Apenas Começando / Elisa Masselli

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:53 pm

— Não sei! Deve ser por estar recordando tudo que aconteceu.
— Deve ser por isso, mesmo.
— Bem, deixemos esse sonho para lá.
Como foi sua vida no orfanato?
— No dia seguinte, ao acordar, eu estava bem.
Aquela imensa dor que eu sentia havia desaparecido.
Só conseguia me lembrar de Altair e de Teca nos bons momentos que passamos.
E ela me dizendo:
— A vida precisa continuar.
A morte é apenas um até logo, Júlia.
— Você se lembrou disso?
— Sim, Sueli e, esse pensamento, me fez muito bem.
Sabia que um dia, em algum lugar eu os encontraria.
Assim pensando, após tomar o café da manhã, fui até a sala da directora.
Assim que entrei, dona Neide, com um sorriso, perguntou:
— Júlia. Como você está?
— Estou bem, dona Neide.
— Sente-se, Júlia.
— Após me sentar, ela disse:
— Teca e Altair eram meus amigos e senti muito com o que aconteceu.
Sei do amor que sentiam por você.
Infelizmente, a família deles não levou em conta esse sentimento.
Mas não se preocupe, vou conseguir outra família, outra casa para que você possa continuar sua vida.
— Também estive pensando, dona Neide.
Não quero ir para outra casa nem quero outra família.
Cresci aqui, me acostumei e sempre me senti muito bem.
Não quero me apegar a mais ninguém.
Quero ficar aqui para sempre.
— Dona Neide sorriu:
— Não pode ficar aqui para sempre, Júlia.
Pela lei, só pode ficar até completar dezoito anos.
— Está bem.
Quando chegar a hora eu vou embora, mas por enquanto quero ficar aqui.
Portanto, não quero que a senhora se preocupe em arrumar outra casa.
— Enquanto isso, precisa esperar o tempo passar.
Ele é o melhor remédio que pode existir.
Enquanto esperamos, vou matricular você naquela escola pública que tem aqui perto e que você frequentava e em uma escola de dactilografia para, quando chegar a hora de ir embora, tenha uma maneira de sobreviver.
— Obrigada, dona Neide.
— Ela sorriu e eu saí da sala.
— Você ficou até os dezoito anos, Júlia?
— Quando ia completar dezoito anos, ela me chamou em sua sala.
Assim que entrei, disse:
— Bem, Júlia, no próximo mês, você vai completar dezoito anos, por isso não pode continuar aqui como interna.
Estive pensando em uma maneira de conservar você aqui para que possa terminar seu curso de secretariado.
A única maneira é você começar a trabalhar aqui como minha secretária.
O que acha?
— Eu não me contive, Sueli.
Levantei-me, dei uma volta ao redor da mesa e me abracei a ela.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:54 pm

— Obrigada, dona Neide!
— Tenho uma curiosidade, Júlia...
— Qual, Sueli?
— Você nunca quis saber quem eram seus verdadeiros pais?
— Antes de conhecer Teca e Altair, eu sabia que existia uma família, um pai e uma mãe, mas não tinha certeza do que era.
Depois deles, senti, sim, desejo de conhecer meus pais.
Saber por que tinham me abandonado.
A única coisa que sabia era que minha mãe chamava-se Jandira dos Santos e que meu pai era desconhecido.
Aquilo me incomodava.
Não entendia por que eles me abandonaram.
Um dia, perguntei a dona Neide, pois ela era a única pessoa que poderia me ajudar.
Assim que perguntei, ela respondeu:
— Você já estava aqui, quando comecei a trabalhar, Júlia.
Por isso, não sei como nem quando veio para cá.
— Então, não pode me ajudar?
— Posso...
— Pode?
— Em outra situação eu não me empenharia, mas, diante do seu sofrimento, acho melhor que você saiba.
Deve existir uma pasta contando da sua chegada aqui.
Como não sei em que ano foi, vou ter de procurar.
Assim que a encontrar, chamarei você.
Quando cheguei, você estava com quatro anos.
Portanto, não vai ser muito difícil.
— Obrigada, dona Neide.
— Saí dali ansiosa pela resposta, Sueli.
Passaram-se alguns dias e ela me chamou em sua sala.
Enquanto ia para lá, meu coração batia forte.
Finalmente ia saber quem eram meus pais e, assim, talvez, encontrá-los.
Assim que entrei, ela pediu que eu me sentasse e começou a falar.
— Consegui encontrar sua ficha, Júlia.
Nela diz que você nasceu no hospital municipal e que veio para cá com poucos dias de vida.
— Poucos dias? — Perguntei intrigada.
— Sim, é o que diz sua ficha.
O nome de sua mãe, era Jandira dos Santos.
— Era? Ela morreu?
— Infelizmente, sim, Júlia.
Aqui na sua ficha, nada está escrito, por isso, fui até o hospital Municipal.
Tenho lá uma amiga.
Contei a ela sua situação e como é importante saber o que havia acontecido com sua mãe.
Ela se prontificou em me ajudar e fez isso.
Está aqui é uma cópia do prontuário da sua mãe no dia em você nasceu.
— Ela abriu uma pasta e me entregou, Sueli:
— Devo preveni-la que o que está escrito aí é muito triste, Júlia...
— Com aquela pasta nas mãos eu comecei a tremer, Sueli.
Ela, percebendo o meu nervosismo, perguntou:
— Quer ler o que está escrito aí ou prefere que eu leia?
— Ainda tremendo muito, devolvi a pasta:
— Leia, por favor, dona Neide.
Não estou em condições.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:54 pm

— Ela pegou a pasta, sorriu e começou a ler.
— Pelo que está escrito aqui, sua mãe foi encontrada por alguns policiais.
Ela estava caída no meio da rua.
Estava muito fraca e só conseguiu dizer:
— Meu nome é Jandira dos Santos.
Salvem minha criança, por favor...
— Os policiais perceberam que ela estava sangrando e em trabalho de parto.
Levaram-na, rapidamente, para o hospital.
Quando o médico a estava examinando, ela morreu.
— Morreu? Antes de eu nascer?
— Sim. Eles fizeram uma cesariana e conseguiram salvar você...
— Ao imaginar a situação daquela moça que me deu à luz e demonstrou tanto amor, não se importando com sua vida, somente com a minha, comecei a chorar sem conseguir parar.
Dona Neide deixou que eu chorasse por algum tempo, depois, levantou-se de sua mesa, veio ao meu encontro e me abraçou.
— Ela foi muito valente, Júlia e não abandonou você.
Pelo que está escrito aqui, era muito jovem e estava subnutrida.
— Quem é o meu pai?
— Não há referência alguma sobre ele.
Ela não teve tempo de contar o que havia acontecido.
— Eu tentava, mas não conseguia deixar de chorar, Sueli, ao mesmo tempo em que estava triste, estava aliviada em saber que não havia sido abandonada e que minha mãe, mesmo sem me conhecer, me amara muito.
Dona Neide continuou.
— Depois de alguns dias, quando estava fora de perigo, você foi trazida para cá.
O juiz ordenou que fosse registada no nome de sua mãe.
Seu nome foi escolhido aqui no orfanato.
Foi colocada para adopção, mas, inexplicavelmente, nunca foi adoptada.
Confesso que não entendo o porquê disso ter acontecido.
Você sempre foi linda.
Imagino que deveria ser um bebé maravilhoso.
— Sorri e agradeci com a cabeça, Sueli, e continuei:
— Gostaria de saber mais sobre ela, dona Neide.
A senhora disse que estava subnutrida.
O que aconteceu para que ela estivesse naquela situação?
— Não tenho respostas para suas perguntas, Júlia.
— Talvez, através do seu nome, eu consiga encontrar o resto da minha família.
— Quando sair daqui poderá tentar, mas acho quase impossível, Júlia.
Santos é um sobrenome muito comum.
Como não temos outra referência, o melhor que tem a fazer é continuar com sua vida.
Estudar e conseguir viver sem depender de ninguém.
Você deve isso a sua mãe.
Ela lutou para que você pudesse nascer.
— Entendi que ela tinha razão, Sueli.
Fui para o meu quarto e, naquele dia, não participei das actividades do orfanato.
Lembro que chorei muito.
Pensei na minha mãe com muito carinho.
Misturava o rosto de Teca com o de uma desconhecida.
No final da tarde, resolvi que continuaria com a minha vida para homenageá-la e que, se um dia tivesse um filho, daria a ele todo meu carinho.
Todos os dias eu pensava nela e sentia que estava ao meu lado.
Resolvi que não tentaria encontrar minha família nem meu pai.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:54 pm

