Apenas Começando / Elisa Masselli

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Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:46 pm

Apenas Começando
Elisa Masselli

Ao passarmos por momentos difíceis, sentimos que tudo terminou e que não há mais esperança nem um caminho para seguir.
Quantas vezes sentimos que precisamos fazer uma escolha, porém, nem sempre sabemos qual seria a melhor opção?
Júlia, após manter um relacionamento com um homem comprometido, sentiu que tudo havia terminado e teve de fazer uma escolha.
Para isso, contou com o carinho de amigos espirituais que tiveram de adiar projectos importantes no plano espiritual que os ajudariam a evoluir.
Por amor, adiaram projectos, renasceram e morreram, somente para ajudá-la em sua redenção e evolução e, principalmente, para que ela entendesse que quando pensamos que tudo terminou, na realidade, para Deus, está APENAS COMEÇANDO.

Elisa Masselli

Sumário

Surpresa
Momento de decisão
A descoberta
Palavras de conforto
Uma história incrível
O recomeço
A receita da infelicidade
A força do dinheiro
A vida recomeça
Situação inesperada
Tomando conhecimento
A história de Júlia
Tomando uma atitude
Decisão fatal
Ato de desespero
Visita amiga
Apenas começando
O sonho
Socorro espiritual
Eulália
Uma história real
O baile
Vida nova
A cerimónia
A entrega
A espera
O desfecho
Livre arbítrio
Sentindo na pele
O esclarecimento
Epílogo
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:47 pm

Surpresa
Suzana abriu os olhos, estendeu o braço para o lado da cama em que Anselmo dormia.
Ele não estava ali.
Sorriu e pensou:
Ele, como sempre acontece quando está bravo, saiu sem se despedir.
Voltou-se e olhou para o relógio:
Estou atrasada, preciso me preparar e ir para o trabalho.
Hoje é o grande dia!
Levantou-se e enquanto se vestia, analisava:
Não entendo por que Anselmo fica tão nervoso com o meu trabalho.
Ele não entende que tenho uma carreira e que preciso zelar por ela...
Em poucos minutos estava pronta para sair.
Antes, passou pelo quarto de Rodrigo que dormia tranquilo.
Sorriu e foi para a cozinha. Edite estava junto ao fogão.
? Bom-dia, Edite.
? Bom-dia, dona Suzana.
Enquanto tomava uma xícara de café, Suzana perguntou:
? Quando Anselmo saiu, você já estava acordada?
? Sim, ele tomou um café e saiu, rapidamente.
Não estava com a cara boa, não.
Suzana sorriu:
? Sei disso, mas não se preocupe.
Hoje à noite, quando eu voltar com uma óptima notícia, o mau humor dele vai passar.
? Tomara, dona Suzana.
Não gosto quando vocês brigam e Rodrigo também não.
Ele fica irritado.
? Ele não viu nossa briga. Já estava dormindo.
? Ainda bem, acho que ele não precisa assistir a isso.
O menino sente quando alguma coisa não está bem.
? Talvez você tenha razão, vou prestar atenção, mas tudo isso vai passar.
Agora, preciso ir.
? A senhora só vai tomar essa xícara de café, não vai comer?
? Não, Edite, preciso ir.
? A senhora precisa se alimentar...
Suzana sorriu, pegou a bolsa e saiu.
Chamou o elevador, que, para ela, demorou a chegar.
Na garagem, entrou em seu carro, o modelo do ano, ligou o motor, acelerou e saiu.
Durante o caminho, pensava:
Não entendo por que Anselmo fica tão nervoso e briga comigo quase todos os dias.
Ele sabe que estou trabalhando e que meu trabalho toma quase todo meu tempo.
Por mais que eu fique no escritório, nunca termino minhas tarefas. Eu adoro meu trabalho...
Enquanto dirigia, com o trânsito quase parado, reflectia:
Ontem à noite, quando cheguei, ele estava assistindo a um filme na televisão.
Assim que entrei, me aproximei, dei-lhe um beijo e falei:
? Boa-noite, Anselmo.
Ele olhou para mim, ficou calado e voltou os olhos para o filme a que estava assistindo.
Aquilo me deixou nervosa.
? Estou dando boa-noite, Anselmo!
? Você sabe que não gosto de conversar, quando estou vendo um filme.
? Sei que não quer conversar agora.
Vou ver se tem alguma coisa para comer.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:47 pm

Para minha surpresa, ele desligou o aparelho de televisão, levantou-se e disse:
Precisamos conversar, Suzana!
Estava esperando você chegar.
? Agora não, Anselmo.
Estou morta de cansada.
O dia não foi fácil.
Vou tomar um banho, comer alguma coisa e me deitar.
Preciso dormir...
Ele, não conseguindo esconder o nervosismo, disse:
? É justamente sobre isso que precisamos conversar.
? Já sei o que vai dizer.
Por isso, prefiro não conversar agora.
Vamos deixar para outra hora.
? Você sempre diz isso!
Sempre quer conversar em outra hora!
Porém, essa hora nunca chega!
? Por favor, Anselmo...
Ele, olhando firme em meus olhos, quase gritou:
? Não posso mais esperar!
Nosso casamento não existe mais!
? Não entendo o que está dizendo.
Somos casados há seis anos.
Como pode dizer que este casamento não existe?
? Não existe, Suzana!
Quase não nos vemos!
Você só se preocupa com o seu trabalho!
Furiosa, eu gritei:
Preciso me preocupar!
Do meu trabalho depende tudo o que temos, a vida que levamos!
Por causa dele, vivemos em um apartamento como este e temos o melhor carro do ano!
Por causa dele, não precisamos nos preocupar com as contas para pagar nem com a comida que vamos comprar!
Por causa dele, Rodrigo pode frequentar uma das melhores escolas!
Como você quer que eu não me preocupe com o meu trabalho?
? Sei que tudo isso é importante para você, mas, para mim, o mais importante é ter uma família!
É chegar do trabalho, poder jantar e conversar com minha mulher, mas ela nunca está.
Nem parece que você é minha mulher!
É uma estranha, uma companheira de quarto!
Estou farto de tudo isso e vou embora!
Até agora, não me conformo com a atitude dele.
Nervosa, continuei gritando:
? O que você quer?
Quer que eu pare de trabalhar?
? Não, Suzana!
Quero que encontre um trabalho em que não precise ficar até tão tarde!
Que possa começar a trabalhar às oito horas e sair às seis da tarde, como quase todo mundo faz!
Quero ter a sua presença!
Quero ter uma mulher em casa para poder conversar e até namorar!
Isso não acontece há muito tempo, você está sempre cansada!
? Você não sabe o que está falando, Anselmo!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:47 pm

