Apenas Começando / Elisa Masselli

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:26 pm

— Está bem, Mário.
Vamos continuar conversando.
— Supondo-se que o que diz seja verdade, posso deduzir que estamos todos nós, trabalhando, estudando, cada um tocando sua vida da maneira que dá e, de repente, um ou mais dos nossos pseudo amigos espirituais, se aproximam, sussurram qualquer coisa ao nosso ouvido e, imediatamente, deixamos tudo o que estávamos fazendo, para fazer o que eles querem.
É isso que está dizendo, Sueli?
— É isso mesmo que acontece, Mário.
— Acredita mesmo nisso?
— Claro que acredito.
Aconteceu com você e comigo também.
Você estava tranquilo trabalhando, de repente, do nada, sentiu uma vontade incontrolável de ver seu pai.
Largou tudo o que estava fazendo e veio para cá.
O mesmo aconteceu comigo.
Hoje, quando saí de casa, havia planejado ir provar o meu vestido de noiva e depois ir directo para o trabalho.
Não pensava em retornar para casa, mas, quando estava indo para o trabalho, senti uma vontade incontrolável de ir para casa.
Se isso não tivesse acontecido, Júlia teria morrido sem assistência.
Mário, ao ouvir aquilo, ficou calado, somente pensando em tudo o que ela havia dito.
Sueli continuou:
— Depois de tudo o que aconteceu, só posso dizer que, alguém lá em cima, gosta muito dela.
Ao ouvir aquilo, Ciro olhou para Alzira, que estava ali e que também sorriu.
Mário ficou calado.
Depois de algum tempo, disse:
— Tem razão, Sueli.
Alguém deve gostar muito dela, mesmo.
Depois de tudo o que falou, acho que, se não foi uma grande coincidência, tudo isso pode ser verdade.
Porém, tem algo que ainda está me incomodando.
— O que, Mário?
— Sempre soube que, assim como existe o bem, existe também o mal.
Se um espírito do bem pode nos influenciar da maneira como está falando, outro do mal pode fazer da mesma maneira e nos levar a fazer coisas erradas, a cometer um crime?
— Pode.
Claro que pode, Mário!
— Isso que está dizendo é muito perigoso, Sueli.
— Estou dizendo que pode, mas não que precisamos seguir o que ele sugere.
— Não estou entendendo...
— Você mesmo disse que existe o bem e o mal.
Assim como todos nós aprendemos desde muito cedo o que é certo e o que é errado.
Você sentiu uma vontade imensa de ver seu pai, não foi?
— Sim. A vontade foi tão grande que estou aqui.
— Pois bem, se essa vontade fosse de matá-lo de fazer algum mal a ele, você teria vindo e teria feito o que foi sugerido?
— Claro que não!
— Está vendo a diferença?
A isso damos o nome de escolha, de livre-arbítrio.
Por causa do nosso livre-arbítrio, espírito algum, bom ou mau. poderá nos obrigar a fazer o que não queremos, o que julgamos errado.
Espírito do bem ou do mal não pode interferir nas nossas escolhas.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:26 pm

Elas são nossas mesmo antes de nascermos.
Somos espíritos livres. Mário.
Só fazemos o que queremos.
— Se eles são tão poderosos assim, para que precisam de nossa ajuda, simples mortais?
— Os espíritos, por não ter um corpo físico, muitas vezes precisam conversar connosco e, para isso, usam outro espírito com corpo físico.
Acredito que foi isso o que aconteceu comigo e com você.
Júlia precisava de ajuda material.
Ele ou eles como precisava ou precisavam de um corpo físico, veio ou vieram em busca da nossa ajuda.
E aqui estamos.
Se relembrar o seu passado, vai ver quantas vezes em momentos difíceis, apareceu alguém para ajudar você, muitas vezes até com uma simples palavra ou apenas ouvir o que precisava dizer.
Pessoas estranhas, durante a nossa vida, aparecem, nos ajudam de alguma maneira e depois nunca mais as vemos.
Em um momento de muito sofrimento, encontrei uma moça que não me conhecia, não sabia de onde eu era, mesmo assim, me ofereceu sua casa para eu morar e me ajudou muito.
— Seus argumentos são fortes, Sueli.
Preciso pensar mais a respeito e pesquisar.
— Faça isso, Mário.
Garanto que não vai se arrepender.
— Só tenho mais uma dúvida.
— Que dúvida?
— Por que ele ou eles tiveram de me tirar lá do Rio para ajudar essa moça?
Não poderiam ter encontrado alguém daqui, mais de perto?
Sueli riu:
— Lembra-se do grupo que falei?
Pois é, você deve pertencer ao nosso grupo, meu e da Júlia e deve ter feito parte da nossa vida na encarnação anterior.
Mário também riu:
— Para você tudo é tão simples.
— Mas é simples, Mário.
Somos nós quem complicamos tudo.
— Está certa, acho que está na hora de mudar de assunto.
Este está muito sério.
Você disse que foi provar seu vestido de noiva.
Vai se casar?
— Sim, daqui a dois meses.
— Que bom. Felicidades.
— Se me der seu endereço, posso mandar um convite.
Seu pai com certeza, vai ser convidado.
— Gostaria muito.
Trabalho tanto que não tenho muitos amigos e oportunidade de conhecer outras pessoas.
Acho que o meu grupo é muito restrito.
— Você é casado?
— Não. Embora esteja com trinta e três anos, ainda não decidi me casar.
Acho que ainda não encontrei a minha outra metade.
Sueli voltou a rir:
— Não se preocupe, a qualquer momento, quando menos esperar ela vai aparecer.
— Sabe que estou ficando com vontade de ter uma mulher, crianças...
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:26 pm

— Chega uma hora que homem ou mulher sente essa vontade.
É o tal do relógio biológico.
— Pois é, acho que o meu relógio está reclamando. — Mário disse rindo.
Embora estivessem conversando há algum tempo, ambos não tiravam os olhos da porta por onde Júlia havia entrado.
Em dado momento, ele perguntou:
— O que aconteceu na vida dessa moça, para que ela tomasse uma atitude tão drástica como essa?
Você que a conhece, sabe qual poderia ter sido o motivo, Sueli?
— Ela teve uma vida muito sofrida.
Como ela mesma diz, parece que veio com uma marca.
Nada em sua vida deu certo.
Sempre que pensou que tudo estava bem, tudo desmoronou.
Até ontem, parecia que tudo ia bem.
Ela ia ficar ao lado do homem que ama e mudar-se, com ele, para Recife.
Estava tudo tão certo que pediu demissão do emprego.
Deve ter acontecido alguma coisa muito grave.
Não precisamos muito para imaginar o que foi.
— O homem a abandonou?
— Não sei, mas tudo leva a crer que sim.
— É uma pena.
Tão jovem e tão bonita...
— Tem razão, é uma pena mesma.
Além de jovem e bonita é, também, uma óptima pessoa.
Uma óptima amiga.
— Sei que, se esse abandono aconteceu, deve ser muito triste, mas. muitas pessoas são abandonadas e não chegam a esse gesto extremo.
Sueli, imediatamente lembrou-se de Nilson e de como ficou quando descobriu que ele a havia abandonado.
Sentiu um caroço formar-se em sua garganta. Disse:
— É verdade, Mário.
Muitas pessoas são abandonadas, mas acho que esse abandono é sempre muito sofrido.
Quando isso acontece, as pessoas pensam que tudo terminou e que não existe mais coisa alguma para suas vidas, mas é um engano.
A vida continua, outras pessoas aparecerão, outros amores virão.
Acho que esses momentos ruins são apenas momentos e servem para o nosso aprendizado, para nos mostrar que não devemos nem podemos colocar a nossa felicidade nas mãos de outra pessoa.
Somos livres para amar, para viver e, o mais importante, para recomeçar.
A vida é um constante recomeço.
Sempre que pensamos que tudo terminou, com o tempo, vamos ver que, na realidade, estava apenas começando.
Seria bom, se todos entendessem isso.
Só assim, muito sofrimento seria evitado.
Mário que ouvia atentamente, quando ela parou de falar, disse:
— Em algumas coisas você tem razão, Sueli.
Relembrando meu passado e de pessoas que conheço, posso dizer que a vida é feita de bons e de maus momentos.
Penso que, todos nós, um dia já pensamos que tudo havia terminado e desejou morrer.
Não só pelo abandono, como também, por falta de um emprego, de dinheiro.
Existem muitos motivos que podem causar esse desejo.
Confesso que eu mesmo, já passei por alguns desses momentos.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:26 pm

