Apenas Começando / Elisa Masselli

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:53 pm

Sueli foi até a geladeira, pegou um pedaço de carne e começou a falar:
— Ele está preocupado com você e pediu que eu não a deixasse sozinha.
— Preocupado, por quê?
— Disse que todas as pessoas que tentam o suicídio uma vez, se não conseguem, tentam várias vezes até conseguir.
Disse que está com depressão e, por isso, deve ir a um psicólogo ou a um psiquiatra, pois a depressão pode levar você a tentar o suicídio novamente.
Disse que precisa de ajuda com o que, eu concordo.
Júlia se levantou e, revoltada, disse:
— Não preciso de psiquiatra algum!
Fiz uma loucura!
Sei o porquê de ter feito!
Estou arrependida e não vai se repetir!
— Eu disse isso a ele, mas insistiu.
Não sei o que fazer.
Sou sua amiga, quero ajudar você, mas, como sabe, minha vida é corrida.
Não tenho tempo para nada.
Quando me casar, vou me mudar daqui e entregar o apartamento.
— Estou bem, Sueli!
Aquilo não vai se repetir!
Preciso encontrar um emprego e acho que não vai ser difícil!
Sou uma profissional!
Estudei muito para isso!
Pode ficar tranquila.
— Como pode ter tanta certeza de que está bem?
— Tenho tido uns sonhos estranhos.
Conversei com uma mulher que estava internada junto comigo.
Ela contou sua história.
Quando terminou, vi que a minha vida, por pior que seja o momento que estou passando, não chega nem perto do que ela passou.
Ela me falou de esperança.
Disse que nunca estamos sós e que sempre, quando precisamos, temos ajuda.
— Ela segue a mesma Doutrina que eu?
— Não sei. Ela não disse.
Falou que, antes de tudo acontecer, não tinha religião.
Agora, depois que tudo se resolveu, não sei.
Disse que a história dela prova que Deus não nos abandona nunca e que sempre temos ao nosso lado, amigos espirituais que nos ajudam nos momentos difíceis.
Estou acreditando nisso, Sueli!
Preciso acreditar!
— Está bem, Júlia.
Tenho alguns livros que deveria ler.
No momento é só o que posso fazer por você.
Já que não posso ficar ao seu lado o tempo todo, preciso acreditar no que está dizendo.
Preciso e vou confiar nos seus e meus amigos espirituais.
Eles vão ajudar você, assim como me ajudaram a encontrar um novo caminho e a impedir que torne a tomar um acto tão tresloucado como o que tomou.
— Tenho certeza disso, Sueli!
Agora vou ajudar você com o almoço.
Depois precisa ir trabalhar.
Pode ir e não se preocupe comigo.
Estou bem.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:54 pm

— Comprei este remédio que o médico receitou.
Ele disse para você tomar depois do almoço que vai se sentir bem.
Precisa tomar todos os dias até encontrar ajuda.
— Está bem. Hoje vou descansar e amanhã sairei em busca de um emprego.
Já disse que não preciso de psiquiatra ou de psicólogo!
Alzira e Ciro sorriram e jogaram luzes brancas sobre as duas.
Assim que terminaram o almoço, Sueli saiu, recomendando:
— Preciso ir para o trabalho.
Hoje, vamos receber uma quantidade de turistas que chegaram à cidade.
Não posso ficar aqui com você.
O médico disse que, com esse remédio que tomou, vai dormir.
Promete que, assim que eu sair, vai para o quarto, se deitar e dormir?
Júlia sorriu:
— Não precisa se preocupar comigo, Sueli. Estou bem.
Pode ir tranquila e, para que fique bem, prometo que à noite vou jantar no seu restaurante.
Depois podemos voltar juntas para cá.
O que acha? Posso ir?
— Claro que pode!
Não precisa nem esperar à noite.
Assim que acordar vá para lá.
Tem razão, vou ficar bem mais tranquila.
— Eu vou! Agora vá embora.
Sueli saiu e Júlia foi para o quarto, olhou para o braço, que estava enfaixado e se deitou:
Por mais que pense, não consigo me ver na situação em que Sílvia ficou.
Sem marido, profissão ou dinheiro e tendo três crianças para alimentar.
Ainda bem que não tive um filho com Anselmo.
Nesse sentido, minha vida é mais fácil.
Sei que vou conseguir um emprego, arrumar um lugar para morar e me esquecer de dele.
Ele que seja feliz com sua mulher!
Ajeitou a cabeça sobre o travesseiro, sorriu, pensando:
A quem estou tentando enganar?
Quero mesmo é que ele morra!
Agiu como um canalha!
Acabou com a minha vida!
Pouco depois, estava dormindo.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:54 pm

O baile
Algum tempo após ter dormido, Júlia abriu os olhos e viu Alzira e Ciro que sorriam.
Estava deitada, outra vez, na grama já sua conhecida.
Sorriu:
— Estou aqui novamente?
Já estou me acostumando com este lugar e com vocês.
Sempre tive muita dificuldade para dormir.
Hoje, isso não acontece mais.
Basta colocar minha cabeça no travesseiro e o sono vem.
Vocês são responsáveis por isso?
— Em parte sim, Júlia.
Você está passando por uma fase difícil na sua vida.
Seu corpo precisa descansar e nós ajudamos um pouco.
Teve um dia cheio hoje, não foi?
Júlia sorriu para Alzira.
— Foi sim. Ouvi uma história que me comoveu muito e me fez pensar em minha vida.
Não entendo como Sílvia contou sua história para pessoas estranhas.
— Conhecemos a história.
Sílvia contou, porque tanto você como a copeira do hospital precisavam ouvir.
É assim que o plano espiritual trabalha.
Sempre está presente e age de acordo com as circunstâncias.
Algumas vezes faz com que as pessoas falem o que as outras precisam ouvir.
Outras vezes coloca na vida da pessoa, outra, que possa ajudar materialmente, com dinheiro ou arranjando um emprego.
Sempre somos ajudados, encarnados ou não.
—Ainda é difícil para mim, entender tudo o que diz, mas estou me acostumando com isso e com a presença de vocês.
Só gostaria que, ao acordar, pudesse me lembrar de vocês.
— Embora pense que não se lembra, pode ter certeza de que, das coisas mais importantes, se lembra, sim.
Agora, já que gosta tanto de história, vamos continuar a nossa?
Antes que Júlia respondesse, ouviram um barulho.
Era uma pequena carruagem puxada por dois cavalos e que parou em frente à porta da frente.
Aproximaram-se dela.
Um negro desceu e entrou, correndo, na casa.
Falou com outra negra que estava arrumando a sala.
Ela ouviu o que ele disse, colocou a mão na boca e subiu apressada a escada.
Alzira, Ciro e Júlia acompanharam a negra que chorava.
Entraram no quarto de Maria Inês.
A negra, muito nervosa e chorando quase não conseguia falar.
Maria Inês estava diante de um espelho grande, olhando o vestido.
Assim que Zefa entrou, vendo que ela estava aflita:
— O que aconteceu?
Por que está chorando?
Em soluços, a negra respondeu:
— Vossa mãe murreu, Sinhazinha...
— O quê?
— U Inaciu veiu lá do hospitar.
Vossa mãe murreu e vosso pai pidiu prá Sinhazinha i pra lá.
U Inaciu vai levá a Sinhazinha.
Maria Inês, após o primeiro impacto, olhou novamente para o espelho.
— Logo agora que estou pronta para ir ao baile?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:54 pm