Se eu trabalhar da maneira como você fala, meu salário vai cair muito e não foi para isso que passei a minha vida toda estudando, me preparando para o futuro!
? Meu salário não é tão baixo, Suzana!
Não precisamos morar em um apartamento luxuoso como este, podemos morar em um menor, porém, poderemos viver como uma família de verdade!
Não suportei e comecei a rir:
? O que está dizendo?
Com o seu salário, voltaremos a morar em apartamento de dois quartos, igual ao que moramos quando nos casamos!
? Por que não, Suzana?
Naquele tempo, tínhamos uma vida mais simples, porém feliz.
Conversávamos muito, fazíamos planos.
? Está certo, fazíamos planos!
Queríamos ter filhos, melhorar de vida, morar em um lugar melhor, ter um bom carro!
Conseguimos tudo com o que sonhamos!
Não entendo por que está reclamando!
Esperei trinta e cinco anos para ter meu primeiro filho!
Fiz isso, porque queria que ele tivesse de tudo!
Isso, ele tem!
? Realmente, ele tem de tudo, só não tem uma mãe!
? O que está dizendo?
? Isso que ouviu!
Sou eu quem o leva para a escola e quem o pega à tarde.
Quando você chega, ele já está dormindo.
Ele pensa que a professora ou a empregada é sua mãe!
Ele não conhece você como mãe, Suzana!
Você é aquela que, nos fins de semana, leva-o para passear e dá a ele tudo o que ele quer, muito mais do que ele realmente precisa!
Ao ouvir aquilo, não suportei, saí da sala e fui para meu quarto.
Não me conformo com o que ele pensa de mim!
Não disse, mas se quiser ir embora que vá!
Não preciso dele nem de ninguém!
Tenho meu trabalho e hoje vai ser o grande dia!
Nossa empresa foi comprada por uma multinacional.
Daqui a pouco, haverá uma reunião e, provavelmente, vou me tornar presidente da empresa aqui no Brasil e vou crescer ainda mais.
Meus sonhos ainda não terminaram.
Chegou diante do portão da empresa.
O guarda que estava na guarita sorriu e abriu o portão, por onde ela, acelerando o carro, entrou.
Estacionou o carro na vaga que lhe pertencia.
Olhou o relógio em seu pulso, sorriu e desceu.
Foi em direcção à portaria:
Ainda bem que cheguei a tempo.
Da maneira como estava o trânsito, temi não chegar na hora.
Tenho, ainda, alguns minutos para me preparar.
Meu futuro depende dessa reunião.
Entrou e, quando passou pela recepção, uma moça que estava sentada diante de um computador disse:
? Bom-dia, dona Suzana.
? Bom-dia, Helena.
? Dona Suzana, tenho um recado para dar à senhora.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:48 pm

? Recado? Qual?
? O doutor Santana pediu para que a senhora passasse nos recursos humanos, antes de entrar para a reunião.
? Nos recursos humanos? Por quê?
? Não sei.
Apenas estou dando o recado.
? Está bem, obrigada.
Preocupada, caminhou em direcção ao elevador:
O que está acontecendo?
Talvez seja por eu não ter tirado minhas férias ou, quem sabe, vou ter um aumento de salário...
Ansiosa, chegou a uma sala.
Bateu levemente e, assim que entrou, uma senhora se aproximou:
? Bom-dia, Suzana.
? Bom-dia, Judite.
Recebi um recado para vir até aqui.
Do que se trata?
? Infelizmente, não tenho uma boa notícia, Suzana.
? O que aconteceu, Judite?
? O doutor Santana pediu que você assinasse esta carta de demissão.
? O quê? Demissão?
? Sim...
? Não pode ser!
Ele não pode ter feito isso!
O que aconteceu?
? Não sei, Suzana.
Você conhece o doutor Santana.
Ele não fala muito.
Helena, a secretária dele, me trouxe a carta e disse que era para comunicar a você.
? Não pode ser!
Vou conversar com ele!
? Helena disse também que, hoje, ele não vai poder conversar com você porque está se preparando para uma reunião muito importante.
Disse que era para você ir para casa e, quando ele tiver um tempo, vai mandar chamá-la.
? Sei dessa reunião.
Também me preparei para ela!
O que aconteceu, Judite?
? Não sei, Suzana.
Também estou intrigada.
Você é uma das principais assessoras dele.
Não sei mesmo...
Suzana, sem conseguir evitar, começou a chorar.
? Isso não pode estar acontecendo, devo estar sonhando...
Judite, penalizada, segurou a mão de Suzana e disse:
? Sei que este momento é difícil, mas não passa de um momento, Suzana.
No final tudo sempre dá certo.
? Como pode dar certo, Judite?
Nunca passou pela minha cabeça que isso pudesse acontecer!
Pensei que, com a compra da empresa por outra, minha posição seria melhorada!
Como você mesma disse, eu era a principal assessora do doutor Santana!
Preciso muito deste emprego!
Acabei de comprar um apartamento.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:48 pm

Sem o emprego, como vou conseguir pagar as prestações?
? Não se preocupe, Suzana.
Você tem capacidade. Logo encontrará um novo emprego e, quem sabe, até melhor do que este.
Nada sabemos da nossa vida.
Pensamos que temos controle sobre ela mas, no final, não temos controle algum.
Deus é quem sabe o que é melhor para cada um de nós e nada acontece sem a sua permissão.
Suzana, ao ouvir aquilo, ficou possessa:
? De que planeta você é, Judite?
Acredita mesmo que posso encontrar outro emprego em que receba um salário melhor do que este que recebo aqui?
Isso é impossível!
? Impossível, por quê?
? O país não está em um bom momento.
Está em recessão!
Sabe que não existem muitas vagas para pessoas com um currículo igual ao meu!
O que vou fazer?
? Agora, nada pode fazer, Suzana.
Sugiro que vá para sua casa e que entregue sua vida nas mãos de Deus.
Ele, com certeza, sabe daquilo que você precisa e vai indicar um caminho.
Tenha fé, minha amiga...
? Para você que está empregada, é fácil pensar assim, mas, para mim, é um horror!
Deus não está preocupado comigo, Ele tem muito o que fazer!
Não sabe do que preciso, eu é que sei!
Judite sorriu, mas ficou calada.
Suzana, sem ter mais o que dizer, despediu-se e saiu.
Na garagem, entrou no carro e, desesperada, acelerou e saiu sem destino.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:48 pm

Momento de decisão
Enquanto isso, Anselmo chegava à empresa onde trabalhava.
Antes de entrar, foi até a uma lanchonete que ficava em frente.
Ainda na porta de entrada, olhou para uma das mesas.
Nela, estava sentada uma moça, que, ao vê-lo, sorriu.
Ele, também sorriu e foi até o balcão, pediu café, um pão com manteiga e caminhou em direcção onde a moça estava sentada.
Sentou-se.
— Bom-dia, Júlia!
— Bom-dia, Anselmo.
Hoje, você se atrasou.
Aconteceu alguma coisa?
— Nada aconteceu, foi somente o trânsito.
— Está tudo bem na sua casa?
Conversou com ela?
— Não. Nada está bem, Júlia.
Tentei conversar com Suzana, mas, como sempre, não consegui.
Ela está muito preocupada com seu trabalho e com uma possível promoção.
— Você precisa tomar uma decisão, Anselmo.
Não podemos continuar como até aqui.
— Também acho que essa situação não pode continuar, mas você não tem o direito de me cobrar coisa alguma.
— Como não?
Estamos juntos há mais de dois anos!
— Não precisa se alterar, Júlia.
Estou dizendo isso, porque, quando começamos, você sabia que eu era casado e que não pretendia abandonar minha família.
Lembro-me que deixei isso bem claro.
Eu não enganei você.
Ela, incrédula, ficou olhando para ele que continuou:
— Sabe que não posso simplesmente abandonar meu filho.
Ele é ainda muito pequeno...
— Você não se separa, apenas por causa de seu filho ou porque ainda gosta dela?
— De onde tirou essa ideia?
Claro que é por causa do meu filho!
— Alguém disse que o homem casado sempre vem com essa conversa, de que não abandona a mulher por causa dos filhos, mas está mentindo.
— Como mentindo?
Por quê?
— Simplesmente mentindo.
Quando ele não gosta mais da mulher, não suporta mais ficar com ela, dá toda assistência aos filhos e sai de casa.
Quando o homem usa os filhos como desculpa, na realidade, quer ficar com as duas.
— Isso não é verdade!
Sabe o quanto gosto de você, mas meu filho é muito importante.
Ele nasceu porque eu quis, não é justo que cresça longe de mim!
Eu sempre disse a você o quanto ele é importante para mim!
— Sei disso, mas, depois de tanto tempo e da maneira como se queixa da sua mulher, achei que isso ia mudar.
— Pode ser que aconteça que eu deixe minha casa, mas você precisa esperar.
Preciso pensar muito bem, antes de tomar uma atitude como essa.
Não quero traumatizar o menino.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:48 pm

