Apenas Começando / Elisa Masselli

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:21 pm

— O mesmo que muitas pessoas, incluindo você, quando algum parente ou amigo morre, como você gosta de falar, pensam que sofreram uma perda e que nunca voltarão a ver aqueles que partiram antes deles.
Se acreditassem na vida depois da morte, saberiam que isso não é verdade.
Todos, sem excepção, não importando seu grau de instrução, sua vida financeira, sua religião, raça ou sexo, um dia, terão de percorrer esse caminho.
Alguns vão antes, outros depois, mas todos passarão por essa experiência.
— Isso é verdade...
Júlia ficou olhando para todo lado.
Ciro, curioso, perguntou:
— O que está procurando, Júlia?
— Por tudo o que disseram, nesse caixão, só tem o corpo, porque o espírito, com a morte, se liberta.
Não foi o que disseram?
— Sim. Foi isso mesmo.
Sendo assim, estou procurando pela mãe de Maria Inês.
— Ela não está aqui, Júlia.
— Por que não?
Já que está livre do corpo...
— Já disse a você que a energia do corpo físico é diferente da do espiritual.
Quando o espírito deixa o corpo através da morte, ele é levado com muito cuidado para um lugar, aonde aos poucos, sua energia vai se adaptando ao novo ambiente.
— A mãe de Maria Inês não pode ficar aqui?
— Alguns espíritos, apegados a coisas, dinheiro ou pessoas, algumas vezes insistem em ficar ao lado do corpo.
Outros, pelas maldades que praticaram são obrigados a ficar e a ver seu corpo se decompondo.
Muitos sentem até dor como se ainda tivessem o corpo físico.
— Que horror!
— É verdade e você, por mais que imagine, nunca poderá imaginar de que horror está falando.
Porém, normalmente, os espíritos quando se libertam, querem voltar para casa.
Principalmente a mãe de Maria Inês que é um espírito de luz e que só voltou a Terra para poder ajudar a filha de muitas vidas.
— Ela abandonou a filha?
— Não e, pelo que conheço dela, nunca irá abandonar.
Tem esperança de que algum dia, a filha saiba fazer suas escolhas e retorne ao caminho.
Ela só precisa de algum tempo para se adaptar a sua nova vida.
— Ainda bem...
Maria Inês ficou por quase meia hora abraçada ao pai e chorando desesperada.
Só parou, quando Maria Augusta se aproximou, abraçou-se a ela, falou baixinho:
— Pode parar com todo esse escândalo.
As pessoas já viram toda a sua dor!
Vá até a cozinha, tome um copo de água, se recomponha e volte.
Maria Inês ficou calada.
Maria Augusta acenou para Zefa, pedindo que se aproximasse.
Zefa se aproximou, pegou o braço de Maria Inês, dizendo:
Vem, sinhazinha. Vem cumigu.
A sinhazinha percisa tomá um cópu di água.
Maria Inês, secando os olhos com um lenço bordado, seguida pelos olhos de Maria Augusta, começou a seguir Zefa.
Conforme ia caminhando, as pessoas, condoídas com tanta dor, tocavam em seus braços e cabelos.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:21 pm

Ela percebeu que muitas daquelas pessoas estiveram no baile.
Quando viu Eulália e sua família que acabava de chegar, voltou a chorar desesperadamente.
Correu para Eulália, abraçou-se a ela, dizendo em voz alta para que todos pudessem ouvir:
— Quando ela morreu, eu estava no baile!
Se eu soubesse, teria ficado ao lado dela.
Eu sabia que ela estava doente, mas não imaginei que estivesse tão mal.
Ninguém me contou...
Maria Augusta, assim que viu e ouviu aquilo, segurou o braço da negra que cuidava dela desde que nasceu e disse:
— Venha, Filó!
Vamos sair daqui senão vou vomitar ou bater nessa mentirosa e fingida!
Saíram dali, sob o olhar de Júlia, que disse:
— Se eu fosse ela, faria a mesma coisa.
Essa moça merece mesmo uma boa surra!
Maria Augusta e Filó foram para o jardim e sentaram-se em um dos bancos.
Maria Augusta, irritada, disse:
— Não entendo por que Maria Inês é assim.
Sempre teve tudo.
Desde pequena, mesmo quando fazia travessuras, meus pais nunca viam ou fingiam não ver, assim como está acontecendo, agora com papai.
Ele sabe que, quando Inácio saiu do hospital, dava tempo de chegar aqui, antes de ela sair para o baile.
Como ele pode acreditar que ela não sabia que mamãe havia morrido?
— Num fica anssim, Sinhazinha.
Ela sempri foi muitou ruim.
Todas noiti ieu gradeço a Deus pela vossa mãe não tê escolhidu ela pra eu cuida.
A coitada da Zefa, sofri muitu cum ela.
A sinhazinha trata a coitada como se fossi um bichu.
U pió é que a danada da nega, gosta muitu dela.
— Eu sei disso, Filó, só quem não sabe é Maria Inês.
Ela só pensa nela nunca, se preocupou com ninguém.
Enquanto isso, Maria Inês continuava abraçada a Eulália.
Por detrás de seus ombros, viu Luiz Cláudio chegando com sua família.
Soltou-se de Eulália e foi ao encontro deles, abraçou-se a senhora que, surpresa, abraçou-a também.
— Obrigada por terem vindo.
— Jamais deixaria de vir e dar o último adeus à sua mãe, Maria Inês.
Ela foi uma pessoa maravilhosa.
Vamos sentir muito sua falta.
Com suas ideias e festas sempre conseguiu arrecadar muito dinheiro para o orfanato.
Desde que resolveu fundar o orfanato, nunca deixou que faltasse coisa alguma para as crianças.
Como disse, ela foi maravilhosa.
— A senhora está certa.
Por isso é que estou tão desesperada, desamparada... — Falou isso, olhando para Luiz Cláudio.
Soltou-se da senhora e estendeu a mão para ele que a beijou delicadamente.
— Sinto muito, senhorita.
— Obrigada por ter vindo.
— Não poderia deixar de vir.
Tinha um compromisso às quatorze horas, mas algo aconteceu e imagino que deverá ser adiado.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:22 pm

— É uma pena, mas quem sabe esse seu compromisso não possa ser adiado para amanhã...
— Não, amanhã não posso.
Já tenho outro compromisso assumido.
Maria Inês, embora estivesse com muita raiva daquela situação, sorriu.
Luiz Cláudio, tocando a aba do chapéu, se afastou e foi conversar com alguns amigos que também estavam ali.
Assim que ele se afastou, Maria Inês olhou para o relógio que estava na parede e, acompanhada por Zefa, voltou para junto do pai.
Enquanto caminhava, fingindo secar os olhos, disse para Zefa.
— Por que tiveram de marcar o enterro para às quinze horas?
Não poderiam ter marcado para mais cedo?
— Num pudia, Sinhazinha.
Num si podi interrá antis das vinte e quatru hora.
— Não sei por que tem de ser assim!
A pessoa já morreu para que tudo isso?
Todos, assim que morressem, deviam ser enterrados na hora!
— As pissoa faiz isso pra pudê fica mais um poco di tempu pertu di quem gosta.
— Eu gosto de minha mãe, mas não gosto de estar aqui.
Preferia mais me encontrar com Luiz Cláudio.
Ela já morreu mesmo.
Do que adianta ficar aqui tendo que chorar?
— A Sinhazinha num percisa chora...
— Claro que preciso, Zefa!
Já pensou o que as pessoas vão falar se eu não chorar?
Vão achar que eu não estou sentindo a morte da minha mãe!
— Vossa irmã num tá churandu e a genti sabi que ela gosta muito da vossa mãe...
— Maria Augusta sempre foi assim, toda certinha!
Ela ainda vai fazer alguma coisa para que todas descubram como é na realidade.
— Ela não é ruim, não, Sinhazinha.
Ela é muitu boa cum tudu nóis.
— Eu não cuido de vocês?
— Cuida, Sinhazinha. Cuida...
Uma senhora se aproximou de Maria Inês e começou a falar de sua mãe.
Maria Inês estava odiando aquela conversa, mas teve de manter as aparências.
Um toque de tambor e vozes começou a ecoar.
Júlia se admirou:
— Quem está tocando e cantando em um enterro?
— São os negros.
Eles estão, à sua maneira, chorando a morte de sua sinhá de quem gostavam muito.
Ela sempre os tratou como seres humanos.
Nunca deixou que seu marido separasse as famílias.
Nunca permitiu que morassem em condições sub-humanas.
Procurou sempre, dar a eles as melhores condições de saúde e educação.
Fez com que seu marido construísse uma escola e, ela mesma, dava aula para as crianças e os adultos que quisessem.
Portanto, eles estão sofrendo com a morte da mulher que sempre os tratou como humanos.
Isso, nessa época, não era comum.
— Tocando e cantando?
— Sim, Júlia, faz parte da sua cultura.
Eles comemoram a tristeza e a felicidade através da música.
Neste momento, eles cantam e tocam para que sua sinhá seja acompanhada até Xangô.
— Quem é Xangô?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:22 pm

