.
Embora em seu coração já não mais houvesse paixão por Carlota, Quintino compenetrou-se que era seu dever tudo fazer para ajudar a encontrá-la.
Assumiu que em parte, ele tinha alguma culpa por tudo aquilo...
— Tens na memória — perguntou-lhe Severo — algum detalhe que caracterize o lugar que buscamos?
— Tenho sim: em várias montanhas próximas umas das outras, uma delas esconde bela praia, à frente da qual há pequena ilhota, do tamanho deste galeão; esta ilhota, invisível cá do mar, bem como na maré cheia, emerge na maré baixa...
Na alta, já mandou muitos desavisados para o fundo do mar...
E lá é ninho dos grandes peixes, tubarões...
— Santa Virgem: protegei-nos!
— É um horror mesmo: os africanos chamam aquele ponto de “Tumba das almas brancas”.
É inacreditável, mas alguns deles, a cada três dias, vão a nado até lá e jogam abóboras e melancias para os tubarões, em agradecimento, aos quais consideram seus guardiões.
Pelo que contam, isso aconteceu depois que há muitos anos, uma canoa com cinco rapazes africanos se estatelou numa ponta submersa de pedra e os peixes não os atacaram.
Voltaram a nado para a praia e um deles, no dia seguinte, tomado de inaudita coragem, foi a nado até a “Tumba”...
Nenhum peixe o atacou.
Fez essa perigosíssima travessia várias vezes e nunca foi atacado...
— Inacreditável... Inacreditável...
Viste este audaz africano ir ter com os tais grandes peixes?
— Não, não vi.
Há alguns ele foi aprisionado, por outros africanos, de região vizinha.
Com ele foram presos outros homens, crianças e mulheres da sua tribo.
Foram levados para a Colónia, onde foram vendidos como escravos...
Quintino ficou em silêncio por instantes e quase deu um grito, ao se recordar de algo:
— Zangigi! Zangigi:
esse era o nome do destemido nadador, que era amigo dos peixes. Dos tubarões!
Severo quase perdeu a respiração.
Sem dizer palavra, foi até o dormitório onde estava Tengegê e acordou-o, pedindo que o acompanhasse ao convés.
Ao chegar junto a Quintino, Severo perguntou a Tengegê:
— Zangigi... Nadava...
E dava alguma coisa para peixes?
Os grandes e límpidos olhos de Tengegê se arregalaram e reflectiram a Lua.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:53 am

O espanto enorme era resposta afirmativa, eloquente, mas mesmo assim balbuciou:
— Abóboras e melancias... Zangigi...
Passava no meio dos tubarões sem ser atacado por eles.
Para um ou dois dos peixes grandes, dava a abóbora na boca...
Severo explodiu:
— Mas, meu Deus!
Então minha mulher e minhas filhas estão justamente com seus amigos, perto de onde os deixamos, na viagem de vinda!
Oh!, por que só agora fiquei sabendo disso?
— Por isso eu disse ao sinhó — acalmou-o Tengegê — que ficaria a bordo e não desembarcaria com meu povo. O local onde eu morava ao ser preso não é visto do mar.
Lá só se chega de canoa e com muito cuidado.
São pouquíssimas as pessoas que sabem disso.
Muitos navios piratas naufragaram ali e nós tínhamos o cuidado de recolher os destroços, para garantir nossa segurança.
— É verdade — exclamou Quintino — o capitão dos piratas contou-me esse segredo:
depois da montanha, volteando-a, só de canoa se poderia ir ter com os africanos; embora as águas lá não sejam profundas, há muitas pedras pontiagudas no meio do mar, logo abaixo da lâmina de água.
— E por que ele teria confiado tal segredo a ti?
— Porque nós ficamos amigos.
Ele queria que eu me tornasse pirata...
Seu imediato.
E eu aceitei...
— Então, rapaz, foi assim que conseguiste a amizade deles e tentaste roubar o ouro lá na Colónia, hein?
— Isso mesmo!
Foi um mau passo, do qual lhe peço perdão.
Severo abraçou-o, ternamente.
Perguntou, curioso:
— Como o capitão pirata sabia dessa ilhota e dos seus perigos?
— O segredo era de vida e morte foi-lhe contado por um escravo fujão de um “tumbeiro”, que ele retirou do mar, já quase sem vida.
Três dias se passaram.
