Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:14 am

Almas em Chamas
Eurípedes Kühl

Espírito Josué

SUMÁRIO

DIREITOS AUTORAIS
ATENÇÃO
1. O CIRCUITO DO TEMPO
2. “TOUCHÉ”
3. RAZÃO À FORÇA, OU FORÇA PELA RAZÃO?
4. A FORÇA DA OBSESSÃO
5. TEMPERATURA ELEVANDO-SE...
6. DA LUZ À SOMBRA
7. OS CLARÕES E AS SOMBRAS
8. GANÂNCIA A DOMICÍLIO
9. ALVORADA DO AMOR
10. MEMORANDO A DEUS
11. AMOR NA TEMPERATURA MÁXIMA

DIREITOS AUTORAIS
Este livro foi originalmente editado pela Lúmen Editorial Ltda., de São Paulo - SP.
Os direitos autorais das edições impressas foram cedidos pelo médium à Sociedade Espírita Allan Kardec, com sede em Ribeirão Preto - SP, em colaboração às suas actividades de amparo permanente a famílias necessitadas.
Por decisão da EVOC e do médium, a presente edição, electrónica, é ofertada gratuitamente aos leitores.

ATENÇÃO
Com excepção das citações religiosas e das personalidades devidamente qualificadas, as demais personagens e Instituições - públicas ou particulares - constantes desta obra são fictícias, não guardando identidade com eventuais homónimas, as quais, se existem, caracterizam simples coincidência.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:14 am

1. O CIRCUITO DO TEMPO
A Feira Internacional de Automóveis, anual, seria aberta ao público dentro de setenta e duas horas.
Muitos expositores estavam com os arranjos atrasados.
Alguns, quase ao desespero, aceleravam os retoques finais nos seus estandes, culpando a natureza que fez os dias só com vinte e quatro horas.
Além do capricho nos detalhes, outra grande preocupação era evitar que os concorrentes vissem sua decoração, receosos que algumas ideias fossem “pirateadas”.
Assim, todo mundo ali, trabalhava nos três enormes pavilhões - um para carros de passeio, outro para ônibus e caminhões e o terceiro para tractores e motoniveladoras - com grandes cortinas de plástico encobrindo ou impedindo a visão da sua área de exposição.
E, internamente, redobrados, eram os cuidados quanto à ocultação dos produtos.
De longe, o maior movimento era no pavilhão dos carros de passeio.
Os operários, à surdina, divertiam-se a mais não poder com o malabarismo dos responsáveis pela apresentação de cada stand, muitos deles portando-se histericamente, quando se tratava de ocultar suas ideias “geniais”, quanto à decoração.
A toda hora chegavam carros, de vários países.
Todos, sem excepção, “embrulhados” em plástico opaco, de forma que ninguém conseguisse adivinhar suas formas ou cores.
Iam directos para os stands, onde o mistério se duplicava:
decoração e veículos a serem expostos.
Já nos outros dois pavilhões, as máquinas não estavam ocultas e os responsáveis até “pagavam” para que os repórteres, técnicos e comentaristas, fossem até lá.
O estande principal do pavilhão dos veículos de passeio, estrategicamente localizado, mais parecia a “recepção” dos visitantes, os quais não tinham alternativa:
só passando por dentro dele conseguiriam ir aos demais expositores.
Esse era o stand da multinacional que se constituía em “âncora” da Feira.
Suas grandes vedetes daquele ano seriam de extremos opostos:
numa ponta, o sensacional lançamento de toda a Feira:
um super-desportivo, para duas pessoas, luxuosíssimo, linhas arrojadas, fantástica potência, acabamento quase artesanal peça a peça, em cor única - vermelho escarlate; na outra ponta, um modelo popular, tamanho pequeno, com todos os requisitos de segurança - este, em várias cores.
E a preços reduzidíssimos.
Aliás, nos preços é que se podia avaliar mais adequadamente a diferença entre um e outro veículo daquele stand:
com o de luxo, se poderiam adquirir cinquenta populares.
Moças lindíssimas já estavam seleccionadas por Karl Heinrich, o vice-presidente da multinacional, para actuarem como demonstradoras do superdesportivo: o “Konkord”.
“Konkord”, no caso, era o carro-vedete, assim baptizado, para imaginariamente ser comparado ao portentoso avião “Concorde” (quadrirreactor supersónico de transporte comercial, franco-britânico, então recentemente inaugurado: 1976).
Nesse instante chegou o presidente da multinacional - Helmuth Heinrich, pai de Karl.
Com ele, o indefectível séquito:
Ester, a secretária; Mirênio, o gerente de “recursos humanos” (RH) e Campos, o motorista.
Mirênio levantou parte da cortina de plástico para a “comitiva” entrar.
Nesse momento, foi “aquinhoado” por uns três quilos de serragem na cabeça, pois não tinha reparado que havia se acumulado nas dobras da cobertura.
A gargalhada geral explodiu, incoercível.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:14 am

