Apenas Começando / Elisa Masselli

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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:10 pm

— Não será necessário.
Meu trabalho está em dia.
Além do mais, trabalho há muito tempo com Jorge e ele poderá dar conta de todo o trabalho até que contrate alguém.
Não posso esperar.
Preciso me mudar daqui a alguns dias.
— Sendo assim, só posso aceitar o seu pedido e desejar uma boa sorte.
Espero que tudo dê certo na sua vida.
— Obrigada, vai dar certo!
Tenho certeza.
— Quando pretende deixar a empresa?
— Agora.
— Agora?
— Sim. Preciso preparar minha viagem.
Não se preocupe com meu trabalho, está tudo em ordem.
A pessoa que for me substituir não vai ter problema algum.
Jorge, que trabalha comigo há muito tempo, está por dentro de tudo.
Prometo que o senhor não vai ter problema algum.
Ele se levantou e estendeu a mão e, sorrindo, disse:
— Boa sorte.
Ela apertou a mão, que ele estendia e, também sorrindo, saiu da sala, foi para sua mesa e começou a separar suas coisas pessoais.
Jorge, seu companheiro de trabalho, estranhou:
— O que está fazendo, Júlia?
— Arrumando minhas coisas.
Pedi demissão e estou indo embora.
— Indo embora, por que, para onde?
— Vou me mudar para Recife.
— Você nunca disse que estava de mudança, aliás, nem que pretendia se mudar.
Ela sorriu:
— Nem eu mesma sabia, mas é verdade, estou indo.
Minha vida, em um segundo mudou completamente.
— Essa sua decisão tem alguma coisa a ver com o que aconteceu, ontem, no restaurante?
— Não! Não posso negar que logo depois do que aconteceu, tive vontade de sumir.
Ninguém sabe o que aconteceu, mas como é meu amigo e conhece tudo sobre minha vida, vou contar o que aconteceu.
Contou a ele tudo o que havia acontecido e o que Anselmo havia lhe dito.
Terminou dizendo:
— Como vê, estou mudando minha vida para melhor.
No final, foi bom eu ter passado por aquela vergonha no restaurante.
Vou ficar bem, Jorge e vou ser feliz.
— Por tudo o que você me contou, ele falou tudo isso, antes de conversar com a mulher.
Como vai ficar se ela não quiser que ele vá embora, não aceitar a separação?
Sou homem e, como homem, sei que muitas vezes, nossos sentimentos ficam para trás e não gostamos de conflitos.
Acho que você deveria esperar ele conversar com a mulher e, só depois, tomar essa atitude extrema.
Ela começou a rir:
— Não se preocupe.
Anselmo é diferente; ele sabe muito bem o que quer da vida.
Isso não vai acontecer, mas, mesmo que ela não queira a separação, ele não vai voltar atrás, não.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:10 pm

Ele me ama! Disse isso várias vezes.
Não podia estar mentindo e, garanto que foi sincero.
Também, mesmo que isso aconteça, já é tarde.
Pedi minha demissão e quanto a isso, não há volta.
— Está bem, Júlia.
Sei que agora já é tarde.
Desejo, de coração, que você esteja certa ao tomar essa atitude e que seja feliz.
Já se despediu das pessoas?
— Você sabe que eu sou um pouco tímida e, por isso, tenho dificuldade em fazer amizades.
Mesmo assim, conversava com algumas pessoas, mas depois que todos ficaram sabendo do meu envolvimento com Anselmo, passaram a me ignorar.
Eu não me preocupei com isso, pois, à minha maneira, estava feliz com ele.
Você foi o único que não mudou de atitude comigo.
— As pessoas têm uma facilidade imensa em julgar.
É mais fácil criticar o que os outros estão fazendo, do que olhar para seu próprio umbigo.
E isso é antigo, Júlia.
Jesus já falou sobre isso.
O preconceito assim com o orgulho e o poder, são sentimentos que atrasam a caminhada do espírito.
— Caminhada do espírito.
Do que está falando, Jorge?
— Sigo uma Doutrina que nos ensina que cada um de nós é um único que está em uma longa caminhada para a perfeição com seus acertos e defeitos.
Ensina também que cada um de nós tem seu livre-arbítrio e por ele é responsável.
— Conversei ontem com a Sueli e ela me falou algo sobre essa Doutrina, mas não prestei muita atenção.
Jorge voltou a sorrir:
— É sempre assim, Júlia.
As pessoas demoram um pouco para sentirem vontade de acreditar em alguma coisa.
— Eu sou uma dessas pessoas.
Nunca senti necessidade de seguir religião alguma.
— Não estou falando em religião, Júlia.
Estou falando em uma força maior.
Aquela a que damos o nome de Deus.
— Não entendi.
Essa força, esse Deus não está nas religiões?
— Não, Júlia.
Ele está em cada um de nós.
As religiões servem para nos ajudar a encontrar essa força, mas, mesmo que não tenhamos religião alguma, no dia em que chegar a hora de a encontrarmos ou precisarmos dela, ela se fará presente e estará ao nosso lado.
Deus é criador de todos nós e não se preocupa se seguimos alguma religião ou nenhuma.
Ele não julga seus filhos.
Espera que cada um encontre o caminho a seguir.
Para isso nos deu o livre-arbítrio.
Todos nós aprendemos desde crianças o que é certo e o que é errado.
Basta tentarmos levar nossa vida da maneira que achamos certo.
— Isso depende, Jorge.
— Depende do que, Júlia?
— O tempo passa muito depressa e tudo muda também, Jorge.
Muita coisa que ontem era errada, hoje não é mais e outras que eram certas, também não são mais.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:10 pm

— Nisso você tem razão, o tempo passa e as coisas mudam.
Porém, Júlia, o que muda são as leis de costumes, mas as morais de ética, essas não mudam nunca por mais que o tempo passe e se modernize e, por mais que as pessoas insistam em ignorá-las.
Desde o início da humanidade, matar e roubar, trair e enganar, para não falar de outras, são erros imperdoáveis e continuarão a ser.
Apesar do progresso, material e científico, existem forças menores que ainda dominam o ser humano.
Você disse que as pessoas ao saberem que estava com Anselmo a julgaram e condenaram.
O preconceito, não é só com a cor ou raça das pessoas.
Ele está em toda parte.
Do presidente desta empresa perante nós, seus funcionários por sentir-se melhor.
Ele está presente em nós, contra aquelas pessoas que trabalham em uma função abaixo da nossa, como faxineiros, cozinheiros, por nos sentirmos melhores.
E nessas pessoas contra aqueles que não têm um emprego.
Como pode ver, de uma maneira ou outra, todos nós somos preconceituosos.
Da mesma maneira acontece com o poder.
— O poder existe sim, mas está nas mãos daqueles que têm muito dinheiro.
— Engana-se, Júlia.
O poder não está só nas mãos das pessoas que têm dinheiro.
Qualquer um de nós, na primeira oportunidade que possamos exercê-lo, o faremos com muita tranquilidade.
O poder está na mão do motorista de um carro quando não respeita o pedestre.
Com um funcionário público, quando está atrás de balcão e não atende bem a alguém que precisa de sua ajuda.
Está com o chefe de um departamento de uma equipe, quando não respeita seus comandados.
Está connosco quando não tratamos bem as pessoas que trabalham como domésticas e que estejam em condições menores que a nossa.
E, finalmente, entre outras tantas, está na mão daquele político que se esquece de que foi eleito para criar leis que ajudem a população e só pensa em si mesmo.
Como pode ver, o espírito tem muito a caminhar até alcançar a perfeição.
Ainda não falei sobre o orgulho, mas isso ficará para uma próxima vez.
— Pensando bem, você tem razão, Jorge.
Eu mesma já exerci o poder por várias vezes.
Acho que isso faz parte do ser humano, mesmo.
Vou procurar mudar minha atitude.
Agora estou entendendo o preconceito das pessoas para comigo.
Não vou ligar, estou feliz e como dizem:
metade do mundo fala mal da outra metade. — Júlia disse rindo.
Jorge também riu:
— Apesar de não criticar você, não se esqueça que eu sempre disse a você que se envolver com homem casado poderia terminar mal.
Não foi?
— Verdade. Você cansou de me dizer, mas eu estava apaixonada e nunca dei atenção.
Porém, você estava errado, Jorge.
Meu envolvimento com Anselmo deu certo.
Estamos felizes.
— Fico contente por você, Júlia.
Vejo que está feliz e espero que continue por muito tempo.
Porém, se alguma coisa mudar, nunca perca a fé em um Deus que é um Pai amoroso e que sempre estará disposto a nos dar novas oportunidades.
Quando precisar da força de que falei, sabe que a encontrará.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:10 pm