No entardecer, Tengegê deu demonstrações de inquietude, arregalando os olhos ao mirar o litoral.
Severo electrizou-se.
— Estamos chegando — murmurou Tengegê.
Severo gritou para Quintino, lá no alto da vigia:
— Então, meu rapaz, reconheces algo?
— Não senhor, por enquanto, nada.
Tengegê, firme, declarou:
— Pode aproximar-se das terras!
— Tens certeza?
Não podemos perder tempo.
Esta viagem já está se tornando lenta e desse jeito as frutas e a água não serão suficientes para irmos longe, obrigando-nos a atracar em qualquer ponto.
— O sinhó está vendo aquelas árvores, no alto daquela montanha?
— Por Cristo: estou vendo muitas montanhas juntas...
— Vê aquela nas quais as árvores formam três blocos de mata?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:53 am

Nós as conservamos separadas, para indicar nossas terras, pois às vezes saíamos a pescar em alto mar e o vento nos levava para longe, dificultando a volta...
Quando os navios se aproximaram Quintino exultou:
— Tengegê tem razão: esse é o lugar da “pedra que nada”.
— O que é isso de “pedra que nada”?
— É a nossa “Tumba das almas brancas” — atalhou Tengegê, explicando: vi os piratas comentando que aquela pedra parece nadar, pois à chegada das marés, dá a impressão que está ora nadando, ora mergulhando...
Chegando ao sopé da montanha, os cinco navios fundearam.
Várias canoas foram postas no mar.
Levavam provisões, ferramentas, vestuário e objectos diversos.
Porém, mais que tudo, conduziam a esperança!
Tengegê, na proa da primeira canoa, deslocando bem devagar, indicava a rota, cuidadosamente.
Decorridos tantos anos, ainda se lembrava de cada detalhe daquelas águas.
Passara a infância ali!
Logo avistaram pessoas na praia.
Tengegê, no dialecto ioruba, gritou:
— Gangê, Zangigi, Tengegê!
Mesmo Tengegê estando com eles, e sendo reconhecido, foram recepcionados pelos africanos com grandes reservas.
Somente quando viram que os brancos estavam sem quaisquer armas, dissipou-se o temor de que fossem escravizadores.
Tengegê, vendo antigos moradores, com poucas frases explicou a que vinham:
buscar a mulher e as duas filhas do “capitão” Severo.
Nem bem acabara de dar suas explicações, chegou um pequeno grupo, com alguns daqueles que Severo tinha libertado, há pouco tempo.
Com eles, vinham as suas amadas Antónia, Carlota e Julialva!
Não se contendo, Severo e Henrique correram a abraçá-las e nem precisava, pois elas também correram em sua direcção.
A alegria e a emoção dos cinco sensibilizaram a todos.
Não conseguiam falar: só chorar... chorar... chorar...
Depois, beijaram-se... beijaram-se... beijaram-se.
Uma eternidade se passou até que Severo, agarrado à família, conseguiu balbuciar:
— Vocês são minha vida!
Sem vocês, eu estava morto!
— Severino, querido amor!
— Paizinho, paizinho: à sua bênção!
— Deus nos abençoe, a todos!
Quintino aproximou-se.
Ele e Carlota trocaram um longo olhar.
Captaram, sem palavras, que entre eles o sonho de uma vida feliz, de amor, juntos num lar, tinha-lhes fugido da alma...
— Carlota: Deus te guardou! Graças, Senhor!
A seguir, abraçou-a, terna e demoradamente.
Aquele abraço tão comovido foi o mensageiro fiel que confirmou para o coração da jovem que os sentimentos de outrora já não mais existiam.
Sem sofrer com isso, ao contrário, com imensa paz, respondeu:
— Minha felicidade neste momento é completa ao vê-lo liberto...
— Na prisão, por incrível que possa parecer, minha alma ganhou a liberdade:
decidi-me a jamais empunhar armas e sim seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, como Seu servo.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:53 am

Após breve silêncio, completou:
— Estou me preparando para ser padre.
Severo, num gesto nascido na fonte íntima da gratidão, oculta e por isso mesmo por vezes tão deslembrada, ajoelhou-se ali na praia, juntou as mãos e num grito, que explodiu incontido, encerrou a lembrança de toda a angústia que sofrera por aquela separação:
— Obrigado, meu bom Deus!
Louvado sejas!
Ajoelhando-se também, esposa e filha fizeram-lhe coro:
— Para sempre sejas louvado!