Se Mirênio “deixasse” os operários abrirem a cortina não teria sido premiado com aquele banho de serragem.
Contudo, a sofreguidão em agradar aos superiores nele falava mais alto que a prudência e até mesmo que a própria segurança pessoal.
O mais engraçado da cena foram os desesperados e inúteis esforços do “rendo homenagem”, como era chamado Mirênio, para livrar-se das serragens, que àquela altura, obrigavam-no a se coçar todo.
Até mesmo operários de estandes próximos riam sem nenhum cuidado, contagiados pelas gargalhadas dos colegas.
Para cúmulo do desconforto, e do ridículo, Mirênio viu-se alvo de indisfarçados sorrisos de Helmuth, Karl, Ester e Campos, aqueles com direito, por serem seus superiores, mas a secretária e o motorista...
Nada podia contra eles:
serviam ora ao pai, ora ao filho.
Eram mais poderosos que ele.
Não restou alternativa a Mirênio senão retirar-se, humilhado, indo para casa, banhar-se e trocar de roupa.
Saiu coçando-se.
Embora Mirênio não fumasse, trazia sempre consigo uma caixa de fósforos.
Tinha a mania de, a cada cinco minutos, riscar um fósforo, a esmo, apagando-o logo.
Quando estava nervoso, reduzia o intervalo para dois minutos.
Naquele momento, refreou o impulso de riscar um e incendiar todo o estande...
Até chegar em casa, gastou uma caixa de fósforos inteira.
Karl estava orgulhoso com a genial decoração do estande da empresa “H&H” (de Heinrich-pai e Heinrich-filho, ele próprio).
Lá estava um reluzente “Konkord”.
Com saída privativa para uma pista externa dos pavilhões, o cenário denominado “circuito do tempo”, preparado em função do carro-vedete, pontificava a originalidade.
Com efeito, apropriando espaços, o veículo se deslocava pela pista artificial, em baixíssima velocidade, passando em ambientes que reproduziam, ora chuva, ora sol, ora dia, ora noite, calor e frio.
Todas as condições climáticas e de horário ali estavam replicadas, e cada eventual cliente poderia, em menos de cinco minutos, testar o comportamento do “Konkord” em todas elas.
Realmente, sensacional.
Já estava aberta uma fila de eventuais interessados - havendo-os às dezenas - na aquisição do superdesportivo.
Calculava-se que durante a exposição, à razão de dez clientes por hora, das 14 às 22h, por nove dias consecutivos, mais de 700 pessoas sentiriam o “gostinho” de pilotá-lo.
Isso mesmo:
na intensa propaganda já em andamento, o carro não teria motorista e sim, “piloto”.
Só ali na Feira, provavelmente seriam vendidas de 70 a 100 unidades, isto é, de dez a quinze por cento dos felizardos experimentadores.
Quanto ao modelo popular, aguardava-se um verdadeiro “boom” de vendas.
Essa a expectativa.
Quando Helmuth chegou, mudou o clima psicológico dos operários.
Superada a insólita cena protagonizada por Mirênio, reinou a frieza.
Helmuth raramente se dirigia a empregados.
Só falava “de directores para cima”.
Como sempre, tossiu e murmurou coisas que só ele e Campos, motorista e homem de confiança, entendiam.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:15 am

