Apenas Começando / Elisa Masselli

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:11 pm

Ela se desesperou:
— Não pode estar falando isso!
Sabe que foi o único homem que tive e que esse filho é seu!
— Como posso saber?
Nunca conversei com a senhorita sobre esse assunto ou qualquer outro parecido.
Nunca estivemos juntos e eu vou me casar com Eulália e depois iremos para Paris, onde vou estudar.
— Não vai assumir seu filho?
— Que filho?
Esse filho pode ser de qualquer um, menos meu.
Desculpe-me senhorita, mas preciso ir ao encontro de minha noiva.
— Vou contar para Eulália o que o senhor fez.
Ele, que estava se afastando, voltou-se e, rindo, disse:
— Pode contar!
Eu direi que é mentira, que me assediou e quando viu que eu não aceitei por amar minha noiva, ficou brava e inventou esse filho!
Acha que ela e todos vão acreditar em quem?
No final, se fizer isso, ficará difamada em toda a cidade e perante nossos amigos.
Será obrigada a ir embora daqui ou para um convento.
— O que ela fez para que o senhor quisesse tanto se casar com ela?
Ele, com um sorriso irónico, respondeu:
— Nunca tentou me conquistar nem se entregou.
Ela é uma moça decente.
Maria Inês começou a chorar:
— O que vou fazer?
— Não sei, senhorita e não me importo.
Sinto muito que, alguns momentos de diversão, tenham terminado assim.
Com licença.
Agora preciso ir.
Se quiser, depois do meu casamento, poderemos nos encontrar no lago, sem que ninguém nos veja, é claro...
Tocando novamente na aba do chapéu e fazendo outra reverência, Luiz Cláudio se afastou.
Maria Inês tremendo e branca como cera ficou olhando-o se afastar.
Zefa, embora não tenha ouvido a conversa, percebeu que ela não havia sido agradável para Maria Inês, se aproximou e, parada e calada, ficou junto à charrete.
Maria Inês chorando, olhou para ela e perguntou:
— O que vou fazer, Zefa?
Zefa, voltando a subir na charrete, respondeu:
— Num sei, Sinhazinha.
Só sei qui a Sinhazinha percisa vortá pra casa.
Inácio, vamu si imbora!
Assim que Zefa e Inácio subiram na charrete, ele fez com que o cavalo começasse a andar.
Maria Inês não conseguia parar de chorar.
Júlia, revoltada, falou:
— Ele é um canalha!
Como pôde fazer isso?
Sabe muito bem o que aconteceu!
Olhou para Alzira e parou de falar e perguntou:
— Por que a senhora está chorando?
— Porque, por várias encarnações, Luiz Cláudio tem passado por essa mesma situação e tem falhado.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:11 pm

Neste momento, para nós, seus amigos e companheiros de jornada, só resta chorar e lamentar.
Ele está perdendo, novamente, o momento de se redimir e atrasando, assim, sua evolução.
— Vocês choram por ele, mesmo depois de toda essa maldade que acaba de fazer?
— Sim, Júlia.
Assim como choramos por outros amigos que estão na caminhada, quando perdem a oportunidade de redenção.
— Quanto a Maria Inês que, para mim é a vítima, o que vão fazer para ajudá-la?
O que ela vai fazer?
— Para ela ainda não terminou.
Terá a chance de redenção e estaremos ao seu lado para que possa ser vencedora, mas, nunca poderemos interferir em suas escolhas.
Isso cabe somente a ela.
— Pelo que estou vendo, sua ajuda não vale muito!
Por que não impediram que Luiz Cláudio fizesse o que fez?
— Escolhas e livre-arbítrio, Júlia, e, como disse, contra elas não há nada que se possa fazer.
Ele teve a oportunidade de escolher.
Não fez a escolha certa.
Agora, terá de arcar com as consequências.
Ela ainda terá sua oportunidade.
Só nos resta esperar.
— Disse que estarão ao lado dele até que faça a escolha certa e se redime.
— Nós estaremos ao lado dele e de todos os que fazem parte do nosso grupo.
— Grupo?
— Sim. Um grupo de espíritos foi formado, todos com as mesmas oportunidades.
Já deve ter ouvido falar da parábola que Jesus contou, sobre os talentos, não ouviu?
— Sim, muitas vezes.
Não se esqueça de que fui criada em um orfanato cristão.
— Quando Deus nos criou, não quis que fôssemos como bonecos que ficam parados sem nada fazer.
A todos nós, deu sentimentos de bondade e de maldade para que escolhêssemos o caminho que queríamos seguir.
Como aconteceu na parábola dos talentos, alguns fizeram com que os bons sentimentos se multiplicassem, outros demoraram um pouco mais e muitos, quase pararam.
Durante a caminhada, alguns decidiram continuar, outros preferiram ficar ao lado daqueles que se atrasaram, tentando ajudá-los.
Embora soubessem que pouco poderiam fazer, como você disse, a não ser, nos momentos de difíceis escolhas, dizer palavras de incentivo e mandar Luzes para que se acalmassem e parassem para pensar.
É o que está acontecendo agora.
Embora não tenha visto, Luiz Cláudio tem ao seu lado, vultos que, com seu comportamento atraiu para junto de si.
Esses vultos fazem parte do nosso grupo e escolheram ficar para trás, bem para trás.
Sempre que podemos, tentamos conversar com eles e fazer com que reflitam.
Dizemos que estão perdendo muito tempo, mas quase nunca é possível, pois se escondem em uma energia muito densa a qual não conseguimos atravessar.
Agindo assim, eles não podem nos ver nem ouvir.
Preferem ficar ao lado daqueles que pensam como eles.
Aqueles que não dão valor para os bons sentimentos seus e dos outros.
Assim, como você não pode ver os espíritos amigos que, assim como nós, estão juntos de Maria Inês, de Luiz Cláudio e de Eulália.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:11 pm

Todos, sem excepção, têm ao seu lado amigos espirituais que mesmo atrasando sua evolução, se recusam a abandonar aqueles que se atrasaram.
— Porque fazem isso, porque não seguem adiante?
— Porque sabem que, um dia, não importando quanto tempo demore, todos encontrarão o verdadeiro caminho e a redenção.
E, assim, todos poderão seguir juntos em direcção à Luz Divina.
— Como saber quem faz parte do mesmo grupo?
— Todos aqueles que encontramos no plano físico ou espiritual, por mais rápido que seja esse encontro, fazem parte do nosso grupo.
De uma maneira ou de outra, se os encontramos é porque podemos ajudar ou sermos ajudados.
Deus é perfeito, Júlia.
— Para mim, é muito complicado.
Alzira olhou para Ciro que, rindo, continuou:
— Quando voltar para o plano entenderá rapidamente.
— Eu vou voltar?
— Claro que vai!
Todos voltam!
— Estou assustada.
Não sei se estou pronta.
— Só voltará quando chegar a hora e estiver pronta.
A não ser...
— A não ser, o quê?
— A não ser quer abrevie esse dia, através do suicídio.
— Nunca mais vou fazer uma loucura como aquela!
— Estamos torcendo para que isso não aconteça, pois, se acontecer, sofrerá muito e ainda perderá uma encarnação.
Júlia disse rindo:
— Também porque, se isso acontecer se atrasarão por minha culpa?
—Por isso também.
Temos muito que fazer.
— Agora, quero saber o que vai acontecer com Maria Inês.
Eles estão entrando pelo portão da casa.
Até agora, ela não parou de chorar.
Júlia olhou, quando Maria Inês ainda chorando e demonstrando muita raiva, disse:
— Ele é um canalha!
Vou encontrar uma maneira de me vingar!
Ele não vai se casar com Eulália!
Não vou permitir!
— Num faiz issu, Sinhazinha.
Dexa que Deus toma conta deli.
— Vou fazer. Zefa!
Não posso esperar por Deus, ele demora muito!
— Num fala anssim, Sinhazinha.
É pecadu...
— Pecado foi o que ele fez comigo!
Vou me vingar!
Sem conseguir parar de chorar, desceu da charrete e correu para dentro da casa.
Subiu os degraus da escada correndo.
Maria Augusta, que estava no jardim, viu quando ela chegou.
Pelo estado da irmã, percebeu que alguma coisa muito grave havia acontecido.
Também, apressada foi ao quarto de Maria Inês.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:12 pm