— Na religião deles, Xangô é o deus da justiça.
Todos, quando morrem, são levados até a presença de Xangô para que ele possa julgar e dizer para onde essa alma será levada.
— Esse Xangô existe?
— Na cultura e para eles, sim.
— Mas, existe na realidade?
— Existe não só para eles, mas para nós também.
— O que?
— Cada um dos deuses deles representa a natureza.
O que é mais importante para a sobrevivência do ser humano do que a natureza?
Eles adoram Oxalá que é o deus maior, o criador, que para nós, representaria o nosso Deus.
Para eles, a mata, os raios e tempestades, o vento, a justiça, o mar e os rios têm muito valor e são indispensáveis para a sobrevivência da Terra.
Para cada um desses elementos, existe um deus.
— Tudo isso que o senhor falou é indispensável mesmo, mas precisa ter um deus?
— Muito antes de conhecerem o cristianismo, esse povo reconhecia tudo isso, como essencial para suas vidas.
É a tradição de um povo e por isso, precisa e deve ser respeitadas.
Deus, o nosso Deus, não é um ser ciumento nem vingativo.
Ele criou um lugar onde pudesse colocar seus filhos, dando a eles todas as condições para que eles pudessem, com um corpo humano, viver.
Portanto, sabe o quanto é importante a Natureza e não vai se importar que alguns a respeitem e adorem.
Existem espíritos de muita luz que nascem no meio desse povo e que, também, por terem nascido ali, adoram seus deuses.
Como também, existem aqueles espíritos que se dizem cristãos e que praticam maldades e injustiças inconcebíveis.
Para a evolução do espírito não importa a religião que sigam.
Todos precisam percorrer o mesmo caminho.
Todos precisam superar suas dificuldades de aprendizado e todos são responsáveis por aquilo que fazem.
Todos estão sujeitos às Leis maiores, a do amor, a do perdão e a do livre-arbítrio e da acção e reacção.
Portanto, vamos ouvir e apreciar esses tambores e essas vozes.
Júlia continuou ouvindo as vozes e, sem perceber, seus pés começaram a acompanhar o som.
Luiz Cláudio, após conversar com os outros rapazes, resolveu sair daquele ambiente pesado e foi para fora.
Assim que ele saiu, Alzira disse:
— Venha Júlia, vamos ver para onde Luiz Cláudio vai.
Júlia, que estava envolvida pela música e ainda acompanhando com os pés, consentiu com a cabeça.
Quando Luiz Cláudio saiu pela porta, viu Maria Augusta que continuava sentada e conversando com Filó.
Aproximou-se e tocando a aba do chapéu com uma das mãos, disse:
— Meus sentimentos, senhorita.
— Obrigada, senhor.
— Deve estar sentindo muito a morte da sua mãe.
Desculpe-me, eu não devia ter dito isso, pois é evidente que sim.
— Não se preocupe.
Estou mesmo sentindo muito a morte de minha mãe, mas, ela estava sofrendo muito.
Por isso, acho que foi melhor para ela.
Uma lágrima começou a formar em seus olhos.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:22 pm

Ela, rapidamente, secou com um pequeno lenço bordado.
— Posso me sentar ao seu lado?
— Sim.
Maria Augusta se afastou para que ele se sentasse.
Filó, que estava sentada ao lado dela, se levantou.
— Sente-se, Filó.
Não precisa ficar em pé.
— Si a sinhazinha num si importá, to cum sede.
Possu i até a cuzinha pra bebé água?
— Pode, mas volte logo.
Filó saiu correndo em direcção a casa.
— Sente-se, senhor.
Luiz Cláudio se sentou:
— Conversamos poucas vezes, mas sempre admirei a senhorita.
— Obrigada, mas não sou muito de conversar.
— Sua irmã foi ao baile, por que a senhorita não foi?
— Estava no hospital com minha mãe.
— Sua irmã não foi ao hospital?
Ela ficou com vontade de falar o que Maria Inês havia feito, mas mentiu:
— Minha mãe estava bem e ela sabia o quanto Maria Inês queria ir ao baile, por isso pediu que ela ficasse bem bonita e fosse se divertir.
— Mesmo assim, acho que ela não deveria ter ido.
— Não julgue minha irmã, senhor.
Ela é muito jovem...
— Desculpe, eu não devia ter dito isso.
Maria Inês viu quando Luiz Cláudio saiu, pensou:
Vou conversar com ele para podermos marcar um novo encontro.
Acompanhada por Zefa, saiu da casa.
Assim que saiu, viu que Luiz Cláudio estava sentado ao lado de Maria Augusta e que conversavam.
Ficou furiosa:
— Olhe lá, Zefa!
A minha santa irmã querendo roubar meu namorado!
— Elis tão só cunversandu, sinhazinha...
— Como só conversando?
Por que ela está sozinha com ele?
Onde está Filó?
— Num sei, sinhazinha.
A Filó devi di tê ido fazê arguma cousa que vossa irmã pediu...
— Está vendo?
Ela pediu para Filó sair para poder ficar sozinha com ele!
Mentirosa! Fingida!
Com essa cara de santa, na primeira oportunidade, tenta roubar o meu namorado!
— A Sinhazinha tá namurandu cum eli?
— Ainda não, mas vou namorar e vou me casar com ele!
Vamos até lá!
— Ispera, sinhazinha.
Num podi chegá lá dessa maneira.
Tá muito nirvosa!
Ispera i pensa um poco...
— Esperar coisa nenhuma!
Vou agora mesmo!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:22 pm

— Num vai não, Sinhazinha!
Quando Maria Augusta viu que Maria Inês se aproximava, levantou-se:
— Desculpe-me, senhor, preciso entrar para fica ao lado do meu pai.
Ele também se levantou e fez uma reverência.
Enquanto ela se afastava, sorriu e pensou:
Vou conquistar você também...
Maria Inês passou por Maria Augusta e, tomada de raiva, fingiu não ver a irmã.
Aproximou-se de Luiz Cláudio:
— Precisei sair para tomar um pouco de ar.
Lá dentro está muito calor.
— Tem razão. Por isso foi que também saí.
Quer se sentar, senhorita?
Maria Inês, vibrando de felicidade, mas procurando não demonstrar, sentou-se.
Ele se sentou logo em seguida.
Assim que ela sentou, olhou para Zefa e falou:
— Zefa! Vá buscar suco para mim e para o senhor Luiz Cláudio!
— Já vô, sinhazinha.
Zefa saiu apressada e Maria Inês sorriu:
— Estava conversando com minha irmã?
— Sim. Ela é uma pessoa muito agradável.
— O senhor acha?
Ele começou a rir:
— Desculpe-me, não quis ser deselegante.
Ela, definitivamente, não é uma pessoa agradável.
É fria e distante.
— Desde criança, sempre foi assim.
Muito certinha.
Com o tempo me acostumei, mas, sobre o que conversavam?
— Nada importante apenas amenidades.
Na realidade, enquanto eu conversava com ela, pensava na senhorita.
— Em mim? Por quê?
— No que eu poderia fazer para que aquele nosso encontro, que teve de ser adiado, se realizasse.
Ela estremeceu:
— Encontrou uma solução?
— Encontrei, mas não sei se a senhorita vai concordar.
— Posso saber que solução foi essa?
— Pensei que, depois do cortejo e do enterro de sua mãe, eu voltarei e poderemos nos encontrar no lago.
— O senhor não foi convidado para um jantar na casa de Eulália?
— Sim e não posso faltar.
— Vai mesmo se casar com ela?
— Não! Só vou me casar com a senhorita!
Sabe que existe um acordo entre o meu pai e o da senhorita Eulália.
Por algum tempo, preciso manter as aparências, mas, definitivamente, não me casarei com ela.
— Como vai fazer isso?
— Nossos pais estão em negociações.
Quando terminarem, direi que não quero me casar.
Só estou preocupado com a reacção de Eulália.
Não quero que ela sofra.
— O senhor é muito nobre, mas não precisa se preocupar.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:23 pm