Este, a um gesto de Helmuth, “traduziu” a ordem do presidente:
Karl passou a mostrar ao pai a lista dos clientes em potencial, do “Konkord”, bem como o trajecto que o carro faria no “circuito do tempo”.
Helmuth, condescendendo, falou, sentenciando:
- A inauguração será coisa de presidente a Presidente:
serei a primeira pessoa a realizar essa prova.
Em segundo lugar, o Presidente da República.
Depois, o resto...
- Pai, o senhor não quer fazer um teste agora, para saber direitinho como proceder, na inauguração?
- É bom. Outra coisa:
já lhe disse que aqui não sou seu pai, sou o presidente...
- Sim, senhor presidente. Mil perdões...
Karl abriu a porta do “Konkord” para o pai entrar e deu a volta para também ele entrar e acompanhá-lo até o “circuito do tempo”, explicando os detalhes.
- Ahn, ahn...
Campos é que vai comigo.
- Mas pai, isto é, senhor presidente, ele não sabe como funcionam todos os comandos.
- Ensine a ele.
Você tem três minutos!
Tossiu e murmurou.
Olhou para Campos, impositivo.
- Ele está dizendo que o senhor já perdeu meio minuto - disse Campos, olhando fixo para Karl, aguardando as instruções de funcionamento do veículo.
Karl engoliu em seco a humilhação de ter que passar para o subalterno as características do veículo.
Mas, sem contradita, cumpriu a ordem do “senhor presidente”.
Terminada a explicação, Helmuth instalou-se no “Konkord” e determinou aos técnicos que acompanhassem seu deslocamento, para eventual assessoria a Campos.
Karl iria ao lado.
Ficou claramente configurada a humilhação imposta pelo pai, ao filho.
Este, ardeu de ódio.
Se era para os técnicos acompanharem, por que seu pai o obrigara a passar para Campos todos os detalhes?
Só pelo prazer de rebaixá-lo perante os subordinados?
O espumante ódio inundou-o de veneno todas as veias, causando-lhe maior desconforto por dentro, do que aquele que há pouco “brindara” Mirênio, por fora.
Iniciado o trajecto, com Campos na direcção e os técnicos orientando-o quanto ao painel dos controles, Helmuth tossiu e resmungou.
Campos acelerou levemente.
Novos resmungos e maior velocidade.
Karl e os técnicos tiveram que correr, compondo um quadro hilário.
Terminada a fantástica volta “em todos os climas do mundo”, Helmuth determinou que fossem alterados os níveis de chuva e frio, pois julgou-os fracos.
Queria-os intensos.
- Mas, senhor presidente - ponderou Karl, arquejando pelo cansaço -, os computadores já programaram tempo e intensidade.
Mudar isso agora poderá atrapalhar o desempenho do “Konkord”.
Tosses e resmungos do presidente.
Novamente, Campos decodificou:
- O senhor presidente disse que não está pedindo e sim mandando.
- Sim. Faremos isso.
Tosses e resmungos.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:15 am

- Já sei - adiantou-se Karl, silenciando Campos, que já se preparava para a devida tradução.
Na verdade, não sabia.
Mas, o nível de humilhação ultrapassara o suportável.
Karl retirou-se, livrando-se de ver o sorriso irónico e vencedor que perpassou pelo canto da boca do pai.
De Ester e Campos também.
Antes da visitação ser franqueada ao público, houve a inauguração oficial da Feira, só para autoridades, imprensa especializada e convidados ilustres, todos de vários países.
Nos deslumbrantes cenários, os veículos quase pareciam ter vida.
Os imensos galpões, feericamente iluminados e com impressionantes motivos decorativos, apenas com a presença dos convidados, mais pareciam cenários de filmes interplanetários.
Aboletada no reluzente superdesportivo da “H&H”, uma jovem de físico atraente, trajando vestido longo de seda branca, contrastando com o escarlate da máquina, em postura sensual, competia qual das duas a mais deslumbrante.
Na véspera a “H&H” recebera comunicado de que o Excelentíssimo Senhor Presidente da República, grato pelo honroso convite, estando impedido de comparecer, designara o Ministro da Indústria e Comércio para inaugurar a Feira.
Assim, após a inauguração oficial, Helmuth acompanhou o Ministro até seu estande e ao chegar, determinou a Karl:
- Acompanhe sua excelência.
Um frenesim percorreu Karl, por sentir-se prestigiado pelo poderosíssimo presidente.
- Sim, senhor presidente. Com prazer.
Karl abriu a porta para o Ministro e deu a volta para assumir a direcção do fantástico “Konkord”.
Maior humilhação não poderia atingi-lo, quando Helmuth, do alto do posto de mando absoluto, decretou:
- Campos dirige.
Você fica na supervisão dos controles electrónicos, para nada falhar.
- Mas... é o Ministro - balbuciou Karl, para o pai.
- Sim: por isso mesmo, não pode haver falhas.
Tossiu e resmungou.
Campos, presto, assumiu a direcção do veículo.
Karl, a “milissegundos” de violenta reacção, engoliu aquela que era a maior desfeita de toda sua vida.
Até então, a desfeita mais cruel tinha sido a do dia anterior.
Dirigiu-se ao painel, na mesa de controle e, constrangido, permaneceu ao lado dos técnicos que a manuseavam.
Não tinha conhecimento suficiente para operá-la.
O pai sabia disso.
Mas, a intenção foi deliberada: humilhá-lo.
A vários repórteres, não passou despercebido o inusitado lance.
Só quem já trabalhou junto à mídia pode avaliar o nível de pressão a que são submetidos os repórteres, principalmente se novatos.
O editor-chefe do jornal, por exemplo, dirige os acontecimentos num ambiente tal, que toda vez que o profissional vai a campo, em busca de uma reportagem, tem a sensação de que na volta será despedido, por insuficiência de sensacionalismo.
Ali, na abertura da Feira, muitos eram os repórteres que haviam sido convidados pela “H&H”, sem quaisquer despesas para eles, sendo hospedados em hotéis de cinco estrelas, tendo carro com motorista à disposição, por vinte e quatro horas.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:15 am