Ela não podia ter morrido amanhã?
O que vou fazer?
A carruagem da Eulália deve estar chegando.
Zefa que ouviu tudo, disse:
— É vossa mãe, sinhazinha.
Percisa i lá no hospitar...
Maria Inês, muito nervosa, gritou:
— Eu sei, Zefa! Eu sei!
Mas não é justo!
Esperei tanto por este dia!
Estou pronta para realizar um sonho!
— Vai tê ainda muitos baili, Sinhazinha.
Vossa mãe, foi si imbora e num vai vortá mais...
— Ela não podia ter ido embora amanhã?
Não quero perder o baile!
— Num pudia não, sinhazinha.
A hora do nascimentu e a hora da morti já tão marcada...
— Está bem, Zefa.
Preciso da sua ajuda para tirar este vestido.
Não posso ir com ele.
— Tá bão, sinhazinha...
Maria Inês se virou de costas e Zefa começou a desabotoar o vestido.
Quando estava no último botão, Maria Inês se voltou e gritou:
— Espere, Zefa!
Abotoe todos os botões novamente!
Já sei o que vou fazer!
Zefa parou e, assustada, perguntou:
— U qui a Sinhazinha vai fazê?
Maria Inês olhou para a negra que havia trazido a notícia e disse, gritando:
— Vá conversar com Inácio e diz para ele voltar para o hospital e falar para meu pai que, quando chegou aqui, eu já havia saído na carruagem do pai da Eulália.
A negra arregalou os olhos e Zefa, chorando, perguntou:
— A sinhazinha num vai nu hospitar?
A sinhazinha vai pru baili?
— Vou, Zefa!
Não posso perder esse baile!
Esperei muito por ele!
Meu pai deve trazer minha mãe para cá.
Amanhã, vou ficar o dia todo ao lado dela para que as pessoas possam me ver, mas hoje, não!
Hoje vou ao baile!
Júlia também arregalou os olhos e a boca.
Olhou para Alzira e Ciro e perguntou:
— Ela vai fazer isso?
— Continue assistindo, Júlia.
Não vai querer saber o fim do filme, vai?
— Não! Não quero!
— Vai, Zefa! Arrume o meu vestido!
A carruagem deve estar chegando!
Olhando para a outra negra, gritou:
— Negra! Vá transmitir para o Inácio a minha ordem!
A negra abaixou a cabeça e saiu correndo do quarto.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:54 pm

Zefa abotoou o vestido novamente e ajeitou os cabelos de Maria Inês que voltou a olhar no espelho.
— Estou linda, Zefa!
Sei que vou conquistar e me casar com Luiz Cláudio!
Ouviram um barulho:
— A carruagem chegou, Zefa!
Vamos descer!
Desceram e foram seguidas por Júlia e seus companheiros.
Maria Inês passou, em silêncio pela sala, onde algumas escravas choravam.
Fingindo não ver as escravas, entrou na carruagem e, acompanhada por Zefa, foi embora.
Quando chegaram à casa de Eulália, ela, acompanhada de seus pais, já estava esperando.
A carruagem parou e Maria Inês desceu.
Zefa desceu logo atrás.
A mãe de Eulália se aproximou:
— Como vai, Maria Inês?
Eulália nos contou que sua mãe tá no hospital?
Esperamos que não seja grave.
Maria Inês olhou para Zefa e disse:
— Ela está bem.
Meu pai preferiu que ficasse, por alguns dias no hospital.
O médico disse que é só para observação.
Ela está muito feliz por eu ir ao baile.
Sabe o quanto significa para mim.
Está, também, muito agradecida por permitirem que eu os acompanhe.
— Não tem o que agradecer.
Sei que se a situação fosse ao contrário, seus pais também levariam Eulália.
Sei, também, o quanto esse baile é importante para ela.
Não se preocupe, estamos felizes por você.
Usaremos duas carruagens.
Na maior iremos, eu, meu marido e Paulo Octávio.
Na outra, você e Eulália.
Está bem assim!
— Está óptimo! Obrigada, senhora.
— Bem, chega de agradecimentos.
Está na hora de irmos.
Subam na carruagem.
Antes que subissem, Maria Inês, disse:
— Zefa está me acompanhando.
Ela poderia ficar aqui, até a nossa volta?
A mãe de Eulália olhou para Zefa:
— Claro que pode e, se preferir, assim que ficarmos na festa, o cocheiro pode voltar e levá-la para casa.
Quando a festa terminar, nós a levaremos, Maria Inês.
— Obrigada mais uma vez.
Acho melhor que ela vá para casa.
Assim, quando eu chegar, minha cama estará pronta esperando por mim.
— Está bem, vamos fazer assim.
Maria Inês se aproximou de Zefa e, com a voz firme, disse baixinho para que os outros não ouvissem:
— Vá para casa e não se atreva a comentar com o cocheiro nem com os negros da casa, o que aconteceu com minha mãe!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:39 pm

— Tá bão, Sinhazinha.
Num vô dizê nada...
Entraram nas carruagens e saíram.
Zefa, com os olhos, ficou parada até que as carruagens sumissem.
Depois disso, chorou.
Quarenta minutos depois as carruagens passaram por um lindíssimo portal e continuaram por uma alameda cercada por árvores, folhagens e palmeiras.
Ao longe, podia-se ver um lago.
Maria Inês e Eulália olhavam, admiradas com toda aquela beleza.
Júlia também estava encantada, mas ficou calada, apenas apreciando.
Logo depois, as carruagens pararam em frente à porta de entrada do palácio.
Dois pajens, um de cada carruagem, desceram e ajudaram os passageiros a descer.
Maria Inês, Eulália e sua mãe, ajeitaram os vestidos.
Entraram no saguão e foram acompanhados por dois pajens ricamente vestidos, para o salão onde seria realizado o baile.
O salão era todo iluminado por vários lustres enormes, com velas acesas que iluminavam a sala.
Notaram que as mesas estavam decoradas com toalhas brancas.
Sobre cada uma delas havia um arranjo de flores do campo, tendo no centro pequenas velas brancas, que ajudavam na iluminação e completavam a beleza.
Maria Inês e Eulália, embora estivessem emocionadas, por estarem ali pela primeira vez, com muito esforço, e altivas, seguiram os pajens e conseguiram chegar à mesa apontada por eles.
Sentaram-se como se aquilo que estava acontecendo fosse normal em suas vidas.
Júlia, ao contrário, estava extasiada, gritou:
— Tudo é tão lindo!
Já vi bailes como esse em filmes, mas nunca imaginei que fosse tão deslumbrante!
É lindo! Lindo!
Alzira e Ciro ficaram calados, apenas sorriram.
Após se sentar, Maria Inês olhou por todo o salão e pensou:
Existem muitos vestidos bonitos aqui, mas nenhum é tão lindo quanto o meu.
O vestido da Eulália também é bonitinho, mas não chega nem perto do meu!
Embora esteja usando este colar que é muito bonito, não consigo esquecer aquele maravilhoso que vi na joalheria.
Odeio meu pai por não ter comprado aquele colar!
Jamais poderei perdoar o que ele fez!
Paulo Octávio que estava sentado ao seu lado, disse:
— Está muito bonita, senhorita Maria Inês.
— Sim, meu vestido é lindo!
— Não estou falando de seu vestido e sim de um todo.
— Obrigada.
— Fiquei feliz ao saber que viria ao baile connosco.
— Também fiquei feliz por vir.
Maria Inês não prestou atenção ao que ele falou.
Seus olhos percorriam o salão procurando por Luiz Cláudio.
Eulália também olhava, procurando por José António.
Eulália voltou-se para Maria Inês e falou baixinho:
— Estou preocupada, Maria Inês...
— Por que, Eulália?
— Está quase na hora de o Duque entrar no salão e até agora José António não chegou.
— Tem certeza de que ele virá?
Ele não faz parte da corte.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:40 pm