Eulália não quer esse casamento.
Ela está apaixonada pelo senhor José António.
— O filho do comerciante?
— Ele mesmo.
— O pai dela não vai permitir esse casamento.
— Esse é o temor dela, mas disse que não se casará com o senhor e que, se precisar, vai fugir para ficar com o homem que ama.
— Está vendo como tudo está ficando mais fácil para nós, senhorita?
Com a recusa dela, estarei livre para que possamos nos casar!
— Está falando sério?
— Claro que sim!
Só não a tomo em meus braços agora, porque as pessoas poderiam não entender.
Sempre fui apaixonado pela senhorita e, a cada dia que passa, esse amor fica mais forte.
— Não consigo acreditar no que está falando, senhor.
Nunca demonstrou interesse algum por mim.
— Sempre tive interesse.
A senhorita foi quem nunca olhou para mim, da maneira como está olhando agora.
Precisamos nos encontrar!
Sei que hoje, com a morte da sua mãe não é um bom dia, mas, se não se importar, eu gostaria muito.
— Bem, senhor, realmente não é um bom dia, mas de que vai adiantar eu ficar em casa chorando?
Minha mãe não vai voltar, não é?
Se eu soubesse que minhas lágrimas a trariam de volta, choraria sem parar, mas, como isso não vai acontecer poderemos nos encontrar, sim.
O que planeou?
— O cortejo e o enterro devem terminar lá pelas dezasseis horas.
Penso que lá pelas dezassete horas já deverá ter voltado ao lado de seu pai e de sua irmã.
Eu virei a cavalo e a esperarei no lago, como o combinado.
Não poderei ficar muito tempo.
Sabe que preciso manter as aparências.
Portanto, hoje, às vinte horas, terei de ir ao jantar na casa do Duque.
Porém, se concordar, ficarei muito feliz!
— Não sei, senhor, e se não der tempo?
— Dará. Sei que dará!
Preciso tomá-la em meus braços nem que seja por um minuto!
Promete que não vai me deixar esperando em vão.
Maria Inês estava atordoada:
— Não sei o que fazer.
O senhor sabe que não é certo que uma moça recatada, aceitar encontrar-se sozinha com um homem, ainda mais em um lugar isolado como o lago.
— Preciso fazer uma pergunta:
— Qual?
— A senhorita gosta de mim?
Ela pensou pouco e respondeu:
— Acredito que sim.
— Eu também gosto muito da senhorita e pretendo me casar.
Portanto, não existe nada de errado nesse encontro.
Se nos gostamos, por que continuamos com tanta cerimónia?
Por que não nos chamamos pelos nossos nomes próprios?
Gostaria que me chamasse de Luiz Cláudio e que eu pudesse chamá-la de Maria Inês.
A senhorita vê algum mal nisso?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:23 pm

— Não! Claro que não!
— Pois bem.
De hoje em diante, quando estivermos sozinhos, nós nos chamaremos pelos nossos nomes.
Está certo, Maria Inês?
— Está, Luiz Cláudio... — ela disse, sorrindo.
— Estarei esperando por você, Maria Inês.
Hoje, vamos começar um romance que nos fará muito felizes.
— Eu já estou muito feliz!
Havia várias carruagens.
Outras começaram a chegar.
Ele, tocando a aba do chapéu, disse:
— Estou há muito tempo aqui fora.
Está quase na hora de começar o cortejo até a igreja.
Acredito que está na hora de entrarmos.
Somente para manter as aparências, ficarei ao lado de Eulália.
Espero que não se incomode.
— Tem razão.
Você disse coisas tão lindas que cheguei a esquecer onde estou.
Entre primeiro que irei em seguida.
Ele voltou para a sala e se dirigiu para onde estava Eulália e ficou ao seu lado.
Maria Inês fez com a mão um sinal para Zefa que estava distante.
Zefa se aproximou.
Maria Inês falou agitada:
— Ele me ama, Zefa!
Ele me ama!
— Si acarma, Sinhazinha.
Si acarma...
— Como me acalmar?
Não entendeu o que eu disse?
Ele me ama e quer se encontrar comigo!
— Tá bão, mas agora tá quase na hora do interru saí.
A sinhazinha percisa intrá i ficá do ladu da vossa mãe.
Percisa dá u urtimu adeus...
— Tomara que esse enterro termine logo!
Não suporto mais ficar aqui com toda essa gente querendo que eu chore, que eu sofra!
— A Sinhazinha num tá sufrendu?
— Claro que estou sofrendo, mas do que adianta todo esse tempo aqui?
Não seria melhor que ela fosse enterrada logo?
— Vamu intrá, Sinhazinha...
Entraram. Logo depois o caixão foi fechado.
O pai de Maria Inês permaneceu ao lado, chorando muito.
Maria Augusta ficou ao lado dele, chorando baixinho.
Maria Inês chorava e soluçava sem parar.
As pessoas a abraçavam condoídas pelo sofrimento dela.
Mas por dentro, ela pensava:
Tomara que termine logo!
Quanto mais cedo, melhor, pois poderei ficar mais tempo ao lado de Luiz Cláudio.
Ele, ao lado de Eulália, também pensava:
Como ela pode fingir tanto?
— Também acho, ela não tem um pingo de sentimento. — Júlia falou balançando a cabeça de um lado para outro.
Alzira olhou para Ciro, ambos sorriram.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:23 pm

O cortejo chegou à igreja.
Após o sermão do padre o corpo foi enterrado junto ao altar.
Maria Inês ficou aliviada quando terminou e todos começaram a se despedir.
Quando Luiz Cláudio se aproximou ao lado de Eulália ao apertar sua mão, ela sorriu.
Apesar de tudo, estava feliz.
Ao ver aquilo, Júlia que a tudo assistiu em silêncio, não se conteve:
— Ela é insuportável!
Novamente, Alzira e Ciro sorriram.
Júlia olhou para eles e perguntou:
— Posso fazer mais uma pergunta?
— Claro que pode.
Estamos aqui para que você possa aprender.
— Ela foi enterrada dentro da igreja e perto do altar?
— Sim, Júlia.
— Por quê? Ela é santa?
— Não. Naquele tempo era costume.
As pessoas que tinham posses ou títulos eram enterradas dessa maneira.
Quanto mais dinheiro e quanto maior fosse o título, eram enterradas mais perto do altar.
— E os pobres, onde eram enterrados?
— Longe da cidade.
Os negros mais longe ainda.
— Existia toda essa desigualdade?
— A desigualdade sempre existiu e sempre existirá.
— Não é justo nem certo!
— Tudo está sempre certo, Júlia.
— A senhora está querendo dizer que não se deve lutar contra a desigualdade?
— Não estou dizendo isso, Júlia.
Só estou dizendo que tudo está sempre certo.
Que sempre existe um motivo para o que acontece.
Como também, deve-se, sim, lutar para que as pessoas se amem e se respeitem.
Cada um está no lugar em que deve estar.
Cada um vive a vida que escolheu.
— Lá vem a senhora com essa história de escolha novamente.
Por mais que fale isso, jamais vou me conformar.
Jamais vou acreditar que alguém possa escolher viver na pobreza!
— Tudo bem, mas agora está na hora de voltar ao seu corpo, de acordar.
— Não, eu não quero!
Quero ver o que vai acontecer com Maria Inês!
Quero saber se ela vai se encontrar e se casar com Luiz Cláudio.
— Você vai saber, não se preocupe, mas agora precisa voltar.
Se não voltar, já expliquei o que acontece com seu corpo físico.
— Das energias?
— Isso mesmo.
Do mesmo modo que das outras vezes, Júlia acordou com um pulo.
Virou-se na cama e voltou a dormir.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 8:23 pm