Assim que entrou, viu que a irmã, deitada sobre a cama, chorava copiosamente:
— O que aconteceu, Maria Inês?
Porque está chorando dessa maneira?
— O que está fazendo aqui, Maria Augusta?
Este é o meu quarto!
— Vi quando chegou e percebi que alguma coisa estava acontecendo.
O que foi?
— Cunta pra vossa irmã, Sinhazinha!
— Contar, por quê?
— Ela podi judá a Sinhazinha...
— Ajudar como? — Maria Augusta perguntou, desesperada.
— Ninguém pode me ajudar, Maria Augusta.
Estou perdida...
— O que aconteceu, Maria Inês?
— Cunta, Sinhazinha.
Ela é vossa irmã...
— Está bem, vou contar.
Talvez você tenha uma solução, Maria Augusta.
Maria Augusta respirou aliviada, sentou-se sobre a cama e ficou olhando para Maria Inês que contou tudo e terminou dizendo:
— Como pode ver, ele foi um canalha que me enganou e iludiu.
Se não tivesse essa criança, não haveria problema, mas como vou esconder?
Todos ficarão sabendo da minha vergonha e o pior é que não posso dizer que foi ele, pois disse que vai me desmentir e dizer que eu arrumei esse filho para obrigá-lo a se casar comigo.
Não sei o que fazer...
Maria Augusta pegou a mão da irmã e falou:
— Sou sua irmã.
Sei que algumas vezes brigo por causa das coisas que faz, mas amo você e vou ficar ao seu lado.
Maria Inês, mesmo entre lágrimas, conseguiu sorrir:
— O que vamos fazer?
Maria Augusta se levantou, ficou por algum tempo andando pelo quarto, depois disse:
— Acho que precisamos contar ao nosso pai.
Ele é um bom homem e gosta muito de você.
Sei que vai encontrar uma solução.
— Não! Não podemos falar com ele!
Não vai me perdoar nunca.
— Podemos e devemos, Maria Inês.
Ele é nosso pai e é a única solução.
Ele pode nos mandar para uma cidade do interior, onde ninguém nos conheça.
Ficamos ali até a criança nascer e encontraremos alguém que a crie.
Quando ela crescer, inventamos alguma coisa e a traremos para cá.
— Mesmo que papai concordasse com tudo isso, que acho improvável, o que aconteceria com Luiz Cláudio?
— Precisa se esquecer dele, Maria Inês.
Agora, só tem de pensar em você e nessa criança que está para nascer!
— Deixar que ele case com Eulália e seja feliz para sempre?
Nunca! Quanto a essa criança, não quero que nasça!
Não quero que essa coisa continue dentro de mim!
Tem de existir uma maneira para que isso aconteça!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:12 pm

— Sinhazinha du céu!
Num fala anssim!
Uma criança é uma bençá di Deus!
A criança num tem curpa de nada...
— Pode ser bênção para quem quer!
Para mim é um estorvo!
Está dizendo que a criança não tem culpa, também acho.
O culpado é aquele canalha!
Ouvi dizer que existem alguns tipos de chá que podem resolver o meu problema!
Você conhece algum, Zefa?
— Nun cunheçu não, sinhazinha.
Si cunhecessi num tinha tido quatru fio prá elis sê escravu.
Mais num tinha memo...
— Ela tem razão, Maria Inês.
Não precisa fazer isso.
Podemos dar um jeito e essa criança vai poder nascer e ser amada por nós duas.
Você não está sozinha, minha irmã.
Estou e estarei sempre ao seu lado.
Vamos conversar com nosso pai.
— Não, Maria Augusta!
Nosso pai vai me mandar para um convento!
Eu não consigo aceitar essa ideia!
Não precisamos falar com ele hoje.
Com estas roupas que usamos, vai demorar um pouco para que minha barriga comece a aparecer.
Poderei esconder por muito tempo.
Até que esse dia chegue, vou ter tempo para pensar em uma maneira de me livrar desta criança e de me vingar de Luiz Cláudio.
— Está bem, vamos esperar mais um pouco.
Agora, o importante é que fique calma.
Tudo vai dar certo, minha irmã...
Maria Augusta saiu do quarto.
Maria Inês voltou a se deitar e a pensar.
Júlia, que até então permaneceu calada, acompanhando a conversa, disse:
— Ainda bem.
Fiquei apavorada com a ideia de que ela fosse matar a criança...
— Tem razão de ficar assim, Júlia.
Se todos soubessem como é difícil, para um espírito, renascer, ninguém, sequer, pensaria em fazer isso.
Júlia olhou para Maria Inês que, naquele momento, sentou-se na cama e falou:
— Zefa, pode cuidar da sua vida.
Quero ficar sozinha.
— Num vô saí daqui, não, sinhazinha.
— Pode ir, Zefa. Estou bem.
Só quero pensar no que vou fazer.
Não se preocupe o que eu decidir, falo com você e com Maria Augusta.
— Tá bão, sinhazinha, eu vô, mais si percisá, chama eu.
Zefa saiu.
Maria Inês se levantou, foi até a cómoda, abriu uma gaveta e pegou uma folha de papel e um lápis.
Sentou-se em frente à penteadeira, afastou alguns objectos que estava sobre ela, colocou o papel e pensou:
Se ele pensa que vai se casar e que será feliz, está enganado.
Eulália e todos vão saber o que ele me fez!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:12 pm

Já que não tenho como enfrentar essa vergonha nem quero ir para o convento, não tenho como tirar essa coisa de dentro de mim, e não tenho como me vingar de Luiz Cláudio, meu único caminho vai ser morrer, mas, antes, vou deixar tudo escrito.
Todos vão saber como ele é um canalha!
Júlia, desesperada, gritou:
— Ela não pode fazer isso!
— Ela não devia, mas tem o direito de escolha, Júlia.
— Ela vai se matar e a criança também?
Continue olhando, Júlia.
Olhe a companhia que ela está atraindo para si.
— De onde surgiram esses vultos negros?
— Eles sempre estiveram aqui, Júlia.
Por causa das energias deles que são diferentes das nossas e das suas, você não os viu.
Só está podendo ver, agora, porque eu e Ciro fizemos com que as suas e as nossas energias se aproximassem mais com as deles.
Fizemos isso porque é importante que os conheça para ver como agem e como pode evitar que se aproximem.
Júlia, assustada, ficou olhando para quatro vultos que rodopiavam em volta de Maria Inês que pensava:
Eu não posso deixar que ele fique impune.
Vou escrever uma carta contando tudo o que aconteceu, depois vou encontrar uma maneira de me matar.
Ele não vai suportar a vergonha e a culpa.
Nunca mais, em toda sua vida, vai se esquecer de mim!
Os vultos se aproximaram ainda mais.
Um deles disse:
— Precisa fazer isso mesmo!
Ele vai se arrepender e sofrer muito!
— Ela está ouvindo o que ele está dizendo?
— Não com os ouvidos, Júlia, mas com o espírito, sim.
Maria Inês, sem imaginar que estava sendo intuída pelo mal, começou a escrever.
Usou a página dos dois lados e contou desde o início, sem dizer, é claro o que havia feito para poder se aproximar dele.
Quando terminou de escrever, leu e releu várias vezes para ver se não havia esquecido nenhum detalhe.
Os vultos que rodopiavam, felizes, durante todo o tempo, ficaram ao lado dela fazendo com que não se esquecesse de alguma palavra.
Depois de ver que estava tudo ali, guardou o papel no fundo de uma gaveta, onde sabia que Zefa quase nunca mexia.
Voltou a se deitar e a pensar:
Agora, preciso encontrar uma maneira de me matar sem sentir muita dor.
Para o horror de Júlia, os vultos começaram a dar uma porção de ideias.
Conforme eles falavam, Maria Inês, em seu pensamento, via a cena.
Até que resolveu:
— Preciso ir até o lago.
Se eu morrer ali, o impacto vai ser maior.
Levantou-se e desceu.
Na escada, encontrou Zefa que estava indo para seu quarto:
— Zefa, vamos até o lago.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:12 pm