Foi por isso que aceitei trabalhar no orfanato até terminar meus estudos.
Durante todo o tempo em que fiz o colegial e a Faculdade, fiquei ali, trabalhando como secretária.
No dia seguinte, após a minha formatura na Faculdade, dona Neide me chamou novamente à sua sala.
Assim que entrei, ela disse:
— Agora você já está formada, Júlia.
O salário que recebe aqui é muito pequeno.
Com seu diploma poderá ter um emprego melhor.
Conversei com um amigo meu e ele ofereceu um lugar para que trabalhe em sua empresa.
O salário é muito bom.
— Obrigada, dona Neide.
Não sei como agradecer tudo o que fez por mim.
A senhora foi um anjo bom que Deus colocou em minha vida.
— Não sou nenhum anjo, Júlia.
Você é que é uma menina maravilhosa, que soube superar todas as dificuldades.
Estou feliz por você ser assim.
A vida é cheia de sobressaltos.
Em um dia estamos bem e em outro tudo muda.
O importante é sempre confiarmos em dias melhores e foi o que sempre fez.
Deus abençoe você por isso.
— Quando e onde devo me apresentar para o emprego?
— Existe um problema...
— Qual?
— Você é recém-formada, por isso encontrei algumas dificuldades para encontrar um emprego.
Esse que consegui fica em uma cidade do interior.
Vai precisar se mudar para lá.
Tem algum problema?
— Um pouco assustada, respondi:
— Não sei.
Nunca vivi fora daqui, dona Neide.
Será que vou conseguir viver sozinha?
— Claro que vai, Júlia!
Você tem boa formação e, por natureza, é uma pessoa muito boa e sabe bem o que quer da vida.
— Não sei. Estou com medo.
Ela sorriu:
— Vamos fazer o seguinte.
Amanhã cedo, você vai para lá.
Conheça a cidade e, se conseguir encontrar um lugar para ficar, metade do problema estará resolvido.
Metade, não todo problema.
— Como todo problema?
— O outro problema será você dar conta do trabalho e, isso eu sei que vai tirar de letra.
— Está bem, dona Neide.
Vou amanhã para lá e Deus me ajude que eu encontre um lugar para ficar.
— Foi assim que vim para cá, Sueli, e estou até hoje.
— Agora que está falando sobre isso, estou me lembrando daquele dia, Júlia.
Coisas estranhas aconteceram.
— Que coisas, Sueli?
— Naquele tempo, eu trabalhava somente pela manhã.
Depois que Rosana se mudou, fiquei sozinha no apartamento.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:54 pm

Confesso que não gostava, mas tinha medo de morar com alguém desconhecido.
Naquela noite, me deitei e acordei algum tempo depois, sentindo-me muito mal.
Meu estômago estava embaralhado.
Fui até o banheiro e vomitei por algum tempo.
Depois, quis voltar para o quarto, mas não consegui.
Minha cabeça ficou pesada e eu, aos poucos, fui caindo.
Não conseguia segurar meu corpo.
Assustada, quis ir até a sala ou a cozinha para telefonar ou falar pelo interfone, mas não consegui.
Fiquei ali, desesperada achando que ia morrer sozinha.
Não sei se desmaiei ou adormeci.
Quando acordei, estava ainda no banheiro, mas sentindo-me bem.
Levantei-me, fui para o quarto e decidi que não queria mais ficar sozinha.
Que precisava de alguém ao meu lado, caso aquilo acontecesse novamente.
Fui para o restaurante e, assim que cheguei, contei o que me havia acontecido e que precisava de alguém.
Meus funcionários disseram que iam procurar.
— Foi nesse dia que cheguei, Sueli.
Assim que o ônibus entrou na cidade, gostei dela.
Era pequena, mas muito maior do que o orfanato.
Senti quer ia gostar de morar aqui.
Olhei o endereço da empresa e, perguntando, fui até lá.
Era grande e na rua, havia outras empresas.
Conversei com o gerente e entreguei uma carta que dona Neide havia escrito.
Após ler a carta, ele sorriu e disse:
— Neide é uma grande amiga da nossa família.
Não podia deixar de atender a um pedido seu.
Além disso, gostei de você também.
Pode começar amanhã?
— Voltei para o centro e, como estava com fome, entrei no seu restaurante.
Uma moça se apresentou e me entregou o cardápio.
Olhei, pedi o mais barato e comi.
Senti que a comida era muito boa, lembro-me que pensei:
— Já consegui um trabalho e um bom lugar para comer.
Agora só falta um local para morar.
— Quando estava terminando de comer, a moça voltou para minha mesa.
— Precisa de mais alguma coisa?
— Preciso, mas não sei se pode me ajudar.
Estou me mudando para esta cidade e preciso de um lugar para morar.
— Espere um momento.
Minha chefe está procurando alguém para morar com ela.
Vou falar com ela.
— Fiquei feliz, Sueli, e esperei ansiosa pela volta da moça.
Logo depois ela voltou:
— Falei com minha chefe, ela disse que não pode conversar agora, por ser hora do almoço.
Pediu que, se puder, volte lá pelas três horas.
— Entusiasmada me levantei e disse:
— Está bem.
Diga a ela que vou dar uma volta por aí, conhecer a cidade e que mais tarde eu volto.
— Saí dali e fui para aquela praça que há em frente ao restaurante.
Sentei em um dos bancos e fiquei pensando em como tinha sido a minha vida.
Lembrei-me da Teca, do Altair, da dona Neide e da minha mãe que eu não havia conhecido.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:06 pm

Pedi a todos que, de onde estivessem, me ajudassem.
— Parece que eles ajudaram você, não é, Júlia?
— Ajudaram, sim, Sueli.
Andei pela cidade e, quando faltava pouco para as três horas, voltei para o restaurante.
— Eu estava terminando de me arrumar.
Pedi que esperasse mais um pouco.
Assim que a vi, senti como se já a conhecesse há muito tempo.
— O mesmo aconteceu comigo.
— Depois de conversarmos por algum tempo, senti que estava sendo sincera.
Lembrei-me do que Rosana havia feito por mim e resolvi fazer a mesma coisa.
Convidei você para que fosse até o meu apartamento.
— Quando chegamos diante do prédio, percebi que, como havia acontecido comigo, você também se assustou:
— É verdade, Sueli, mas você disse:
— Não se preocupe com nada, Júlia.
Vamos até o apartamento e depois, conversaremos.
— Assim que entrei me apaixonei pelo apartamento e pelo meu quarto.
Você deixou que eu morasse aqui, pagando um aluguel irrisório.
Não sei como agradecer.
— Não tem o que agradecer.
Gostei de você e não me arrependo.
Tem sido uma óptima companhia.
Depois de ouvir sua história, sinto que fiz a coisa certa.
— Tudo deu tão certo que pareceu que estava tudo planeado.
— Quem sabe não estava?
De acordo com a Doutrina que estou seguindo, tudo o que acontece em nossa vida de bom ou de ruim, sempre tem um motivo, Júlia.
Você foi enviada a mim, pois eu estava em condições de ajudar.
Eu tive a oportunidade de retribuir o que Rosana havia feito por mim.
Você sofreu muito, Júlia.
Além de ser uma pessoa muito boa, precisava ser ajudada.
Os espíritos que a acompanham devem estar muito felizes.
— Tem razão, sofri muito.
Logo depois, dona Neide faleceu.
Ela foi o meu anjo da guarda.
Porém, agora, tudo vai mudar.
Sinto que, ao lado de Anselmo, vou finalmente, ser feliz.
Não estou arrependida de ter perdoado a todos os que me fizeram mal.
Hoje, estou feliz.
Não sei se há, mesmo, algum espírito ao meu lado.
Porém, se houver, só posso agradecer.
— Deve agradecer mesmo, Júlia.
Vou aproveitar este momento em que está feliz para conversarmos sobre outro assunto.
Pela expressão do rosto de Sueli, Júlia percebeu que o assunto era importante.
— Que assunto, Sueli?
— Sobre este apartamento.
— O que tem ele?
— Como sabe, vou me casar e Rosana, assim que eu me mudar, pretende vendê-lo.
— Ah! É isso, Sueli?
Fiquei muito preocupada com a expressão do seu rosto.
Pensei que tivesse feito alguma coisa errada.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:06 pm

