Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:23 am

— Não ia fugir.
Só queria falar com o sinhó...
— Falar o quê, há essas horas?
— Só com o sinhó! Chegue perto...
Quando Mendonza, algo contrariado aproximou-se, quase rosto a rosto, Tengegê disparou, baixinho:
— O sinhó quer ouro?
— Por la madre de Diós:
quien no lo desea?
(Pela mãe de Deus, quem não o deseja?) — quase gritou Mendonza, logo murmurando:
donde está? (onde está?).
Quando ficava agitado, Mendonza misturava a língua pátria com o português, sendo entendido por Tengegê, dada a convivência de ambos.
Tengegê sugeriu que dispensasse a presença dos guardas.
— Vão tomar conta dos prisioneiros, deste cá trato eu — ordenou Mendonza, percebendo que os homens estavam contrariados por ele estar dando trela a um escravo, desautorizando-os...
A sós com Mendonza, Tengegê murmurou as mais doces palavras jamais ouvidas por ele:
— Sei onde tem ouro.
Só que o sinhó vai ter que libertar vinte e três irmãos meus:
os cinco presos e mais treze.
— Mas cinco com treze são dezoito...
— Tem os cinco que fugiram.
Fica feito o pagamento deles.
— Vejam só:
como é que eu vou poder comprar outros tantos, se soltá-los?
Será que você enlouqueceu?
— Vou contar só para o sinhó:
se não tiver cuidado, o sinhó, eu, muitos brancos e muitos irmãos meus vão morrer...
— Posso saber o que é que oferece tanto perigo?
— Ouro, sinhó: ouro!
Muito ouro!
Mendonza ordenou que Tengegê falasse mais baixo.
E o escravo já estava apenas sussurrando...
Os quatro guardas, à distância, observavam a conversa, ou melhor, o cochicho.
Para eles, isso representava desrespeito.
Perigoso desrespeito.
Mendonza captou o clima.
Dirigiu-se a eles:
— Esse neguinho quer me contar onde estão os fujões...
Dirigiu-se à sua tenda, apanhou um garrafão de aguardente e ofereceu aos guardas, que se descontraíram, ante a deferência e também porque ao frio da noite bem que lhes apeteceram os bons tragos.
Superexcitado, Mendonza aguardou os homens se embriagarem para voltar a falar com Tengegê, ainda amarrado.
Aí, determinou:
— Você vai me contar agora mesmo essa história do ouro.
Se for mentira, amanhã, há essas horas, já não estará vivo, pois daqui a pouco, quando o Sol chegar, ao invés de cinco, serão seis...
Tengegê, com frieza jamais demonstrada, assumiu o rumo dos factos, praticamente ordenando:
— Primeiro, o sinhó me solte.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:23 am

Algo receoso, mas com o facão à cintura, que o confortava bastante, o sinhó libertou o escravo.
Ficou olhando-o, aguardando...
Em passos lentos Tengegê caminhou em direcção a uma goiabeira e com as mãos, sem esforço, cavou o chão e dele retirou as três pepitas de ouro.
Entregou-as a Mendonza.
O espanhol, conhecedor de ouro, com o qual vivia sonhando em intérminos pesadelos, alisou as pepitas, mordiscou-as com cautela e logo se extasiou:
— Donde... donde... encontró eses amores, esas pepitas?
(Onde... onde... você achou esses amores, essas pepitas?).
Com as pepitas na palma da mão, fechou-a e apertou-a de encontro ao coração.
Calmo, Tengegê aguçou-lhe:
— Onde elas estão tem muito mais!
— Onde? Onde? — Mendonza agarrou o jovem e sacudiu-o.
Aí, suas mãos ficaram encharcadas de sangue, proveniente dos ferimentos das cintadas.
Como que se desculpando, colocou a mão esquerda na face do jovem e implorou:
— Pela Madre de Dios:
diga-me onde está esse tesouro?
— Vinte e três irmãos — sentenciou Tengegê, ordenando, impassível.
— Vinte e três irmãos livres! — anuiu Mendonza, obedecendo, aflito.
A seguir, o patrão inquiriu-o, reassumindo a posição de mando:
— Você já contou para algum companheiro seu?
— Não — mentiu Tengegê, para preservar Zangigi, logo aduzindo:
só eu sei onde tem mais. Muito mais!
— Os cinco do cocho serão soltos amanhã, isto é, logo mais, depois que eu despedir os guardas, pois que se tornaram inconvenientes.
Vá para seu lugar e não saia até eu ordenar.
E fique calado!
Dessa forma, logo que amanheceu Mendonza acertou contas com os homens da guarda dos prisioneiros, que semi-embriagados, não opuseram nenhuma resistência.
Cada um recebeu um cavalo, mantimento para uma semana e algum dinheiro e a justificativa da dispensa:
— Vocês tomaram a iniciativa de açoitar um escravo meu, sem me consultar e isso não posso admitir.
Vão embora e não me apareçam jamais.
Duas horas após o Sol raiar os cinco condenados foram soltos, sem explicações.
Os demais componentes da Entrada não entenderam muito bem a atitude de Mendonza, mas não o questionaram, sabendo muito bem que se o fizessem ficariam expostos.
Dizendo que ia caçar, Mendonza apanhou o mosquete e determinou aos empregados que não abandonassem o acampamento, pois logo retornaria.
Cumprindo ordens dele, Tengegê esperava-o, a cerca de duzentos metros.
Exibiu-lhe as três pepitas e exigiu:
— Agora vamos conversar direitinho: onde estão as irmãs destas aqui?
— Num cofre que só eu tenho a chave...
— Não me venha com graçolas. Minha paciência é curta. Vou perguntar outra vez: onde?!
O espanhol acariciou a coronha do mosquete...
— Quero fazer um trato com o sinhó.
— Trato? Desde quando escravos fazem trato com seus donos?!
— Desde quando têm ouro...
— Olhe aqui, moleque: você é meu, e o que você achar passa também a ser meu.
Não abro mão dessa lei.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:24 am

Já estou me arrependendo de estar aqui conversando, pois não há condições de eu descer nem você de subir, pois um abismo é a distância que nos separa.
— Sinhó Mendonza, o sinhó quer o ouro e eu só quero a liberdade, minha e dos outros irmãos meus.
— Vinte e três, rapazinho.
Os vinte e três!
Lembra-se do acordo?
— Então o sinhó aceitou meu trato...
— É — respondeu Mendonza, caindo na armadilha, mas logo se corrigindo:
ainda não vi o ouro dos vinte e dois.
— Como assim?
Não dei as três pepitas de amostra?
— Já. Com elas, só vou alforriar você, depois de ver o tanto de ouro que existe, sei lá onde.
A cada lote de cinquenta pepitas, iguais a estas, em minhas mãos, um escravo vai ficando livre .
Lembrando-se do “Rio Tengegê”, o jovem escravo sorriu.
As pepitas que dormiam lá, logo as acordaria do sonho milenar.
E esse acordar representaria para ele e seus companheiros o fim do pesadelo da escravidão, iniciando para todos o sonho da liberdade!
Mendonza tirou-o do devaneio:
— Sei todas as trilhas que percorremos e naturalmente foi em alguma delas que você encontrou o ouro.
Posso refazer o caminho de volta, par e passo, até achar o tesouro.
Mas como não quero perder tempo, estou dando a concessão a você de ouvi-lo.
Por falar nisso, já fui longe demais.
Você tem um minuto para me contar onde está o ouro, do contrário vamos retornar ao acampamento e aí eu sei um jeito fácil de convencê-lo a me dizer a verdade...
Tengegê sabia o que o aguardava, ou melhor, o que representava a ameaça, não só para ele, mas para os demais escravos:
açoite, até à morte, um por um, até ele obedecer e contar onde existia ouro.
— Sim sinhó, vou contar.
Pelas minhas contas, foi há mais ou menos dois anos atrás...
— Mas, onde? Onde?
Em que acampamento?
Longe daqui?
— É um pouco longe, uns dez ou quinze dias.
Vou levar o sinhó.
É melhor o sinhó ver como lá o chão está coalhado de ouro.
Os olhos de Mendonza rebrilharam.
A cobiça atiçou-lhe a alma, tirando-lhe o raciocínio. Determinou:
— Vamos partir hoje mesmo:
quero todo mundo a caminho!
Naquela Entrada não houve mais suplícios de escravos, até que, uma semana após, em marcha acelerada, chegaram a cerca de três quilómetros do morro onde nascia o “Rio Tengegê”...
No caminho, o jovem escravo havia procurado Zangigi e perguntou-lhe sobre a maneira de não desobedecer aos orixás:
— Como saber quando eles querem dar algum recado?
— “Além das nuvens”, onde moram os orixás, é o local predilecto para eles conversarem com as pessoas que só falam a verdade e principalmente aquelas que ajudam aos necessitados.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:24 am

