Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:53 am

Zangigi segurou a cabeça de Mendonza, impedindo-o dos movimentos bruscos que a crise impunha.
Olhou para o tecto da barraca, como quem olha para o céu e cantou:
“Olorum, Pai do mundo, Olorum:
O sinhó vai esfriando o coração.
Perfuma com flores o caminho
Onde vai andar sem ouro nenhum”.
Repetiu duas ou três vezes esses singelos e desarrimados versos e como Mendonza acalmasse, prontificou-se:
— Graças aos orixás, a febre começa a ceder.
O sinhó e o menino podem ir cuidar da vida, ficarei aqui até o sinhó acordar.
Ele vai dormir muito, mas preciso ficar aqui para não deixar as almas penadas judiarem dele.
Querem levá-lo...
— Almas penadas? — exclamou Severo, questionando:
como é que você sabe disso?!
E, ademais, não venha me dizer que se elas realmente estão aqui vão ter medo de você.
— Sei porque estou vendo-as e de facto não tenho força para lutar com elas, mas os orixás escutam e atendem todo pedido fervoroso, se for para o bem e se o protegido merecer.
Severo persignou-se, novamente.
Não estava gostando nada de ver aquele acampamento ser palco de tamanha heresia.
Sabia, perfeitamente, que se alguém denunciasse aquilo, certamente a Igreja tomaria sérias providências punitivas, com total complacência de el-Rei.
E ele seria responsabilizado, por ter dado permissão a tudo aquilo.
Descrente das palavras de Zangigi deixou o infecto ambiente.
Por três dias Mendonza dormiu, tendo pesadelos, delirando, mas sendo assistido caridosamente por Zangigi que não o deixou um único minuto.
Ao quarto dia, acordou algo recuperado.
Deu uma pequena volta pelo acampamento, não disse palavra, alimentou-se frugalmente e voltou para dormir.
Dormiria até o dia seguinte, ininterruptamente.
Severo não teve a menor dúvida:
Mendonza devia a vida a Zangigi, que com aquele remédio o salvara da morte certa.
Já era noite quando oito capitães-do-mato, a cavalo, chegaram ao acampamento, trazendo com eles, acorrentados pelos pés, os cinco escravos que há tempos haviam fugido daquela armação.
Tinham-nos recapturado e, identificando a quem pertenciam, ali estavam devolvendo-os e aguardando a recompensa.
Mendonza estava dormindo e por isso Severo identificou-se e recebeu os escravos.
Deu em recompensa dezasseis pepitas aos homens, duas para cada um, além de mantimentos necessários ao seu retorno.
Gratos, ofereceram:
— Antes de irmos embora, o sinhó não quer que o açoite “cante” uma boa modinha, como lição para esses marotos?
— Amanhã decidiremos isso e cumpriremos a lei.
Hoje eles não aguentariam, pois se vê que estão quase morrendo.
O tom e o gesto deixavam entrever que provavelmente os cinco seriam mortos, no dia seguinte.
— Não se preocupe, sinhó, que esses bichos merecem mesmo o castigo que já demos:
nada de água nem comida.
Isso, há dois dias!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:53 am

Tengegê manteve-se controlado, mas tenso, aguardando os fatos.
Não permitiria que os escravos recapturados fossem nem açoitados, muito menos eliminados.
Aguardaria o sinhó Mendonza acordar, quando então os libertaria, pois ele, Tengegê, os havia comprado, com as primeiras pepitas encontradas por ali.
Alta madrugada, uma sombra, movimentando-se silente, levou aos prisioneiros duas cabaças com água e uma penca de bananas maduras, além de dois ou três biscoitos de fubá para cada um.
Assustados, mas gratos, identificaram seu protector.
Um dos escravos beijou a mão que os protegia.
Aquele gesto de gratidão iria selar admiração e obediência dos cinco infelizes, já que era norma a eliminação de escravos fujões, para desencorajar fuga dos demais.
E a pena de morte também era aplicada a quem os escondesse.
Quando acordou, no dia seguinte, Mendonza viu Zangigi ao seu lado e inquiriu, aflito:
— Zangigi, o que aconteceu?
Não sei se era sonho, mas vi uns ladrões rondando por aqui e com eles uma antiga mulher com a qual tive um caso, lá na Espanha.
— Eram espíritos ruins, sinhó.
Mas Olorum trancou-os por uns tempos.
Isso mesmo:
não vão perturbar o sinhó, desde que seja bom, como tem sido.
— Vi também um negrinho, com um aleijão nas costas...
Ele era um bom menino, pois passou a mão na minha cabeça várias vezes, com suavidade e eu me senti bem melhor.
De repente, Mendonza deu um salto da cama:
— Pela Santa Virgem!
Os espíritos estavam me sequestrando e fugiram com medo do menino corcunda.
Aí ele me disse seu nome... lembro-me agora: Gangê!
É o amigo do Tengegê!
Nisso, ouvi uma pessoa cantando alguma coisa de “coração esfriando”, e alguém indo no caminho “sem ouro nenhum”.
Percebi que esse alguém era eu e que eu ia morrer...
Foi aí que apareceu o Gangê.
Os malvados fugiram, ele me deu a mão e voltamos juntos, para aqui.
— E depois?
— Não sei, dormi pesado.
Ficando de pé, perguntou ansioso:
— E o ouro?
Onde está?
— O pessoal está catando.
Estamos escondendo tudo, com medo de ladrões.
— Muito bem!
Levem-me até o esconderijo.
— Sim sinhó.
Antes, um pedido do Tengegê:
aqueles cinco escravos fujões foram recapturados e trazidos acorrentados para aqui.
Como o Tengegê pagou por eles, e para não despertar suspeitas, estamos pedindo ao sinhó que mande os capitães-do-mato embora e depois os liberte.
Sinhó Severo já recompensou os forasteiros, mas eles só costumam ir embora depois de assistir ao castigo dos fugitivos.
Mendonza raciocinou que era preciso fazer tudo para que “seu ouro” se mantivesse seu.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:54 am

Acatou o pedido.
Confabulou com Severo e conjuntamente decidiram contratar o serviço dos oito caças-recompensa, para escoltarem o enviado do Rei de volta à Governadoria do Rio de Janeiro, levando sua parte de ouro, até ali apanhada.
Severo precisava ir a Portugal comprar equipamento para instalar as lavras.
Já antegozava os elogios que receberia de el-Rei, em pessoa.
Na família, nem sequer pensava.
Havia esquecido, inclusive, notícia segundo a qual a esposa e filhos vivenciavam “algum” problema.
Bem cedo, Severo e os oito forasteiros deixavam o acampamento.
Levavam muito ouro disfarçado em rapaduras:
em pó, acomodado em barricas de açúcar mascavo; em fragmentos e pepitas.
Logo os prisioneiros foram libertados, sob responsabilidade de Tengegê, que lhes passou severa admoestação, por terem posto em risco a vida de companheiros, quando fugiram.
Arrependidos e ao mesmo tempo gratos pela liberdade que lhes foi dada, ao invés da morte, juraram-lhe fidelidade.
Trabalhando com denodo nas plantações de milho e arroz, além de alguma cana-de-açúcar, logo ali se formou um pequeno arraial, permanecendo com a actividade de entreposto.
Mendonza e todos os ex-escravos, bem disfarçavam quanto ao ouro — sua actividade maior.
Sabiam todos, sem excepção, que quando a notícia se espalhasse, sem um forte esquema de segurança, suas vidas pouco valeriam, pois seriam alvo de ladrões, geralmente impiedosos.
E poucas eram as armas de que dispunham.
Além do mais, os ex-escravos sabiam também que do êxito da mineração dependia seu retorno à terra-mãe, a África distante, cada vez mais saudosa e mais amada.
Nascer na África, para eles, era bênção dos céus, que a todos os instantes agradeciam.
Tinham extremado amor às suas tradições, à sua cultura, aos seus deuses e principalmente à sua cor.
Difícil para qualquer outra raça compreender isso:
como é que alguém pode ter orgulho de ser negro?
Mas o amor maior era testemunhado pela dolorosa saudade das famílias às quais foram impiedosamente arrebatados pela escravidão...
Mas, na história da evolução humana, branco não há, menos amarelo ou vermelho, que um dia, na longa fieira de vidas sucessivas não tenha sido contemplado com a epiderme negra, a primeira na face da Terra.
A pele negra, abençoada por Deus, como de resto todas as demais cores da epiderme, foi entretecida e estruturada por Espíritos Siderais, de início, como fantástica e incomparável defesa natural a ambientes hostis, seja por inclemência solar, por picadas de insectos, arranhaduras de animais e outras peculiaridades das regiões primitivas e agressivas, onde a vida humana surgiu e evoluiu.
E como tudo que promana de Deus é bom, belo e eterno, a cor negra permanecerá na Terra, e com ela, aprendizados e missões, sempre ajudando a evolução espiritual do homem.
Assim, não se diga que o negro de hoje é primitivo:
muitos deles, inclusive, podendo ostentar a bata orgânica clara que a parte da humanidade, em equívoco, há tempos vem declarando como sendo de eugenia “superior”, ao reencarnar optaram pela cútis negra, o que lhes facilitaria, sobremodo, cumprir seus programas reencarnatórios.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:54 am