— U qui a sinhazinha vai fazê lá?
Vai sufrê inda mais?
— Não, Zefa, só quero ficar lá pensando em como vai ser minha vida daqui para frente.
Não se preocupe, não vou fazer nenhuma loucura.
Zefa concordou e a acompanhou.
Assim que chegou perto do lago, ela começou a olhar à sua volta.
Viu que havia várias árvores:
É isso que vou fazer.
Sem que Zefa perceba, vou sair de casa, trazendo uma corda, vou subir e, depois de colocar a corda na árvore e no meu pescoço, basta só me jogar.
Acho quer vai ser rápido e Luiz Cláudio estará perdido para o resto de sua vida!
Espere, não vai dar certo.
Não vou ter força para fazer um nó forte o suficiente para me segurar no alto.
Dessa maneira não vou conseguir.
Preciso pensar em outra.
— Zefa! Vamos embora!
— A sinhazinha num dissi qui ia ficá pensandu?
— Já pensei! Vamos embora!
Quando estavam voltando, um dos vultos fez com que ela tivesse uma ideia:
— Zefa! Quando estava no quarto, acho que vi um rato correndo.
Pede para Inácio dar uma olhada e acabar com ele.
Sabe que morro de medo de rato!
— Ratu, Sinhazinha?
— Acho que era.
Não tenho certeza, foi rápido.
Ele me pareceu ser muito grande.
Mesmo assim, Inácio pode conferir.
— Tá bão, vô falá cum eli.
— Peça para ele vir agora mesmo.
Não quero me arriscar a estar dormindo e um rato subir na minha cama.
Entraram na casa.
Maria Augusta ao ver a irmã, disse:
— Parece que está bem, Maria Inês.
— Estou, sim. Obrigada pelo seu apoio.
Decidi que vamos fazer o que sugeriu.
Só me dê algum tempo para que eu tome coragem.
— Fico feliz por você ter decidido.
— Também fiquei mais tranquila.
Agora, vou para o meu quarto.
Maria Augusta sorriu.
Quando estavam subindo a escada, Maria Inês, olhando para Zefa disse:
— Zefa! Converse com o Inácio e diga que ele precisa cuidar do rato o mais rápido possível!
De preferência agora mesmo.
— Tá bão, já tô indu, Sinhazinha.
Maria Inês terminou de subir a escada e foi para seu quarto.
Zefa se voltou e foi procurar por Inácio.
Logo depois Zefa voltou acompanhada por Inácio.
Bateu à porta e entrou.
Ele entrou no quarto, falando:
— Tô istranhandu, Sinhazinha.
Nunca qui vi ratu na casa.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:13 pm

— Também nunca tinha visto, mas acho que, hoje, vi alguma coisa correndo.
Não custa nada você dar uma olhada por aí, colocar algum veneno.
Não sei! Faça qualquer coisa, Inácio!
— Tá bão, vô oiá.
Inácio olhou todos os cantos do quarto.
Procurou por todo lado e disse:
— Num veju lugá pro ratu ficá, Sinhazinha.
Achu qui num tem não.
Maria Inês ficou nervosa:
— Eu vi alguma coisa que me pareceu ser um rato, Inácio.
Estou nervosa, assustada e com medo.
Você tem veneno para rato?
— Tem sim, chumbinho, Sinhazinha.
Tá lá nu barracão.
— Para que eu tenha certeza de que, enquanto eu estiver dormindo, não vou ser atacada por ratos, vamos fazer o seguinte: você coloca veneno espalhado por todo o quarto e você, Zefa, avisa a Tonha para amanhã, quando vier fazer a limpeza, não tirar o veneno e, se em uma semana não aparecer nenhum rato morto, limpamos tudo.
Os dois concordaram com a cabeça e saíram.
Maria Inês foi para a janela e ficou olhando para o horizonte.
Os vultos continuavam ao seu lado, falando sobre o benefício do suicídio.
Logo mais, os escravos voltaram.
Inácio colocou veneno pelo rodapé e aumentou a quantidade nos cantos.
Quando terminou, disse:
— Prontu, Sinhazinha, si tive argum ratu aqui, vai murrê.
— Ainda bem.
Eu não ia conseguir dormir.
Saíram do quarto.
Inácio voltou para o jardim.
Maria Inês voltou para a ala, sentou-se em frente a uma tela e continuou pintando uma paisagem que havia começado.
Maria Augusta, no piano, tocava uma melodia.
Zefa, de longe, olhava para as irmãs.
Depois do jantar, Maria Inês foi para seu quarto.
Zefa chegou em seguida, trazendo uma xícara com chá, como fazia todas a noites.
Colocou o chá sobre o criado-mudo, acendeu algumas velas.
Assim que Maria Inês se deitou, ela falou:
— Agora qui a Sinhazinha já si deito, vou apagá as vela.
Num vai tumá u chá?
— Não, Zefa! Não faça isso.
Ainda estou com medo daquele rato.
Deixe as velas acesas.
Zefa riu:
— Num tem ratu, não, Sinhazinha...
— Eu vi alguma coisa, Zefa.
Não vou conseguir dormir no escuro...
— Tá bão num vô apaga.
Já possu i dromi, Sinhazinha?
— Pode, Zefa.
Zefa saiu.
Maria Inês esperou um pouco e se levantou.
Sob a luz das velas, pegou dois pedaços de papel.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:13 pm

Colocou um pedaço em uma das mãos e o outro na outra mão.
Com ajuda de uma mão, foi recolhendo o veneno que estava espalhado pelo chão e colocando na outra.
Quando viu que tinha uma boa quantidade, voltou para perto da cama e colocou o veneno na xícara de chá.
Foi até a cómoda, abriu a gaveta onde havia escondido a carta, pegou-a e colocou-a sobre o criado-mudo, jogou o veneno dentro da xícara.
Com a xícara na mão, pensou:
Ele vai pagar por tudo o que fez!
Além de não se casar, de ser julgado por todos, ainda vai morrer de remorso!
Mais vultos negros entraram no quarto e se aproximaram de Maria Inês.
Eles estavam exultando de felicidade.
Ao ver aquilo, assustada, Júlia gritou:
— Vocês não vão fazer nada para impedir quer ela faça isso?
Alzira que estava chorando, não conseguiu responder.
Ciro, embora muito emocionado, falou:
— Nada podemos fazer, Júlia, ela escolheu e já aconteceu.
Usou o seu livre-arbítrio e, mesmo que, na época, pudéssemos, não conseguiríamos nos aproximar.
Como pode ver, ela está totalmente envolvida por esses vultos que atraiu para si.
Alheia à presença deles e dos vultos, Maria Inês tomou de uma só vez todo o chá que havia na xícara.
Alguns minutos depois, sentiu seu coração disparar e uma dor no estômago como se estivesse queimando.
Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Após algum tempo de agonia, deu o último suspiro.
Júlia, horrorizada, viu os vultos se jogarem sobre ela e rindo, arrancarem seu espírito do corpo.
Maria Inês abriu os olhos e se assustou ao ver aqueles vultos.
Quis perguntar o que estava acontecendo, mas não pôde.
Eles, ainda rindo, pegaram suas mãos e saíram dali.
— Para onde eles a estão levando?
Ciro e Alzira, um de cada lado, seguraram sua mão e, segundos depois, estavam em um lugar que, para Júlia, foi assustador.
Escuro, lamacento, com vozes que gritavam e choravam sem parar.
Júlia olhou à sua volta e, apavorada, perguntou:
— Que lugar é esse?
— O lugar para onde vêm todos os espíritos suicidas.
— É horrível!
Por que eles a trouxeram para cá?
— A vida no corpo físico é o único lugar onde o espírito pode resgatar seus enganos e conseguir evoluir.
Ela é desejada por muitos, mas nem todos conseguem com a rapidez que desejam.
Por isso, não é justo que, de posse dela, o espírito deixe de lado tudo a que se comprometeu e aquilo que escolheu e, antes da hora, coloque fim a sua vida.
Neste lugar, ele vai aprender a dar valor para a vida.
Deus é Pai e como todo pai, quando necessário castiga o filho.
Maria Inês, por várias vezes, apesar do nosso empenho, tem cometido o mesmo acto desesperado.
Por muitas vezes, esteve aqui e foi resgatada.
Agora, infelizmente, voltou novamente.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:13 pm