Óbvio que esse investimento aguardava retorno:
reportagens especializadas, enaltecendo o superdesportivo, então oficialmente apresentado como “Konkord”.
Na propaganda, após o nome do carro havia um número 500, não aleatório:
a “H&H” informava que só seriam feitos 500 exemplares.
Esse ousado lance de “marketing” açulou a vaidade dos ricaços, alguns dos quais encomendaram um exemplar, apenas para colecção.
Quanto aos profissionais da imprensa, sabiam que terminada a Feira teriam que continuar em seus empregos.
Foi para garanti-lo que, mesmo tendo que se portarem com leveza ética, alguns deles julgaram ser seu dever fustigar os poderosos Heinrich.
Se acrescentassem pitadas de intriga familiar no alto escalão da “H&H”, suas reportagens não seriam apenas técnicas...
Um repórter aproximou-se de Karl:
- Senhor vice-presidente, tudo bem?
- Sim.
- O senhor não deveria estar na direcção do “Konkord”?
- É... deveria... mas achamos melhor o motorista dirigi-lo.
- O senhor não acha estranho um motorista acompanhar o Ministro?
Isso não deveria ser incumbência sua?
- Acontece que considerei melhor ficar nos controles, supervisionando.
- Seu pai tem algo a ver com a sua, digamos, “consideração”?
- Não. Nada a ver.
Aqui, mando eu.
A repórter dirigiu-se a Helmuth, que estava próximo:
- O senhor aprovou a decisão do responsável pela “H&H”?
- Qual decisão?
E qual responsável?
- Seu filho...
- Ele não é responsável pela “H&H”.
Aqui, nem é meu filho, apenas vice-presidente.
Eu sou o dono.
E quem decide tudo!
Tudo, minha filha! Entendeu?
- Então por que o senhor não acompanhou o Ministro no carro?
- Estaria a bordo, minha filha, se ao meu lado estivesse o Presidente da República...
- Nesse caso, por que o senhor Karl não acompanhou o Ministro?
- Porque acompanhará... você.
E não se esqueça de enaltecer o nosso carrinho, conforme combinei com seu chefe.
Na verdade, Helmuth havia convidado as emissoras de televisão e jornais que, em troca de generosas verbas de propaganda da “H&H”, deveriam contemplar o “Konkord”, nas “imagens gerais” da Feira.
Concluída a volta do senhor Ministro, um batalhão de repórteres entrevistou-o:
- Senhor Ministro... senhor Ministro... senhor Ministro..., exclamavam os repórteres, quase engalfinhando-se.
“Como foi”? “Qual sua impressão”?
“Sentiu mesmo frio e calor”?
- Sim, sim. Nunca vi nada igual.
Coisa fantástica!
Imagino que esse carro só deveria ser lançado no próximo século.
A “H&H” está de parabéns!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:15 am