Outros, beneficamente compulsados a um exercício de humildade, também nasceram negros.
Alguns, tristemente equivocados, passam a vida revoltados, pois na verdade, estão contemplados com preciosa provação, ante a humanidade, maioria ainda tão preconceituosa.
— Que importa ao homem de bem, religado a Deus, a cor da sua pele?
Alguém já parou para pensar que até hoje jamais o Criador separou o ar que respiram os brancos daquele que oxigena os pulmões dos negros, dos amarelos, dos vermelhos, dos mulatos, dos albinos?
Severo disfarçou várias arrobas de ouro, colocou-as dentro dos vasilhames de açúcar mascavo e das rapaduras, tendo o cuidado de deixar as “falsas” no fundo.
Naquele caso, singular, talvez pela primeira vez no mundo, a coisa falsa valia milhares de vezes mais que a verdadeira...
Com grande astúcia e autoridade conseguiu chegar no Rio de Janeiro sem despertar suspeitas.
Aliás, para despistar, informou aos homens:
— As pepitas que vocês receberam eram originárias de muito longe de onde agora está o acampamento.
O espanhol me disse que as achou perto de Mato Grosso e que foram achadas apenas um pouco delas e nunca mais nenhuma outra.
Por isso é que desistiram do ouro lá naquelas bandas e voltaram, fixando-se nas plantações.
Os homens acreditaram, ou fingiram que acreditaram...
Quando Severo chegou ao Rio de Janeiro o Governador deu-lhe notícias preocupantes:
— Amigo intendente:
estava aflito aguardando-o há meses:
será de bom alvitre que retornes ligeiro à pátria, eis que tua família, há tempos, mandou-te cá um pedido desesperado.
— Céus, pela Virgem!
O que aconteceu com minha família?
— A bem da verdade, não se pode dizer se isso ou aquilo, mas o capitão do navio que trouxe o recado deixou entrever que o teu rapaz está encrencado.
— Como “encrencado”?
— Mais não mo disse o marujo.
— Volto ao Portugal no primeiro barco!
— Tens sorte, intendente, pois de hoje a três dias o brigue “Mar Azul” vai zarpar, capitaneando três galeões levando açúcar.
Já estão sendo carregados.
— Três dias, não; amanhã!
— ?!
— Em nome de el-Rei.
— Sim, senhor intendente.
Providenciarei mais carregadores.
— Quero três navios de escolta.
— Sim, excelência.
Mas, diga-me lá uma coisa:
é tão valiosa assim a carga que levas a el-Rei?...
— Mais do que pensas, meu caro Governador, mais do que pensas... inclusive, apetecerá tanto a el-Rei quanto o melhor manjar.
O Governador ficou embaraçado, imaginando o que poderia “apetecer tanto quanto o melhor manjar”.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:54 am

No dia seguinte, com efeito, o “Mar Azul”, três galeões e mais três navios-escolta deixavam o porto do Rio de Janeiro, rumando para Portugal, levando Severo, com muitas preocupações, muito açúcar e muito ouro.
Determinou que a esquadra se dirigisse directamente ao Porto, sua cidade, devendo atracar no porto de mar.
Ao pôr os pés na terra-mãe, o coração de Severo pulava de alegria.
Ali mesmo alugou algumas carroças para transportar as “rapaduras” e o açúcar até sua quinta.
Ao chegar e rever aquelas paisagens, tão suas, tão caras, ferveu-lhe o peito de emoções.
A sua Antoninha, esposa amada, mulher que a vida provara em duras ocasiões, dando-lhe a têmpera dos fortes, abraçou-o, chorando.
Ele também era rijo nas lides da vida.
Mas ali, inescapáveis, silentes, suas lágrimas se misturaram com as delas.
Redobrados minutos ficaram olhando-se, como se fora a primeira vez que se viam, embora estivessem afastados um do outro há cerca de dois anos.
— Mulher: nossos filhos?
— O Henrique deu uma pedrada na cabeça de um tonto qualquer que quis se aproveitar da Carlota.
E o tonto morreu!
— Quem era o tal tonto?
— O Afrânio, filho do nosso vizinho, o senhor Celso.
— Pela Virgem, como foi isso?!
— O Afrânio, há tempos vinha querendo namorar a Carlota, que o rejeitava, por gostar de outro.
Valendo-se da tua ausência, insistiu mais e mais, tornando-se inconveniente.
Recusado, certa noite agarrou Carlota, tentando conquistá-la à força.
Pensava que ninguém os via e que poderia subjugá-la.
Mas se enganava, ou melhor, a grande quantidade de vinho que bebera toldara-lhe o cuidado e ao assaltar nossa menina, ela gritou, sendo ouvida.
Afrânio estava a ponto de infamá-la quando recebeu na cabeça a certeira, merecida, mas fatídica pedrada, que lhe deu Henrique, socorrendo a irmã.
Sabendo como o Afrânio era violento, além de ser muito mais forte que ele, usou a pedra.
Aí, quando eu e pessoas da família dele viemos ver do que se tratava, nos deparamos com a grave cena:
Carlota, toda rasgada, abraçada ao irmão, trémulos ambos, em choque, e ao lado o tresloucado Afrânio, já sem vida.
— Como sabem que ele estava embriagado?
— A Polícia averiguou isso numa sindicância e os empregados do senhor Celso confirmaram.
— O Henrique fez bem!
Quem mandou o tonto tentar injuriar nossa Carlota?
— É o que penso também.
Eu e quem vimos a cena.
Só que o senhor Celso...
— Vou falar com ele.
— Vai, mas tem cuidado.
Ficou transtornado e chegou até a ameaçar o nosso filho.
Como nossa família está sob protecção de el-Rei o compadre Valdeiro conseguiu que Henrique tivesse vigilância de guardas, isso até que passasse o rancor do senhor Celso.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:55 am

— Vou ter com o Celso, assim que abraçar meus filhos.
Quando Carlota, Julialva e Henrique chegaram da escola, o pai abraçou-os aos três, ao mesmo tempo.
Os jovens amavam ao pai e não conseguiram impedir o choro que os assaltou.
Severo, ali mesmo, percebendo que sua presença junto à família era indispensável, ainda mais depois do acontecido, decidiu que por pouco tempo mais permaneceria afastado dela.
Mais tarde, foi visitar Celso.
Recebido com frieza, tentou contornar a situação, mas o vizinho estava traumatizado e não aceitou quaisquer considerações.
O fosso cavado entre as duas famílias era muito profundo e não houve como os dois homens se ajustarem.
Severo saiu dali magoado e preocupado, captando em Celso ódio crescente do “assassino do seu filhinho”, como se expressara, em se referindo a Henrique.
No dia seguinte, Severo procurou o compadre Valdeiro.
Contou tudo a ele, menos sobre o ouro...
— Sabe, compadre — advertiu-o Valdeiro —, foi bom voltares, porque o Henrique, meu afilhado, só não está preso, ou coisa pior, porque intercedi junto a Sua Majestade...
Mas não posso garantir que o Celso realize vingança...
— Como assim “fora das grades”?
— Isso mesmo, ora pois!
Não é que o senhor Celso foi à Capital e em audiência com el-Rei exigiu que o menino ficasse sob custódia policial?
A decisão real é que isso seria resolvido quando tu regressasses da Colónia.
— Aquele...
— ... pai amargurado, compadre!
Perdeu o filho que amava!
— É, até certo ponto, tens razão.
No lugar dele, não sei o que faria.
— Muito bem.
Mandei o recado para voltares para resolvermos esta triste pendenga.
Demoraste a vir...
— Foste tu então que enviaste o recado?
— Ora, pois.
Fiz mal?
— Fizeste bem.
Sou-te grato, compadre.
Severo pensou alguns instantes e comovido ante a bondade do amigo, decidiu-se:
— Sabes, compadre, há algo que vai mudar todo esse panorama...
Trago boas novas para el-Rei...
— Boas novas?
Sua Majestade não precisa delas, eis que a situação das burras da tesouraria real não anda bem das pernas.
— Mas é justamente às burras a que me refiro!
Valdeiro olhou o compadre como se o visse pela primeira vez:
admirou-se com o brilho nos olhos dele.
No mesmo instante, algo indefinido alertou-lhe ficar atento.
Severo convidou:
— Sabes, Valdeiro, tenho-te em conta alta de consideração.
Quero saber se esta mesma conta pode ser também de confiança...
— Não estou te entendendo, compadre.
Queres dizer-me algo?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:55 am

