Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:46 am

Em companhia daquela mulher...
— Eu... eu... quero ver meu filho.
Sem dizer palavra, o homem balançou o lampião que trazia aceso.
Logo uma canoa se aproximou, com dois remadores.
Ninguém disse palavra.
Com gestos, apenas, os homens indicaram a Joaquim que embarcasse, o que fez.
Puseram-lhe venda.
E lá se foi ele, com aqueles dois homens, que por quase trinta minutos, remaram, talvez mar adentro, sem pronunciar uma única palavra.
Chegaram a um galeão, e pelo balanço da canoa, percebeu que trocavam sinais com o pessoal de bordo.
Tocando-lhe, mandaram subir ao convés.
Obedeceu, temendo que a qualquer momento o coração parasse, tamanha a taquicardia que o acometeu.
Ao pôr os pés no navio, tiraram-lhe a venda.
Viu-o!
Lá estava Quintino, junto à amurada oposta.
Atirou-se para ele.
O filho intentou o mesmo, mas as correntes nos tornozelos impediram-no de sair de onde estava.
Abraçaram-se, chorando.
— Meu menino Quintino!
Que fizeram a ti?
Oh, meu Deus, por que tinha eu que mandar-te para as Áfricas?
Perdoa, filho, perdoa...
— Meu bom pai, tira-me daqui, pelo amor de Deus!
— Ora pois, cá vim para isso.
Alguém lhe pousou a mão no ombro e convidou:
— Vamos ao meu aposento.
Era um homem magro, de assombrosa palidez, que nem o avançado da hora nocturna conseguia ocultar.
O olhar, de frieza mais glacial que a própria noite daquele inverno, não deixava quaisquer dúvidas:
era de um homem mau, muito mau. Entraram.
Quando o homem fechou a porta e acendeu mais um lampião, Joaquim identificou que aquele compartimento, com uma cama tosca, pequena mesa, sobre a qual estavam garrafas de rum e de vinho, alguns mapas, todos riscados, era mesmo do comandante da embarcação, como suspeitava.
Tripulantes, todos ficam em compartimentos colectivos.
Sobre a cama, uma bandeira negra, tendo ao centro o desenho de uma caveira, apoiada na figura de duas tíbias, cruzadas...
Algo confuso, Joaquim teve um momento de reflexão feliz:
pensou em Jesus Cristo.
Estranha força assomou-lhe todo o ser.
De início, sustentou o olhar gélido e fixo do pirata, como que a fulminá-lo.
A seguir, tomou a iniciativa:
— Vejo que meu filho está a salvo.
Que fique assim até eu poder resgatá-lo.
Aliás, quero levá-lo comigo, agora mesmo!
Para tanto, dou-te essa porção do ouro que pediste em resgate.
Assim falando, Joaquim entregou ao homem algumas pequenas sacolas de couro, com o ouro que Valdeiro havia “emprestado”.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 am

O homem levantou-se, acercou-se e quase encostando testa na testa, gritou:
— Mais uma bobagem como essa, de querer me dar ordens, ou fazer ameaças, e mando açoitar os dois, pai e filho, agora mesmo.
Deu outro estentórico grito:
— Duvidas?!
Joaquim refreou o impulso de revidar a agressão.
Reflectiu, mais uma vez com acerto, que a vida de Quintino estava em jogo.
E, se não soubesse se conduzir, a dele próprio também. Humilhou-se:
— Perdão, senhor, perdão.
Quem vos fala é um pai machucado em ver o filho prisioneiro...
O pirata, de alguma forma, aplacou a agressividade:
— Assim está melhor.
Trouxe-o aqui para tratarmos de negócios.
Vamos ao que interessa:
onde estão as rapaduras, quinze delas, ou quantas sejam necessárias para a “minha arroba de ouro”?
— O irmão da noiva do meu menino foi encomendá-las, lá na Colónia, no Rio de Janeiro.
— Muito bem.
Estamos indo para lá.
Joaquim ficou intimamente alegre com a decisão do pirata, pois nem foi preciso sugerir que o resgate fosse pago no Brasil.
Logo se arrepiou com o que ouviu:
— Se eu receber as rapaduras que faltam, vossa excelência receberá seu rapaz inteiro.
Do contrário, só enviarei dele, os pedaços do corpo que colocados em uma balança se equilibrem com o ouro que me trazes...
— Homem! Não tens filhos?
Solte meu menino, pelo amor de Deus, eu imploro.
Fiques comigo, mas soltes o menino.
— De nada me vales, velho como és.
Quanto ao teu filho, será solto sim, lá na Colónia, um minuto após eu adoçar a boca com as rapaduras que o teu futuro compadre me entregar.
Olhou fixamente para Joaquim e sentenciou, malévolo:
— Esteja tu também lá, em dois meses.
Passeie pelo porto, como fizeste por aqui e logo receberás instruções de como pagar o resgate.
Sendo-lhe aplicada a mesma venda, para impedi-lo de ver ou sequer despedir-se de Quintino, que amordaçado, não pôde também dirigir-lhe palavra, foi reconduzido de volta ao porto.
*
Quando Severo, fortemente escoltado, chegou ao arraial onde estava Mendonza, quase não reconheceu o sítio: extensas plantações de milho e de cana eram mesmo bom disfarce do que se passava ali.
Mas, que logo seria desnecessário...
Perspicaz, Severo acomodou-se, nada perguntou, a ninguém.
Por três dias só tratou de amenidades com o “sócio” espanhol e por mais cinco dias fez observações acuradas de tudo o que se passava naquela região.
Dez dias após sua chegada, convocou Mendonza e de forma peremptória, inquiriu-o:
— Muito bem, Mendonza. Onde está?
Mendonza, sempre na defensiva, com toda a atenção voltada para sua imensa fortuna, pelo tanto de ouro que já amealhara, fortuna crescente dia a dia, não se deixou apanhar em surpresa.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 am

Ladino, sabia que cedo ou tarde — e até estranhou que demorasse dez dias — dom Severo trataria do assunto “ouro”, trazendo-o dos porões da cobiça para colocá-lo sobre a mesa da usurpação.
Sim, porque era todo seu.
— Bem guardado, meu amigo... bem guardado...
— É bom que chames de “amigo” ao emissário de el-Rei de Portugal, título com o qual fui agraciado por Sua Majestade — que Deus o proteja.
Sou o intendente-mor de toda esta região.
Dela e nela, tudo pertence à Coroa lusitana.
Assim, leve-me agora mesmo até lá.
Interessante: nenhum dos dois homens sequer pronunciara a palavra “ouro”, no entanto, esse sujeito oculto nas frases, era quase que palpável no ambiente...
Não era um convite ou pedido.
Era uma ordem.
Perigosa, àquela altura, qualquer desobediência, reflectiu Mendonza.
Mas, também, levar uma autoridade “estrangeira” à sua fortuna, era o mesmo que abdicar dela.
E isso, só a morte o conseguiria.
Enfrentou o delicado momento:
— As falas de vossa excelência estão diferentes...
Sou leal à minha palavra, mas não devo satisfações a uma pátria que não é a minha.
Aliás, nem mesmo com a Espanha vou dividir meu ouro.
Quero usufruir o que ele pode proporcionar, depois dos grandes riscos da sua conquista.
Se vossa excelência pensa como eu, ajuizaremos partilha, do contrário...
Severo entendeu: o espanhol jamais abriria mão da fortuna que lhe viera às mãos.
Astuto e cauteloso contemporizou:
— Creio, homem, que tens razão.
Vamos acalmar as mentes e depois acertaremos o que é melhor.
Deixou Mendonza intrigado, ao afastar-se sem sequer insistir em ver o ouro.
Mais alguns dias, andando descontraído daqui para ali, Severo atendeu, em víveres, peles e couro, a três “armações” que passaram rumo ao Mato Grosso e Goiás, em busca de pedras preciosas.
Mendonza, superexcitado com o ouro, vivia em permanente estado de vigília e vigia, ante aquela que considerava “perigosíssima presença usurpadora”, a de Severo e tamanha escolta.
Dormindo pouco ou nada, alimentando-se mal e sempre tenso, muito tenso, não poderia mesmo evitar que nova grave crise da saúde voltasse a alcançá-lo.
“Dos nervos”, diziam, que tal era a doença do espanhol.
Febre altíssima, pesadelos incessantes, nenhuma alimentação sendo assimilada e um descontrolado pensamento fixo no ouro, rapidamente aproximaram Mendonza da desencarnação.
A esse comportamento, pelo qual a pessoa inconscientemente prejudica sua saúde, a ponto de comprometê-la, podemos considerar como sendo de um suicídio indirecto:
sem intenção, mas com culpa.
Severo, até então se mostrando desinteressado pelo que se passava, assumiu o comando do arraial, “em nome de el-Rei de Portugal”.
Seus argumentos eram convincentes: quase cento e cinquenta soldados portugueses, muito bem armados e municiados, obedientes às suas ordens, todos bem pagos...
Severo chamou Tengegê e ordenou que cuidasse de Mendonza.
Os padres, ocupados com a construção de uma igreja, sequer tomaram conhecimento da existência de Mendonza, gravemente enfermo...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 am