Júlia abraçou o amigo, dizendo:
— Você está muito sério, hoje, Jorge.
Eu, por minha parte, acho que não preciso procurar essa força em lugar algum.
Estou feliz e pretendo continuar assim.
Jorge, correspondendo ao abraço, falou:
— Seja feliz, Júlia.
Lembre-se de que, se precisar estarei sempre aqui.
Livrando-se do abraço, ela, feliz, disse:
— Obrigada, meu amigo.
Mesmo de longe eu vou mandar notícias.
Obrigada por ter me ajudado durante todo o tempo em que trabalhamos juntos.
Agora preciso ir ao departamento pessoal.
Depois, vou comprar algumas roupas para a viagem.
— Vá com Deus, Júlia.
Júlia, sorrindo, saiu pela porta.
Enquanto isso acontecia com Júlia, Anselmo abriu os olhos e olhou para o relógio que estava sobre o criado-mudo.
De um pulo, levantou-se:
Meu Deus! São quase dez horas!
Como fui dormir assim?
Onde está Suzana que não me acordou?
Entrou no banheiro para tomar um banho.
Logo depois, saiu e, para sua surpresa, sobre a cama estava uma bandeja com café da manhã.
Ao lado da cama e em pé, estava Suzana que, sorrindo disse:
— Bom-dia, meu amor.
Estava esperando que tomasse banho e que viesse tomar café comigo.
Ele quase gritou:
— Por que não me acordou, Suzana?
Sabe que preciso chegar cedo ao escritório!
— Não precisa não!
Depois da noite que passamos que pode até ser considerada como a primeira noite de uma lua de mel, você tem o direito de chegar mais tarde e de tomar um café romântico com sua mulherzinha.
Estou tão feliz por nós e com a nossa mudança!
— Não estou entendendo você, Suzana.
O que está acontecendo?
— Nada! Eu sou quem não entendo essa sua reacção.
Sei que pensa que eu deveria estar muito braba e que deveria querer que fosse embora de casa, mas não foi isso que aconteceu.
Eu entendi que a culpa por você ter encontrado outra mulher, foi minha.
Eu me afastei de você, deixei que o meu trabalho dominasse minha vida e não quero que isso continue a acontecer.
Eu amo você, temos um filho e um casamento que precisam ser defendidos.
Vamos recomeçar, meu amor, e prometo que, desta vez, tudo vai ser diferente.
Estou disposta a fazer de tudo para que nosso casamento continue.
Anselmo, calado, voltou ao banheiro.
Olhou para o espelho e pensou:
Meu Deus! A esta hora a Júlia já deve ter pedido demissão!
O que vou fazer?
Ela não pode ficar desempregada.
Não tem ninguém no mundo.
Preciso ir agora e tentar impedi-la.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:11 pm

Saiu do banheiro, dizendo:
— Não posso tomar café, Suzana.
Estou atrasado, preciso ir agora.
— Claro que pode!
Não está indo à empresa apenas para se preparar para a viagem?
Também preciso me preparar.
Vamos entrar em um acordo e tentar devolver o apartamento e o meu carro.
— O quê? Como devolver o apartamento e o seu carro?
Não pode fazer isso, vai perder muito dinheiro!
— É isso mesmo que ouviu.
Pagamos apenas algumas prestações.
Ainda falta muito tempo para terminarmos de pagar.
Disse que vou perder muito dinheiro, mas perderei muito mais se tentar manter algo que não poderei pagar.
Se vamos viver somente do seu salário, não teremos como pagar por esses luxos desnecessários.
— Desnecessários?
São as coisas mais importantes para você, Suzana.
Por elas trabalhou muito!
— É verdade, mas foi por causa delas que quase perdi meu casamento e você.
Eu disse que mudei e mudei mesmo, Anselmo.
Vou fazer todo o possível para que nós dois e o nosso casamento não termine.
Este apartamento e o carro são apenas coisas.
Enquanto nós somos uma vida.
— Você não está raciocinando, Suzana.
Está sendo precipitada.
Não é preciso fazer nada nesse sentido.
Estou indo a semana que vem para Recife.
Nos primeiros dias vou ficar em um hotel.
Depois, quando eu me instalar, você vai.
Por enquanto, fique no apartamento e com o seu carro.
Enquanto eu estiver fora, você vai poder pensar bem no que representa mudar de vida tão radicalmente.
Com meu salário poderemos viver bem, mas nunca da maneira como você sempre quis.
Teremos uma vida modesta.
— Mas estaremos juntos e é só isso que quero.
Tanto o carro, como o apartamento não são nossos, Anselmo!
Estamos pagando, mas, por enquanto são do banco.
Hoje, depois que você for trabalhar, vou ao banco conversar com o gerente e ver o que precisa ser feito para que esses bens sejam devolvidos.
Quanto a você ir sozinho, não vai, não!
Vou com você e ficaremos no hotel, enquanto você trabalha, vou procurar um apartamento pequeno para que possamos nos mudar.
Precisa ser assim, Anselmo.
Trabalhando como trabalha não vai ter tempo de procurar um apartamento na faixa em que poderemos pagar o aluguel.
Eu vou fazer isso.
Não se preocupe, no final vai dar tudo certo.
Ele, sem argumento e acostumado a fazer tudo o que Suzana desejava, sentou-se para tomar café e pensou:
Parece que ela mudou mesmo.
Será que realmente descobriu que me ama e quer salvar nosso casamento?
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:11 pm

É difícil acreditar, mas vamos tentar.
O que vou fazer com a Júlia?
Ela não vai entender.
Não tenho outra saída, não posso vê-la, ainda mais depois de ter dito que a levaria comigo e que, provavelmente, a esta hora já deve ter pedido demissão.
Não tenho outra saída.
Eu disse a ela que ficaria alguns dias sem aparecer.
Vai ser o tempo suficiente para ir embora com Suzana e recomeçar minha vida.
Júlia vai ter de continuar aqui.
Sei que vai sofrer por algum tempo, mas é uma mulher forte, boa profissional.
Logo me esquecerá, encontrará trabalho e seguirá sua vida.
Alzira que estava ali, ao lado de Ciro, olhou para ele e disse:
— Novamente, Anselmo?
Novamente o mesmo erro...
Ciro, também pesaroso, tocou em seu braço e ambos desapareceram.
Anselmo saiu e Suzana voltou para o quarto e deitou-se novamente.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:11 pm

A história de Júlia
Quando Júlia saiu da empresa, após passar pelo departamento pessoal, já estava na hora do almoço.
Ela olhou em volta para ver se via Anselmo, mas ele não estava ali.
Pensou:
Está na hora do almoço.
Ele deve estar almoçando.
Vou até o restaurante para ver.
Entrou no restaurante, notou que algumas pessoas olhavam para ela, mas não se preocupou.
Com os olhos, percorreu todo o ambiente:
Ele não está aqui.
Deve estar cuidando da nossa viagem.
Antes de se mudar, precisa deixar tudo em ordem.
Vou para casa e me preparar também.
Tomou o ônibus e foi para casa.
Entrou devagar, tentando fazer o menor barulho possível, pois sabia que àquela hora, Sueli estava dormindo.
Foi directo para o seu quarto.
Entrou e fechou a porta, depois, deitou-se sobre a cama.
Não imaginava, mas ao seu lado, e também sobre a cama, sentou-se de um lado, Alzira e do outro, Ciro que ao mesmo tempo, jogavam luzes brancas e brilhantes sobre ela.
Em poucos minutos, Júlia pensou:
Jorge falou tanta coisa que me confundiu.
Eu sempre soube que Deus existia, mesmo sem nunca ter levado esse assunto muito a sério.
Porém, da maneira como ele falou faz com que eu pense mais a respeito.
Estava assim pensando, quando ouviu uma batida, leve, na porta.
— Entre, Sueli.
Disse rindo.
Sueli abriu a porta.
— Eu acordei você?
Tentei não fazer barulho.
— Não, Júlia.
Eu estava acordada quando você chegou.
Estava ansiosa para saber o que decidiu.
Estando aqui a esta hora, só posso deduzir que você pediu demissão no trabalho.
— Pedi, sim.
Estou tão empolgada com minha viagem e com a minha nova vida.
Finalmente, vou ser feliz, Sueli!
— Desejo que isso aconteça.
Estou com fome e curiosa para saber o que aconteceu.
Você já almoçou?
— Não.
— Então vamos para a cozinha.
Vou preparar alguma coisa para comermos e poderemos conversar.
Enquanto se levantava, Júlia falou:
— Estou com fome, mas mesmo que não estivesse não perderia por, nada neste mundo, uma comida feita por você. Vamos.
Na cozinha, Sueli começou a cozinhar.
Júlia sentou-se e ficou olhando a amiga.
— Como foi tudo, Júlia?
— Pedi demissão mesmo.
Vou contar como foi.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:11 pm