O padre e Quintino, ante aquele gesto pio, persignaram-se.
“Pai Nosso que estais no Céu... — iniciou o padre.
Todos os brancos ajoelhados, repetindo as palavras do padre, tiveram o efeito de fazer com que também os africanos, embora não sabendo direito do que se tratava, ajoelharem-se e olharem para o céu.
A humildade ali, em uns e outros, dava o tom.
Sublime!
Após, já refeito de tão fortes emoções, Severo disse à família:
— Até então sempre meus olhos tiveram algum cuidado com pessoas negras, mas a partir de agora, vendo essa gente tão boa e humilde, compreendo que a alma é o que importa, pois as deles são luzes que não se apagam.
Brincou com a esposa e as filhas:
— Vocês estão a me sair lindas africanas, ora sim, que tanto devem ter ficado ao Sol, pois não?
— É que essa gente vive quase sempre na praia e eu e nossas filhas muito aprendemos com as mulheres...
— Ora, ora, o que têm elas para ensinar-lhes?
— Têm suas vocações religiosas, seus santos, que chamam de orixás; conseguem conversar com amigos que já morreram e fazem isso com muito respeito e só para pedir conselhos.
Nunca os vi realizar maldade alguma.
Além disso, aprendemos a conhecer frutas saudáveis, ervas que curam, como fazer farinha de mandioca e de milho e uma infinidade de pratos gostosos, com peixes e frutos do mar.
— Frutos do mar?
— É: ensinaram-nos como colhê-los, junto a essa infinidade de pedras à frente da praia.
Essa gente jamais passará fome, pois quanto mais colhem mais se multiplicam os lindos caranguejos, camarões e ostras.
Os homens saem de manhã em suas canoas e à tarde voltam com muitos peixes, camarões e algumas lagostas.
Na ida, passam pela “Tumba das almas brancas” e dão frutos para os grandes peixes, que eles protegem e dizem que, em troca, por eles são protegidos...
— Melancias e abóboras?
— Como sabes?
— Falamos depois.
Após presentear aquele povo com muitas ferramentas e utensílios, Severo determinou que era hora de partir rumo à Colónia.
Chamou Tengegê, abraçou-o forte e despediu-se:
— Meu jovem amigo, jamais te esquecerei.
És um bom rapaz!
— O sinhó é que é bom, tanto que voltei para minha terra.
— Mereceste!
Severo apanhou uma sacola com mais ou menos oito quilos de pepitas e entregou a Tengegê.
Que recusou:
— Não, sinhó, não precisamos disso por aqui.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:54 am

O Zangigi está me dizendo, aqui dentro da cabeça, que a amizade sincera vale mais que todo o ouro lá da “Rica Vila”.
— Zangigi, aqui por perto?
Então ele me perdoou, não é?
— Sim. Já que o sinhó está de partida, vou contar um segredo:
ele me dizia, sempre, que sua família estava com nosso povo e que eu não contasse, porque era perigoso virem carabineiros contratados para libertá-los.
Imaginando as mulheres prisioneiras, eu seria torturado, junto com meus amigos, sendo forçados a trazê-los aqui, aonde, certamente, já chegariam matando os negros que aqui estivessem.
— Santo Deus: quantas coisas ocultas nos céus...
— Falei para o Zangigi que não era certo esconder do sinhó onde estava sua família, mas ele respondeu que os orixás informaram que a separação era boa para todos, para amansar seu coração e para unir a mãe com as filhas que estavam pensando em se matar.
Sendo sequestradas, uniram-se na dor da solidão.
Mandou-me aguardar, pois o que é para o bem de todos, Olorum tem sempre um jeito de ofertar...
— Só agora compreendo porque não desembarcaste com teus companheiros.
Embora o Quintino conhecesse este local, bem vi que já ia passando ao largo, sem identificá-lo.
Sou-te eternamente grato.
Com lágrimas boiando, Severo testemunhou:
— És meu melhor amigo! Adeus!
— Não diga adeus, sinhó; nós nos veremos muitas vezes...
— No Céu? — brincou Severo, já acreditando na vida das “almas”...
— Também. Antes, o sinhó vai voltar aqui...
E eu...
Severo, por precaução, chamou o padre em particular e em tom fraternal disse-lhe:
— Padre, há anos passei a conviver com esses escravos e pude perceber que eles, na sua ignorância dos Evangelhos, adoram a Deus e os Santos do Céu, mas na sua linguagem...