O jovem ioruba, obediente às tradições do seu povo, mais uma vez pediu ao velho Zangigi que o ajudasse a cuidar do sinhó Mendonza.
Zangigi, após permanecer por horas junto ao enfermo, em absoluto silêncio, diagnosticou, informando a dom Severo:
— A doença é por dentro, na alma.
— Que é isso, agora?!
Alma não fica doente.
— Fica sim: a alma se alimenta dos nossos pensamentos e dos nossos actos, mas o sinhó Mendonza só dá ouro para ela comer...
— Ora, ora, não diga bobagens: alma não come.
— A dele come...
— Muito bom isso que me dizes.
É chegada a hora de resolvermos esse assunto do ouro.
Dirigiu-se a Tengegê e a Zangigi, imperioso:
— Onde está todo o ouro que foi catado desde que parti?
Os dois africanos sentiram um frio percorrer-lhes todo o corpo.
Sabiam exactamente o que estava por vir:
a ganância pelo ouro, enlouquecendo a criatura humana, transforma-a em insaciável detentora do que já tem e na busca de mais, rouba-lhe a razão, a ética, o respeito e a honra — própria e de quem se lhe anteponha qualquer barreira, por menor que seja.
Zangigi, sabiamente e com coragem, não titubeou:
— Cumpriremos suas ordens, excelência...
— E então, pois?
Onde está o ouro?
— Como vossa excelência já conhece, uma pequena parte está com meus amigos, só suficiente para fretar um navio que nos leve de volta à nossa África.
— Sei, sei.
O que quero saber é onde está o ouro que o senhor Mendonza vem guardando.
Zangigi gaguejou:
— Isso... ele é quem sabe... esconde tudo...
Severo captou a indecisão de Zangigi e tomou forte decisão:
— Se vocês estão me escondendo o ouro, que pertence à Coroa de Portugal, aí já serão tratados como ladrões de el-Rei...
Zangigi e Tengegê compreenderam, pelas poucas palavras, que a sentença de morte, a partir daquela hora, passou a pairar sobre suas cabeças e dos demais africanos do arraial da Vila Rica.
Sabiam dos arrastamentos que o ouro provoca, o que já era por demais sabido desde a África, segundo narrações dos mais velhos.
Na tradição dos iorubas, tudo o que é da natureza é bom, pois emana de Olorum — o Grande Pai.
Quanto ao ouro e pedras preciosas, há muito tempo existentes na África, ao lado de proporcionar meios para aquisição de utilidades comercializadas com os brancos, que as traziam “do outro lado do mar”, também provocavam traições e tragédias, por ganância.
Tengegê assumiu:
— Vossa excelência pode nos eliminar, mas isso não seria prudente: primeiro, porque ficará sem mão de obra que sabe garimpar e segundo, porque as atenções vão se voltar para este arraial e não tardará a acontecer uma invasão de aventureiros, salteadores e todo tipo de pessoas com a “febre do ouro”.
Se isso acontecer, a despeito de toda a guarda que for mantida, nenhuma vida terá certeza plena de segurança, principalmente de quem guarda o ouro...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 am

A lógica irretorquível daquelas palavras fez com que Severo olhasse intensamente aquele jovem ex-escravo, que tanta curiosidade já lhe causara e agora, considerável admiração.
Asserenou o clima:
— Sou um homem de palavra.
Cá estou como emissário de el-Rei de Portugal — que Deus o proteja.
Não serei falso, nem ingénuo, fingindo para vocês que não quero ouro também.
Mas, essa minha posição não pode nem deve ser demonstrada por aí.
Completou:
— Sei do plano de vocês:
retornar às terras d’África.
No momento, só eu poderei ajudá-los, mas preciso da sua ajuda também.
Com o senhor Mendonza impossibilitado do juízo, estou assumindo a posse desse arraial.
Se preciso, trarei mais soldados.
Acalmados os ânimos, pois os três respiraram o ar da sinceridade recíproca, Severo olhou profundamente Tengegê:
— O ouro está aqui e vocês estão ajudando a minerá-lo.
E sabem onde está armazenado o que já foi catado.
Não era uma pergunta.
Era uma dedução, analítica e sensata.
Não havia ameaça nas palavras.
Prosseguiu:
— Sem o ouro vossa vida não vale nada e minha função menos ainda.
Se nos unirmos, todos ganharemos.
Não havia como discordar.
— O sinhó tem razão — comentou Zangigi, logo completando:
o Tengegê vai mostrar onde está.
— Vou sim.
— Agora mesmo?
— Não seria aconselhável.
O ouro está escondido e seguro.
Se tirar de lá, só muitos soldados poderão dar segurança.
Para ir até lá, será preciso disfarçar que vamos caçar, andar pelo mato, com armas e comida nos bornais, para não levantar suspeitas...
Iremos amanhã, cedinho.
Aí o sinhó arruma um lugar seguro para guardar o ouro.
Quando o dia amanheceu, Tengegê já havia preparado os apetrechos da caça.
Severo, as armas. Partiram.
No caminho, não muito distante dali, o jovem iorubano acendia uma fogueira aqui, outra ali, mais uma acolá. Severo, intrigadíssimo com aquilo, nada disse, porém.
Em menos de uma hora chegaram próximos a uma pequena caverna.
Por perto, vestígios de inúmeras fogueiras...
Sem dizer palavra, Tengegê adentrou numa parte do mato, onde a vegetação era espessa e dali trouxe um tacho de cobre e vários pedaços de madeira com sulcos cavados, a canivete ou a faca.
Esclareceu:
— As fogueiras que fiz são para despistar as que são feitas aqui.
— Mas o que fazem com o fogo?
— Zangigi aprendeu desde menino e aqui o sinhó Mendonza trouxe mais lição da terra dele, sobre como derreter ouro e fazer pedras, usando essas madeiras com as cavidades que servem de forma.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:47 am

Severo estava atónito.
Nunca lhe ocorrera tal engenhosidade.
Sem poder conter-se, exclamou:
— As rapaduras!
Então é assim que são feitas.
Como é que não pensei nisso, antes?
Como é que não me ocorreu averiguar que processo era usado?
Meu Deus! Meu Deus!
Dessa forma, naquele preciso momento, estava sendo oficiosamente inaugurada a primeira fundição de ouro no Brasil.(*)
A História, no seu curso inexorável, teve ali importantíssimo instante, que iria transformar o futuro da Colónia e também de Portugal, com respingos em outros países da Europa!
E apenas duas almas foram testemunhas disso!
Encarnadas...
Na verdade, do Plano Espiritual, há tempos caravanas de mensageiros celestiais vinham estagiando naquelas terras, sob orientação do Plano Maior, de forma a que ela, a História, seguisse o curso de progresso elaborado por Jesus, Governador terreno, por delegação divina.
A partir daquele tosco processo de fundição do ouro, com a oficialização da mineração, levas incontáveis se precipitariam para aquela região, ora chã, ora montanhosa, ora de campinas, ora de riachos e cachoeiras, mas sempre tão gentil.
E que ninguém desconheça:
não havendo, definitivamente o acaso, grandes movimentações de pessoas são sempre supervisionadas pela Espiritualidade Amiga.
Milhares de acontecimentos, individuais e colectivos, emergem das emigrações (mudança voluntária de país), das imigrações (deslocamento de indivíduos para um novo contexto geoeconómico) e das migrações (deslocamento definitivo de população de uma região para outra ou de um país para outro).
No novo panorama que surge, o relacionamento interpessoal promove incalculáveis oportunidades de reajustes, que são aproveitadas, uma a uma, a benefício dos personagens nelas envolvidos.
Assim, ninguém deixa um país e vai para outro, aleatoriamente...
A natureza, pródiga como sempre, na região “das minas”, ofertou a todos que nelas trabalhassem um sublime porvir de realizações, desde que “se amassem uns aos outros, como a si mesmos”, segundo o conselho de Jesus.
Deus, o Criador de todas as coisas e a Inteligência Suprema do Universo, não deixaria mesmo que Sua obra, do macro ao microcosmo — aí se incluindo todos os seres vivos, dos dinossauros às bactérias, em suas rotas evolutivas — pervagassem no Tempo, quais penas soltas das aves, ao sabor dos ventos.
Não exageramos quando registramos que ali iniciava a História a trajectória de progresso que iria reformular a civilização no mundo todo.
Com efeito, o ouro, abundante no Brasil, aqui não permaneceria:
trasladado para Portugal, cuja corte empobrecida e faminta de mordomias a ele se aferraria qual ave de rapina, também ali não se prestaria ao empuxo dos grandes avanços materiais humanos, antessala dos espirituais.
Agregando-se à Inglaterra, quase que com subserviência, em troca de segurança e manutenção do ilusório padrão de riqueza, as autoridades lusitanas transfeririam para a velha Albion (nome tradicional da Grã-Bretanha, desde Ptolomeu), aquilo que lhe poderia ser frondosa e frutífera árvore, nos gloriosos destinos pátrios:
a alavanca do progresso humano, representada pela "Revolução Industrial”, com o seu elenco de engenhosas e fantásticas invenções, fruto das custosas pesquisas que o ouro brasileiro financiou.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 am