— Ele disse que faria o possível para vir.
Embora não faça parte da corte, seu pai tem muito dinheiro e faz muita doação.
Com certeza, deve ter recebido um convite.
Maria Inês sem ouvir o que a amiga dizia, ainda olhando pelo salão, disse desinteressada na conversa:
— Está bem...
Paulo Octávio, por várias vezes tentou conversar com ela, mas Maria Inês não lhe deu atenção.
Sua única preocupação e atenção eram para a porta por onde Luiz Cláudio deveria entrar.
Alguns minutos depois, viu que ele chegava acompanhado por seus pais, duas moças e um rapaz que ela sabia serem seus irmãos.
Um pajem, como havia acontecido com a família de Eulália, acompanhou-os até uma mesa do outro lado do salão, que ficava em frente a que ela estava.
Seu coração batia forte.
Eulália também viu quando eles entraram, mas não sentiu coisa alguma.
O que queria mesmo era ver José António entrar por aquela porta.
Após se acomodarem em volta da mesa, o pai de Luiz Cláudio, tocando a aba do chapéu, cumprimentou o pai de Eulália.
As senhoras apenas sorriram.
O som de uma corneta envolveu todo o ambiente.
Todos se levantaram.
O Duque e a Duquesa entraram.
Sorrindo, sentaram-se a uma mesa que havia sido reservada para eles.
A mesa ficava em um plano elevado.
Dali, o Duque poderia ver todos os presentes e todos poderiam vê-lo.
Um riquíssimo jantar foi servido.
Os copos em cristal e as louças em porcelana finíssima que vieram da Europa.
Negros, muito bem uniformizados serviam a todos.
A o ver tudo aquilo, Júlia gritou:
— Não acredito que estou aqui!
Vendo tudo isso!
Conhecendo um Duque e uma Duquesa!
Alzira e Ciro olharam para ela.
Colocando a mão sobre a boca, continuou, falando baixinho:
— Já sei. Só mesmo sendo em sonho, não é?
Alzira riu:
— Isso mesmo, Júlia.
Só mesmo em sonho.
Após o jantar, o Duque se levantou e deu início ao baile.
Um piano e vários violinos começaram a tocar uma valsa.
Os casais foram se formando e tomando conta do centro do salão.
Luiz Cláudio se levantou e caminhou até a mesa onde eles estavam.
Fazendo uma reverência, convidou Eulália para dançar.
Ela olhou para o pai que concordou com a cabeça.
Saíram dançando.
Maria Inês ficou furiosa:
Ele não pode ficar com ela! Ele é meu!
Enquanto dançavam, Luiz Cláudio, apertando a mão de Eulália, disse:
— Está linda, senhorita Eulália.
Eulália que, a cada volta, olhava para a porta na esperança de que José António entrasse, não ouviu.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:40 pm

Ele, percebendo que ela estava ausente, voltou a apertar sua mão e a dizer:
— Está linda senhorita...
Ouvindo o que ele disse, ela corou e, constrangida, disse:
— Obrigada.
O senhor também está muito bem.
— A senhorita sabe do acordo entre nossos pais?
— Sim, meu pai me comunicou.
— O que achou desse acordo?
— Sabe que preciso obedecer ao meu pai.
— Estou na mesma situação.
Mas, só aceitarei esse acordo se a senhorita estiver realmente decidida a se casar.
Somos jovens, temos uma vida toda pela frente e não desejo que essa vida seja infeliz.
Tenho uma proposta para a senhorita.
— Qual?
— Para que nossos pais continuem discutindo seu acordo, vamos fingir que estamos bem.
Durante algum tempo nos encontraremos.
Assim, poderemos nos conhecer melhor.
Quando chegar a hora, eu direi ao meu pai que não quero me casar que desejo ir estudar em Paris.
— Nossos pais não aceitarão!
Há muita coisa envolvida.
— Sei disso, dinheiro, terras e títulos, mas o que temos com isso?
A não ser que, durante esse tempo, quem sabe, possamos nos apaixonar e nos casar...
— Não posso me casar com o senhor.
— Por que não?
— Estou apaixonada por outro...
Ele rindo e apertando sua mão, disse:
— Eu quero ir para Paris!
Como pode ver, esse casamento não pode se realizar.
Vamos somente fingir!
Ela também riu:
— Está bem. Podemos fazer isso.
Quando chegar a hora, encontraremos uma forma de recusar esse casamento.
Riram e rodopiaram felizes pelo salão.
Embora Maria Inês dançasse com Paulo Octávio, não tirava os olhos deles.
Quando viu que eles dançavam e riam, parecendo felizes, ficou furiosa:
Eles estão rindo, parecem felizes!
Isso não pode estar acontecendo!
Preciso fazer alguma coisa para impedir esse casamento!
Paulo Octávio, sem imaginar o que estava acontecendo, enquanto dançavam, disse:
— Tenho pensado muito na senhorita e gostaria de conversar com seu pai para que me conceda sua mão.
Eu e minha família ficaríamos felizes.
— Sei que meus pais ficariam felizes, mas eu, particularmente, peço que não faça isso.
— Por que não?
Pertenço a uma boa família.
Sei que a união de nossas famílias fará com que todos fiquem bem.
Nervosa com aquela conversa, Maria Inês, ainda olhando para Luiz Cláudio e Eulália que pareciam felizes, respondeu:
— Nossas famílias podem ficar felizes, mas eu não!
Meu coração pertence a outro!
Com licença!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:40 pm

Sem mais o que dizer, se afastou, deixando o rapaz sozinho no meio do salão, voltou para a mesa e ficou olhando para Eulália e Luiz Cláudio que dançaram felizes.
Após o final de uma música, Luiz Cláudio, segurando Eulália pela mão, acompanhou-a até a mesa.
Para alegria de seus pais e tristeza para Maria Inês.
Eulália sentou-se ao lado de Maria Inês que perguntou em voz baixa para que os outros não ouvissem:
— O que aconteceu?
Parece que está feliz!
— Estou muito feliz, Maria Inês.
— Por quê?
— Não podemos conversar aqui.
Depois conto tudo a você.
Embora estivesse irritada, Maria Inês sorriu.
O baile continuou.
Paulo Octávio fez o possível e o impossível para agradar Maria Inês.
Enquanto dançavam, ele apertando sua mão, disse:
— Estou apaixonado pela senhorita, faz muito tempo.
Poderíamos conversar a respeito?
— Sinto muito, senhor, mas meu coração pertence a outro.
— Entendo, mesmo assim gostaria de encontrá-la outras vezes.
Se quiser, posso conversar com seu pai.
Maria Inês, furiosa, parou de dançar e gritou:
— Não!
Nervosa, saiu para o jardim.
Lágrimas de ódio caíam por seu rosto.
Isso não pode estar acontecendo!
Eulália disse que não se casaria com ele!
Que está apaixonada por outro!
Mentira! Está feliz ao lado dele!
Mentirosa! Mentirosa!
— Está chorando, senhorita?
Maria Inês se voltou e viu que quem perguntava era Luiz Cláudio.
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, tentou disfarçar.
— Não, senhor. Deve ter sido um cisco que caiu em meus olhos.
— Está chorando, sim. O que aconteceu?
Vi quando saiu correndo do salão.
Paulo Octávio foi inconveniente com a senhorita?
— Não. Quer se casar comigo...
— Está chorando por isso?
Ele é um bom moço e de uma boa família.
Sei que a fará muito feliz.
Maria Inês voltou a chorar:
— Não posso me casar com ele.
Meu coração pertence a outro.
— Outro?
— Sim. Outro que não consigo esquecer nem por um minuto.
— Que felizardo! — Luiz Cláudio disse rindo.
Ela levantou os olhos e disse de uma vez:
— O senhor...
— Eu? — Perguntou perplexo.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:40 pm