A entrega
Naquela manhã, Júlia acordou animada.
Não se lembrou do sonho.
Levantou-se decidida a encontrar um emprego.
Pegou seu currículo e foi a algumas empresas e a uma agência de emprego.
Entregou os currículos e voltou para casa.
Quando a porta do elevador se abriu para que ela entrasse, encontrou seu Osvaldo que saía.
— Bom-dia, Júlia!
Como você está?
— Estou bem, obrigada.
— Meu filho ficou impressionado e preocupado com você.
— Seu filho?
— Sim. Ele mora no Rio e ajudou Sueli a levar você para o hospital.
— Eu vi um rapaz, mas não pensei que fosse seu filho.
Ele está aqui?
— Não. Foi embora hoje pela manhã.
— Por favor, agradeça a ele por mim e peça desculpas pelo transtorno.
— Ele não ligou, não.
Só ficou preocupado.
Ela sorriu.
Ele saiu do elevador e ela entrou.
Quando entrou no apartamento, viu que o quarto de Sueli estava fechado o que significava que ela estava dormindo.
Foi até a cozinha, pegou um pão, passou manteiga.
Na geladeira encheu um copo com leite e foi para seu quarto.
Não queria acordar a amiga.
Depois de comer e de beber o leite, para não fazer barulho colocou o copo sobre a pia.
Lavaria mais tarde.
Quando estava voltando para o quarto, olhou para a estante e viu os livros de Sueli.
Como não tinha o que fazer, pegou um deles e levou para o quarto.
Deitou-se e começou a ler.
Enquanto lia, mais se entusiasmava com a história.
Passou o resto do dia lendo.
Quando Sueli acordou, se admirou e ficou feliz ao ver Júlia lendo.
— Que livro está lendo, Júlia?
Júlia mostrou a capa.
— Esse livro é lindo!
Você escolheu bem.
Sei que vai gostar dessa história.
— Já estou gostando, Sueli.
Sueli sorriu e se preparou para ir trabalhar.
Saiu e Júlia continuou lendo e só parou para preparar o jantar.
Comeu rapidamente e continuou lendo.
Quando Sueli voltou do trabalho ao entrar em casa, viu que a luz do quarto de Júlia estava acesa.
Foi até lá:
— Ainda está lendo, Júlia?
— Estou, Sueli.
Realmente, este livro é muito bom.
— Eu não disse?
— É uma pena que se trata de ficção.
— Ficção, por que, Júlia?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:10 pm

— A personagem tem dois amigos espirituais que ficam ao lado dela, o tempo todo para ajudá-la a passar nos momentos difíceis.
Seria muito bom se isso fosse verdade.
Sueli riu:
— Todos nós temos amigos espirituais, Júlia!
— Acredita, mesmo nisso?
— Claro que sim.
Acredito que nossos amigos e parentes que partiram antes de nós, se puderem, nos ajudam.
— Se puderem?
O que quer dizer com isso?
— Nem sempre o espírito, após partir, está em condições de nos ajudar.
Eles precisam primeiro, entender o que aconteceu e tentarem se ajudar.
Muitos conseguem rapidamente, outros levam mais tempo.
Acredito até, que muitos de nossos amigos nem renasceram e nós não nos lembramos deles, mas mesmo assim nos ajudam.
— Amigos que não conhecemos?
— Sim. Quando eles nos ajudam a escolher a vida que queremos viver, quando no corpo físico, mesmo não renascendo, ficam ao nosso lado durante todo o tempo em que estamos vivendo.
Fazem isso para que tudo dê certo.
Para que tudo saia do modo planeado.
— Não consigo acreditar nessa história de que eu tenha escolhido essa vida, miserável, que vivo.
Jamais teria escolhido!
— Está bem, Júlia.
Agora vou me deitar.
O dia hoje foi muito cansativo.
Acho que deve dormir também.
— Vou daqui a pouco.
Só vou terminar mais um capítulo.
— Boa-noite, Júlia.
— Boa-noite, Sueli.
Sueli foi para seu quarto e Júlia continuou lendo.
Leu por mais um tempo, até sentir que seus olhos estavam se fechando.
Pensou:
Estou na metade do livro.
Não queria parar, mas estou com sono.
Vou deixar para amanhã.
Deitou-se e logo adormeceu.
Estava novamente no jardim da casa de Maria Inês e ao seu lado, Alzira e Ciro.
— Hoje, demorou para dormir, Júlia...
— É verdade. Eu estava lendo um livro.
— Sei disso.
Eu estava lendo com você.
— O que a senhora está falando?
— Que estava lendo com você.
Júlia começou a rir:
— Está brincando!
— Não estou brincando, Júlia.
Só por que não estamos no corpo físico acha que deixamos de gostar e de aproveitar as coisas boas da Terra?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:10 pm

— Não sei. Nunca pensei nisso...
— Quando o espírito retorna para o plano espiritual, ele traz consigo lembranças dos bons e dos maus momentos que teve quando reencarnado.
Já imaginou como se sentiria aquele artista que se dedicou a qualquer tipo de arte, como cantar, actuar e tocar se não pudesse mais fazer essas coisas de que tanto gostou?
O mesmo acontece com aqueles que gostam de ler.
Como ficariam se não pudessem mais fazer isso?
Eu, particularmente, sempre gostei de ler.
Ciro sempre gostou de actuar, por isso, fica ao lado dos atores ajudando no que for possível.
Jamais imaginei que isso poderia acontecer.
Ambos começaram a rir.
Ciro continuou:
— Existem muitas coisas que nem você e nem outros espíritos que estão no corpo físico imaginam.
Agora olhe quem está saindo da casa!
Júlia olhou e viu Maria Inês que, acompanhada por Zefa, saía da casa.
Estava apressada:
— Vamos, Zefa! Ande logo!
Estamos atrasadas!
Pensei que Maria Augusta e papai não fossem para seus quartos!
— Tamos trasada, prá quê? Sinhazinha?
— Isso não interessa para você, mas, mesmo assim, vou falar.
Estou indo me encontrar com Luiz Cláudio!
— A Sinhazinha vai si incuntrá cum eli, suzinha?
— Vou! O que tem demais?
— A sinhazinha sabi que num podi si encuntrá cum um homi sozinha!
É pirigoso!
— Perigoso, por quê?
— Us home gosta di inganá as moça...
Maria Inês que andava rapidamente, segurando o vestido para poder andar melhor, começou a rir:
— Zefa! Você me conhece desde que nasci, acha que alguém possa me enganar?
— Num sei não, Sinhazinha.
Inda achu pirigoso.
Posu ficá junto cum a Sinhazinha?
— Claro que não, Zefa!
Como poderemos conversar sabendo que está nos olhando e ouvindo?
Assim que ficarmos longe da casa e que ninguém possa nos ver, você vai parar de andar ao meu lado e esperar até que eu volte.
Não se preocupe!
Nada vai me acontecer.
Além do mais, Luiz Cláudio me ama e disse que vai se casar comigo!
— Ele num vai si casa cum a Sinhazinha Eulália?
— Claro que não!
Está apenas fazendo a vontade do pai, mas, antes de se casar vai dizer que não quer mais.
Ele vai se casar comigo!
Eu vou ser Baronesa!
— Toma cuidadu, sinhazinha!
— Pare de falar, Zefa!
Pronto, chegamos!
Da casa ninguém mais vai poder nos ver.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:10 pm