— Óptimo, estou curiosa em saber como agiu.
Júlia contou toda a conversa que teve com seu chefe e terminou dizendo:
— Depois de conversar com ele, e, antes de ir para o departamento pessoal me despedi do meu colega de trabalho, o Jorge.
Fiquei surpresa ao saber que ele segue a mesma Doutrina que você.
— Verdade, Júlia?
— Sim. Trabalhei tanto tempo ao lado dele e nunca conversamos sobre religião.
Hoje, não sei por que, ele falou sobre essa Doutrina que segue.
Estranho...
— O que é estranho, Júlia?
— Você me falou ontem sobre isso e hoje ele também.
Os dois praticamente no mesmo dia.
Será coincidência?
— Não existe coincidência, Júlia.
Tudo tem seu tempo e sua hora.
Deve ter chegado a hora de você tomar conhecimento dessa Doutrina.
— Logo agora que estou tão bem e que não quero pensar em outra coisa que não seja a minha felicidade ao lado de Anselmo?
Vamos deixar esse assunto para outro dia.
— Está bem. Conte tudo.
— Acho que sou uma pessoa especial, Sueli.
Embora tenha sido criada em um orfanato e não ter conhecido meus pais, sempre fui muito feliz.
Fui adoptada por uma família que, por um bom tempo, me deram instrução e muito amor.
— Não sabia que você tinha sido adoptada, Júlia.
Nunca falou sobre isso.
— Nunca falo sobre esse assunto, porque eu mesma tento me esquecer.
Diferente, de muitas crianças, tive a sorte de ter sido adoptada por uma família que me deu muito amor.
— Como foi sua adopção e o que aconteceu?
Se quiser, contar, gostaria de saber como foi sua vida até aqui.
Júlia ficou com o olhar distante, pensando.
Depois disse:
— Quando eu me dei por gente, percebi que vivia ao lado de crianças que, assim como eu, não tinham pais.
Porém, isso só começou a me incomodar quando vi que meus amiguinhos iam embora com alguma família.
A cada um que partia, eu sofria muito, pois era a única família que conhecia.
Quando perguntava para onde eles estavam indo, alguém respondia que eles tinham sido adoptados.
Mais tarde, entendi o que era ser adoptado.
Tomei conhecimento de que eles foram viver ao lado de pais e irmãos e que nunca mais seriam separados.
Gostei daquela ideia, de ter um pai e uma mãe e, quem sabe, irmãos.
Parecia ser uma coisa muito boa.
Sempre que um casal chegava ao orfanato eu fazia de tudo para que me notassem, mas eles nunca me escolhiam.
— Deve ter sido muito triste essa separação de seus amigos.
— Foi sim, mas eu sempre tive a certeza de que, um dia, eu também seria escolhida.
Nunca me desesperei, apenas esperei.
Acho que tinha, ao meu lado, um anjo da guarda que me ajudava.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:12 pm

Alzira olhou para Ciro e os dois sorriram.
Júlia continuou:
— Hoje sei que, desde aquele tempo, tive muita sorte.
O orfanato era muito bom.
As crianças tinham o que precisavam para crescerem saudáveis:
alimentação, educação escolar e social.
Só não tínhamos aquele abraço, aquele carinho de mãe.
Isso também não nos incomodava, pois não sabíamos como era, apenas imaginávamos.
— Quando saiu dali?
— Eu ia fazer onze anos e ainda esperava pela família que me levaria embora dali, mas, aos poucos, fui perdendo a esperança, pois todos os casais só queriam crianças pequenas, de preferência recém-nascidas.
Em um domingo, um casal entrou no pátio, onde eu e outras meninas brincávamos.
As meninas que estavam brincando comigo foram para junto do casal.
Em outras vezes, eu teria ido ao encontro deles para que me notassem, mas, daquela vez, preferi continuar brincando, pois sabia que não seria escolhida.
O casal ficou andando por todo o pátio.
Eu continuei fingindo cozinhar com panelinhas de plástico.
A senhora parou diante de mim:
— Por que está brincando sozinha, menina?
— Eu estava com mais algumas meninas, mas elas preferiram ficar ao lado da senhora.
Elas querem ser adoptadas.
— Você, não quer isso?
— Quero, mas sei que isso não vai acontecer.
— Por que está dizendo isso?
— Todas as pessoas que vêm aqui, só querem crianças pequenas.
Na minha idade elas não querem, não...
— Por que acha isso acontece?
— Não sei, mas é sempre assim.
— Pois eu quero justamente o contrário.
Eu e meu marido queremos uma criança na nossa casa, mas não temos mais paciência para cuidar de uma criança pequena.
Elas dão muito trabalho.
— Eu, que estava com a cabeça abaixada, levantei os olhos e olhei nos olhos daquela mulher que me pareceu ser sincera.
Ela continuou:
— Você me parece perfeita.
Quer experimentar?
Pode ir connosco e se gostar poderá morar ao nosso lado para sempre.
— Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, Sueli.
Logo naquele momento em que eu já havia perdido a esperança.
— A vida é mesmo assim, Júlia, nos surpreende a cada momento e na maioria das vezes, quando pensamos que está tudo perdido, na realidade, está apenas começando.
O que aconteceu depois, você foi morar com eles?
— Muito tímida, olhei para ela e respondi:
— Não sei.
A senhora é quem sabe.
— Sendo assim, vou conversar com Neide, a directora do orfanato e ver o que preciso fazer para que você vá morar comigo e com meu marido.
Está bem, assim?
— Eu não respondi, Sueli.
Apenas acenei com a cabeça dizendo que sim.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:12 pm

Ela foi ao encontro de seu marido que estava rodeado por algumas crianças e deve ter falado sobre mim, pois ele, em seguida olhou em minha direcção e sorriu.
Os dois saíram abraçados e eu os acompanhei com os olhos, enquanto entravam no escritório da directora do orfanato.
Meu coração batia forte.
Glória, uma das meninas que era a minha melhor amiga, se aproximou:
— O que a moça falou com você, Júlia?
— Não entendi muito bem, mas acho que ela quer me levar para sua casa.
— Você vai embora. Júlia?
— Ela perguntou quase chorando.
Também chorando, respondi:
— Não sei, Glória, mas bem que eu queria ir embora para uma casa, ter um pai e uma mãe.
Deve ser muito bom...
— Os dias foram passando, Sueli, e eu ficava quase o tempo todo olhando para a porta de entrada para ver se eles voltavam, mas, por muito tempo não voltaram.
Eu já havia perdido a esperança, quando em uma manhã a directora mandou me chamar.
Eu estava na sala de aula e sem saber o que estava acontecendo a acompanhei a secretária.
Ao entrar na sala, levei um susto e parei junto à porta sem coragem de entrar.
O casal estava lá.
A directora, ao ver que eu estava ali, parada, disse:
— Entre, Júlia.
Precisamos conversar.
— Tímida e tremendo muito, entrei.
A directora me apontou uma cadeira, me sentei.
Depois, sorrindo, ela falou:
— Esse casal quer levar você para morar com eles.
Você quer?
— Abaixei a cabeça, não sabia o que responder, Sueli.
Eu queria muito ir morar em uma casa, mas agora, que aquilo estava acontecendo, fiquei com muito medo.
Eu sempre vivi no orfanato, não sabia o que acontecia fora dali.
Não respondi.
Ela voltou a perguntar:
— Você quer ir morar com eles, Júlia?
— Tomei coragem:
— Eu quero, mas estou com medo...
— A senhora levantou-se, segurou minhas mãos e, olhando dentro dos meus olhos, perguntou:
— Medo do que, Júlia?
— Com a cabeça abaixada, respondi:
— Não sei, só estou com medo...
Ela segurou meu queixo e fez com que eu levantasse a cabeça e, continuando a olhar em meus olhos, disse:
— Nunca abaixe a cabeça ou os olhos quando estiver conversando com alguém.
É importante que as pessoas possam ver seus olhos, pois é através deles que qualquer um pode saber quando se está falando a verdade e o que está, realmente, sentindo.
Entendo que você esteja com medo.
O medo do desconhecido atinge todos mós.
Você viveu sempre aqui e tem medo da mudança.
Vamos fazer uma coisa, vamos sair daqui juntos eu, você e o Altair, meu marido.
Vai ficar na nossa casa pelo tempo que quiser.
A qualquer momento, se não se sentir bem, basta falar que a traremos de volta.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:12 pm