— Sim, o senhor.
Foi por causa do senhor que me esmerei para este baile.
— Nunca pensei que fosse interessada na minha pessoa.
Estou feliz, pois também penso muito na senhorita.
Pensei em falar com seus pais, mas algo aconteceu que me fez mudar de ideia.
— Sei. Seu casamento com Eulália, imposto por seus pais.
— Como soube disso?
— Eulália me contou.
Ela está infeliz, pois não o ama!
Ela está apaixonada por outro!
— Sei disso.
— Sabe?
— Sim. Ela me contou há pouco, enquanto dançávamos.
— Não acredito!
Enquanto dançavam, pareciam tão felizes e apaixonados...
Ele soltou uma gargalhada:
— Isso é óptimo!
— Não estou entendendo.
— Fizemos um acordo.
Vamos enganar nossos pais e, pelo que parece, vamos conseguir.
— Um acordo?
— Sim, perante todos nos mostraremos apaixonados, mas não nos casaremos.
Depois que nossos pais se entenderem, diremos que não queremos nos casar.
— Eles não aceitarão.
Serão obrigados a se casar.
— Quando chegar a hora vou conversar com meu pai e vou dizer que não posso me casar com a senhorita Eulália.
Ele me ama e só quer o meu bem.
Não vai querer que seu filho seja infeliz pelo resto da vida.
Meu pai está com dificuldade financeira, mas nada muito grave.
Com o meu casamento, tudo seria mais fácil, mas ele é inteligente e encontrará outro caminho.
Eu queria ir para Paris, mas, diante do que a senhorita disse, acho que vou mudar de ideia.
— Não entendi...
— Eu me interessei pela senhorita assim que a conheci na casa do Coronel Cintra.
Porém, nunca imaginei que havia se interessado por mim.
Diante do que disse hoje, não quero mais viajar.
Depois que tudo ficar resolvido entre mim e a senhorita Eulália, quando eu estiver livre desse compromisso, conversarei com meu pai que conversará com o seu e poderemos nos casar.
O que acha?
Maria Inês começou a tremer:
— Quer se casar comigo?
— Sim, é o que mais desejo.
Dizendo isso, Luiz Cláudio pegou a mão de Maria Inês e beijou-a demoradamente.
— Agora, preciso voltar ao salão e tirar a senhorita Eulália para dançar.
Precisamos manter as aparências.
Por favor, não comente com ninguém, nem com a senhorita Eulália, o que conversamos, pois se alguém tomar conhecimento de nossos planos, eles serão prejudicados.
Maria Inês, emocionada, só conseguiu concordar com a cabeça.
Antes de sair, Luiz Cláudio falou:
— Enquanto não pudermos contar ao mundo o nosso amor, poderemos nos encontrar sem que ninguém saiba?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:40 pm

Gostaria muito de poder conversar com a senhorita em um lugar mais tranquilo.
Novamente, ela concordou com a cabeça.
— Óptimo. Estarei esperando pela senhorita, amanhã às quatorze horas, junto ao lago perto de sua casa, pode ser?
Ela sorriu.
Ele voltou para o salão e foi até a mesa onde Eulália estava e convidou-a para dançar novamente.
Depois de algum tempo, Maria Inês também voltou para o salão e, sorrindo para Paulo Octávio, disse:
— Desculpe-me por minha atitude.
Gostaria de dançar com o senhor.
Ele, sem entender o que estava acontecendo, mas sem se preocupar com isso, levantou-se e, pegando sua mão, conduziu-a até o meio do salão e começaram a dançar.
Maria Inês estava feliz.
Ao ver aquilo, Júlia, olhando para Alzira e Ciro, gritou:
— Não pode ser! Não pode ser!
— Não pode ser o que, Júlia?
— Como ela, sendo egoísta, má e dissimulada como é, pode ficar com o homem que deseja?
Conseguir o que quer?
Como seus planos podem sempre dar certo?
Alzira olhou para Ciro e respondeu:
— Embora muitas vezes possa parecer que não, tudo está sempre certo, Júlia.
— Não está certo!
Não está certo!
Ela não merece!
— Continue vendo, Júlia.
Júlia olhou para o salão.
Depois de algum tempo, perguntou:
— É verdade que eles não podem nos ver nem nos ouvir?
Ciro sorriu:
— Sim, Júlia. É verdade.
— Posso dançar nesse salão?
Alzira olhou para Ciro e sorriu:
— Pode, sim, Júlia e, se quiser posso dançar com você.
— Eu quero!
— Então, vamos.
Sob o sorriso de Alzira, começaram a dançar.
Júlia estava feliz e sempre que passava por Alzira, sorria e abanava uma das mãos.
Minutos antes de o baile terminar, Luiz Cláudio despediu-se da família e de Maria Inês.
O pai de Eulália, apertando a mão dele, disse:
— Gostaria muito de recebê-lo em minha casa, para o jantar de amanhã.
— Será um prazer, senhor.
Eulália, sorrindo, estendeu a mão para que ele a beijasse.
Delicadamente ele, olhando em seus olhos, pegou sua mão e beijou.
Fez o mesmo com a mãe de Eulália e com Maria Inês, que tremeu ao sentir o toque de sua mão.
Quando o baile terminou, uma das carruagens levou Eulália e Paulo Octávio para casa.
A outra, com os pais de Eulália, levou Maria Inês.
A carruagem parou em frente à porta de sua casa.
Após descer da carruagem, Maria Inês, disse:
— Por mais que procure, não consigo encontrar palavras para agradecer por terem me levado ao baile.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:41 pm

Estou muito feliz.
A mãe de Eulália sorriu:
— Também estamos.
A senhorita foi uma companhia muito agradável.
Amanhã, irei até o hospital visitar sua mãe.
Só agora, Maria Inês se lembrou da mãe.
Dissimulou:
— Sei que ela ficará feliz com sua visita.
Mais uma vez, obrigada.
Sorrindo, afastou-se e ficou esperando a carruagem desaparecer no fim da alameda.
Entrou em casa e, como se estivesse levitando de tanta felicidade, subiu a escada e foi para seu quarto.
Assim que entrou no quarto, viu Maria Augusta recostada em sua cama e Zefa sentada em um banquinho:
— O que estão fazendo aqui?
— Esperando por você, minha irmã.
— Esperando por quê?
— Para ver sua cara de felicidade quando chegasse do baile.
— Como pode ver, Maria Augusta, estou feliz!
Zefa! Ajude-me a tirar este vestido.
Ele já cumpriu sua missão.
Zefa levantou-se e começou a desabotoar os botões que havia nas costas do vestido.
Maria Augusta, furiosa, levantou-se e gritou:
— Como pôde fazer isso, Maria Inês?
Maria Inês, fazendo-se de desentendida, perguntou:
— Fazer o que?
— Não se faça de sonsa!
— Não estou entendendo o que está querendo dizer, Maria Augusta.
O que foi que eu fiz?
— Como pôde ir ao baile mesmo sabendo que mamãe havia morrido?
Maria Inês olhou para Zefa e fuzilando-a com o olhar:
— Por que contou a ela?
Sua negra suja e linguaruda!
— Num cuntei nada, Sinhazinha...
— Como não contou?
— Ela não contou! — Maria Augusta gritou.
— Se não foi ela, quem foi?
— Você!
— Eu?
— Sim, neste momento.
Eu não sabia, mas desconfiava.
Inácio teve tempo de chegar aqui, antes de você sair para ir o baile!
Quando ele voltou ao hospital dizendo que você já havia saído, não acreditei que ia fazer o que fez!
Maria Inês, percebendo que não tinha como argumentar, tentou justificar:
— Eu não podia deixar de ir ao baile, Maria Augusta!
Você sabe o quanto esperei por este dia!
— Sua mãe morreu!
Será que isso não atingiu você de alguma maneira?
Sua mãe, Maria Inês!
Se ela tivesse sido uma mãe má, distante eu até entenderia, mas não!
Ela foi uma mãe maravilhosa!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:41 pm