Sueli, ainda relembrando do tempo em que foi apaixonada por Nilson, falou:
— Eu também passei por esse momento e, assim como todas as pessoas, também senti vontade de morrer, mas, graças a Deus, consegui, provavelmente com a ajuda de meus amigos espirituais, afastar essa ideia da minha cabeça e hoje, quando olho para trás e relembro tudo que passei, só posso dizer que, realmente, embora eu tenha pensado que tudo havia terminado, estava apenas começando.
Agora, mesmo, vou começar uma nova etapa da minha vida.
Vou me casar com um homem maravilhoso que amo e que me ama também.
Com ele, vou construir minha família e vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que ela seja feliz.
Mário ia dizer alguma coisa, mas a porta por onde Júlia havia entrado se abriu e, por ela, uma das enfermeiras apareceu.
Ambos levantaram-se ao mesmo tempo e foram em direcção à enfermeira que, sorrindo disse:
— Não precisam mais se preocupar.
Ela foi atendida e tudo correu bem.
Está no quarto.
Vai ficar internada por uma noite para observação.
Não tanto pelo corte na cabeça, mas por seu estado emocional.
O médico quer conversar com alguém da família.
— Ela não tem ninguém.
Só tem a mim. Sou sua amiga.
— Sendo assim, seria bom se pudesse vir aqui, amanhã pela manhã.
O médico quer conversar, mas não pode ser agora.
Ele está se preparando para uma cirurgia.
— Está bem.
Eu venho conversar com ele.
Agora, podemos entrar? — Sueli perguntou, aflita.
— Podem entrar, mas precisa ser por pouco tempo.
Ela precisa descansar.
Tomou uma injecção.
Deve dormir logo.
Sueli olhou para Mário e perguntou:
— Vamos entrar?
— Não, Sueli.
Não acho que essa seja uma boa ideia.
Ela não me conhece e, devido às circunstâncias, minha presença pode constrangê-la e não quero isso.
Sueli pensou um pouco, depois disse:
— Não penso assim.
Se não fosse por você, talvez não tivéssemos chegado a tempo.
— Mesmo assim, prefiro não entrar.
Se quiser, posso ficar esperando aqui para poder levar você de volta para casa.
Quer que eu fique?
— Bem, já que não quer entrar, se quiser e puder, gostaria muito que me esperasse, não para me levar para casa, mas, sim, para o trabalho.
Com tudo isso que aconteceu, acabei me esquecendo dele.
Estou atrasada.
Mário sorriu e Sueli acompanhou a enfermeira.
Assim que entrou, percebeu que Júlia estava muito abatida.
Aproximou-se, emocionada, perguntou:
— Você está bem?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:27 pm

Júlia começou a chorar:
— Desculpe-me, Sueli pelo que fiz você passar.
— Não se preocupe com isso, o importante é que esteja bem.
— Não sei o que deu em mim.
Depois que descobri que Anselmo foi embora para o Recife com a esposa, sem me dizer coisa alguma, como se eu não existisse, fiquei desesperada, só queria morrer e quase cometi uma loucura.
— Não fale nem pense nisso.
Agora precisa descansar.
A enfermeira disse que você logo vai dormir.
Durma. Amanhã, logo cedo vou estar aqui.
Não se preocupe tudo vai acabar bem.
— Por que para mim nada dá certo, Sueli?
— Já disse para não pensar mais.
Durma e sonhe com os anjos.
Principalmente com seu anjo da guarda, acho que ele teve muito trabalho. — Sueli disse rindo.
Júlia não suportou e começou a rir também:
— Você tem razão, Sueli.
Para eu estar viva, deve ter tido muito trabalho mesmo.
Estou ficando com sono...
Sueli beijou a testa de Júlia.
— Isso é bom.
Aproveite, durma bem.
Amanhã eu venho aqui.
Imediatamente, Júlia adormeceu.
Sueli levantou os olhos para o alto e pensou:
Obrigada e você ou a vocês, Deus os abençoe por todo trabalho que tiveram.
Alzira, Ciro, Jandira e Homero sorriram.
Alzira disse:
— Nós é quem devemos agradecer por toda ajuda que tivemos.
Jogaram luzes sobre Sueli que, sentindo-se leve, saiu do quarto e encontrou-se com Mário que a esperava.
— Como ela está?
— Um pouco assustada e sob o efeito de calmantes, mas está bem.
Amanhã vou conversar com o médico.
Saíram. Mário deixou Sueli em frente ao restaurante e foi para o apartamento do pai.
Mesmo antes de Sueli sair, Júlia já estava dormindo.
Alzira olhando para Jandira e Homero, disse:
— Agora ela está bem.
Sei que vocês estão envolvidas em um trabalho importante.
Daqui para frente, eu e Ciro continuaremos ao lado dela.
Podem voltar aos seus afazeres.
Só podemos agradecer por terem vindo em nosso auxílio.
— Tem certeza de que não precisamos ficar aqui, Alzira?
— Tenho, Jandira, mas, se precisar não hesitarei em chamar vocês novamente.
— Sendo assim, vamos embora.
Como você disse, estamos envolvidas em um trabalho importante.
— Podem ir em paz, Jandira.
Sei que o projecto de vocês envolve uma ajuda enorme para os encarnados.
Portanto deve ser concluído.
Sorrindo, eles desapareceram.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:27 pm

Visita amiga
Assim que Jandira e Homero desapareceram, Ciro e Alzira olharam para uma das paredes do quarto.
Os vultos que estavam em volta de Júlia continuavam ali, mas, assustados, encostaram-se à parede e lá ficaram.
Alzira e Ciro, fingindo não vê-los ali, se voltaram para Júlia que dormia.
— Chegou a hora, Alzira?
— Chegou. Nós sabíamos que essa hora chegaria.
Até aqui, ela tem se saído bem, mas sabemos que, a qualquer momento, o desejo de suicídio vai voltar com muita força.
Falta pouco para ela conseguir resgatar o passado.
Só assim, poderá seguir em frente.
Nós nos comprometemos a ajudá-la e a ficar ao seu lado até que tudo termine.
Agora, ela precisa se lembrar do que se passou para poder se sentir mais forte.
— É verdade, mas será que ela vai conseguir ir até o fim, Alzira?
— Vamos ajudar no que for possível e torcer para que ela consiga, Ciro.
Alzira passou uma das mãos sobre os cabelos de Júlia e falou baixinho:
— Acorde, Júlia...
Júlia abriu os olhos.
Olhou à sua volta e percebeu que estava no quarto do hospital.
Ao vê-los ali, disse:
— Os senhores são médicos?
— Não. Meu nome é Alzira e o dele é Ciro.
Somos seus amigos e estamos aqui para ajudar você.
— Como podem ser meus amigos?
Eu nunca os vi em toda minha.
— Somos seus amigos, sim e vamos fazer com que se sinta muito bem.
— Obrigada, mas a única maneira de me ajudar é me deixar ir embora.
Já estou bem.
— Gostaríamos de poder fazer isso, mas não podemos.
O médico ainda não deu alta.
Precisa ter paciência.
Logo mais ele vem aqui para ver como você está.
— Estou muito bem.
A senhora pode me ajudar a ir embora daqui?
Alzira sorriu e perguntou:
— Você se lembra do que fez, Júlia?
Ela começou a chorar e a dizer:
— Lembro-me, e sei que quase cometi uma loucura.
Porém, se a senhora conhecesse a minha vida, não faria essa pergunta.
Alzira, enquanto ajeitava a cabeça de Júlia sobre o travesseiro, perguntou:
— Quer falar sobre isso?
Estamos aqui para ouvir o que você tem para dizer.
Júlia olhou para ambos por algum tempo, depois disse:
— Minha vida não tem sido fácil.
Desde criança sofro sem parar.
Sempre, quando acho que está tudo bem, que finalmente vou conseguir ser feliz, alguma coisa acontece e tudo volta a ser o que era.
Só perda e sofrimento.
— Quando pensou em se matar, achou que havia encontrado uma maneira para terminar com seu sofrimento?
— Naquele momento, achei que seria.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:27 pm