Vou até o lago me encontrar com ele!
Fique aqui e não se atreva a ir nos olhar!
— Eu num vô, Sinhazinha, mais toma cuidadu...
Maria Inês, ainda segurando o vestido, continuou correndo em direcção ao lago.
Logo depois, viu Luiz Cláudio que andava impaciente de um lado para outro.
Quando ela o avistou, correu mais ainda.
Assim que Luiz Cláudio a viu, também correu.
Ao se aproximarem, ele sem que ela esperasse abraçou-a e beijou-a.
A princípio, ela quis evitar, mas não conseguiu e retribuiu o beijo.
Após se afastarem, ele, olhando em seus olhos e com a voz apaixonada, disse:
— Pensei que não viesse.
Estava desesperado.
— Por quê?
— Estou apaixonado e sinto que não poderei mais viver sem a sua companhia!
— Está falando a verdade ?
— Claro que estou!
Se não estivesse, acha que estaria aqui?
Venha! Preciso de outro beijo.
Antes mesmo que ela tivesse tempo para pensar, ele voltou a tomá-la nos braços e beijou-a novamente.
Ela, depois do beijo, se afastou:
— Espere, Luiz Cláudio!
Não devemos nem podemos fazer isso...
— Por que não?
Eu amo você, Maria Inês!
Sei que me ama também!
Pretendo me casar com você!
A não ser que esteja enganado e que você não me ama.
Será que me enganei?
— Não! Eu amo você!
Ele se afastou:
— Não, você não me ama, se me amasse, não duvidaria das minhas e intenções.
Por isso, vou embora...
Ela, desesperada por ver que ele estava indo embora, gritou:
— Eu não duvido!
Sei que me ama e estou feliz com isso!
— Então prove...
— Como?
— Venha aqui.
Voltou a abraçá-la e a beijá-la, apaixonadamente.
Emocionada, Maria Inês retribuiu o abraço e o beijo.
Lentamente, ele fez com que ela se deitasse sobre a grama.
Continuou com carinhos o que fez com que ela fosse se entregando sem resistir.
Logo mais, se entregou totalmente.
Zefa, que não obedeceu Maria Inês, de longe, viu tudo o que aconteceu.
Chorando, disse;
— Meu Deus, minha Sinhazinha tá pirdida...
Júlia também se admirou:
— Jamais pensei que ela se entregaria assim, tão rápido!
Pensei que fosse mais madura!
— As situações sempre se repetem, Júlia.
Várias vezes ele a envolveu e ela nunca conseguiu resistir.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:11 pm

— Quantos anos ela tem?
— Dezasseis anos.
— A senhora disse que ela só tem dezasseis anos?
Como poderia resistir?
Ele é o culpado!
— Como pode ver, você tem razão, Júlia.
Ele é o culpado e responsável, perante o plano espiritual.
Como eu disse, as situações se repetem para que o espírito possa se libertar de todas as amarras e entenda que é livre e que, portanto, não pode ser escravizado de maneira alguma.
Outra vez, ela não resistiu, mas terá outras oportunidades.
Em outra encarnação, terá de passar pelas mesmas provas.
Tomara que, desta vez, resista ao que está por vir.
Ficaremos ao seu lado para que tenha forças e que se liberte para sempre.
— Tomara que consiga mesmo!
Não gosto dela!
Acho que ela é pedante, egoísta e que não tem um pingo de sentimento, mas, acho que isso não deveria ter acontecido.
É só uma criança!
Ainda mais se levarmos em conta essa época em que está vivendo...
— Ela ainda vai ter a chance de vencer.
Vai depender somente do seu livre-arbítrio, das suas escolhas.
— É só uma criança!
Como pretende que ela faça escolhas?
— Embora esteja usando um corpo de criança, é um espírito velho.
Ela tem condições de escolher, Júlia.
Mesmo sendo só uma criança, como você diz, principalmente, nessa época em que estamos vendo, ela sabia o que era certo e errado.
Isso, todos aprendem bem cedo.
— Está apaixonada por ele...
— Não, Júlia.
Ela se apaixonou pela posição dele.
Ela não aceita que ele se case com Eulália.
Essa luta entre os três se arrasta por várias encarnações e essas mesmas situações se repetem sempre.
— Nunca vai terminar?
— Esperamos que sim, mas isso só acontecerá quando cada um deles entender que seu espírito é livre e que não pode ser aprisionado por nada e por ninguém.
Maria Inês e Luiz Cláudio continuavam abraçados por mais algum tempo.
Depois, ele se levantou:
— Agora preciso ir.
— Você vai ao jantar?
— Como combinamos, por mais algum tempo, preciso manter as aparências, mas não se preocupe, Eulália não representa nada para mim.
Amanhã, à mesma hora, estarei aqui e poderemos nos amar novamente.
Maria Inês também se levantou e feliz, disse:
— Vou esperar ansiosa.
Ele, depois de abraçá-la e de beijá-la novamente, se afastou.
Com o coração acelerado de felicidade, ela ficou olhando até que ele desaparecesse entre as árvores.
Depois, voltou para junto de Zefa:
— Vamos embora, Zefa!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:11 pm

— U qui cunteceu, Sinhazinha?
— Nada aconteceu, Zefa, somente que sou a mulher mais feliz deste mundo!
Vou me casar, Zefa!
Vou ser baronesa!
Agora vamos para casa!
— Tá bão, Sinhazinha... tá bão...
Maria Inês não percebeu que Zefa estava triste e preocupada.
Quando entraram na casa, encontraram Maria Augusta que estava na sala tocando uma música triste, no piano.
Assim que elas entraram, perguntou:
— Onde você estava, Maria Inês?
Maria Inês que não esperava encontrar a irmã, por um segundo ficou sem saber o que responder, mas logo se recompôs:
— Eu estava muito triste e resolvi ir até o lago com Zefa.
Diante daquela beleza e daquela água límpida me senti muito bem.
E você está tocando piano no dia em que nossa mãe foi enterrada?
— Estou tocando em homenagem a ela.
Esta música era a que mais gostava.
— Vou para meu quarto.
— Vá, Maria Inês.
Maria Inês saiu e começou a subir a escada.
Maria Augusta olhou para ela por alguns segundos e voltou a tocar piano.
Quando entrou no quarto, Maria Inês se jogou sobre a cama:
— Estou tão feliz!
Ele me ama realmente!
Zefa ficou olhando e balançando a cabeça, disse:
— Vô preparar u vossu banhu, Sinhazinha.
— Não quero tomar banho, Zefa!
— Num qué? Pru quê?
— O cheiro dele ainda está em mim!
Não quero que desapareça!
Zefa voltou a balançar a cabeça e pensou:
A Sinhazinha tá loca...
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:11 pm

A espera
Júlia balançando a cabeça de um lado para outro acordou falando:
— Ela é uma criança!
Quando abriu os olhos se assustou por ter ouvido sua própria voz, pensou:
De qual criança estou falando?
Olhou para o relógio:
Duas e meia da manhã?
Por que fui acordar a esta hora?
Continuou deitada, tentando adormecer novamente.
Depois de rolar de um lado para o outro sem conseguir dormir, resolveu se levantar e tomar um copo com leite.
Foi até a cozinha.
Quando abriu a geladeira, viu que havia um bolo que Sueli havia preparado.
Pegou um pedaço, colocou leite em um copo e sentou-se em uma cadeira que estava junto à mesa e começou a comer.
Enquanto tomava o leite e comia o bolo, pensou:
Pela primeira vez em minha vida, acordei com a minha própria voz.
O que será que eu estava sonhando?
Por que não me lembro?
Quando terminou de comer, colocou o copo sobre a pia e voltou para o quarto.
Ajeitou o travesseiro e voltou a se deitar.
Minutos depois, estava na casa de Maria Inês no momento exacto em que uma carruagem parava diante da porta de entrada.
Dela, desceu Eulália.
Uma das escravas da casa abriu a porta.
Eulália entrou rapidamente, perguntando:
— Maria Inês está em casa?
— Tá lá nu quartu, Sinhazinha.
— Preciso falar com ela! Vou até lá!
— Ispera, Sinhazinha.
Perciso avisá ela.
— Vá logo! Estou com pressa!
A negra subiu a escada correndo.
Quando chegou ao quarto de Maria Inês, bateu e entrou afobada.
Maria Inês que estava sentada diante do espelho, enquanto Zefa penteava seus cabelos, perguntou:
— O que aconteceu para você estar assim?
— A Sinhazinha Eulália tá aí i qué falá cum a Sinhazinha!
Maria Inês se levantou e perguntou:
— Eulália, aqui?
O que ela quer?
— Num sei, não, Sinhazinha.
Só sei que tá muitu nirvosa!
— Nervosa? O que será que aconteceu?
Peça que venha até aqui.
A escrava desceu e, logo depois, Eulália, chorando, entrava no quarto de Maria Inês.
— O que aconteceu, Eulália?
Por que está assim?
Eulália chorava tanto que não conseguia falar.
Maria Inês também ficou nervosa:
— Pare de chorar, Eulália!
Conte o que está acontecendo!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:11 pm