Sempre esteve ao nosso lado, sempre nos deu carinho... — Maria Augusta parou de falar, não conseguiu evitar as lágrimas.
Maria Inês aproveitou aquele momento:
— Exactamente, por ela ter sido uma mãe maravilhosa, tenho a certeza de que ela ficaria triste se eu tivesse deixado de ir ao baile por sua causa.
Ela sabia o quanto esse baile era importante para mim.
Maria Augusta, com as mãos, secou os olhos e caminhando em direcção à porta, muito nervosa, disse:
— Você não tem jeito!
É egoísta, má e mimada!
Só pensa em si mesma!
Amanhã, logo cedo o corpo da mamãe virá para cá.
Algumas pessoas já foram avisadas, outras serão.
O padre estava ao seu lado e ainda continua.
Papai está em seu quarto.
Espero que esteja na sala e que, mesmo mentindo, demonstre alguma dor!
Eu odeio você, Maria Inês!
Saiu do quarto, batendo a porta.
Assim que ela saiu, Maria Inês olhou para Zefa e gritou:
— Ela é louca, Zefa?
Como pode dizer que eu não gosto da minha mãe?
Eu gosto muito, mas que diferença faria a minha presença ou não?
Ela já estava morta!
Quanto a mim, adorei o baile!
Luiz Cláudio está interessado em mim.
Amanhã, à tarde vamos nos encontrar no lago.
Você vai comigo!
— Num podi, Sinhazinha...
— Não posso, por quê?
— U interro vai sê as treis horas.
A Sinhazinha tem di tá presenti...
Maria Inês se desesperou:
— Está vendo como a morte da minha mãe atrapalhou a minha vida?
Ela podia ter morrido amanhã, aí eu já teria encontrado Luiz Cláudio.
Sou muito infeliz, Zefa...
— Vai pudê si incuntrá cum eli num otro dia, sinhazinha...
Maria Inês começou a chorar desesperadamente.
Zefa se aproximou:
— Num dianta chora, Sinhazinha.
Percisa ficá nu interro.
Otro dia si incontra cum eli.
Agora vem dromi.
Tá muitu tarde e a sinhazinha tá cansada...
Maria Inês obedeceu.
Colocou a camisola e se deitou.
Júlia, nervosa, olhando para Ciro e Alzira, falou:
— Ela é muito má, mesmo!
Sua irmã tem razão!
Como pode ser tão egoísta!
Como pode não sentir dor pela morte da mãe!
Ela merecia um castigo!
— Que castigo, Júlia? — Alzira perguntou, olhando em seus olhos.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:41 pm

Júlia olhou para ela, ia responder, mas parou.
Alzira continuou:
— O que acha se, em uma próxima encarnação, ela não tivesse mãe nem família.
Acha que seria um bom castigo?
— O que está querendo dizer? — Júlia perguntou preocupada.
— Não estou querendo dizer coisa alguma.
Você disse que ela merecia um castigo, só estou sugerindo esse.
Júlia, ainda olhando para eles, perguntou:
— Está dizendo que eu fui essa moça e que, por isso, escolhi a vida que tenho hoje?
— Não estou dizendo isso.
Quem está dizendo é você...
Júlia se afastou e andando de um lado para outro, falou:
— Não pode ser! Não pode ser!
Jamais eu seria igual a ela!
— Não fique nervosa, Júlia, nem tire conclusões apressadas.
Precisa conhecer a história até o fim.
Vai ter de fazer uma escolha muito importante, por isso, precisa prestar atenção ao resto da história.
Agora, volte para o seu corpo, está muito tempo fora dele.
— Não! Eu quero ver o que vai acontecer com ela!
Alzira sorriu.
Júlia com um pulo acordou dizendo:
— Não! Quero ver o que vai acontecer com ela!
Olhou à sua volta e viu que estava em seu quarto.
Que sonho louco foi esse?
Por que não consigo me lembrar?
Esses sonhos estão me deixando louca.
Desta vez, só consigo me lembrar que estava em um baile, com um lindo vestido verde e que havia pessoas ao meu lado, mas quem eram essas pessoas?
Olhou para o relógio:
Quase seis horas da tarde! Dormi muito!
Preciso me levantar tomar um banho e ir para o restaurante.
Sueli deve estar preocupada.
Foi o que fez. Levantou-se e foi para o restaurante.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:41 pm

Vida nova
Suzana acordou.
Olhou para o lado e viu que Anselmo não estava ali.
Lembrou-se de que estava no apartamento e em Recife:
Como minha vida pode ter mudado tanto?
Se minha mãe estivesse aqui, diria que deve ter um motivo.
Mas que motivo pode ser?
Estou sem emprego, vivendo do pouco salário de Anselmo, coisa que lutei e estudei muito para que nunca acontecesse.
Estou morando neste apartamento que é um terço do meu.
Que caminho é este que estou percorrendo, mãe?
— Vai descobrir, minha filha.
Vai descobrir.— Disse sua mãe que estava ao seu lado.
— Bom-dia, Suzana! Dormiu bem?
— Bom-dia, Anselmo.
Dormi muito bem.
— Que bom. Estou saindo para o trabalho.
Preparei o café e a mesa.
Aproveite esta cidade que tem lugares lindos.
Faça de conta que está em férias e vá até a praia com Rodrigo.
Ele vai gostar.
Afinal, faz muito tempo que não tem férias.
Aproveite! Quando passar pela portaria, fale com o porteiro e veja se ele conhece alguém para ajudar você aqui em casa.
Ela, rindo, perguntou:
— Terminou de dar as ordens, meu senhor?
Ele, sem graça, também rindo, respondeu:
— Desculpe-me, Suzana. Tem razão.
Parece que estou falando com uma mulher que não sabe tomar atitude.
Você sabe bem o que quer e como fazer.
Só quero que fique bem e que não se arrependa de ter vindo para cá.
Conversei com meu chefe e ele disse que está previsto que eu fique aqui por um ou dois anos, mas, se eu conseguir colocar tudo em ordem, voltaremos antes disso.
Como pode ver, vai depender do meu trabalho.
Vou fazer o possível para que tudo fique bem, antes disso e, depois, se você quiser, poderemos voltar.
Suzana, ainda deitada, sorriu:
— Não se preocupe comigo, Anselmo.
Entendi e aceitei minha situação.
Escolhi ficar com você, com nosso filho e com nosso casamento.
Como você disse, estou em férias.
Por uma semana, vou aproveitar a praia, passear para conhecer a cidade e, claro, encontrar alguém para me ajudar.
Sabe que não entendo do serviço da casa.
Sempre trabalhei fora, sei que não daria conta sozinha.
Depois desta semana, vou procurar uma escolinha para colocar Rodrigo e tentar encontrar um emprego.
Vamos ficar aqui o tempo que for preciso, mas, por favor, trabalhe muito para que esse tempo seja o menor possível.
Quero voltar para minha cidade.
— Fico feliz em ouvir você, Suzana.
Prometo que voltaremos o mais rápido possível.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:41 pm