Vamos lá, homem!
Pois que então não somos amigos e parentes?
Como Severo titubeasse, Valdeiro incentivou-o:
— Vamos, homem:
dizes logo o que tens aí dentro do peito.
Severo abaixou a voz:
— Vamos em casa.
Vou mostrar uma coisa que te vai espantar.
Quando chegaram, Severo conduziu Valdeiro à vinícola “Quinta dos Favos”, bem instalada na sede do vinhedo.
Ali, nas amplas instalações, centenas de barris de vinho dormiam o “sono da pureza”, como Severo se referia à fermentação, concentração e depuração do mosto, para a posterior purificação.
Para Severo, aquele local era quase sagrado, pois desde criança, primeiro em companhia do avô paterno e depois do seu pai, ali passava horas e horas, aprendendo todas as nuanças da produção de vinhos.
Raramente eram abertas as pesadas janelas, existentes apenas em uma das paredes.
Por isso, o clima interior era algo húmido, com pouca claridade.
O padrão dos vinhos “Quinta dos Favos”, há muito transpusera as fronteiras lusitanas e recebia elogios em vários outros países da Europa.
Aliás, de todos eles.
A Inglaterra era o país que mais apreciava aqueles vinhos.
Olhando embevecido aos seculares tonéis, Severo acariciava cada um deles, como se estivesse acarinhando um mimoso e ronronante gatinho.
Para a própria alma, murmurou:
— Eu os amo!
Sei, sei: vocês também me amam...
Valdeiro, já em espanto, sim, mudo e estático, e prudente, só observava.
Aquele colóquio do homem com seus vinhos era fantástico!
Saindo do enlevo, como despertando de um fugaz êxtase, Severo deu-se conta que andara falando sozinho.
Penitenciou-se:
— Oh, compadre: tu me desculpes.
— Sim, homem, te desculpo, só se me deres um bom gole e depois dizeres por que me trouxeste cá.
Severo agarrou o braço do compadre e levou-o à adega, esta subterrânea, onde estavam os vinhos prontos para o consumo, aguardando apenas venda e transporte.
Serviu um generoso copo ao compadre, acompanhando-o com igual quantidade.
Depois o levou aos fundos da adega, onde imperava a penumbra.
Descobrindo grandes baús, Severo apanhou de um deles uma rapadura e deu-a de presente ao compadre.
Algo constrangido, Valdeiro não apreciou muito o presente, não conseguindo disfarçar:
— Agradeço, compadre, mas francamente:
atravessaste o mar para trazer essas pedras doces?
Melhor farias se trouxesses açúcar claro, e não este, terra.
Açúcar real, homem!
Açúcar que tem valor.
Cá estas pedras são para os gentios ou para os negros...
E ainda mais tão pesadas...
Do alto de imaginário pódio da vitória, Severo apenas sorriu.
— Fazes pouco do que te digo, compadre? — inquiriu Valdeiro, ressentido.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:55 am

— Jamais, jamais.
Toma lá — retrucou Severo, passando uma faca para o amigo e pedindo-lhe que “experimentasse” a pedra doce...
Sem entender direito do que se tratava, mas começando a perceber algo extremo, Valdeiro pôs-se a cortar a rapadura.
Assim que a afiada lâmina venceu os primeiros milímetros do doce, a faca bateu em algo sólido.
Como pedra, mesmo...
Valdeiro pensou, desnorteado:
“— Mas, raios, porque esse homem trouxe pedra embrulhada em rapadura?”.
Severo convidou:
— Vamos à tina, lavar a rapadura.
Quando Valdeiro removeu na água a fina camada de rapadura quase não acreditou no que via:
mesmo sem polimento, ali estava um pedaço não de barro, doce ou pedra, mas de ouro!
— Pelas barbas de Melchior, o rei mago que deu valor ao Menino Jesus:
isso... é... ouro!
— Falemos baixo — advertiu Severo, mesmo sabendo que estavam sós.
— Onde?...
Quando...? Como...?
— Dir-te-ei logo:
no Brasil, neste tempo, em segredo.
Respondi tuas três perguntas.
Digo-te mais:
o lugar é secreto e há uma quantidade imensa de ouro.
Deste mesmo ouro que tu vês!
— Temos que trazer tudo para cá!
Severo não apreciou o “temos”.
Valdeiro captou o deslize e desculpou-se:
— Se quiseres, conte comigo para te ajudar...
— Claro que vou precisar de ti:
trouxe cento e nove destas rapaduras e pretendo entregá-las à Sua Majestade.
— O que é isso?
Por que a el-Rei?
— Porque sou patriota e quero graças reais...
— Homem, acorde:
por que queres “graças reais” se já tens essas “graças” aqui?
— Primeiro, para resolver de vez o problema do meu Henrique.
E também, porque lá na terra, na terra dos bugres, é necessário autoridade e força, muita força, para que os ladrões, de todo tipo, não usurpem o dom das terras que pertencem a Portugal.
E só el-Rei poderá determinar poderosa guarda, sob meu comando.
Percebes?
— Tens razão, em parte.
Proponho-te que levemos mesmo algum ouro à Sua Majestade, mas que reservemos algum, para nossos investimentos.
Outra vez Valdeiro se incluía:
“levemos”, “reservemos”, “nossos investimentos”.
Severo já começava a sentir a sensação de furto...
— Olhe aqui, compadre:
por falar em açúcar claro, vou clarear as coisas entre nós:
contei-te tudo isso porque preciso de ti, para vender o meu ouro, onde puderes.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:55 am

O ouro é meu. Meu, compreendes?
E estou pensando em comissionar-te, com generosidade.
Aceito tua sugestão, vou pôr cinquenta rapaduras destas nas burras da tesouraria de el-Rei e com as outras cinquenta vamos, em segredo, comprar um navio.
Agora, foi Valdeiro quem não gostou do “em segredo” e principalmente do plural “vamos”:
— Um navio?!
Para quê, homem?
Não te entendo...
— Para transportar mercadoria da Europa para a Colónia e de lá voltar com o meu ouro até a Espanha...
Pois é lá que vamos vendê-lo e assim podermos ampliar nossos negócios por aqui.
Outra vez o “vamos”.
Valdeiro inquiriu:
— Estás propondo-me sociedade, compadre?
— Ficas com nove rapaduras.
Conforme eu pegue meu ouro, lá na Colónia, dividiremos sempre assim:
para el-Rei, para ti e para mim.
Na proporção destas cento e nove rapaduras que tenho cá comigo.
Valdeiro abraçou Severo efusivamente, que o advertiu:
— Não contes a ninguém o segredo das rapaduras, pois algumas são mesmo de verdade.
Quando o ouro, limpinho, foi entregue ao Rei, com a promessa-certeza de muito mais, as portas do palácio real foram escancaradas para Severo e sua família.
O processo contra Henrique foi definitivamente arquivado.
“Legítima defesa da honra” proclamou o encarregado da justiça real, incumbido de julgar o processo.
Severo recebeu, com pompa, o cobiçado título de “amigo do Rei”.
A partir daquela data, em todo o reino de Portugal, Severo Cantilhão deveria ser honorificamente tratado de “Dom”.
E mais que isso:
foi nomeado Intendente-mor na região “das minas”.
Cargo altíssimo, pelo qual poderia dispor do que necessitasse, em defesa do património e bem-estar de Sua Majestade, para glória da pátria lusitana.
Pediu e foi-lhe imediatamente posto à disposição, um forte contingente de cento e cinquenta soldados, armados e com munição farta, além de considerável equipamento adequado à lavra do ouro.
Navios para o transporte do pessoal e do material, requisitasse os necessários e lhe seriam fornecidos.
Pediu que dois padres acompanhassem o contingente, para ministrarem o evangelho não só aos soldados, mas também aos gentios e aventureiros.
Celso, pai do desafortunado Afrânio, ao saber da decisão real, inocentando Henrique “ad eternam” (para sempre), começou a beber sem parar.
Sempre embriagado, decidiu vingar o filho, fazendo justiça ele mesmo, já que “um assassino transitava impune pelo mundo”, conforme vivia apregoando.
Nessa fase, dirigiu-se à “Quinta dos Favos”, portando garrucha municiada.
Gritou:
— Oh, tu, infame, que tiraste a vida do meu Afrânio:
vou te mandar para a companhia dele.
Vem cá, se fores homem.
Toda a família de Severo acorreu ao pátio da entrada, de onde vinham os gritos confusos de Celso.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 10, 2017 9:55 am

Frente a frente com o vizinho, Severo protegeu a família, ao perceber que ele estava embriagado.
E armado...
— Senhor Celso, acalma-te, homem!
Por Deus!
— Acalmar-me?
Acalmar-me?
Como, se meu Afrânio está me pedindo para despachar para o lado dele o rapazote que o matou?
— Homem: como pode ser o teu filho?
Ele já morreu...
— Ah, é? Então por que não me deixa em paz, exigindo que eu o vingue?
Em todos os acontecimentos graves da existência, como no caso de crimes em que alguém tira a vida de alguém, os desdobramentos terrenos sequer se comparam aos espirituais.
Se aquele que desencarnou mergulha num sentimento de vingança contra o ofensor — e quase sempre é isso que acontece —, temos o quadro a que o Espiritismo denomina obsessão, isto é, influência negativa que um espírito mantém sobre outro.
O desencarnado, com pensamento fixo na vingança, emite ondas mentais inferiores, de alto poder, as quais, dirigidas ao criminoso, se encontrá-lo desguarnecido evangelicamente — e também é isso que de ordinário se verifica —, instala-se nefasta vinculação.
E isso constitui verdadeiro nó espiritual, de dificílimo desate.
Nessa paisagem, só o perdão poderá parcialmente desenovelar a trama, porque, seguida desse importante primeiro passo, há todo um subsequente processo de reconstrução, alma a alma, refazendo os sentimentos, de negativos a positivos.
Celso ergueu a arma na direcção da família de Severo e atirou, mesmo vendo o vizinho à frente.
O tiro, por desígnios divinos, não acertou em ninguém.
Severo atirou-se sobre Celso, dominando-o.
Logo foi desarmado e conduzido à sua residência, pelo próprio Severo e alguns empregados que moravam na “Quinta dos Favos”.
Uma semana depois, Severo só pensava no “seu” ouro, que estava lá na Colónia, chamando-o.
Preocupava-se com o que estaria fazendo “aquela cambada de espanhóis e negros”.
E lá só estava um espanhol.
Dias após, amigos de Severo deram-lhe conta que Celso, estando quase à loucura, vivia dizendo que precisava matar Henrique, de qualquer maneira, “para atender ao pedido do filho, Afrânio”.
Após meditar por demorado tempo, Severo decidiu que, no momento, o melhor seria mudar-se para a Colónia, levando a família.
Convocaria Valdeiro para administrar a “Quinta dos Favos” e ser seu representante legal, o que foi aceito de bom grado, até porque foi feita promessa de sempre enviar rapaduras, daquelas “boas”, produzidas do outro lado do mar.
O trauma para a família de Severo não poderia ser maior.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:47 am