Eulália, que não conseguia parar de chorar, entregou um envelope para Maria Inês que, imediatamente, abriu e leu:
Prezada senhorita Eulália
É com o coração despedaçado que escrevo estas linhas.
Estou embarcando, amanhã, em um vapor para a França.
Meu pai ficou sabendo que estamos nos encontrando.
Ficou nervoso, pois, embora tenha ganhado muito dinheiro como comerciante não conseguiu, ainda um título de nobreza que é o seu maior desejo.
Disse-me que se eu continuar insistindo em continuar com a senhorita, seu pai não permitirá que ele consiga o que deseja.
Portanto, por esse motivo, exigiu que eu me afastasse da senhorita.
Disse, também que se eu não acatar o seu desejo, me deserdará, coisa que não consigo imaginar.
Aceitei ir para França e ficar por lá por algum tempo.
Espero que entenda minha posição e que me perdoe.
Sou fraco.
Pensar em ser pobre, me apavora.
Novamente pedindo seu perdão, me despeço.
José António
Maria Inês, com a carta na mão, olhou para Eulália e perguntou:
— O que significa isto, Eulália?
— O que você viu, Maria Inês!
Ele vai embora!
Vai me abandonar!
Ficou com medo de ser deserdado!
De ficar pobre!
Eulália, chorando, se abraçou em Maria Inês e continuou:
— Ontem à tarde, essa carta chegou através de um mensageiro.
Fiquei arrasada e chorei por horas.
Só parei quando me lembrei e que Luiz Cláudio e sua família viriam para o jantar.
— Eles foram? — Maria Inês, curiosa, perguntou:
— Sim e, no final, foi bom.
— Por quê?
— Luiz Cláudio é maravilhoso!
Percebeu que eu não estava bem e fez com que eu lhe contasse o que havia acontecido.
Contei e, quando terminou, ele, segurando minha mão, disse:
— Não fique assim, senhorita.
É uma moça linda e inteligente.
Ele não a merecia, mas, quando nos casarmos, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que seja feliz.
Maria Inês, rindo por dentro, pois sabia que só se tratava de manter as aparências, perguntou:
— Ele disse isso?
— Disse e confesso que aquilo fez com que eu o enxergasse de outra maneira.
Ele é muito carinhoso, Maria Inês.
Após o jantar, quando eles foram embora, fiquei pensando que, talvez, não seja tão ruim eu me casar com ele.
— Está pensando nisso?
— Estou. Já que me decepcionei tanto com José António, acredito que esse caminho não será tão ruim assim.
Maria Inês disse e, desta vez, com sinceridade.
— Não confie, Eulália.
Os homens mentem.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:12 pm

Ficaram conversando por mais algum tempo.
Maria Inês olhava para o relógio e começou a ficar preocupada, pois estava chegando a hora que havia marcado para se encontrar com Luiz Cláudio e Eulália não ia embora.
Demonstrando pesar, disse:
— Desculpe-me, Eulália.
Minha professora vai chegar para a aula de pintura.
Eulália que estava sentada sobre a cama e que já não chorava mais, se levantou, dizendo:
— Não se preocupe, Maria Inês.
Eu também preciso ir embora.
Obrigada por me ouvir.
Só mesmo você para ter tanta paciência comigo.
Quando me casar, quero que seja minha dama de honra.
— Serei, Eulália!
Claro que serei!
Despediram-se e Maria Inês acompanhou Eulália até a carruagem, onde uma negra a esperava.
Após a carruagem desaparecer, Maria Inês, acompanhada por Zefa, voltou para seu quarto.
Assim que entrou no quarto, começou a gritar:
— Vai se casar? Vai se casar?
Coitada, ele vai se casar comigo, Zefa!
Ele me ama e eu já provei a ele o quanto o amo!
Ele vai se casar comigo!
Só comigo! Eu vou ser baronesa!
Júlia que a tudo acompanhava, olhou para Alzira e perguntou:
— Ele vai se casar com ela?
— Quer saber o fim do filme, Júlia?
Vamos acompanhar e logo você vai saber. — Alzira respondeu, rindo.
Júlia também riu e voltou sua atenção para Maria Inês que, olhando para Zefa, disse:
— Preciso trocar de vestido, Zefa!
Quero ficar bem bonita para me encontrar com ele!
— Tá bão, sinhazinha...
Depois de se arrumar meticulosamente, Maria Inês saiu feliz, de casa e foi para o lago.
Assim que se aproximou, notou que Luiz Cláudio ainda não estava ali.
— Estranho ele ainda não ter chegado.
O que será que fez com que ele se atrasasse, Zefa?
— Num sei, sinhazinha.
Ele devi di tá chegandu...
Maria Inês continuou caminhando e, quando chegou à margem, Zefa estendeu um tapete que era usado para isso.
Maria Inês se sentou e ficou olhando para a direcção em que ele deveria chegar.
O tempo foi passando e ele não chegou.
Preocupada, ela, falou:
— Deve ter acontecido algo muito grave, mesmo, para ele não ter vindo, Zefa.
Será que sofreu algum acidente?
— Num sei, Sinhazinha.
Vamu pra casa.
Ele num vem mais...
Embora estivesse preocupada, Maria Inês resolveu acatar o que Zefa falou e voltou para casa.
Subiu a escada cabisbaixa e devagar, coisa que ela não costumava fazer.
Em seu quarto, deitou-se e ficou olhando para o alto, tentando entender o que havia acontecido.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:12 pm

Depois de algum tempo, levantou-se:
— Quando ele vier amanhã, vai me contar o que aconteceu!
Vou estar lá todos os dias, até que ele venha.
Ou melhor, Zefa, já que o Inácio é o seu marido, você pode conversar com ele e pedir que tente descobrir se Luiz Cláudio sofreu algum acidente.
Precisa dizer a ele para não comentar com ninguém.
Vá, negra! Vá, agora mesmo!
— U Inácio a essa hora, num tá aqui im casa.
Eli, tudu dia, vai buscar u vosso pai, Sinhazinha...
— É verdade. Eu havia me esquecido disso, mas peça para ele, que amanhã, logo cedo, encontre uma maneira de sair e investigar!
— Ta bão, sinhazinha.
Vô falá cum eli.
Maria Inês passou o resto do dia tentando pintar, mas não conseguiu.
Seu pensamento estava nos momentos que passou ao lado de Luiz Cláudio e no por quê de ele não ter vindo ao encontro.
Naquela noite, teve dificuldade para dormir.
Estava ansiosa e olhando a toda hora para o relógio.
O dia precisa clarear.
Tenho de saber se Luiz Cláudio está bem.
O que será que aconteceu?
Pela manhã, quando Zefa entrou no quarto para acordar Maria Inês, como fazia todos os dias, ficou surpresa por ver que ela já estava acordada:
— Já tá curdada, Sinhazinha?
— Não consegui dormir!
Inácio já saiu para descobrir se Luiz Cláudio está bem?
— Ele num podi i, sinhazinha.
— Não foi, por quê?
— Vossu pai num saiu hoji e mandô u Inácio cuidá das frô dele.
Disse que tão murcha.
U Inaciu só vai pode ir di tardi.
— Cuidar das flores ?
— A Sinhazinha sabe u quantu vosso pai gosta daz frô deli e que só dexa u Ináciu cuida, num sabi?
Maria Inês ficou furiosa:
— Não pode ser! Não pode ser!
Vou ficar maluca se não souber o que aconteceu com ele e por que não veio ao encontro!
— A Sinhazinha num dissi que ia isperá eli, hoji, lá nu lagu?
— Eu disse e vou!
Sei que ele vai vir!
— Faiz issu, Sinhazinha.
Amanhã, u Inaciu vai discubri u qui cunteceu.
— É isso mesmo que vou fazer!
Na hora marcada, iremos ao lago, Zefa!
Zefa sorriu ao ver a felicidade voltar no rosto de sua sinhazinha.
A tarde, através da janela, Maria Inês viu quando Inácio subiu na carruagem.
— Ainda bem!
Não estou aguentando mais essa falta de notícia!
Tenho certeza de que ele sofreu um acidente!
O Inácio vai me confirmar!
— Vamu isperá pra vê, Sinhazinha.
Maria Inês, nervosa, saiu do quarto e ficou andando, no jardim, de um lado para outro.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:12 pm