E arrematou:
- O “Konkord” não é deste planeta!
Devolvia assim, o senhor Ministro, a gentileza de Helmuth, que pusera à disposição dele seu jacto particular, para trazê-lo e levá-lo de volta à Capital, além de hospedá-lo regiamente, com a comitiva ministerial, formada de dois chefes de Departamento e da secretária.
Karl tentava a todo custo participar da entrevista que o Ministro concedia aos repórteres, mas seu pai roubou-lhe esse gosto.
Aos tossidos e resmungos de Helmuth, Campos traduziu-os para Karl:
- O senhor presidente manda o senhor dar uma volta com os repórteres, começando pelas televisões.
A Karl não restou senão obedecer.
Foram distribuídas senhas a cinco repórteres e, a todos, o vice-presidente demonstrou o fabuloso veículo.
Nos dias seguintes, conforme o previsto, a vedete da Feira foi mesmo o “Konkord”.
O número de encomendas ultrapassou a previsão: foi o dobro.
Terminada a exposição, Karl programou um churrasco no clube de campo da “H&H”, com participação de todos os empregados, para comemorarem o êxito obtido.
Determinou a data e horário e toda a programação, passando as ordens para Mirênio providenciar.
Informou ao pai:
- Senhor presidente:
determinei a realização de um churrasco, em comemoração às vendas do “Konkord” e apreciaria que o senhor nos prestigiasse, comparecendo.
Será no sábado.
- Ah, é? E quanto vai custar?
- Ainda não sabemos, mas a “”H&H” vai pagar, revertendo em lucro, pois precisamos motivar os empregados na fabricação das encomendas, o que vai exigir deles muita dedicação e trabalho.
- Cancele!
- O quê?!
- Cancele!
- Mas... pai... já está tudo preparado...
- Quem manda aqui ainda sou eu!
Tossiu e resmungou.
Campos, ao lado, traduziu ainda uma vez:
- Disse para o senhor se retirar...
Dessa vez foram ultrapassados todos os limites toleráveis, todas as fronteiras entre o equilíbrio e o descontrole psíquico, quebrada foi toda a hierarquia funcional.
Com a voz surda e o olhar extravasando cólera, Karl perdeu o controle, desprezou todo o respeito que a duras penas demonstrara até ali.
Aliás, não era robusta a linha divisória funcional que o obrigava à subserviência ao presidente.
Menos, filial, explodiu:
- Se o senhor fizer isso, deixo a empresa!
- Óptimo! Dentre os mil candidatos à sua vaga, uns 999 serão mais competentes que você.
- Se eu sair daqui, deixo de ser seu filho e imagino que o senhor não vai encontrar outros 999 por aí...
- Olhe o respeito, rapaz! O respeito!
- Respeito?! Quando foi que o senhor me respeitou?
Até esse motorista, o Campos, recebe mais consideração do senhor que eu. Ou nega isso?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:16 am

- Ele faz mais por mim do que você, só isso.
Questão de custo-benefício, meu caro.
- Se o senhor pensa assim, estou me demitindo neste momento!
- Jamais! Jamais!
- Veremos: ninguém pode impedir-me de sair desta empresa.
Prefiro passar fome a continuar aqui.
- Jamais você se demitirá, seu imprestável:
eu é que determino sua demissão! Está demitido!
Karl achegou-se à mesa do pai e com os braços estendidos “varreu” tudo o que estava em cima, atirando aos ares objectos e papéis.
Retirou-se, chutando os objectos e pisando propositadamente nos documentos espalhados pelo chão.
Retornou ao seu gabinete e determinou a Ester:
- Convoque agora mesmo uma colectiva para as 17h:
TV, rádios e jornais, Federação das Indústrias, Associação Comercial e Industrial e Sindicatos.
Todo mundo! Todo mundo!
- A pauta:
o senhor pode adiantar?
- Uma bomba!
- Ahn?!
- Surpresa! E chame o Mirênio.
Quando o gerente de “RH” adentrou, captou que Karl estava irritadíssimo.
Bajulou-o, como sempre:
- Se o senhor quiser, volto outra hora... não quero incomodar...
- Como, seu tonto, se fui eu que mandei chamá-lo?
- É verdade: sou tonto mesmo!
- Prepare meu pedido de demissão!
- Céus! Não faço isso!
De jeito nenhum! Prefiro morrer!
Não conseguindo controlar-se, Mirênio acendeu um fósforo, apagou-o, começou a chorar.
- Deixe de cenas.
Faça o que mandei.
Nesse momento Ester entrou, aflita:
- Senhor Mirênio:
o senhor presidente exige sua presença agora mesmo.
- Mas... Estou atendendo ao senhor Karl...
- Ele sabe.
Deu dois minutos para o senhor apresentar-se a ele.
Mirênio começou a tremer.
Voltou a chorar.
Riscou outro fósforo.
Nunca enfrentara situação tão complicada:
se ficasse com o filho, desagradaria ao pai e certamente seria despedido!
Se fosse atender ao pai, sabia que quando os dois se reconciliassem ele passaria a ser o “bandido” daquela história.
Falou mais alto a sobrevivência:
- Mil perdões, senhor Karl, mas seu pai é o presidente...
- Pode ir atendê-lo, mas logo em seguida prepare minha carta de demissão.
Da sala de Karl à de Helmuth, Mirênio foi acendendo fósforos...
Quando Mirênio adentrou, espantou-se com tantos papéis pelo chão.
Num ato reflexo, jogou-se ao chão e começou a juntá-los.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:16 am