— Você diz que gosta de mim...
— Gosto, Júlia, mas precisa ter paciência.
Ainda vamos ficar juntos.
— Tem certeza?
— Claro que tenho.
Se não tivesse você ao meu lado, não suportaria a vida que estou vivendo.
— Está bem.
É só isso que tenho feito... esperar por você...
Ele sorriu:
— Se não estivéssemos aqui, eu daria um beijo em você, mas como não posso, acho melhor irmos trabalhar.
Ela, levantando-se, também sorriu e disse:
— Tem razão. Vamos trabalhar.
Está na hora.
De mãos dadas, caminharam em direcção à empresa.
Antes de entrarem, ele apertou sua mão levemente e entrou.
Ela sorriu, também apertou a mão dele, atravessou a rua e entrou na empresa em que trabalhava.
A empresa em que ele trabalhava era do ramo alimentício.
Estava ali, desde quatorze anos.
Começou como ajudante e, agora, era gerente do departamento de vendas.
O seu salário era bom.
Nem um terço do de Suzana, mas, com ele, poderiam ter uma boa vida.
Assim que entrou no escritório, Anselmo sentou-se.
Dois rapazes entraram em seguida.
Eram vendedores que estavam sob sua supervisão.
Atendeu os dois, deu alguns telefonemas.
Olhou para um porta-retratos, onde havia uma fotografia de Suzana e de Rodrigo.
Com tristeza, pensou:
Meu filho, amo tanto a você, mas acho que vou ser obrigado a sair de casa.
Não tem como continuar vivendo com a sua mãe.
Ela se transformou em uma pessoa desconhecida para mim.
Sem que ele imaginasse, estavam ali, dois vultos um homem e uma mulher.
Ela olhou para ele que sorriu e estendeu suas mãos em direcção à cabeça de Anselmo, que, sem saber por que, lembrou-se do dia em que conheceu Suzana.
O que está acontecendo?
Por que estou me lembrando daquele dia?
Acho que estou sentindo saudade daquele tempo.
Quando nos casamos, nos amávamos e tínhamos muitos sonhos, mas com o tempo, eu mudei, Suzana mudou e tudo mudou.
O telefone tocou, ele atendeu.
Era um cliente que fez uma reclamação.
Ele contornou a situação e o cliente, satisfeito, desligou.
Ele voltou a pensar:
Até aqui, por Suzana ser como é, tenho me envolvido com várias mulheres, mas por nenhuma senti o que sinto por Júlia.
Ela é maravilhosa.
Marta, sua secretária, entrou, ele assinou alguns papéis e voltou a pensar:
Nosso casamento se tornou uma rotina.
Ela trabalha, eu trabalho.
Ela, apesar de tudo que adquiriu, sempre quer mais.
Para mim, o importante é a aventura, a conquista.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:48 pm

— O que foi agora, Marta?
— O doutor Alfredo pediu para o senhor vá até a sala dele, agora.
— Agora, não posso sair daqui!
Estou recebendo os vendedores!
— Eu disse isso a ele, mas disse que precisa ser agora.
— Você sabe o que está acontecendo?
— Não. Não sei.
Ele me pareceu muito ansioso.
É melhor o senhor ir e, se algum vendedor chegar, pedirei que espere.
— Está bem, vou ver o que ele quer.
Deve ser alguma bomba que está para estourar.
Ele quase não conversa comigo...
Ela sorriu:
— É verdade, mas a notícia pode ser boa.
— Tomara.
Estou indo e se alguém chegar, peça que espere.
Intrigado, levantou-se e foi para a sala do director.
Não podia imaginar do que se tratava, mas pela urgência, parecia ser importante.
Caminhou alguns passos e parou em frente a uma porta.
Demorou alguns segundos, depois bateu e entrou.
Por detrás de uma mesa, um senhor que estava sentado, levantou-se:
— Bom-dia, Anselmo, que bom que veio logo.
Estava ansioso para conversarmos.
Sente-se.
Ainda intrigado, Anselmo afastou uma poltrona e sentou-se.
Sorrindo, o senhor disse:
— Sei que não está entendendo o que está acontecendo, nem o motivo de ter chamado você.
— Confesso que é verdade.
Não imagino o que possa ser.
— Você trabalha nesta empresa, desde que era muito jovem.
Passou por vários departamentos, aprendeu tudo sobre ela, mas só se encontrou realmente quando foi trabalhar com vendas.
Mostrou-se um óptimo vendedor e, depois um excelente gerente de vendas.
Hoje posso garantir que, graças a você, temos a melhor equipe de vendas que possa existir.
Nossos vendedores, influenciados por você sentem-se motivados e valorizados, por isso, fazem um bom trabalho.
— Obrigado, senhor, mas devo destacar que eles são excelentes.
— Isso porque você soube escolher os melhores.
— Obrigado mais uma vez, mas ainda não entendi o motivo de estar aqui.
— Como disse, temos a melhor equipe de vendas que possa existir, porém, o mesmo não está acontecendo com nossa filial em Recife.
Estamos tendo prejuízo e precisamos reverter essa situação.
Anselmo olhou para ele e perguntou:
— Aonde o senhor quer chegar?
— Viu como você é esperto?
Quero chegar exactamente onde está pensando.
Tivemos uma reunião de directoria e resolvemos fazer uma proposta a você.
— Que proposta?
— Precisamos que vá para o Recife por um ou dois anos, ou menos, até conseguir montar uma equipe de vendas tão boa como a que temos aqui.
Anselmo, um pouco tonto, levantou-se e quase gritando, perguntou:
— Para Recife?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:49 pm

— Isso mesmo.
Não se preocupe, terá um aumento de salário e ajuda de custo para alugar uma casa.
Anselmo voltou a sentar-se:
— Não posso, senhor.
Tenho uma vida aqui.
Minha mulher trabalha em uma grande empresa e exerce um bom cargo.
Ela não vai querer se mudar.
— Sabemos que terá alguns problemas para se mudar, mas com o salário que vai receber, poderá viver muito bem.
— Não sei.
Não posso responder agora, senhor.
Preciso conversar com minha mulher, mas devo antecipar que vai ser muito difícil convencê-la a se mudar.
— Por que essa indecisão?
Afinal, você é o homem da casa!
— Os tempos, hoje, não são mais como eram no seu.
Hoje, o homem não é mais o homem da casa.
Hoje a mulher tem seu trabalho, sua carreira e pode viver tranquilamente sem a presença de um homem ao seu lado.
Minha mulher ganha três vezes mais do que eu.
Não é só por causa do dinheiro.
Ela tem uma carreira.
Está lutando para chegar à presidência da empresa.
— Sim, mas você também precisa crescer profissionalmente e esta é uma grande oportunidade.
Precisa pensar no seu futuro profissional.
Vamos fazer o seguinte:
você pode sair agora, vá encontrar com sua esposa, convide-a para almoçar e, durante o almoço, conte a novidade.
Diga como é importante para você aceitar esse convite.
Assim que tiver uma resposta nos avise.
Temos pressa.
— Está bem, vou fazer isso.
Saiu da sala.
Já do lado de fora, pensou:
É realmente uma grande oportunidade, mas sei que vai ser difícil Suzana aceitar.
Se fosse com Júlia, sei que não haveria problema algum, mas com Suzana não há uma mínima chance.
Não posso fazer o que doutor Santana sugeriu.
Preciso pensar no que vou dizer para ela.
Olhou para o relógio em seu pulso e continuou pensando:
Está quase na hora do almoço.
Vou me encontrar com Júlia e, enquanto almoçamos, vou contar o que aconteceu.
Vamos ver o que ela diz.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:49 pm