— Como podemos ir até lá?
— De noite, principalmente, quando dormimos.
De dia, quando há necessidade, são eles que descem e vêm até nós.
De um jeito ou de outro, o recado é sempre passado.
— Como sabermos se é deles o recado ou da nossa cabeça?
— Muito simples para quem tem fé em Olorum e em si mesmo, mas difícil quando não se crê nem num nem noutro.
Mas, diga-me, por que você veio perguntar-me essas coisas?
— Porque sonhei com Gangê...
— Gangê... Gangê... aquele que morreu ainda criança, muito doentinho?
Lembro-me dele, pois tão pequeno e já era babalorixá na aldeia que morava.
O que sonhou com ele?
— Quando o senhor estava preso, em sonho ele mostrou-me as pepitas.
Agora, esta noite, me disse como tenho que tratar com o Sinhó Mendonza, para não ter problemas no futuro...
— Siga os conselhos dele!
Assim, saindo dali, Tengegê procurou Mendonza:
— Sabe, Sinhó Mendonza, eu não sou criatura de mentir.
Disse que levaria o sinhó ao ouro e vou fazer isso.
Mas tomei uma decisão e dela não abro mão.
Mendonza, a ponto de explodir de tanta ansiedade para por a mão no “muito ouro” prometido pelo escravo, irritou-se:
— Decisão?!
O que é isso?
Quer roer a corda?
Veja lá o que diz, moleque, pois posso acabar com a sua raça ainda hoje.
— Sei disso.
Antes de tudo, vamos acertar uma coisa:
nunca mais o sinhó me chama de moleque, pois já sou homem.
Minha cor foi Odudua que assim me fez.
O sinhó já parou para pensar porque é que fui eu que achei o ouro?
Zangigi me disse que os orixás protegem aqueles que falam a verdade e ajudam aos seus irmãos.
E foi para mim que os orixás deram a chave do ouro e não para o sinhó, que não sei porque, não tem cor nenhuma...
— Mas o que é isso?
Como não tenho cor nenhuma?
Então você não sabe que sou branco, isto é, que o mundo é dos brancos?
— Não sei, não sinhó.
Porque então os orixás...
— Pare com essa conversa de orixás.
Diga logo o que tem a dizer.
— Onde está o ouro tem muito... mas sei onde encontrar mais.
Mendonza quase perdeu o fôlego:
— Como assim?
Sabe de outros lugares?
— É o seguinte:
os orixás me contaram como é que Olorum fez o mundo e onde escondeu o ouro, para só doar a quem quisesse... por enquanto, para mim e para meus irmãos.
Tengegê acreditava nessa versão, dita a ele por Zangigi.
Na verdade, exímio lavrador, Zangigi observara que naquelas montanhas várias vezes os riachos mudavam de curso, pelos desbarrancamentos provocados por chuvas fortes.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 08, 2017 10:24 am

Deduziu que disso resultava, ao longo dos milénios, serem descobertas das montanhas e rolarem, incontável número de pepitas, pois onde há uma, há outras... e outras... que deviam estar espalhadas em cada um daqueles vários leitos, os quais logo se recobriam de terra, por novas enxurradas.
Assim, achar o ouro era apenas uma questão de descobrir pequenos leitos abandonados pelas águas, mas cheios de pepitas encobertas pela terra.
Mendonza aguardou o desfecho do diálogo. Que veio:
— Quero que o sinhó dê carta de alforria para todos meus companheiros e essas cartas vão ficar comigo, escondidas, para não despertar suspeitas.
Isso porque nós vamos catar todo o ouro que prometi, para pagar nossa liberdade, mas vamos catar um pouco mais, para levar.
Quando a nossa parte for suficiente, voltaremos para a África, levando algum ouro que nos garanta a liberdade para sempre.
O ouro que ainda ficar, o sinhó é que sabe o que fazer com ele.
Após uma pausa, Tengegê propôs:
— Tem uma coisa:
vamos trabalhar sob as ordens do sinhó, com o respeito de sempre, mas nada de açoite, nada de comida ruim, nada de vender ou abandonar os mais velhos.
Como muita gente cobiçosa passa por aqui isso será muito perigoso se não for feito com cuidado.
O sinhó instala um posto de venda de artigos de necessidade um pouco distante da região onde está o ouro e nós vamos fazer uma lavoura lá, de milho, mandioca e cana.
A garimpagem do ouro será feita juntamente com as colheitas.
Assim, ninguém suspeitará.
— Um escravo!
Tão jovem! Não acredito!
Não acredito! Meeiros: isso é o que seremos.
Praticamente estamos fazendo um contrato de sociedade!
Seu plano é simplesmente formidável, pois me beneficia com bastante ouro...
Só que tem uma coisa:
vocês terão que ficar, no mínimo, dois anos trabalhando para mim.
Pela primeira vez em tantos anos, deu a mão a Tengegê:
— Cumprirei minha parte, desde que você e seus amigos cumpram a sua.
E tem uma coisa:
terão que trabalhar para mim, no mínimo, dois anos, pois menos do que isso inviabilizaria os planos.
O jovem escravo anuiu, algo contrariado.
Mendonza estava deslumbrado com a inteligência dele; tudo o que propusera era viável e lógico.
Tengegê selou magistralmente aquela reflexão:
— Minha vida será a garantia de muito ouro para o sinhó...
Quando chegaram ao sítio que Tengegê indicou, ele e Mendonza, dizendo a todos que iam fazer uma caçada breve, foram para o monte do “Rio Tengegê”.
Chegaram à nascente, percorreram a encosta, passaram pelo lago e desceram na lateral da cachoeira e andaram alguma distância pelo raso leito do riacho, quando Tengegê ajoelhou-se.
Pondo a testa na água por três vezes orou:
— “Rainha das águas”, estamos pedindo licença para acordar as filhas da montanha amarela, que estas águas cantantes embalam, fazendo-as dormir sono profundo.
Elas representam nossa volta à terra que nos viu nascer...
“Poeta” — pensou Mendonza, cada vez mais admirando aquele escravo singular.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:05 am

A seguir caminharam mais ou menos uns duzentos metros no leito, livrando-se da densa vegetação que quase o acobertava.
Mendonza sequer piscava.
Num determinado ponto Tengegê pegou o facão e rapidamente abriu uma “clareira aérea”, pela qual o Sol penetrou e reflectiu-se nas águas calmas.
Apanhou uma pequena pedra, redonda, preta.
Raspou-a. Brilhou!
Mendonza viu a primeira pepita!
E outra! E mais outra. Centenas!
Atirou-se a elas e foi recolhendo-as no bornal.
Em menos de uma hora, o bornal estava cheio.
Tão pesado que teve dificuldade para carregá-lo.
Ali mesmo o trato entre os dois homens começou a ser cumprido, pois Tengegê, com altiva personalidade tirou a metade do ouro do bornal de Mendonza e colocou no seu.
Só pelo olhar Mendonza compreendeu que aquilo fazia parte do trato.
Mas não se deu por vencido:
ia catar mais pepitas quando Tengegê advertiu-o:
— Já estamos demorando a voltar e também ficará pesado transportar o bornal cheio.
O riacho poderá sair daqui, mas o ouro que está nele, não.
Assim, devemos partir.
Quando pudermos, voltaremos.
Embora fossem “sócios”, na prática Tengegê ali era o chefe...
Na verdade, seguira fielmente as instruções que em sonho o Espírito Gangê lhe passara, na noite anterior.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:05 am

3 - Ouro na terra, ouro na alma
A postura de Tengegê encerrava uma nova realidade para Mendonza e sua Entrada:
ele estava rico, continuava o chefe de direito, mas sobre os escravos, o chefe de facto era o jovem Tengegê.
Sequer passava por sua cabeça sua obrigação junto à Coroa portuguesa...
“Que me importa”, pensava, quando se afastavam do “Rio Tengegê”, “ter perdido o mando sobre esses escravos se logo poderei comprar quantos quiser?”.
— Quantos quiser! — exclamou em voz alta, sem querer.
— Já sei:
o sinhó está pensando em comprar outros escravos...
— Como é que você sabe o que estou pensando?!
— Quando o sinhó tiver muito ouro, nós vamos embora.
Parece que sempre vai querer buscar mais ouro e nesse caso precisará trazer outros escravos.
Aí o sinhó pensou:
com o ouro que terei, comprarei “quantos quiser”. Acertei?
— Hum...
— Só que tem uma coisa:
agora que nós já ficamos livres, o sinhó passou a ser o escravo...
— Que é isso, moleque? — logo se desculpou:
que é isso, rapaz? Ficou louco?
Como é que se atreve a me chamar de escravo?
— Desculpe, sinhó, estava só vendo o futuro:
o sinhó com muito ouro.
— Assim está melhor... Bem melhor...
— Pois é aí que eu imaginei que o sinhó só vai pensar no ouro, até quando o Pai-Grande o chamar...
— Pai-Grande?! Que é isso?
Ou melhor, quem é ele?
— É Olorum.
Aquele que é muito bom, muito justo, que fez todas as estrelas e todas as coisas deste mundo, todos os bichos, todas as gentes, brancas e negras...
— Se ele é tão bom e justo, para que fez os negros?
— Ué: então eu e meus irmãos não estamos ajudando o povo destas terras?
O que seria da Colónia sem nós?
Os índios são bons, mas não sabem plantar e nem sabem navegar para levar o que aqui é colhido para o outro lado do mar...
— Então o seu Pai-Grande fez vocês para serem escravizados?
Isso é justo?
Para vocês isso é bom?
— Zangigi me ensinou que toda vez que nós não sabemos resolver um problema, é porque nossa ignorância é maior que a solução.
Nesse assunto do Pai-Grande ter sido injusto com os negros, outro dia Zangigi me perguntou se eu queria ser branco, mas ter nascido cego, ou sem um braço, uma perna...
— Então? Está vendo só?
Esse tal Pai-Grande seu e do Zangigi não é lá bom nesses assuntos de justiça, não é mesmo?
— Não sinhó, não sinhó, não diga isso:
o Pai-Grande é bom sim.
E ele não é do Zangigi e meu:
é pai de todos que têm vida e é perfeito!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:05 am