— Quando Rosana falou comigo, fiquei preocupada com a sua situação, pois teria de se mudar.
— Não precisa ficar preocupada, Sueli.
Estou me mudando agora, bem antes do seu casamento.
— Melhor assim, Júlia.
Fico feliz por sua vida ter tomado um rumo certo.
Espero que seja muito feliz com Anselmo.
Puxa! Conversamos tanto que nem vimos a hora passar.
Está na hora de eu me arrumar e ir para o trabalho.
Vamos almoçar?
Almoçaram e, depois, Sueli foi para o trabalho.
Júlia se deitou e ficou pensando em como seria sua vida ao lado de Anselmo.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:06 pm

Tomando uma atitude
Naquela manhã, após Anselmo sair, Suzana continuou deitada e pensando.
Há quanto tempo não tínhamos uma noite como esta?
Acho que isso só aconteceu no início do nosso casamento.
Naquele tempo, só pensávamos na nossa felicidade, nos filhos que teríamos e na casa que compraríamos.
Em que momento isso mudou?
Tínhamos muitos sonhos.
Anselmo sempre foi mais modesto do que eu, até nos sonhos.
Para ele, termos um apartamento pequeno, um carro de segunda mão já era o suficiente para sermos felizes, mas eu não.
Eu sempre quis muito mais.
Queria uma carreira, um apartamento imenso o carro mais caro e bonito que pudesse existir.
Consegui tudo o que sempre sonhei, mas quanto tive de pagar para isso?
Hoje, depois de tudo o que aconteceu, de ter perdido meu emprego e quase meu marido, sou obrigada a rever a minha vida.
Talvez eu tenha dado valor a coisas que realmente não tinham.
Este apartamento é grande e luxuoso, mas o que faço nele?
Trabalho tanto que, quando chego, estou tão cansada que passo pela sala e venho até o quarto, uso o banheiro e, para o resto, praticamente nem olho.
Seria diferente se morasse em apartamento de dois quartos, como Anselmo sempre quis?
Para que preciso de um carro último tipo, luxuoso?
Com um carro menor, poderei ir aos mesmos lugares.
Levantou-se, foi até o banheiro, ligou o chuveiro e olhou-se no espelho.
Seus olhos estavam brilhantes.
Sorriu:
Realmente, o amor faz bem para a pele.
Tomou banho e, enquanto se vestia, continuou pensando:
Sei que disse ao Anselmo que vou com ele, mas será que é isso mesmo o que quero?
Durante a noite e hoje me senti e estou me sentindo muito bem, por ter reencontrado meu marido, mas será que isso vai continuar assim?
Será que continuarei feliz como estou hoje?
Fiquei desesperada, quando fui despedida.
Porém, não posso imaginar como será minha vida morando em um Estado que não conheço, com outra cultura e, principalmente, vivendo sem meu próprio dinheiro.
Por muito que Anselmo ganhe, nunca será como o que eu sempre ganhei.
Minha vida vai mudar drasticamente.
Será quer vou conseguir viver dessa maneira?
Embora não aproveite tudo o que consegui, gosto de ter conseguido.
Gosto quando recebo visitas e vejo o olhar nos olhos delas ao verem meu apartamento.
Sinto que todas gostariam de ter igual.
Esse olhar me faz muito bem.
Não posso aceitar perder tudo pelo qual tanto trabalhei.
Hoje, entendi os pontos que errei, os exageros que pratiquei.
Sei que daqui para frente vai ser diferente.
Vou dar mais valor ao Anselmo e ao meu filho.
Quero trabalhar, sim, mas sem me esquecer deles.
Preciso encontrar um novo emprego.
Se conseguir, voltarei a conversar com Anselmo.
Hoje, vou procurar algumas agências de empregos e ver quais são as possibilidades.
Foi o que fez.
Vestiu-se com esmero.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:07 pm

Precisava causar boa impressão.
Deixou Rodrigo na escola e visitou três agências e de todas recebeu a mesma resposta:
— O país está vivendo um momento muito difícil e para sua faixa salarial não há muitas vagas.
Vamos ficar com seus dados e, se aparecer alguma vaga, telefonaremos.
Ela conhecia bem aquilo.
Sabia que, quando isso acontecia, na maioria das vezes não haveria resposta e não seria chamada.
Talvez eu consiga outro emprego, mas quanto vai demorar?
As prestações do carro e do apartamento vencerão todos os meses.
Sem estar trabalhando, isso será impossível.
Sei que, com o que vou receber como rescisão de contrato de trabalho poderei pagar algumas prestações, mas, se não conseguir um emprego, como vai ser?
Preciso tomar uma decisão, mas qual?
Se for com Anselmo, sem tentar, talvez nunca me conforme, porém, se não conseguir um novo trabalho como vou fazer?
Voltou para o carro e, enquanto dirigia, continuou pensando:
O problema é que não tenho muito tempo.
Preciso decidir logo o que fazer.
Anselmo precisa ir para Recife e tem de ser logo.
Por que será que tudo tem de acontecer ao mesmo tempo?
Por que minha vida mudou dessa maneira?
Se minha mãe estivesse viva, sei que diria:
— A vida é assim mesmo, minha filha, mas não se desespere tudo sempre termina bem.
Tenha paciência, esse momento ruim vai passar.
Termina bem, como, mãe?
Vai passar, quando?
Não entendo como sempre pode pensar assim...
Pensou por mais algum tempo, depois decidiu:
Não tenho tempo para pensar, muito menos para esperar que algo aconteça.
Anselmo tem pressa.
Para ele, é uma chance de crescer na profissão.
Preciso providenciar tudo para que possamos nos mudar.
Como minha mãe sempre disse, vamos ver o que acontece.
Voltou para casa.
Entrou e foi para o escritório.
De uma gaveta tirou duas pastas.
Dentro delas havia papéis do apartamento e do carro.
Fez as contas de quantas prestações ainda devia para que fossem pagos.
Depois, pegou a bolsa e foi para uma imobiliária especializada em comprar e vender imóveis de alto padrão.
A mesma através qual havia comprado o apartamento.
Ofereceu o apartamento por um preço muito inferior ao que valia, o que deixou o corrector animado.
— Por esse preço, venderei seu apartamento em poucos dias.
— Espero que consiga logo, pois com esse dinheiro poderei quitar a dívida e ainda me sobrará alguma coisa.
Saiu dali e foi para uma agência de automóveis.
Conversou e vendeu seu carro pelo valor que restava para pagar.
Antes de sair, olhou, com carinho para ele e saiu.
Na rua, pensou:
Não fiquei com dinheiro algum, mas, por outro lado, não terei de pagar mais as prestações.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:07 pm