Queremos levar você para nossa casa para que seja feliz e faça a nossa felicidade e isso só vai ser possível, se você estiver bem.
— Olhei para a directora que, sorrindo disse:
— Como pode ver, Júlia, você não é obrigada a fazer o que não quiser.
Acho que, com Teca e Altair você tem a chance de ter uma vida muito boa, mas a qualquer momento poderá voltar.
Estarei sempre aqui, torcendo por você, as portas estarão abertas.
Vamos tentar?
— Voltei a olhar para a senhora e para seu marido.
Ambos sorriam, sorri também e acenei com a cabeça dizendo que sim.
Eles também sorriram.
A senhora estendeu a mão que eu peguei.
Ela segurou com força e disse:
— Ainda não sabe o meu nome, não é?
— Com a cabeça eu disse que não, Sueli.
— Meu nome é Tereza, mas todos me chamam de Teca.
— Como vou chamar a senhora?
— Como quiser.
Precisa entender que não vai ser obrigada a fazer o que não quiser.
Lógico que esse acordo não se refere ao estudo.
Isso não tem como, você vai ter de estudar.
Ela disse sorrindo e olhando para o marido, continuou:
— Você, além de estudar, vai aprender uma profissão para poder tomar conta da sua vida.
Quer tentar?
— Acenei com a cabeça, aceitando.
Segurando minha mão, saímos dali.
A directora me abraçou:
— Você vai ser feliz, Júlia.
Tenho certeza disso.
— Também sorri e fomos embora.
— Ela me pareceu ser uma pessoa muito boa, Júlia.
A sua vida deu certo com eles?
— Tem razão, Sueli.
Ela e o marido me cercaram de muito carinho e foram muito importantes em minha vida.
Quando chegamos à rua, vi diante de mim um enorme carro preto parado em frente ao portão.
Assim que nos viu, um homem com um uniforme e um boné, abriu uma das portas do carro, por onde entramos.
Teca fez com que eu me sentasse na janela para que pudesse ver a paisagem.
Para mim, que só conhecia o orfanato, aquilo tudo era uma maravilha.
Durante toda a viagem, fiquei em silêncio, apenas observando e me deliciando.
Vi edifícios altos, que nunca tinha visto.
Carros de cores diferentes passavam pelo nosso.
Para mim, tudo aquilo parecia um sonho.
Depois de algum tempo, o carro entrou em uma rua com árvores dos dois lados e com casas grandes e muito bonitas.
Eu olhava e, a cada momento, mais me encantava.
Um grande portão se abriu, o carro entrou por ele e por uma alameda e parou em frente a uma porta de madeira, muito larga e alta.
O moço do boné desceu e abriu a porta onde eu estava.
Desci e fui seguida por Teca e Altair.
Segurando minha mão, eles fizeram com que eu entrasse na casa.
Assim que entrei, fiquei extasiada com o tamanho da sala.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:12 pm

Eu, definitivamente, nunca havia visto algo igual.
Uma moça, vestida de branco se aproximou e, sorrindo, estendeu sua mão em minha direcção.
Teca, também sorrindo, disse:
— Esta é Margarida, Júlia.
Ela vai cuidar de você quando eu não estiver em casa.
— Eu, um pouco zonza e perdida, Sueli, estendi minha mão.
— Seja bem-vinda, Júlia!
Você vai ser muito feliz aqui em casa!
— Eu ia abaixar minha cabeça, como sempre fazia, mas ao me lembrar do que Teca havia dito no dia em que me conheceu, levantei a cabeça, os olhos e sorri.
Teca percebeu e também sorriu.
Depois disse:
— Venha, Júlia!
Vamos ver o quarto que preparei para você!
— Subimos os degraus de uma escada muito alta.
Lá no alto, havia um vão livre com um sofá, uma poltrona e um quadro lindo em uma das paredes.
Tudo, para mim, continuava como se fosse um sonho.
Eu jamais poderia imaginar que existisse uma casa como aquela.
Entramos por um corredor e paramos diante de uma porta branca.
Teca abriu a porta.
Entrei e, assim que vi o quarto, parei sem conseguir respirar ou dizer qualquer coisa.
— Entre, Júlia!
Este é o seu quarto.
— Eu vi, mas não acreditei, Sueli.
O quarto era enorme.
No centro, havia uma cama com uma colcha cor de rosa, a cor que eu mais gostava.
Duas janelas com cortinas também rosa, só em um tom mais escuro.
Um armário branco.
Em um canto, um pequeno baú com muitos brinquedos e algumas bonecas espalhadas pela cama.
— Gostou do quarto, Júlia?
— Eu não sabia o que responder.
Minha boca secou e meu coração disparou.
Teca sorriu e voltou a perguntar:
— Você gostou do seu quarto, Júlia?
— Eu vou dormir aqui, sozinha?
— Ela riu e Margarida também:
— Vai, Júlia.
Preparei este quarto para você.
— É muito grande!
Nunca dormi sozinha, ainda mais em um quarto desse tamanho.
No orfanato, dormíamos todas juntas.
Não sei se vou conseguir dormir, aqui, sozinha.
Acho que vou ficar com medo.
— Teca me abraçou:
— Vai se acostumar, Júlia.
Além do mais não estará sozinha.
Todas essas bonecas estarão aqui para fazer companhia a você.
— Júlia! Que mulher boa, não?
— É verdade, Sueli.
Ela era maravilhosa!
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:12 pm

Nas primeiras noites, antes de eu adormecer, ela e Altair vinham para o meu quarto, contavam uma história, me beijavam e saiam.
Nas primeiras noites eu fiquei com medo, chorei e eles voltavam para me confortar.
Aos poucos, fui me acostumando.
Quinze dias depois, eles convidaram toda a família para uma festa, onde me apresentaram como filha.
Eu estava, realmente, vivendo uma vida de sonhos.
Comecei a frequentar uma escola, totalmente diferente do orfanato.
Jonas, motorista da casa, me levava naquele carro preto e ia me buscar.
Tive alguma dificuldade para me adaptar, mas, logo, já brincava com as outras meninas.
Embora eu já houvesse pensado em como seria uma mãe, uma família, nunca cheguei perto daquilo que estava vivendo.
Estava feliz.
— Eles eram muito ricos, não, Júlia?
— Sim, muito ricos, Sueli.
Naquele tempo eu não sabia e nem me interessava por isso.
Mais tarde, tomei conhecimento de que ele era dono de um banco.
Ele viajava muito, mas Teca estava sempre ao meu lado.
Íamos a lojas, onde ela me comprava roupas e sapatos.
Em meu guarda-roupa havia tantos vestidos que eu nem conseguia usar.
— Não entendo uma coisa, Júlia.
— O que? Sueli.
— Tendo sido criada dessa maneira e frequentado uma boa escola, como, hoje, está sozinha e sempre diz que não tem família?
Não dá para entender...
Júlia, com um sorriso triste, respondeu:
— Hoje, já adulta, aprendi a respeitar aquele velho ditado:
não há bem que sempre dure, nem mal que não se acabe.
— O que aconteceu, Júlia?
— O tempo foi passando, Sueli.
Aos poucos, me esqueci da minha vida no orfanato e das amigas que lá deixei.
Eu era tratada como uma princesa.
Tanto Teca como Altair sempre me trataram como filha, mas sua família não pensava da mesma maneira.
Naquele tempo eu achava que tudo estava bem e que todos gostavam de mim, mas a realidade era outra.
— Por que diz isso, Júlia?
Júlia não respondeu.
Ficou com os olhos parados no horizonte.
Sueli insistiu:
— Continue contando, Júlia!
— Desculpe-me, Sueli.
Estava relembrando de como tudo aconteceu.
Vou continuar.
Naquele ano, passamos férias em Roma.
Conheci o Vaticano, o Coliseu, e muitos lugares que nem imaginava que existiam.
Fomos até as Catacumbas do tempo de Cristo.
Uma noite, antes de eu dormir, como sempre fazia Teca veio ao meu quarto.
Sentou-se sobre a cama e disse:
— Júlia, as pessoas são muito más, por isso, não quero que comente com ninguém sobre sua infância.
Ninguém precisa saber que você foi criada em um orfanato.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:13 pm