— Por que não foi até o fim?
— Fiquei com medo.
— Medo do que?
— Do que vem depois da morte. Do inferno.
— Acredita que existe alguma coisa depois da morte?
— Não sei, mas fiquei com medo.
As pessoas falam que existe e que para o suicida não existe salvação.
— Acredita nisso também?
— Não sei, mas e se for verdade?
Não tive coragem para conferir.
— Vai tentar novamente?
— Nunca mais!
Assim, como aprendi que o suicídio é errado.
Ouvi, também, durante toda minha vida, as pessoas dizerem que a nossa vida pertence a Deus e que só ele tem o direito de tirá-la.
— Acha que estavam errados?
— Não sei. Foi o que aprendi e é o que todos falam, mas, se isso for verdade, que foi Deus quem nos deu a vida, só peço que ele me leve o mais rápido possível.
Não quero continuar vivendo.
— Vai desistir assim, sem esperar dias melhores que, com certeza virão?
Júlia começou a chorar desesperadamente e, entre soluços, respondeu:
— Esperar que venham dias melhores?
Isso não vai acontecer!
— Por que não?
— Podem vir dias melhores para qualquer pessoa, menos para mim.
Não entendo por que acontece tudo de errado comigo.
Sou uma boa pessoa, nunca fiz mal a ninguém.
Sempre, desde o dia em que nasci, fui sozinha!
Nunca tive família, ninguém...
— Nunca esteve sozinha, Júlia.
— A senhora não me conhece.
Sempre fui sozinha, desde o dia em que nasci...
— Nasceu em um lugar, onde as pessoas cuidaram muito bem de você, deram-lhe abrigo e até carinho.
Não ficou sozinha.
Depois, quando cresceu, com a ajuda de Neide foi para casa da Teca e do Altair.
Eles, por um tempo, mostraram a você uma casa e a tranquilidade do amor familiar.
— A senhora disse muito bem, por um tempo!
Do que adiantou esse tempo se foi tirado de mim?
— Foi necessário, Júlia.
— Necessário para que?
— Para que você aprendesse a dar valor a uma família.
— Como pode dizer isso?
Sempre dei valor a uma família, muito mais depois de ter conhecido a Teca e o Altair!
— Nem sempre foi assim.
Eu e Ciro estamos aqui para ajudar você.
Estamos aqui para mostrar a você que nunca esteve sozinha.
Que sempre teve ao seu lado amigos que tudo fizeram para ajudar e facilitar a sua jornada e que ainda vão ajudar muito.
Depois de Teca e do Altair, Neide continuou ao seu lado.
Ajudou você a estudar, se formar e a ter um emprego.
Tornou você capacitada a se sustentar e, sozinha, cuidar da sua vida.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:27 pm

Depois, quando precisou de um lugar para morar, foi encaminhada para encontrar Sueli.
— Não estou entendendo o que está dizendo.
— Sei disso, mas, com o tempo, vai entender.
Vamos continuar.
Mesmo na casa de Teca, lá estavam Margarida e o Jonas que estiveram sempre ao seu lado.
Como vê, nunca esteve só.
— É verdade, foram bons amigos, mas estava também tia Rosa que, por pura maldade, tirou tudo de mim!
Alzira olhou para Ciro e ambos olharam para os vultos que. após serem arremessados, tiveram permissão para se aproximarem novamente.
Continuavam encostados na parede, porém, quietos, prestavam atenção à conversa.
Ciro disse:
— Para tudo existem sempre dois lados, Júlia.
Assim como existe o bem, existe também o mal.
O certo e o errado, a luz e a escuridão.
Os amigos e os inimigos.
Durante nossa vida espiritual passamos por todas as fases, dos dois lados.
O bem serve para nos ajudar a caminhar e o mal para que possamos fazer nossas escolhas.
O certo e o errado para nos dar a chance de escolher qual caminho queremos seguir.
Os amigos para nos ajudarem na caminhada e os inimigos para nos ajudarem a perdoar e sermos perdoados.
— Acho que sempre escolhi o caminho certo e sempre fui uma boa pessoa.
Aos amigos sempre agradeci e aos inimigos sempre perdoei.
— Perdoou mesmo, Júlia?
— Sim.
— Até tia Rosa?
— Sim, até tia Rosa.
Perdoei e faço questão de não me lembrar dela nem de tudo o que me fez.
— Está vendo como ainda não perdoou tia Rosa?
Se isso tivesse acontecido, sempre que se lembrasse dela, não sentiria dor, mágoa e ressentimento.
O perdão precisa ser sincero.
Do fundo da alma.
O esquecer, querer não lembrar, apenas adia o momento que precisa vir e que, para muitos, demora muito a chegar.
Para tudo, sempre existe uma razão.
Se tia Rosa agiu da maneira como agiu, foi porque para você era importante perder tudo naquele momento.
— Importante? O senhor não sabe o que está dizendo!
Eu perdi tudo mesmo!
A casa, a escola, as roupas boas que usava, mas, principalmente, Teca e Altair!
Fiquei sozinha! Era uma criança!
Ela poderia ter tido um pouco de compaixão, mas não teve!
Acredita mesmo, que eu possa perdoar à tia Rosa do fundo da minha alma?
Sinto muito, mas não vai acontecer.
Mesmo que eu quisesse, não consigo.
Os vultos que continuavam ali começaram a se movimentar.
Ciro olhou para Alzira e disse:
— Somente o perdão traz paz ao nosso espírito.
Sem ele não conseguiremos continuar nossa jornada em direcção à Luz Divina e ficaremos vagando sem destino.
Quando pedimos perdão e perdoarmos do fundo da alma, basta nos lembrarmos daqueles que amamos e por quem fomos amados e eles aparecerão e nos levarão para a Luz, para a paz e a felicidade.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:28 pm

Nunca mais precisaremos vagar sem destino.
Nunca mais nos sentiremos perdidos.
Deus é nosso Pai e nos ama muito.
Por isso, sempre nos dá uma nova chance de recomeçarmos.
Os vultos olharam uns para os outros e começaram a chorar e a pedir perdão.
Imediatamente, outros vultos apareceram no quarto e foram abraçando um a um.
Todos, chorando, ficaram por algum tempo abraçados.
Depois, ainda abraçados seguiram àqueles que os guiavam com muito carinho.
Aqueles que os guiavam, agradeceram com a cabeça e desapareceram.
Alzira e Ciro sorriram.
Júlia que não viu aquela cena, só se lembrava das palavras que Alzira havia dito.
Muito nervosa, perguntou:
— Não entendo o que estão dizendo.
Quem são vocês?
Como conhecem tanto da minha vida?
— Quem somos não tem importância alguma, Júlia.
Só precisa saber que tanto eu como Ciro estamos aqui para ajudar você.
— Estão me deixando com medo.
Nervosa e assustada, Júlia tentou se levantar, mas não conseguiu.
Alzira, com a voz tranquila, disse:
— Acalme-se, Júlia.
Tudo vai ficar bem.
— Nada vai ficar bem.
Vocês sabem tudo sobre a minha vida, portanto devem saber como fui enganada.
O homem em quem confiei e por quem eu faria tudo, me abandonou sem dizer uma palavra sequer.
Outra vez, achei que minha fase de sofrimento havia passado e que. agora, finalmente, eu seria feliz, mas estava enganada.
Deus não quer que eu seja feliz.
Acho que ele me odeia...
Alzira olhou para Ciro e ambos riram.
Ele perguntou:
— Acredita mesmo que Deus não gosta de você?
Que odeia você?
— Só posso acreditar.
— Deus não odeia você, Júlia.
Ele é Pai e criador de todos nós.
— Se ele não me odiar, se ele for Pai de todos nós, deve escolher seus filhos a dedo para que suas vidas sejam tão diferentes umas das outras.
Por que minha vida tem sido do jeito que é?
Por que para mim nada dá certo, enquanto para outras pessoas tudo sempre caminha bem?
Algumas pessoas, assim como eu, não têm nada, enquanto outras têm dinheiro que não conseguem gastar, beleza e uma vida maravilhosa?
— Se eu dissesse que foi você quem escolheu essa vida?
Mesmo com lágrimas correndo por seu rosto, Júlia não suportou e rindo, disse:
— A senhora deve estar brincando ou tentando me enganar.
— Por que diz isso, Júlia?
— Como eu poderia ter escolhido uma vida como a minha?
Se eu pudesse escolher minha vida, hoje eu não estaria aqui desesperada com aquilo que quase fiz.
Teria muito dinheiro, tanto que não conseguisse gastar.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 8:28 pm