Nós é que às vezes não prestamos, sendo ingratos e maus com nossos irmãos, os brancos, os negros, os índios, os mestiços e até os animais — pois todos são filhos do mesmo pai!
Zangigi me contou que ele, eu e os demais escravos já tivemos outras vidas, sendo brancos, ricos, poderosos e não agimos correctamente com nossos empregados e agora nascemos negros e fomos escravizados para aprendermos que não se deve fazer para os outros o que não queremos para nós.
— Zangigi disse tudo isso?!
Então vocês me consideram seu irmão?!
Escravos, índios ou negros, não passam de “peças” (*) e quanto a isso de índios, negros, bichos e brancos serem irmãos: não admito!
Tenho pena de vocês:
que provas têm disso tudo?
— Ah!, sinhó, provas, só o coração é que as tem!
Ou nós aceitamos essa realidade, compreendendo que cada um colhe o que plantou, ou então vamos nos angustiar por muito tempo...
— E vocês não se revoltam de serem negros?
E escravos?
— Muitos se revoltam!
Preferem morrer!
(A História regista mesmo que muitos escravos, sabedores do destino cruel que os aguardava nas terras “do lado de lá do mar”, preferiam o suicídio...).
— Quanto a mim — prosseguiu — e muitos dos meus companheiros, vamos buscando forças no coração para viver da melhor maneira, no lugar que o Pai-Grande nos manda.
Uma coisa ajuda:
é o entendimento de que o sofrimento de hoje foi plantado ontem, por nós mesmos.
Isso afasta a revolta e não se revoltando hoje, a vida fica menos difícil e amanhã seremos mais felizes...
— Que história é essa de ontem, hoje e amanhã?
— Muitas vidas, sinhó!
Estou me referindo a outras vidas, antes dessa, a actual e as outras que viveremos...
Depois do que o Zangigi contou para nós, passamos a ter um alívio para as dores...
Todas as dores, as do açoite, mas principalmente as do coração...
Tengegê, destemido, mas leal, não perdeu a oportunidade:
— Aconselho o sinhó a tratar bem seus empregados e seus escravos, pois numa outra vida, futura, poderá também ser escravo...
Aguardava repreensão, pois estava admoestando seu sinhó.
Com espanto, viu-o olhar para o céu e fixar o olhar numa nuvem, assim permanecendo por demorados instantes, mudo.
Voltou das reflexões, olhos brilhando intensamente e arguiu:
— Zangigi falou-lhe de brancos cegos e você fala-me de dor em vidas futuras...
Diga-me:
o que pode ajudar o coração de um pai e de uma mãe a não sofrer vendo uma filha nascer com o corpo torto, quase não ouvir, não falar, com a ideia totalmente destrambelhada?
E o que pode aliviar esses pais ao verem essa filha crescer e entortar o corpo ainda mais, enchendo-se de feridas e de dor?
Quem sofre mais:
os pais ou a filha?
E se é o Pai-Grande o responsável por isso, como considerá-lo bom e justo?
Como? Como? E somos brancos!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:05 am

Aos gritos e com as mãos crispadas erguidas aos céus, a angústia daquele homem exteriorizava o que lhe ia na alma, ali explodindo sem freios:
soluçava o calejado sinhó, homem firme no trato com iguais, enérgico com seus empregados e duro com os escravos.
Presa de violenta emoção abaixou as mãos, fechou-as e abriu-as junto aos olhos, como que querendo empurrar para trás as lágrimas que por isso esparziam-se-lhe nas faces, agindo seus dedos como os galhos que aparavam as águas da cachoeirinha do Rio Tengegê.
Tengegê, alma boa e sensível, vendo pela primeira vez o homem branco chorar, emocionou-se também.
Solidário àquele que o escravizara, numa demonstração de grandeza d’alma, abaixou-se junto ao sinhó e colocou a destra na fronte dele, num gesto de amparo.
Disse:
— Olorum, o Pai-Grande, vê sua dor.
Se o sinhó pedir de coração, ele lhe dará as respostas para sua dor...
Mendonza, em nível máximo de emoção, captou a essência do gesto fraternal daquele escravo e compreendeu, sob forte impacto psíquico, que até mesmo escravos têm sentimentos.
Ergueu os olhos, confortado e com inaudita surpresa, mal acreditou no que via:
o jovem negro também chorava!
Lágrimas solidárias ao sofrimento que era só dele, ou melhor, da esposa e da filha.
Tomou a mão do jovem e beijou-a, quebrando na alma todos os muros da irracional fronteira social que separa os homens, pela cor, pelas crenças, pelas posses...
Na imensidão daquele cenário até se poderia dizer que não houve testemunha para tão grandioso instante de dois seres humanos, tão díspares em cultura e condições de vida.
Ledo engano!
Vendo-os, havia céu, ar, nuvens, ventos, aves em voo, milhares de flores recebendo beijos de milhares de insectos.
E águas tranquilas.
E invisíveis testemunhas:
Espíritos bons, atraídos pelas vibrações do momento mágico, que só o amor fraternal produz.
Vida, pujante vida!
Mendonza lembrou-se de algo, distantemente aprendido:
— Tengegê, quando eu era criança meu avô contava que houve um homem extraordinário, chamado Pablo, que foi o maior pregador religioso de todos os tempos.
Certo dia, tendo eu feito uma traquinagem, às ocultas, vovô advertiu-me dizendo que aquele pregador cristão ensinou que nós vivemos cercados por uma nuvem de testemunhas, invisíveis, donde tudo o que fazemos é visto “lá em cima”, no Céu.
Será que tem algumas dessas nuvens nos vendo agora?
— O que é cristão?
— Quem segue o mandamento de Jesus Cristo, Salvador do mundo, que foi crucificado por ser bom, há mais de mil e seiscentos anos.
— O que seu avô ensinou de um jeito, Zangigi ensinou-me de outro:
disse que o Pai-Grande é tão bom que às vezes deixa a alma dos que já morreram visitar os vivos, vê-los, ficar junto algum tempo e até conversar, ou pelos sonhos ou pedindo emprestada a garganta de um deles, que tenha nascido com essa faculdade, para poder falar.
— Você está me dizendo que os mortos falam com alguém, pela garganta de alguém vivo, que conheça esse mecanismo?
Então não sabe que o Santo Ofício proíbe isso que é coisa do demónio?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:06 am

Que é pecado dos mais graves?
Quem faz isso e quem gosta dessas coisas só merece mesmo é ser queimado.
— Só se for na terra do sinhó, porque lá de onde vim uma ou outra vez as pessoas se reúnem e com muito respeito alguma alma vem dar conselhos.
Outras vezes, vem algum escravo que morreu matado por ordem do sinhó dele, ou então que se matou para evitar a escravidão.
Vêm com muita revolta, muita dor, fome e frio, mas esses recebem carinho e bons conselhos...
— Espere um pouco:
como é que escravo morto tem dor, fome e frio?
Isso é loucura!
— Não é não sinhó:
é que a vida continua “lá em cima” e do jeito que a gente morre, a alma continua vivendo...
Do mesmo jeitinho...
— Não pode ser! Não acredito!
Bem está fazendo falta um padre para ensinar a verdade para vocês todos: negros não têm alma!
— Vou contar uma coisa para o sinhó e depois me diga se é loucura o que aconteceu aqui, há poucos minutos:
lá na minha terra, quando eu era criança, ou melhor, numa noite, eu fui espiar uma reunião dessas, que o Zangigi, sendo babalaô comandava e que meu pai e minha mãe participavam, pois além de vizinhos dele, sabiam como lidar com as almas.
Ele emprestava a garganta para as almas falarem.
Às vezes vinham almas boas, outras vezes era um tumulto danado, pois algum escravo morto e que tinha sido levado pelos brancos xingava todo mundo, dizendo que ali eram todos covardes, que não o ajudaram, já que ele preferira jogar-se no mar e ser comido pelos peixes grandes do que perder a liberdade.
Mendonza arrepiou-se.
Antes de radicar-se no Brasil fora tripulante de navios negreiros e lembrou-se que não raro, de facto, alguns escravos não suportavam a ideia da escravidão e se lançavam às águas, em alto mar, sabendo de antemão que teriam morte trágica, afogados ou devorados por tubarões, que viviam rondando os tumbeiros.
Pensou aterrorizado:
“se isso for verdade, então “alguns negros” têm alma e as desses escravos continuam vivendo e com ódio de quem os comprou...”.
Tengegê captou o momento de reflexão do sinhó.
Prosseguiu:
— Quando eu nasci, nasceu também um menino perto de onde eu morava.
Ele se chamava Gangê.
O corpo dele era esquisito, os olhos eram um para cada lado e tinha um caroço enorme nas costas.
A boca era cortada em cima, igual à das lebres.
Quando foi crescendo, os dentes nasceram fora de lugar e só falava com dificuldade.
Só eu entendia o que ele falava, ninguém mais.
Nunca aprendeu a andar direito e quando se locomovia mais parecia um orangotango.
Fez pausa, pois o soluço embargou-lhe a voz.
Logo, seguiu:
— Com tudo isso, foi a melhor criatura que conheci.
Ficamos amigos e tratei dele até o seu último dia de vida.
Morreu aos oito anos.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:06 am