Helmuth não disfarçava a soberba, vendo o gerente de “RH” engatinhando daqui para a li, qual um cachorrinho travesso atrás de uma bola.
Campos, impassível, imóvel, sorria, sarcástico.
Quando Mirênio terminou começou a ordenar os papéis.
Só depois de alguns minutos concluiu a voluntária tarefa.
Eufórico, autocelebrando competência, juntou os calcanhares com energia e estrépito, como se militar fora.
Perfilou-se, depois se curvou e ofertou:
- Às suas ordens, meu presidente.
- Não vou falar duas vezes.
E não quero ouvir nenhuma palavra sua.
Entendeu?
Houve um silêncio profundo.
- Óptimo. Estamos entendidos.
O “garoto” (assim referia-se ao filho) está meio nervoso, mas isso passa.
Não faça nada que ele mandar, sem primeiro consultar-me.
Entendido?
Tossiu e resmungou.
Campos registou:
- O senhor Helmuth está perguntando se o senhor entendeu a ordem.
- Sim. Não quis falar porque ele determinou que não queria ouvir minha voz.
Tosses e resmungos.
Campos:
- Ele está mandando o senhor mostrar com a cabeça que entendeu.
Mirênio abaixou e elevou a cabeça umas seis vezes.
- Muito bem — prosseguiu Helmuth —, já fiquei sabendo que o garoto chamou a imprensa para uma entrevista hoje à tarde, às 17h, no auditório.
Você já sabia?
Mirênio confirmou, meneando a cabeça.
- Pois então prepare a pauta da entrevista e eu é que vou atender os repórteres.
Quero que todos os empregados compareçam.
Vou sortear três carros.
Providencie com a segurança que ninguém da empresa entre no pátio depois da minha chegada.
E não divulgue que eu estarei lá.
Senão...
Mirênio abaixou e elevou a cabeça várias vezes.
Saindo dali, foi até a sala do vice-presidente, mas ele havia saído.
Deu graças a Deus, pois assim livrava-se do terrível desconforto de ter que desobedecê-lo e ainda por cima estar impedido de justificá-lo.
Cumpriu as ordens do “doutor” Helmuth, de imediato.
Mesmo após a intempestiva saída de Karl, a jornada na multinacional de veículos continuou em aparente calma.
Só na aparência.
Por um desses inexplicáveis mecanismos da convivência humana, de muitas pessoas principalmente, quase todos ficaram sabendo, até com detalhes, o áspero diálogo, há pouco, entre os donos - pai e filho.
Todos os empregados foram convidados para comparecerem no pátio, às 17h, onde seria servido um coquetel.
De forma a tornar irrecusável o convite, ficaram sabendo que seriam sorteados três veículos “zero quilómetro” dentre os presentes.
Ferveram comentários, deduções e prognósticos.
Falava-se em demissão em massa.
Quanto a Mirênio, aquele “senão” de Helmuth, ecoava intermitentemente em sua mente, provocando-lhe o gostinho de guilhotina...
Riscou vários fósforos.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 18, 2017 9:16 am