Estaria viajando pelo mundo, conhecendo lugares diferentes.
Seria bonita, tão bonita quem teria muitos homens querendo me conquistar.
Teria tudo o que quisesse, sem precisar pedir ou trabalhar para isso.
Teria pessoas me servindo e um pedido meu seria uma ordem!
— Essa era a vida que queria ter tido?
Se eu dissesse que já teve essa vida?
Que já teve a vida que descreveu?
Júlia, muito nervosa, quase gritou:
— Vocês devem estar brincando comigo, mesmo!
Por que estão fazendo isso?
— Não estamos brincando, Júlia.
Somos seus amigos.
Você já teve uma vida como essa que descreveu e o resultado não foi o desejado.
Por causa dessa vida que não deu certo, você escolheu esta que vive hoje.
— Isso tudo é loucura!
Estou ficando louca?
— Não, Júlia.
Você não está ficando louca!
Venha, Júlia.
Vamos dar um passeio.
Júlia, confusa e assustada, perguntou:
— Para onde vão me levar?
— Não tenha medo.
Eu disse que tudo vai ficar bem. Venha!
Júlia estendeu os braços.
Ciro e Alzira, cada um de um lado, seguraram suas mãos e ela se levantou.
Quando percebeu que estava flutuando, olhou e viu que estava acima da cama.
Viu seu corpo sobre ela e também, que havia um cordão prateado prendendo seu corpo naquele que estava deitado.
Desesperou-se:
— Eu estou morta?
Sueli não conseguiu me salvar?
Meu Deus!
Como fui cometer essa loucura!
— Acalme-se, Júlia.
Você não está morta.
Seu corpo está adormecido, mas seu espírito está bem acordado.
— Quer dizer que estou sonhando?
— Mais ou menos isso. — Alzira respondeu, olhando para Ciro e sorrindo.
— Que cordão é esse que estou vendo?
— Esse cordão prende seu espírito ao seu corpo.
Ele indica que você está viva.
Júlia olhou e se desesperou mais ainda.
— Vocês não têm cordão?
Vocês estão mortos?
— Você acha que estamos mortos?
— Parece que não, mas não têm o cordão.
— Tem razão, para você, pode-se dizer que estamos mortos, mas não precisa se assustar.
Como está vendo, só quem morre é o corpo.
O espírito continua vivo.
Não acha que estamos bem vivos?
— Até agora, pensei que estivessem, mas agora, estou com muito medo.
— Não precisa ter medo.
Só estamos fazendo isso porque chegou a hora de conhecer o seu passado.
Venha, vamos e não se assuste porque agora vai dormir e, quando acordar, estará em outro lugar, em outra época.
Garanto que vai se surpreender.
Mesmo com medo e preocupada, Júlia tentou sorrir e adormeceu.
Ciro pegou Júlia em seus braços e desapareceram.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:33 pm

Apenas começando
Naquela tarde, enquanto tudo isso acontecia com Júlia, Anselmo, em um carro que a empresa havia lhe dado para poder trabalhar, estava indo para o aeroporto.
Ansioso, pensava:
Ainda bem que Suzana está chegando.
No final, deu tudo certo.
Sei que nossa vida, daqui para frente vai ser diferente.
Passamos por momentos difíceis, mas tudo terminou.
Suzana, quando viu que nosso casamento poderia terminar, resolveu dar o valor merecido a ele e Rodrigo vai crescer feliz num lar estabilizado.
O sinal ficou vermelho e ele parou o carro.
Sem saber por que, lembrou-se de Júlia:
Como será que está Júlia?
Será que ela descobriu que vim embora com Suzana?
Sei que foi errado o que fiz; sumir sem dar uma palavra, sem contar o que estava acontecendo, mas o que eu poderia fazer?
Não tive coragem de enfrentá-la.
Depois de tudo o que prometi, depois de saber que ela deve ter pedido demissão no emprego, como chegar e dizer que tudo havia sido um engano?
Bem, agora já está feito e não tem volta.
Não preciso, nem posso me preocupar com ela.
É uma moça, forte, bonita e inteligente.
Logo vai encontrar outro emprego e alguém que goste dela da maneira como merece.
O pior de tudo é que gosto dela, assim como gosto de Suzana.
Como é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?
Se eu pudesse, ficaria com as duas.
Tive de fazer uma escolha.
Teve de ser Suzana, pois além de gostar muito dela, temos um casamento, um filho para criar.
Bem, agora já está feito e não tem volta.
Chegou ao aeroporto.
Estacionou o carro, entrou no saguão e foi ler o painel que mostrava os aviões que estavam para chegar.
Olhou primeiro para o painel, depois para o relógio que trazia no pulso:
Ainda falta quase uma hora para o avião chegar.
Vou tomar um café.
Foi até a uma lanchonete, pediu café, olhou em volta e viu que havia uma mesa vaga.
Pegou o café, caminhou até a mesa.
Sentou-se.
Enquanto tomava café, voltou a pensar:
Há um mês, jamais poderia imaginar que hoje, eu estaria aqui, morando, trabalhando e, principalmente, que Suzana largaria tudo para me acompanhar.
Como a vida pode mudar dessa maneira?
Cheguei à conclusão de que não adianta planearmos nossa vida.
Acho que, independentemente da nossa vontade, ela caminha sozinha.
Eu tinha uma vida que a muitos podia causar inveja.
Ela foi bem planeada.
Trabalhava e vivia em um apartamento enorme, mas sempre estive sozinho.
Suzana quase nunca estava lá e, quando estava, somente pensava no trabalho.
Para ela, o trabalho era mais importante do que qualquer coisa.
Foi por isso que pedi a Júlia para que me acompanhasse.
Sei que ela deve estar com muita raiva, mas não há motivo para isso.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:33 pm

Eu, desde o início, sempre disse que jamais abandonaria a minha família.
Terminou de tomar o café, olhou novamente para o relógio:
Passaram-se apenas cinco minutos.
Parece que o tempo parou!
Não vejo a hora de abraçar Suzana e Rodrigo.
Acho que a minha ansiedade está fazendo o tempo passar tão devagar.
Levantou-se e saiu caminhando.
Olhou as vitrines das lojas.
Preciso dar um presente de boas-vindas para Suzana.
Ela precisa gostar e se acostumar aqui.
É bem diferente de tudo que conhece, mas sei que ela vai conseguir.
Á sua frente, viu uma floricultura.
Foi até lá e comprou rosas vermelhas.
Pediu que a atendente fizesse um buquê.
Com ele nas mãos, foi para o lugar de desembarque, por onde Suzana deveria sair.
Sentou-se e ficou esperando.
Nesse mesmo instante, Suzana, no avião, olhou para a poltrona ao seu lado e viu Rodrigo que dormia.
Meu filho.
Estamos mudando nossa vida.
Por mais que eu viva, nunca mais vou me esquecer da dor que senti, hoje, quando deixei o nosso apartamento.
Os móveis, os quadros e cada objecto que foi comprado com tanto carinho.
Depois de muito tempo, consegui ter o apartamento que sempre sonhei e, assim, de repente, do nada tudo se acabou.
Nunca vou me esquecer do dia em que, sem maiores explicações, fui despedida do emprego a que tanto me dediquei.
Nada disso que está acontecendo comigo é justo!
Eu não merecia!
Nunca fui uma pessoa má.
Talvez tenha exagerado um pouco com Anselmo, mas ele foi sempre tão parado.
Sempre aceitou ganhar um baixo salário.
Nunca teve ambição.
Diferente de mim que sempre quis mais.
Agora, não sei quem estava certo.
Eu por querer tanto ou ele por não se importar.
Para ele, morarmos em apartamento de dois dormitórios estava bom.
Eu nunca aceitei e nem vou aceitar!
Estudei muito, lutei para, apesar de ser mulher, ter um bom cargo na empresa.
Sei qual foi o motivo para ter sido despedida.
Eu jamais poderia ter um cargo maior do que aquele que alcancei.
Jamais seria presidente da empresa.
Os homens da empresa não permitiriam.
Não é justo, após passar por tudo o que passei para chegar aonde cheguei, ficar desempregada, dependendo do salário minguado do Anselmo.
Tudo aconteceu de uma só vez, por isso não tive tempo de esperar até encontrar um novo emprego.
Não podia ficar sozinha e sem marido.
Por isso, estou acompanhando Anselmo, indo para um lugar que não conheço e onde, dificilmente vou encontrar um emprego decente.
Mesmo morando longe, vou continuar mandando meu currículo e, se algum emprego aparecer, volto na hora.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:33 pm