Têm muita fé.
Por isso peço ao senhor que não considere o que eles disseram...
— Não se preocupe, “dom” Severo, a vida mo ensinou que brancos e negros somos filhos do mesmo Pai.
Também conheço o coração dos escravos, pois que na nossa Pátria alguns me servem, por decisão do senhor bispo...
O que aqui vi e ouvi deles aqui ficará.
— Graças a Deus!
Recompletada a água potável e levando grande quantidade de frutos, ervas medicinais, limão e laranja, os cinco galeões partiram.
Na travessia atlântica, após considerarem todas as possibilidades, Severo e família tomaram uma decisão:
mudar para a Colónia! Iriam residir no Rio de Janeiro.
Severo deixaria o cargo de intendente-mor e com base onde ia morar, deixaria as lavras de ouro e trabalharia apenas no comércio de géneros alimentícios e suprimentos diversos para os mineradores.
Algumas glebas em seu nome garantiriam um considerável reforço financeiro às suas actividades comerciais.
Após instalar a família, Severo tomou todas as providências necessárias à sua dispensa das funções, o que conseguiu com extrema facilidade...
A “carta régia” que o nomeara por três anos, já caducara e nunca fora renovada.
O que jamais ficaria sabendo é que estava mesmo decidida sua demissão, pois os transtornos com o sequestro da família chegaram ao conhecimento de Portugal e decidiu-se que deveria ser substituído por alguém “sem tais compromissos”...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:54 am

Era praxe, naquele tempo, que os governadores enviassem relato semestral a el-Rei, noticiando “tudo aquilo que por graça de Deus houvesse acontecido”, mas também, e principalmente, “os actos que de uma forma ou outra tivessem cores contrárias à Coroa”.
Assim, em mais de um relatório desses, o governador, sem o conhecimento de Severo, narrou como ele havia “negligenciado com o ouro, com a família e com a energia junto aos negros, chegando mesmo a dar amizade a alguns deles...”.
Na verdade, Severo dera, mas recebera amizade dos negros.
Na parte financeira, conseguira a fortuna com a qual sonhara.
Já meditando no futuro, empregou todo o ouro que possuía em propriedades diversas, proporcionando emprego para muitas pessoas, mas, principalmente, para comprar e alforriar escravos.
Fez muitas plantações, dando assim emprego a muitos escravos alforriados e a lavradores...
Severo e a família instalaram-se numa ampla fazenda, próxima à cidade carioca e lá construíram amplas dependências para estocar mercadorias e o produto das suas colheitas.
Certo dia Severo confabulou com Antoninha:
— Sabes, minha querida:
não te confesso um pecado, mas sim, um momento de sombra em minha vida:
prometi a um moribundo levar-lhe à viúva o que era de direito e ao cumprir a promessa, não andei direito:
nem dei a ela seus valores, como ainda, acabei roubando-lhe a paz...
— E onde está a viúva?
— Morreu...
— Que Deus a proteja. Sinto que tu tens algo mais a dizer...
— Sim. Estou reflectindo que devo uma compensação aos dois:
tiveram uma filha, hoje já deve ser mocinha, que pelos fados eu a trouxe da Espanha para esta cidade e alojei-a com uma família...
— Mas, homem, diga o que tens em mente!
— Quero que vás comigo visitá-la.
Antoninha anuiu e ao ver Consuelo, condoeu-se do seu estado.
Inexplicável e instantânea empatia fez com que ofertasse a ela que viesse morar com eles.
A jovem aceitou de pronto.
Os caseiros que cuidavam de Consuelo sentiram-se livres de grande carga.
Quando a órfã conheceu Carlota e Julialva, a mesma reacção:
as irmãs, no mesmo instante, gostaram dela.
Severo retirou o dinheiro da venda da sua Quinta, que estava em depósito na tesouraria real à sua disposição e com ele comprou três galeões, que havia encomendado nos estaleiros de Cádis, na Espanha.
Tendo sua própria frota, pôde realizar o amplo comércio Europa-Colónia-Europa, estando sempre com os navios carregados, na ida e na volta.
Trazia da Europa aquilo que se ressentia a região das minas, que tão bem conhecia; levava para o velho continente, açúcar, tabaco e aguardente, tão apreciados pelos europeus.