5 - Família
O instituto da família é originário de Deus, o Criador.
O ser, começando a vida sob protecção de semelhantes — os pais —, cedo apreende e vivencia o conceito de gregarismo, isto é, vida em participação comunitária.
Nos homens, em particular, essa sublime instituição alcança foros de elevado significado espiritual.
Transcende aos impositivos básicos da sobrevivência, aqueles que nortearam os primeiros passos dos primeiros seres vivos, na árdua senda evolutiva, da criação nos reinos inferiores da natureza, até à perfeição possível, na angelitude.
A família constitui-se, via de regra, de espíritos em ajustes, necessitados todos de equilíbrio, ante descaminhos de vidas pretéritas.
Daí porque se pode afirmar que, conquanto o superficial desconforto que experimentam familiares, entre si, o lar é, antes de tudo, filtro depurador de mazelas comportamentais.
Não se poderá afirmar, sem compactuar com a leviandade, que todas as famílias têm desajustes ou estão em reajuste.
Isso não! Mas, certamente, podemos compreender que tais agrupamentos não se fazem ao acaso, sob comando genético apenas.
No plano de Deus, de que a Vida é o roteiro universal, o acaso não existe.
Assim, embora obedientes sim a impositivos físicos de descendência orgânica, as famílias, em primeiro lugar, são perimetradas pela Sabedoria Divina segundo justíssimo plano de evolução para seus componentes.
Estando como estamos num planeta de provas e expiações, não será fatuidade conjecturar que, na maioria, as famílias congregam pessoas desarmonizadas entre si.
Longe de ser uma simples justaposição de devedores e credores, para a devida prestação de contas e acerto, o facto familiar evidencia a Bondade do Pai, ao emprestar para o casal uma quota-parte de Amor, com a qual recepcionará o filho e o criará.
Se tal tarefa lograr a harmonia, essa quota-parte é transferida em carácter permanente, da Fonte Sublime aos usuários.
Embora os filhos cheguem depois, nem por isso podem impingir aos pais obrigações e ressarcimentos: desconhecendo o passado, prudente será que todos, pais e filhos, se compenetrem de que a reunião obedeceu a critérios tais, que os mais fortes têm a obrigação de ajudar aos mais fracos.
Nos ciclos do Tempo, onde a criança de hoje será o adulto de amanhã, que por sua vez será o ancião de depois de amanhã, os papéis de protecção, por vezes, se invertem.
Será dentro dessa panorâmica da vida, da inversão cronológica existencial, que os valores morais emergirão, dando a uns e outros, inigualável oportunidade de demonstrarem o quanto a Vida lhes ensinou.
Em tal passo e em tais momentos, nada se compara ao Espiritismo, com a profundidade e a lógica das vidas sucessivas, expondo na vitrina mental de cada um, o que foi, o que é, e principalmente, o que será...
Muitas famílias vivem fases de angústias e desconforto quando as teias do destino as envolvem, de forma inexorável, obrigando-as a decisões capitais.
Mudança de um local para outro, para onde seja, traz sempre no bojo profunda alteração vivencial familiar, eis que como se vira a página de um livro, também ficam para trás vizinhos, amigos, lembranças, amores...
Os pais afastam-se dos vizinhos e de toda a estrutura da qual se serviam para a manutenção da rotina e da vida no lar.
Crianças, havendo-as, são as que menos registam a diferença, pois seu mundo interior ainda tem fronteiras no imediato, próximas e visíveis, pouco exigentes.
Vivem em razão do momento, alheias ao passado ou ao futuro.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:47 am

Já com adolescentes ou jovens, o trauma é significativo, não raro originando rupturas emocionais, pois a mudança implode todo a alicerce que imaginavam já pronto para, sobre ele, construírem suas vidas.
Muitos, senão todos, têm já suas companhias para as actividades e não são poucos os que já vivem na doce e fulgurante fase do namoro.
Fase que, ao longo da vida, poderá mostrar-se fugaz, porque nem sempre o “primeiro amor” é o definitivo.
Mas, como os jovens só saberão disso muito tempo depois, na época consideram que a mudança explodiu o seu mundo, e que os estilhaços feriram indelevelmente seus corações.
Não são raros os casos de suicídio, nessa fase.
Exacerbados os sentimentos, nublada a razão, portas abertas à nefasta aproximação de espíritos obsessores, esse é mesmo o período das grandes turbulências emocionais.
Para toda a família!
Mais que nunca, os pais deverão buscar na prece o auxílio indispensável à normalidade do relacionamento familiar.
Com a família de Severo e Antoninha, ocorreram as três nuances de perturbação:
- Julialva, inocente e feliz, viu naquilo tudo apenas motivo de maiores folguedos, falando alto em seu coração a vontade de “conhecer outro mundo”;
- Henrique, ainda sob a penosa lembrança do seu triste caso com Afrânio, somou maior tristeza à sua já atribulada vida, pois se enturmara na escola com vários colegas, com os quais, passava a maior parte do tempo; assimilou contudo a mudança, entendendo que a família, a permanecer ali, corria risco de vida, já que o senhor Celso não desistira da ideia de vingar o filho;
- Carlota: esta não se conformava em hipótese nenhuma com a mudança:
implorou aos pais que a deixassem em Portugal, pois não suportava a ideia de ir para o outro lado do mundo, onde “só habitavam bárbaros”, como aprendera na escola.
Debalde foram seus rogos.
Não queria deixar aquela cidade já que estava apaixonada por Quintino, de dezanove anos, sendo correspondida.
A paixão entre eles sequer fora abalada pela morte de Afrânio, nas trágicas circunstâncias em que ocorrera, mesmo Quintino sendo primo dele.
Ante as infrutíferas tentativas de permanecer em Portugal, os dois apaixonados sofriam a cada minuto que passava, pois o Tempo decretara a hora da separação:
a mudança para a Colónia Brasil.
Como última possibilidade, Quintino implorou aos pais que convencessem “dom” Severo a levá-lo para a Colónia, na condição de empregado.
Justificando tal apelo, confessou seu amor por Carlota, com quem pretendia se casar.
— Nunca! — exclamaram simultaneamente Joaquim e Verona, completando o pai:
Nunca! Meu filho não vai misturar nosso sangue, ferido, com o daqueles assassinos!
— Mas, pai, mãe:
o Afrânio tentou abusar da Carlota:
eu próprio, se estivesse lá, naquela hora, faria o que o Henrique fez, ou até mais!
— Bem se vê que estás com a mente nublada:
onde já se viu justificar um crime e até candidatar-se a praticar outro?
— Independente do que aconteceu, tenho amor pela menina Carlota e ela me ama também.
Isso é o que importa!
— Importa?
A quem? A ti?
O que tens, o que podes ofertar a ela?
Tens dote, património, profissão, ou sei lá o quê?
Hein? Respondas, fedelho!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:47 am