Não podemos, sob pena de optimizar a leviandade, afirmar quaisquer dados sob decisão tomada pelo Plano Celestial.
Contudo, com o respeito necessário, talvez seja-nos dado supor, com redobrada cautela, que o berço dos inventores ingleses, de início, provável tivesse mesmo sido programado para ser lusitano...
Mas, se isso não aconteceu e como nada se perde na natureza, a origem do fulcro do progresso material humano, delineado e perimetrado por inteiro sob orientação do Cristo de Deus, apenas mudou de endereço...
Pois foi sob o comando do Mestre que, a partir do séc. XVIII e séc. XIX uma égide de Espíritos, em reencarnando na Grã-Bretanha, trouxe para a Terra um sem-número de invenções, que alavancou o progresso mundial.
Com isso, menos ásperos os caminhos dos homens, submetidos todos que somos às provas e expiações, todas, decorrência do nosso passado individual e colectivo, nele trilhando multiplicados descaminhos.
Olhando hoje para o passado, não tão distante, do início da Revolução Industrial, seu fantástico progresso, proporcionando tanto conforto material — qualidade de vida —, na verdade foi excelente oportunidade desperdiçada.
Com ela, a Humanidade deveria equilibrar-se socialmente.
Não foi o que aconteceu:
o mundo logo se dividiu em “países ricos” e “países pobres”, menosprezando o exemplo da Natureza, que a todos fornece, gratuitamente, o mesmo ar e a mesma água.
*
O ouro já minerado e fundido, numa estranha, mas segura coincidência, qual a de retornar à origem, estava escondido na terra, por baixo dos vários montes de cupim ali existentes, os quais deixavam entrever que por ali, os insectos estavam sempre a revolver a terra.
O despistamento era perfeito: a ninguém ocorreria procurar ouro debaixo de cupinzeiros...
Essa a forma eleita por Mendonza, para proporcionar segurança àquele tesouro, sobre o qual exercia posse, mas que, em contrapartida, sobre ele também exercia fascínio, a ponto de, dele, ser-lhe escravo.
Severo mal conseguia falar, diante da quantidade de ouro que Tengegê indicou estar ali oculta.
O jovem desenterrou uma barra, totalmente coberta de uma grossa camada de lama escura.
Limpou-a como pôde e entregou-a ao sinhó.
Severo, pegando a barra, de aproximadamente um quilograma, não conseguiu disfarçar um devaneio e acariciando-a, murmurou:
— Na Capital, tu me abrirás as portas do palácio e minha será a atenção de el-Rei.
Tengegê pediu o ouro de volta.
Severo, a contragosto, aquiesceu.
Tengegê “deu um banho de lama escura” na barra e enterrou-a.
Retornaram ao arraial, tendo feito disparos a esmo em alguns pontos do caminho, para não levantar suspeitas daqueles que não faziam parte daquela comunidade.
Desinteressado e quase que por acaso, e sem qualquer pendor para caça, Severo matou algumas pobres aves, aliás, nem mesmo adequadas para alimentação.
Arriscando-se, Tengegê advertiu-o:
— O sinhó me desculpe, mas não recomenda tirar a vida sem necessidade...
— O quê, então?
Agora estás a me repreender?
— Não, sinhó: jamais!
Acontece que o mato é a casa dos bichos que andam e voam, assim como nas águas moram os peixes.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 am

Invadir esses locais e matar alguns dos seus moradores, sem justa razão, desgosta muito a Olorum, que é o Grande Pai.
Aí, as “almas da floresta”, que gostam dos bichos, ficam sentidas...
— Almas que gostam de bichos?
Estás maluco!
— O sinhó não vê que as árvores protegem todos os bichos?
Pois não é de se admirar que muitas almas também morem nas árvores.
Muitos bichos estão treinando, para um dia, ser gente, assim como o sinhó.
— Ah, é?
E tu, não foste um deles?
— Fui, sim sinhó.
E já fui branco também... não andei direito, judiando dos mais fracos — bichos e gente escrava — e agora volto preto, para continuar treinando...
— Treinando para quê, ó rapaz?
— Para ser bom.
Severo emudeceu.
Experimentou grande desconforto íntimo.
— Estás imprudente — desconversou, procurando equilibrar a desvantagem na qual as palavras do ex-escravo o puseram — tome cuidado daqui para frente com o que dizes, pois se os padres te ouvem, arderás no fogo purificador...
Chegando à Vila Rica Zangigi esperava-os, aflitíssimo: Mendonza expirava.
Inevitável o desenlace próximo.
Severo adentrou na tosca residência-sede do arraial, composta de uma só dependência:
grande sala, improvisada de cozinha, sala de refeições, sala de estar, dormitório e escritório.
Dirigiu-se à cama do moribundo.
Os olhos de Mendonza nem estavam abertos, nem fechados, não piscava e sequer mexia um único músculo, a não ser quase imperceptível arfar, após longos intervalos e curtos haustos.
Todos ali intuíam que Mendonza tinha poucos minutos de vida.
Ninguém conseguia dizer palavra.
Foi ele que falou, a custo e em surdina:
— Excelência... excelência...
Severo aproximou-se.
Mendonza, a custo, falou:
— Minha mulher e a filha moram na Espanha, na cidade de Cádis.
Ante o espanto de Severo, explicou:
— Minha esposa é portuguesa...
Casamos em Portugal e vivemos lá algum tempo.
Quando tivemos uma filha, doentinha de nascença, muito doentinha, imaginamos que na Espanha a criança se curasse.
Mas lá piorou.
Não consegui emprego nem recursos, sendo hospedados precariamente por alguns parentes meus.
Um doutor indicou um hospital, lá na cidade do Porto, em Portugal, único onde ela poderia ser tratada, mas com muito dinheiro.
Por isso vim para aqui, em busca de recursos.
Talvez já esteja me esperando, para onde estou indo...
Quero fazer um último pedido:
vossa excelência me atende?
— Ora, pois, homem:
por Deus, diga lá o que queres.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 am

— O ouro... o ouro é meu...
Quero-o para mim... mas vejo uma quadrilha em volta dele... são ladrões perigosos... aparecem e desaparecem no ar...
— Fique em paz, homem, que cá meus soldados acabam com eles.
— Não, seus soldados não os vêem... são almas penadas...
Severo persignou-se e determinou a Tengegê:
— Corra e vá buscar um padre!
— Alma nenhuma — afirmou Severo — rouba ouro ou qualquer outra coisa; aliás, já providenciei que os padres façam orações diárias por aqui.
Fique tranquilo:
pois essas almas de que falas serão as primeiras freguesas dos padres, que por sinal, acabam de chegar.
— Meu pedido...
— Ah, sim: qual é?
— Que o meu ouro seja entregue para minha família...
Minha mulher se chama Veridiana...
Veridiana Raquel y Mendonza...
Imagino que ainda mora na cidade de Cádis, logo na saída da cidade, para quem vai a San Fernando...
Jure o meu testamento...
— ?!
— ... que levará o meu ouro para elas...
Severo sentiu um tremendo mal-estar.
Recusar um pedido de moribundo era tido à conta de pecado mortal, passagem de ida sem volta para o inferno...
Mas, também, jurar em perjúrio era igualmente catapulta para as fogueiras eternas das almas sem perdão...
E o ouro:
tinha que ser só seu, ou melhor, tinha que reparti-lo apenas com el-Rei...
Tengegê e Zangigi olhavam-no fixo, quais pétreas testemunhas cartorárias, diante de um contrato a ser celebrado, entre a Vida e a Morte, ou então, entre ele, Severo, saudável e com poder, e Mendonza, moribundo e completamente desamparado, indefeso...
Agiu por impulso:
— O que for de direito será feito! Juro-o!
Mendonza já não o ouvia.
Os padres, também testemunhas dos últimos instantes de vida do espanhol, pouco entenderam do que ouviram.
Por dever de ofício, ministraram-lhe a unção dos enfermos, pronunciando as palavras sacramentais adequadas.
Zangigi e Tengegê aproximaram-se.
Zangigi colou a testa à do morto, assim permanecendo por um minuto, mais ou menos.
Após, Tengegê repetiu o mesmo gesto, oriundo do cerimonial ioruba à alma que retorna ao Céu.
Severo ajoelhou-se, fez o sinal da cruz e orou três Ave-Marias.
________________________
(*)REALIDADE HISTÓRICA: Só em 1720 Portugal oficializaria as “Casas de Fundição”, paralelamente implantando normas rígidas de fiscalização.
Nos primeiros vinte anos de mineração, sob controlo precário e à sombra do contrabando, imensas fortunas se formaram... o que levou o tráfico de escravos africanos, igualmente sem fiscalização eficiente, a crescer de forma cruel.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 am

7 - Gratidão. Gratidão?...
Cinco meses após, Severo já conseguira estocar grande quantidade de ouro e por isso decidiu que era hora de contemplar Sua Majestade com aquele “régio” presente.
Chamou Henrique, Zangigi e Tengegê e conduziu-os à “área de fundição”.
Aliás, seu filho permanecia a maior parte do tempo naquele sítio, já que Severo não confiava em mais ninguém, quanto ao inventário do ouro que ali vinha sendo fundido e estocado.
Determinou-lhe que permanecesse à frente do comando do arraial, pois iria, ele próprio, comandar a entrega do ouro a el-Rei:
— Sei que com você aqui, meu filho, haverá honestidade.
Dirigiu-se enérgico aos dois africanos:
— Quanto a vocês, respondem pela vida do meu filho e pelo ouro que aqui for guardado.
Quando eu regressar, vocês poderão partir para sua terra.
A vida de vocês todos, africanos, pela vida do meu filho!
A liberdade de todos, também, pelo ouro que lhes entregarei.
Com metade da escolta que dispunha, partiu no dia seguinte.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, recebeu um pedido de audiência de Joaquim, que estava naquela cidade aguardando-o.
Marcou a audiência para dali três dias.
Nesse ínterim, despachou um mensageiro para Lisboa, levando expediente secreto a el-Rei.
Nesse expediente, dava conta das grandes quantidades de ouro existentes no arraial, ao qual baptizara de “Vila Rica”, fazendo celebrar missa, durante a qual foi hasteada a bandeira lusitana, decretando posse de tudo ali.
A bem da verdade, diga-se que Severo, homem extremamente perspicaz, sabedor que os piratas já sabiam do engenhoso segredo das rapaduras de ouro, deduziu que o Atlântico se tornara pequeno para que nele navegasse, indene aos ladrões que o infestavam.
Igualmente, deduziu que se até a tal “mulher do cais”, no Porto, já conhecia tal segredo, sem a menor dúvida, muita gente também o conheceria.
Por isso, na sua carta, informou que aguardaria no Rio de Janeiro a chegada de forte escolta, em reforço à que já dispunha.
Dizia mais, de caso pensado: “piratas, Sua Majestade, os há em grande quantidade, não apenas os “de mar”, mas “de terra” também; estes últimos, os que aqui têm chegado, tenho-os escorraçado; mas a turba que para aqui acorre aumenta dia a dia; assim, encareço suas ordens no sentido de que sejamos contemplados com um batalhão digno de valorosos soldados lusitanos, fortemente armados e municiados, bem como equipamento para melhorar a extracção do ouro, e garantir-lhe a posse, que é de Portugal, como tudo o mais nestas terras”.
Terminou a carta, ladino:
“de gosto, alma e coração, quero passar às mãos de el-Rei o não pouco ouro, que de lá trouxe.
Tal presente” aduzia, “sem guarda reforçada, correrá o risco de trocar de mãos, em plenas águas atlânticas, infestadas estas de piratas”.
Jogava com a cobiça humana.
E ganharia...
— Excelência, Deus vos proteja!
Estou esperando-vos há semanas — choramingou Joaquim, ao iniciar a audiência.
— Para qual propósito? — respondeu Severo, rude.
— Vossa excelência bem o sabeis...
— É uma bela trapalhada, esta, do teu filho.
Se el-Rei souber que queres desviar ouro da corte para os piratas, não sei, não, talvez tu vás para as masmorras...
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:48 am