Espero que isso aconteça, antes que meu apartamento seja vendido.
Gosto muito dele e não me vejo morando em outro lugar.
Foi por isso que deixei o apartamento como estava.
Peguei apenas roupas e artigos pessoais.
Por enquanto, não vou ter como pagar a prestação.
Mas, se eu encontrar um novo emprego, em pouco tempo eu acerto tudo.
O mais importante é voltar para minha casa e a minha vida.
Minha mãe dizia que sempre havia um propósito para as coisas acontecerem.
Que Deus, para que possamos chegar a Ele, muitas vezes nos faz caminhar por caminhos estranhos e que tudo está certo.
Por mais que eu pense, não consigo ver propósito algum para tudo isso que está acontecendo.
Bem, agora não há o que fazer.
Estou aqui e vou ficar até quando for preciso ou descobrir o propósito de tudo isso.
Um vulto de mulher que estava ali sorriu e disse:
—Vai descobrir, minha filha... vai descobrir...
O comandante avisou que estavam chegando.
Ela apertou seu cinto de segurança e o de Rodrigo também.
Colocou o braço em volta do menino para que ficasse protegido.
Alguns minutos depois, o avião parou.
Ela se levantou.
Rodrigo meio adormecido recusou-se a andar.
Ela ficou sem saber o que fazer, pois precisava pegar a maleta que estava no alto e outra que continha brinquedos do menino.
Um senhor que estava sentado em uma poltrona atrás da sua, pegou as maletas:
— Pode levar o menino no colo.
Eu levo as maletas para a senhora.
Suzana sorriu, agradeceu e pegou Rodrigo.
Na ala da bagagem, o mesmo homem retirou suas três malas da esteira e colocou-as em um carrinho.
Ela, ainda com Rodrigo no colo tentou empurrar o carrinho, mas não conseguiu.
Sem alternativa, colocou Rodrigo no cesto do carrinho e saiu empurrando e, em poucos minutos estava diante da porta de saída.
Assim que saiu, viu Anselmo que também a viu saindo.
Com o buquê na mão, correu ao seu encontro.
Abraçaram-se, beijaram-se.
Anselmo pegou o menino no colo e beijou-o várias vezes.
Depois, foram para o estacionamento.
Durante o caminho, ele disse;
— Que bom que você chegou, Suzana.
Nesses dias em que passei sozinho, senti muito sua falta.
Definitivamente, não sei ficar sozinho.
— Para mim também foi difícil.
Precisei providenciar muitas coisas.
Deixei o apartamento para ser vendido.
— Não entendi por que você não quis trazer os móveis, Suzana.
A empresa pagaria a mudança.
— Achei melhor deixar como está.
Com os móveis e a decoração, bonitos como são, acho que vai ser mais fácil vender.
— Espero que logo seja vendido.
Com meu salário, vai ser difícil pagar a prestação.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:34 pm

— Sei disso, mas vou tentar encontrar um emprego.
Se conseguir, podemos conservar o apartamento.
Sinto um aperto no coração só em imaginar que não vai ser mais meu.
Sabe que planeei cada detalhe.
Ele foi o sonho de minha vida.
Estou muito triste com tudo o que está acontecendo.
— Entendo que está passando por um momento difícil, Suzana.
Não fique triste.
No começo vai ser difícil, mas estou muito bem no trabalho e logo vou poder pedir um aumento de salário.
Vai dar tudo certo!
Vamos começar uma nova vida e sinto que ela vai ser muito boa!
Agora, aproveite para conhecer a cidade.
Enquanto dirigia, Anselmo, entusiasmado ia mostrando a cidade para Suzana que, embora estivesse olhando não prestava muita atenção.
Pensava:
Minha mãe sempre dizia que não devemos nos apegar a coisas materiais.
Como não nos apegar, se lutamos tanto para conseguir o que sonhamos?
Como deixar de sofrer ao ver tudo o que consegui com tanto trabalho, escapar pelas minhas mãos sem que eu possa fazer coisa alguma?
O vulto de mulher sorriu:
Embora não prestasse muita atenção ao que Anselmo falava, Suzana percebeu que a paisagem estava mudando.
O carro entrava em um bairro agradável, com casas bonitas e prédios imponentes.
Anselmo, sem perceber que ela não estava prestando atenção ao que ele falava, disse:
— Tive pouco tempo para encontrar uma casa ou um apartamento que não fosse muito diferente do nosso.
Sabe que quero que seja feliz aqui, Suzana.
Provisoriamente, vamos ficar em um não tão grande, mas que é agradável.
Como pode ver, este é um bom bairro e o prédio é novo e bonito e fica em frente à praia.
Poderá tomar sol sempre que quiser.
Parou em frente a uma porta de garagem.
O porteiro abriu a porta.
Anselmo entrou com o carro e estacionou em uma das garagens.
Desceu, abriu a porta do lado em que Suzana estava sentada, pegou Rodrigo no colo, dizendo:
— Desça, Suzana.
Venha conhecer o apartamento.
Não precisa se preocupar com as malas, depois eu venho pegar.
Suzana saiu do carro e caminharam até ao elevador.
Ele chegou e os dois entraram.
Anselmo apertou o nono andar.
Assim que o elevador parou, desceram.
Anselmo saiu e foi seguido por Suzana.
O apartamento ficava de frente.
Anselmo abriu a porta e se afastou para que Suzana entrasse.
A porta de entrada dava para a sala.
Ela entrou e ficou parada e pensando:
Meu Deus! A cozinha do meu apartamento é maior do que esta sala.
— Venha, Suzana, este é o quarto do Rodrigo e aquele ali é o nosso!
Suzana, vagarosamente, entrou na sala e foi até onde Anselmo estava.
Ele se afastou para que ela entrasse no quarto.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:34 pm

Ela entrou em silêncio.
Ele, empolgado, não percebendo seu desapontamento, segurou sua mão e entraram no quarto que seria o deles.
Ele foi até a janela:
— Venha até aqui, olhe a vista do mar.
Garanto que nunca viu um mar tão azul como este!
Ela foi até a janela e ao olhar, não se conteve:
— Realmente, a vista é maravilhosa, Anselmo!
— Agora, enquanto você fica aqui olhando todo o resto, vou até a garagem buscar as malas.
Ela, com os braços apoiados na janela e olhando para o mar, disse:
— Está bem.
Vá, vou ficar aqui, por um tempo olhando o mar.
Ele sorriu e saiu.
Ela ficou ali por um momento, depois procurou e encontrou a cozinha.
Outra decepção:
O meu banheiro é maior do que esta cozinha...
Quando Anselmo voltou trazendo as malas, ela estava sentada em um sofá na sala.
— Viu o resto do apartamento, Suzana?
— Vi, sim, Anselmo.
— O que achou?
— Ele é menor do que aquele em que moramos quando nos casamos.
— Sei disso, Suzana, mas não se esqueça de que fomos muito felizes naquele apartamento.
— Naquele tempo, éramos recém-casados e tínhamos muitos sonhos.
Alguns foram realizados, mas, assim como os sonhos, eles desapareceram.
Perdemos tudo, Anselmo...
— Sei que não chega perto do nosso apartamento, mas é só o começo.
Logo poderemos nos mudar.
O importante é que estamos juntos, não é?
— Sim, Anselmo, você tem razão.
É somente isso que importa...
Ele abraçou-a e beijou-a com paixão.
Suzana retribuiu ao abraço e ao beijo.
O vulto de sua mãe, que era quem estava ali, disse:
— Sei que pensa que tudo terminou minha filha, mas, na realidade, está apenas começando...
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:34 pm