Quando nós nos reuníamos para conversar, e fazíamos muito isso, ele nos ensinava muitas coisas.
Falava para mim e eu repetia para todos:
— Tengueguê — era assim que me chamava — fala para eles que eu escuto vozes aqui dentro, e batia no alto da cabeça.
São vozes boas.
Vocês nem acreditam o que elas me falam: querem saber?
— Espere um pouco:
como é que esse seu amigo ouvia vozes dentro da cabeça?
Os ouvidos estão de fora...
— Pois é: dentro da cabeça, sim sinhó.
O Gangê era todo torto por fora, mas aprumado por dentro, que nem a mandioca, que nasce e vive debaixo da terra — tirando a casca é branquinha e lisa.
Quando ele ouvia essas vozes todos ficavam quietos, para saber o que ele tinha ouvido.
Aí ele contava que as vozes eram dos mortos.
— Aqui... No acampamento...
Vocês fazem isso?
— O sinhó perguntou e por isso vou responder:
de longe em longe o Zangigi empresta a boca dele para o Gangê...
— Mas eu já não falei que a Santa Madre Igreja proíbe isso?
E que o Santo Ofício castiga quem a desobedece?
— Na minha terra não tem Santa Madre Igreja nem Santo Ofício, só tem as pessoas com as quais Olorum manda algum orixá conversar...
Nós não pedimos para vir para a Colónia, por isso quando estamos trabalhando, a terra é do sinhó, mas quando vamos dormir, lá no armazém a terra é nossa.
— Você ainda não me contou o que as “vozes” diziam ao tal Gangê e você repetia para os demais...
— Falavam para ele que no Céu tem dois lugares onde ficam os mortos:
um para as pessoas que foram boas, e o outro, onde há muita tristeza, muito sofrimento, para as que foram más.
E que nesse último lugar a maioria é de brancos, embora tenha também alguns índios e negros.
— Sei bem disso: o paraíso e o inferno!
Louvado seja Deus e me livre do fogo eterno.
Nesse ponto do diálogo o escravo, inesperadamente, apresentou uma forte contorção do pescoço, fazendo com que caísse o bornal com a preciosa carga, esparramando as pepitas pelo chão.
Tengegê desprezou as pepitas, nem sequer fazendo menção de catá-las.
Levou as mãos à cabeça, tapou os ouvidos e com os olhos fechados murmurou palavras algo arrastadas:
— Sua filha...
Dirigia-se a Mendonza que, por intuição, sentiu-se presa de intenso pavor.
Ficou paralisado.
Os olhos de Tengegê abriram-se e estavam vidrados, demonstrando um esquisito transe.
O espanhol, ao vê-lo de olhos abertos, criou coragem e interrogou:
— Minha filha?
— O Pai-Grande, que é Pai do seu Jesus, dos nossos orixás, de todos os homens, mulheres e crianças do mundo, é muito bom.
E se a menina está colhendo sementes amargas, foi ela que plantou...
Também plantei sementes dessas e tive a bênção de só eu colher os maus frutos...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:06 am

— Menina...
Balbuciou Mendonza...
Quê menina? Seria...
¬— Sim, estou falando de Consuelo...
Não conseguiu terminar. Mendonza caiu, em súbito torpor, impedido de manter-se de pé, assentou-se e começou a suar.
Jamais dissera a quem quer que fosse, ainda mais a escravos, o nome de sua filha.
E agora, Tengegê pronunciara-o!
A emoção foi muito forte.
— ... e da Vida, sinhó:
a Vida é como os tempos do Sol e da Lua, vêm e vão, repetindo sem cessar os dias e as noites, o calor e o frio, as flores e os frutos.
Quando que o mundo ficou sem flores e árvores?
O sinhó ainda não reparou que no céu nunca faltam aves?
E que elas nascem, voam, morrem e logo nascem de novo?
E os animais?
Quando é que o mundo ficou sem os bichos, principalmente os peixes, que alimentam brancos e negros?
E os cavalos, os bois, que a vida inteira trabalham de graça para o homem?
Também eles nascem, vivem, trabalham e depois morrem.
Se o Pai-Grande faz tudo isso pelos bichos, por que não faria o mesmo com as criaturas humanas?
Mendonza, embora inculto, espantou-se com aquela filosofia na boca de um escravo.
Irretorquível! Plena de lógica.
Só não se conformava com a grave anormalidade da sua filha:
— Um pouco disso tudo é verdade, mas responda-me:
onde está a grandeza desse Pai-Grande que faz algumas pessoas nascerem só para sofrer?
Estou falando sim de minha filha Consuelo!
Mas não posso negar que quem nasce negro não é feliz também.
— Sinhó, sinhó:
quem está falando é o seu coração, que está machucado, desde que viu a Consuelo nascer.
Mendonza sentiu outra fortíssima descarga eléctrica percorrer-lhe todo o corpo.
Jamais comentara com alguém que quando sua esposa dera à luz a filha, toda deformada, seu trauma foi terrível.
Inquiriu:
— Diga-me: como é que você sabe o nome dela e que ela nasceu com tão graves problemas?
Como é possível?!
— Mas então o sinhó não está vendo e ouvindo?
Se o Tengegê não foi lá na sua casa só outra pessoa que tenha ido é que saberia o nome da menina e como ela é...
— Mas, pela Cruz, se você não é o Tengegê, eu estou ficando louco...
— Nada disso, sinhó:
eu sou o Gangê, amigo do Tengegê, que me emprestou a boca dele para nós conversarmos.
Eu estava ouvindo vocês conversarem e quando o sinhó pensou na sua casa e na sua filha, ainda a pouco, eu pude ir até lá.
Estou vendo que o sinhó está meio assustado, pois imagine como fiquei quando vi que ela é minha conhecida...
De muito tempo...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:06 am

Quanto a imaginar sua dor quando ela nasceu não exigiu esforço da minha cabeça, foi só lembrar o que meus pais lá na África sentiram...
Mendonza não conseguiu falar mais nada.
Estava em estado de choque, sem nenhum perigo para sua saúde, mas provocando uma verdadeira tempestade psicológica na mente, pois alguns dos valores religiosos e sociais nos quais até então acreditava, acabavam de ruir.
Religiosos, por estar mantendo diálogo com “mortos” e sociais porque sua filha...
E um negro... terem sido amigos.
A prova de que eram verdadeiras todas aquelas coisas ditas por Zangigi a Tengegê tivera-a, plena, indiscutível, inegável!
Tengegê voltou a contorcer-se estranhamente e saiu do transe.
Mendonza fitava-o com os olhos arregalados.
Algo entorpecido, Tengegê viu as pepitas no chão e catou-as.
O silêncio foi-lhes reacção benéfica, predispondo ambos à reflexão.
Tengegê iniciava ali o exercício mediúnico, eclodido inesperadamente no consciente, mas já fazendo parte do seu património espiritual de vidas anteriores.
Exercício que seria proveitoso, tal fosse a destinação que desse a tão sublime faculdade, misericordioso empréstimo de Deus, para ser utilizado apenas em benefício do próximo.
Ao contrário, seria oportunidade perdida, com agravantes para vidas futuras.
Quanto a Mendonza, também por merecimento recebera fortes luzes espirituais, qual um despertar para novas realidades — a vida do Espírito!
Um emaranhado de suposições fazia todas desembocarem numa única certeza:
a vida continua depois da morte (e negros têm alma, sim!) e aqueles que morrem, na verdade continuam vivos, podendo conversar com os que ainda não tinham feito a “última viagem”.
“Última?...”, perguntava e reperguntava a si mesmo.
A negativa era-lhe resposta constante e racional.
A reencarnação emergia com claridade solar em suas reflexões.
Mendonza nos dias seguintes alforriou Tengegê e os demais escravos da sua Entrada, sob a condição deles permanecerem trabalhando para ele, por mais dois anos, recebendo uma parte de todo o ouro que fosse extraído.
Para disfarçar suas actividades mineradoras, resolveram fazer mesmo as plantações, pois assim aproveitariam as águas do efluente do “Rio Tengegê” para a irrigação, ao mesmo tempo em que fariam a prospecção e cata do ouro.
As semeaduras e colheitas em diferentes estações do ano, bem como os suprimentos necessários e as ferramentas que necessitavam e que iriam ser compradas, não despertariam suspeitas quanto à existência do ouro naquela região.
Assim pensavam...
Entradas e Bandeiras, cada vez mais, atiravam-se pelo interior do sertão, sonhando com ouro e pedras valiosas.
Muitos também eram os exploradores que, com poucos parentes ou com poucos escravos alforriados, seguiam as mesmas trilhas.
Todos, numa desenfreada busca da fortuna rápida.
Passavam pelo acampamento de Mendonza, pouco se demorando, prosseguindo para Mato Grosso, onde corria notícias de haver sido encontrado ouro...
Cada vez mais e mais aventureiros iam para lá.
Muitos jamais retornaram, deles não se sabendo se tinham prosperado ou morrido.
Uma ou outra vez um escravo voltava, perambulando de déu em déu, quase sempre dementado ou moribundo e com dificuldade contava que a Entrada fora destroçada, ou por índios, ou por bichos, ou por doenças.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:06 am