— Ela teve seus motivos.
É ainda uma criança, foi enganada e iludida.
— Nada é motivo para o suicídio, Júlia, pois, por pior que pareça o momento, sempre existe uma saída e um novo caminho para seguir.
O importante é ter fé.
Deus está ao nosso lado e não nos abandona nunca.
O espírito encarnado ou não, não sabe o que vai acontecer no momento seguinte.
Portanto, só é preciso ter fé, entregar-se totalmente nas mãos de Deus, seu Criador.
— Isso leva muito tempo...
— Não importa quanto tempo demore, Júlia.
Deus tem toda uma eternidade para esperar.
— Maria Inês vai ficar aqui, por quanto tempo?
— Muito, tempo, Júlia.
Quanto for necessário.
Até que entenda o que fez, peça perdão.
Nesse dia, para nossa glória, seus amigos, estaremos aqui para levá-la de volta para casa.
— Esse dia vai chegar?
— Sim. Esse dia, sempre chega para todos.
— Como faz muito tempo que isso aconteceu, posso ver como ela está agora?
— Pode, mas está na hora de acordar.
Já está por muito tempo longe do seu corpo.
Júlia olhou para Alzira e, apesar do desespero por estar naquele lugar, disse:
— Está bem, não vou reclamar.
Sei que não adianta.
Naquele momento ela viu Maria Inês que corria desesperada, sendo seguida pelos vultos que a trouxeram.
Assustada, Júlia gritou:
— Não deixem que eles me peguem!
O grito foi tão alto que, Sueli, de seu quarto, ouviu o grito dela, correu para ver o que estava acontecendo.
Vendo que a amiga estava dormindo, começou a sacudi-la:
— Júlia! Acorde!
Na terceira vez que chamou, Júlia abriu os olhos e começou a chorar.
— Que pesadelo foi esse, Júlia?
Com que estava sonhando?
— Não sei, Sueli.
Estava em um lugar horrível e fiquei com muito medo.
Monstros me perseguiam...
— Ainda bem que foi só um sonho.
Você está aqui e muito bem protegida.
Fiquei assustada quando ouvi o seu grito.
Agora, acho que, ao invés de tomar café, preciso de um chá de erva-doce para me acalmar.
Levante-se, vou preparar o chá.
Júlia respirou fundo:
— Você pode tomar chá, Sueli.
Eu estou com fome.
Vou tomar café com leite e comer pão com presunto.
Júlia se levantou e foram para cozinha.
Quando Júlia colocou um pedaço de pão na boca, ficou tonta e quase desmaiou.
Sueli, assustada, perguntou:
— O que você tem?
Está amarela como cera, Júlia!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:13 pm

Sem responder, Júlia correu para o banheiro.
Alguns minutos depois, voltou e, constrangida, disse:
— Devo ter comido alguma coisa que me fez mal.
— Esses desmaios e enjoos matinais... será que não está grávida Júlia?
— O que? Você está maluca?
Não posso nem quero estar grávida!
Sueli começou a rir:
— Pode não querer, mas poder estar grávida, pode...
— Pare com isso, Sueli!
— Posso parar, mas, se fosse você eu iria fazer um exame para ter certeza.
Ouvi dizer que, quando uma criança quer nascer, não tem nada que segure.
— Nem brinca com isso!
Era só o que me faltava!
Minha vida está uma bagunça só!
Terminaram de tomar café.
Sueli voltou para o quarto e Júlia saiu.
Na rua, pensou:
Será que estou grávida?
Não pode ser.
Porém, como disse Sueli, é melhor fazer um exame para ter certeza.
Não estou, mas se estiver, tenho tempo para tomar alguma providência.
Quero muito um filho, só que agora, não é o momento.
Foi para um laboratório.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:13 pm

Livre arbítrio
Após fazer o exame, Júlia ficou sabendo que o resultado seria no dia seguinte.
Saiu foi até uma empresa que havia lá perto para ver se havia vaga.
Deixou o currículo e continuou andando.
Depois de muito andar, voltou para casa.
Estava cansada.
Deitou-se e, embora quisesse, não conseguia se esquecer de Anselmo.
Ainda não consigo me conformar com o que ele me fez.
Como pôde ter sido tão cruel, me abandonar sem uma palavra?
Se eu estiver grávida mesmo, o que vou fazer, sem emprego, sem ter onde morar?
Sueli fala tanto que tudo está certo, que Deus é nosso Pai.
Que Pai é esse que permitiu que minha vida fosse da maneira como foi?
Que Deus é esse que faz com que eu não arrume um emprego?
Estou cansada de tudo.
Não sei para que continuar vivendo.
Chega de tanto sofrimento.
Se dona Neide estivesse viva, eu poderia voltar para o orfanato, mas até ela me abandonou.
Estou sozinha sem ninguém...
Alzira e Ciro, que estavam ali, viram que alguns vultos negros começaram a se aproximar e a forçar mais aqueles pensamentos.
Tentaram afastá-los, mas não conseguiram.
A energia que saía do pensamento de Júlia estava densa e os atraia.
Ela passou aquele dia pensando em Anselmo.
Por algum tempo pensou nos bons momentos o que fez com que os vultos se afastassem.
Durante a tarde, foi com Sueli fazer algumas compras.
Com isso se distraiu.
À noite, após jantar, sob a influência de Alzira, pegou o livro e continuou a ler.
Enquanto lia, os vultos ficaram ali, porém distantes.
Terminou de ler o livro e se deitou.
Essa história é linda.
Pena que não seja verdadeira.
A vida não é como nos romances.
Adormeceu e se encontrou com Alzira e Ciro que a levaram para um lugar lindo e tranquilo.
Na manhã seguinte, acordou cedo e bem.
Levantou-se e, ainda pensando em Anselmo foi para o laboratório e pegou o resultado.
Olhou o resultado e guardou o papel na bolsa.
Saiu para a rua e começou a andar sem destino.
Andou muito até se cansar e resolveu sentar-se em um banco que havia na praça.
Alzira e Ciro, que a seguiam, estavam preocupados.
Alzira disse:
— Ela não pode continuar assim, Ciro.
Precisa chorar, gritar, tomar alguma atitude.
Levando Júlia para conhecer lugares bonitos e tranquilos, fizemos com que ela tivesse bons pensamentos e mudasse sua energia.
Fazendo isso, conseguimos afastar os vultos, mas, se continuar assim, vai atraí-los novamente.
Olhe lá, já estão se aproximando!
— Sabe que não podemos interferir no seu livre-arbítrio, Alzira.
Ela precisa decidir o que vai fazer daqui para frente.
— Tem razão.
Não podemos interferir, mas, neste momento, podemos encontrar uma maneira de ajudá-la.
— Ajudar como, Alzira?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:14 pm