Descoberta
Enquanto isso, Suzana, há muito tempo, dirigia sem destino.
Com uma das mãos, enxugava as lágrimas que insistiam em cair.
Não conseguia entender nem se conformar com o que havia acontecido:
Como isso foi acontecer?
Durante quase dez anos me dediquei totalmente para a empresa.
Trabalhei todos os dias até altas horas para que todo o trabalho ficasse pronto.
Sempre fui uma funcionária exemplar.
Como o doutor Santana pode me despedir, logo agora que pensei ter chegado ao que sempre desejei?
Pensei que fosse me tornar presidente da empresa!
Isso não pode estar acontecendo!
Devo estar sonhando!
Sonhando, não!
Tendo um pesadelo!
Parou o carro em um semáforo.
Muito nervosa pensou:
Preciso conversar com Anselmo.
Sei que ele não vai acreditar no que aconteceu.
Não sei o que fazer.
Talvez ele tenha alguma ideia.
O semáforo abriu e ela continuou em direcção ao trabalho de Anselmo.
A hora do almoço chegou.
Anselmo pegou a carteira e saiu.
Quando chegou à rua, Júlia, sorrindo já o esperava.
Ele se aproximou e, também sorrindo, beijou sua testa.
Juntos e de mãos dadas caminharam até o restaurante onde comiam todos os dias.
Nesse exacto momento, Suzana passava pela rua.
Estava procurando um lugar onde pudesse estacionar o carro.
Viu quando Anselmo saiu da empresa.
Tentou chamar, mas ele não ouviu.
Ficou petrificada quando viu ele se aproximar de Júlia, beijar seu rosto e saírem caminhando de mãos dadas para o lado oposto ao dela.
Furiosa, parou o carro no meio da rua e pensou:
O que está acontecendo aqui?
Quem é essa mulher?
Os carros que estavam atrás começaram a buzinar.
Suzana, descontrolada, acelerou o carro e continuou procurando um lugar para estacionar.
Após dirigir por alguns metros encontrou um lugar junto à calçada, onde poderia parar.
Rapidamente estacionou o carro desceu e, apressada, quase correndo foi para o restaurante que havia ali perto.
Muito nervosa, pensava:
Eles devem ter entrado ali para almoçar!
Entrou e, ainda da porta, pôde ver Anselmo e Júlia que conversavam.
Ele começava a contar sobre o convite que havia recebido.
Suzana entrou e se aproximou:
— Anselmo, quem é essa mulher?
Ao vê-la, Anselmo empalideceu.
Júlia sentiu o coração disparar e quase não conseguia respirar.
Após alguns segundos, ele conseguiu dizer:
— Suzana! O que está fazendo aqui?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:49 pm

— Isso, agora, não importa!
Quero saber, quem é essa mulher?
Anselmo olhou para Júlia, percebeu como estava nervosa.
Gaguejando, respondeu:
— E Júlia, uma amiga do trabalho.
Olhou novamente para Júlia e continuou:
— Júlia. Esta é Suzana, minha esposa.
Furiosa, Suzana falou alto:
— Amiga do trabalho?
Não precisa mentir.
Vi quando se encontraram e quando você beijou-a na testa e, depois, quando caminharam juntos de mãos dadas!
— Não é o que você está pensando, Suzana... mas... o que está fazendo aqui?
Antes que ela respondesse, Júlia ao ouvir o que ele disse, levantou-se e, sem nada dizer, tentou ir embora, mas Suzana segurou-a pelo braço e gritou:
— Aonde pensa que vai, mocinha?
O grito foi tão alto que as pessoas que também almoçavam, olharam para eles.
Júlia com um empurrão conseguiu se livrar das mãos de Suzana e, envergonhada, saiu rapidamente.
Anselmo, constrangido, pegou com força o braço de Suzana falou baixo:
— Vamos sair daqui, Suzana.
As pessoas estão apreciando a cena que você está fazendo.
Ela, descontrolada, gritando, disse:
— Cena? Claro que estou fazendo uma cena!
Encontrei meu marido aos beijos com outra mulher, queria que eu fizesse o que?
Além do mais, não me importo com o que as pessoas pensam!
É bom que saibam que você é um canalha!
Anselmo levantou-se e disse:
— Suzana, vamos sair daqui.
Vamos conversar em casa e tudo será esclarecido.
— Não, não vamos sair daqui!
Vamos ficar!
Quero que todos saibam quem você é!
Ele, nervoso, continuou:
— Se quiser pode ficar, mas eu vou embora!
Quando estiver mais calma e pronta para conversar, estarei em casa!
Antes que ela pudesse dizer algo, ele saiu do restaurante.
Ela ficou ali, olhou para os lados e percebeu que todos a estavam olhando.
Constrangida, saiu e foi para o lugar onde tinha deixado o carro estacionado.
Entrou, ligou o motor, acelerou e saiu.
Enquanto dirigia, pensava:
O que está acontecendo com minha vida?
Tudo está desmoronado!
Primeiro foi o trabalho e agora isto!
Que dia de cão é este?
Pela manhã, não devia ter me levantado da cama.
Os vultos que antes estavam ao lado de Anselmo, agora estavam ao lado dela e sorriram e, no mesmo instante, sem saber o porquê, Suzana lembrou-se de sua mãe.
O que ela diria sobre o que está acontecendo em minha vida?
Sorriu e continuou pensando:
Como se eu não soubesse.
Com certeza ela diria:
— Não se preocupe, minha filha.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:49 pm

Quando as coisas não estão da maneira que gostamos, algum motivo tem, só precisamos parar e tentar descobrir o que está errado, pois, se não fizermos isso, a vida se encarregará de nos mostrar.
Nunca levei muito a sério o que ela dizia e sempre, quando ela falava algo assim, eu argumentava:
— Para a senhora pode ser assim, mas, para mim, não.
Sei muito bem o que quero da minha vida.
Tenho todo o controle sobre ela.
Vou conseguir tudo o que sempre sonhei.
— Tomara que consiga, Suzana.
Tomara que consiga...
Suzana lembrou-se do sorriso da mãe e também sorriu:
Será que ela tinha razão?
Começo a pensar que sim.
Até ontem eu tinha minha vida sobre controle, meu emprego, meu marido.
Hoje não é mais assim.
O que vou fazer?
Por que fui até aquele restaurante?
Como fui fazer uma cena como aquela?
Por que não consegui me controlar?
Sou uma pessoa esclarecida, uma executiva!
Mãe, o que vou fazer com a minha vida?
Depois de desmascarar Anselmo, preciso tomar uma atitude, mas qual?
A senhora dizia que nós temos a oportunidade de escolher o caminho que queremos, mas que caminho devo escolher?
Não sei, não sei.
Como fazer uma escolha, neste momento que não tenho mais nada nem um caminho para escolher?
O vulto de mulher estendeu as mãos sobre ela e disse:
— Sempre temos um caminho, minha filha, sempre temos uma escolha.
Suzana não a ouviu, mas sentiu uma brisa sobre seu rosto.
Continuou pensando:
Diante de tudo o que aconteceu, a única escolha, é abandonar Anselmo!
Não posso aceitar sua traição!
Um dos vultos olhou para o outro, depois para Suzana e, acenou a cabeça de um lado para outro, dizendo:
— Não, Suzana!
Essa não é a melhor escolha!
Suzana continuou dirigindo.
Anselmo, envergonhado, saiu do restaurante, foi até a garagem da empresa, onde seu carro estava.
Entrou, ligou o motor e saiu.
Enquanto dirigia, pensou:
Agora está tudo terminado.
Suzana não vai me perdoar.
Algumas vezes, senti vontade de que isso acontecesse, mas no fundo eu não queria.
Júlia tem razão, eu amo meu filho, mas não posso negar que a Suzana também.
Agora não tem mais volta.
Ela não vai aceitar o que viu.
Se antes eu sabia que ela não ia aceitar deixar o seu emprego para me acompanhar, agora, tenho certeza.
Não queria que fosse assim.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:50 pm