Mendonza sabia que dependia da sua esperteza ser um homem riquíssimo e que se descuidasse um segundo apenas, poderia ser sumariamente eliminado.
Depois de muito reflectir, compreendeu que não poderia ocultar por muito tempo o achado do ouro, pois inclusive teria que prestar contas às autoridades portuguesas, que o haviam contratado e que financiavam a expedição, isso há já quatro anos...
E também, que quando precisasse dispor de algum ouro, “seu ouro”, negociá-lo, então a notícia se espalharia.
Assim, chamou seus guardas e a cada um deu três pepitas de ouro, informando que sabia onde havia ouro e que para tanto alforriara os escravos, exigindo fidelidade e pequena participação.
Disse-lhes que iria até Taubaté para buscar ferramentas, sementes e mudas e trazer mais escravos e guardas e que na volta daria mais ouro para eles, se fossem fiéis, ou a morte, se o traíssem...
Aliás, essa era mesmo a lei das Entradas e das Bandeiras.
Recomendou que para todos os efeitos, ali passaria a ser um entreposto e plantação.
Antes de partir, com alguns homens armados, implantou rigorosas medidas de segurança, pois sabia bem que o roubo por ali era rotina.
Para ter certeza de que os escravos não abandonariam o acampamento na sua ausência, nem o trairiam, levou Zangigi com ele e designou Tengegê responsável pela disciplina dos demais.
Ordenou que iniciassem a preparação das terras para a lavoura, para não despertar suspeitas.
Com o ouro que levou Mendonza pôde fazer um excelente farnel e aproveitou para contratar mais espingardeiros.
De forma intencional, mandou Zangigi indicar que escravos deveriam ser comprados, pois assim, quando chegasse com eles, os que tinham ficado, teriam que aceitar os que chegavam, seleccionados que foram por seu líder...
Zangigi ficou muito triste com essa incumbência, pois tal tarefa, sobre ser ingrata, conflituava com sua índole pacífica e fraternal.
Mas ordens eram ordens e desobedecer poderia significar castigo para ele próprio ou para algum companheiro.
Mesmo arriscando, tentou argumentar:
— Sinhó, eu não tenho o instinto de soba, não saberia escolher as pessoas certas...
Mendonza sequer deu-lhe resposta.
Simplesmente, obrigou-o a obedecer, levando-o ao local de exposição dos escravos à venda.
Zangigi agiu com inteligência.
E bondade:
contrariando os costumes da época, só seleccionou famílias inteiras, de preferência quando existiam filhos pequenos ou a mulher estava grávida.
Talvez tenha sido aquela a única vez e a única Entrada que comprou famílias, já que a norma era o oposto:
sempre desmembrá-las.
Com tal atitude Zangigi investia no futuro certo, no forte vínculo familiar, como elemento agregador, pois não é difícil deduzir que a maioria das fugas de escravos deveu-se à desesperada tentativa de reencontrar os entes queridos.
*
Antes de retornar ao “seu ouro”, Mendonza preparou um comunicado às autoridades portuguesas no Rio de Janeiro e despachou um estafeta, com ordens expressas de entregá-lo em mãos do governante-mor.
De forma dúbia narrava que “algum ouro” havia sido descoberto.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:07 am

Não precisava o lugar nem quem tinha feito a descoberta (ele próprio, de direito, conquanto Tengegê, de facto).
Graças aos rendimentos do ouro, o acampamento de Mendonza, bem instalado e com expressiva quantidade de suprimentos, em pouco tempo mais parecia uma pequena comunidade, onde não faltavam postos de comércio de alimentos e dos demais apetrechos necessários às duras lides sertanejas.
Construiu estalagens, pois a freguesia era cada vez maior.
No estábulo, também havia infra-estrutura para albergar os animais de montaria, de carga ou mesmo bovinos.
Denominou o local de “Almacén Santa Virgem” (Entreposto Santa Virgem).
Justamente no ano de 1698, seis meses depois de inaugurado o entreposto, a ele chegou a “comitiva de el-Rei” — o grupo que Severo comandava.
O visitante vinha com forte escolta de espingardeiros.
Não foram bem vistos ao chegar...
Mas, como tinham a “força do direito e das armas”, foram hospedados por Mendonza, tendo Severo sido alojado na sua tenda.
A faina na agricultura impressionou Severo, na primeira semana que esteve por ali.
Aguardava a chegada da outra metade da expedição governamental.
Dez dias após, já preocupado por não ter notícias de Dom Silveira, chegou um mensageiro informando que “sua excelência” havia adoecido de “febre ruim”, tendo o grupo retornado ao Rio de Janeiro.
“Que o senhor Severo prosseguisse na missão”, terminava o lacónico bilhete, sobre o qual havia o selo oficial, em alto relevo.
Severo teve ímpetos de proferir um palavrão, ali mesmo, diante do mensageiro e de Mendonza, mas conteve-se.
Aquela era uma ordem e não ficava bem desrespeitá-la.
Aliás, enfastiado de estar ali há já dez dias, sendo hostilizado pelo espanhol, embora de forma subtil, estava sinceramente arrependido de ter deixado seu Portugal.
Mais duas semanas se passaram.
Na boca da noite um tremendo temporal desabou sobre aquela região, pensando alguns que o fim do mundo se aproximava.
Não houve tempo nem de recolher o ferramental utilizado pelos escravos na plantação.
Ventos, raios, trovões e chuva, de incrível impacto, punham a descoberto o poder do Criador, numa das manifestações da força da natureza.
Como sempre, a benefício da vida!
Tengegê, atento e afoito, enfrentando a tempestade, conseguiu recolher parte dos instrumentos, abrigando-os no depósito de material, que servia de oficina para as ferramentas que utilizavam na lavoura.
Por coincidência a tempestade surpreendeu Mendonza e Severo quando estavam na oficina, mantendo-os lá, como prisioneiros temporários, até que se acalmassem os fortíssimos ventos e cessasse a chuva torrencial que desabava.
Tengegê, sozinho e em minutos, trouxe muitas ferramentas para ali.
As demais, a enxurrada levou para longe...
Eram quase vinte e três horas e a chuva não parava.
Os três homens entreolhavam-se, à luz bruxuleante da lamparina.
Tengegê acendera pequena fogueira e mantinha-se afastado.
— Então, senhor Severo — puxou conversa Mendonza, pela primeira vez algo amistoso:
o senhor tem família?
— Tenho sim, Mendonza.
Mulher e três filhos. E você?
Mendonza franziu a testa e gaguejou:
— Mulher e dois filhos, um rapaz e uma menina...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:07 am