Joaquim, decidido a não fraquejar, enfrentou-o:
— Melhor a prisão do que o além...
— Ameaçar, a mim, que sou o bastante emissário de el-Rei?!
— Não me refiro a vossa excelência, mas à vossa filha, que se enamorou de Quintino e prometeu matar-se, caso ele morra.
Como vê, excelência, esta embrulhada, armou-a os dois, não nós.
Pela boca dos vossos filhos vazou a notícia de vosso ouro, em forma de rapaduras, pelo que, como já sabeis, andei fazendo uma trapalhada dos diabos, invadindo vossa quinta, do que me penitencio.
— Este é um ponto que a justiça da nossa terra decidirá, no tempo certo.
Mas não admito que culpes meus filhos de nada.
— Se nos debatermos em achar culpados, onde isso irá terminar?
Não será melhor atender esse pirata e resolver tudo de uma vez?
— Quem te disse que piratas se contentam com uma recompensa?
Fiques sabendo que se os atendermos, jamais estaremos seguros, eu, tu, nossas famílias...
Estarão sempre nos chantageando.
— Tendes alguma razão, mas, o que podemos fazer?
— Só há um jeito:
sequestrar o sequestrador, o pirata!
— Mas...
— Não há alternativa:
a vida do pirata-chefe pela do teu filho.
Por mais que Joaquim argumentasse, tentando demover Severo daquela arriscadíssima empreitada (para Quintino), não o conseguiu.
Sabedor que um contacto dos piratas deveria ser feito com Joaquim, no porto do Rio de Janeiro, Severo requereu uma reunião confidencial com o governador:
— Excelência, tenho grande zelo para com o tesouro real.
A autoridade mexeu-se na cadeira, em extremo desconforto...
— Ainda há uma semana, quando aqui cheguei, despachei um mensageiro para Lisboa, levando expediente secreto para el-Rei, dando conta das grandes jazidas de ouro existentes lá “nas minas”.
O governador deu um pulo, não se contendo, olhos arregalados.
Severo, impassível.
Prosseguiu:
— O ouro, que é de Portugal, está sob cobiça dos piratas, pois algum alcaguete deixou transpirar tão importante descoberta.
— Temos que pedir reforços — bradou o governador.
— Já o fiz.
De vossa excelência, no momento, preciso de uma operação marítima militar delicada, delicadíssima.
— O que vossa excelência determinar.
— Pois bem:
há um pirata que sequestrou meu futuro genro e pede ouro, como resgate.
Quero eliminá-los, a todos.
— Aos piratas e ao genro?!
Severo fulminou o patrício com o olhar:
— Ora, ora, não brinques:
o pirata-chefe e seus comparsas.
Narrando os detalhes que Joaquim lhe passara, foi combinada uma armadilha para aprisionar os piratas.
Joaquim de nada seria informado, para não atrapalhar o plano.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:49 am

Seria apenas usado como intermediário do resgate do filho.
De facto, em poucos dias, os piratas contactaram com Joaquim, marcando um encontro no porto do Rio de Janeiro, dentro de dois dias.
Severo quis testemunhar os acertos para o resgate e foi com Joaquim ao local indicado pelos piratas.
Lá estava a mulher que Joaquim vira em Lisboa e que dera a primeira notícia do rapto de Quintino.
Conversaram e foi decidida a entrega do ouro restante na noite seguinte.
Instruído por Severo, Joaquim informou que o ouro já estava à disposição deles, no porto de São Gonçalo (cidade situada na orla da Baía da Guanabara, no chamado maciço de Niterói, permeado este de colinas; à época, pequeno povoado pertencente à jurisdição de Niterói).
Como a mulher ficasse desconfiada quanto ao local, Severo interferiu e justificou:
— Se fizermos essa operação no Rio de Janeiro vai chamar a atenção das autoridades.
Já em São Gonçalo isso não acontecerá... ali, à meia-noite, como sugiro, faremos a troca, do raptado pelas “rapaduras”.
— Também mudamos nossos planos — falou mansamente a mulher, acrescentando:
agora, queremos quinze rapaduras, desde que cada uma tenha um quilograma de ouro.
O ouro que o pai do Quintino nos deu, foi gasto com essa demora e a viagem até aqui.
Joaquim ia protestar, mas Severo adiantou-se e concordou.
É que, novamente jogando com a cobiça humana, deduziu, com acerto, que os piratas viriam num único navio, para não terem que dividir o resgate, como era a lei dos piratas, quanto a um butim.
Na noite seguinte, a ausência do luar e o céu fechado, foram aliados não intencionais de Severo:
numa bem equipada canhoneira, acendendo apenas a metade dos lampiões, e mesmo assim com luminosidade fraca, aguardou a chegada dos piratas.
Quando estes se aproximaram, a considerável distância ancoraram e passaram a trocar sinais previamente combinados.
Decorrida uma hora, como combinado, aproximaram-se...
Joaquim, sem se dar conta da operação tramada, tremia.
Percebendo-lhe o nervosismo, Severo acalmou-o:
— Fique em paz, homem:
teu filho logo estará contigo.
O combinado era que uma canoa sairia de cada navio, para encontrarem-se no meio do percurso entre os barcos, quando o ouro deveria ser entregue aos piratas.
A seguir, poderiam ir até o navio pirata, para apanhar Quintino.
A canoa do navio de Severo, contudo, saiu antes, tendo seis remadores (guardas, na verdade), e por isso aproximou-se do navio dos piratas, quando a canoa deles mal acabara de iniciar o trajecto.
Um dos guardas gritou:
— Temos cá as rapaduras para o capitão.
Sem perda de tempo, surpreendendo os piratas, entregaram cinco barras de ouro.
Os piratas voltaram e as entregaram ao seu chefe.
Os guardas, escolhidos a dedo por serem exímios atiradores, disfarçados de pescadores, levavam suas armas sob os bancos da canoa.
Joaquim desconhecia isso.
Com jeito, usando apenas as mãos, fizeram a canoa ir se aproximando do navio dos bandidos.
Um dos guardas gritou para o capitão do navio dos piratas:
— Nosso chefe pede para vossa senhoria colocar o jovem Quintino aqui na nossa canoa e então ele mandará outra canoa, trazendo as dez rapaduras que faltam.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:49 am

— Não foi isso o combinado:
o ouro todo pelo rapaz...
Joaquim não se conteve:
— Mas, vossa senhoria, já demos a terça parte e nós nem vimos meu filho...
— Não seja por isso.
Mediante ordem do capitão pirata, Quintino foi trazido, amordaçado e com os punhos amarrados.
Joaquim implorou:
— Deixem o menino connosco e o resto do ouro logo estará aqui.
Impacientando-se, o pirata arriscou.
Imaginava que a vida de Quintino não seria posta em risco em nenhuma tentativa de burlá-lo.
A canoa com os guardas havia se aproximado um pouco mais...
Afagando as barras de ouro, o chefe dos piratas desconcentrou-se da segurança, desapercebendo que a canoa com Joaquim estava agora a menos de dez metros do seu navio.
Quintino foi posto na canoa do pai, que abraçou-o e dele não se desgarrou.
Um pirata estava com um mosquete apontado directamente para a cabeça do sequestrado.
O pirata chefe advertiu:
— Não tentem nenhum golpe contra nós, senão, o jovem será o primeiro a viajar para o inferno...
Nossa canoa irá buscar as dez rapaduras que faltam.
Só depois vocês serão liberados.
Contava ele com o zelo que o próprio pai teria para com o filho, não permitindo mesmo que o trato fosse descumprido.
Mas Severo dera ordens expressas para os guardas:
assim que Quintino estiver na canoa, atirem no capitão.
Esse seria o sinal para os canhões reais liquidar com os piratas...
A seguir fingiu que arrumava as sandálias e num gesto certeiro, dirigiu o mosquete para o pirata que ameaçava Quintino e disparou, mesmo sem ângulo adequado, mas acertando em cheio no bandido, que teve morte instantânea.
De qualquer forma, o sinal fora dado.
Remando vigorosamente, os guardas alcançaram a canoa dos piratas e os eliminaram.
Logo, saíram da linha de visada do navio pirata, que em menos de três minutos foi impiedosamente alvejado por três canhoneiras.
Severo planeara mesmo atacar os piratas de qualquer forma, mesmo com risco de perder Joaquim, Quintino e seus guardas.
Para tanto, solicitara que três canhoneiras lhe dessem poder de fogo, capaz de liquidar os bandidos, sem possibilidade de fuga.
Como as canhoneiras são ligeiras, caso os piratas conseguissem se safar dos tiros de canhão e fugir, seriam facilmente alcançados, antes mesmo de sair da Baía da Guanabara.
Esse o plano. Que prosperou.
O barco dos piratas, sofrendo avarias de monta e em chamas, logo afundaria.
Surpreendidos, os piratas sequer tiveram tempo de reagir.
Os que puderam, e foram pouquíssimos, atiraram-se ao mar.
Em meio ao inferno das labaredas, com alguns piratas gravemente feridos e quase à morte, ouviu-se o grito estentórico do capitão:
— Miseráveis!
Vocês roubaram nosso ouro!
Traidores!
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:49 am