Por estar nervoso, dirigia devagar e pensava:
Não entendo como Suzana foi aparecer daquela maneira.
Jamais poderia imaginar que isso poderia acontecer, muito menos hoje, um dia tão importante para ela.
Um dia em que ela seria promovida.
Será que ela desconfiou do meu relacionamento com Júlia?
Não, isso não teria como acontecer.
Ela não tinha tempo para pensar em algo assim.
Sempre preocupada com o trabalho, quase nem me olhava.
Será que alguém contou a ela? Não sei.
De uma coisa tenho certeza, nosso casamento terminou.
Parou em um semáforo e, enquanto ele não abria, lembrou-se de Júlia.
Ela ficou nervosa e constrangida.
Afinal, naquela hora, no restaurante, estavam pessoas que trabalham na minha empresa e na dela.
Com certeza os comentários devem ser muitos.
Talvez cheguem até o ouvido do seu chefe e ela pode até perder o emprego.
Isso não é justo.
Parado no semáforo, continuou pensando:
Não tenho vontade de ir para minha casa.
Não sei o que vai acontecer nem o que vou dizer para Suzana.
O semáforo abriu e ele continuou a pensar:
Ao invés de ir para casa, vou telefonar para Júlia e ver como ela está.
Com o fim do meu casamento, estarei livre.
Pedirei a ela que vá comigo para Recife.
Será que vai aceitar?
Passou por uma praça e viu um telefone público.
Parou o carro e desceu.
Olhou à sua volta e viu uma padaria, pensou:
Ali, provavelmente deve ter cartão telefónico.
Encaminhou-se para a padaria.
Comprou o cartão e foi até o telefone.
Discou o telefone do escritório de Júlia.
Uma moça atendeu:
— Alô!
— Por favor, preciso falar com a Júlia.
— Ela não está.
— Não está?
— Não, não voltou após o almoço.
— Está bem, obrigado.
Desligou o telefone:
Ela deve ter ficado tão envergonhada que não teve coragem de voltar para o trabalho.
Será que foi para casa?
Vou telefonar e descobrir.
Ia discar os números, mas pensou:
Acho melhor não telefonar e conversar com ela pessoalmente.
Deve estar nervosa e pode não atender o telefone.
Voltou para o carro e dirigiu em direcção à casa de Júlia.
Ele conhecia muito bem o caminho, pois era ali que uma ou duas vezes por semana passava momentos felizes.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 16, 2017 7:50 pm

Palavras de conforto
Júlia, envergonhada e chorando, saiu do restaurante.
Caminhou até a esquina, onde acenou para um táxi.
Assim que ele parou, ela entrou e continuou chorando.
Chorava sem parar.
Com tanto desespero que o motorista, um senhor, preocupado, perguntou:
— Aconteceu algo grave, moça?
Alguém da sua família está doente?
Ela se deu conta de onde estava e, secando os olhos com as mãos, sem saber o que responder, mentiu:
— Estou bem, é somente um problema no trabalho.
Fui despedida.
Ele começou a rir;
— Isso não é motivo para chorar dessa maneira.
Existe muito trabalho por aí e logo vai encontrar outro e, às vezes vai ser melhor do que esse que perdeu.
Não existe problema sem solução.
Sempre há uma saída.
A vida, às vezes, nos prega algumas peças, acho que é para testar a gente, mas logo tudo se resolve.
Ela, voltando a chorar, disse:
— Para minha vida não existe solução.
Não sei como vou continuar vivendo.
Está tudo acabado.
Estou muito triste.
— Estou percebendo que foi muito magoada, mas deixe para lá.
Confie em Deus, ele sempre nos mostra um caminho a seguir.
— Deus nada tem a ver com o que me aconteceu.
Eu sou uma boba, acreditei em quem não merecia.
Cometi um grande erro!
— Moça, pela minha experiência, não está chorando por causa de trabalho.
Ela, tentando parar de chorar e não sabendo por que confiava naquele homem que poderia ser seu pai, disse:
— O senhor tem razão.
Não fui despedida, o que aconteceu comigo foi muito pior.
E eu fui a única culpada.
Embora soubesse que poderia acontecer, acreditei que era diferente de todas as outras mulheres, mas não sou!
— Está se culpando, mas não deve se culpar.
Por que não existem erros ou acertos.
Existem apenas aprendizados que dia a dia vamos vivendo.
Isso faz parte do nosso crescimento.
Quando passamos por momentos difíceis, sentimos e pensamos que o mundo vai acabar, mas não é bem assim.
Mais tarde, lá na frente, vamos ver que aquilo que parecia ser tão ruim, o fim do mundo, foi o melhor que poderia ternos acontecido e, quase sempre rimos de tanto sofrimento à toa.
Ela voltou a secar os olhos.
Olhou para aquele homem estranho que parecia saber o que ela estava sentindo.
Perguntou:
— O senhor acredita, mesmo, nisso que está dizendo?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:22 pm

— Acredito, sim.
Já vivi muito e passei por muitas coisas.
Hoje, quando me lembro de tudo, vejo que sempre em que pensei estar tudo perdido, acontecia alguma coisa ou aparecia alguém para me ajudar, naquele momento difícil.
Entendi que nunca estamos sós, moça.
Temos sempre, ao nosso lado, amigos, que nem sabemos que existem, que nos ajudam a caminhar por esta terra de Deus.
Acho que Deus sempre encontra uma maneira de nos mandar um recado e, para isso, usa pessoas que nem conhecemos.
— Assim como está acontecendo agora com o senhor?
Acha que está sendo usado por Deus para me ajudar?
Ele começou a rir:
— Não, moça!
Quem sou eu para ser usado por Deus?
Sou apenas um motorista de táxi.
Tudo o que falei foi somente para acalmar você!
Os vultos, ao ouvirem aquilo, sorriram e jogaram luzes sobre os dois.
Ele continuou:
— Quem sempre nos ajuda, são nossos amigos espirituais.
— Amigos espirituais?
— Sim.
— Não estou entendendo o que está dizendo... é muito complicado...
— Não é complicado.
Pena que não podemos continuar conversando.
Chegamos ao seu endereço.
Quem sabe, algum dia nós nos cruzaremos por aí e poderemos continuar essa nossa conversa.
— Gostaria muito de continuar conversando com o senhor, mas, como disse, cheguei.
Ela pagou e desceu.
Depois de descer, sorrindo, disse:
— Obrigada, senhor.
A nossa conversa me ajudou muito.
O homem, também sorrindo, falou:
— Deus a abençoe, moça.
Espero que tudo dê certo em sua vida.
Acelerou o carro e se afastou.
Júlia ficou olhando o carro se afastar e pensou:
Que homem estranho é esse?
Parecia saber o que estava se passando comigo.
Entrou no edifício onde morava e tomou o elevador.
Desceu no quinto andar, tirou da bolsa, um chaveiro, escolheu uma chave, abriu a porta e entrou.
Assim que entrou, encontrou Sueli, uma amiga que dividia o apartamento com ela.
Sueli, assim que viu Júlia entrando, assustada, perguntou:
— Júlia, o que aconteceu para estar a esta hora em casa?
Júlia, tentando disfarçar, respondeu:
— Nada aconteceu, Sueli.
— Como nada aconteceu?
Você está com os olhos vermelhos.
Esteve chorando?
Sem responder, Júlia voltou a chorar.
Sueli, intrigada e preocupada, perguntou:
— O que aconteceu, Júlia?
Por que não está no trabalho?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:22 pm