Alzira sorriu.
Olhou para frente e viu uma senhora que se aproximava.
Trazia, pela mão, um cachorrinho preso a uma coleira.
Ciro também viu a senhora.
Perguntou:
— O que vai fazer Alzira?
Ela não respondeu.
Colocou-se ao lado da senhora e fez com que ela olhasse para o banco onde Júlia estava sentada.
Com a voz baixa, disse:
— Você está cansada, Natália?
Por que não se senta naquele banco?
A senhora, sem entender o que estava acontecendo, olhou para frente e viu o banco.
Apressou o passo e sentou-se ao lado de Júlia.
Puxou a coleira do cachorrinho fazendo com que ele se aproximasse e se sentasse também.
Júlia, pensando no que havia acontecido, não percebeu que ela havia sentado.
Alzira colocou-se por detrás do banco e, sorrindo, olhou para Ciro que, também sorrindo, se aproximou e se colocou ao lado dela e atrás de Júlia e de Natália.
Alzira, ainda sorrindo, voltou-se para a senhora e falou:
— Olhe como ela está nervosa, Natália.
Converse com ela.
Natalia, parecendo ouvir o que Alzira dizia, voltou-se para Júlia e perguntou:
— Você está bem, moça?
Júlia, parecendo não ouvir, não respondeu.
Inspirada por Alzira, Natália insistiu:
— Você está muito pálida.
Quer que eu chame alguém ou quer ir para algum lugar?
Ao ouvir Natália, Júlia voltou-se:
— Estou bem, apenas um pouco nervosa.
— Nervosa, por quê?
O que aconteceu para que fique dessa maneira?
— Nada! Nada aconteceu.
— Como nada?
Deve ter acontecido algo muito grave.
Estou sentindo cheiro de homem.
Júlia se espantou:
— Como? O que a senhora disse?
— Para uma moça, bonita como você, ficar da maneira como está, posso apostar que o culpado de tudo é um homem.
Estou certa?
Júlia não respondeu.
Começou a chorar desesperadamente.
Soluços vinham do fundo do seu ser.
Natália deixou que ela chorasse.
Alzira olhou para Ciro e sorrindo, disse:
— Agora ela vai ficar bem, Ciro.
Natália colocou seu braço no ombro de Júlia e trouxe sua cabeça para junto de si.
Enquanto Natália, em silêncio, acariciava seus cabelos.
Júlia, desesperada, aconchegou-se a ela e continuou chorando.
Alzira e Ciro permaneceram ali durante todo tempo.
Depois de chorar muito, Júlia, parecendo lembrar-se de onde estava, afastou-se de Natália e, com um sorriso envergonhado, disse:
— Desculpe, senhora...
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:14 pm

— Não tem do que se desculpar.
Você estava sofrendo e precisava chorar, se não fizesse isso, seu coração poderia estourar.
— A senhora não me conhece e, mesmo assim, tentou me ajudar...
— Para dizer a verdade, moça.
Espere. Meu nome é Natália.
Como é o seu?
— Júlia.
— Júlia?
É o nome da minha filha!
Assim como você, ela também é muito bonita.
Júlia sorriu.
Natália continuou:
— Como eu estava dizendo, Júlia.
Sou uma pessoa calada, nem gosto de conversar muito.
O único com quem converso é o Duque, meu cachorrinho.
Ele não é lindo?
— É, sim, muito bonito.
— Pois é, não sou de conversar muito.
Gosto de ficar na minha casa.
Só saio para passear com Duque.
Tenho duas filhas que já estão casadas cuidando das suas vidas, por isso, não estou entendendo o que aconteceu hoje.
Eu estava andando com Duque, como faço todos os dias e, de repente, me deu vontade de me sentar.
Olhei e vi este banco.
Sentei e vi que você não estava bem.
— Não estava mesmo e ainda não estou...
— Bem, como eu disse, não gosto muito de conversar, mas sou boa ouvinte.
Se quiser me contar o que aconteceu, prometo ouvir em silêncio.
Júlia olhou para aquela desconhecida e não entendeu o que estava acontecendo.
Sem saber por que, começou a contar tudo o que havia acontecido e terminou dizendo:
— Ele foi embora sem dizer uma palavra.
Ele me ignorou, agiu como se eu não existisse...
Natália, após ouvir Júlia, começou a rir.
— Do que a senhora está rindo?
Não há motivo para risos!
Estou desesperada!
Estou desempregada e sem chance alguma de recuperar o meu emprego anterior!
Fui enganada, humilhada!
Não tenho mais nada nesta vida!
Estou cansada de tanto sofrimento, parece que nasci marcada para sofrer!
Estou cansada de viver!
Não aguento mais, o melhor é morrer!
— Desculpe-me, Júlia.
Você tem razão, este não é momento para rir, só que não consegui me conter.
— Por quê?
— Eu não havia dito que estava me cheirando a homem?
Eu estava com razão, não estava?
— Estava, mas como podia saber?
Natália voltou a rir:
— Você acha que eu nasci velha como estou hoje?
Não, Júlia.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 31, 2017 9:14 pm

Fui criança, adolescente, jovem adulta e agora sou velha.
Tive uma vida intensa e, todas as vezes que me senti assim como você está agora, o motivo sempre foi um homem.
— Todas as vezes?
Houve mais do que uma?
— Tantas que perdi a conta.
— A senhora não está falando a verdade...
— Estou falando a verdade, Júlia e garanto a você que se esta foi a primeira vez que se desiludiu com um homem, outros surgirão e passarão por sua vida.
Serão muitos e isso só vai terminar quando encontrar aquele com o qual viverá e formará sua família.
Até lá, minha filha, esteja preparada.
Os homens são fracos.
Claro que existem alguns que agem direito, mas a maioria deles faz o que Anselmo fez, simplesmente, depois de iludir a mulher, desaparecem, sem se despedir.
Eles não têm coragem de enfrentar uma situação difícil.
— A senhora tem certeza disso?
Não é só o Anselmo que agiu assim, outros fazem a mesma coisa?
Natália voltou a rir:
— Muitos homens e mulheres fazem isso, Júlia.
Isso sempre aconteceu, e acho que vai continuar para sempre.
Por isso, minha menina, levante a cabeça e não perca seu tempo chorando por alguém que não a merece.
— Não contei tudo.
— Tem mais?
Estou aqui para ouvir você.
Quer me contar o resto?
— Tenho mais um problema.
Talvez a senhora possa me ajudar, conhecer alguém que possa me livrar deste problema.
— Que problema?
— Acabei de saber que estou grávida...
— Desde quando gravidez é um problema?
Pensei que estivesse com uma doença incurável...
— Eu quero muito um filho, mas não agora.
A senhora não entendeu o que eu disse?
Não tenho emprego nem lugar para morar e, agora que estou grávida, é que não vou arrumar um emprego mesmo.
— Se eu tivesse lugar, levaria você para morar comigo.
Mas moro em um quarto, onde cozinho e durmo.
Não tem lugar, mas não se preocupe, Deus proverá.
— Deus? Que Deus?
Esse que me escolheu para que eu sofresse dessa maneira?
Esse Deus que fez com que eu não conhecesse meus pais, que fez com que eu fosse abandonada por eles?
Esse Deus que fez com que eu fosse criada em um orfanato e que, agora me manda essa criança que eu não posso ter?
Desculpe-me, senhora, mas não posso acreditar nesse Deus.
Sempre fui sozinha!
Nunca tive ninguém olhando por mim!
Ainda intuída por Alzira, Natália perguntou:
— Você disse que foi criada em um orfanato?
— Sim, fui abandonada no dia em que nasci.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:37 pm