Agora, preciso ir. Aproveite o dia.
— Fique tranquilo.
Vou aproveitar minhas férias, - Anselmo saiu.
Ela se levantou, passou pelo quarto de Rodrigo que ainda dormia.
Vamos começar uma nova vida, meu filho.
Foi para cozinha, tomou café e foi até a janela de onde podia ver o mar:
Realmente é lindo!
Esse azul com nuances em verde e essas ondas brancas que batem na areia enchem os olhos de qualquer um.
A única coisa boa deste apartamento é que fica em frente à praia...
Ouviu que Rodrigo acordou, foi até o quarto.
Pegou o menino no colo:
— Hoje, vamos à praia, Rodrigo!
Você vai adorar!
Não podemos ficar muito tempo, porque aqui, o sol é muito forte.
Mas, mesmo assim, vamos aproveitar.
Deu café ao menino, vestiu um biquíni e um calção no menino.
Em uma sacola colocou água, duas toalhas e protector solar.
Pegou um guarda-sol que estava na lavandaria, colocou a sacola no ombro e o guarda-sol entre o braço e o corpo.
Com o outro braço, pegou a mão de Rodrigo e saiu.
Desceu pelo elevador e, ao passar pela portaria, falou com o porteiro:
— Bom-dia.
— Bom-dia, senhora.
— Mudei ontem para cá e preciso de alguém para me ajudar com o trabalho de casa.
O senhor conhece alguém?
— Conheço, sim! Minha mulher!
Ela trabalhou por dois anos com uma família do Sul.
Eles voltaram para lá e ela ficou sem emprego.
Estava desesperada.
— Óptimo. Quando posso conversar com ela?
— Vou sair daqui as quatorze horas.
Moro longe, por isso, não vai dar para ela vir hoje, mas amanhã, se a senhora quiser, ela vem.
— Está bem.
Diga que venha com vontade de trabalhar, pois se acertarmos tudo, ela começará amanhã mesmo.
— A senhora vai gostar dela.
É muito trabalhadeira.
Não tem medo do serviço, não!
— Está bem.
Agora, vou aproveitar a praia. Bom-dia.
— Bom-dia, senhora.
Ainda segurando o menino, chegou à rua.
Olhou e viu o mar.
Andou alguns passos, atravessou a rua e chegou à praia.
Olhou para o mar e voltou a pensar:
É realmente lindo!
Tirou a sandália que usava e pisou na areia muito branca.
Viu que algumas pedras, dentro do mar, formavam uma espécie de piscina, onde adultos e crianças brincavam.
Entrou com Rodrigo e ficaram brincando por muito tempo.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:42 pm

O menino logo fez amizade com outras crianças.
Suzana observando o filho brincando feliz, sorriu.
Depois de algum tempo, estendeu uma das toalhas na areia, de onde podia ver Rodrigo e se deitou.
Assim que viu que a mãe saiu da piscina, o menino também saiu.
— Estou com sede, mãe.
Deu água para Rodrigo que começou a brincar na areia ao lado dela.
Ficou ali por um bom tempo e pensou:
Até que eu poderia me acostumar com essa vida de dona de casa, sem ter de pensar em números, em como falar com o chefe e sem receber ordens.
Depois de meia hora, olhou para o sol:
Está na hora de irmos embora.
O sol está muito quente.
Não quero que Rodrigo se queime.
Levantou-se, recolheu a toalha, o guarda-sol e voltou para o apartamento.
Assim que entrou, depois de ter tomado banho e dado banho em Rodrigo, ligou a televisão.
Colocou em um desenho que sabia ser o preterido dele.
Foi até a cozinha e abriu a geladeira.
Dentro havia restos do jantar que Anselmo havia preparado na noite anterior.
Esquentou a comida, deu para Rodrigo, pegou um copo com água, voltou para a sala, sentou-se em um dos sofás e, rindo, começou a comer e a pensar:
É, acho que posso me acostumar com essa vida.
Pensando bem, Anselmo sempre foi um bom marido.
Seu único defeito é ter um salário tão baixo.
Eu gostaria de ter uma vida como esta, morando em um apartamento como o meu.
A vida é estranha.
Para viver em um apartamento melhor como o que eu morava, preciso trabalhar e receber um óptimo salário, como recebia.
Para que isso aconteça, preciso trabalhar muito e não posso ficar assim, como estou, agora, relaxada.
Por que não conseguimos ter tudo o que queremos?
A vida é estranha, mesmo...
Após o almoço, o menino quis dormir.
Ela o colocou na cama e ficou olhando:
Você é tão bonito.
Posso contar as vezes em que coloquei você na cama.
Desde que nasceu, nunca estive ao seu lado, não acompanhei seu crescimento.
Quando saía de casa para o trabalho, na maioria das vezes estava dormindo e, quando eu voltava, estava dormindo novamente.
Nos fins de semana, eu sempre tinha trabalho para fazer.
Tudo isso para quê?
Para terminar morando em um apartamento como este?
Será que valeu a pena?
Sentou-se no sofá que havia em frente à televisão.
Colocou em um canal onde estava passando um filme.
Deitou-se no sofá e ficou assistindo.
Adormeceu sem perceber.
Foi acordada por Rodrigo, uma hora depois.
Abriu os olhos, olhou para o menino que disse:
— Mãe, estou com fome...
Ela esticou o corpo, bocejou e falou alto:
— Nossa! Não me lembro de ter dormido à tarde em toda minha vida!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:42 pm

Lembrou-se da mãe e pensou:
Será que este é o motivo para tudo o que aconteceu na minha vida, mãe?
Dar valor a pequenas coisas que nunca dei?
Brincar com meu filho na praia, cuidar dele, colocá-lo para dormir.
Dormir à tarde, estar ao seu lado quando acordar e presente em sua vida.
Tomar sol, respirar um ar puro?
A mãe que estava ao seu lado, sorriu e falou:
— Esse é um dos motivos, minha filha.
Rodrigo insistiu em dizer que estava com fome.
Ela foi até a cozinha, no que foi seguida por ele.
Pegou leite, uma maçã na geladeira e falou:
— Rodrigo! Você não acha que este apartamento está muito triste?
Não tem uma cortina, um quadro e nenhum enfeite.
Vamos sair e comprar algumas coisas!
Já que precisamos ficar aqui, que seja em um ambiente feliz!
O menino, demonstrando felicidade, gritou:
— Vamos, mãe!
Depois a gente pode tomar um sorvete?
— Claro que sim!
Também estou com vontade de fazer algo que não fazia há muito tempo.
Chupar um sorvete no palito.
Aqui vai ser melhor ainda!
Podemos chupar o sorvete, olhando para o mar!
Saíram. Suzana perguntou ao porteiro onde podia comprar quadros, cortinas e enfeites:
— Na pracinha existem algumas barracas e ambulantes que vendem artesanato e que são muito bonitos.
Essas outras coisas, eu não sei onde vendem.
Acho que só no centro da cidade.
— Obrigada.
Suzana segurou a mão do menino e saiu andando pela orla.
Em algumas lojas viu objectos de artesanato.
Ficou encantada com algumas peças feitas em cerâmica.
No mesmo instante, imaginou o lugar em que as colocaria.
Comprou três e, quando estava pagando, perguntou:
— Quem faz essas peças?
São lindas e muito baratas!
— Tem muita gente que faz arte.
Eles deixam as peças e uma vez por mês, voltam, recebem por aquelas que foram vendidas e deixam mais.
— Onde trabalham?
— Nas suas casas.
— Só vendem aqui na cidade?
— Não sei, dona.
Suzana percebeu que o homem estava incomodado com tanta pergunta.
Pagou, saiu e continuou andando.
Andou mais um pouco, observando o artesanato.
Comprou mais duas peças e resolveu voltar para casa.
Passou por uma loja, onde viu blusas e vestidos feitos com renda.
Pegou uma das blusas na mão e perguntou:
— Essa renda que está nesta blusa é feita a mão?
— É, senhora. Todas as rendas são feitas por artesãs.
— Elas trabalham para vocês?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:42 pm