— Nunca mais voltarei ao trabalho...
— Por quê? Foi despedida?
Júlia foi para o quarto e sentou-se na cama.
— Está bem, Sueli.
Sei que não vai me dar sossego enquanto não souber o que aconteceu.
Sente-se aqui na cama.
Vou contar o que aconteceu.
Depois, você vai me dizer se tenho razão por estar desesperada e se posso voltar ao trabalho...
Sueli, assustada pela expressão do rosto da amiga, sentou-se e ficou esperando.
Júlia contou tudo o que havia acontecido e terminou dizendo:
— Ele me enganou, Sueli!
Nunca teve intenção de deixar a mulher!
É um canalha!
Ao ouvir aquilo, Sueli levantou-se da cama e, olhando firme para a amiga, disse:
— Espere aí, Júlia!
Eu conheço o início desse romance e Anselmo sempre disse, desde o início, que nunca abandonaria o filho, pelo facto de seu pai ter abandonado a sua mãe com quatro crianças pequenas.
Sempre disse que teve uma infância muito difícil e que não queria que o mesmo acontecesse com seu filho!
Você não pode culpá-lo por querer ficar com o filho, por não querer desmanchar a família!
— Você está contra mim, Sueli?
— Não, Júlia.
Estou do lado da verdade.
Ele nunca enganou você.
Sempre foi muito claro!
— Ele dizia isso, mas, quando estávamos juntos, nos nossos momentos de amor, sempre dizia que eu era uma mulher perfeita.
Que o entendia e que o deixava feliz!
Dizia que não havia outra igual a mim!
Embora não falasse, dava a entender que, um dia, ficaria comigo.
Eu tinha esperança, mas, diante do que aconteceu hoje, vejo que não há esperança alguma.
Fui uma burra mesmo!
Hoje vejo que perdi um tempo enorme esperando que ele a abandonasse, que ficasse comigo para sempre.
— Você fantasiou, imaginou algo que nunca existiu, Júlia.
Ele nunca disse que faria isso.
Quanto ao emprego, por que disse que nunca mais vai voltar?
— Depois de tudo o que contei, acha que posso voltar ao trabalho?
— Por que, não?
Você gosta do que faz e o salário é muito bom.
Dificilmente encontrará outro trabalho igual.
— Sueli! Você não ouviu o que eu disse?
— Claro que ouvi, mas ainda não entendo por que você não pode voltar ao trabalho.
— Tudo o que contei, aconteceu na hora do almoço e no restaurante onde quase todos os meus colegas de trabalho estavam almoçando e os que não estavam, a esta hora, já devem estar sabendo.
Todos estão rindo de mim!
Como posso voltar, Sueli?
— Voltando como se nada tivesse acontecido.
Você acha que é a única mulher que fez a burrice de namorar um homem casado?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:22 pm

Garanto que não é.
Muitas já fizeram isso e outras tantas farão.
— Não posso encará-los...
— Claro que pode.
Amanhã, vá trabalhar e, quando chegar, cumprimente todos, dê um sorriso como se nada tivesse acontecido.
Garanto que, mesmo que estejam pensando algo, não terão como falar com você.
— Mesmo que não falem comigo, com certeza, estarão pensando.
— E daí? Você é apenas uma funcionária, ninguém tem nada a ver com sua vida particular.
Entre e somente pense:
quem nunca errou que atire a primeira pedra.
Garanto a você que todos esconderão muito bem as mãos.
Você não deve satisfação a ninguém.
— Também sempre pensei assim, mas agora vejo que não era verdade.
A opinião dos outros importa, sim.
Estou envergonhada.
— Não tem do que se envergonhar, como já disse; você não é a primeira nem será a última que deixou ou se deixará envolver por um homem casado.
— Eu sempre soube disso, mas com ele era diferente.
Parecia que ele gostava mesmo de mim.
Agora, que tudo terminou, não sei como vou continuar vivendo sem ele!
Não sei, Sueli!
Ele é a razão da minha vida.
Durante esses dois anos que estivemos juntos, vivi somente para ele.
Minha vida sem ele não tem sentido... prefiro morrer... — desesperada, voltou a chorar.
Ao vê-la chorando, Sueli começou a rir.
Júlia, indignada, perguntou:
— Por que está rindo, Sueli?
Está feliz com o meu desespero?
— Não, Júlia!
Não estou feliz com seu desespero, só estou me vendo em você.
— Não entendi, me vendo em você?
— Isso mesmo.
Moramos juntas há muito tempo.
Já conversamos sobre muitas coisas, mas nunca sobre o meu passado.
— Tem razão.
Nunca conversamos sobre o passado, você tem alguma história no seu passado?
Sueli voltou a rir:
— Claro que tenho, Júlia e quem não tem?
Júlia parou de chorar:
— Quer falar sobre isso?
— Querer, não quero, mas sinto que este é o momento.
— Estou ansiosa.
— Está bem, vou contar a você o que aconteceu comigo, mas antes, vamos tomar um chá.
Você está muito nervosa.
Júlia sorriu:
— Acho que você tem razão.
Estou precisando mesmo de um chá.
Sueli, sorrindo, disse:
— Vamos para a cozinha e, enquanto eu faço o chá e tomamos, vou contar a minha vida.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:23 pm

Uma história incrível
Na cozinha, Sueli colocou água em uma panela, levou-a ao fogo e sentando-se, começou a falar.
— Hoje, você me vê feliz com o Eduardo, mas nem sempre foi assim.
Eu morava no Rio de Janeiro com meus pais e dois irmãos.
Era a princesa da casa.
Todos cuidavam de mim e faziam as minhas vontades.
Era feliz.
Meus pais são maravilhosos, porém sempre se preocuparam com a moral e a decência das pessoas.
Com dezoito anos terminei o colegial, queria muito ir para uma faculdade.
Não sabia bem o que queria ser, mas, fosse o que fosse eu precisava estar preparada para enfrentar um vestibular.
Para isso, precisava continuar estudando.
Embora não fosse pobre, meus pais não tinham como me manter em uma faculdade.
Eu precisava tentar uma Federal.
Ao mesmo tempo em que queria continuar os estudos, sentia uma vontade imensa de ter o meu próprio dinheiro, resolvi que trabalharia e estudaria também.
A princípio, meu pai não aceitou a ideia e disse:
— Você não precisa trabalhar fora, Sueli.
Tem tudo o que precisa para continuar estudando.
Sua mãe nunca trabalhou e você, quando se casar, não vai trabalhar também.
Vai ter que cuidar da sua família.
— Aquilo era tudo o que não queria, Júlia.
Sem pensar, falei:
— Preciso trabalhar fora.
Não quero passar o resto da minha vida em casa, cuidando da família.
— Não quer, por quê?
— É um trabalho sem valor, mãe.
— Você acha que, cuidar de uma família, criar e educar os filhos, é um trabalho sem valor?
— Não, mãe, claro que criar um filho é algo maravilhoso, mas acho que a mulher precisa de algo mais.
Quero trabalhar fora, ter meu próprio dinheiro.
Não quero ficar em casa trabalhando muito, sem receber salário.
— Sabia que minha mãe estava magoada, Júlia, mas pensei:
Não, eu não quero ser como a senhora!
Quero ter a minha própria vida, ser dona de mim!
Não quero viver em função dos outros.
— Pensei isso, mas não falei.
Não queria magoar minha mãe, Júlia.
Com muito custo consegui convencê-los.
Meu pai e meus irmãos aceitaram, mas minha mãe impôs uma condição:
— Pode trabalhar fora, mas só se continuar estudando.
— Como posso trabalhar e estudar ao mesmo tempo, mãe?
— Não sei como vai fazer, mas essa é a minha condição.
Você disse que não quer cuidar da casa e da família, pois bem, para que isso aconteça, terá de ter uma profissão para poder ter a liberdade de escolher se quer ficar em casa ou não.
Quero que saiba que não me arrependo de ter ficado em casa, cuidando de vocês.
Por isso mesmo, quero que estude e tenha opção de escolher a vida que quiser.
— Ao ouvir aquilo, fiquei envergonhada, Júlia, pois percebi que minha mãe sabia o que eu sentia em relação a ela.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:23 pm