2. “TOUCHÉ”
Quando Karl chegou em casa e contou para Cássia que estava demissionário, a esposa quase teve uma síncope:
- Você está maluco?
Perdeu o juízo?
A “H&H” é sua, seu bobo.
Como é que vai sair de lá?
E nós? E eu?
Você não tem um emprego, tem uma fábrica, ou melhor, será toda sua quando seu pai morrer.
Mas agora, por enquanto, pelo menos a metade já é sua. Nossa!
- Não aguento mais tanta humilhação do meu pai...
- É por que você não se dá ao respeito.
- Ah, é? Pois fique sabendo que o velho trata melhor o Campos do que eu.
Seu eu pudesse... mandava ele embora com um pontapé bem dado...
- Não acredito. Acorde-me, pois devo estar sonhando:
um simples motorista tem mais prestígio que o vice-presidente?
Isso não existe!
- Não é bem assim, meu pai dá cobertura àquele atrevido.
Se eu pudesse...
- Olhe aqui, meu bem, não adianta ficar resmungando “se eu pudesse... se eu pudesse...”.
Você pode!
- Falar é fácil...
- Vamos dar a volta por cima.
Tenho um plano e sei que vai dar certo.
Em pouco tempo, menos do que você pensa, a “H&H” estará em suas mãos.
- Falar é fácil...
- Esse é o seu problema:
negativismo, medo, passividade.
Nós estamos falando de milhões, biliões, talvez, e você me vem choramingar que um motorista é mais poderoso que nós.
Faça-me o favor Karl... Acorde!
Põe seu bloco na rua, meu amor!
Nosso bloco, aliás.
- Como? Como?
Não volto mais àquele caldeirão fervente, pois lá não passo de uma simples batata esturricada...
- Haja paciência para aguentar você!
Vou pôr meu plano em prática e a primeira parte é você voltar lá, agora mesmo, e pedir desculpas ao seu pai.
- Nunca! Prefiro morrer!
Jamais me humilharei outra vez diante daqueles dois.
- Como você é infantil!
Dê ordem ao Mirênio para inventar qualquer desculpa e chamar o Campos até a Seção do Pessoal e segurá-lo lá por meia hora.
Enquanto isso, você vai até seu pai e explica para ele que foi convidado para assumir um importante cargo no segundo escalão do governo federal.
- Ele não vai acreditar...
- Vai, sim.
Agora mesmo vou telefonar para minha amiga S. Meire, colunista social e passar para ela “em primeira mão” essa notícia...
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Ave sem Ninho

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:55 am

- Mas não é verdade...
- Claro que não é verdade.
Essa não será a primeira nem a última vez que aquela fofoqueira vai fazer uma fogueira fria.
O jornal para o qual ela escreve coluna social é talvez o mais poderoso de todos.
Como eu vou empenhar meu nome para ela, mas pedir segredo, é certo que a notícia será publicada.
O resto, bem, o resto, meu amor, fica por conta da sede de fofocas do mundo. Entendeu?
- Mais ou menos...
- Pois é. Quando os repórteres chegarem hoje à “H&H”, minha amiga já terá vazado o “furo de reportagem”, em edição-extra pela TV, mais ou menos nestes termos:
“Vice-presidente deixa a “H&H” para assumir importante cargo no governo federal.
Especula-se que o convite tenha partido do Presidente e que o novo local de trabalho seja bem pertinho do gabinete número um da República.
Detalhes completos, amanhã, em nossa coluna social”.
- Mas, e depois?
O que fazer?
- Seu pai, sim, vai “pegar fogo” de verdade, quando souber que não poderá mais humilhá-lo.
Ou você ainda não percebeu que a motivação do meu sogro é nos fazer desfeitas, magoar-nos o tempo todo?
Também venho aguentando grosserias dele, mas agora chegou a hora do ajuste de contas.
- Você tem razão.
Mesmo sendo mentira, passo a ter cotação elevada para negociar minha permanência na “H&H”, com os direitos que me pertencem.
- Direitos, não, meu bem, poderes!
Não se esqueça disso:
só quem tem poder sobrevive.
Se para ter poder, for preciso, ajoelhe-se e peça perdão.
O mundo é uma selva e quanto mais nós pudermos ser leões ou tigres, melhor viveremos.
Imite o leão, que deixa a leoa caçar a presa, para depois devorá-la.
Antes de atacar a presa, os dois rastejam, ficando em nível inferior a ela...
Nunca se esqueça disso.
Rasteje, se necessário, para que o poder seja todo seu.
- O que... você quer dizer com isso?
- Exactamente o que você ouviu:
vou acuar as nossas presas e você vai se impor depois.
No instante que você entrar na sala do seu pai, mande o Mirênio informar-me.
E quando terminar a reunião, quero ser a primeira a saber as novidades.
Não se esqueça de me telefonar, imediatamente.
Quero sentir o gostinho de ver você começar a derrotar seu pai.
Às 16h30min, Cássia telefonou para o maior jornal do país, convocou S. Meire e passou-lhe o “furo”.
Demonstrando grande emoção, pediu à amiga para aguardar confirmação da notícia para só, então, publicá-la.
Isso foi o mesmo que pedir imediata divulgação, o que foi feito, quinze minutos após, pela TV, como notícia-extra.
Como, aliás, Cássia planeara.
No mesmo instante, isto é, às 16h45min, Karl retornou à “H&H” e entrou em seu gabinete, nem precisando chamar Mirênio, pois este o aguardava, à entrada, qual insólito plantão.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:55 am