— Amor!
Tenho amor no meu coração!
— E amor põe a mesa?
— Ilumina a vida, perfuma os dias, é sol na alma por vinte e quatro horas, ajuda a transpor todas as barreiras.
Todas! Tenho saúde e disposição para trabalhar, até como escravo, desde que com ela ao meu lado.
— Se te atreves a enfrentar-me com esses quitutes da ilusão, providenciarei que vás a estágio para as terras longe do Douro, longe inclusive de Portugal, à África, onde a pátria está precisando de homens de valor, para administrar o que de lá possa usufruir.
Verona abraçou Quintino, instintivamente, num gesto maternal de protecção, declarando em tom ostensivo que não aprovava aquilo.
Joaquim, que sempre pouco respeitara a opinião da esposa, sentindo-se duplamente enfrentado, pelo filho e por ela, decidiu ali mesmo:
— Vais mesmo para a África!
No momento, lá será melhor para ti.
Está mesmo na hora de prestares tua colaboração à pátria.
Por uns três anos, junto aos negros e aos bichos, terás oportunidade de pensar melhor.
Não faço isso pensando no teu mal: ao contrário!
Decisão tomada, decisão efectivada.
Confabulando com amigos influentes, junto a el-Rei, não demorou uma semana e Quintino foi convocado “por necessidade absoluta da Pátria”, a ir para Guiné, com o posto de Sargento-comandante.
Com ele, iriam quinze subordinados, todos em estágio inicial trienal, podendo ser prorrogado, a pedido.
Assim, antes mesmo de Severo e família embarcarem para o Brasil, Quintino deixou Portugal, zarpando rumo à África.
Na véspera da partida, o jovem encontrou-se às ocultas com Carlota, prometendo, entre lágrimas:
— Sabes, Carlota, que vou para destino cruel, onde mora a morte.
Se Deus me ouve, fica sabendo, querida, meu coração é teu, para sempre.
Tenho absoluta fé no destino de que um dia estaremos juntos.
Beijou as mãos da namorada.
Lágrimas ardentes, que caíram nas palmas gentis e trémulas da jovem, autenticaram aquela declaração de amor.
Foi a custo que Carlota conseguiu balbuciar:
— Meu amor por ti é como a Vida!
Sem ti, sinto-me morta.
Somos jovens e não considero justo que o destino nos destrua.
Para onde vamos, tão distantes um do outro, nem as profundezas do mar nos separarão, pois em pensamento estaremos juntos para a eternidade.
Em irresistível enlevo, com as almas fervilhando de emoções intensas e os corações em simbiose, o amor que se devotavam incendiou-lhes o sangue.
Um beijo ardente, como poucas vezes alguém terá beijado e sido correspondido, parou o Tempo e perpetuou-lhes na mente aquele instante de magia.
Somente a firmeza de carácter, em ambos, impediu que obtivesse vazão natural o anseio sexual que, exigente, visitou-os naquele momento.
Inflamado, Quintino declarou:
— Serás minha, Carlota, só quando Deus autorizar nossa união.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:47 am

Prometo-te que até meu último alento empregarei para que a Igreja, um dia, nos abrigue e nos declare marido e mulher!
Toda coquete, Carlota aliviou a tensão:
— Bela maneira de pedir-me em casamento...
Queres saber minha resposta?
— Pelos Céus e por todos os Santos: qual é?
— Só depois de outro beijo...
Beijaram-se, inda uma vez.
Com o peito arfante, pleno de doce enlevo, Carlota concordou:
— Sim, Quintino:
serei tua mulher, mas só após a Igreja nos conceder a protecção do Cristo!
A jovem, assim, obedecia à sua formação religiosa, pois aprendera, desde criança, que a união sexual entre pessoas, só contaria com as graças do Céu, se estivessem “legalmente” casadas, pela e na Igreja.
Do contrário, tal se constituiria em gravíssimo pecado.
Cumpre destacar que, na verdade, o sexo jamais poderá trazer felicidade, se praticado irresponsavelmente.
E por “sexo responsável”, não se imagine, em apressado aval, que estejamos nos referindo àquele praticado com todas as cautelas quanto à indesejável gravidez. Não!
O sexo responsável será aquele que decorrer de um amadurecimento sentimental, após razoável período de convivência, em que as ideias e sobretudo os ideais, sejam convergentes.
Claro que tal período será também propício a carinhos e afectos, mas, qual as estações climáticas, uma adequada à preparação do plantio, outra à semeadura, outra ao cultivo e a quarta, à colheita, assim também deverá ser administrada a atracção recíproca de um casal, quase sempre iniciante pelos pródromos da paixão.
Sexo responsável será aquele realizado depois de confirmada a presença abençoada do Amor, em nuança plena e recíproca, assumidas em conjunto pelo par, as decorrências de tal acto.
A bem da verdade, o sexo, no estágio terreno, praticado sob tais coordenadas, representará incomparável mecanismo de troca energética, posto que engendrado e inserido no ser humano sob a Bondade de Deus.
Uma semana após Quintino ir para a África, Severo embarcou com a família, rumo ao Brasil, em direcção ao Rio de Janeiro.
Iam no “Santa Úrsula”, nave-capitania do comboio.
Um bom percurso da navegação rumo ao destino foi realizado paralelamente à costa ocidental da África.
Para aproveitar os melhores ventos, por vezes o navio se afastava da costa, o máximo possível, de forma a não perdê-la de vista.
Um súbito e gravíssimo acontecimento quebrou a monotonia da viagem:
certa noite, em que haviam se distanciado bastante da costa, os marujos de plantão acordaram a todos os demais, tripulação e passageiros, batendo o sino e aos gritos:
— Atenção, atenção!
Estamos com coisas batendo no casco.
O capitão determinou imediatamente que as velas fossem arriadas, para frear o deslocamento, pois, qualquer que fosse o obstáculo, sabia que no mar há sempre o perigo de danificar o casco e o navio soçobrar.
Assustados e sonolentos os tripulantes e passageiros chegaram ao convés e entre as ordens que o capitão, em altos brados passava para os homens, logo se cientificaram que destroços de um barco grande boiavam, alguns se chocando mesmo com o seu navio.
Acendidas tochas complementares, que de alguma forma iluminavam as águas adjacentes, foram identificados alguns náufragos agarrados a pedaços de madeira, mal podendo balbuciar.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:48 am

Havia corpos sobre madeiras e ao serem resgatados, logo se viu que apenas três estavam vivos e mesmo assim sem condições de falar.
Atendidos com os recursos possíveis, que eram poucos, só após receberem duas generosas doses de suco de limão, ministradas a intervalos de cinco minutos é que lhes foi servida água pura.
Espectáculo dos mais expressivos para quantas pessoas se julguem ao abandono da Vida, ali, em plena madrugada e no meio do oceano, a água — bênção divina, tão deslembrada de gratidão, que devia ser diária — fez reviver aqueles sedentos quanto infortunados homens.
Com efeito, após se dessedentarem e serem agasalhados, com todos os passageiros e tripulantes ao seu redor, não se sabendo quem estava mais assustado, puderam narrar sua odisseia:
— Sou o Gentil...
Os piratas atacaram, roubaram toda a carga e depois destruíram nosso navio.
O capitão, identificando tratar-se de portugueses, acalmou-se:
— Quando foi isso?
— Há dois dias...
Antes de o nosso barco afundar partiu-se todo, e só por muita sorte alguns sobreviventes conseguiram flutuar, agarrados aos destroços.
Outro náufrago balbuciou:
— Dezenas... dezenas de homens... imploraram socorro aos piratas, mas a resposta foi o abandono... gargalhavam ao nos deixar morrer...
— O que vocês transportavam?
— Nosso navio levava mercadorias para alguns compradores da África, desde a região dos iorubas até a Guiné...
Severo e família, até então apenas ouvindo, sobressaltaram-se.
Não se contendo, adiantou-se ao capitão e quase encostando o rosto em Gentil, perguntou, aflito:
— Qual o nome do seu navio?
— Santa Gertrudes...
Carlota deu um grito e levou a mão ao peito:
— Quintino!
Gentil e os demais a olharam, assustados.
Severo esclareceu:
— Minha filha tem... “tinha” — corrigiu-se —, um conhecido que vinha para as Áfricas... seu nome é... “era” — voltou a emendar — Quintino...
Prático, o capitão dirigiu-se aos náufragos:
— Vocês o conheciam?
Sabem se ele morreu?
— Senhor — adiantou-se um dos outros dois náufragos — chamo-me Quincas e posso afirmar à sua senhoria que o jovem em questão está vivo...
“Deve estar”, emendou, por sua vez.
Carlota tomou as mãos dele e implorou:
— Pela Virgem Santa:
diga-me o que fizeram com ele!
— Quando os piratas nos atacaram, chegaram com crueldades, inenarráveis.
Por coincidência, feliz ou infeliz, não sei, o jovem Quintino e seus subordinados estavam fardados, no convés, fazendo treinamentos para o serviço que iriam desempenhar em terras d’África.
— E então? E daí?!
— Daí que entraram em combate franco com os assaltantes, havendo baixas de ambos os lados.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:48 am

O jovem comandante, ao qual a senhorinha se refere, lutou bravamente, abateu três piratas e combatia outro quando levou uma traiçoeira bordoada na cabeça, deferida pelo próprio chefe dos piratas.
— E então?...
— Daí que o chefe pirata não quis matá-lo.
Conservou-o como prisioneiro e levou-o vivo.
— Para quê, meu Deus?!
Para quê?
— Certamente para pedir resgate por ele — respondeu o capitão, com o que os náufragos concordaram, num gesto significativo.
— Quero voltar!
Quero voltar! — gritava Carlota.
A custo foi conduzida por sua mãe para seus aposentos.
Em estertor ameaçava:
— Se não voltarmos, me atiro no mar!
Julialva, a pequena Julialva, solidarizando-se à irmã, que passara a dolorido e altissonante pranto, abraçou-a:
— Vou com você... atiro-me também...
Sinceras, tais palavras tiveram efeito psicológico salutar.
Carlota abraçou a irmãzinha, que também já chorava:
— Quem cai no mar morre...
— É mesmo — concordou Julialva, raciocinando:
aí, nunca mais você vai ver o Quintino.
A lógica, em qualquer tempo, espaço ou situação, tem sempre o poder de solução.
Ali não foi diferente:
de repente, Carlota deu-se conta que atirar-se no mar era mau negócio.
Chorosa, abraçou a mãe com redobrada energia e implorou:
— Mãe: pede para o pai voltar!
— Minha filha, eu e teu pai te amamos muito, mas existem coisas que são arrumadas por Deus e não somos nós que deveremos desarrumá-las...
Outra significativa postura, calcada também na lógica.
Carlota, finalmente, raciocinou: captou que retornar era algo impossível.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:48 am