Isso é um alívio.
Um táxi estava se aproximando, com o braço chamou.
Ele parou e ela entrou.
Enquanto o táxi andava, ela pensava:
Bem, tomei as decisões necessárias.
Daqui para frente é encarar o que vier por aí.
Estou triste.
Minha vida mudou e para pior.
Depois de tanto estudo e trabalho, vejo as coisas que consegui escapar das minhas mãos.
Como vai ser a minha vida daqui para frente?
Se continuasse aqui, conseguir um emprego seria mais fácil, mas em Recife não sei...
Sentiu um aperto na garganta e em seus olhos uma lágrima se formou.
Com a ponta do dedo, impediu que ela caísse.
Enquanto isso, Anselmo chegava à empresa.
Estava confuso com tudo o que havia acontecido naquela noite:
Até agora não entendi o que aconteceu.
Nunca pensei que Suzana abandonaria tudo o que conquistou para me acompanhar.
Muito menos agora, depois de descobrir que eu tinha um envolvimento com outra mulher.
Não conversamos a respeito do seu trabalho e da promoção que teria hoje.
Será que aconteceu alguma coisa para que ela mudasse tão radicalmente?
Será que não foi promovida e, por isso, resolveu abandonar tudo?
Não... ela não faria isso.
A não ser que entendeu que a culpa do meu afastamento era sua.
Também isso não importa.
O importante é que vamos começar uma nova etapa de nossas vidas.
Entrou na empresa e foi directamente para a sala de Alfredo.
Comunicou sua decisão de aceitar a oferta e que iria com a família.
Quando terminou de falar, Alfredo estava eufórico:
— Isso é muito bom, Anselmo.
Sei que se for com sua família, ficará mais tranquilo e poderá render muito mais.
— Essa é a minha intenção.
Pretendo, em pouco tempo, que nossos produtos sejam aceitos e muito vendidos.
— Tenho certeza de que isso vai acontecer, Anselmo.
A situação lá está calamitosa.
Preciso que vá no máximo, em dois dias.
— Dois dias? É muito pouco.
Tenho muita coisa para resolver antes de me mudar.
O senhor sabe que uma mudança como essa, não é fácil.
Estou mudando toda minha vida.
— Entendo. Por isso, será recompensado financeiramente.
Converse com sua esposa.
Ela poderá ficar aqui e agilizar tudo para que a mudança seja tranquila.
Você ficará em um hotel.
Vou conversar com a moça que vai ser sua secretária e pedir que procure uma casa para que possa se mudar.
Não se preocupe com o pagamento de aluguel, sabemos da sua competência, por isso, a empresa vai pagar.
Seu salário também vai aumentar e terá um carro à sua disposição.
Anselmo ouviu tudo o que Alfredo disse.
Sua cabeça estava confusa.
Sabia que teria algum benefício com a mudança, mas nunca imaginou que seria tanto.
Após acertar tudo, saiu da sala de Alfredo e foi para a sua.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:11 pm

Assim que entrou, sentou-se e começou a pensar.
Está dando tudo tão certo que estou com medo.
Essa proposta de emprego.
A mudança de Suzana concordando em me acompanhar.
Parece que estou vivendo uma vida que não é minha.
Alzira e Ciro estavam ali.
Estenderam suas mãos sobre a cabeça dele.
Imediatamente, luzes brancas surgiram e envolveram Anselmo totalmente.
Alzira perguntou:
— E Júlia, Anselmo.
Como vai ficar?
Assim que as luzes envolveram Anselmo, ele sentiu um arrepio por todo o corpo e, sem saber por que, pensou em Júlia:
O que vou fazer com ela?
Como vou dizer que não poderá ir comigo?
Ela disse que ia pedir demissão do emprego, se fez isso, vai ficar em uma situação difícil.
Fiz o que nunca tinha feito antes.
Ela sempre soube que eu não abandonaria minha família e agora disse que ficaria comigo.
Preciso falar com ela, mas o que vou dizer?
Alzira olhou para Ciro e falou:
— Está novamente em um momento de escolha, Anselmo.
Já fraquejou tantas vezes.
Está tendo outra chance.
Aproveite este momento.
Anselmo continuou pensando:
Sinto que estou em um momento de escolha.
Se procurar Júlia e contar o que aconteceu com Suzana, talvez ela, como sempre fez, entenda e me perdoe, mas se não perdoar?
Ela pode encontrar uma maneira de conversar com Suzana e contar tudo o que prometi.
Ouviu uma batida na porta que se abriu.
Por ela entrou Marta:
— Sua esposa está ao telefone, Anselmo.
— Vou atender. Obrigado, Marta.
Ela sorriu e saiu da sala.
Ele pegou o telefone.
Suzana contou tudo o que havia feito com o apartamento e com o carro.
— Vendeu seu carro, Suzana?
— Sim, voltei para casa de táxi.
— Não consigo entender como mudou tanto!
— Já disse a você.
Percebi que estava perdendo meu casamento e principalmente você.
Hoje, pela manhã, depois que você saiu, fiquei relembrando o começo do nosso casamento e de como éramos diferentes.
Dos sonhos que tínhamos e percebi que tudo começou a mudar quando me deixei levar pela ganância, pelo desejo de poder.
Cheguei à conclusão de que perdi um tempo precioso.
— Não entendo o que aconteceu, mas só posso dizer que estou muito feliz pela sua mudança.
Contou o que Alfredo falou e os benefícios que ia receber.
Terminou dizendo:
— Você não vai se arrepender pelas atitudes que está tomando, Suzana.
Vamos ser felizes. Você vai ver.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:11 pm

Ela sorriu:
— Espero que não me arrependa, Anselmo.
Espero também que sejamos felizes.
Agora, volte ao trabalho.
Tem muito para fazer e pouco tempo.
— Está certa. Até à noite.
Suzana desligou o telefone e pensou:
Ele não imagina que eu, com a minha demissão, fui obrigada a tomar essa decisão.
Agora, vou telefonar para Judite e ver quando poderei voltar para completar a rescisão.
Dois dias depois, assim que acordaram, Anselmo disse:
— Preciso partir.
Assim que resolver tudo por aqui, você e Rodrigo irão ao meu encontro.
Está tudo certo.
Quando chegar, depois de telefonar para você, vou assumir o meu cargo.
Estou ansioso.
— Também estou ansiosa para ver como vai ficar a nossa vida daqui para frente.
— Não se preocupe com isso.
Já disse que vamos ser felizes.
Anselmo olhou para o relógio que estava sobre o criado-mudo:
— Estou atrasado.
Daqui a meia hora um carro da empresa vem me buscar e levar para o aeroporto.
— Se eu não tivesse vendido meu carro, poderia levar você.
Ele beijou, de leve, seus lábios.
— Não pense nisso. Logo terá seu carro.
Não um luxuoso como o que tinha, mas um que levará você a qualquer lugar que quiser.
Ela sorriu.
Ele se levantou e foi se preparar para partir.
Alzira olhou para Ciro:
— Aqui, nada mais pode ser feito, Ciro.
Agora, vamos para o lado de Júlia.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:11 pm

Decisão fatal
Passaram-se quase quinze dias.
Naquela manhã, Júlia acordou preocupada:
Anselmo não telefonou nem apareceu.
Será que aconteceu alguma coisa?
Ele disse que ficaria algum tempo sem vir aqui ou telefonar, mas já faz muito tempo.
O que será que aconteceu?
Vou telefonar novamente.
Tentou discar o número do telefone do trabalho de Anselmo, mas seu telefone estava mudo.
Quebrado outra vez?
Precisamos reclamar com a companhia.
Olhou para o relógio:
Também, mesmo que o telefone estivesse funcionando não conseguiria falar com Anselmo.
Ele ainda não chegou ao trabalho.
Se me apressar ainda dá tempo de encontrar com ele, antes de entrar.
Desde que se mudou para lá, todos os dias preparava o café e a mesa para Sueli, pois ela chegava tarde e, por isso, dormia até mais tarde.
Hoje não vou ter tempo de preparar o café.
Preciso encontrar Anselmo.
Rapidamente se vestiu e saiu apressada.
Foi para a lanchonete, onde sabia que Anselmo, antes de entrar para o trabalho, tomava café.
Era ali, que se encontravam todos os dias.
Chegou à lanchonete, quinze minutos antes do horário que ele costumava chegar.
Sentou-se pediu um café com leite e pão com manteiga.
Assim que o garçom trouxe, começou a comer sem tirar os olhos da entrada.
Quinze minutos se passaram, mais quinze e mais quinze:
Será que ele chegou mais cedo?
Será que não veio trabalhar?
Será que está doente?
Será que sofreu algum acidente e não teve como me avisar?
Sem saber o que fazer, pagou, saiu da lanchonete e começou a andar pela rua.
Passou em frente à empresa onde Anselmo trabalhava.
Parou. Alguns segundos depois, continuou andando.
Sem que imaginasse, Alzira e Ciro, um de cada lado, a acompanhavam.
Não posso chegar e pedir para falar com ele.
Sem saber por que, olhou para o lado e viu um telefone público:
Já sei o que fazer.
Vou telefonar para Marta.
Ela, como secretária de Anselmo, é discreta e sabe do nosso romance.
Vai me dizer o que aconteceu com ele.
Foi para perto do telefone.
Olhou e lembrou-se de que não tinha fichas.
Em frente havia um bar.
Foi para lá, comprou fichas e voltou para o telefone.
Discou um número.
Do outro lado da linha, Marta atendeu:
— Alô!
— Bom-dia, Marta.
Sou eu, Júlia, posso falar com Anselmo?
— Ele não está aqui, Júlia.
Faz mais de uma semana que foi para Recife.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:12 pm