O sonho
Alzira ao lado de Ciro que estava com Júlia, adormecida, no colo, chegaram a um grande jardim.
Pararam e olharam para enorme casa que estava em frente a eles.
Ciro sentando-se e colocando Júlia sobre a grama muito verde, disse:
— Chegamos, Alzira.
Por onde vamos começar?
— Acordando Júlia.
Ela precisa ver este lugar e relembrar a vida que teve aqui.
— Ela vai se assustar...
— A princípio sim, Ciro, mas logo entenderá e prestará atenção a tudo que acontecer.
Alzira sentou-se ao lado de Ciro e, carinhosamente, chamou:
— Acorde, Júlia.
Chegamos ao nosso destino.
Júlia abriu os olhos e, ao ver que estava deitada sobre a grama, tentou se levantar, mas não conseguiu.
Olhando para eles, muito nervosa, perguntou:
— O que está acontecendo aqui?
Estou tonta!
Alzira, segurando sua mão, disse:
— Acalme-se, Júlia. Está tudo bem.
Essa tontura que está sentindo, logo vai passar.
Seu espírito ainda está preso à matéria, portanto suas energias são um tanto pesadas.
Em alguns minutos estará bem.
— Que lugar é este?
— Estamos em outra época e em um lugar do qual você, no momento, não se lembra, mas logo se relembrará de tudo o que aconteceu e o motivo de ter escolhido viver a vida que está vivendo.
— Não consigo acreditar que escolhi uma vida tão difícil, tão triste...
— Logo mais vai entender tudo.
Agora já está bem. Levante-se.
Ajudada por Alzira, ela conseguiu sentar-se.
Vendo aquela casa enorme ficou extasiada:
— Que casa linda!
Além de grande é muito bonita!
Olhe essa alameda toda cercada por árvores e o jardim que lindo!
Nunca vi uma casa assim, só mesmo em filmes ou em livros.
As pessoas que moram aqui, devem ser muito felizes!
— Não disse que estamos em outra época?
— Que época?
— Na época do império.
— Quer dizer que estamos no tempo do rei, da rainha, condes e condessas, duques e duquesas, príncipes e princesas?
— Isso mesmo, Júlia.
— Adoro ler histórias ou assistir a filmes sobre esse tempo.
Gosto de ver aqueles vestidos lindos e os bailes nos grandes salões.
Sempre que vou a algum museu, fico imaginando as moças descendo por aquelas escadas.
Viver naquela época deve ter sido muito bom e romântico.
Li sobre grandes amores.
— Existiram, sim, grandes amores, assim como existem hoje.
Júlia lembrou-se de Anselmo e do que ele havia feito:
— Esse amor do qual está falando, se existiu em outra época, hoje não existe mais.
Hoje só há traição, mentira e sedução.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:34 pm

— Está enganada, Júlia.
Além do amor, existe outro sentimento muito forte.
— O ódio?
Alzira sorriu:
— Esse também, mas, mesmo o ódio não é tão forte quanto o amor e o perdão.
O amor e o perdão são os sentimentos mais fortes e difíceis de serem controlados e sempre foram iguais em todos os tempos, em todas as épocas.
Fazem parte do espírito.
Somente eles, quando sinceros, podem fazer com que o espírito caminhe e encontre a Luz Divina.
Agora, chega de conversa, vamos entrar.
— A senhora precisa me desculpar, mas vou odiar Anselmo até o último dos meus dias, por tudo que fez comigo.
Por ter me enganado da maneira como fez.
Alzira olhou para Ciro que disse:
— Você não odeia nem nunca vai conseguir odiar Anselmo, Júlia.
— Como pode dizer uma coisa como essa?
Não pode saber o que sinto!
— Tem razão, não posso saber o que sente, mas sei o que já viveu.
Por isso, sei que nunca vai odiar Anselmo.
Vocês estão, há muito tempo, tentando se encontrar.
Um dia isso vai acontecer.
— Bem, essa conversa está tomando um rumo não desejado.
Vamos deixar para mais tarde e voltaremos a ela.
Agora, vamos entrar na casa?
— Boa ideia, Alzira.
Outra hora, vamos conversar sobre isso.
Agora, o melhor a fazer é entrarmos na casa.
Vamos, Júlia?
Júlia se espantou:
— Entrar, como?
As pessoas que moram nessa casa não nos conhecem, não vão nos deixar entrar!
Alzira olhou para Ciro, ambos começaram a rir.
Ele disse:
— Não se preocupe com isso, Júlia.
Como Alzira disse, estamos em uma época diferente.
Eles não nos verão.
Assim como fizemos com você durante toda sua vida.
Estivemos sempre ao seu lado, porém, você nunca nos viu.
Entraram na casa pela porta que estava aberta.
Júlia ficou parada à porta sem conseguir entrar.
— O que aconteceu, Júlia?
Por que não entra?
— Esta sala é maravilhosa! Linda!
Olhe os móveis, os quadros e os tapetes!
Parecem obras de arte!
— Olhe aquela escada!
Era de uma escada igual a essa que eu estava falando, quando disse que gostava de imaginar as moças usando aqueles vestidos longos e armados.
Imagine uma delas descendo por essa escada!
Tudo aqui é tão lindo!
—É lindo, mesmo, mas continue olhando.
Veja o que existe por detrás de tanta beleza e riqueza.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:35 pm

Júlia que só prestava atenção à beleza da sala, não havia percebido várias pessoas que andavam de um lado para outro.
Algumas limpavam, outras tiravam a louça do café que estava sobre a mesa e outras tiravam o pó dos móveis.
Trabalhavam rápido.
Admirada, Júlia perguntou:
—São escravos?
Isso não existe mais!
—Não disse que estamos em outra época, Júlia?
Nessa época a escravidão existia e os negros sofriam muito.
Trabalhavam rápido porque havia muito trabalho a fazer.
—Felizmente veio a abolição...
—É verdade. Agora, vamos ver o resto da casa e conhecer as pessoas que moram aqui.
Alzira desviou o olhar para a escada imponente que estava diante deles, Júlia seguiu seu olhar, perguntou:
— Vamos subir essa escada?
— Sim, Júlia.
Tudo vai começar em um dos quartos desta casa.
Venha!
Alzira começou a andar.
Ciro e Júlia caminharam ao seu lado.
Júlia estava tão empolgada que não prestou atenção ao que Alzira disse.
Parecendo se esquecer de quem era e o que estava fazendo ali correu e começou a subir a escada.
No meio dela, voltou-se e disse:
— Tudo isto está sendo maravilhoso!
Só falta mesmo o vestido armado!
Ciro sorriu:
— Antes de irmos embora, você, se quiser poderá vestir um vestido armado e, também, descer esta escada da maneira que sempre sonhou.
Você quer?
— Posso fazer isso, mesmo?
— Claro que sim.
Não se esqueça de que está sonhando.
Em um sonho tudo é permitido.
— Vai ser maravilhoso!
Precisamos mesmo conhecer o resto da casa e quem mora aqui.
Júlia continuou subindo.
No final da escada, havia um corredor com uma meia parede de onde, podia-se ver a sala.
Júlia olhou por cima da parede.
Ao ver a sala do alto, exclamou:
— É maravilhoso!
As pessoas que moram aqui devem ser muito felizes, mesmo!
Ciro e Alzira ficaram calados e continuaram andando.
Júlia olhou e viu que dos dois lados do corredor havia portas.
Deduziu que deveriam ser os quartos.
Entusiasmada com tudo que estava vendo, seguiu os dois.
Entraram em um quarto que estava com a porta fechada.
Júlia abriu a boca e não conseguiu fechar.
Alzira percebeu e, rindo, perguntou:
— O que foi, Júlia?
Feche a boca e responda!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:35 pm