— Isso é muito triste, mas para que isso acontecesse, teve uma mãe que permitiu que nascesse, não teve?
— É verdade...
— Durante sua vida, nos momentos difíceis, não teve alguém que a ajudasse?
Que cuidasse de você?
Júlia pensou um pouco e respondeu:
— Teve dona Neide.
Ela sempre me tratou com carinho, me incentivou a estudar e a ter uma profissão.
Quando me formei, ela encontrou um emprego aqui nesta cidade.
— Está vendo?
Ela fez o que eu fiz pelas minhas filhas e o que qualquer mãe faz.
Embora não fosse sua mãe, agiu como se fosse.
— Porém, dois meses depois de eu vir para cá, ela sofreu em ataque do coração e morreu.
Também ela me abandonou...
— Veja o que aconteceu.
Ela só morreu depois de você estar encaminhada.
Você contou que, quando precisou de um lugar para morar, encontrou sua amiga, como é mesmo o nome dela?
— Sueli.
— Ela, sem conhecer você, deixou que morasse na sua casa e é sua amiga.
Nunca esteve sozinha, Júlia!
Mesmo agora, olhe o que está acontecendo. — Natália disse rindo.
— Por que está rindo?
— Olhe o que estamos fazendo agora.
Sem saber bem por que, me sentei neste banco, começamos a conversar e você está desabafando.
Nunca fui religiosa.
Sempre achei que era uma perda de tempo, mas de uma coisa eu tenho certeza, enquanto tivermos fé, tudo se acerta.
A vida se encarrega de colocar as coisas no seu lugar.
Você ainda vai encontrar um homem, se casará e será feliz com seu filho.
— Isso é o que me assusta.
— Por quê?
— Estou morrendo de raiva de Anselmo.
Em certos momentos desejo que ele morra, mas, sinto que, se ele aparecesse, eu o perdoaria imediatamente e me esqueceria de tudo o que fez.
Não consigo enxergar minha vida sem ele.
— Olhe como é a vida, Júlia.
Por mais que ela mude, que se modernize, certas coisas continuam sempre iguais.
Os homens continuam enganando e iludindo as mulheres e, na sua maioria fugindo de suas responsabilidades; elas, continuam perdoando.
— A senhora tem razão, mas fazer o que, não é?
— O dia em que a mulher reconhecer o seu valor, isso mudará, Júlia.
Porém, esse dia está muito distante.
Natália se levantou e sorrindo, disse:
— Agora, preciso ir.
Tenho de preparar meu almoço.
Boa sorte, Júlia.
Espero que tudo dê certo na sua vida.
Pense bem, antes de tomar qualquer atitude de que possa se arrepender mais tarde.
Puxando a coleira do cachorro, disse:
— Vamos embora, Duque!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:38 pm

Segurando o cachorro, se afastou.
Júlia ficou olhando e pensando:
Que mulher é essa, que não conheço e que me fez tão bem?
Levantou-se e começou a caminhar.
Alzira e Ciro, embora soubessem que os vultos estavam por perto, sorrindo caminharam ao seu lado.
Júlia andou por muito tempo, sempre pensando:
Embora aquela senhora tenha dito tudo aquilo, sinto que não vou conseguir.
Como ter, educar e criar uma criança?
Como posso viver sem um emprego ou um lugar para morar?
Não quero que meu filho seja criado em um orfanato, como eu fui nem que seja adoptado por uma família que não o ame ou cresça achando que foi abandonado por mim como aconteceu comigo.
O pior de tudo é saber que não conseguirei viver sem Anselmo.
Não tem outra maneira, o melhor que tenho a fazer é dar fim a minha vida e levar comigo o meu filho.
Ao ouvirem aquilo, os vultos se aproximaram e começaram a rodopiar em volta dela e a envolveram com uma energia densa.
— Eles voltaram, Ciro!
— Voltaram, Alzira!
Ela mudou de pensamento rapidamente e os atraiu novamente.
— Vamos jogar luzes sobre ela para que eles se afastem.
— Podemos fazer isso, mas sabe que nossas luzes não conseguem atravessar essa névoa.
Tudo depende do desejo dela, somente dela.
Júlia, sem imaginar a luta que estava sendo travada no plano espiritual, continuou andando.
Viu uma mercearia e entrou.
Parou junto ao balconista e, com voz firme, falou:
— Estou tendo problemas com ratos, o senhor tem algum veneno eficaz?
— Tenho sim. Espere, vou pegar.
Voltou com o veneno, entregou-lhe, dizendo:
— Precisa colocar este veneno por toda a casa, principalmente nos cantos.
Em poucos dias, todos os ratos estarão mortos.
Mas, se tiver crianças ou animais, tome cuidado, pois ele é muito forte.
Ela, tentando sorrir, disse:
— Não se preocupe, não tenho crianças nem animais.
Pagou o veneno e saiu.
Durante todo o caminho de volta, continuou pensando em como faria para tomar o veneno.
Vou esperar Sueli sair para o trabalho.
Preciso escrever um bilhete.
Nesse bilhete, vou pedir a Sueli que conte ao Anselmo o que ele fez comigo.
Quero que ele sofra e que se sinta tão culpado que nunca mais consiga ser feliz.
Vou pedir também, que ela procure a mulher dele e que conte o que aconteceu.
Vou morrer, mas ele vai pagar pelo que me fez!
Chegou a casa. Sueli ainda dormia.
Foi para seu quarto e se deitou.
Tentou dormir, mas os vultos não permitiam.
Rodopiavam, riam e falavam sem parar em como seria bom depois que ela morresse, pois poderia descansar.
Ansiosa, Júlia resolveu sair de casa.
Sueli, na mesma hora de todos os dias, se levantou e viu que Júlia não estava em casa:
Deve estar procurando emprego.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:38 pm

Bem, preciso ir.
Pegou a bolsa e saiu.
Júlia, sempre acompanhada pelos vultos, por Alzira e Ciro, por conhecer o horário em que ela costumava sair, ficou escondida em uma travessa da rua de onde podia ver seu apartamento.
Assim que viu Sueli sair, foi para casa.
Entrou e imediatamente, pegou um copo, encheu com leite, foi para a sala.
Depois de colocar o copo sobre a mesa, pegou um caderno e uma caneta, sentou-se.
Escreveu o motivo pelo qual estava tomando aquela atitude.
Pediu perdão a Sueli e pediu que fizesse com que aquela carta chegasse às mãos de Anselmo e de Suzana.
Sentou-se, pegou o copo, olhou para ele sorriu.
Os vultos se aproximaram ainda mais, fazendo com que a névoa ficasse mais densa.
Alzira e Ciro, agora, acompanhados por Neide, chorando, tentavam jogar as luzes que não chegavam até Júlia.
Júlia ficou olhando para o copo.
De repente, lembrou-se do que Natália havia dito.
Lembrou-se de Neide, de Teca, Altair e de Sueli.
Lembrou-se de quanto eles a haviam ajudado para que tivesse uma vida feliz.
Pensou:
O que estou fazendo?
Como posso me matar e o pior, matar o meu filho?
Como posso dar fim a uma vida que tantos ajudaram a construir?
Não, não vou fazer isso.
Mesmo sem família, com a ajuda de todos eles, consegui chegar até aqui!
Não tenho o direito de decepcioná-los!
Não vou fazer isso!
Colocou o copo de volta sobre a mesa e começou a chorar:
Não sei o que vai acontecer com minha vida.
Mas vou tentar criar meu filho e se não conseguir, vou colocá-lo em um orfanato ou em uma casa qualquer.
Não tenho o direito de impedir que nasça, que viva!
Alguém vai cuidar dele!
Vou continuar com minha vida, tenho fé que vou encontrar um emprego, um lugar para morar e tentar ser uma boa mãe!
Naquele instante, a névoa se desfez e as luzes dos amigos invadiram toda a sala o que fez com que os vultos desaparecessem.
Alzira, ao ver que eles desapareceram, sorrindo, disse:
— Como dizem, onde há luz não existe escuridão.
Graças a Deus, desta vez, ela conseguiu resgatar tudo o que havia feito.
Deus seja louvado.
Júlia pegou o copo foi até a pia e o despejou.
Olhou à sua volta e pensou:
Esta casa está precisando de uma limpeza!
Quero que tudo à minha volta, esteja claro e limpo!
Ligou o rádio e uma música se fez ouvir.
Pegou uma vassoura, produtos de limpeza e começou a limpar a casa.
Algumas horas depois, tudo estava limpo e em seu lugar.
Satisfeita, pensou:
Esta vida, apesar de tudo é maravilhosa!
Quero viver por muito tempo!
Quanto ao Anselmo, como disse a dona Natália, não me merece!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:38 pm