Lembre-se sempre de que é nossa filha e de que a amamos muito.
— Eu sorri, não entendia muito bem o que ela quis dizer.
Após seu beijo, adormeci.
Como sempre acontece, o tempo passou.
Eu estava com eles há um pouco mais de um ano e continuava feliz.
Estudava muito, pois queria que meus pais se orgulhassem de mim.
Em um dia, estava na escola, quando duas meninas se aproximaram.
Pelo rosto e o sorriso delas, percebi que alguma coisa elas estavam tramando.
Uma delas perguntou:
— Você é órfã?
— Naquele momento, lembrei-me de que Teca havia falado sobre aquilo.
Respondi:
— Não! Por que estão perguntando isso?
— Você é órfã, sim!
— Ela falou alto, com um sorriso que me fez muito mal, Sueli.
Olhei para os lados e percebi que todas as outras meninas também me olhavam e riam.
Tentei sair dali, mas elas não deixaram.
A menina continuou falando alto:
— Você é órfã, sim!
Ouvi minha mãe conversando com sua tia Rosa!
— Tia Rosa? — Perguntei espantada.
— Sim, ela estava lá em casa conversando com minha mãe e eu ouvi.
— Tia Rosa, Sueli, era esposa do irmão do Altair que era sócio no banco.
Sem notar minha surpresa, a menina continuou:
— Você é pobre e nunca teve mãe ou pai!
É uma coitada que se não fosse pela dona Teca, estaria até hoje morando no orfanato!
Você vive uma vida de mentira!
Eu ouvi minha mãe dizer isso!
— Ao ver que todas estavam rindo, saí dali e corri para a sala de aula.
Eu queria ir embora, mas Jonas só viria me buscar quando as aulas terminassem e eu não sabia sair sozinha da escola.
Durante o restante da aula, percebi que elas continuavam falando, olhando para mim e rindo.
Finalmente, o final das aulas chegou.
Peguei minhas coisas, levantei-me e, com a cabeça baixa, como não fazia desde aquele dia no orfanato, quando Teca me obrigou a levantar a cabeça, saí dali o mais depressa possível.
Enquanto andava, as meninas iam atrás de mim, falando uma porção de coisas.
Diziam que eu era pobre, uma coitada e que nem a minha mãe tinha me querido.
Que eu não valia nada.
Que aqueles que me adoptaram não sabiam quem eu era.
Saí pelo portão da escola e olhei para o lugar em que Jonas sempre me esperava.
Corri para ele que abriu a porta do carro.
Entrei e, ainda com a cabeça abaixada, me sentei no canto do banco.
Ele estranhou, mas calado, entrou no carro, ligou o motor e saiu.
Durante algum tempo, ele dirigiu calado.
Eu não via porque estava com a cabeça abaixada, mas podia sentir que ele me olhava pelo retrovisor.
Algum tempo depois, ele perguntou:
— O que aconteceu, Júlia?
— Nada!
— Como nada?
Você está estranha.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 8:13 pm

— Estou igual ao que sempre fui.
Nada aconteceu.
— Como igual?
Sempre que entra no carro não para de falar um minuto.
Fala tanto que algumas vezes tive de pedir que se calasse.
Nunca vi você dessa maneira, somente nos primeiros dias em que a trouxe para a escola.
O que aconteceu, Júlia?
Sabe que sou seu amigo e que, por isso, pode confiar em mim.
— Não suportei mais, Sueli e, chorando, contei a ele tudo o que havia acontecido.
Quando terminei de falar, ele, olhando pelo retrovisor, disse:
— Nada disso é motivo para você chorar, e nem ficar da maneira como está.
— Ainda com a cabeça baixa, disse:
— Como não, Jonas?
Aquela menina tem razão.
Eu não sou ninguém!
Não tenho família nem ninguém!
Embora viva essa vida de riqueza não tenho nada... nada...
— Pare com isso, Júlia!
Você tem tudo para ser feliz!
Seus pais adoram você!
— Mas a menina falou uma porção de coisas e todas começaram a rir de mim...
— Não importa o que essa menina falou nem que todas riram, você é uma menina maravilhosa e muito amada por seus pais e todos os empregados da casa.
— Não quero mais voltar à escola...
— Por quê?
— Tenho vergonha...
— Vergonha coisa nenhuma!
Você vai voltar à escola, vai levantar a cabeça e encarar todas elas.
Deixe que falem, Júlia.
Não ligue para pessoas maldosas.
Converse com sua mãe.
— Não! Não vou falar com a Teca!
Ela vai brigar comigo!
— Brigar, por que, Júlia?
Ela ama você!
— Ele tinha razão, Júlia.
— Hoje sei disso, Sueli, mas não podemos nos esquecer de que naquele tempo, eu tinha um pouco mais de dez anos.
Era adolescente e sabemos que nessa idade qualquer coisa transforma-se em um grande drama.
Sueli começou a rir:
— É verdade, Júlia!
Essa idade é difícil mesmo.
Lembro-me que chorava por qualquer coisa e pensava que o mundo ia acabar.
Mas o que aconteceu depois?
Você falou com sua mãe?
— Não. Chegamos a casa.
Ela não estava.
Fui directo para o meu quarto e lá chorei muito.
Como nunca havia chorado.
Só naquele dia pensei em minha mãe verdadeira.
Por que ela havia me abandonado?
Acho que não gostava mesmo de mim.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:51 pm

Definitivamente, aquela menina tinha razão eu não valia nada.
Fiquei ali por muito tempo, sem conseguir parar de chorar.
Estava assim, quando a porta do meu quarto se abriu e por ela, entrou Teca.
Em silêncio, ela se aproximou e sentou-se, ao meu lado, na minha cama.
Ficou calada por algum tempo, depois disse:
— Por que está chorando, Júlia?
— Por nada...
— Deve ter algum motivo.
O que aconteceu na escola?
— Fiquei calada, Sueli.
Ela começou a passar a mão sobre meus cabelos.
Eu não resisti e contei tudo o que havia acontecido.
Ela ouviu, com atenção.
Quando parei de falar, ela, sorrindo, levantou meu queixo e ficou olhando em meus olhos.
— Já não disse a você que nunca deve baixar sua cabeça e seus olhos?
— Mas aquela menina falou e as outras riram...
— Depois, vou conversar com a Rosa.
Agora, preciso contar uma história para você.
Quer ouvir?
— Quero.
— Está bem, venha aqui.
— Eu me recostei em seu peito e ela começou a falar:
— Havia uma menina que era muito feliz.
Ela não tinha irmãos, mas, mesmo assim, brincava, corria e sempre tinha alguém ao seu lado para evitar que se machucasse.
Seus pais eram muito ricos, por isso, nunca sentiu falta de coisa alguma.
Ela cresceu e se transformou em uma linda moça.
Em uma noite, com sua família, foi a uma festa.
Conheceu um rapaz que era filho de um sócio de seu pai.
Naquela noite, dançaram, conversaram e se tornaram amigos.
Daquele dia em diante, nunca mais se separaram e acabaram se casando.
Aquela menina que sempre tivera tudo na vida, agora, estava completamente feliz.
Aquela menina, Júlia, era eu.
Estava casada com Altair, a quem amava.
Tinha uma casa linda e uma estufa onde havia muitos pés de orquídeas que eu cuidava com todo carinho.
Por algum tempo não me preocupei com nada a não ser viver aquela vida maravilhosa.
O pai de Altair morreu, portanto, ele e Roberto, seu único irmão precisavam ser preparados para seguir com seus negócios.
Por isso, ele trabalhava muito e quase nunca estava em casa.
Aos poucos comecei a me sentir muito só.
Comecei a sentir que minha casa era linda e grande demais para mim.
Durante o dia, enquanto Altair estava trabalhando, eu ficava perambulando pela casa, pelo jardim.
Cuidava das plantas, principalmente das orquídeas, que adorava, mas, mesmo assim, sentia-me só.
Resolvi que conversaria com Altair.
Achava que estava na hora de termos um filho.
Eu achava que, com uma criança em casa, teria muito para fazer e não teria tempo de me se sentir só.
A princípio ele não aceitou a ideia, pois queria participar do crescimento da criança e, naquele momento, aquilo seria impossível.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:52 pm