— Com saudades deles?
— A saudade me aperta cada vez mais o coração.
Não aguento mais de vontade de revê-los.
Feliz é o senhor que está há pouco tempo cá na Colónia.
— É verdade, contudo, já está também a me visitar a saudade.
Fale-me de sua família.
Mendonza inquietou-se, visivelmente.
Mas respondeu:
— Minha mulher é sua patrícia, conheci-a quando negociava com ferramentas, pois viajava a Portugal para vendê-las.
Casamo-nos e fomos para minha terra, onde meus filhos nasceram.
O rapaz tem vocação e foi prometido à Santa Virgem, para ser padre.
Já deve ser...
Dele, nunca mais tivemos notícia.
Fez pausa prolongada e suspirando prosseguiu:
— A menina...
Deus me castigou...
Nasceu marcada pelos tormentos, é defeituosa, é...
Não conseguiu terminar.
Lágrimas, quais os pingos de chuva que caíam abundantes, sufocaram-no.
Tengegê, agachado junto à improvisada fogueira, teve uma estranha contorção corporal.
Ergueu-se de um salto e veio para perto dos dois brancos.
Voz entrecortada assumiu a palavra e disse:
— Chuva bonita, trovões amigos, ventos faxineiros e vocês, gente boa:
vamos louvar o Pai-Grande que é o dono de tudo e de todos!
Mendonza teve instantânea lembrança de quando achara as pepitas:
“a alma” de Gangê estava ali, outra vez...
Os dois homens brancos, espantados, captaram que estavam diante de factos insólitos, e pior que isso, os agentes desses factos eram almas do outro mundo, que a Santa Madre Igreja abjurava, condenando-os veementemente.
Mendonza, boquiaberto, demonstrava pela expressão que não era aquela a primeira vez que presenciava tal acontecimento.
Severo, absolutamente radical, desgostou-se com aquilo que considerava imperdoável perjúrio, em desacordo com a crença católica, nele arraigada, de que tal se constituía pecado grave — falar com mortos.
E aquele escravo, sem qualquer cerimónia, fazia-o ali, senão com o beneplácito do seu senhor, pelo menos com aparente omissão.
Tengegê, olhos semicerrados, voz pausada e tom diferente, demonstrando quase infantilidade no timbre, prosseguiu:
— O sinhó “Mendonza” já me conhece, não é sinhó?
— É — balbuciou Mendonza, constrangido e irritado.
— Então vou me apresentar para o outro sinhó, o que é amigo do Rei:
sou o Gangê, amigo do Tengueguê, que está me emprestando a voz.
Como vai indo, sinhó?
Severo desprezou o cumprimento.
Humilde, o Espírito Gangê assimilou o gesto mal-educado.
Mas como se não tivesse sido rechaçado, prosseguiu, ainda dirigindo-se a Severo:
— Sabe, meu sinhó, eu só vim aqui porque sua família está com dificuldades, lá do outro lado do mar...
Severo deu um salto.
Quase pegou no pescoço de Tengegê, para esganá-lo, diante de tão grande desrespeito.
Tengegê, imóvel.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:07 am

Mendonza, amedrontado.
Severo, irritadíssimo.
A ponto de agredir o escravo.
— Não me odeie assim, meu sinhó:
só vim dar um recado, da sua avó Marcília...
Foi demais:
Severo esbofeteou Tengegê e passou a agredi-lo.
Mendonza tentou acalmá-lo, pois o agressor se descontrolara.
Tengegê saiu do transe mediúnico e agora seu olhar modificou-se, passando de calma para dor e revolta.
Severo colocou a mão na escopeta, da qual nunca se separava.
Tengegê, em gesto de legítima defesa, pois pressentiu que seria morto, também campeou a mão pelo chão e pegou numa foice.
Mendonza sentiu que não poderia impedir o combate mortal que prestes eclodiria.
Era evidente que haveria morte, em instantes.
Nisso, como que demonstrando o equívoco do intendente real, um formidável raio, ali pertinho, mandou um não menos fortíssimo trovão dizer àqueles homens “que Deus não estava gostando daquilo”, segundo balbuciou o espanhol.
Aliás, desnecessariamente, eis que os três ficaram como que petrificados com o terrível e ameaçador estrondo, que de resto, incutiu idêntico pavor em todos os demais seres vivos das redondezas — homens e animais...
Invisíveis, ali estavam Espíritos belicosos (desencarnados), atraídos pelo ódio de Severo:
a tal “nuvem de testemunhas”...
Insuflavam discórdia, por compulsão.
O raio, mais que o trovão, arremessou-os para fora do depósito e, atarantados, em completo desvario e pavor, fugiram dali em desordenada correria.
Mendonza e Severo persignaram-se (fizeram o sinal da cruz).
Tengegê, ao modo ioruba, demonstrou o respeito à Natureza, pois largou da foice e pôs as mãos sobre o peito, deitando-se no solo.
“Um segundo raio” perpassou por ali, mas só na mente de Severo:
começou a tremer e com os olhos arregalados aproximou-se do jovem escravo, ainda no chão.
Atónito, perguntou-lhe:
— Quem falou para você que minha avó se chamava Marcília?!
Tengegê, com grande desconforto, apenas murmurou:
— Nem sei do que o sinhó está falando...
— Há pouco você disse que minha avó Marcília tinha um recado para mim...
Sobre minha família, que está com dificuldades...
— Não sei não sinhó.
Severo olhou para Mendonza, que só então interviu:
— Esse rapaz, há uns meses atrás, ficou assim esquisito também comigo e falou umas coisas...
— Que coisas?
Pelo amor de Deus, diga!
— Ele fala com os mortos, ou melhor, os mortos falam pela boca dele...
Contou-me que ainda criança, lá na África, teve um amigo que morreu aos oito anos, mas cuja alma volta e fala coisas boas.
Vossa excelência não acredita, não é mesmo?
Eu também não acreditava.
Mas da única vez que isso aconteceu, essa alma disse o nome da minha filha, que assim como ele foi, também é castigada por Deus, pois nasceu com o corpo todo disforme.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:07 am

Diga-me, excelência:
como se chamava sua avó?
Severo anuiu apenas.
Assim, confirmava-se a autenticidade do facto mediúnico.
— Minha família — murmurou Severo — deve estar em dificuldades...
Preciso saber...
Reflectiu um pouco e logo determinou:
— O que aconteceu aqui tem que ficar só entre nós.
Partirei amanhã mesmo, de volta ao Rio de Janeiro e procurarei saber notícias da minha mulher e dos meus filhos.
— Foi embora...
Era Tengegê dizendo isso, levantando-se e espiando pela janela da tenda, referindo-se à tempestade.
Os homens saíram e se deslumbraram com o céu coberto de estrelas, tão brilhantes como jamais se viu por aquelas bandas.
Os empregados e os escravos também olhavam o céu.
— Até parece que o céu foi lavado! — exclamou Mendonza.
Severo, atónito, complementou:
— Por Deus: aquela alma falou mesmo em faxina, citando ventos faxineiros...
No dia seguinte, bem cedinho, antes mesmo de o Sol chegar, o enviado do Rei de Portugal levantou-se e requisitou que Mendonza preparasse os animais de montaria e guardas, para conduzi-lo de volta.
Mas, se o homem põe, Deus dispõe...
Severo foi até o riacho, fazer a ablução matinal.
O riacho, que durante a noite toda dera vazão à fortíssima correnteza das águas da chuva, agora voltava à sua calma.
Às águas, contudo, ainda estavam barrentas, o que obrigou Severo a buscar um ponto mais acima, onde talvez elas estivessem mais claras.
Os primeiros clarões da alvorada saudaram-no.
Encontrou águas um pouco menos barrentas e lavou o rosto.
De repente, teve o maior susto de toda a sua vida:
no barranco em frente de onde se encontrava, onde as chuvas haviam provocado erosão em algumas nesgas da margem, filetes de vários veios de ouro estavam expostos, quais jóias, em formosa vitrina.
Se a tempestade provocara os desbarrancamentos, a chuva se incumbira de lavar o ouro que, embora incrustado de terra, agora rebrilhava timidamente, ante os não menos tímidos primeiros raios solares matinais.
Se aqueles eram avermelhados, esses eram de um lindo amarelo.
Passou a mão demoradamente no ouro e sem esforço foi pegando vários fragmentos, dando-se conta de que “descobrira” ouro puro, à superfície da terra, sendo certo de que por ali deveria haver muito mais.
Pouco se importou de enlamear-se.
Pegou outros fragmentos e quando foi lavá-los nova surpresa o aguardava:
no leito do riacho, pepitas e mais pepitas, dezenas, centenas, talvez milhares delas, estavam amontoadas, acobertadas de lama.
Era só pegá-las e lavá-las que logo se punham a brilhar!
Não parou aí o susto:
à medida que o dia clareava, pôde identificar no lamaçal vários apetrechos só utilizados em mineração, que tinham sido espalhados pelas enxurradas:
cavadeiras, pás, almocafres, bateias, gamelas e pratos...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:08 am