O que preciso fazer é agradecer a este apartamento que, por tanto tempo me serviu de abrigo e desejar que aqueles que vierem morar aqui, sejam felizes.
Agora, vou tomar um banho.
Depois, vou ler um desses livros de Sueli.
Segundo o que li, tudo está sempre certo e, todos temos amigos que estão e sempre estarão ao nosso lado e que, na medida do possível, nos ajudam.
Será que tenho algum amigo espiritual?
Devo ter, já que tenho tantos aqui na Terra...
Quando Sueli chegou, ela ainda estava lendo.
Assim que entrou, viu que o apartamento estava limpo e, surpresa, perguntou:
— Passou o dia limpando o apartamento, Júlia?
— Não! Somente algumas horas.
— Vejo que está lendo um dos meus livros.
Está gostando?
— Para dizer a verdade, acho um tanto fantasioso.
— Por que diz isso?
—Nele diz que tudo está sempre certo.
Que para tudo o que nos acontece há sempre um motivo, mas, o que mais me agradou, embora não acredite, é imaginar que temos amigos espirituais nos acompanhando em todos os momentos difíceis.
— Por que não acredita?
— Não sei, seria bom demais, não seria?
— Não acho que seria, acho que é!
Hoje, depois de tudo o que passei com Nilson e, agora, com toda a felicidade que estou sentindo ao lado de Eduardo, acho que, se não tivesse tido ajuda do céu, não teria conseguido.
— Pode ser que tenha razão.
Se for verdade, agora mais do que nunca, vou precisar deles.
— Por que agora?
— Estou grávida...
— O quê?
— Estou grávida...
— Isso é óptimo, Júlia!
Uma criança deve ser sempre bem-vinda!
É a oportunidade para um espírito renascer, resgatar e cumprir sua missão.
— Tirando essa parte de reencarnação, acredito nisso que diz, mas passou pela sua cabeça que não tenho emprego e que, estando grávida, dificilmente encontrarei outro?
Quando você se casar, vou precisar me mudar e não vou ter dinheiro para pagar o aluguel em lugar algum.
Não sei o que fazer.
Só me resta acreditar nos meus amigos invisíveis para me ajudarem.
Sueli começou a rir;
— Do que está rindo, Sueli?
— Parece que seus amigos espirituais já estão ajudando você, Júlia!
— Não estou entendendo.
— Hoje, tive um problema sério no restaurante.
Com tanto para fazer, esqueci de pagar uma conta e vou ter de pagar multa.
Não é a primeira vez que acontece.
Percebi que precisava de alguém para cuidar da parte financeira.
No mesmo instante, lembrei-me de você.
Gosto de cozinhar, mas em matéria de números, sou um fracasso.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:38 pm

Você é a única pessoa que conheço em quem tenho confiança para que possa fazer esse trabalho.
— Decidiu isso agora?
— Não! Ia conversar com você assim que chegasse, mas nossa conversa tomou outro rumo.
Eu nem sabia que estava grávida.
— Penso que, após saber, tudo mudou.
— Não! Vai ter essa criança e ela vai ser criada com muito amor!
O mais estranho foi que quando decidi contratar você para trabalhar comigo, Rosana me telefonou para falar sobre o casamento.
Contei a ela minha decisão e que você ia se mudar assim que eu me casasse.
Ela disse que não tem de se mudar, que não precisa do apartamento e sabe que ele está sendo bem conservado.
— Está brincando, Sueli!
— Não, Júlia! É verdade!
Vai trabalhar comigo, claro que não posso pagar o que recebia na outra empresa, mas vai ficar bem.
Vamos ter essa criança, Júlia!
Ela vai ser a mais feliz deste mundo!
Júlia sem conseguir deixar de rir, feliz, olhou para o alto e falou:
— Acho que tenho amigos, sim!
— Claro que tem!
Só que eles não estão no alto! Estão ao lado de você e ao lado de todos nós!
— Como é que sabe, Sueli?
— Não sei como, só sei que eles estão aqui!
— Estou muito feliz, Sueli!
Agora, para que minha felicidade seja completa só falta Anselmo voltar.
— Você quer que ele volte?
Quer ficar com ele?
— Claro que sim.
Minha vida só será completa, se ele estiver ao meu lado para podermos criar nosso filho.
Sueli olhou para ela.
Sentiu vontade de criticar, mas lembrou-se de como ficou quando Nilson a abandonou.
Simplesmente sorriu e falou:
— Está certa.
Deve correr atrás de sua felicidade.
Agora, vamos dormir.
Amanhã preciso mostrar a você a bagunça do meu escritório.
— Não se preocupe.
Em pouco tempo vai estar tudo em ordem.
Você não vai se arrepender por ter me contratado.
— Sei que não, Sueli. Boa-noite.
— Boa-noite, Júlia.
Entraram em seus quartos e logo depois, estavam dormindo.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:38 pm

Sentindo na pele
Suzana abriu os olhos e olhou para o relógio.
Virou-se para Anselmo e chamou:
— Anselmo!
São quase dez horas, você não vai trabalhar?
Ele também abriu os olhos e, sorrindo, respondeu:
— Hoje é sábado, Suzana...
— É mesmo! Não dormi bem a noite.
Só consegui dormir lá pelas seis horas.
Nessas horas, dormi tanto que até me esqueci de que hoje era sábado.
Ele, enquanto se levantava, disse:
— Continue deitada.
Vou até a padaria para comprar pão fresco.
Quando voltar, vou preparar para você um café como aquele servido em um hotel.
Depois, vamos até a praia.
Preciso tomar um banho de mar e tomar um pouco de sol.
Ela olhou para ele, mas permaneceu calada.
Ele, sem perceber que ela estava diferente, levantou-se e saiu.
Suzana também se levantou e foi para a cozinha.
Colocou água em uma chaleira e entrou no banheiro para tomar banho.
Enquanto se banhava, pensava:
Não posso deixar passar de hoje.
Durante a noite, pensei muito e não há outra maneira.
Chegou a hora de eu tomar uma decisão.
Sei que não vai ser fácil, mas não existe outra maneira.
Anselmo passou pela portaria, cumprimentou o porteiro e foi até a padaria.
Comprou pão, frios e um bolo.
Passou por uma quitanda, comprou frutas e voltou para casa, pensando:
Suzana anda estranha.
Embora tenham se passado mais de três meses, e ela estar envolvida com a organização da cooperativa que está disposta a montar, acho que ainda não se acostumou em morar aqui.
Estou tão bem na empresa, preciso fazer com que a vida dela seja a melhor possível.
Entrou no prédio e, quando estava passando pela portaria, o porteiro disse:
— Bom-dia, seu Anselmo.
Olhe! Este telegrama acabou de chegar.
É para dona Suzana.
Anselmo, estranhando, pegou o telegrama e foi para o apartamento.
Quando entrou, Suzana estava terminando de colocar a mesa para que tomassem café.
Rodrigo estava no banho.
— Suzana, o porteiro me entregou este telegrama.
É para você.
Ela, surpresa, olhou para a mão dele.
— Para mim? De quem será?
— Só vai saber quando abrir.
Pegou o telegrama e abriu.
Era do doutor Santana, seu antigo chefe.
Tremendo, Suzana leu:
Suzana.
Preciso que venha conversar comigo.
Estou desesperado sem você.
Está tudo uma confusão, sinto que só você poderá arrumar tudo aqui.
Telefone ou venha.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:39 pm