Porém, diante da minha insistência, resolveu aceitar.
Ele gostava muito de mim e faria qualquer coisa para que eu fosse feliz.
Depois de algum tempo, eu estava esperando uma criança.
Não pode imaginar como eu e toda família ficamos felizes.
Porém, durou pouco tempo.
Logo depois, perdi o bebé.
Consultei um médico e ele disse que, depois de ver os exames, dificilmente eu poderia engravidar novamente.
Aquela notícia, fez com que aquela menina que sempre tivera tudo e que sempre fora feliz, se transformasse em uma pessoa triste.
Eu vivia sempre chorando.
Embora Altair fizesse de tudo para que eu voltasse a ser como antes, nada fazia com que eu conseguisse sorrir novamente.
Com o tempo, foi ficando pior.
Altair ficou desesperado.
Não sabia mais o que fazer.
Neide, que era minha amiga de muito tempo, sem saber o que estava acontecendo e sem saber explicar o motivo, sentiu uma vontade imensa em me rever.
Nós não mos víamos há muito tempo.
Em uma noite, acompanhada pelo marido, resolveu nos fazer uma visita.
Telefonou para saber se estávamos em casa.
Embora eu não quisesse ver ninguém, Altair ficou feliz e disse que os estava esperando.
Mesmo sem vontade, me arrumei para esperar minha amiga.
Ao me olhar no espelho, percebi que meus olhos estavam fundos, vermelhos e com olheiras.
Eu não era nem de longe a mesma moça que ela havia conhecido.
Assim que chegaram, Neide notou a minha mudança, mas não comentou coisa alguma.
Altair os encaminhou até a sala de estar.
Eu, calada, apenas os acompanhei.
Sentaram-se e Altair perguntou se queriam beber alguma coisa, responderam que não, apenas um café.
O ambiente estava pesado.
Altair pediu à empregada que trouxesse café para todos.
Por algum tempo, só houve silêncio.
Ninguém sabia o que dizer.
Sem que pudessem imaginar, Alzira e Ciro estavam ali, ouvindo Teca contar sua história. Sorriram.
— Eu estava ouvindo Teca, Sueli, e não entendia por que ela estava me contando aquela história.
Eu estava infeliz e não queria saber coisa alguma sobre uma menina que tivera tudo e que, depois de adulta, era infeliz.
Parece que ela percebeu, sorriu e continuou falando.
— Neide, sem saber o que falar, olhou para a mim e perguntou:
— Você está doente, Teca?
— Comecei a chorar sem conseguir parar.
O constrangimento foi total.
Altair me abraçou, dizendo:
— Desculpem.
Ela está assim desde que perdeu o bebé.
— Neide se levantou:
— Perdeu um bebé, Teca?
Eu não sabia...
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:52 pm

— Perdi e o pior é que o médico disse que não poderei ter outro.
Era tudo o que queria.
Estou desesperada.
Tudo terminou para mim...
— Terminou? O que está dizendo?
Você tem tudo.
Uma casa linda, dinheiro para comprar o que quiser e um marido que a ama!
Como pode dizer que tudo terminou?
— Tem razão.
Sempre tive tudo, só não posso ter um filho.
Trocaria tudo o que tenho para ter uma criança aqui em casa.
Para poder dar a ela todo meu amor e carinho.
— Por que não faz isso?
— Fazer o que?
— Ter uma criança aqui na sua casa.
Dar a ela todo carinho, amor e tudo o mais que uma criança precisa para crescer saudável?
— Não me ouviu dizer que não poderei ter filhos, Neide?
— Não poderá ter um seu, mas poderá adoptar quantos quiser.
— Adoptar?
— Por que não, Teca?
Trabalho há muito tempo em um orfanato.
Temos lá crianças de todas as idades que precisam de tudo o que você tem para dar.
Por que não vai até lá e escolhe uma delas?
Depois, mais tarde, quem sabe, poderá escolher outras crianças.
Poderá encher esta casa com sorrisos e bagunça!
— Não posso fazer isso, Neide!
— Não pode, por quê?
Prefere continuar assim como está?
Com essa aparência horrível e se acabando?
— Nunca vai ser meu filho de verdade!
— Claro que vai!
Com o tempo vai se esquecer de que essa criança não saiu de você.
Como disse, trabalho há muito tempo com isso e já vi muitas coisas acontecerem.
Se quiser, posso mostrar a você, muitas cartas de pais e de crianças que se adoptaram mutuamente e que são felizes.
— Altair se empolgou:
— Teca! Podemos tentar!
Não suporto mais ver você nessa situação.
— Como tentar, Altair?
Se trouxermos uma criança para casa e não nos acostumarmos ou não gostarmos dela, nunca mais poderemos devolvê-la.
— Neide interferiu:
— Quem disse isso a você?
Não é assim que funciona.
A criança que escolherem virá para cá.
Ficará algum tempo e só será adoptada quando vocês quiserem e toda papelada ficar pronta e isso demora algum tempo.
Se, por qualquer motivo não quiserem ficar com ela, poderão conversar com o juiz e ele entenderá.
A criança voltará para o orfanato e ficará esperando por outra família.
— Isso é cruel com a criança...
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:52 pm

Neide começou a rir, Júlia, e disse:
— Seria cruel se acontecesse, mas é muito difícil de acontecer.
Nenhum casal devolve as crianças.
Pelo menos, no orfanato onde trabalho, isso nunca aconteceu.
Normalmente, as crianças são adoptadas muito pequenas e todas as suas primeiras experiências são acompanhadas pelos pais, que, com o tempo, se apaixonam e se esquecem que não são filhos verdadeiros.
— Não sei.
Altair quase gritou e disse, empolgado:
— Claro que sabe, Teca!
Neide, quando poderemos visitar o seu orfanato para conhecermos as crianças?
— Neide olhou para mim e disse:
— Não sabia o motivo pelo qual pensei em você o dia inteiro, Teca.
Estranhei, pois, apesar de sermos amigas há tanto tempo, sabendo que estava casada e bem, nunca me preocupei com a sua situação.
Hoje, por incrível que pareça, você não saiu do meu pensamento.
Se acreditasse nessas coisas, diria que fui mandada para cá.
— Será que foi isso que aconteceu?
Será que Deus a enviou para me ajudar?
— Não sei, mas, seja o que for o importante é que você precisa sair dessa apatia, dessa depressão.
— Acha mesmo que vai dar certo, Neide?
— Claro que vai, Teca!
Como disse, lá há crianças de todas as idades.
Podem escolher uma recém-nascida.
— Eu não estava aceitando aquilo, Júlia, mas ao ver a animação de Altair, disse:
— Está bem. Vamos fazer isso.
Só que a criança que vamos escolher deverá ter nossos traços.
Não quero que as pessoas comentem.
— Não deve se preocupar com isso, Teca.
Temos ali, crianças de todas as idades e raças.
Poderá escolher a que quiser.
Sei que qualquer criança que escolher será muito feliz nesta casa.
— Está certo. Vamos escolher um bebé.
Quero criá-lo com todo carinho.
— Marcamos para o dia seguinte, Júlia.
Confesso que estava um pouco temerosa, mas, mesmo assim, para agradar Altair, fui.
Quando chegamos, Neide nos levou ao berçário.
Estavam lá bebés maravilhosos.
Olhei um a um, mas não me senti atraída por nenhum.
Eu, na realidade, não queria adoptar uma criança, queria uma que fosse minha.
Vendo que eu não me decidia, Neide disse:
— Estes são os bebés que temos, parece que você não se interessou por nenhum, Teca.
— Não é isso, Neide, só queria ter um pouco mais de tempo para poder pensar bem no assunto.
— Esses bebés são muito lindos, Teca!
Vamos escolher um deles!
Sei que, com o tempo, vamos amá-lo como se fosse nosso...
— Ao ouvir o que Altair disse, senti um aperto no coração.
Ele estava empolgado e queria muito uma criança.
Antes que eu dissesse alguma coisa, ele continuou falando.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:52 pm