Vai trabalhar lá.
Não contou a você?
— Contou que ia, mas eu não sabia que já tinha ido.
— Foi sim.
Precisou ir às pressas.
— Foi sozinho?
— Sim, mas sua esposa está preparando tudo para ir ao seu encontro.
Ela vai hoje à tarde.
Fui eu quem comprou as passagens dela e do menino.
Ele não conversou com você?
— Não, ele não conversou comigo.
Sabia que ele ia, mas não imaginei que ela fosse com ele...
— Ela vai, sim e ele está muito feliz por isso.
Sinto muito, Júlia.
Pensei que ele houvesse conversado com você.
Júlia engoliu em seco.
Sua garganta se fechou, quase não conseguiu dizer:
— Obrigada, Marta.
Preciso desligar...
— Está bem, Júlia.
Pode ter certeza de que sinto muito...
Júlia desligou o telefone, mas atónita, continuou com ele em sua mão.
Ouviu uma voz:
— Preciso usar o telefone, moça.
Levantou os olhos e viu a mulher que havia dito aquilo.
Colocou o telefone no gancho e, cambaleando, começou a caminhar.
Sentiu que sua boca e olhos secaram e que seu corpo começou a tremer.
Imediatamente, Alzira e Ciro começaram a jogar luzes brancas sobre ela.
Aos poucos, foi se acalmando.
Continuou andando sem saber bem para onde.
Não conseguia, nem queria pensar ou chorar.
Continuou andando sem destino.
Alzira e Ciro continuaram ao seu lado jogando as luzes.
Alzira, preocupada, disse:
— Neste momento, precisamos ajudá-la, Ciro.
— Sei disso, mas não podemos nos esquecer de que não podemos interferir no seu livre-arbítrio.
Ela precisa passar por esta prova.
Até aqui, tem se saído muito bem.
— Tudo o que disse é verdade.
Realmente não podemos interferir.
Até aqui, tudo o que ela fez foi sempre certo.
Mesmo não podendo interferir no seu livre-arbítrio precisamos tentar tudo o que estiver ao nosso alcance.
Ela precisa sentir que não está sozinha.
Júlia continuou andando.
Pensava nas últimas palavras de Anselmo:
— Não se esqueça de que amo você e de que vamos começar uma vida só de felicidade.
Uma imensa revolta tomou conta dela.
Furiosa, pensou:
Como ele pôde fazer isso comigo?
Como pôde me enganar dessa maneira?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:12 pm

Estou com tanto ódio que nem consigo respirar.
Não sei o que fazer.
Perdi meu emprego, como vou sobreviver?
Também, sobreviver para que?
Para esta vida cheia de sofrimento e desilusão?
Não quero mais viver!
Quero morrer, só não sei como fazer.
Preciso pensar.
Ao ouvirem o pensamento de Júlia, Ciro e Alzira tentaram se aproximar mais dela, mas não conseguiram, foram afastados violentamente e alguns vultos que passavam por ali, aproximaram-se e a envolveram completamente.
Enquanto ela andava, eles rodopiavam à sua volta e diziam, todos ao mesmo tempo.
— Pode se jogar embaixo de um carro!
Pode tomar veneno!
Pode se enforcar em uma árvore.
Júlia, sem imaginar que aqueles pensamentos não eram seus, continuou andando.
Ia pensando em todas as maneiras que havia para se matar:
Não, não posso fazer nada disso.
Quero morrer, mas não quero sofrer mais.
Estou cansada de sofrer.
Preciso pensar mais um pouco.
De uma coisa tenho certeza, não sei como, mas vou encontrar uma maneira de deixar esta vida.
Continuou andando.
Ciro e Alzira, em vão, tentavam afastar aqueles vultos, mas não conseguiam.
A única coisa que conseguiram fazer foi continuar caminhando ao lado dela e, agora, dos vultos também.
Desesperada, Alzira perguntou:
— O que vamos fazer, Ciro?
Não conseguimos nos aproximar nem afastar esses vultos!
— Sabe que nada podemos fazer, Alzira.
Ela está em um momento de escolha, de usar seu livre-arbítrio.
Precisamos esperar e ver o que ela vai decidir.
— Não podemos esperar!
Precisamos agir e fazer alguma coisa, Ciro!
— Nada podemos fazer, Alzira.
Ela está com o pensamento firme no suicídio e, assim, atraindo para si, nossos irmãos, também suicidas.
Se o ser humano soubesse a força de seu pensamento, evitaria ter pensamentos destrutivos e só pensaria em coisas boas.
— Não vou desistir, Ciro.
Vou encontrar uma maneira de afastar esses irmãos e fazer com que ela pense melhor.
Ela não pode fazer novamente o que tem feito durante várias encarnações.
Desta vez, precisa superar.
Pois, se não conseguir, sua próxima encarnação será muito pior do que esta.
— Vamos tentar, mas sabe que o momento é grave, Alzira.
— Sim, sei disso.
Embora eu saiba muito sobre o mundo espiritual, existem coisas que, embora conheça, não entendo muito bem.
— Que coisas, Alzira?
— Sabemos que Júlia, nesta encarnação, está tendo a oportunidade de se redimir pelas várias vezes em que se suicidou, não sabemos?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:12 pm

— Sim.
— Por que, então, ela veio com tantos problemas, com tanto sofrimento?
Com tudo que já aconteceu não me surpreendo ao ver que ela está cansada e que não vai suportar.
Ela vai fraquejar novamente, Ciro.
A única maneira de ela vencer, teria sido se tivesse renascido com o plano de uma vida mais calma, sem grandes sofrimentos, como acontece com muitos.
— Seria mais fácil, Alzira, mas ela não teria superado essa sua deficiência.
Ela precisa superá-la para poder seguir adiante.
— Sei que está certo, mas fico desesperada ao ver que ela está prestes a perder mais uma encarnação.
— Ela ainda não decidiu, Alzira.
Também, não podemos nos esquecer de que foi ela quem escolheu a vida que ia ter para a evolução de seu espírito.
— Sei que, quando estamos no plano espiritual, Ciro, cercados por espíritos amigos e nos sentindo protegidos, sabendo das nossas qualidades e defeitos, é fácil escolher a vida que seria melhor para a nossa evolução, mas, quando estamos aqui, no corpo físico, muitas vezes desejamos desistir.
— Infelizmente, Alzira, apesar de toda luta e força que espíritos amigos conseguem dar, nem sempre é possível ajudar.
Não podemos nos esquecer de que cada um é responsável por suas acções e evolução.
Nenhuma prova, por pior que pareça, é maior do que a força do espírito para suportar.
Vamos esperar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que ela consiga se livrar desse pensamento.
— Como, Ciro?
Não podemos nos aproximar!
Eles, atraídos pelos pensamentos destrutivos dela, não permitem, nos afastam...
— Vamos ficar ao lado dela e, na primeira oportunidade, nós nos aproximaremos.
Isso é a única coisa que podemos fazer, Alzira.
Triste, Alzira concordou com a cabeça.
Júlia continuou andando.
Seus passos eram curtos, mas pesados.
Seu olhar estava perdido no horizonte.
Influenciada pelos pensamentos que os vultos mandavam, pensava:
Existem mil maneiras para me matar.
Só preciso escolher uma que não me cause dor.
Cansei desta vida de sofrimento.
Acho que, quando nasci, já vim marcada para sofrer e para este dia.
Não suporto mais, vou desistir...
Olhou para o relógio que estava em seu pulso:
A esta hora, Sueli já foi para o trabalho.
Vou para casa e já sei como vou me matar sem sofrer.
Parou, olhou à sua volta:
Andei tanto que nem sei onde estou.
Continuou olhando, tentando se localizar.
Passou por um ponto de ônibus. Foi para lá.
Viu que ali passava o ônibus que a levaria para o centro e para o seu apartamento.
Esperou que ele chegasse.
Enquanto o ônibus não chegava, cercada pelos vultos, continuou pensando:
Essa foi a melhor decisão que tomei.
Não tenho como nem quero continuar vivendo.
Já sofri demais.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:12 pm