Contratara e pagava bem à guarnição fixa de carabineiros que davam segurança aos seus galeões, protegendo-os dos piratas.
Periodicamente passava mesmo pela África, visitando Tengegê.
Numa dessas viagens teve a alegria de saber que seu amigo se casara, já tinha um filhinho e que gostaria de trazer a família para a Colónia, desde que fosse para trabalhar com o antigo sinhó.
Severo aquiesceu de pronto, só não contava que muitos outros negros pediram para que ele os empregasse.
Atendeu-os, de boamente.
Assim, o Atlântico testemunhou a feliz raridade de navios, com muitos negros a bordo, singrarem suas águas, mas nenhum deles na condição de escravo.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:54 am

Henrique, que se apaixonara pela filha de um minerador estabelecido na Vila Rica, decidiu casar-se com ela.
Foram morar no Rio de Janeiro, onde ajudaria o pai nos negócios.
O sogro, inclusive, há tempos já era “a ponta de lança” para o comércio de suprimentos cada vez mais próspero que Severo realizava, entre a Europa e as minas.
E, ao mesmo tempo, a esposa de Henrique quase sempre ia nas expedições, visitar a família.
Tal facto uniu as duas famílias e só lhes trouxe bem-estar.
Quintino foi ordenado padre.
Pediu ao seu superior para ficar na Vila Rica, sendo atendido.
De vez em quando, visitava a mãe.
Quando Carlota apaixonou-se por um patrício, filho de um representante comercial, que se mudara com a família para o Rio de Janeiro, convidou Quintino para vir das minas celebrar seu casamento.
Ficando hospedado por alguns dias na casa de Severo, Quintino e Consuelo tornaram-se bons amigos, pois o padre, ao dar-lhe a bênção diária, falava das curas que Jesus realizou.
Agindo por puro impulso, ofertou massagens à triste mocinha, que as aceitou.
O padre, na massagem diária, sempre orava e usava infusão de ervas, diluídas em gordura de galinha.
Em menos de uma semana Consuelo apresentou benéfica modificação do seu quadro patológico.
Certa vez, deixando todos atónitos, Quintino foi acometido de um “estranho transe”, durante o qual preconizou que Consuelo deveria ser encaminhada à medicina terrena, “para ser curada”.
O tal “estranho transe” sabia-o Severo e sua família, nada mais era do que um recado da alma de alguém que já havia morrido (mediunidade, em linguagem espírita).
Quando Quintino saiu do “transe”, Severo até brincou com ele:
— Não deixes nenhum padre saber do que andas fazendo, meu rapaz...
Cá entre nós, quem era?
— O senhor tem razão: quando acontecem esses lances, graças a Deus, nunca tem padres por perto...
Fez demorada pausa e completou a resposta:
— Acreditem ou não, um menino africano, mais torto do que a Consuelo, pediu-me que desse o recado que dei...
Severo pôs a mão na testa e exclamou:
— Por Cristo: Gangê!
Não era esse o nome do tal menino?
Agora foi Quintino quem ficou assustado:
— Por Cristo, digo eu: como é que o senhor sabia?!
Severo preferiu não responder.
Lembrou-se então que Veridiana havia dito que um médico português poderia resolver o problema da filha, mas como eram pobres, esse foi um dos motivos que levou Mendonza a tentar fortuna na Colónia.
Não pensou duas vezes:
assim que pôde levou-a a Portugal, onde a jovem foi mesmo submetida a delicada intervenção cirúrgica, tendo alta quatro meses após.
Quando retornou para a “sua” casa, na Colónia, Antoninha custou a acreditar:
Consuelo estava linda, andando ainda com cuidado, mas livre da grave perturbação que a deformava.
Invisível a Severo, os Espíritos Mendonza e Veridiana, chorando ao verem a filha, acercaram-se dela e cobriram-na de beijos.
Veridiana olhou para Mendonza e num diálogo sem palavras, ambos envolveram o “velho” Severo num abraço de reconciliação.
E, facto estranho:
libertando-se da deformidade, Consuelo passou a ouvir melhor e assim, logo aprendeu a falar, tendo em Julialva uma paciente quanto amiga professora...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:54 am

Severo preparava-se para uma nova excursão, levando vasta carga de suprimentos para negociar na região “das minas”, quando teve agradável surpresa:
a “mulher do cais” chegou ao Rio de Janeiro com uma tropa de cerca de oitenta saudáveis burros.