6 - Surpresas...
Surpresas, quase sempre são ruins.
Algumas, porém, ao contrário.
A fé na Justiça Divina é sempre imensa feira de boas surpresas, pois o Tempo é a grande ferramenta celestial que conserta qualquer desarranjo, físico ou moral, quando esgotados os demais recursos.
Quem a tem, aquela fé, não se desespera diante das amarguras, delineadas ou efectivas, aguardadas há tempos ou inesperadas, pois sabe que as Leis de Deus são de inconcebíveis perfeição e justeza, jamais onerando inocentes.
Sem cair no exagero, podemos adiantar, com a segurança que nos oferta a Justiça Divina, que nem um único grama é ou será acrescentado a qualquer fardo, a ser transportado por um devedor, mesmo que beirando à tonelada!
E ao percurso desse transporte, também, não se lhe acrescentará um milímetro sequer.
Fardos tais são divididos em módicos segmentos, para que sejam totalmente transportados, em redobradas marchas de carga.
A essa subdivisão orienta a Bondade do Pai, que sem arranhar a Justiça Universal, concede ao faltoso a bênção do resgate parcelado, viável, compatível às suas forças, propiciando-lhe os meios necessários.
Em parcelas tantas, quanto necessário e possível seja.
Assim é que “toneladas de dívidas” se dissolvem, agora considerada outra bênção do Criador: o Tempo!
Eis a equação do Tempo, para todos nós, criaturas em árduas, mas abençoadas marchas evolutivas:
Nenhuma pressa!
Mas nem um segundo perdido!
Essas as vertentes que fluem da Sabedoria de Deus, ao nos conceder mais uma bênção:
as vidas sucessivas — reencarnações, como sabiamente diplomou-as Allan Kardec.
Reencarnação, reencarnação:
bendita sejas!
São tantas as bênçãos do Pai aos Seus filhos, que se nossos olhos pudessem, olhando uma noite estrelada, numa infinita prece, unir cada graça a uma estrela, iria faltar céu...
Falávamos de surpresas e derivamos para bênçãos...
Três dias depois, o comboio atracou ao largo de um pequeno povoado do litoral africano, para reabastecimento de água e frutas, antes de tomar o rumo Atlântico adentro, para o Brasil.
Abastecidos, os navios zarparam rumo à Colónia.
A monótona travessia só era quebrada de quando em quando, ao cruzarem com algum outro navio, quase sempre abarrotado de açúcar, indo directo da Colónia para a Inglaterra:
outros navios, em curso paralelo, também vindo da África e indo em direcção à Colónia, levavam escravos, muitos escravos...
Ninguém do “Santa Úrsula” conseguia disfarçar a enorme preocupação quanto a um assalto pirata.
Os três sobreviventes a bordo catalisavam tal receio.
O capitão, respeitando a autoridade de “dom” Severo, convidou-o para uma entrevista em seu camarim:
— Dom Severo:
estou cá aflito pela segurança de vossa excelência e dos seus.
Nosso barco pode enfrentar piratas, mas sempre há saldo negativo de vidas...
— Confio em sua competência, meu capitão.
— Há algo que me preocupa sobremodo:
piratas agem em rastilho, uns dos outros.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:48 am

Se o Santa Gertrudes foi atacado ao se afastar da costa africana, nada impede que também nós o sejamos.
Inclusive, muitos desses ladrões do mar têm espiões em terra, junto aos portos, observando os preparativos de embarque e avisam a mensageiros que se adiantam de alguns dias às partidas, para que os piratas escolham o local mais adequado para dar o bote.
— O senhor está me dizendo que estamos em vias de sermos atacados?
— Exactamente.
Sua viagem foi muito comentada em Portugal, pois el-Rei — que Deus o abençoe, hoje e sempre — fez questão de divulgá-la, primeiro como interesse da Pátria, depois...
— Depois, o quê?
— Bem, excelência, havia necessidade de pôr uma pedra no malfadado caso do vosso jovem Henrique, que mesmo inocente, vivia a receber ameaças de vida do pai daquele que morreu.
Severo sentiu enorme desconforto com aquelas rudes, mas sinceras palavras.
Compreendeu, de relance, que el-Rei, de facto, “acertara duas mangas com uma pedrada só”.
Reflectiu e perguntou:
— E o que aconselha o meu capitão?
— Uma coisa é verdadeira:
estamos a um quinto da distância entre Portugal e a Colónia, sendo nosso destino o porto do Rio de Janeiro.
Se vossa excelência quiser retornar, não será difícil...
— Mas, ó meu capitão, como retornar?
Então não sabes que el-Rei mo confiou missão importantíssima?
— Sei bem, vossa excelência.
O que não contávamos é que talvez... talvez... a morte viesse para bordo...
— O que temos agora?
O que dizes?
— Infelizmente, um dos náufragos que recolhemos está com a “doença negra”, o escorbuto.
E se ele está doente assim, é quase certo que os dois companheiros devem também logo manifestar os terríveis sintomas, que nem será bom sua família ver...
Parou um instante, olhou para o grande mar e sentenciou:
— Se não forem retirados de bordo, não tardará e todos poderemos estar com a mesma doença.
— Acontece que eles ficaram à míngua por quase três dias, mas nós temos diariamente ingerido suco de limão e não nos tem faltado frutas.
— Vossa excelência é quem determina, mas o risco é por demais pesado para quem abriga a “doença negra” em seus barcos, pois não há garantias de que não sejamos atingidos, todos a bordo.
Nesse caso, o tributo será a morte.
— Por Deus!
O que fazer?
— A qualquer momento, entre um dia a uma semana, cruzaremos com o “Estrela Real”, que vem vindo da Colónia para a Pátria.
Por que não embarcar nele os náufragos?
Chegarão a Portugal, no mínimo um mês antes de nós chegarmos ao Brasil.
Desse modo, talvez se salvem.
A bordo, esses náufragos representam grande perigo para todos nós.
Com a autoridade de vossa excelência, o “Estrela Real” cumprirá vossas ordens e conduzirá os três.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:49 am

— Tens razão, meu capitão.
No momento certo, providenciarei.
Quando Severo narrou tal facto para a família, os olhos de Carlota brilharam.
Toda dengosa, beijou a mão de Severo e implorou:
— É Deus que está dando um sinal...
— Não entendi, menina.
— Podemos voltar também!
— Enlouqueceste?
Tenho ordens de el-Rei a cumprir, lá nas terras coloniais.
Antoninha, condoída da filha e até então calada, tomou coragem:
— Meu marido:
também penso que o Criador está a nos dar um sinal... para regressarmos.
Vai tu à Colónia, cumpre as ordens reais e volta logo para nós.
— Então... então... estás a me dizer que queres voltar no “Estrela Real”?
Tu também?!
O gesto humilde de abaixar a cabeça, em silêncio, confirmou.
O homem olhou para os filhos:
os três traziam lágrimas boiando...
Olhou a imensidão do mar e de repente sentiu-se um náufrago familiar, ele próprio, no “oceano da Vida”, pois se deu conta de que tirar a mulher e os filhos da terra natal e levá-los àquelas regiões do outro lado do mundo, tinha mesmo sido uma grande insensatez sua.
Percebia-o agora, somente agora...
Raciocinou rápido:
a mulher estava com a razão.
Iria, sim, cumprir as ordens de Sua Majestade, mas, por que arrastar a família para aquela lonjura?
Decidiu no acto:
em lágrimas, ele também, abraçou Antoninha, envolvendo os filhos no mesmo gesto carinhoso.
Beijou-os a todos e proclamou, qual vitorioso guerreiro dos sentimentos:
— Deus nos proteja!
Se estamos fazendo a coisa certa, Ele a tudo proverá!
Mal acabara de pronunciar estas palavras ouviram um tiro de canhão, ao longe.
Assustados, foram para o convés e viram um navio à distância, vindo em sua direcção.
Logo, o capitão também disparou um tiro de canhão, em resposta.
Vendo-os algo apavorados, sorriu:
— É o “Estrela Azul”, dando-nos “bom dia” e nós respondemos.
— Graças a Deus! — disse Severo, dirigindo-se à família:
Ele quer que vocês voltem.
Naquele momento de euforia, ninguém se lembrou de que um dos motivos da família estar deixando Portugal era o perigo que a rondava, porque Celso não se conformava com a morte do filho e ameaçava se vingar...
Os filhos se abraçaram à mãe e ficaram aos pulos até o “Estrela Real” aproximar-se e quase encostar ao “Santa Úrsula”.
A autoridade que a carta régia conferia a “dom” Severo, pela qual el-Rei determinava “a todas as gentes do Reino de Portugal que cumprissem a ordem e desejo do intendente-mor” facilitou o retorno de sua esposa, os três filhos e os três náufragos.
Não bastasse isso, os cento e cinquenta soldados eram outro poderoso argumento...
Assim, os náufragos, envolvidos por grossas mantas como se fossem mercadoria embrulhada, foram postos em isolamento no porão do “Estrela Real”, cuja tripulação manifestou grave descontentamento.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:49 am