Júlia respirando fundo, perguntou:
— Como conseguimos entrar neste quarto se a porta está fechada?
— Você está sonhando, Júlia!
Apenas isso!
— Tem razão, mas é tudo tão real!
Não consigo acreditar que seja um sonho!
— É verdade. É muito real.
Agora, olhe o quarto.
O que acha dele?
Júlia olhou o quarto.
— Não acredito que estou em um quarto como este!
É maravilhoso!
Só vi outro igual a este em filmes!
Estou tão emocionada que nem sei o que dizer!
A senhora disse que escolhi a vida que vivo.
Está enganada!
Se eu pudesse escolher, escolheria uma vida igual a esta.
Moraria em uma casa linda como esta e teria um quarto como este!
— Muito bem.
Você poderá ter esta vida, basta querer.
— Está falando sério?
— Sim, mas agora, você vai conhecer a moradora desta casa e deste quarto.
É por causa dela que estamos aqui.
Ela está dormindo. Olhe.
Júlia olhou para a enorme cama de madeira de lei, que havia no meio do quarto.
Um véu branco que caía do alto rodeava a cama.
Por esse motivo, não podia ver o rosto da moradora a quem o quarto pertencia.
Alzira e Ciro perceberam o encantamento dela.
Sorriram.
— Agora, Júlia, você vai conhecer não só a moradora, mas sua vida.
— Ela deve ser muito feliz...
Enquanto Júlia olhava por todo o quarto, a porta se abriu e por ela entrou uma senhora negra.
Trazia em suas mãos uma bandeja com café da manhã.
Enquanto ela colocava a bandeja sobre uma pequena mesa, forrada com um tecido azul igual ao da colcha da cama e das cortinas, Júlia, estupefacta, perguntou para Alzira:
— Quem é essa mulher?
— É Zefa a escrava que cuida da dona deste quarto.
Dissemos a você que estávamos em outra época e que você estava sonhando, não foi?
Júlia concordou com a cabeça.
— Pois bem.
Continue vendo.
Faça de conta que está assistindo a um filme cujos factos se passaram no tempo do Império.
Depois de colocar a bandeja sobre a pequena mesa, Zefa aproximou-se da cama, afastou o véu e chamou baixinho:
— Corda, Sinhazinha Maria Inês.
A moça abriu os olhos e ao ver a senhora ali, disse:
— Ainda é cedo, Zefa.
Preciso dormir um pouco mais.
— Já dormiu muito.
Está na hora di si levantá.
Chegou u dia, tão isperado pela sinhazinha.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:35 pm

Maria Inês esticou o corpo e sentou-se:
— É verdade, Zefa!
Hoje é o grande dia!
Chegou o meu presente.
— Não. Achu qui num vai chegá.
Quando preguntei, vossu pai disse que si esqueceu.
Furiosa, Maria Inês se levantou e gritou:
— Esqueceu? Como ele pode fazer uma coisa como essa?
— Eli disse qui tá, preocupado com a duença da vossa mãe, pur issu,si esqueceu.
— Ele não podia ter feito isso, Zefa!
Quando vi aquele colar na joalharia, soube que era perfeito, pois combinaria com meu vestido.
Meu pai estava comigo e prometeu que o compraria!
Eu preciso daquele colar!
— Percisa intende, vossa mãe tá muitu duenti i eli tá percupadu...
— Não preciso entender coisa alguma!
Sei que minha mãe está doente, mas ele poderia ter tirado um tempo para ir até a joalheria ou ter mandando alguém comprar!
— Vossa mãe tá muitu mar, Sinhazinha...
— Sei disso, mas preciso daquele colar!
Dele depende a minha vida!
Zefa começou a rir:
— Depende a sua vida, pru quê, Sinhazinha?
Andando de um lado para o outro do quarto, muito nervosa, Maria Inês respondeu:
— Como pode perguntar isso, Zefa?
Hoje é o dia do baile anual no palácio!
Todas as pessoas importantes estarão lá!
Principalmente Luiz Cláudio!
Preciso daquele colar!
Somente estando muito bonita, ele me notará!
— Ora, Sinhazinha, não se percupi cum issu, a Sinhazinha é jovem.
Num importa a ropa ou jóia qui usá, sempri vai tá bunita!
— Para você tudo é sempre fácil, não é, Zefa?
— Pra Sinhazinha tumem podia sê.
Bastava só aceita as coisa cumu elas são que, no final, tudo dá certu.
— Não entendo como você pode ser tão calma e sempre estar de bem com a vida!
Parece que está sempre feliz.
—Num possu se carma, pru quê, Sinhazinha?
— Você é escrava, Zefa!
Como pode ser feliz!
— Não sou triste pur sê iscrava.
Gosto desta casa i, muito da Sinhazinha.
Seu pai sempre foi um bom amu.
Nunca penso em mi vende nem u Inácio i nem us meus fios.
Sempre dexô a gente vive juntu como si fossi uma famía.
A Sinhazinha sabi qui nem tudu amu pensa assim.
Elis vende us escravus sem si importa si elis tem muié e fio.
Quando vossu pai cumprô nóis eu e o Inácio tinha acabadu di si cunhecê.
Dispois a genti começô si gostá i vossu pai dexô a gente vivê juntu.
— Ele não fez por bondade, Zefa.
Sabia que vocês iam ter filhos, portanto mais braços para a lavoura.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:35 pm

— Podi até sê, Sinhazinha, mais eli ia tê braçu pra lavoura, memo que a gente num morasse juntu.
— Você é muito ingénua, Zefa.
— Achu qui tem argum mutivu pra ieu sê escrava...
— Que motivo, Zefa?
— Num sei, Sinhazinha, mais devi di tê argum mutivu.
Agora, a Sinhazinha percisa tomá u café.
U dia, hoje, vai sê muitu agitadu.
Percisa cumê tumem.
— Está bem.
Maria Inês sentou-se e começou a comer.
Júlia, calada, assistia a tudo.
Enquanto Maria Inês comia, Zefa disse:
— Sinhazinha, vossu pai dissi que tá no hospitá i é pru Inácio á a sinhazinha até lá.
Maria Inês voltou a se levantar e, muito nervosa, falou:
— Não posso ir, Zefa!
Tenho muita coisa para fazer!
Hoje é o dia da festa, preciso me arrumar.
Sabe o trabalho que dá para fazer um penteado!
— Sei, Sinhazinha, mais u médicu disse pru vossu pai qui vossa mãe num tem cura.
Qui vai morrê logu.
Podi sê inté hoji.
Maria Inês, ignorando o que Zefa disse, falou:
— Preciso daquele colar, Zefa!
Zefa insistiu:
— Vossa mãe tá muito mar, Sinhazinha...
— Se ela vai morrer, o que posso fazer, Zefa?
— Pudia i no hospitar.
Ela ia ficá muitu cuntenti di vê a sinhazinha.
— Já disse que não posso sair daqui, Zefa!
Preciso me preparar para a festa desta noite!
— U Inácio leva a sinhazinha bem rápidu.
— Já disse que não posso sair daqui e não me amole meu com esse assunto!
— Tá bão, Sinhazinha. Tá bão...
Ao ouvir aquela conversa, Júlia sussurrou:
— Dona Alzira...
— O que foi, Júlia?
Não precisa sussurrar, pode falar normal.
Elas não podem nos ver ou ouvir.
— Como ela pode agir assim em relação à mãe?
Não gosta dela?
— Gosta da mãe, sim, Júlia, mas gosta muito mais dela própria.
— Ela é assim?
— Assim como?
— Egoísta e má?
— Você é quem está dizendo isso, mas vamos continuar ouvindo a conversa.
— Zefa, Maria Augusta já se levantou?
— Já, Sinhazinha.
Ela foi prô hospitar cum vossu pai.
— O que ela foi fazer lá?
— Foi visitá vossa mãe, Sinhazinha...
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Ave sem Ninho