Fui abandonada ao nascer, tive um tempo de felicidade ao lado de Teca e do Altair, eles me foram tirados.
Agora, sem emprego e sem um lugar para morar, nada mais me resta.
Da maneira como vou me matar, não vou sentir dor.
Dizem que é pecado o suicídio, mas, para mim pecado é ter uma vida como a minha.
Chega! Chega!
Alzira e Ciro embora não conseguissem se aproximar continuavam ali.
Preocupada, ela disse:
— Para tentarmos evitar que ela continue e faça o que está pensando, vamos precisar de ajuda, Ciro.
Precisamos encontrar uma maneira de afastar esses nossos irmãos que estão perdidos e sofrendo.
— Está certa, Alzira.
Porém, sabe que, apesar de tudo o que pudermos fazer, a decisão ainda é dela.
— Sei disso, mas precisamos tentar tudo o que estiver ao nosso alcance.
Vamos pedir ajuda.
Deram-se as mãos e fizeram uma oração.
No mesmo instante, duas entidades apareceram.
Demonstrando preocupação, uma delas, perguntou:
— O que está acontecendo com ela?
— Veja você mesma, Jandira.
Ela está em um momento muito difícil e permitiu que esses vultos se aproximassem.
Não conseguimos chegar mais perto.
Jandira olhou, estendeu os braços em direcção a Júlia.
De suas mãos luzes brancas e fortes saíram.
Mesmo assim, com toda força que tinham, não conseguiram atingir Júlia.
Com tristeza, disse:
— Minha menina, sei que está em um momento difícil, mas precisa passar por mais esta prova.
Precisa vencer para poder continuar e ser feliz.
Pensa que eu e seu pai abandonamos você, mas não é verdade, embora estivéssemos envolvidos em outro trabalho, sempre estivemos atentos a tudo o que aconteceu com você.
Júlia, envolta por pensamentos destrutivos e pelos vultos, não ouviu.
Homero, a outra entidade, demonstrando preocupação, falou:
— Não adianta, Jandira.
Ela não nos ouve.
Jandira, com lágrimas nos olhos, continuou a jogar luzes sobre Júlia:
— Minha filha, sei que muitas vezes se perguntou por que eu morri quando você nasceu.
Foi preciso.
Eu renasci apenas para que você pudesse nascer.
Todos nós sabíamos que este dia chegaria.
Estamos aqui e ficaremos até que este momento passe.
Rogamos ao Pai Celestial que você consiga vencer.
Alzira ao perceber que não havia reacção alguma por parte de Júlia, disse:
— Já que estão aqui, vou me ausentar por algum tempo.
— Aonde você vai, Alzira?
— Não se preocupe, Ciro.
Volto logo. Preciso tentar uma última coisa.
Ele, conhecendo Alzira e sabendo como estava disposta a salvar Júlia, disse:
— Está bem.
Vá e faça o que for preciso e o que puder.
Ela desapareceu.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:13 pm

Eles continuaram ali, em oração e tentando jogar luzes sobre Júlia.
Enquanto isso, assim que o ônibus chegou, Júlia entrou nele.
Nele, por motivo do horário, não havia muitas pessoas.
Ela olhou e viu que um dos bancos estava vazio.
Sentou-se junto a janela e ficou olhando para fora.
Seu rosto estava crispado.
Ela não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a maneira de como pretendia se matar.
Ciro, Homero e Jandira, temerosos, permaneciam ao lado dela, como os vultos que riam e a rodeavam, incentivando-a a se matar.
Quando o ônibus parou no ponto em que ela devia descer, levantou-se e, ainda com o rosto crispado, desceu.
Entrou no prédio e passou pelo porteiro sem cumprimentá-lo, o que causou estranheza:
O que será que aconteceu?
Ela nunca passou por aqui tão calada assim.
Sempre tem algo para dizer.
Parece que não está bem.
Júlia entrou no elevador, apertou seu andar e saiu.
Assim que entrou no apartamento, olhou para a porta do quarto de Sueli.
Estava aberta:
Como eu previ, ela não está aqui e só voltará à noite.
Tenho bastante tempo para fazer o que é preciso para ter paz.
Quando Sueli voltar, será tarde demais e eu estarei livre.
Foi para seu quarto, deitou-se sobre a cama e continuou pensando:
Não há outro caminho.
É a única maneira de eu parar de sofrer.
Embora não conseguissem afastar os vultos, Jandira gritou:
— Não, Júlia! Esse não é o caminho!
Você acha que tudo terminou, mas está errada!
Está apenas começando!
Tem muito para viver e fazer!
Mude sua faixa de pensamento, para que possa nos ouvir!
Júlia sentiu uma suave brisa passar por seu rosto, mas foi logo afastada pelos vultos que, atraídos por seus pensamentos, envolveram-na totalmente.
— Não adianta.
Eles a envolveram completamente, Jandira.
Jandira, olhando para Ciro e Homero, quase chorando, falou:
— Isso não está certo, Ciro!
Ela está sob o domínio deles!
Não está pensando direito!
Está sofrendo muito pelo abandono!
As nossas luzes deveriam ser mais fortes do que eles!
— Nossas luzes são mais fortes do que eles, Jandira.
Só não são mais fortes do que o desejo de Júlia e de seu livre-arbítrio.
Ela está sofrendo sim, mas escolheu o caminho que julgou ser o mais fácil.
Apesar de todos os nossos esforços, nada poderemos fazer.
A não ser ficarmos aqui até que tudo termine.
— Poderemos evitar o que vem depois, Ciro?
— Sabe que, infelizmente, não, Jandira.
Assim que ela levar a cabo o que está pretendendo, será levada por esses nossos irmãos para o Vale e você sabe como é lá.
Por mais que tentemos nos aproximar dela, não será possível.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:13 pm

No vale, ela vai passar por muito sofrimento, como já passou várias vezes.
E, como aconteceu das outras vezes, ficará lá até entender o que fez.
Até entender que, mais uma vez, apesar de todas as promessas feitas antes de renascer, fracassou.
— Isso é uma pena, Ciro.
Pensar que todos nós estávamos ao seu lado quando ela escolheu a vida que queria ter.
Foi avisada que seria muito difícil, mas ela insistiu tanto.
Achou que conseguiria.
— É verdade, mas, pelo visto, não vai conseguir, Jandira.
— Vamos continuar jogando luzes e orando.
Ainda tem tempo.
Até o último momento, ela poderá se arrepender.
Se ela fizer isso, estaremos aqui para ajudá-la, para confortá-la.
Ficaram novamente em silêncio, apenas orando e jogando luzes.
Júlia, sem imaginar a preocupação e dedicação de seus amigos espirituais, levantou-se, foi até o guarda-roupa, abriu uma gaveta e tirou de dentro dela, um pijama.
Em seguida, foi para o banheiro, ligou o chuveiro e tomou um banho demorado.
Terminou de tomar o banho, vestiu o pijama e voltou para sala.
Pegou um caderno, arrancou uma folha e escreveu com letras bem grandes para que Sueli visse, assim que entrasse:
Sueli
Desculpe-me pelo que vou fazer você passar, mas não quero nem consigo continuar vivendo.
Não aguento mais tanto sofrimento.
Quero descansar.
Obrigada por tudo que fez por mim.
Júlia
Voltou ao banheiro, de uma gaveta tirou uma gilete e foi para o quarto, deitou-se e pensou:
Com esta gilete, vou cortar meus pulsos.
Primeiro corto um, depois o outro.
O sangue vai jorrar, eu vou desmaiar e não vou sentir coisa alguma.
Jandira, Ciro e Homero não puderam evitar que lágrimas caíssem por seus rostos.
Os vultos, felizes, aproximaram-se mais dela.
Pegou a gilete com a mão direita e a aproximou do pulso esquerdo.
Quando estava quase cortando para espanto dos amigos e dos vultos que estavam ali, Júlia começou a chorar e a dizer:
Não posso fazer isso!
Não posso! Sei que é errado!
Muito nervosa e tremendo, levantou-se de um pulo.
Assim que colocou os pés no chão, escorregou em um tapete e começou a cair.
Tentou se segurar com o braço, mas não conseguiu e bateu com a cabeça em um banquinho que estava em frente a uma penteadeira.
Imediatamente o sangue começou a jorrar.
Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Chorando, continuou deitada.
Jandira, Ciro e Homero levantaram as mãos e agradeceram, a Deus, por aquele momento.
O quarto se iluminou.
Os vultos, assustados com tanta luz, encostaram-se em uma das paredes e ficaram observando.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 7:13 pm