Mas não houve como evitar o indigitado transbordo.
Vendo o “Estrela Azul” distanciar-se na amplidão oceânica, levando sua família, Severo sentiu um aperto no peito, reflectindo se tudo aquilo que estava fazendo não era uma verdadeira loucura.
A saudade, instalada há minutos, machucava-lhe a alma.
Assim esteve durante a viagem.
À medida que se aproximava da Colónia, contudo, em sua mente pensava que também estava chegando mais perto do ouro, que despertara de sono milenar lá nas minas, para ser embalado por ele...
Ao chegar ao Brasil, a saudade deixou-a no mar.
*
Anoitecia quando a família de Severo chegou à “Quinta dos Favos”.
Antoninha convocou alguns serviçais que residiam ali mesmo para ajudá-los a arrumar a casa.
Assim que adentraram, Antoninha ajoelhou-se, no que foi acompanhada pelos filhos e os serviçais.
Orou:
“Deus, Pai de Amor e Bondade.
Nós vos agradecemos de coração a dádiva desta volta.
Pedimos Sua protecção divina para dom Severo, e se possível, que ele também logo volte para nosso aconchego”.
Entre lágrimas candentes, puseram-se todos a arrumar a casa, cujos móveis haviam sido ajuntados e protegidos por grossas colchas.
Os utensílios domésticos foram retirados dos baús.
Henrique, com um lampião, foi até à vinícola.
Dirigiu-se à adega e teve um grande sobressalto:
centenas de garrafas de vinho estavam quebradas, num grande monte; as prateleiras tinham sido arrancadas das paredes e estavam quebradas também; várias pequenas crateras e montes de terra noticiavam várias escavações, recentes.
Voltou correndo:
— Mãe, mãe: alguém destruiu a adega do pai...
Foram todos para lá e ficaram horrorizados com o que viram.
Antoninha decidiu que logo pela manhã Henrique deveria ir à cidade e pedir ao senhor Valdeiro que viesse, o mais rápido possível.
Quando a casa estava praticamente arrumada e a família preparando-se para dormir, receberam inesperada visita.
Mal acreditaram quando viram, à sua porta, os pais de Quintino.
Traziam dor e angústia no olhar.
Carlota intuiu: Quintino!
Sabiam algo sobre ele!
Antes sequer de cumprimentos, adiantou-se:
— Quintino? Ele...
Joaquim e Verona, em explosivo pranto, confirmaram:
— Os piratas...
Quintino está vivo!
Mas os piratas querem uma recompensa...
— Qual recompensa? — gritou Carlota.
— Ouro! Querem uma arroba de ouro (15 kg) para devolvê-lo com vida!
E deram prazo de seis meses.
Se até lá não receberem o ouro, decretaram:
“o sargento-comandante Quintino irá para o céu ou para o inferno, mas neste mundo é que não ficará”.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:49 am

Embora todos em estado de choque, Antoninha tomou coragem e perguntou:
— Vossa excelência tem esse ouro?
— Eu? Eu?
De forma alguma!
Imagino que nem el-Rei — que Deus o proteja — tem uma arroba de ouro.
— Temos de salvar o Quintino — atalhou Carlota, em tom de imploração —, senão a vida acabará para mim também.
Henrique, calado até então, tartamudeou:
— Se ao menos papai estivesse aqui...
— Foi bom te lembrares de teu pai, pois foi por causa dele que tudo isso aconteceu.
— Com licença, vossa senhoria — exclamou Antoninha, na defensiva —, peço que deixe meu marido fora disso, primeiro porque de nada ele pode ser acusado, homem bom e justo que é, segundo porque ele não é pirata e nem faria uma baixeza dessas e terceiro, porque ele não está aqui para responder, não sendo nada educado que lhe lancem acusações pelas costas.
Aliás, posso saber o que o distinto casal veio fazer à nossa casa, a essa hora da noite?
— Com todo o respeito, minha senhora, ninguém está a fazer acusações.
Se mo permitir explicar, quero em primeiro lugar inocentar “dom” Severo de qualquer acusação, a começar da morte de meu sobrinho, o Afrânio — que Deus o tenha.
Nem do rapto do meu filho.
Quem está a falar, pois, não é o tio, mas o pai:
assim, só me interessa ter meu menino de volta e se vim até aqui é porque da boca do senhor Valdeiro ouvi coisas que dizem respeito às actividades de “dom” Severo.
E de tal monta são tais factos, que de alguma forma, indirectamente, ele tem sim algo a ver com a minha tristeza...
— Vejo que o senhor proclama coisas das quais não tem certeza e agora, até nosso compadre Valdeiro passa a se anexar negativamente a tudo isso.
— Exactamente: não tenho certeza.
Por isso cá vim.
Para conversarmos.
— Porque o senhor não diz às claras o que pretende?
— Salvar nosso filho — atalhou Verona.
— Mas, por Deus, o que temos com isso?
— Vou ordenar os factos conhecidos e reflectir sobre os desconhecidos:
meu filho se apaixonou pela menina Carlota e por isso eu mandei-o para a África, eis que meu irmão não me perdoaria jamais que a memória do Afrânio fosse manchada pela mistura do sangue dos “Aderbal e Rosa” com o vosso; meu filho, segundo mo disse um estafeta dos piratas, o mesmo que me deu a notícia de que ele está vivo e trouxe também o pedido de resgate, contou que Quintino, ao ser feito prisioneiro, prometeu-lhes ouro, dizendo que o futuro sogro o tem...
E é só por isso que ainda está vivo.
— Meu marido? Ouro?
Isso é uma pilhéria...
Henrique interviu:
— Não, mãe, não é pilhéria:
o pai tem mesmo ouro.
— Perdeste o juízo!
Teu pai é negociante de vinhos.
— Mãe — aparteou Carlota — ficamos com medo, pensamos que ele queria fazer uma surpresa.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:49 am

O pai trouxe ouro lá da Colónia.
Fez presente para nosso Rei e guardou um pouco...
— Não é possível!
Dom Severo não iria me ocultar uma coisa dessas.
Como vocês dois sabem disso?
Carlota olhou para Henrique, cúmplices ambos de algo.
— Vamos — ordenou Antoninha, olhando fixamente para os filhos — contem o que sabem. Já!
— O pai, quando voltou, levou o padrinho lá nos fundos da adega, em segredo; eu me escondi e vi quando o pai mostrou umas rapaduras, trazidas da Colónia... era ouro coberto de rapadura... separou uma parte para nosso Rei, deu algumas para meu padrinho e guardou as outras...
— E onde estão?! — gritaram Antoninha, Joaquim e Verona, ao mesmo tempo.
— Só ele sabe...
— Então... — balbuciou Antoninha — foi por isso que a adega foi escavacada:
aquele ladrão do senhor Valdeiro!
Ele vai me pagar!
Tem de pagar!
Verona cutucou o marido e num gesto explícito, intimou-o a algo.
— Não culpes apenas a Valdeiro:
preciso confessar e espero que todos vocês me perdoem, mas no desespero, não vi outra saída, a não ser mesmo arranjar o maldito ouro, para ter meu filho de volta.
Procurei o senhor Valdeiro e mesmo encontrando-o embriagado contei o rapto do meu filho Quintino e pedi-lhe ajuda para arranjar ouro.
Ameacei de denunciar a el-Rei que ele e dom Severo escondiam ouro...
Foi aí que ele pediu-me segredo e revelou o caso das “rapaduras”.
Então...
Verona atalhou e confirmou:
— Ante a iminência de o nosso filho morrer nas mãos criminosas, perdemos a cabeça e como única solução, imaginamos que poderíamos pegar o ouro de “dom” Severo, o suficiente apenas para pagar o resgate.
O senhor Valdeiro ofereceu uma parte, “emprestada”, da que recebeu do seu compadre.
Mas ainda ficou faltando mais da metade.
Por isso, na angústia e na dor em que nos encontrávamos e ainda nos encontramos, crescentes, ainda não temos certeza de que estejamos em nosso juízo normal.
Viemos aqui pedir-lhes que nos ajudassem, mas encontramos a casa vazia e por isso assumimos nosso grave erro e nos penitenciamos.
Fomos nós que tentamos achar o ouro na adega...
Pedimos que nos perdoem.
Antoninha estava perplexa, tão chocada como o casal.
Inquiriu:
— Digam-me uma coisa:
como é que os piratas souberam do ouro do meu marido?
Carlota assumiu:
— Henrique me contou o que viu e me fez jurar que não contaria para ninguém.
Só contei para o Quintino, pois juramos amor, fidelidade e verdade, um para o outro, eternamente.
Deve ter contado e prometido ouro aos piratas, talvez sob tortura...
E penso que é boa essa hora para clarear um ponto:
eu e Quintino vamos unir nosso destino, do contrário, vocês nos perdem, aos dois.
Verona abraçou Joaquim e ambos cruzaram o olhar com Antoninha.
Captaram o pungente significado daquelas palavras.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:50 am