— Deixam as peças e voltam no fim do mês para ver quantas foram vendidas.
— Poderia dar o endereço de alguma artesã?
— Para quê?
Quer ser nossa concorrente?
Pretende abrir uma loja?
— Não! Só quero fazer uma encomenda especial.
Um vestido para uma festa que pretendo ir.
Por que pergunta se vou abrir uma loja?
— Vocês lá do Sul, chegam aqui, com muito dinheiro, abrem uma loja, oferecem mais dinheiro para os artesões e prejudicam a gente.
Suzana pensou um pouco e disse:
— Não quero brigar com a senhora.
Só quero um vestido para a festa...
— Diga como quer o vestido.
Vou falar com a artesã.
Volte no fim de semana que eu devo ter uma resposta.
— Está bem. Vou pensar direito como quero e volto aqui.
Suzana pagou a blusa, saiu dali e foi para casa preparar o jantar.
Não sabia cozinhar, por isso, passou por um açougue.
Entrou e comprou carne moída.
Saiu dali e continuou caminhando e pensando:
Não sei cozinhar, mas fritar batata e refogar carne moída, eu consigo.
Ainda bem que a empregada vem amanhã.
Colocou a carne para refogar e uma panela com óleo para fritar as batatas.
Enquanto fazia isso, pensava:
Aquela mulher ficou tão nervosa que a única coisa que pude fazer foi mentir.
Por que ela e o homem ficaram tão nervosos quando comentei sobre os artesãos?
Será que eles exploram essa gente?
Eu não estava pensando nisso, mas agora, gostaria de conhecer um artesão e saber como trabalham.
No dia seguinte, pela manhã, após Anselmo sair, o porteiro interfonou avisando que sua mulher estava ali para conversar com Suzana.
O que ela concordou.
Logo depois, a campainha tocou.
Suzana abriu a porta.
Uma mulher, muito jovem, disse:
— Meu marido falou que a senhora precisa de uma empregada.
— Pois não. Entre.
A mulher entrou.
Suzana apontou para o sofá da sala e começaram a conversar.
— A senhora já trabalhou em casa de família?
— Claro. Aqui a gente começa a trabalhar muito cedo.
Comecei com dez anos, cuidando de um menininho.
Trabalhei por cinco anos, depois, eu casei e parei de trabalhar.
— Casou-se com quinze anos? — Suzana perguntou admirada.
— Casei. Aqui a gente também casa cedo.
Se não for assim, não casa nunca mais.
— Você estudou?
— Não. Meu pai disse que mulher não precisa estudar.
Ela só precisa aprender a cozinhar e a cuidar de criança.
— Sabe ler?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 7:42 pm

— Não, mas sei cuidar muito bem da casa.
Se a senhora quiser, pode perguntar para minha patroa.
Mesmo com as crianças pequenas, sempre trabalhei como doméstica ou fazendo faxina.
— Tem filhos?
— Tenho três.
Dois meninos e uma menina.
Por causa deles é que preciso trabalhar.
O salário do meu marido é muito pequeno.
Preciso ajudar ele.
Meu filho menor está com oito meses.
O médico, lá do posto de saúde, disse que ele precisava mamar até os sete meses.
Agora não precisa mais.
— Desculpe, mas quantos anos você tem?
— Vou fazer vinte daqui a dois meses.
— Vinte?
— Não, ainda vou fazer vinte.
Suzana ficou olhando para ela e pensando:
Parece ter mais idade, mas é ainda uma criança e já tem três filhos...
— Bem, suas crianças estão na creche?
— Não. Aqui tem pouca creche pra muita criança.
Não consegui lugar pra eles.
— Como vai fazer para trabalhar?
Tem mãe para cuidar das crianças?
— Tenho mãe, mas ela também trabalha em casa de família e mora longe daqui.
— Se vier trabalhar aqui, quem vai cuidar das suas crianças?
— Uma menina que mora perto da minha casa.
— Quantos anos ela tem?
— Dez, mas é esperta, sabe cuidar muito bem dos meninos.
— Ela não vai à escola?
— Não, tem cinco irmãos, precisa ajudar a mãe.
O pai foi pra São Paulo e não voltou nunca mais.
Meu Deus... — Suzana pensou e perguntou:
— Quantos irmãos você tem?
— Tenho seis irmãos.
Meu irmão menor tem sete anos.
— Que idade tem sua mãe?
— Acho que trinta e seis ou trinta e sete anos.
Meu Deus! — Suzana pensou novamente.
— Você trabalhou mesmo quando estava grávida e quando as crianças eram recém-nascidas?
— Não dava, não.
Eu não podia sair de casa, mas fazia renda e ganhava algum dinheiro.
— Você faz renda?
— Faço. Eu e todos meus irmãos.
As crianças, que não podem trabalhar, também.
Suzana se levantou, foi para o quarto e trouxe a blusa que havia comprado:
— Você faz esse tipo de renda?
— Essa é fácil. Todos fazem.
Tem rendas mais bonitas e mais trabalhadas que essa.
— Vocês fazem só a renda?
— Algumas mulheres fazem a renda, outras costuram.
— Por quanto vocês vendem uma blusa igual a esta?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:20 pm

— Dois mil cruzeiros mais ou menos.
— Dois mil cruzeiros?
Eu paguei vinte e oito!
Vocês estão sendo explorados!
— A gente sabe, mas fazer o quê.
Se não vender para eles, para quem a gente vai vender?
É melhor ganhar um pouco do que não ganhar nada.
Sempre tem alguém que vende mais barato.
— A mulher da loja e o homem da barraca disseram que vocês deixam as peças e voltam uma vez por mês e que eles pagam só as peças que foram vendidas.
É verdade?
— É verdade, sim.
É o jeito que funciona aqui...
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada!
Vamos fazer o seguinte.
Você vai trabalhar aqui em casa, mas hoje, agora, quero que me leve até o lugar onde você mora e onde estão as artesãs.
— Para que a senhora quer ir lá?
— Quero conhecer o trabalho e conversar com as artesãs.
— Eu moro aqui perto por causa do trabalho do meu marido, mas a Vila onde minha família mora fica muito longe daqui.
De ônibus leva mais de uma hora.
— Não tem importância. Vamos de táxi.
— A senhora quer ir mesmo?
— Quero e não posso esperar.
Como o táxi deve demorar menos, podemos voltar depois do almoço.
— Está bem, já que a senhora quer, eu vou, mas eu preciso falar com meu marido...
— Desça e converse com seu marido.
Enquanto isso, vou preparar meu filho para podermos ir.
— A moça desceu.
Susana arrumou uma sacola com algumas coisas de Rodrigo, água e um pacote de bolachas e saiu.
Quando chegou ao térreo, o porteiro disse:
— Minha mulher disse que a senhora quer ir até a Vila.
Só queria saber se vai deixar minha mulher trabalhar na sua casa.
— Vai trabalhar, sim, mas, agora, preciso ir até a Vila para ver os trabalhos que fazem lá.
— Então está bom. Pode ir.
Saíram para a rua, tomaram um táxi e foram embora.
Após mais de meia hora, finalmente, o táxi chegou a uma pequena Vila.
A rua principal era estreita e a calçada tinha no máximo sessenta centímetros.
Notou que havia muitas crianças correndo e brincando na rua.
Mulheres conversavam do lado de fora das casas.
O cheiro de madeira queimada era intenso o que demonstrava que a comida era preparada em fogão à lenha.
Podia-se ver a fumaça que saía de todas as casas.
Para ela, que sempre havia morado em uma cidade grande, tudo aquilo era novidade.
— Pode parar aqui, moço.
O taxista parou e Lindalva, sorrindo para uma mulher que correu para o carro, disse:
— É aqui que minha mãe mora, dona.
Suzana saiu do táxi, ajudou Rodrigo a descer e ficou olhando para a casa e para as duas mulheres que se abraçavam.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:20 pm