Acto de desespero
Naquela manhã, Sueli acordou e, como fazia todos os dias, levantou-se e foi para a cozinha:
Vou tomar café.
Júlia já deve ter se levantado e preparado.
Assim que entrou na cozinha, estranhou:
O que será que aconteceu?
Ela não preparou o café, como sempre faz.
Será que ainda não acordou?
Foi para o quarto de Júlia que estava com a porta fechada.
Bateu e. como não obteve resposta, abriu:
Ela não está e deixou a cama sem fazer, isso não é coisa dela.
Jamais deixaria o quarto dessa maneira.
Parece que saiu apressada.
O que será que aconteceu?
Estava preocupada com a demora de notícias de Anselmo.
Será que ele veio aqui e saíram juntos?
Bem, não adianta querer adivinhar.
Vou esperar ela voltar para me contar tudo.
Já que não fez café, vou fazer.
Voltou para cozinha.
Preparou e tomou café.
Depois foi para seu quarto.
Olhou para o relógio:
É quase meio-dia! Dormi muito.
Logo hoje que marquei para provar o meu vestido de noiva!
Júlia disse que ia comigo, deve ter esquecido, mas não posso faltar.
O dia do casamento está chegando e tenho muita coisa para fazer.
Vou me vestir e sair.
Depois de provar o vestido, vou directo para o trabalho.
Foi o que fez.
Vestiu-se, saiu e foi até a costureira.
Enquanto provava o vestido a costureira perguntou:
— Júlia não veio com você?
Sueli sorriu:
— Não, quando acordei, ela não estava.
Acho que se esqueceu se que era o dia de eu provar o meu vestido.
— Estranhei, porque vocês estão sempre juntas.
— É verdade, mas ela, agora, está namorando sério.
Acho que deve ter ido se encontrar com ele e a senhora sabe como é, quando temos um namorado, nos esquecemos das amigas, não é?
A costureira riu:
— É verdade, acho que isso nunca muda.
O homem sempre vem em primeiro lugar.
Terminou de provar o vestido.
Marcou uma nova data, saiu e começou a olhar as vitrines:
Preciso comprar algumas coisas para a casa nova.
Como tenho tempo, vou aproveitar que estou aqui.
Durante mais de uma hora entrou e saiu de lojas.
Comprou algumas roupas de cama e banho.
Enquanto esperava o pacote, pensava:
Nossa! Comprei tanta coisa!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:25 pm

Ainda bem que o restaurante é aqui perto.
Foi nesse exacto momento que Alzira apareceu, colocou-se ao lado dela e, baixinho, falou:
— Sueli! Precisa ir para casa.
Júlia está precisando de você.
Alheia ao que Alzira falava, Sueli pegou o último pacote e saiu.
Na rua, olhou para o lado em que o restaurante ficava e, carregando vário pacotes, começou a caminhar.
Alzira voltou a dizer:
— Sueli, vá para casa...
Sueli não ouviu e continuou caminhando.
Alzira, desesperada e sem saber o que fazer, continuou caminhando ao lado dela e repetindo as mesmas palavras.
Sueli, sem saber por que, parou, olhou para o lado oposto que caminhava e pensou:
Acho melhor ir para casa.
Quando eu sair do trabalho, estarei cansada e terei mais dificuldade para levar estes pacotes.
É isso mesmo, vou para casa!
Alzira sorriu e voltou para junto dos outros.
Assim que chegou, disse eufórica:
— Acho que consegui!
— Conseguiu o que, Alzira?
Ela quase conseguiu seu intento e agora, está muito mal!
Pesarosa, Alzira olhou para Júlia que, deitada sobre o chão e via a enorme mancha de sangue que se formava ao seu redor.
— Consegui fazer com que Sueli voltasse para casa.
Tomara que chegue a tempo.
— Mesmo que isso aconteça, do que vai adiantar se Júlia continuar tendo a mesma ideia?
Sabe que vai tentar novamente.
— Sei disso, Ciro, mas teremos mais tempo para fazer com que mude o pensamento.
— Como? Olhe!
Alzira olhou e viu os vultos que, embora encostados à parede, observavam Júlia.
— Ainda não terminou, Ciro!
Ainda não terminou!
Jandira e Homero que, acompanhavam a conversa, concordaram com a cabeça.
Imediatamente, aumentaram suas luzes e entraram em oração.
Sueli chegou ao prédio.
Passou pela portaria e o porteiro não estava lá.
Abriu a porta de seu apartamento.
Seus olhos foram para a mesa onde pôde ver o caderno aberto.
Como as letras eram grandes, chamaram sua atenção.
Foi para lá e leu o que estava escrito.
Seu corpo tremeu, os pacotes caíram no chão e ela correu para o quarto de Júlia que estava com a porta aberta.
Assim que entrou, correu, gritando:
— Meu Deus!
Júlia o que você fez?
Júlia, com a voz fraca, respondeu:
— Uma loucura, Sueli.
Não quero morrer, me ajude...
O quarto, agora, se iluminou ainda mais iluminou e os vultos, que continuavam encostados à parede, foram arremessados com força.
Os amigos conseguiram se aproximar.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:25 pm

Enquanto Jandira e Homero continuavam jogando luzes sobre Júlia, Alzira e Ciro jogavam sobre Sueli.
Alzira disse:
— Acalme-se, Sueli.
Precisa socorrer Júlia e, depois, procurar ajuda.
Como se estivesse ouvindo, Sueli respirou fundo, foi até o guarda-roupa, abriu uma gaveta e pegou um cachecol e enrolou o na cabeça de Júlia, tentando fazer com que o sangue parasse de sair.
Depois, disse:
— Fique calma, Júlia.
Vou procurar ajuda.
— Não me deixe sozinha, Sueli...
— Precisamos de ajuda.
Tente segurar o cachecol junto ao ferimento.
Se conseguir, o sangue vai parar de sair.
Fique calma.
Saiu do quarto, pegou o telefone para chamar uma ambulância.
Percebeu que estava mudo, pensou:
Quebrado outra vez?
O que vou fazer?
Não posso sair daqui.
Meu Deus do céu, por que esse telefone foi quebrar logo hoje?
Preciso de ajuda, mas não posso me afastar por muito tempo.
Abriu a porta que dava para o corredor.
Olhou para os dois lados.
Não adianta, não há ninguém para me ajudar.
Todos, a esta hora estão trabalhando.
Meu Deus, o que vou fazer?
Alzira que estava ao seu lado, sussurrou:
— O senhor Joaquim...
Sueli, no mesmo instante, pensou:
— Espere, o senhor Joaquim, que mora aqui na frente, deve estar em casa!
Vou pedir que traga ajuda.
Andou alguns passos e bateu à porta com muita força.
Alguns segundos depois, ela se abriu e surgiu um rapaz que ao ver o estado dela, preocupado, perguntou:
— O que aconteceu, moça?
Ela muito nervosa, respondeu:
— Minha amiga!
Preciso de ajuda!
Sueli voltou depressa para o apartamento e foi seguida pelo rapaz que, assim que entrou pode ver o bilhete que Júlia havia deixado e entendeu o que havia acontecido.
Quando Sueli entrou no quarto, gritou:
— Júlia! Não!
O rapaz se aproximou e viu que Júlia estava muito pálida e com os olhos fechados.
Sueli começou a chorar.
Ele colocou dois dedos sobre a garganta de Júlia e, nervoso, disse:
— Ela está viva!
Precisamos levá-la a um hospital!
— Por favor, moço, vá até na rua e consiga um táxi!
—Não temos tempo para isso!
Meu carro está estacionado aí na rua, vamos levá-la!
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Ave sem Ninho