— Se o bom Deus devolver nosso Quintino — contemporizou Verona — teremos honra em abençoar tal união.
Carlota abraçou Verona e ambas começaram a chorar.
Joaquim foi objectivo:
— O que faremos agora?
— O Henrique vai para a Colónia, ter com o pai — sentenciou Antoninha.
Aliás, nem sei onde estávamos todos com a cabeça quando trouxemos o Henrique de volta...
Houve uma amnésia na família, pois não é que o senhor Celso quer matar meu filho?
E que íamos para a Colónia justamente para livrá-lo dessa vingança?
Respirou fundo e completou:
— Quando Severo ouvir tudo isso, sei que arranjará um jeito de se comunicar com os piratas, até porque, pressinto que de uma forma ou de outra eles o procurarão lá.
E será prudente que esteja prevenido, para não se deixar enredar em nenhuma armadilha.
Para dizer a verdade, estou com medo...
Temo pela vida dele...
Baixando a voz, raciocinou e expôs:
— Se trouxe o ouro disfarçado em rapaduras é porque lá deve ter muito mais...
Agora percebo porque el-Rei concedeu tantos guardas para acompanharem meu marido:
é porque “dom” Severo comunicou oficialmente a descoberta do ouro!
Só que ao ver tantos guardas chegando, até um tonto deduzirá que não atravessaram o Atlântico apenas para passearem nas terras coloniais...
— Bem pensado, minha senhora, bem pensado.
Eu e Verona estamos esperando seu perdão...
— Esse é um assunto que meu marido deverá administrar e embora eu tenha entendido seus motivos, nem por isso deixo de recriminar a tentativa de saque.
Contudo, será vigoroso atenuante o fato do casal ter vindo aqui confessar tal crime, expondo os motivos que o levaram a assim proceder, além de termos iniciado os termos da união conjugal de nossos filhos.
Complementou, assumindo a rédea dos acontecimentos:
— O senhor dê um jeito de entrar em contacto com os piratas e mande-lhes o recado de que o ouro do resgate será entregue lá na cidade do Rio de Janeiro, “pelo futuro sogro” do sequestrado, que o quer em perfeita saúde.
Eles saberão como contactar com “dom” Severo.
— Mas, mãe — intercedeu Henrique — porque lá?
Após esse recado o pai passará a correr perigo...
— Sei o que faço.
O perigo já o ronda.
Lá tem guardas a granel, sob comando dele. Tu vais à frente e alerta-o.
De qualquer forma, afasto daqui de nossa casa e de nossa cidade, essa camarilha criminosa, até que sejam todos transferidos para o inferno.
E tem mais:
teu pai nos prometeu que breve deixaria todas as actividades na Colónia, reassumindo as actividades aqui.
Assim, será mesmo bom que esse nó seja desatado bem longe daqui.
E, ainda, ficas longe do senhor Celso...
— Deus a abençoe! — exclamou Joaquim, beijando a mão de Antónia.
Ante a traição de Valdeiro, a esposa de Severo raciocinou que se fosse tirar satisfações com ele arriscaria até a vida de toda a família, pois se o caso transpirasse a Coroa real ficaria sabendo que seu marido escondera rapaduras, isto é, ouro, na sua Quinta...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:50 am

Assim, considerou que por enquanto nada faria sobre tal traição.
Antoninha não julgou prudente ela própria procurar o compadre.
Quando Severo retornasse, da próxima vez, ele certamente acertaria contas com o traidor Valdeiro...
Dois meses depois Henrique chegava ao Rio de Janeiro, justo a tempo de incorporar-se à poderosa expedição armada chefiada por seu pai, que rumava para as terras bravias do interior, rumo a Goiás e Mato Grosso.
Esse destino, o divulgado, era na verdade falso:
o endereço era o acampamento de Mendonza, onde dom Severo, cumprindo ordens de el-Rei, iria instalar um posto fiscal, com jurisdição “no quanto de terras fosse necessário” para bem controlar a garimpagem, que assim, assumia carácter oficial.
Ao ouvir o relato completo de Henrique, Severo esbracejou:
— Bandidos!
Valdeiro, traidor e Joaquim, ladrão!
É o que são.
— Mas pai — tentou contornar Henrique — eles não levaram as... rapaduras do senhor.
Só quebraram a adega...
— Os santos estavam comigo quando tive a boa inspiração de escondê-las em lugar seguro.
Parece que estava adivinhando...
Impedindo o filho de se aprofundar, repreendeu-o:
— Então tu cá me saíste a um furtivo camundongo, a espionar-me, pois não?
O que tens a mo dizer?
— Não, pai, não estava a espionar.
Queria, isso sim, saber as novidades que o senhor ia contar para o padrinho.
Aí, fiquei sabendo das rapaduras...
Foi sem querer...
— Olhe cá, menino:
vamos para o mato, a viagem é penosa e se quiseres, mando-te de volta no primeiro navio.
Já cumpriste tua missão, sou-te grato por me avisar dos piratas.
Tua mãe, como sempre, mostrou-se de sublime inspiração.
Quanto à tua segurança, diga a Antoninha para entrar em contacto com el-Rei e solicitar uma guarda permanente para nossa Quinta e para toda a família.
Ao falar de Antoninha, Severo não conseguiu disfarçar as lágrimas que, em silêncio, espontâneas, mas teimosas, rolaram-lhe pelas faces.
Comovido, Henrique abraçou o pai e foi taxativo:
— Nunca, meu pai:
quero ir com o senhor.
Inclusive, passo a ser mais um “guarda” da sua integridade e prometo ser obediente em tudo.
— Está muito bem:
aceito tua oferta, mas exijo que sejas o mais discreto de toda a expedição.
Nunca te descuides um instante da língua, pois quando se trata do ouro, tudo significa perigo.
Já estás vendo que com tua bisbilhotice, o que arranjamos: piratas!
E eles não desistem!
Daqui para diante, tua mãe e tuas irmãs, embora distantes, também estão correndo sério perigo.
Vamos resolver o mais rápido essa questão e depois veremos como viver em segurança.
— Vamos trazê-las para cá?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 11, 2017 9:50 am

— Seria loucura!
Só se el-Rei determinasse, com uma poderosa escolta, pois a hora que qualquer um de nós entrarmos num navio, já não poucos piratas estarão aguardando a ocasião para dar o bote, aprisionar-nos e exigir recompensa.
E, nas mãos de piratas, nenhuma vida tem a certeza do minuto seguinte.
Duas semanas após Henrique seguir para o Rio de Janeiro, Joaquim, conforme havia planeado com Antoninha, passou a frequentar as cantinas do porto de mar, com destemor.
Mantendo-se sóbrio, mas generoso no pagamento de bebidas a quantos o aceitassem — e sempre eram muitos —, espalhou a notícia que “um pai aflito tinha um presente para o filho, prisioneiro de piratas”.
Nem Henrique havia chegado à Colónia e Joaquim colheu o fruto do que plantara:
numa das suas passagens pelo porto, foi abordado por uma mulher que lhe declarou “ganhar a vida” perambulando por ali:
— Tenho um presente para vossa senhoria...
— Gratíssimo, mas dispenso.
Sou cristão e um homem de família.
— Mas é da tua família que estou falando...
— Que mo dizes?
Do que falas?
— Do teu menino... Quintino...
Joaquim arregalou os olhos, não conseguindo impedir o descompasso dos batimentos cardíacos.
Aproximou-se da mulher, até demais, e implorou:
— Onde está?
Quero vê-lo!
— E verá.
Primeiro, terás que entregar quinze rapaduras, daquelas “especiais”.
Joaquim captou que a mulher sabia de tudo sobre Quintino, mas também sobre o ouro.
Não conseguiu sopitar um desabafo:
— Maldito ouro!
— Mas benditas rapaduras, pois sim?
Acalmando-se em parte, murmurou:
— Estou providenciando as rapaduras.
Quando eu souber que meu filho está vivo e com saúde, elas serão entregues.
— Muito bem, vossa senhoria.
Esteja no porto daqui a três dias, depois que o Sol se por.
Sei que tens esposa...
Cuide de ser discreto e não comentes nada que “faça mal à saúde do seu filho ou dela...”.
Joaquim entendeu a ameaça, directa. Pediu à mulher:
— Pelo amor de Deus, não deixe os piratas fazerem nada de mal ao meu Quintino.
— Isso só depende de vossa senhoria. Passe bem.
Três dias após, no local e hora combinados, lá estava Joaquim, aflito, pleno de angústias, suspeitando de tudo, até mesmo temendo ser sequestrado, ele próprio.
Sabia que estava sob vistas piratas...
Havia muito a noite descera sobre a cidade do Porto.
E nada dos piratas...
Perto da meia-noite, já quase enregelado, mas disposto a jamais abandonar a esperança, “ouviu música, sublime música aos ouvidos”:
— Salve!, senhor Joaquim.
Era um homem bem trajado.
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