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:35 pm

— Por que ela foi fazer isso!
Sabia que não podia sair de casa!
Precisamos nos preparar para o baile!
— Sabi que vossa irmã num liga pra essas coisa.
— Sei disso, mas eu ligo muito e preciso dela para me ajudar!
Nervosa, Maria Inês foi ao guarda-roupa, abriu a porta e tirou de dentro dele, um vestido verde.
Colocou-o em frente ao corpo e olhou-se no espelho.
— Ele é lindo, não é, Zefa?
— É sim, Sinhazinha.
A cor deli cumbina com os zóio da Sinhazinha e cum u cabelu tumem.
— Gostei muito deste tecido, por isso pedi a meu pai que comprasse e você costurou divinamente.
Obrigada, Zefa!
Olhou novamente para o espelho:
— Não está bom.
Está faltando o meu colar!
Eu preciso dele!
Chame o Inácio, Zefa!
— Pra que, Sinhazinha?
— Já que meu pai não comprou meu colar, eu mesma vou até lá!
— Num pode Sinhazinha...
— Não posso, por quê?
— A Sinhazinha sabi que uma moça num anda sozinha e num cumpra nada sem tê um homi du ladu dela.
U homi lá da loja ondi tá o seu colá num vai vende pra Sinhazinha sem vossu pai tá presente.
— É verdade, Zefa!
Que raiva que eu tenho de tudo isso!
Por que tem de ser assim?
Por que a mulher não tem os mesmos direitos que o homem?
Se eu não tivesse um pai, como seria?
Eu não poderia comprar nada?
— Num sei, não, Sinhazinha...
— A coisa que eu mais queria nesta vida, era ser sozinha!
Não ter mãe nem pai!
Não ter ninguém!
Só assim eu poderia decidir minha vida sem ter que pedir permissão!
— Num fala anssim Sinhazinha!
Nus orfanatu tem muita criança sem pai i sem mãe.
Achu que elas sofre muito...
Alzira olhou para Ciro.
Ambos ignoraram Júlia que estava horrorizada com o que acabara de ouvir:
— Ela não sabe o que está falando, dona Alzira!
Ela não sabe como é triste não se ter ninguém.
Se eu tivesse tido um pai e uma mãe assim como ela tem, sei que não teria sofrido tanto como sofri.
Ela disse que não ia ao hospital visitar a mãe, porque não podia sair de casa, mas estava disposta a sair para comprar um colar!
Não entendo isso!
Não entendo como uma pessoa pode ser tão egoísta.
Sempre pensei que alguém que vivesse como ela, só podia ser feliz, mas, pelo o que estou vendo aqui, isso não é verdade.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:36 pm

Ela, apesar de ter tudo, se julga infeliz...
— É verdade, Júlia, mas não se preocupe.
Ela vai entender e dar valor para tudo que nunca deu.
Deus é nosso Pai e Criador.
Ele nos dá todas as chances para valorizarmos aquilo que, realmente, tem valor.
Ele tem paciência e nos dá toda a eternidade para que isso aconteça.
—A Sinhazinha qué toma banhu?
Mandei culocá água quenti na tina.
— É a melhor coisa que posso fazer para me esquecer desta vida infeliz que levo.
— Tá bão, Sinhazinha.
Podi í que ieu levo as ropa.
Júlia olhou para eles e disse:
— Vocês têm certeza de que ela vai entender?
— Vai, sim, Júlia.
Todos nós mais cedo ou mais tarde entendemos e encontramos o caminho.
Agora, enquanto ela toma banho, vamos para o jardim e respirar ar puro.
Acho que nós três precisamos disso.
Não é, Ciro?
Ele não respondeu, apenas sorriu.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:36 pm

Socorro espiritual
Imediatamente, Júlia abriu os olhos.
Olhou à sua volta e viu que estava novamente no hospital.
Lembrou-se do que havia feito.
Meu Deus!
Como fui fazer uma loucura como aquela?
Onde eu estava com a cabeça?
Lembrou-se de Anselmo:
Ele não podia ter feito o que fez.
Eu não merecia...
— Acordou?
Ao ouvir aquela pergunta, Júlia voltou o olhar em direcção da voz.
Viu uma senhora que sorria.
Respondeu:
— Acordei. Parece que dormi muito...
— Dormiu mesmo.
Meu nome é Sílvia.
Qual é o seu?
— Júlia. Dormi por muito tempo?
— Quando chegou, estava um pouco tonta.
Conversou com sua amiga e dormiu em seguida.
Dormiu por quase duas horas.
— Só isso?
Achei que tinha dormido mais.
Tive um sonho tão estranho...
— Quer me contar?
— Não me lembro muito bem.
Só sei que estava em um lugar muito bonito e que havia um vestido igual àqueles que as mulheres usavam antigamente.
Era lindo!
Sei que havia pessoas comigo, mas são sei quem eram...
— Parece que o sonho foi bonito mesmo!
— Foi, sim.
Só queria me lembrar mais do que aconteceu e de quem estava ao meu lado...
Alzira e Ciro, que estavam ali, sorriram.
Sílvia continuou:
— Acredito que, quando dormimos, saímos do corpo e vamos passear.
— Saímos do corpo?
Como? — Júlia perguntou desconfiada.
— Estou falando do nosso espírito, Júlia.
— Está falando sobre aquela religião que fala dos mortos?
Sueli, aquela minha amiga que esteve aqui, falou alguma coisa sobre isso, mas não prestei atenção.
— Não tenho religião, Júlia.
Leio sobre todas.
Estudo cada uma delas, mas até agora não decidi frequentar nenhuma.
Essa em especial, que você disse, conseguiu me convencer mais.
— Por que essa em especial?
Você gosta de mortos?
— Exactamente por isso que você falou.
Claro que gosto dos mortos, principalmente dos meus.
A doutrina que estou estudando, ensina que a morte não existe.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 7:36 pm

Que os nossos entes queridos, que se foram, estão em algum lugar esperando por nós, pois, um dia, iremos ao seu encontro.
Júlia lembrou-se do que Neide falara sobre sua mãe.
— Acredita mesmo nisso, Sílvia?
Acha que um dia vou encontrar minha mãe que morreu quando nasci?
— Acredito que sim, Júlia.
Assim como vou encontrar meus pais, irmãos, amigos e meu marido também.
— Isso é só conversa.
Acredito que, quando morrermos, tudo se acaba, Sílvia.
— Pode ser conversa, mas, pensar nisso me faz um bem imenso.
Não consigo acreditar que nossa vida termine quando morremos.
Que nossos entes queridos desaparecem para sempre.
Seria muito triste.
Uma vida é muito pouco.
— Uma vida? Acredita mesmo que existam outras vidas depois desta que estamos vivendo?
Sílvia ia responder, mas ouviram um gemido.
Olharam e em frente para a cama em que estavam, havia outra senhora que parecia dormir.
Júlia perguntou:
— Ela está dormindo, Sílvia, mas parece que sente muita dor.
O que ela tem?
— Não sei o que ela tem.
Desde que cheguei e já faz três dias, ela está quase sempre dormindo e gemendo.
Acho que está sentindo muita dor, mesmo.
— Coitada.
Não existe nada pior que a dor...
Alzira e Ciro olharam para uma moça que estava, em pé, ao lado da senhora que gemia.
E que com as mãos, lançava, sobre a senhora, luzes brancas e brilhantes.
Ao ver que a olhavam, disse sorrindo:
— É minha mãe.
Ela está assim há muito tempo, mas se recusa a deixar o corpo, mesmo sentindo tanta dor.
Fico enviando luz para ver se a dor passa, mas o corpo físico está doente e não consigo.
Ela não quer morrer. Tem medo...
Alzira se aproximou e também jogando luzes sobre a senhora, disse:
— E quem não tem?
Quando estamos no corpo físico temos medo de tudo.
Ainda mais de algo desconhecido como a morte.
A moça sorriu:
— É verdade.
O corpo físico nos traz o esquecimento de como é a nossa vida na espiritualidade.
Por isso, sentimos tanto medo.
— O espírito dela, como está?
— Poderia estar melhor se não fosse todo esse medo...
— Sua vida no corpo físico, como foi?
— Foi muito bem.
Ela teve uma vida comum.
Conseguiu resgatar algumas dívidas pendentes.
Teve seus filhos, e os criou com carinho.
A única coisa que não conseguiu, foi se livrar do apego a coisas e pessoas.
Sempre gostou dos objectos que tinha em sua casa.
Nunca jogou coisa alguma fora.
Guardava até quando quebrados.
Gostava que as pessoas vissem e elogiassem.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

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