Abraçado às cinco barras de ouro, sob cujo fascínio descuidara da segurança do seu navio e da sua tripulação, o pirata, perdendo o senso da realidade, olhava embevecido ao ouro, que mais reluzia sob o clarão das chamas.
O tresloucado bandido teve ali encerrada sua existência de vários crimes hediondos, imaginando, em desvario total, que seu navio logo teria todas as chamas apagadas pelo mar...
Sequer deu-se conta que isso representaria seu fim.
Absolutamente hipnotizado pelo ouro que lhe pesava nas mãos, afundou com o navio, alheio aos pungentes quadros à sua volta, com tantos homens desesperados, a gritar de dor e agonia, ante o pavor da morte, que inexorável, alcançou-os.
Como “tiro de misericórdia”, um último projéctil pôs fim à longa carreira de assaltos daquela triste embarcação, cuja tripulação a morte também desmantelara.
E assim, de forma melancólica, para o fundo do mar foram seus escombros:
no quase sempre insondável abismo marinho, por certo alguns séculos haveriam de passar, antes que se diluíssem os fluidos negativos que os imantavam.
Mesmo vendo ir a pique a nau pirata, Severo, agora travestido de “grande almirante”, segundo se auto-denominara, determinou ao pessoal de ataque que gastasse toda a munição sobre ela.
— Mas, senhor — indagavam aflitos os canhoneiros —, atacar o quê?
Eis que o navio já afundou...
— Não importa:
sei o que faço.
Lancem fogo naquela direcção!
Os homens, mesmo nas sombras da noite, entreolharam-se e com os olhos, sob o sinistro brilho das tochas, estabeleceram instantâneo entendimento:
o objectivo de dom Severo era liquidar os inúmeros possíveis náufragos.
Espantosamente cruel!
Miquéias, o chefe dos canhões, agindo também de pronto, num gesto de perícia, alterou a inclinação das armas, facto só percebido pelos atiradores.
Estes captaram a intenção do chefe e a ele se solidarizaram.
O gesto demonstrava respeito à lei dos mares, de todos os tempos, que proíbe crueldade para com as vítimas de qualquer tipo de naufrágio — mesmo que se tratando de inimigos, ou conforme ali, de piratas.
Assim, sabem os marujos que o mar é um dos grandes justiceiros do mundo e não necessita de carrascos, aos quais, inclusive, cedo ou tarde, alcança e lecciona-lhes fraternidade.
No caso, em dolorosa lição...
Propositalmente, a munição foi toda gasta, mas os tiros, lançados a esmo, não caíram nas proximidades de onde alguns poucos piratas ainda se debatiam em desespero, diante da morte iminente.
Apenas dois piratas se salvaram, por uma conjunção de factores:
em primeiro lugar a escuridão, além disso, não tinham se ferido, eram exímios nadadores e pequenos pedaços de madeira serviram-lhes de prancha, para manterem-se boiando com menos esforço, empregando suas forças, sim, para se afastarem o mais rápido possível daquele inferno paradoxal de chamas em meio a tanta água, reunidos em triste e mortífera simbiose.
Ninguém viu que uma terceira canoa, oculta pela escuridão, com uma mulher remando-a, tirou-os do mar...
A mulher a tudo assistira: odiou Severo...
Quando Joaquim subiu a bordo da vitoriosa canhoneira, seguido de Quintino e dos remadores-guardas, Severo aguardava-os, pomposo.
Personificava o “grande combatente, após vitória espectacular”.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 12, 2017 8:49 am

Trémulo, em estado de choque, Joaquim aproximou-se:
— Tu te portaste mil vezes pior do que aquele pirata!
Jogaste com a vida do meu Quintino, com a minha e daqueles pobres remadores, cuja consciência, certo, compraste.
Não te mato porque sou cristão, mas antes, principalmente, porque não tenho cá uma arma.
— Bem ingrato me sais desta empreitada, que o maluco do teu filho arranjou.
Então é assim que mo agradeces?
— Agradecer-te?!
Homem: olha para lá, onde mandaste as balas dos teus canhões explodir os pobres marujos.
Esta é a primeira vez que o mar vê, com repúdio e vergonha, alguém atirar em pobres marujos com canhões.
— Pobres marujos?!
Perdeste o senso, de vez.
São, ou melhor, eram piratas cruéis, que já mataram muita gente e por pouco não cortaram a goela do teu linguarudo rapaz.
E vens me acusar, a mim, de crueldade?
— E se meu Quintino morresse?
— O mundo ficaria livre de um língua solta...
Quintino, até então refreando a raiva crescente que o invadia, não se conteve e num gesto felino, facilitado pela sua juventude e pelo bom estado de saúde em que surpreendentemente se conservara, alcançou Severo, esganando-o.
Foi contido por marinheiros que, tensos e assustados, a tudo assistiam.
Deram-lhe uma pancada na cabeça, tonteando-o.
Cambaleando e fazendo voltas sobre o próprio eixo, acabou por cair.
— Acorrentem esse infame — determinou Severo, com olhar incendiado de ira e a voz rouca, que lhe saiu a custo da garganta.
Agora foi Joaquim quem partiu agressivamente para cima de Severo.
Sem a agilidade do filho, com facilidade foi impedido.
— Os dois! Os dois!
Aos porões com os dois — gritou Severo.
O governador não quis se indispor com o intendente-mor, mas mesmo assim o aconselhou:
— Não será de bom tom que vossa excelência faça os dois patrícios parecerem bandidos.
Concordo que não se lhes assiste direito de te agredir, mas também não é prudente tratá-los como “foras-da-lei”, que lá isso são os piratas — que o inferno os acolha —, não eles.
Se mo permites, melhor será repatriá-los.
Com urgência, pois não?
— Tens razão, excelência.
Eu próprio os levarei e entregarei à Justiça.
Assim, requisito forte escolta para comigo ir à Pátria, entregar a Sua Majestade o ouro que Portugal tanto necessita, para sua glória, para sua paz...
Dois dias após, três navios estavam para partir para Portugal, sob comando de Severo.
O ouro já estava a bordo, acompanhado de mais de cem carabineiros.
Dois prisioneiros, mantidos em dependências fechadas, iam também:
pai e filho, Joaquim e Quintino.
Severo estava radiante, pois era grande a saudade da família.
Além disso, levava uma carta oficial do governador a el-Rei, relatando com detalhes o aniquilamento dos piratas, “perigosos inimigos de Portugal”, aos quais dom Severo esmagara, com bravura indómita.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:23 am

Em post-scriptum, o governador, com “humildade crescente e devoção à Sua Majestade”, pedia permissão para sugerir que o ilustre intendente-mor “das minas”, Severo Cantilhão, fosse laureado com alta comenda lusitana, “pelo tanto amor à Pátria, eis que arriscara a própria vida em boa defesa do tesouro de el-Rei”.
Mas os fados nem sempre seguem os roteiros desejados...
Faltando pouco menos de uma hora para a partida, chegou estafeta da Vila Rica, mandado por Henrique, trazendo expediente ultra-secreto para “Dom Severo - intendente-mor, emissário no Brasil do Rei de Portugal”.
Ao abri-lo, Severo empalideceu:
dava conta de grande assalto ocorrido no recém-inaugurado arraial, sendo que os ladrões haviam levado todo o ouro estocado, que já não era pouco.
Trepida por aqui a ordem e a lei, concluía Henrique, em tom temerário.
Severo mudou os planos:
cancelou sua ida a Portugal e solicitou ao governador que nomeasse alguém de “alta confiança” para conduzir o ouro para Lisboa e entregá-lo a el-Rei.
Cinquenta guardas fariam a escolta do ouro até Portugal, a ser levado em esquadra.
Os outros tantos os levou consigo de volta ao arraial.
Avisou a autoridade:
— Irei à Vila Rica, mas logo retornarei.
Nesse ínterim, peço a vossa excelência que mantenha os prisioneiros em palácio, cerceada a liberdade deles de ir e vir.
Sem poder sequer disfarçar a angústia que lhe ia na alma, dom Severo contratou mais guardas, formou forte contingente de mosqueteiros, às pressas, equipou-os bem e partiu.
Com o coração cheio de ódio dos ladrões, que tinham roubado “o seu ouro”, as saudades da família eclipsaram-se.
Aliás, Severo tinha mesmo saudades da família, mas estas tinham a duração do relâmpago:
invadiam sua alma num instante, mas logo se desvaneciam.
Assim como à noite os relâmpagos são tragados pela escuridão do céu sem Lua e sem estrelas, nele a lembrança e a saudade da mulher e das duas filhas logo eram sobrepujadas pelo invencível e eterno clarão do ouro polido.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:24 am