— Se pegarmos um bebé, poderemos acompanhar sua evolução.
Veremos quando começar a andar a e a falar as primeiras palavras.
Vamos escolher algum, Teca...
— Neide, percebendo que eu não me decidia, disse:
— Não precisa ser hoje, Altair.
Ela poderá pensar com calma.
As crianças que estão aqui, permanecerão por um bom tempo e, quase todos os dias, chegam mais.
Vamos até o pátio.
Lá estão as crianças maiores.
— Não queremos crianças maiores.
Queremos criar e educar do nosso jeito.
— Está bem, não vou interferir na sua vontade, Teca.
Podemos deixar para outro dia.
— Confesso que, intimamente, fiquei feliz, Júlia.
Não queria uma criança que não fosse minha.
Neide ia nos acompanhar até a saída, mas antes, abriu uma porta que dava para o pátio.
Vi crianças brincando, correndo.
Pareciam felizes.
Assim que entramos no pátio, muitas delas se aproximaram.
Algumas seguravam nossas mãos.
Olhei todas, mas não me interessei por nenhuma delas.
Estávamos saindo, quando vi uma menina que não veio ao nosso encontro.
Caminhei até ela e, assim que me aproximei e olhei em seus olhos, senti uma felicidade inexplicável, parecia que eu conhecia aquela menina há muito tempo.
— Sentiu isso quando me viu?
— Sim. Por isso, resolvi que tentaria ficar um tempo com você para ver se nos acostumaríamos uma com a outra.
Altair e Neide estranharam a minha escolha, mas respeitaram o meu desejo.
O resto você já sabe.
Veio para cá e, desde então, sou a mulher mais feliz deste mundo.
— Mas a senhora não queria um bebé?
— Queria, mas estava errada.
Um bebé me daria muito trabalho, e ao contrário, se transformou em minha companheira.
Passeamos e saímos para comprar roupas.
Vai crescer, estudar e no dia do seu casamento estarei muito feliz.
Quando me der um neto, minha felicidade será completada.
Obrigada, Júlia, por ter aceitado ser minha filha.
— Está feliz, mesmo?
— Sim, Júlia.
Por isso, quando alguém disser que você não é nossa filha, que não vale nada, erga a cabeça e diga com força na voz.
— Não fui eu quem foi adoptada, minha mãe me adoptou!
Ela me escolheu e eu salvei sua vida!
— Ela me abraçou e beijou várias vezes, Sueli.
Abraçadas, saímos do quarto e, quando Altair chegou, jantamos e fomos assistir a um programa que estava passando na televisão.
Daquele dia em diante, nunca mais me preocupei com o facto de ter sido adoptada.
Estava feliz e sabia que Altair e Teca também estavam.
Eram meus pais e eu os amava muito.
— Depois de tudo que acabou de me contar, Júlia, não entendo como pode dizer que é sozinha no mundo, que não tem ninguém.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:52 pm

Essas pessoas me pareceram ser maravilhosas.
— Foram as melhores pessoas que conheci.
— Foram?
O que aconteceu, eles morreram?
Uma lágrima se formou nos olhos de Júlia.
Ela ficou com o olhar perdido e Sueli pôde perceber o grande sofrimento pelo qual a amiga passava.
Por isso, ficou calada.
Depois de algum tempo, Júlia respondeu:
— Sim, Sueli.
Eles morreram...
— Como foi, Júlia?
— Daquele dia em diante, voltei à escola e encontrei as mesmas meninas.
Elas tentaram me humilhar novamente.
Fiz como Teca disse e nunca mais elas voltaram a dizer aquelas coisas horríveis.
Com o tempo, até se tornaram minhas amigas.
Um mês depois daquele dia quando voltei da escola, percebi que Teca estava diferente.
Assim que cheguei, ela me abraçou e disse:
— Júlia, minha mãe está muito doente.
Preciso visitá-la.
Como mora em outra cidade que fica a quatro horas daqui e você está na escola, não vai poder nos acompanhar.
Eu e o Altair vamos até lá, ficaremos alguns dias e depois voltaremos.
Você vai ficar bem com Margarida.
Vai ficar alguns dias, sozinha, mas prometo que assim que voltarmos, levaremos você para passear e, no fim do ano, faremos uma viagem inesquecível.
— Após dizer isso, Sueli, ela me abraçou e eu fiquei tranquila.
No dia seguinte, pela manhã, antes de eu ir para a escola, ela voltou ao meu quarto e disse:
— Vai ser só por alguns dias, Júlia.
Sei que não preciso dizer isso, mas comporte-se bem.
— Vou me comportar.
— Quando voltei da escola, eles não estavam mais em casa.
Eles me telefonavam todas as noites para darem boa-noite.
Na terceira noite, ela telefonou novamente e disse:
— Júlia, infelizmente minha mãe faleceu.
Estou sozinha no mundo, assim como você.
Estou sofrendo pela perda da minha mãe.
Mas ela estava sofrendo muito.
Para ela, foi melhor.
Apesar do meu sofrimento, preciso fazer o que minha mãe me ensinou.
Ela sempre disse que, aconteça o que acontecer, a vida precisa continuar e que a morte é apenas um até logo.
Só me resta rezar por ela.
Amanhã cedo vamos voltar.
Quando chegar da escola, já estaremos em casa e conversaremos melhor.
— Fiquei triste por minha avó ter morrido, mas feliz por eles voltarem, Sueli.
Pois, embora tenha ficado bem com Margarida, sentia falta deles.
Na manhã seguinte, acordei animada e fui para a escola.
Quando Jonas foi me buscar, percebi que estava estranho.
Não brincou como sempre fizera e falou pouco, só respondendo ao que eu perguntava.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:53 pm

Quando nos aproximamos da nossa casa, vi que havia muitos carros.
Estranhei, pois aquilo não era normal.
Altair e Teca não costumavam receber muitas visitas.
Assim que entrei, tia Rosa correu para mim e, chorando, me abraçou:
— Pobre coitada, o que vai ser de você agora?
— Não entendi o que ela quis dizer, Sueli e perguntei:
— O que aconteceu?
Onde estão Teca e o Altair?
— Ela, sem se importar de que eu era apenas uma criança, disse:
— Eles morreram em um acidente de carro, quando voltavam.
Um caminhão perdeu a direcção e bateu no carro deles e não sobreviveram.
— Nossa! Que tristeza, Júlia!
Eram pessoas tão boas, não deviam ter morrido dessa maneira.
— Também acho, mas aconteceu, Sueli.
Desesperada, corri para meu quarto e chorei por horas sem conseguir parar.
Foram as pessoas que, em tão pouco tempo, me deram o amor que eu nunca tivera.
Eu estava feliz e eles também.
Por que aquilo aconteceu?
Porque Deus permitiu que aquilo acontecesse?
Cansei de fazer essas perguntas, mas não houve resposta.
— Imagino como deve ter se sentido.
Dever ter sido um momento muito doloroso.
— O pior da minha vida, Sueli.
Senti que meu mundo havia desmoronado e que tudo havia acabado para mim.
Senti vontade de morrer também.
Mais tarde me levaram ao lugar onde eles estavam.
Havia dois caixões que eu nunca mais vou esquecer.
Dentro deles estavam Teca e Altair.
Olhei para eles e parecia que dormiam.
Estavam lindos, cercados de flores.
Fiquei ali por algum tempo, até que Jonas me levou para casa.
Durante o trajecto, eu disse:
— Jonas. Por que eles morreram?
— Não sei. Todos nós temos um dia e uma hora certa para morrer Júlia.
Chegou a hora deles.
— Não está certo, Jonas!
Eles eram maravilhosos.
Nunca conheci pessoas tão boas como eles...
— Talvez tenha sido por isso mesmo que morreram.
Dizem que este mundo não é para os bons.
Agora, você precisa continuar sua vida.
Estudar, se formar e, um dia, ter a sua própria família.
— Não sei se vou querer uma família.
Vai que eles morram também..
— Ele sorriu e disse:
— Não, Júlia, não pense assim.
A vida não é só feita de tristeza.
Existem momentos muito bons.
Você vai ver.
— Esse homem também foi muito bom, não foi, Júlia?
— Foi, sim, Sueli.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:53 pm