Senti que estava magoada e desvalorizada e isso era o que menos eu queria.
Apenas sorri e beijando-a fui para meu quarto.
— Não pode negar que sua mãe foi sábia.
Hoje, você é uma chefe de cozinha respeitada.
Não se esqueça que essa é uma profissão de homens!
— É verdade, mas isso, com o tempo, vai mudar.
Acredito que breve, a mulher estará exercendo as mesmas funções que o homem.
Estou dando os primeiros passos.
Porém, não é sobre minha mãe que estamos falando, estamos falando do meu passado, da minha história.
— Tem razão, continue.
— Depois de muito procurar, consegui um emprego em um restaurante como auxiliar.
Minha mãe concordou, pois eu trabalharia à noite e teria todo o dia para estudar.
Comecei como auxiliar, mas, em pouco tempo, me dedicando muito, deram-me a chance e me tornei garçonete.
Gostava muito de atender as pessoas, por isso, as gorjetas eram altas.
Com o tempo, me apaixonei por tudo aquilo e me convenci de que queria trabalhar em um restaurante por toda a minha vida.
Chegava mais cedo ao trabalho para ajudar o cozinheiro e aprender como preparar e apresentar os pratos.
Descobri que havia uma Faculdade que preparava as pessoas para trabalharem em hotéis e restaurantes.
Resolvi que estudaria naquela escola.
Procurei me informar e descobri que as vagas eram limitadas, por isso, estudava a tarde e trabalhava à noite.
Tinha as manhãs para descansar.
Estudei e trabalhei muito.
Em menos de um ano, eu estava pronta para tentar a escola.
Ela ficava em outra cidade, distante daquela em que eu morava, por isso precisava ter dinheiro não só para pagar a escola e comprar o material necessário, mas, também para me manter.
Sabia que minha família me ajudaria, mas não poderia arcar com todas as despesas.
Por isso, sabendo das dificuldades que teria, escrevi uma carta à escola contando a minha situação e a imensa vontade que eu tinha de estudar.
No final, pedi uma bolsa de estudos.
Sabia que seria difícil, mas não custava tentar.
Enviei a carta e fiquei esperando uma resposta.
— Você conseguiu a bolsa, Sueli?
— Fiquei esperando a resposta, Júlia, mas a vida nem sempre é da maneira como imaginamos.
— O que aconteceu?
— Em uma noite, ao entrar no salão, onde eram servidas as refeições, notei que vários homens entraram e sentaram-se em uma das mesas que ficavam no meu sector.
Fiquei feliz, pois, pelo porte dos homens, sabia que a gorjeta seria alta.
Servi a mesa da melhor maneira possível.
Eles comeram, beberam e conversaram.
Quando terminaram de comer, eu apresentei a conta e, como previra, a gorjeta foi alta o que me deixou muito feliz.
Todos se levantaram e eu fiquei esperando que se afastassem.
Todos saíram, porém, um dos homens ficou para trás, me deu um cartão, dizendo:
— Você é muito bonita, gostaria de poder voltar a vê-la em outro lugar para podermos conversar.
Neste cartão tem o meu nome e o número do meu telefone.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:23 pm

Quando tiver um tempo, telefone e poderemos nos encontrar.
— Peguei o cartão e, assim que ele saiu, sorri e joguei fora.
— Por que fez isso?
— Não posso negar que fiquei impressionada com ele.
Alto, moreno, com mais ou menos trinta anos e um sorriso lindo, mas eu já estava acostumada com aquilo.
Muitos clientes haviam me dado cartões ou simplesmente escreviam em papéis o número do telefone, mas eu nunca telefonava e eles nunca voltavam ao restaurante.
Passaram-se alguns dias e eu já havia me esquecido dele, quando, em uma noite, para minha surpresa, ele voltou sozinho e sentou-se novamente em uma das mesas do meu sector.
Estranhei por vê-lo de volta e como era minha obrigação, aproximei-me e, sorrindo, entreguei-lhe o cardápio.
Ele pegou, olhou e em poucos minutos fez o seu pedido.
Servi a comida e me afastei para atender as outras mesas.
Quando ele terminou de comer, fez um sinal para que eu me aproximasse.
Assim que me aproximei, sorrindo ele disse:
— A comida estava muito boa.
Pode me trazer a conta, por favor?
— Também sorrindo, me afastei e voltei alguns minutos depois, trazendo-lhe a conta dentro de uma caderneta própria.
Ele olhou e colocou o dinheiro:
— Pode ficar com o troco.
— Obrigada, senhor.
— Estava me afastando, quando ele falou:
— Espere um momento.
— Olhei para ele, intrigada.
Ele perguntou:
— Como é o seu nome?
— Sueli —, respondi constrangida.
— Tem namorado?
É casada?
— Não!
— Isso é muito bom, pois a partir desta noite você vai ser minha namorada e depois minha mulher.
— Ao ouvir aquilo, pensando ser uma piada, comecei a rir.
Ele continuou:
— Por que está rindo, acha que estou brincando?
— Só pode estar brincando.
— Nunca falei tão sério em toda minha vida.
— Continuei achando graça e fui atender a outra mesa, Júlia.
Depois de atender a mesa, voltei a olhar para aquela em que ele estava.
Ele havia saído.
Era um pouco mais da meia noite, quando eu e uma amiga, também garçonete, saímos.
Para minha surpresa, ele estava ali, dentro de um carro, me esperando.
Assim que me viu, saiu do carro, se aproximou e, sorrindo, disse:
— Como está a minha futura esposa?
— Não consegui conter uma risada, Júlia.
Ele, parecendo bravo, perguntou:
— Por que está rindo?
Não acredita no que estou falando?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:23 pm

— Pelo seu tom de voz, acreditei que estava sendo sincero e respondi:
— Não sei se o que está dizendo é verdade, mas hoje, não podemos conversar.
Está tarde e preciso ir para casa.
Quem sabe outro dia, em outra hora.
— Entre no carro, posso levá-la até a sua casa.
— Fiquei perturbada, sem saber o que fazer.
Ele insistiu:
— Entre no carro, não tenha medo.
Minhas intenções com você são as melhores possíveis.
Quero mesmo que seja minha esposa!
— Olhei para minha colega, Débora.
Ela também me olhava com os olhos arregalados.
Com a voz trémula, respondi:
— Não, obrigada.
Eu e minha colega, todas as noites, dividimos o táxi.
Moramos aqui perto.
— Tudo bem.
Posso levar as duas. Entrem!
— Não, obrigada.
Olhe, lá vem um táxi.
— Um táxi se aproximou.
Com a mão dei um sinal e ele parou.
Quando estávamos entrando, ele, segurando em meu braço, disse:
— Está bem.
Entendo que hoje é tarde, que você não me conhece e que precisa ir para sua casa.
Quero que saiba que estou sendo sincero.
Precisamos conversar, nos conhecermos melhor.
Por isso, amanhã, às duas horas da tarde, estarei esperando por você ali na naquela praça.
— Sem saber o que fazer ou falar, Júlia, entrei no táxi e Débora me seguiu.
Assim que entramos, Débora rindo perguntou:
— O que foi aquilo, Sueli?
Esse homem parece estar apaixonado mesmo!
— Eu estava nervosa e tremendo, Júlia.
Meu coração batia forte.
Nervosa, disse:
— Apaixonado?
Ele parece um louco, Débora!
— Não, Sueli!
Ele está mesmo interessado em você e, também, não pode negar que ele é muito bonito.
Você vai se encontrar com ele, amanhã à tarde?
— Está louca, Sueli?
Claro que não!
Eu não o conheço!
— Por isso mesmo deve ir.
— Eu não! Estou com medo!
— Medo do que?
O que acha que ele pode fazer com você em uma praça no meio do dia?
Vá se encontrar e descubra se o que ele está dizendo é sério mesmo.
Não tem nada a perder.
Ele, além de bonito, pelo carro que tem, parece ser rico.
Eu não pensaria um minuto.
— Não sei, não. Estou confusa.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:24 pm