Entrou e saiu da casa várias vezes.
Quase duas horas depois, viu que a carruagem se aproximava.
Assim que parou e que Inácio desceu, ela, tremendo, perguntou:
— Então, Inácio, conseguiu descobrir o que aconteceu com ele?
— Num cunteceu nada cum eli, não, Sinhazinha.
— Como não?
Por que ele não veio ao meu encontro?
— Num sei, Sinhazinha.
Eu tava cunversandu cun as pessoa pra sabe dele, quando o Joca, meu amigo disse qui ele tava na cunfetaria.
Eu fui até lá e eli tava memo.
Tava tumando chá cum a Sinhazinha Eulália.
— O que está falando, Inácio?
Ele estava com Eulália?
— Tava, Sinhazinha.
Dispois, elis saíram i foram si senta lá na praça.
Eli, a Sinhazinha Eulália e a Zefinha.
Maria Inês ficou possessa!
— Eulália me enganou!
Ela disse que não gostava dele, mas estava mentindo!
Mentirosa! Mentirosa!
Depois que foi abandonada, resolveu ficar com ele!
Eu sei que ele está fazendo isso somente para manter as aparências, mas ela está tentando envolvê-lo!
Mentirosa!
Vou falar com meu pai e pedir permissão para ir até a casa dela!
Ela vai ter de se explicar!
— Num faiz isso, sinhazinha.
Fica carma e pensa direitu.
— Como ficar calma, Zefa?
Você não ouviu o que o Inácio disse?
Aquela mentirosa está querendo tirar o Luiz Cláudio de mim!
Não vou permitir!
— Será que é ela qui tá tirando eli ou é eli qui qué ficá cum ela?
— Não é ele, Zefa!
É ela quem quer ficar com ele, mas não vou permitir! Não vou!
Imediatamente, entrou em casa e foi para o escritório onde sabia que o pai estava.
Embora estivesse muito nervosa, respirou fundo e falou:
— Papai, será que o Inácio poderia me levar na casa da Eulália?
— O pai que lia, levantou os olhos.
— Por que quer ir lá, minha filha?
— Estou muito triste e gostaria de ficar algumas horas com ela.
— Por que não conversa com sua irmã?
— Maria Augusta também está triste.
— Tem razão.
Sua irmã fica o tempo todo no piano.
Está bem, pode ir, mas não demore muito.
Ela, beijando o pai, disse:
— Não vou demorar!
Saiu correndo e, enquanto entrava na carruagem, disse:
— Zefa, vamos até a casa da Eulália!
Aquela mentirosa vai ter de me contar o que está acontecendo!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:12 pm

A contragosto, Zefa entrou na carruagem e Inácio fez com que os cavalos andassem.
Quando chegaram à casa de Eulália, Maria Inês desceu da carruagem e, rapidamente, foi até a porta.
Uma escrava abriu:
— Eulália está em casa?
— Não, Sinhazinha.
Ela saiu cum u Sinhozinho Luiz Craudio.
— Saiu com ele?
— Saiu. Eli levo Sinhazinha e a Sinhá prá i toma chá na casa deli.
— Ela foi com a mãe?
— Foi, Sinhazinha.
Elis vão si casá.
Maria Inês ficou com vontade de matar a escrava, mas se conteve:
— Está bem, quando ela voltar diga que estive aqui e que preciso conversar com ela.
— Tá bão, Sinhazinha. Eu falo.
Maria Inês, tentando parecer calma, voltou para a carruagem.
Assim que entrou, disse:
— Ele só está mantendo as aparências, sei que me ama, Zefa!
Zefa olhou para ela, mas ficou calada.
Quem não conseguiu ficar calada, foi Júlia:
— Maria Inês não está entendendo o que está acontecendo?
Não está vendo que ele não quer mais ficar com ela?
— Está fazendo o que a maioria das pessoas fazem, quando são abandonadas, Júlia.
Maria Inês está entendendo, só que se recusa a aceitar o facto.
— Sabe que estou ficando com pena dela?
— Ela é, sim, digna de pena, mas foi ela mesma quem escolheu o seu caminho.
— Lá vem a senhora com essa história de escolha.
Alzira sorriu.
— Faço isso porque é importante.
Agora, está na hora de você voltar.
— Sei, as energias, não é?
— Isso mesmo.
Sabe que não precisa se preocupar porque vai conhecer toda a história.
Júlia, sabendo que não adiantava argumentar, sorriu e imediatamente abriu os olhos e olhou para o relógio.
Nossa já está tarde!
Dormi muito!
Sem se lembrar do sonho, levantou-se e, após tomar café, voltou ao quarto, recostou-se e voltou a ler o livro.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:12 pm

O desfecho
Mais de um mês se passou.
Júlia continuou procurando emprego.
O casamento de Sueli estava se aproximando e ela sabia que, depois dele, teria de se mudar.
Embora continuasse sonhando, não lembrava e se esqueceu dos sonhos que tivera.
Depois de passar boa parte do dia ajudando Sueli com os preparativos do casamento, naquela noite, cansada, se deitou.
Logo depois, estava novamente na casa de Maria Inês e ao lado de Alzira e de Ciro.
Assim que abriu os olhos, disse:
— Faz muito tempo que eu não voltava aqui...
— Tem vindo todas as noites, Júlia.
— Eu não lembro, nem agora estando aqui.
— Por que o que aconteceu não teve muita importância.
— O que aconteceu?
— Maria Inês não encontrou uma maneira para conversar com Eulália.
Seu pai não deu permissão para que ela saísse.
Todos os dias, vai esperar por Luiz Cláudio no lago.
— Ele não veio?
— Não. Também, não importa o que aconteceu.
O que importa é o que vai acontecer agora.
Vamos até o quarto de Maria Inês.
Quando chegaram, Maria Inês estava sendo ajudada por Zefa, que preocupada disse:
— Si acarma, Sinhazinha.
Esse enjoo vai passar logo.
— Estou muito mal, Zefa!
Acho que vou morrer!
— Num vai, não, sinhazinha.
Logo vai ficá bem.
A Sinhazinha num vai murrê pur causa du enjoo, mas acho que pode murrê por outra cousa.
— Do que está falando, Zefa?
— Achu qui a Sinhazibnha tá esperandu criança!
— Está maluca, negra!
Como posso estar esperando uma criança?
De onde tirou essa ideia?
— Já tivi quatro fio, Sinhazinha.
Sei bem cumu é...
— Como isso aconteceu?
— A nega viu quandu a Sinhazinha si deitô cum u Sinhozinho Luiz Cruadio.
— Você estava me espionando, negra?
— Discurpa, Sinhazinha, mas eu tava cum medo que aquilu cuntecesse i cunteceu.
Agora, tai u resutadu...
— Não pode ser, Zefa!
Foi só uma vez!
— Só percisa di uma veiz, Sinhazinha.
A nega viu que u corpu da Sinhazinha num tá bão.
Viu qui u sangui num veiu.
Maria Inês, chorando, desesperada, perguntou:
— Tem razão, mas pensei que fosse somente um atraso.
O que vou fazer, Zefa?
Júlia olhou para Alzira:
— É verdade?
Ela está mesmo esperando uma criança?
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Ave sem Ninho