8 - A cor, o som e a voz do ouro
O desejo de fortuna cria sonhos-pesadelos que andam de par em par com a cobiça pelo ouro, que não foi colocado na Terra, sem um bom propósito, como todas as demais criações de Deus.
Até aqui, o maior emprego do ouro tem sido aplicá-lo em jóias, moedas.
Foi eleito “padrão monetário” das nações, sendo que a produção mundial hoje se encontra, quase que integralmente, em depósito nos Bancos, maioritariamente dos países ricos, como lastro financeiro.
E esse é um dos tristes equívocos do homem:
tirar um bem do seio da terra, onde dormia sono milenar, para mantê-lo ocioso, em cofres inexpugnáveis, sabe Deus até quando.
Sem exagero, pode-se até imaginar que o ouro, ao ser encarcerado (eis que é mantido em segurança pelos meios mais sofisticados de segurança anti-roubo), até parece que é considerado como “mau elemento”, ele que, na verdade, pelas suas características, situa-se entre os melhores elementos naturais.
O ouro, esse mal compreendido presente divino, em estado puro, vem sendo, desde há muito tempo, senão o mais, um dos mais cobiçados dentre os frutos colhidos da terra, graças às suas excepcionais propriedades:
densidade, ductilidade (elasticidade, flexibilidade), sendo inalterável ao ar e à água, em qualquer temperatura.
É o mais maleável de todos os metais.
Presta-se a formar liga com vários outros elementos naturais (cobre, níquel, prata, etc.) .
No dealbar dos milénios porvindouros, outra será a realidade terrena, constituindo-se em tristes lembranças o mau uso feito pelo homem de tudo aquilo que o Criador situou no planeta e ofertou-lhe.
O verdadeiro uso do ouro, benéfico, ainda não foi totalmente descoberto pelo homem, cuja moral, envolta em cobiça, embaça a inteligência, esta com a capa da ganância do e pelo poder.
Quando o coração do homem despertar para o entendimento de que Deus é a Inteligência Suprema do Universo, fará humilde conjectura, diante de quaisquer seres ou materiais, até aqui, muitas das vezes, em apressado juízo, considerados imprestáveis:
“Se Deus colocou isso no mundo é porque tem utilidade; se por enquanto não sei qual, não me assiste, em absoluto, o direito de desprezá-la; o tempo dirá para que sirva.
De uma coisa, porém, estou certo: tem objectivo, no mínimo, pedagógico”.
Insectos e plantas venenosas estão nesse quadrante:
são seres primários, em árduas lutas evolutivas, sobrevivendo ao permanente ambiente agressivo em que se situam e assim mesmo vivendo pouco tempo.
Metais, sob fundição, decomposição ou agregação a outros metais ou outros componentes, todos eles têm a sua dimensão de auxílio à vida na Terra. Jamais se deverá empregá-los como lastro monetário.
O ouro, mudo no exterior, é talvez dos metais o que mais estrondosos ruídos promove no interior das almas que, sequiosas por possuí-lo, se deixam envolver pela ânsia de riqueza maior.
Aí, perdendo o abrigo no seio da terra e ganhando cor e brilho pelo polimento, infelizmente se recobre de densa matéria fluídica, de que a cobiça humana é a fabricante maior.
Tão estridente é o som do ouro na mente daqueles que sofregamente o buscam, ou dos poucos que o detêm, que uns e outros, desprezando-lhe a voz que recomenda emprego humanitário, quedam-se também surdos à voz da consciência.
E, tal surdez, sempre desagua em tristezas, maiores ou menores, quando não, em tragédias.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:24 am

*
Chegando a Vila Rica, dom Severo inteirou-se dos factos ocorridos na sua ausência, tendo em Henrique, fiel e zeloso subordinado.
Entre surpreso e feliz, constatou que seu filho e Tengegê entendiam-se bem.
Entre Henrique e Tengegê havia se estabelecido forte amizade, fruto da empatia espiritual que de início brotou entre eles:
jovens, de culturas diametralmente opostas, essa diferença foi o fiel da balança que equilibrou a pungente disparidade social entre ambos, harmonizando-lhes o convívio.
Na exuberância das montanhas, cachoeiras e matas, até então quase que intocadas, quais testemunhas vivas da prodigalidade da natureza para com os homens, com maior influxo espiritual aquelas duas almas se aproximaram.
Revitalizou-se, ali, em pleno sertão bravio, o axioma formal que reza:
“os contrastes se atraem na razão directa das suas diferenças”.
Na verdade, sintonia espiritual sobrepujando “diferenças sociais”...
Um fato extraordinário deixou Severo perplexo:
embora soubesse que cedo ou tarde haveria grande influxo de gente para ali, não esperava que isso acontecesse tão depressa.
Com efeito, a Vila Rica já contava, nesse pouco tempo, com centenas de aventureiros — maioria, europeus —, muitos deles que estavam esparsos pela Colónia e que, de uma forma ou de outra, para ali acorreram, ante a notícia do achado do ouro.
Por mais que Henrique, Tengegê e agora o próprio Severo diligenciassem para identificar quem havia roubado o ouro, nada conseguiram apurar.
O roubo foi cometido com violência, pois todos os guardas do depósito onde estava aquela fortuna foram eliminados.
Dos guardas restantes, a maioria desertou.
Agindo com rigor, Severo implantou rígidas normas de segurança, inclusive fazendo um cadastro meticuloso de quem entrava e de quem saía da Vila Rica.
No fundo, agradeceu a Deus por Henrique não ter sido morto pelos ladrões.
Como Severo — e somente ele — detinha autorização de el-Rei de Portugal para distribuir lotes de terra, tratou logo de implantar o “quinto”, isto é, 20% de todo o ouro extraído deveria ser tributado à Coroa Portuguesa.
Para controlar a produção, estabeleceu também fiscalização nos pontos de acesso e saída das minas.
Para cumprir tal decisão, dividiu os mosqueteiros, situando-os nos pontos estratégicos.
O homem põe e Deus dispõe, diz o povo, sabiamente.
Por seis meses Severo não pôde afastar-se da Vila Rica, tantos eram os problemas.
Então, novo infausto acontecimento viria alvoroçar toda a região: embora sob forte escolta, foi roubada considerável parte do ouro lavrado e ajuntado sob a responsabilidade de Severo.
Cerca de trinta soldados, mesmo fortemente armados, foram dominados e não puderam impedir o saque.
Aliás, esses soldados estavam embriagados na hora em que foram surpreendidos pelos ladrões, alta madrugada.
Só no dia seguinte, quando os primeiros lavradores levantaram, foi descoberto o grande roubo.
Alguns soldados ainda dormiam, alcoolizados; outros estavam amarrados em árvores e amordaçados, sendo que dois estavam mortos, por não resistirem ao tormento das cordas, brutalmente imobilizando-os; outros tantos, simplesmente debandaram, pois se ficassem, com certeza seriam fuzilados, pela sua incúria com o ouro do rei.
Severo, quando soube, por pouco não teve uma síncope.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:24 am

Os soldados que haviam se embriagado e os demais, que estavam a postos e foram subjugados, foram destituídos da função.
Após tremendas e sucessivas surras de chibata, foram conduzidos para longe dali e abandonados em região inóspita.
Sem quaisquer recursos, jamais se soube que algum deles tenha sobrevivido.
Lei vigente no Reino determinava que “todos os que, por incompetência ou por dolo, gerassem actos lesivos à Coroa lusitana, deveriam ser enviados para o outro mundo, para serem julgados pela Providência:
se inocentes, seriam perdoados (salvos), mas se culpados, seu endereço: as fornalhas infernais”.
Severo julgou que cumprira a lei...
A seguir, usando experientes capitães-do-mato, armou e equipou um pelotão de guardas, sob seu comando directo, para ir ao encalço dos ladrões.
Deduziu que os bandidos não poderiam ir depressa:
além de levarem o ouro, pesado, teriam que se utilizar de atalhos, correndo o risco de serem surpreendidos se utilizassem as vias principais.
E, naquela época, evitar as vias principais, significava que outro percurso demandaria redobrada energia e tempo.
Tengegê foi designado para ir à frente de todos, pois ninguém melhor do que ele conhecia aqueles sertões.
Henrique, nem precisou insistir para que o pai o autorizasse a fazer parte daquele agrupamento, de mais de cem homens.
Com três horas de buscas, Tengegê lamentou:
— Sinhó Severo, tenho uma coisa triste para falar.
— Não quero saber das suas tristezas.
Continue em frente.
À chegada da noite, acamparam.
Henrique, conquanto jovem, mas sem preparo para tais empreitadas, sentiu que era preciso entregar-se logo ao descanso, indo antes, atender a necessidade fisiológica.
Levando pequeno lampião, afastou-se um pouco do grupo.
Ao pousar o lampião na relva, não percebeu que tocou de leve numa cobra, que desperta pelo clarão e pelo toque, num bote, mordeu-lhe o braço.
Mais devido ao susto do que propriamente à dor, Henrique gritou.
Tengegê, ágil como sempre, foi o primeiro que o socorreu, a tempo ainda de ver pequena serpente fugindo no mato rasteiro e logo embrenhar-se em alguns arbustos.
Não tardou e Henrique começou a sentir tontura e ânsia de vómito.
Aflitíssimo, Severo não sabia o que fazer.
Se ao menos Zangigi estivesse ali...
Ele que tinha tanta sabedoria para tratar desses problemas.
Vendo o filho passando mal, Severo desesperou-se:
— Meu filho!
Meu filho está morrendo!
Tengegê ofertou:
— O sinhó deixa... o Gangê cuidar dele?
— Gangê?! Quem é?
Onde está?
Traga-o sim, mas depressa.
— É o meu amigo que morreu lá na África, ainda criança...
— O quê?! Estás a me dizer que vais buscar uma alma para salvar meu rapaz?
Estás doido?
Precisas é da santa fogueira, isso sim, para purificar-te.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:24 am