— Não pense muito!
Vá se encontrar com ele só para vermos até onde vai tudo isso.
Se quiser, eu fico de longe olhando vocês e, se ele fizer qualquer coisa diferente, me aproximo e salvo você.
Não pode perder essa chance de encontrar alguém, Sueli.
Você só pensa no trabalho e no estudo.
É jovem, precisa pensar em outras coisas também.
— Olhei para ela e sorri.
Ela morava uma rua antes da minha.
Assim que o táxi parou em frente à sua casa, antes de descer, ela sorrindo disse:
— Até amanhã, Sueli.
Não deixe passar essa chance.
— Até amanhã, Débora. Vou pensar.
— Assim que o táxi parou em frente à minha casa, a porta da sala se abriu, Júlia.
Era minha mãe que nunca dormia antes de eu chegar.
Desci do táxi e entrei em casa.
— Boa-noite, Sueli.
Está tudo bem?
— Boa-noite, mamãe.
Está tudo bem, como sempre.
— Ainda bem. Tome o seu chá e vá se deitar.
Não consigo me conformar com você trabalhando até tão tarde.
Precisa arrumar outro emprego.
— Fomos para a cozinha.
Todas as noites, ela preparava chá com torradas para eu comer antes de me deitar.
Tomei o chá, comi as torradas e fui para a cama.
Assim que me deitei comecei a pensar naquele homem estranho:
Débora tem razão, ele é mesmo muito bonito.
Será que não está somente querendo brincar?
Não sei, ele me pareceu sincero.
Não sei se vou me encontrar com ele... se eu for e ele não estiver lá?
Por outro lado, não custa ir para ver o que acontece.
Não sei o que fazer.
Júlia que ouvia com atenção, pegou mais um pouco de chá e, ansiosa, perguntou:
— O que você fez, Sueli, foi se encontrar com ele?
Sueli começou a rir.
— Está mesmo curiosa, não é, Júlia?
— Claro que estou!
Nunca ouvi uma história como essa!
— Vou continuar, Júlia.
No dia seguinte, assim que acordei, voltei a pensar nele.
Em seu rosto, seu sorriso, mas principalmente em seus olhos que eram lindos.
Passei toda manhã pensando no que fazer.
Depois do almoço, me troquei e saí.
Minha mãe não estranhou, pois todos os dias eu saía para ir à escola.
Como morava perto da praça e do restaurante em que trabalhava e por ser durante o dia, eu ia caminhando.
Durante todo o caminho, pensava se ia para a escola ou para a praça.
Finalmente, decidi:
Vou até a praça e, se ele não estiver lá, ainda dá tempo de eu ir para a escola.
— Continuei andando e, assim que cheguei à praça, vi que ele estava sentado em um dos bancos.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:24 pm

Comecei a tremer e tentei me afastar, mas já era tarde.
Ele também me viu e, levantando-se, caminhou em minha direcção.
Eu estava apavorada, sem saber o que iria dizer quando ele chegasse.
Ele se aproximou:
— Que bom que você veio, Sueli!
Fiquei com medo de que não viesse!
— Eu, tremendo, calada, peguei a mão que ele me estendia.
— Sente-se aqui, temos muito que conversar.
Nada sei sobre você, somente que é linda e que trabalha naquele restaurante.
O que mais você faz?
— Sentei-me e, sem saber o porquê, senti-me bem e comecei a falar.
Contei da escola e dos meus planos para o futuro.
Gostava de trabalhar no restaurante e que queria, um dia, ser uma cozinheira de prestígio.
Ele sorriu e disse:
— Fico feliz em saber que gosta de cozinhar, porque eu gosto de comer.
Mesmo que não seja uma cozinheira de prestígio, vai cozinhar para mim e para nossos filhos.
— Você não está indo depressa demais?
— Não! Assim que a vi, soube que você era a mulher da minha vida.
Aquela com quem quero passar o resto dos meus dias.
— Comecei a rir, Júlia.
Fomos até a uma lanchonete e, enquanto comíamos um lanche e tomávamos um refrigerante, ele me contou que era dono de uma fábrica de calçados e que tinha quarenta funcionários.
Que ela fora iniciada por seu avô, passada para os filhos e depois para os netos.
Que estavam no mercado há muito tempo, por isso tinham uma boa clientela.
Conversamos muito.
Quando saímos da lanchonete, vi Débora que estava sentada em um dos bancos da praça e que sorriu para mim.
Também sorri e continuamos andando.
Passamos a tarde toda conversando.
Quando estava na hora de eu ir para o restaurante, ele disse:
— Como você trabalha à noite, o melhor que temos a fazer é nos encontrarmos à tarde.
— Não posso, preciso ir à escola.
— Pode faltar uma ou duas vezes por semana.
— Não sei... preciso estudar...
— Ele, beijou minha testa e disse:
— O que você precisa, é ser minha mulher!
— Comecei a rir novamente:
— Você só pode estar brincando.
— Não estou brincando e vou demonstrar isso a você!
— Daquele dia em diante, Júlia, começamos a nos encontrar duas ou três vezes por semana.
Sempre em que vinha me ver, trazia um maço de rosas amarelas e, quando não nos víamos, ele mandava entregar no restaurante.
Passeávamos, íamos ao cinema, à lanchonete ou simplesmente ficávamos sentados em um banco na praça, apenas conversando ou íamos, com o carro até uma rua deserta, dávamos beijos e trocávamos carícias, nada, além disso.
Aos poucos fui me apaixonando por ele e em pouco tempo só queria estar ao seu lado o tempo todo.
Saíamos durante a semana.
Durante os fins de semana, ele sempre tinha uma desculpa para não vir me ver, porque precisava trabalhar, viajar para visitar clientes ou ir a um almoço de família que não podia faltar.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 17, 2017 8:24 pm

Eu estava tão apaixonada que não me importava. Nunca desconfiei do que ele falava.
— Não desconfiou mesmo, Sueli?
— Não, Júlia.
Você já não ouviu dizer que, quando estamos apaixonados, não enxergamos um palmo diante do nosso nariz?
Hoje posso garantir que isso é verdade.
Para mim, tudo o que ele fazia e dizia era o certo e a verdade.
— Depois, o que aconteceu?
— Fazia quase seis meses que estávamos nos encontrando, quando em uma tarde, na praça, ele tirou do bolso um chaveiro com várias chaves e me deu.
— Que chaves são essas, Nilson? — perguntei intrigada.
— São suas.
— Minhas? Não estou entendendo.
— Comprei uma casa para termos onde morar, depois que nos casarmos.
Quero que você vá até lá para ver e poder escolher os móveis que quer comprar.
— Casa?
— Sim, qual é a surpresa, eu sempre não disse que íamos nos casar?
— Disse, mas não pensei que fosse tão rápido.
Nem contei à minha família que estou namorando.
— Acho melhor, por enquanto, não contar.
Quando a casa estiver pronta, vou falar com eles e posso levar seus pais para conhecer a casa, assim eles não terão como não consentir o nosso namoro e, depois o nosso casamento.
— Ele fez isso, Sueli?
— Ele fez.
Por isso, disse a você que Anselmo nunca a enganou.
Você sempre soube que ele era casado.
Os olhos de Júlia voltaram a ficar molhados e uma lágrima se formou.
Ao ver aquilo, Sueli, nervosa, disse:
— Se você for chorar outra vez, eu paro de contar o que aconteceu comigo!
Júlia, rapidamente, secou a lágrima que se formara:
— Não vou chorar.
O que você fez, Sueli?
— O que acha que fiz?
Foi o dia mais feliz da minha.
A única coisa que queria era conhecer a casa que seria minha!
Ele abriu os braços e eu o abracei com toda a força.
Depois do abraço, ele, sorrindo perguntou:
— Vamos até a casa?
— Claro que sim!
— Entramos no carro e ele saiu dirigindo.
A casa ficava em um bairro próximo àquele em que eu morava.
Entramos em uma rua onde havia casas muito bonitas e todas possuíam um jardim.
Eu estava cada vez mais encantada.
Ele parou o carro em frente a uma casa pintada de verde bem claro com as janelas pintadas em branco.
Do lado esquerdo, havia um corredor largo e no final dele, podia-se ver uma garagem que tinha porta grande de madeira.
Olhei para casa e perguntei:
— É essa?
— Sim. Gostou?
— Ela é linda!
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