Sabendo que Severo dirigia-se às minas, procurou-o e acertaram a instalação de um entreposto, nas terras dele, para a compra e venda dos animais que doravante seriam trazidos do sul, onde eram criados com facilidade.
A medida mostrou-se acertada, do ponto de vista comercial, eis que as minas dependiam, basicamente, de mais e mais animais de transporte, para suas actividades cada vez mais aumentando.
Severo pensou, feliz:
“todos aqueles africanos que estão a pedir-me para vir trabalhar cá na Colónia, comigo, têm já seu emprego”.
Após receber o pagamento pelos burros, a “mulher do cais” cochichou:
— Vou passar a “dom” Severo um segredo...
De vida e morte.
Use-o enquanto for vivo e não conte para ninguém...
Ou só para seu filho...
— Mas, criatura de Deus, que segredo será esse que tens?
— Como vossa excelência faz travessias, seus navios estão sujeito a perigos... piratas...
— Olhe, que acertaste: mas tenho uma guarnição fixa.
— No mastaréu dos teus barcos tenha sempre duas bandeiras: uma branca e outra vermelha.
Quando vires um navio, ices logo as duas.
Mas, cuidado:
a branca em cima sinaliza “paz”...
— Não te compreendo.
— As duas bandeiras são um “código do mar”, só de piratas, dizendo que tens a paz, mas também a guerra.
A bandeira branca em cima é sinal que fazes do mar o teu ganha-pão e dos teus marujos.
Se um pirata estiver pensando em te atacar, respeitará esse código, e no máximo, te pedirá ajuda.
— Como ajuda?!
A piratas? Que me matam...
— Nada disso, piratas têm leis do mar:
duas bandeiras brancas no mastaréu do navio dele significam necessidade de água e alimentos.
Aí, ponhas isso num bote solto ao mar e vás embora, sem fazer perguntas...
Se em alguma viagem precisares de ajuda de um deles, procedas da mesma forma.
Tuas atitudes serão comentadas entre piratas e assim praticamente terás um salvo conduto no mar...
— Como sabes disso tudo?
— Meu companheiro...
Que Deus o tenha...
Sonhei com ele e no sonho pediu-me que te contasse esse segredo e também te dizer que te perdoou pelo afundamento do navio dele e que tu o perdoasses pela participação no sequestro de tua família...
Ficou teu amigo quando me acolheste em teu bote, após tu rogares a Jesus que me salvasse da tempestade...
O abraço que Severo deu na “mulher do cais” plenificou-lhes os corações de sólida amizade.
Cada um seguiu seu destino.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 9:55 am

*
Na viagem às minas, Severo ia recordando sua vida.
Com amor, lembrou-se da felicidade que a Vida lhe dera, ao fazer com que a sua Antoninha cruzasse seu destino e juntos, seguissem para o futuro, recebendo pelo caminho as bênçãos dos filhos.
Com fraternidade, pensou na mulher que lhe revelara o “segredo dos piratas”.
Nisso, lembrou-se de algo surpreendente e assustando quem estava por perto, exclamou em voz alta:
— Como é que sequer sei-lhe o nome?!...
Com saudade e um sentimento de muito carinho, lembrou-se de Mendonza, de Veridiana, de Joaquim, de Zangigi...
Com admiração, repassou na mente os actos de humildade e heroísmo de Tengegê e os ensinamentos espirituais dados por Zangigi, de forma tão simplória, mas com tanta profundidade filosófica.
Reparou que, mesmo sob calor quase insuportável, o cavalo que o transportava cumpria sua tarefa sem quaisquer mostras de revolta, ao contrário, com permanente humildade.
Num impulso incontido, acarinhou aquele animal, dirigindo-lhe um voto íntimo de agradecimento.
Olhou para o céu e bendisse as nuvens e os ventos.
Como se alguém tivesse lido seus pensamentos, começou a cair uma chuva fina, que a todos refrescou...
Com gratidão a Deus, reflectiu na realidade maravilhosa do intercâmbio entre “mortos e vivos” (mediunidade) de que tivera tantas provas:
“não é que esse povo todo (as almas dos mortos) continua vivo, vendo, pensando e até conversando com os que ficaram?”.
Ante a lembrança de Deus — Pai de todos os seres —, respeitosamente tirou o chapéu, como que a pedir-Lhe a Bênção.

Fim

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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