Como atestado veemente de superioridade moral, indene à terrível ameaça de tom inquisitorial, o jovem africano ajoelhou-se, colocou os braços à frente, curvou-se até encostar a testa no chão e pediu:
— Oi, Gangê, se Olorum permitir, vem ajudar meu amigo, senão ele vai logo para aí.
Se os orixás sabem se ele deve continuar nesta vida, pede para eles ajudarem você a tirar do corpo dele aquela coisa que a coitadinha da cobra usou para se defender.
Severo, homem europeu, já recebido em palácio por el-Rei, deu-se conta que ali, o mais bárbaro primitivismo, segundo julgava, sobrepunha-se ao reluzente e hipócrita verniz social que conhecia.
E mais: aquela cerimónia tão contrária à Santa Inquisição, por paradoxal que fosse, era a única esperança de salvação do seu filho.
Congestionando seus pensamentos, o facto da cobra ser chamada de “coitadinha”...
Tengegê, em poucos instantes, deu um salto do chão e com voz desarticulada, mas de grande teor magnético, determinou:
— Fogo, faca, folhas de beladona, cachaça e ouro!
A ordem era para Severo.
Que a cumpriu, presto.
Em instantes, entregou a Tengegê o lampião, uma caneca com cachaça e uma pepita, que tirou das algibeiras; da grossa cinta, desembainhou sua faca de mato, passando-a ao africano.
O óleo do lampião foi derramado no chão e logo foi ateado fogo, sob a caneca.
— Duas! — ordenou Tengegê-Gangê.
Severo tirou outra pepita do bolso e entregou-a.
— A beladona!
Severo submeteu-se:
— Já mandei vir.
Estão providenciando...
— Tem atrás daquela pedra grande!
Ele próprio saiu correndo, sem nada ver, na direcção indicada, levando outro lampião, maior; logo divisou mesmo a tal pedra grande e junto dela, vários pés de beladona, verdejantes...
Apanhou grande quantidade de folhas e voltou esbaforido.
O jovem Tengegê, no momento sob comando espiritual de Gangê, em perfeita actividade mediúnica, colocou as folhas verdes na caneca com as pepitas, a faca e a cachaça, esta, já fervente.
Logo, apagou as chamas com a mão e a seguir pegou a faca e fez um pequeno corte na veia posterior ao cotovelo de Henrique e sugou o sangue.
Em instantes, sua boca estava cheia de sangue, que cuspiu para longe.
Tomando as duas pepitas na mão direita, simultaneamente colocou-as sobre o local da picada e com a esquerda pôs as folhas chamuscadas sobre elas, cobrindo o corte que ali efectuara.
Estranho, quase inacreditável:
nem ele se queimou, manipulando material tão aquecido, nem Henrique, que embora respirando com fortes e espaçados impulsos pulmonares, não sinalizou ter sentido a menor dor, nem pelo corte, nem pelas pepitas, que quase incandescentes, promoveram assepsia nos tecidos atingidos pela mordedura, evitando a gangrena.
Tengegê-Gangê permaneceu por cerca de quinze minutos comprimindo o local do corte e da picada, aliviando a pressão, mais ou menos de minuto a minuto.
Severo, em choque, pouco podia raciocinar.
Voltou a si e reequilibrou-se em parte, quando Tengegê-Gangê advertiu:
— Se o sinhó continuar nessa vida de só querer ouro, vai acabar ficando sozinho, ou melhor, só terá muitos problemas.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:24 am

— Quem é você?
— Sou amigo do Tengueguê e do seu filho.
Olorum atendeu pedido de dois amigos do seu filho:
o Tengueguê e eu, Gangê.
— Ele vai ficar bom?
— Vai.
Tengegê estremeceu e como que despertando de um breve sono, vendo Henrique em plácido repouso, com o estranho curativo no braço, assimilou o clima, no qual as duas pepitas provocaram pequenas queimaduras.
Já tinha visto aquela cena várias vezes:
sempre que uma pessoa do seu povo era mordida por uma cobra, Zangigi era chamado para realizar aquele curativo, só que na África eram usadas pedras, e não pepitas.
Mas ali, com sabedoria ímpar, a Espiritualidade valeu-se da oportunidade para mostrar a Severo que o ouro, no mínimo, tinha outra serventia, que não a riqueza...
No dia seguinte Henrique despertou, como se nada tão grave houvesse acontecido.
Só a beladona e as pequenas queimaduras o incomodavam, mas logo se conformou em manter o cuidado devido.
A expedição de busca aos ladrões prosseguiu e não tardou para que os vestígios de sua fuga aumentassem...
O grande trunfo era Tengegê, que tinha apuradíssimo senso de direcção, além de invulgar capacidade para identificar sinais e odores.
Não tardou e os ladrões foram surpreendidos, sem condições de fuga, pois eram em número bem menor.
Para espanto de todos, foram identificados:
Quintino e os dois piratas que sobreviveram ao ataque da canhoneira comandada por Severo chefiavam a quadrilha; um desses piratas era irmão de um dos remadores da canoa de resgate, também ali aprisionado, o qual dera todas as informações ao grupo de salteadores; além deles, cerca de dez soldados, desertores, que haviam se infiltrado na guarda de Severo, facilitaram o roubo, embebedando os colegas; espanto maior, contudo, foi verificar que também ali estavam os cinco ex-escravos fujões.
Quintino conseguira burlar a frágil vigilância da governadoria do Rio de Janeiro e formara a quadrilha.
Severo, agora sim, sentiu-se mais importante que o seu rei:
julgou-se abençoado pelos Santos católicos, aos quais prestava devoção.
Com o filho salvo, os ladrões aprisionados e o ouro recuperado, sua autoridade era total.
Lembrou-se de algo e dirigiu-se a Tengegê:
— Disseste-me que tinhas algo triste a relatar...
— Era para avisar ao sinhó que estivesse preparado para a ingratidão, cujo remédio nem sempre é o castigo.
— Quintino...
— Ele mesmo!
Retornando à Vila Rica, onde mantinha sede e base das operações mineradoras e de arrecadação, separou os prisioneiros, mantendo amarrados e amordaçados os brancos e colocando os negros em instrumentos de tortura.
Assim, procedendo a meticulosos interrogatórios, ficou sabendo que o roubo fora planejado pelo seu futuro genro, contando com a ajuda de dois piratas que se salvaram do naufrágio que ele impingira aos sequestradores do próprio Quintino. Um dos náufragos era irmão de um dos guardas a serviço da governadoria, o qual conhecia a Vila Rica e foi ele que deu as indicações que possibilitaram o roubo do ouro, pois muitos foram os guardas que foram aliciados.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:25 am

Porém, o que realmente machucou os sentimentos de Severo foi o facto de que Quintino comandara aquele bando de ladrões.
Quanta ingratidão: salvo com seu ouro, que se perdeu no fundo do mar, urdira aquele monstruoso crime de roubar o ouro de el-Rei.
E, certamente, com o beneplácito de Joaquim, seu pai.
Sentiu ali, em meio às selvas, como o coração humano, por vezes, se mostra muito mais ardiloso que os animais predadores, os quais, para sobreviver, utilizam a funcionalidade orgânica que a Natureza lhes concedeu, ao passo que os homens maus, usam a inteligência, a traição e a crueldade, para conseguirem fortuna e poder.
Lei para aquele e para os outros rudes e incipientes povoados próximos, nos quais se multiplicavam as “minas de el-Rei”, ele, Severo, as promulgava.
Mandou fuzilar os cinco escravos, os guardas traidores, os piratas e o remador.
Talvez por se lembrar das palavras de Tengegê sobre a ingratidão, talvez por lembrar-se de sua filha, fosse porque fosse Quintino foi poupado, mas mantido prisioneiro, incomunicável, por tempo indeterminado.
Na próxima viagem a Portugal, pessoalmente levaria Quintino e Joaquim, para serem julgados.
Aliás, o futuro genro seria preciosa peça de comprovação de sua lealdade à Coroa lusitana e da competência na administração das minas.
O terror implantou-se na Vila Rica e região, a partir daqueles tristes acontecimentos.
Severo, agora, já não dormia em paz, levantando-se alta madrugada, todas as noites, para rondar o acampamento.
Exigiu maior atenção dos guardas, principalmente os do turno da noite.
Várias tentativas de contrabando foram frustradas e os culpados, como sempre, eram levados para longe, sem recursos, para “se justificarem com Deus”.
Em dez meses de árduos trabalhos e de permanente fiscalização, três toneladas de ouro estavam estocadas.
Era hora de visitar el-Rei...
Partiu, deixando Henrique como encarregado geral das minas, concedendo-lhe por escrito autoridade para gerir os bens que ali prosperassem, todos pertencentes a el-Rei.
Em árdua expedição, rumou para o Rio de Janeiro, e de lá, para Portugal.
Levava, além do ouro, dois prisioneiros:
Joaquim e Quintino.
Foi recebido com pompa pelo Rei, ao qual solicitara audiência, não sem antes declarar o motivo que o levara a vir pessoalmente entregar às mãos reais o que, por graça de Deus, era de direito de el-Rei.
Narrou os episódios referentes à libertação de Quintino, seguidos da ingrata agressão de Joaquim, por culpa de quem, aliás, o mar engoliu pouco ouro da Coroa.
Relatou com detalhes o episódio do roubo chefiado por Quintino.
De imediato, pai e filho, ingratos traidores da Pátria, foram enviados às masmorras, “de onde só sairiam quando Deus os convocasse para prestar contas de tão grandes pecados”.
Retornando à sua casa, após tão longa ausência, Severo narrou os acontecimentos sem omitir a prisão perpétua de Joaquim e Quintino.
Pensou: melhor eu contar a verdade, do que sua família vir a saber sobre tudo aquilo por outras fontes, certamente com deturpações.
Ouvindo o pai, Carlota desesperou-se:
— Meu pai, como o senhor fez uma coisa dessas?
Estou há quase dois anos esperando o Quintino para me casar com ele e o senhor o joga na prisão?
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:25 am