Não sei o que teria sido de mim, naquele dia se não tivesse ele e Margarida ao meu lado.
Acho que foram anjos que Deus colocou na minha vida para me ajudarem.
— O que aconteceu depois, Júlia?
— Passaram-se alguns dias e tia Rosa apareceu lá em casa.
Estava com o semblante diferente.
Com o rosto sério, disse:
— Júlia! Arrume uma mala!
— Olhei para Margarida que, por sua expressão, percebi que também, assim como eu não entendeu o que estava acontecendo.
Tia Rosa ainda com a mesma expressão, disse:
— O que está esperando, menina?
Não tenho o dia inteiro!
— Por que preciso arrumar uma mala?
— Porque você vai embora desta casa.
— Margarida se colocou à minha frente.
— O que a senhora está dizendo?
Ela não pode ir embora, foi adoptada!
— Não foi adoptada, não!
Os papéis ainda não ficaram prontos.
Ela não tem direito algum.
Vai voltar para aquele lugar do qual nunca deveria ter saído.
Com a morte dos dois, meu marido é o único herdeiro.
Vou me mudar para esta casa, que sempre quis e quero essa daí bem longe daqui!
— Essa daí, não!
Ela tem nome!
Júlia é o nome dela!
— Sei o nome dela, mas não me importo.
Para mim continua sendo ninguém!
Chega de discussão, prepare a mala.
Jonas está lá fora esperando para levá-la!
— A senhora não pode fazer isso!
Dona Teca e o senhor Altair adoravam esta menina!
Ela era tudo para eles!
Nunca concordariam com isso!
— Ela, com um sorriso maldoso, Sueli, disse:
— Era tudo para eles, mas para mim, nada representa!
É apenas uma enjeitada que não quero na minha casa, muito menos na minha família!
Pela última vez, prepare a mala senão ela sairá com aquilo que chegou. Nada!
— Não pode fazer isso!
— Tanto posso que estou aqui ordenando que prepare uma mala com poucas coisas, pois, para o lugar aonde ela vai e que nunca deveria ter saído não vai precisar de muito.
Quanto a você, moça, se quiser, pode continuar aqui cuidando da minha filha.
Ela tem a mesma idade dessa aí.
— Margarida sem conseguir esconder o ódio que estava sentindo, Sueli, quase gritou:
— Nunca trabalharia para alguém como a senhora!
Venha, Júlia, vamos preparar sua mala e que Deus tenha pena dessa mulher!
— Acompanhadas por tia Rosa, eu e Margarida fomos para o meu quarto.
Lá, tia Rosa deu para ela uma pequena maleta e não permitiu que eu escolhesse coisa alguma.
Com o mesmo sarcasmo, disse:
Pegue apenas alguns vestidos e poucas roupas de baixo.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:53 pm

É uma pena que Teca tenha jogado fora as roupas com as quais ê chegou aqui, porque se ela não tivesse feito isso, sairia daqui apenas com elas.
— Que mulher horrorosa, Júlia!
— É verdade, Sueli, mas eu tento não me lembrar dela.
— Soube mais alguma coisa a seu respeito?
— Não. Deve ter se mudado para a casa de Teca, que sempre invejou e deve estar feliz.
— Faz bem em não se lembrar dela, Júlia.
Ela, de uma maneira ou outra, vai pagar a maldade que fez.
— Nunca me preocupei com isso.
Quase nunca penso nela e, quando isso acontece, procuro afastar o meu pensamento.
Ela é apenas orgulhosa, egoísta e invejosa, portanto, infeliz.
— Não sente raiva mesmo, Júlia?
— Não, Sueli.
Nem mesmo naquele dia em que tive de voltar para o orfanato.
Estava triste pela perda de Teca e de Altair, mas com raiva dela, não.
— Isso não pode ser verdade!
Qualquer um sentiria muita raiva, Júlia!
Ao menos naquele dia!
Afinal ela tirou você daquela casa linda de uma vida de riqueza e a levou de volta para uma vida de pobreza!
— Naquele dia e, ainda hoje, quando me lembro o único sentimento que tinha e ainda tenho é o de tristeza por ter perdido as duas pessoas que me amaram realmente.
— Sinto muito, Júlia.
— Também sinto, Sueli, mas como Teca disse no dia em que sua mãe morreu, a vida precisa continuar e, para isso, ela está sempre começando.
— Você é muito boa, Júlia.
Eu a odiaria até hoje.
Júlia sorriu e ficou calada.
Sueli perguntou:
— Como foi sua volta para o orfanato?
— Acompanhada por Margarida fui até o carro onde Jonas nos esperava.
Ele estava abatido e triste.
Chorando, entrei no carro.
Margarida sentou-se ao meu lado.
Durante o trajecto, por algum tempo ficamos calados.
Depois, Jonas disse:
— Sinto muito pelo que aconteceu, Júlia.
Eles eram pessoas maravilhosas.
Sinto também por você ter de voltar para o orfanato.
Se eu pudesse levaria você para minha casa, mas não posso.
Dona Rosa notificou o juiz de que estava voltando e, se eu não levar você, serei considerado um sequestrador.
Se tivesse dinheiro, poderia tentar adoptar você, mas não tenho.
Minha família é grande, tenho três filhos e meu salário não é muito.
Estou pensando em mudar de emprego.
Não vou conseguir trabalhar para aquela mulher.
Por isso, nenhum juiz permitiria que eu a adoptasse.
— Margarida disse quase a mesma coisa, Sueli.
Eu sabia que estavam sendo sinceros, mas eram pessoas simples que viviam do salário.
Também, eu não queria ouvir coisa alguma.
Queria somente pensar em Teca e no Altair em como eram bons e o quanto gostaram de mim.
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Re: Apenas Começando / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 7:53 pm

Quando chegamos ao orfanato, dona Neide, a directora, veio nos receber no portão.
Ela estava com o semblante sofrido.
Após nos abraçarmos, ela disse:
— Seja bem-vinda, Júlia. Vamos entrar.
— Entramos na sua sala, Sueli, e após nos sentarmos, olhou para Jonas e Margarida:
— Fiquei sabendo que vocês sempre trataram muito bem a Júlia.
Só posso agradecer-lhes.
Agora, podem ir.
Ela vai ficar bem.
— Margarida, chorando, perguntou:
-— Podemos visitá-la?
— Claro que sim. Sempre que desejarem.
Ela estará aqui e, se Deus quiser, será por pouco tempo.
Vou procurar uma outra família para que seja adoptada.
— Ao ouvir aquilo, gritei:
— Não quero ir para outra casa!
Quero ficar aqui para sempre!
— Dona Neide também se levantou me abraçou e disse:
— Você está muito nervosa, Júlia.
Não está pensando direito.
Despeça-se de Jonas e de Margarida e vá para dentro.
Seus amigos estão esperando por você.
— Ainda chorando, abracei os dois e entrei.
No pátio, várias crianças correram para mim e me abraçaram também.
Eu estava atordoada, parecia que estava em outro mundo.
Abracei todas, mas o que eu queria mesmo era ficar sozinha.
Fui para o quarto onde dormia, joguei-me sobre a cama e chorei.
Chorei muito até adormecer.
Naquela noite, tive um sonho estranho que me fez aceitar com mais tranquilidade a perda de Teca e do Altair...
— Que sonho?
— Não me lembro muito bem.
Já faz muito tempo.
Só me lembro de que estava em um lugar bonito.
Tinha muitas flores e um lago com a água cristalina.
Eu estava sentada na grama, junto ao lago com uma mulher e um senhor.
Eles sorriam para mim.
A senhora disse:
Estamos e continuaremos sempre ao seu lado.
Você, hoje, passou por mais uma etapa do seu resgate.
Estamos orgulhosos.
Outras virão, mas nunca perca a fé.
Deus é nosso Pai e não nos abandona nunca.
Pela manhã, não se lembrará deste sonho.
Só se lembrará quando for importante.
Para que tenha coragem e continue sua jornada e termine com louvor.
Estaremos torcendo por isso.
Vai se levantar e continuar sua vida.
Ainda tem muito para fazer.
— No dia seguinte, você se lembrou do sonho, Júlia?
— Não! Só estou me lembrando agora!
Por quê? Por que só agora, Sueli?
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