Tenho uma óptima proposta para que retorne ao trabalho, inclusive com aumento de salário.
Santana
Com o telegrama na mão, Suzana ficou olhando para Anselmo que, ao ver sua palidez, pegou o telegrama e leu.
— Quem mandou esse telegrama, Suzana?
Quem tinha seu endereço?
— Quando saí do meu emprego, deixei o meu endereço com Olga, minha secretária, para que se soubesse de algum emprego, me escrevesse.
Com este telegrama, tenho muito que pensar.
— O que significa isso que está dizendo, Suzana?
— Significa que estou indo embora, Anselmo.
— Indo embora, porquê?
Pensei que estivesse feliz em morar aqui e com a organização da cooperativa.
— Estou muito feliz.
Minha mãe sempre disse que para tudo que nos acontece, sempre existe um propósito que, embora no momento em que estamos vivendo não entendamos, com o tempo ele se demonstra.
O propósito de eu ter vindo para cá, foi o de ajudar artistas que sempre foram explorados.
Durante todo esse tempo em que estive aqui, tenho conversado com muitos deles e estou conseguindo fazer com que entendam que o dia em que se unirem, suas peças serão vendidas por um preço justo.
Todas as peças de arte serão repassadas à cooperativa e ela se encarregará de dar o preço e de vender.
Estou dizendo que as peças poderão ser mandadas para outros estados e até, por que não, para o exterior.
Está dando certo, Anselmo, muitos deles já concordaram.
Com o tempo, outros concordarão.
— Está vendo como tudo corre bem, Suzana?
Não entendo por que disse que quer ir embora...
— Preciso ir embora.
Não posso mais continuar casada com você.
— Não estou entendendo.
É por causa do seu emprego?
Quando viemos para cá, você disse que era porque me amava!
Disse que queria salvar o nosso casamento!
— Eu estava mentindo, Anselmo.
— O que?
— Isso o que ouviu.
Eu estava mentindo.
Não entendeu o que está escrito nesse telegrama?
Eu vim para cá porque fui despedida!
Despedida! Entendeu?
Se isso não tivesse acontecido, jamais teria acompanhado você!
Jamais teria largado meu carro, meu apartamento para vir morar neste apartamento minúsculo, longe da minha cidade e das pessoas que eu conheço!
Anselmo, ao ouvir aquilo, abriu a boca.
— Estava mentindo?
Foi despedida?
— Sim. Fui despedida no dia em que achei que ia ter uma promoção.
No dia em que, depois de ser despedida, fui procurar você para contar o que havia acontecido e você estava com aquela moça, Lembra-se?
No mesmo instante, Anselmo lembrou-se daquele dia e de Júlia.
Tentou afastar a imagem dela de seu pensamento.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:39 pm

Perguntou:
— Agora que vai recuperar seu emprego quer voltar para lá?
— Pelo que entendi, nesse telegrama, eles me querem de volta e poderei negociar um aumento de salário.
Com esse dinheiro, poderia voltar para o meu apartamento.
Pensar que eu reclamei tanto por não ter sido vendido.
Poderia comprar um carro novo e voltar ao meu trabalho!
Só que eu não quero mais!
— Não quer?
— Não! Não quero voltar para aquela vida de trabalho, de pressão.
Embora eu tivesse dinheiro e morasse muito bem, tivesse o carro do último tipo, não tinha tempo de olhar para o céu, para a lua.
Não tinha tempo para brincar com meu filho nem para tomar um banho de mar ou de ficar deitada na praia, tomando sol.
Eu não vivia, Anselmo!
Hoje eu vivo!
Eu tinha tudo o que queria, mas nada de que precisava!
Aprendi que a felicidade não está naquilo que você possui, mas nas pequenas coisas.
Aprendi que não importa o tamanho da casa em que se viva, mas, sim, em como se sinta dentro dela.
Aprendi que, para ser feliz, precisamos de pouco!
— Você está me deixando louco, Suzana!
Já que encontrou tudo isso aqui, por que disse que vai embora?
— Para ter toda essa felicidade que eu disse ter encontrado aqui, faltava apenas uma coisa.
— O que?
— Um amor, Anselmo.
O que também encontrei.
Anselmo, que estava sentado, levantou-se e gritou:
— O que está dizendo, Suzana?
Encontrou um amor?
— Encontrei.
Um amor como nunca senti em minha vida.
Alguém que me faz feliz somente por estar ao meu lado.
— Vai me deixar por outro?
— Sim.
— Quem é ele?
— Um rapaz que mora na Vila, que é pintor.
— Um pintor? Onde vai morar?
Em um barraco qualquer?
Você que sempre quis o que havia de melhor!
— Sim. Não acabei de dizer que é preciso de pouco para ser feliz?
— Você enlouqueceu!
— Não, Anselmo!
Nunca estive tão lúcida.
Depois de ler esse telegrama, estou mais feliz ainda.
Tenho a certeza de que não quero voltar para aquela vida.
— Como vai viver?
— Tenho um pouco de dinheiro guardado.
Conversei com alguns comerciantes daqui e disse que as coisas iam mudar.
Que eles teriam de pagar o preço justo pela mercadoria.
A princípio disseram que não comprariam mais.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:39 pm

Porém, com o passar do tempo, perceberam que sem as peças não teriam o que vender e aceitaram o preço que pedi.
Os negócios estão bem.
Quando a cooperativa estiver andando sozinha, vou levar essas peças para outros estados.
— O que vai acontecer com Rodrigo?
— Vai continuar comigo, é claro.
Ele vai ser criado em um ambiente saudável, junto à natureza.
— Não pode fazer isso!
Ele é meu filho!
Não vou permitir que o crie sem conforto algum, vivendo em um barraco.
— Várias vezes você disse que, para ele, seria melhor ser criado aqui, pois o ar é saudável.
Também acho.
Você vai ter que decidir.
Sabe que trabalhando da maneira como trabalha não tem como cuidar dele.
Terá de contratar uma empregada para que seja cuidado.
Sabe que, desde que estamos aqui, ele se tornou outra criança, feliz e saudável.
Muito se deve por estar mais tempo ao meu lado.
Quero que fique comigo, mas não quero brigar por isso.
Portanto, se achar que é melhor para ele ficar com você não vou me opor.
Estando comigo, você sabe que ele estará bem e poderá vê-lo sempre que quiser.
Ele é seu filho e sempre será.
— Vai abrir mão de seu filho por causa de um homem?
— Não! Estou abrindo mão do meu filho, porque não quero que ele seja usado para me obrigar a ficar ao seu lado.
Quero que ele fique distante das nossas possíveis brigas.
Estou fazendo isso para que, mais tarde, quando tiver de cuidar de sua vida, eu não o culpe pela minha infelicidade.
Estou tentando fazer você compreender que, para mim, nada é mais importante do que a minha liberdade de escolher.
Não sei por quanto tempo vou viver, mas desejo que esse tempo seja da maneira que eu escolher.
— O que vai acontecer comigo?
— Você, também, nunca foi feliz ao meu lado.
Tivemos alguns momentos no início, mas, depois, você sabe que tudo terminou.
Tanto é verdade que encontrou outra mulher e que só não está com ela, porque eu descobri.
Volte para ela ou encontre outra.
Para o homem, mulher nunca falta.
— Ela ia vir comigo e só não veio porque você mentiu, me enganou!
— Não, Anselmo!
Você agiu da maneira que atendesse sua conveniência!
Já que ela queria vir com você, deve estar esperando até agora.
Sinto que não vai ter problema algum.
Agora, preciso ir embora.
Enquanto você fica pensando no que vai fazer com sua vida, vou para a Vila.
Tenho muito trabalho.
Quando decidir o que quer para você, para nós e para Rodrigo, vá até lá e resolveremos.
Pegou uma mala.
Colocou algumas roupas suas e de Rodrigo.
Depois, pegou o menino fez com que beijasse o pai e, calada, saiu.
Anselmo ficou ali, parado, sem saber o que fazer.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 8:39 pm

Não entendia por que Deus estava fazendo aquilo com ele.
Não entendia por que Suzana o estava abandonando, trocando por outro homem, logo agora que parecia que tudo estava bem.
Lembrou-se de Júlia:
O que será que aconteceu com ela?
Será que ainda está me esperando?
Como pude abandoná-la da maneira como fiz?
Não sei viver sozinho...
Deitou-se olhando para o tecto, começou a se lembrar de tudo o que havia acontecido em sua vida e, principalmente, de Júlia.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

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