Qual o assustador raio da noite anterior, da sua mente um clarão foi ao cérebro e deduziu, sem sombra de qualquer dúvida:
Mendonza sabia daquele ouro!
E se calara! Traidor...
Novas deduções visitaram-no:
“então por isso é que os escravos dele nem parecem escravos:
devem estar alforriados e comprometidos a não divulgar o achado do ouro...
Aliás, como é que não vi nenhum ser açoitado desde que cheguei e como podem sair da senzala, à noite, como vi acontecer ontem à noite?
Esperto, esse espanhol, disfarçando a mineração com plantação...”.
Como que hipnotizado pela visão do ouro, ainda pensou:
“el-Rei vai promover-me:
logo estarei à nobreza, com as portas do palácio abertas para receber-me”.
Mas outro pensamento atravessou-lhe à mente:
“cá este ouro pode ser todo meu e aí, o mundo é que me abrirá as portas”.
Indefinido temor tirou-o do devaneio com a fortuna:
sentiu-se observado...
Ficou imóvel.
E não tinha trazido sua escopeta...
Olhou cautelosamente à volta e nada viu.
Com os pensamentos fervendo em turbilhão de providências a tomar, e também de muito cuidado com a vida, retornou ao acampamento, convocando Mendonza para uma entrevista particular.
Foi contundente:
— Achei uma mina de ouro!
A chuva quebrou uns barrancos e lá está cheio de ouro!
Mendonza aturdiu-se, mas logo se recompôs:
— Então, homem, estou rico!
As terras são minhas! Minhas!
— E o Rei de Portugal?
— O Rei? O Rei?!
Ele vem aqui por a mão na terra?
— Manda emissários...
Como eu.
— E o que quer dizer isso?
— Quer dizer que vou propor ao Rei que a Coroa tenha sua parte, dízimo talvez.
— Dízimo?
Ora, meu amigo, isto não é uma igreja...
— Não sou seu amigo:
sou emissário de Portugal, cujo tratamento exige-o, tem que ser de vossa excelência.
E não me referia a um dízimo, mas sim, ao meu e ao seu:
dois dízimos, isto é, um quinto do “nosso ouro”!
— O quê?! Aqui tudo é meu e não divido com ninguém!
Até posso dar o tal dízimo às autoridades, mas só isso.
Nada mais!
Às palavras, agitadas, Mendonza, mesmo sem sequer ter visto os filões de ouro, que incidentalmente Severo descobrira, já lhes defendia a posse.
Se necessário, até matando...
Com esse pensamento, pegou seu arcabuz e disse a Severo:
— Esqueça o que viu, amigo.
E terá saúde por muitos anos...
A ameaça era evidente.
Mendonza só não matou Severo ali mesmo porque raciocinou rápido:
“matar o enviado do Rei de Portugal só lhe daria uma grande dor de cabeça”.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 09, 2017 10:08 am

Talvez até lhe custasse a própria...
Pôs-se a arquitectar uma saída, considerando a tal sociedade, na qual ele seria o sócio majoritário.
“Pois os auxiliares e até os escravos não eram seus sócios?”, sofismou de si para si mesmo.
Quanto a Severo, compreendeu que corria sério risco de vida.
Conhecedor do que o dinheiro faz na mente das pessoas, captou que dificilmente sairia vivo dali.
Fracassara sua infeliz tentativa de associar-se a Mendonza na posse do ouro.
Decidiu, por cautela, que de agora em diante, não deveria mais ficar de costas para Mendonza...
Ali ele estava em franca desvantagem:
deduziu, com acerto, que os auxiliares de Mendonza e os escravos, estavam todos cientes do ouro, mas disso fazendo segredo...
Só havia uma explicação:
eles, brancos e negros, eram interessados na mineração!
E quando Mendonza mandara o comunicado dizendo “algum ouro”, sem especificar local e responsável pela expedição, mentira duplamente: o ouro era abundante, do qual havia se outorgado único dono, em detrimento do poder oficial.
Imperdoável! Imperdoável!
Criado o impasse, passou a considerar a hipótese de eliminar Mendonza e assumir o comando da mineração “em nome de el-Rei”.
Como que lhe adivinhando os pensamentos, Mendonza advertiu:
— Meu rei é da Espanha e nem a ele vou entregar nada do ouro que aqui encontrei, depois de sofrer tantos anos.
Por que deveria fazê-lo?
Para ele gastar nas festanças com as pessoas de sangue azul?
Ou, talvez, com os nobres lusitanos?
Quem deixou mulher e filhos e veio se arriscar a levar uma flechada ou servir de alimento às onças? Quem?!
Severo reflectiu:
“ele tem razão”.
Sem raciocinar, exclamou:
— Tens razão!
Acalmados temporariamente os ânimos, os dois homens, com os olhares faiscando centelhas, não faziam o menor gesto, em alerta máximo ante eventual e quase que inevitável ataque, de parte a parte.
Nisso, Tengegê assomou à porta:
— Desculpem os dois sinhós, mas tem uma coisa muito importante para ser tratada...
— Que ousadia é essa, negrinho?
Como se atreve a perturbar a conversa de dois brancos?
Precisas de um bom açoite...
— O deixe por minha conta, senhor Severo.
O que você quer, Tengegê?
— Mostrar isso!
O jovem ex-escravo estava com os bolsos abarrotados de pepitas e pedaços fragmentados de ouro, alguns do tamanho de uma laranja.
Atirou tudo aquilo no chão.
O que se seguiu, somente a cobiça humana poderá explicar, sem jamais justificar:
os dois homens, ditos civilizados jogaram-se ao mesmo tempo sobre o ouro, disputando-o a tapas, quais se fossem animais famintos em litígio de restos de algum alimento.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:52 am

Eles engalfinhados e Tengegê de pé, formavam um triste retrato do que o ouro provoca no espírito, rebaixando-o, quando sob o império da ambição.
Ali, a nobreza espiritual, tinha-a apenas o jovem africano.
Quando conseguiram a posse do que puderam catar, voltaram-se para Tengegê e indagaram, com os olhos flamejantes e o peito arfando, não de cansaço, mas de extrema excitação pelo ouro:
— De onde você trouxe o ouro?
— Do meu rio.
Bem acima onde o sinhó Severo catou ouro no barranco.
— Então era você que me espionava?
Bem que desconfiei.
E desde quando o rio é seu?
Parece que aqui nem sabem que tudo pertence a el-Rei...
— Quanto ao rio, ganhei de Olorum e por isso dei-lhe o meu nome.
— Vamos lá buscá-las, às pedras do Olorum! — sentenciou Severo, preparando-se para sair.
— Antes, acho bom acertarmos umas contas... — replicou Mendonza.
Os dois homens empunharam suas armas.
Tengegê fitou-os imperturbável, lembrando-se das palavras de Zangigi, quanto à nefasta acção do ouro no coração dos homens.
Sugeriu:
— Por que os dois não sentam e conversam com calma?
— O quê?!
Quem é você para nos dizer como proceder?
— Dele trato eu, senhor Severo, fui eu que o comprei e como ele me pertence, dele eu tomo conta.
Respirou fundo e proclamou:
— Acho que é hora do senhor saber umas coisas:
os negros que trabalham comigo não são mais escravos, eu já os alforriei, sob compromisso de trabalharem para mim por dois anos.
A história é longa, mas encurtando-a, conto para o senhor que o Tengegê foi quem descobriu o primeiro ouro dessas bandas e só com minha promessa de libertá-lo e aos seus amigos, me contaria onde estavam as pepitas.
Fizemos um trato:
eles trabalhariam para mim, catando o ouro e eu lhes daria o suficiente para retornarem à África.
Como não tínhamos ferramentas adequadas, trabalhamos alguns meses nas faisqueiras .
Severo segurava com inaudita firmeza alguns fragmentos de ouro trazidos por Tengegê, além de estar com os bolsos cheios de pepitas.
Emérito calculista, raciocinou rápido:
— Muito bem, homem:
vamos despachar logo os negros de volta à África.
Pago o frete do navio!
— Vossa excelência?!
Mas, por quê?
— Porque não há outra possibilidade de acordo entre Portugal e Espanha, isto é, tu e eu, a não ser sociedade.
Pense bem: sócios!
— Ficou maluco? Nunca!
— Não fiquei maluco.
Pense bem:
já tenho posses e estou bem relacionado na Corte.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:52 am

Para explorar o ouro aqui, vamos precisar de muitos homens, animais e ferramentas adequadas, pois ao invés de faiscar, vamos cá instalar lavras, que serão tuas, oficialmente, mas nossas, de verdade.
— Como assim?
— Pois então não sou o enviado do Rei?
Tenho autoridade para falar em nome de el-Rei e faço-o agora, aqui mesmo:
passo-te em domínio metade destas terras, sob protecção oficial portuguesa, e darás em troca o quinto que é de lei.
— E a outra metade?
— Ora pois, outorgarei à minha pessoa...
— E vossa excelência pagará também o tal quinto?
— Homem de Deus, reflicta:
vou pessoalmente inventariar o que for aqui apurado...
Daremos sim o quinto, tu e eu, porém, vamos dividir o resto do sertão em várias datas, aonde outros mineradores irão se estabelecer.
Não desconheces que quando transpirar a notícia do achado do ouro por aqui terão mais aventureiros que formigas.
Não creio que seja desonesto que eles paguem por nós a exigência da lei, pois não?
Tengegê ouvia tudo aquilo, começando a sentir aflição crescente.
Severo completou:
— Talvez tu não tenhas ainda pensado nisso, mas como o ouro sairá daqui e onde negociá-lo?
E com quem?
Pois comigo como sócio, haverá facilidade de embarcar o ouro para a Europa, não necessariamente para Portugal:
levaremos a metade à tua terra, onde eu a venderei a amigos que tu indicares.
— E a outra metade?
— Irá para Portugal, e tu a venderás, a amigos meus...
Assim, ficamos livres, os dois, de suspeitas em nossas pátrias.
Além do mais, as viagens para a Europa terão que ser constantes, pois para explorar as minas haverá necessidade de ferramentas que só por lá existem.
Para que tu não penses que quero burlar-te, vou presentear-te com todo o equipamento que precisares.
Assim, pagando a volta dos teus atuais negros e trazendo outros, para trabalhar sem mordomias, penso que estou ofertando-te uma generosa sociedade.
Dessa forma, tu entras com a mineração, eu com as despesas e administração, e Deus, com o ouro, que dividiremos, meio a meio.
Para selar de vez o raciocínio e convencer Mendonza, disse:
— Só com protecção real sairemos vivos e ricos dessas terras...
Mendonza compreendeu, pensando rápido também, que as coisas tinham tomado um rumo que não poderia ser mudado, a não ser com a morte.
Ou de Severo... ou a dele.
Desistiu da ideia de matar e mais ainda da de morrer.
Concordou...
Só pensando em ficar rico...
Incrível, mas Severo já nem mais pensava na família.
A posse da incalculável fortuna que a terra guardava, logo seria sua.
E isso sim, era importante, não um ato herético de um atrevido escravo.
Dessa maneira, desprezava por completo o aviso que recebera pela mediunidade de Tengegê, verdadeira bênção espiritual.
Foram rápido ao local onde Tengegê encontrara mais ouro.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:52 am