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:13 pm

— Continue vendo, Júlia.
Maria Inês parou de chorar:
— Isso é muito bom, Zefa!
— Bom pur quê?
— Agora Luiz Cláudio vai ter de se casar comigo!
Vou contar ao meu pai e ele vai obrigá-lo a fazer isso!
— Cuidadu, Sinhazinha.
U Sinhozinho pódi dizê que a Sinhazinha tá mintindu.
Ninguém nunca viu os dois junto, só a nega, mais palavra de nego num tem valô.
— Preciso me encontrar com Luiz Cláudio!
Ele tem de saber o que está acontecendo!
— Percisa memo, Sinhazinha...
— É isso o que vou fazer.
Preciso encontrar uma maneira de poder sair de casa.
Vou pensar em alguma coisa.
Nesse mesmo instante, ouviram o barulho de uma carruagem que se aproximava da casa.
Olharam pela janela e viram a carruagem de Eulália parar em frente à porta de entrada da casa.
O cocheiro desceu.
A porta se abriu e uma escrava apareceu.
O cocheiro entregou um envelope e foi embora.
Nesse momento, Maria Inês que viu, através da janela, a carruagem se aproximando, desceu a escada e foi acompanhada por eles.
Do alto da escada, perguntou:
— Que envelope é esse?
— Num sei, Sinhazinha.
O cochêro dexô sem falá nada...
Maria Inês terminou de descer e, nervosa, pegou o envelope que estava endereçado ao seu pai:
— Eu vou levar para meu pai.
Com o envelope na mão, entrou no escritório e o entregou para seu pai.
O pai pegou o envelope, olhou e colocou de lado.
— Não vai abrir, papai?
— Não, Maria Inês.
Pelo tamanho, deve ser um convite para uma festa, como estamos de luto, não poderemos comparecer.
— Eu sei disso, papai, mas estou curiosa para ver do que se trata.
O pai, dando o envelope para ela, disse:
— Está bem.
Estou ocupado e pouco interessado em festas.
Abra e veja.
Maria Inês pegou o envelope e sempre seguida por Zefa, saiu rapidamente do escritório e correu para seu quarto.
Entrou no quarto, correu para cama, sentou-se e abriu o envelope.
Leu, ficou branca como cera e começou a tremer e a chorar.
— Qui cunteceu, Sinhazinha?
Qui tá iscritu aí?
— Eles vão se casar, Zefa!
— Elis, quem, Sinhazinha:
— Eulália e Luiz Cláudio!
— A Sinhazinha sabia qui isso ia cuntecê...
— Não, Zefa!
Ele disse que estava somente mantendo as aparências!
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Ave sem Ninho

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:13 pm

— Quim, sabi num é issu que tá cuntecendu.
— Não, Zefa, isto é um convite de casamento!
Se estivesse mantendo somente as aparências não chegaria a tal ponto!
Eles vão se casar, mesmo!
Só queria saber o que Eulália fez para obrigá-lo a isso!
— Será qui ela feiz arguma coisa ou num será qui eli qui qué se casa cum a Sinhazinha Eulália?
— Claro que ela fez!
Ele disse que me amava e que só casaria comigo!
Preciso descobrir o que ela fez!
— Achu qui a sinhazinha tem outra cousa pra se preocupa.
Si eli si casá cum a Sinhazinha Eulália, o qui é qui a sinhazinha vai fazê cum essa criança que tá aí na vossa barrriga?
— Preciso conversar com ele, Zefa e contar que vamos ter uma criança!
Ele vai ficar feliz e vai querer se casar comigo!
— Tá bão, Sinhazinha.
Faiz issu...
Maria Inês foi para o escritório onde o pai estava.
Entrou e, com um sorriso para disfarçar o que estava sentindo, disse:
— Papai, Eulália vai se casar e quer que eu seja sua madrinha.
Preciso ir até a casa dela para explicar que, por eu estar de luto, não poderei ir ao casamento.
— Ela sabe disso.
— Sei, mas preciso explicar pessoalmente.
Posso ir com Zefa e com Inácio até lá?
Prometo que volto logo.
O pai sorriu:
— Está bem, minha filha, pode ir.
Sinto muito que não possa ir.
Sei o quanto está feliz com esse casamento.
Ela sempre foi sua amiga.
Sem disfarçar sua felicidade, Maria Inês beijou o pai e foi ao encontro de Inácio que estava cuidando do jardim.
— Inácio!
Prepare a charrete.
Vamos sair.
Inácio olhou para Zefa que, com a cabeça, disse que sim.
— Tá bão, Sinhazinha. Vô prepará.
— Está bem.
Vou até o meu quarto trocar este vestido e volto em dez minutos.
Subiu correndo e trocou-se rapidamente.
Voltou e subiu na charrete.
Quando chegou ao centro da cidade, pediu a Inácio que desse uma volta pela praça.
Ao passar em frente a um botequim, viu que Luiz Cláudio conversava e bebia com outros rapazes.
Fez com que Inácio parasse a charrete:
— Inácio. Desça e vá até o botequim.
Com um sinal e com cuidado para que os outros rapazes não vejam, chame o senhor Luiz Cláudio.
Assim que ele vier ao seu encontro, diga que estou aqui e que preciso conversar com ele.
Diga a ele para disfarçar, não quero que os outros rapazes me vejam.
— Si U Sinhozinho nun quisé vim, Sinhazinha?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 8:13 pm

— Por que não ia querer?
Claro que ele vem, mas se isso acontecer, diga que é urgente.
Inácio desceu da charrete e foi até a porta do botequim.
Maria Inês, de longe, acompanhava todos os passos dele.
Luiz Cláudio o conhecia, sabia que pertencia a família dela e, ao ver o negro parado ali, sorriu.
Inácio, um tanto constrangido, mas tendo de obedecer à ordem de Maria Inês, fez um sinal com a mão dizendo que precisavam conversar.
Luiz Cláudio se aproximou.
Inácio deu o recado de Maria Inês.
Luiz Cláudio olhou para onde estava a charrete, colocou a mão na aba do chapéu e fez uma reverência.
Maria Inês sorriu e viu que Luiz falou alguma coisa com Inácio e, para sua surpresa, viu Luiz Cláudio voltar para o botequim e Inácio caminhando de volta.
Ele se aproximou:
— Sinhazinha, eli dissi para Sinhazinha isperá qui eli já vem.
Ela respirou aliviada.
Esperou por quase meia hora, quando viu que ele se despediu dos amigos e caminhou em sua direcção.
Assim que se aproximou, disse:
— Como vai, senhorita?
Estou feliz em vê-la por aqui.
Ela estranhou ao ver que ele a chamava por senhorita, mas se esforçando para não demonstrar seu nervosismo, disse:
— Também estou feliz por vê-lo, senhor.
Precisamos conversar.
— Aqui na praça?
Não prefere ir para outro lugar onde as pessoas não possam nos ver?
— Não. Vamos conversar aqui mesmo.
Nossa conversa será rápida.
Depois de dizer isso, Maria Inês se voltou para Zefa e Inácio que acompanhavam a conversa:
— Afastem-se um pouco.
Preciso conversar com o senhor Luiz Cláudio.
Os negros se afastaram.
Ela voltando-se para ele, com a voz trémula, falou de uma vez:
— Estou esperando uma criança.
— O quê?
— O que o senhor ouviu.
Estou esperando uma criança.
Ele, tentando disfarçar a surpresa, sorriu:
— Meus parabéns!
Só não entendo por que está me dizendo isso...
— Como não entende!
O senhor é o pai dessa criança e precisa assumir perante meu pai.
Precisa se casar comigo...
Ele, nervoso, começou a rir:
— Eu, o pai?
A senhorita dever estar me confundindo com outra pessoa.
Não posso me casar com a senhorita.
Vou me casar com Eulália.
Nossos pais já decidiram tudo e nós concordamos.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

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