— O que está fazendo aqui, Lindalva?
Aconteceu alguma coisa com você ou com os meninos?
— Não, mãe, está tudo bem.
Esta senhora é lá do Sul.
Ela mudou agora para cá e eu vou trabalhar na casa dela.
Ela comprou uma blusa de renda, gostou, mas eu disse que têm muitas outras e mais bonitas do que aquela.
Ela veio até aqui para ver mais.
A mulher olhou desconfiada.
— Muito prazer, dona.
— O prazer é meu.
Espero que não se incomode de me mostrar os outros trabalhos.
— Não, pode entrar.
Não repare que a casa é simples.
Suzana sorriu.
Toda a surpresa que poderia ter já havia acontecido durante a viagem.
O táxi passou por lugares que ela jamais imaginou que existissem.
A casa era realmente simples, mas muito limpa e arrumada.
Várias crianças, curiosas, ao verem o carro parar, começaram a se aproximar.
Assim que Suzana entrou na casa, elas também entraram e desconfiadas, ficaram olhando para aquela estranha.
— Sai daqui meninos!
A moça só veio ver as renda! — A mulher gritou para as crianças.
Suzana sorriu e as crianças, ainda desconfiadas e curiosas, saíram.
Suzana percebeu que na casa, havia somente um quarto, pensou:
Dormem todos em um só quarto e eu ainda reclamo do apartamento que Anselmo alugou.
A mulher mostrou uma cadeira que estava junto a uma mesa feita de madeira tosca:
— Moça, meu nome é Maria do Rosário, mas todos me chamam de Rosa.
Pode se sentar, moça.
Vou pegar as renda.
— Obrigada, senhora.
Meu nome é Suzana e estou encantada com o trabalho que é feito aqui no Nordeste.
A mulher entrou no quarto e voltou logo depois, trazendo em suas mãos várias peças de renda.
Suzana foi pegando uma peça atrás de outra e, encantada, disse:
— Você tinha razão, Lindalva!
São lindas mesmo!
Voltando os olhos para Rosa, perguntou:
— Como aprendeu a fazer rendas tão lindas?
— Com a minha mãe e ela com a mãe dela.
Quase todas as mulheres fazem esse tipo de trabalho.
— Existe outro tipo arte, aqui nesta Vila, além das rendas?
— Existe, sim.
A gente tem artista pra todo gosto.
Uns fazem com madeiras outros com barro.
Se a senhora pegar uma delas, na mão, sei que vai gostar.
Aqui no Nordeste não tem trabalho, por isso, cada um tem de se virar como dá.
Com a nossa arte, a gente consegue ganhar um pouco de dinheiro que dá pra dar comida dos menino.
— A Lindalva disse que vocês vendem muito barato um trabalho tão bonito.
Eu paguei por uma blusa muito mais caro.
Por que vendem tão barato assim?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:21 pm

— É melhor vender barato e ter algum dinheiro, do que vender caro e não ter dinheiro algum.
— A senhora tem razão.
Eu gostaria de levar algumas destas peças e de ver outro tipo de arte, pode ser?
— Claro que pode.
Vamos, vou levar a senhora em todos os lugares.
Suzana pegou algumas peças e, depois saíram.
Foi a várias casas.
E em cada uma delas, se encantou com os trabalhos.
Viu vestidos, blusas, lençóis e fronhas.
Viu várias peças feitas em madeira e de barro.
Tudo artesanal.
Em cada casa que entrava, ficava mais encantada.
Comprou várias peças e, depois, se despediu.
Ela e Lindalva entraram no táxi e voltaram para a cidade.
Durante o caminho, uma ideia começou a se formar.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:21 pm

A cerimónia
Júlia saiu do restaurante e foi andando para o apartamento.
Enquanto caminhava, pensava:
Esses sonhos que estou tendo, estão mexendo comigo.
Queria tanto me lembrar de mais alguma coisa.
Por que não me lembro?
Alzira e Ciro, que caminhavam ao seu lado, olharam-se, sorriram e estenderam as mãos sobre Júlia que parou de andar.
Espere! Eu estava dançando com aquele vestido lindo e estava com Anselmo!
Eu estava dançando com Anselmo?
Continuou andando e pensando:
Eu sabia que aquilo que Sueli falou a respeito do espírito sair e ir passear, quando dormimos, não tem nada a ver com a realidade!
É claro que sonhei com Anselmo!
Tudo o que está acontecendo na minha vida é por causa dele!
Só podia sonhar com ele, com quem mais?
O que Sueli disse não conseguiu me convencer.
Foi andando e pensando até entrar no prédio.
Ao passar pela portaria o porteiro disse:
— Boa-noite.
Como a senhora está? Sarou?
Ela, percebendo que ele queria saber o que havia acontecido, respondeu:
— Boa-noite. Estou muito bem, mas não sou senhora!
— Não é, mesmo.
Mas eu não podia chamar a senhorita de você.
— Senhorita! Está vendo?
Assim ficou melhor.
Rindo, continuou andando em direcção ao elevador.
Assim que entrou no apartamento, olhou para a estante onde estavam os livros de Sueli.
Parou, pegou um, depois o outro, leu a contra capa, mas nenhum chamou sua atenção.
Essa história de espíritos, reencarnação é um tédio.
Não estou com espírito para ler essas coisas.
Prefiro assistir televisão.
Foi até a cozinha, pegou um copo, colocou leite e voltou para a sala.
Ligou a televisão, deitou-se no sofá e ficou assistindo a um programa humorístico.
Assistiu por alguns minutos e, sem perceber, adormeceu.
Acordou dentro da sala da casa no momento exacto em que Maria Inês, com um vestido preto, descia a escada.
Ao ver Ciro e Alzira e que estava ali naquela casa, Júlia disse:
— Estou sonhando outra vez?
— Outra vez, Júlia.
Não está curiosa para ver o que aconteceu com Maria Inês?
— Estou! Claro que estou!
Mas, antes, queria fazer uma pergunta.
— Que pergunta?
— Quando acordada, consegui me lembrar de alguma coisa sobre o que sonhei.
Eu estava usando aquele vestido que Maria Inês usou no baile e dançava com Anselmo.
Isso aconteceu realmente?
— O que você acha?
— Eu estava com vocês assistindo ao baile, ao lado de vocês, como poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo?
Acho que fiz confusão.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:21 pm

Devo ter sonhado com Anselmo por tudo o que ele me fez e por estar pensando nele com muita força.
— Pode ser. Pode ser, Júlia.
Agora, vamos ver o que está acontecendo.
Olhe à sua volta.
Júlia olhou e viu que as paredes da sala estavam forradas com panos roxos.
Ao centro, sobre uma mesa havia um caixão mortuário, rodeado por velas e um crucifixo enorme.
De onde estava não podia ver o rosto da pessoa que estava nele.
Algumas pessoas choravam.
Outras conversavam em pequenos grupos.
Ao lado dele estava Maria Augusta com os olhos vermelhos e inchados e um homem que Júlia não conhecia.
Ia se aproximar, quando viu Maria Inês caminhando em direcção ao caixão, gritando e chorando de uma maneira desesperada.
Jogou-se sobre o caixão, dizendo:
— Mãe! Por que isso aconteceu!
Como vamos viver sem a senhora?
As pessoas que estavam ali, ao verem o desespero de Maria Inês começaram a chorar com pena da moça.
Zefa, que também estava com os olhos vermelhos, olhou para Maria Augusta que fez um esforço enorme para não esbofetear a irmã perante todos que estavam ali.
Júlia também ficou revoltada:
— Como ela pode ser tão mentirosa!
Ela não se preocupou nem um pouco com a morte da mãe, só pensou no baile!
Alzira e Ciro ficaram calados, olhando para Maria Inês que, nesse momento abraçou-se ao homem que chorava:
— Pai! Por que isso teve de acontecer?
Ela foi uma mãe maravilhosa!
Dedicou sua vida para nos fazer felizes!
Como vamos viver sem ela?
— Não sei como vai ser, minha filha.
Perdi a mulher que esteve ao meu lado por mais de vinte anos.
Não sei como continuarei vivendo...
Ficaram abraçados e chorando.
Júlia condoída, disse:
— Ele parece ser um bom homem...
Alzira olhou para Ciro, sorriu e disse:
— Ele é sim, um bom espírito, Júlia.
— Vocês me irritam com essa história de espíritos.
Para mim ele só é um homem, não um espírito!
— Tem razão, Júlia.
Por enquanto, ele é só um homem.
Júlia sorriu e voltou a olhar para todos que estavam ali:
— Vocês disseram que a vida continua, que a morte não existe, então, por que sempre há tanta tristeza nos enterros?
Da maneira como falam, deveria ser uma festa.
— Trata-se de tradição e da falta de fé, Júlia.
As pessoas ficam tristes e choram, pois como acabou de ouvir, o pai de Maria Inês, acha que nunca mais vai ver a esposa.
Disse que sofreu uma perda.
— A mulher dele morreu!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

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