Com indizível espanto, desacreditando naquilo que os olhos viam, os três, juntando-se aos que lá já estavam — guardas, auxiliares e escravos —, olhavam fascinados às grandes jazidas de ouro, quase à flor da terra.
O curso d’água que a chuva formara, tinha o leito forrado de ouro, sendo certeza de fortuna para todos, pois as pepitas brilhavam em considerável extensão do riacho.
A força das águas transferira das entranhas da montanha todo aquele ouro e depositara-o ali, para talvez dormir outro sono milenar.
Fazendo essa verificação, com alguma experiência geológica que possuía, Mendonza logo intuiu que aquela não era a primeira vez que tal acontecia.
Assim, outros cursos existiriam por ali, sendo apenas uma questão de saber procurá-los, pois as águas só duravam enquanto houvesse chuva.
Mas, o sono milenar do ouro, chegara ao fim naquela região, eis que a ambição, sempre desperta no coração humano, não o permitiria.
Excepção a Tengegê, Zangigi e os demais escravos alforriados, as demais almas daquele entreposto agora só pensavam no ouro.
Até se poderia dizer que aqueles homens, com prazer, gostariam que o ouro saísse das terras e passasse a morar em suas almas cobiçosas...
________________
(*) À época, “peça”, no início da colonização do Brasil:
assim eram contabilizados os índios, capturados e escravizados; posteriormente, com a substituição da mão de obra escrava, de índios por africanos, para alguns, a palavra passou a ser utilizada também para designar a estes:
“peças de ébano”.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:52 am

4 - O brilho do ouro e da cor negra
À vista de ouro tanto, a partir daquele momento Mendonza perdeu o apetite e o sono.
Durante três dias e três noites consecutivas, sequer recostou-se, aplicando-se em amealhar o ouro, que quanto mais eram cavados os barrancos, mais e mais pepitas iam surgindo.
O mesmo fato com as pepitas no leito do “rio Tengegê”: quase que amontoadas, pelas enxurradas, que sabe Deus quantas, em milénios sucessivos, tinham agido quais garimpeiras da natureza, transferindo-as das montanhas para cursos d’água, cujos vestígios noticiavam que tinham tido vida curta.
O Sol, como que despertando algumas pepitas, acariciava o ouro com seus raios matinais, trespassando as águas rasantes e pondo-o à mostra, na magnífica vitrina viva da natureza.
Severo decidiu que o acampamento deveria ser inaugurado como ponto de referência e principalmente como “território sob jurisdição lusitana”: denominou-o de “Vila Rica”.
Aproveitando da passagem por ali de uma Entrada, da qual fazia parte um padre jesuíta, pediu-lhe que, para oficializar tão importante acontecimento, rezasse uma missa solene.
Determinou, igualmente, que “todos os que vivos estivessem naquelas terras” assistissem-na.
Findava o ano de 1698...
Este foi o ano em que pela primeira vez a bandeira portuguesa tremulou naquelas generosas terras.
Quase um ano após, grande quantidade de ouro colhida, Mendonza adoeceu.
Febril, delirante, com espasmos cada vez mais intensos, todos no acampamento já não duvidavam que a morte rondava-o.
Severo, com as atribuições que lhe dera el-Rei de Portugal, havia feito doação oficial daquelas terras a Mendonza — da metade delas...
Embora já tivesse permissão das autoridades para aprisionar índios, bem como garimpar ouro e pedras preciosas, a doação oficial de Severo homologou a posse que oficiosamente Mendonza assumira.
Agora, porém, adoecera e corria risco de vida.
Morto, cessaria tal permissão e era mais do que certo que as terras seriam encampadas pelo representante real, que delas, já possuía a metade.
Quanto aos negros, seriam todos, com certeza, reintegrados à posse da coroa portuguesa.
Em outras palavras, voltariam à condição de escravos.
Tengegê intuiu-o, num raciocínio lógico.
Compreendeu que corriam todos sério perigo:
seriam, ele e seus companheiros, alvo de tanta cobiça, que nem era bom pensar.
Sua natural liderança sobre os ex-escravos havia inclusive sido proclamada por Zangigi (até há pouco ele o líder, por ser o mais idoso).
Mas nem por isso Tengegê deixou de aconselhar-se com Zangigi.
E naquele momento de preocupação, foi o que fez:
— Zangigi, estou receoso de nossa liberdade morrer com o sinhó Mendonza...
— Eu também...
Eu também...
— Não gosto dessas coisas, de arrumar solução para os vivos com a ajuda dos mortos, mas será que o senhor não poderia pedir aos orixás para fazerem uns remédios para o sinhó?
— Poder, eu posso, pois os orixás só atenderão se for para o bem e se o doente merecer.
Mas e se ele morrer?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:53 am

Vão dizer que nós o matamos. Aí...
— Não tem esse risco, pois o sinhó Severo está vendo tudo e ele também é autoridade.
— Você que sabe, mas não se esqueça de que os brancos não admitem a ajuda que vem “lá de cima” pelas mãos dos negros.
— O sinhó Mendonza vai morrer se algum remédio não for dado logo para ele, por isso, eu assumo o risco:
o mais depressa que o senhor puder, prepare os remédios, enquanto vou falar com o sinhó Severo e pedir a ele autorização para dar o remédio ao sinhó Mendonza.
Severo permitiu o atendimento dos ex-escravos ao paciente.
Duas horas depois, o próprio Severo, Tengegê e Zangigi adentraram na tosca barraca de Mendonza, que ardia em febre, com as roupas encharcadas de suor.
Cheiro acre dominava todo o ambiente.
Sem realizar qualquer higiene, há dias, o doente tornava mais difícil qualquer auxílio, pois ninguém suportava aproximar-se dele, excepção dos três.
Zangigi preparara uma poção, à qual Tengegê assistira como era manipulada:
infusão de limão com folhas e frutos de jurubeba, sendo que o tempo todo Zangigi, de olhos fechados, impunha as mãos espalmadas sobre o caldeirão.
O que mais impressionara Tengegê é que Zangigi não se queimou, nem sequer acusou qualquer desconforto ou dor pelo vapor que subia do vasilhame.
Após deixar o caldo ferver por uns dez minutos, Zangigi abriu os olhos e deparou com Tengegê olhando-o, fascinado.
Brincou com ele:
— Imagino que você também pediu a protecção dos orixás...
— Eu... estava... olhando para o senhor e só passei a mão na cabeça dele.
Desculpe, mas não sabia que o senhor estava chamando os orixás para benzerem o remédio.
— Não tem importância, menino:
mesmo sem você saber, os orixás estiveram aqui e tiraram forças do seu corpo, que puseram no caldeirão.
— Tiraram forças de mim?!
Como é que não senti nada?!
— O rio também não sente quando alguém tira um balde d’água dele.
Quem tem saúde tem mais é que dar mesmo.
(Aqui, a referência é ao passe fluido-terápico, em termos espíritas:
transfusão de energias magnéticas, doadas com amor por encarnado a alguém doente, as quais são conjugadas com energias psíquicas, manipuladas por Espíritos protectores).
Zangigi aproximou-se de Mendonza.
Severo pensou:
o espanhol tem mesmo pouco tempo de vida; ainda bem que deixei esses negros ajudarem-no, pois assim, ninguém poderá dizer que não tentamos salvá-lo.
Persignou-se.
O velho ex-escravo passou a destra na testa de Mendonza e com a esquerda ofertou-lhe o caldo quente.
Mendonza bebeu todo o que foi oferecido.
Decorridos cerca de dois minutos, gritou:
— Meu ouro!
Quem está roubando meu ouro?
Vou matar todos esses ladrões imundos.
Saiam daqui! Saiam daqui!
E levem essa megera com vocês!
Os dois ex-escravos captaram, no acto, que o sinhó falava com “almas penadas”, que o atormentavam.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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