E o meu casamento?
Nós nos amamos.
Mesmo aguardando tal reacção, Severo não soube como responder, nem como administrar tão doloroso impasse, pois Carlota ameaçou:
— Ou o senhor providencia a liberdade dele ou...
— Ou o quê, mocinha?
— Só terá dois filhos...
— Outra vez com ameaças de te matares?
Antoninha abraçou a filha e em prantos não se desgarrou dela.
Severo saiu dali em passos largos e raivosos.
Por uma semana ninguém dialogou naquele lar.
Só então, Antoninha, com grande temor e respeito pelo marido, interpelou-o, com extrema cautela:
— Meu bom marido: és um homem de bom coração, temente a Deus e devoto aos Santos, por isso imploro que ajudes nossa filha...
— Aquela ingrata: livrei-a de se amarrar a um traste e o que ganhei?
— O amor desconhece razões e algo me diz que o rapaz Quintino agiu por amor filial.
— O quê?
— Isso mesmo: quis vingar-se ao ver o pai ser maltratado e tido como culpado da perda do ouro que o capitão-pirata levou para o fundo do mar.
— Mas, mulher, só bem lhes fiz e é assim que mo agradecem?
— Se estivesses no lugar de um ou de outro, como agirias se nosso Henrique fosse prisioneiro de cruéis piratas?
— O que pretendes tu?
— Que ajudes nossa Carlota.
— O que lhe falta, a ela?
— O dom maior da vida: a alegria de viver.
— Ora, pois, não está viva, com saúde e rica?
— Falta-lhe o principal: a vivência do amor que traz na alma.
— Pedes-me que retire da prisão aquele que pegou o gosto pela pirataria?
— Não, não te peço que olhes para ele, mas sim para nossa filha.
— Dá no mesmo!
— Então, confessas que percebes o amor entre ambos?
— É...
Nada mais foi dito.
Um mês após, Severo decidiu retornar à Colónia.
Chamou a esposa:
— Estou imaginando mudar de actividade.
O ouro é de el-Rei e não há como tê-lo, a não ser cometendo o pecado do furto, seguido do contrabando.
Fiz leis para os tributos reais e por minha ordem a fiscalização é enérgica e não perdoa aos que tentam burlar a quota devida à Pátria.
Mas, em paralelo, o comércio dessas coisas que sempre levo, é inteiramente livre, só pagando pedágio:
de “entrada”, dos produtos vindos de fora e de “passagem”, para o uso das vias terrestres ou dos rios.
Pretendo dedicar-me e esse comércio, mas mantendo-me aqui em Portugal, nomeando alguns intermediários que farão o transporte para lá.
Grande é o risco de piratas, mas os prejuízos serão divididos.
Além disso, pretendo obter com el-Rei permissão que os barcos com tais suprimentos sejam sempre bem escoltados, já que deles depende o êxito lá nas minas.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:25 am

— E a “Quinta dos Favos”? — interrogou Antónia.
— Tenho pensado em vendê-la...
— Vender nossa Quinta?!
— Isso mesmo:
há rumores de que Portugal, em breve, assinará acordo com a Inglaterra, para comercializar todo o vinho português aos ingleses, que, em troca, nos fornecerão tecidos e outras coisas.
Nesse caso, temo que o lucro das vinícolas seja drasticamente podado.
— Podado, como?
— Teremos que vender nossos vinhos ao Rei... e os preços, por certo, serão estipulados pelo Tesouro Real...
— Tu é que sabes, meu marido.
Nisso, Carlota aproximou-se e tímida, dirigiu-se ao pai:
— Pai: e o Quintino?
— Então falas com teu pai, tu que por quase um mês te quedaste muda comigo?
Sossegues, criança:
tomei alguma providência e quando retornar, de vez, el-Rei já terá o coração amolecido e, a meu pedido, perdoará aquele doidivanas ingrato.
Agora seria perigoso interceder, pois os fatos são recentes.
— Mas... Quando o senhor voltará?
— Quando tiver outras tantas toneladas de ouro...
Carlota emudeceu.
Beijou a mão do pai e o gesto filial, milhares de vezes repetido, ali teve o efeito de um raio, que electrizou todos os nervos de Severo, fazendo aflorar os bons sentimentos que abrigava, mas dormiam na alma.
Abraçou-a com grande emoção.
Nada disse também. Nem conseguiria falar, se quisesse, tamanha a angústia que súbito o invadiu.
Num segundo, captou que ali estava o tesouro maior da sua vida: a família, que amava.
Só que, esse mesmo sentimento, já o visitara anteriormente...
Ir para tão longe, em busca da fortuna, era enganosa ideia, eis que o dom mais precioso era o que Deus lhe concedera:
o amor da esposa e dos filhos.
A cada retorno à Colónia, na hora da despedida, a mesma sensação de perda, de vazio...
Grossas lágrimas falaram o adeus que ele não pôde pronunciar.
Corria o ano de 1703.
De retorno à Colónia, com forte escolta, ao afastar-se da costa portuguesa, Severo determinou ao comandante da nau capitania que revertesse parcialmente o curso e rumasse para o porto atlântico de Cádis, na Espanha.
Tinha permissão de el-Rei para assim proceder, após convencer Sua Majestade que só na Espanha conseguiria melhor armamento e instrumental para instalar mineradoras do ouro extraído na Colónia.
El-Rei determinou sigilo absoluto sobre essa viagem e nem à família Severo revelou-o.
A mudança de rota, inopinada, já em alto mar, irritou e bastante aos marujos, eis que tal procedimento é tido como falta de confiança neles.
Assim, aqueles navios passaram a navegar sob péssimo clima psíquico.
Cádis, porto da Espanha no Atlântico, cidade famosa pelos seus estaleiros (actividade essa em decadência em Portugal), estrategicamente localizada entre a Europa e as Américas, era próspero centro comercial de armas e utensílios. Recepcionando os navios que vinham das “terras bárbaras”, trazendo mercadorias nativas e principalmente prata e ouro, também os atendia, quando para lá se dirigiam, fazendo-lhes manutenção e equipando-os com instrumental e armamento.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 13, 2017 9:25 am

Ali, “dom” Severo comprou sementes, armas, munição e ferramentas.
Mas adquiriu também grande quantidade de frutas cítricas, géneros não perecíveis e rum.
Vendo os navios serem abastecidos, “dom” Severo, visando encontrar a viúva de Mendonza, reservadamente solicitou ajuda dos negociantes que o atendiam com deferência.
Felizes, com o novo e tão importante freguês, um deles, sabendo de que família se tratava, ofereceu dois empregados para levarem-no até onde moravam, ofertando também animais de montaria.
Dizendo aos conferentes da carga sendo posta nos navios que iria passear pela cidade, Severo, com o máximo de discrição reuniu-se com os empregados do comerciante e com eles dirigiu-se à via de saída da cidade, rumo a San Fernando...
No entardecer chegaram ao pequeno vilarejo.
Ali, a penúria imperava:
cerca de trinta casas, de taipa e barro, moradores na maioria idosos e alquebrados, crianças seminuas e com ventre avantajado, evidência de que eram vítimas de verminoses.
Localizada a casa dos parentes de Mendonza, perguntou pela viúva, sendo encaminhado a um casebre, retirado cerca de cinquenta metros da casa principal do pequeno sítio.
Foi até lá e bateu à porta.
Atendeu-o Veridiana.
Apresentou-se e disse a que vinha:
noticiar a morte de Mendonza.
De tanto sofrer, a mulher sequer uma lágrima verteu, ao ouvir que o marido morrera.
Intuía-o, há tempos.
Aliás, assim que Mendonza deixara-a, com a filha inválida, partindo para a louca aventura, indo buscar fortuna em além-mar, do outro lado do oceano, não nutriu esperanças de que prosperasse tal intento.
Tinha mesmo, como altamente provável, que jamais retornaria.
Assim, sabê-lo morto, sobre confirmar seus prognósticos, pouquíssimo alterava sua vida, ou melhor, “seu viver miserável”, conforme lamentos constantes.
O filho, padre, jamais dera notícias, desde que fora ordenado e designado para uma paróquia no interior da Espanha.
Num canto da tosca residência, uma menina de mais ou menos dez anos dormia.
Tinha o corpo todo retorcido...
Severo havia ido ali para cumprir sua promessa feita a Mendonza, nos instantes que antecederam ao seu desenlace.
Disfarçado e escondido em seu alforje, levava o ouro que destinaria à família.
Mesmo já tendo escurecido, receou entregar o ouro à mulher, na presença dos dois homens que o acompanharam.
Armou um estratagema: despediu-se e logo se puseram a caminho, de retorno.
Ao passar por uma birosca que tinha observado na vinda, convidou-os a tomarem um gole de rum, “por sua conta”.
Só que não foi “um gole” e sim, generosas doses, que acabaram por deixar os dois embriagados.
Deu algum valor para o vendeiro e pediu-lhe que abrigasse por algum tempo os dois amigos, que já roncavam às escâncaras, até ele retornar de um encontro com “uns conhecidos”.
A noite foi sua parceira: não foi observado ao chegar junto ao casebre de Veridiana, bater na porta levemente, identificando-se e sussurrar-lhe o nome:
— Dona Veridiana...
Sou “dom” Severo: tenho algo que seu marido deixou para a senhora.
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Re: Escravos do ouro - Van der Goehen/Eurípedes Kühl

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