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:25 pm

Imediatamente, ele enrolou Júlia em um lençol que estava sobre a cama, pegou-a no colo e saiu apressado.
Sueli, chorando muito, seguiu ao seu lado.
Nunca o elevador demorou tanto para chegar.
Assim que chegou, entraram e, quando passaram pela portaria, o porteiro perguntou:
— O que aconteceu?
Sueli, ainda chorando e sem parar de andar, respondeu:
— Ela não está bem, estamos indo para o hospital.
Assim que chegaram junto ao carro, o rapaz falou:
— Entre e sente no banco de trás, mantenha a cabeça dela alta.
Tirou um lenço do bolso e deu para Sueli, dizendo:
— Coloque esse lenço sobre o corte.
Ele é menor que esse cachecol e aperte bem.
Faça isso até chegarmos ao hospital.
Sueli, como um autómato, obedeceu.
Ele, depois de acomodar as duas, entrou no carro e saiu em disparada.
Poucos minutos depois, chegaram ao hospital.
Ele parou o carro em frente à emergência, desceu e entrou correndo.
Logo depois, duas enfermeiras, trazendo uma maca, chegaram junto ao carro, colocaram Júlia, que ainda estava com os olhos fechados, na maca e entraram rapidamente.
Sueli e o rapaz as acompanharam.
Enquanto entravam, uma das enfermeiras disse:
— Vamos levá-la para a emergência, enquanto isso é preciso preencher alguns papéis ali na secretaria.
A maca e as enfermeiras, acompanhadas por Teca e Jandira, entraram por uma porta.
Alzira e Ciro permaneceram ao lado de Sueli e do rapaz que, em seguida, dirigiram-se ao balcão.
Após dar os dados de Júlia e dizer o que havia acontecido, Sueli e o rapaz sentaram-se em um dos bancos que havia ali.
Assim que se sentou, Sueli começou a chorar violentamente.
O rapaz se assustou:
— Por que está chorando assim?
Sueli, entre soluços, respondeu:
— Não sei. Agora que ela está sendo atendida, acho que minhas forças terminaram.
— É assim mesmo que acontece.
Se acha que chorar vai fazer bem a você, continue.
Eu ficarei aqui ao seu lado.
Sueli queria parar de chorar, mas não conseguia.
A cena de Júlia jogada na cama não saia da sua cabeça.
Chorou por um bom tempo, até que, aos poucos foi se acalmando.
Com as mãos secou os olhos.
Respirou fundo e perguntou:
— Será que ela vai ficar bem?
— Agora, está nas mãos de médicos e de Deus.
Tudo o que poderíamos fazer, fizemos.
Vamos ter fé e esperar.
— Obrigada por tudo, moço.
Sem sua ajuda, não sei o que teria feito.
— Não precisa agradecer.
Estou feliz por ter ajudado.
Porém, acho que está na hora de nos conhecermos.
Meu nome é Mário.
Sou filho do senhor Joaquim.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:25 pm

— Meu nome é Sueli e, como viu, sou vizinha do seu pai.
Ele é muito agradável e falante.
Por isso, todos gostam dele.
Mário sorriu:
— Sei disso.
Ele gosta de conversar e é muito curioso.
— Eu sabia que ele tinha um filho que mora no Rio de Janeiro, mas nunca vi você por aqui.
— É verdade, moro no Rio.
Trabalho muito, por isso quase não venho aqui.
Meu pai é quem vai me visitar.
Quis que ele fosse morar comigo, mas nunca quis.
Gosta desta cidade.
Diz que o Rio é muito grande e que não conhece ninguém.
— Nisso ele tem razão.
Em uma cidade pequena como esta, é mais fácil conhecer as pessoas.
Garanto que, da maneira como ele é conhece muitas pessoas.
Agora, Mário riu.
— Acredito nisso.
Na realidade, meu pai é um grande fofoqueiro, não é?
Ele quer saber tudo sobre a vida de todos.
Sueli também riu:
— Não é fofoqueiro, gosta de saber das coisas e fala muito da sua vida também.
Ele gosta e sente muito orgulho de você.
— Também gosto muito dele.
Graças a ele, sou o que sou hoje.
Ele me incentivou a estudar.
— Ainda bem que estava lá.
Se não fosse por você não sei o que teria feito.
— O engraçado dessa história é que eu não poderia, nem sei por que estava lá no apartamento do meu pai e estou aqui, agora, com você.
— Não entendi...
— Estou no meio de um projecto muito complicado.
Agora, não poderia sair do Rio.
Ontem, pela manhã, quando acordei, senti uma vontade imensa de ver meu pai.
Pensei em telefonar, mas sei que não adiantaria.
Mesmo que estivesse passando por algum problema, não contaria.
Sabe como é, diz que não quer incomodar.
Tentei me esquecer dele, mas não consegui.
A noite, vendo que não teria tranquilidade, resolvi vir até aqui.
Parece que alguém estava me mandando vir para cá para poder ajudar você e a essa moça.
— Acredito que isso realmente tenha acontecido.
— O que está dizendo, Sueli?
— Isso que ouviu, Mário.
Estou estudando uma Doutrina que nos ensina exactamente isso.
— Ensina o que?
— Que a morte não existe.
Que, quando morremos, nos transformamos em espíritos e voltamos para a nossa verdadeira casa.
Que, nascemos e renascemos várias vezes para o aperfeiçoamento do nosso espírito.
Que nós mesmos escolhemos a vida que vamos viver em um novo corpo físico e, o mais importante é nunca estamos sós.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:26 pm

— Isso tudo é muito bonito, mas é só uma teoria, Sueli.
— Tem razão, pode ser apenas uma teoria.
Por isso, estou estudando e tentando entender e até agora, tudo que aprendi está me convencendo.
— Está certo.
Não sei como chegamos a esta conversa, mas, mesmo se o que diz for verdade, o que tem a ver com eu estar aqui em um momento em que não poderia estar?
-— Aprendi, também, que fazemos parte de um grupo maior do que aquele que conhecemos.
— Não estou entendendo.
Conheço bem o grupo a que pertenço.
Minha família, meus amigos...
— Esses, são aqueles que conheceu nesta encarnação, mas como eu disse, nascemos e renascemos muitas vezes.
Muitos amigos nossos, caminharam mais rápido e estão nos esperando para que possamos acompanhá-los.
Alguns renascem, muitas vezes, sem precisar, apenas para nos ajudar na nossa jornada de aprendizado.
Outros continuam no plano espiritual, sempre ao nosso lado, tentando nos ajudar.
Durante nossa vida, aqui na Terra, conhecemos várias pessoas.
De algumas gostamos assim que as vemos, de outras, sem motivo algum, não gostamos.
Algumas conhecemos e nos tornamos amigos, outros, apenas passam por nossa vida por um curto período, depois desaparecem.
Todas fazem parte do nosso grupo espiritual.
— Isso tudo é loucura, Sueli!
Como pode acreditar nessas coisas?
— Você mesmo disse que não entende como estava lá, quando precisei e está aqui agora, não foi?
— Isso é verdade, mas nada tem a ver com tudo isso que falou.
Pelo que entendi, está dizendo que fui influenciado por um pseudo amigo espiritual, para largar tudo e vir para cá ajudar uma desconhecida.
É isso que está dizendo?
Sueli riu:
— É mais ou menos isso, Mário.
A única coisa que sei é que quando precisei, você estava lá e agradeci a você, a Deus e, mesmo que não acredite, aos meus amigos espirituais.
Agora quem riu, foi ele:
— Você é mesmo maluca, Sueli.
— Entendo o que está sentindo com toda essa conversa.
A princípio, parece complicado, mas, à medida que for entendendo, vai ver que não é.
— Não sei não.
Para mim, que sempre estudei ciências, é um pouco difícil de aceitar tudo isso.
Para a ciência, tudo o que acontece sempre tem uma explicação.
Sueli olhou para a porta por onde Júlia e as enfermeiras haviam entrado:
— Mário, não acha que está demorando muito para termos notícia de Júlia?
Será que ela está bem?
Será que conseguimos chegar a tempo?
— Fique calma.
Tudo o que podia ter feito, você fez.
Agora, ela está em boas mãos e sendo atendida.
Só nos resta esperar.
Enquanto não temos notícias de Júlia, para passar o tempo, podemos continuar com a nossa conversa?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

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