- Chame agora mesmo o Campos à Seção do Pessoal e segure-o lá até eu sair do gabinete do meu pai.
Karl nem de leve referiu-se ao pedido de demissão e Mirênio sentiu grande alívio com isso, pois Helmuth determinara que só cumprisse suas ordens, e essa ele não dera.
Quando Campos chegou à Seção do Pessoal, Mirênio informou a Karl, que em seguida dirigiu-se à sala do presidente.
- Pergunte ao meu pai se ele pode atender-me.
Ester assustou-se, primeiro por ver Karl, que sabia demissionário e também porque aquela era a primeira vez que pedia permissão para falar com o pai.
Cumpriu a ordem, levantando-se e indo até a sala do senhor Helmuth, ao invés de usar o interfone.
Logo retornou:
- O doutor Helmuth aguarda-o.
Faça o favor de entrar.
Helmuth também estranhara o facto de o filho pedir permissão para falar-lhe, contudo, deduziu que isso significava pedido de perdão.
Vitorioso e soberbo, aguardou a presença do filho.
Quando se olharam, pai e filho, uma estranha electricidade alcançou-os, simultaneamente.
Helmuth surpreendeu-se com as feições de Karl, denotando grande calma interior.
Com efeito, Karl mantinha a mente em absoluto controle, para executar o plano de Cássia, o qual sancionara por completo.
- Pai, fui impulsivo e quero me redimir.
Estou com a cabeça quente, pois fui convidado para assumir um alto cargo em Brasília...
Por isso, pedi demissão, ou melhor, pensei em demitir-me, considerando que o senhor não precisa de mim... espero que o senhor me perdoe...
Essa era a primeira vez que Karl tomava uma decisão e isso pegou o pai desprevenido.
Helmuth engoliu em seco.
Tinha um bem elaborado plano para a “H&H”, que contava com a presença do filho, não tanto mesmo pela competência, mas pelo “nome” - Heinrich.
Tratava Karl com brutalidade para desenvolver nele a “dureza dos fortes”, que sempre vencem, com ou sem razão.
Enrijecendo o filho, faria dele um vencedor.
E Karl só chegaria a esse ponto se tratado com brutalidade, pois não nascera com “fibra”.
Assim pensava Helmuth.
- Quem o convidou?
- Desculpe, mas não posso revelar.
Ainda está em sondagens...
Apenas fui informado por um amigo, chegado ao primeiro escalão...
- Quem faria isso sem meu conhecimento?! - explodiu Helmuth.
- Por que “seu conhecimento”, pai?
É o meu futuro que está em jogo.
Dessa vez Helmuth não censurou-o por chamá-lo, ali, de pai.
- Cale a boca!
O único futuro que me interessa é o da “H&H”.
Quem foi o atrevido?
Vamos... diga-me logo.
Karl, de caso pensado, mil vezes mentalmente ensaiado, levantou-se, fazendo menção de retirar-se.
- Sinto, pai, mas não posso dizer.
A voz era calma, de domínio absoluto das emoções.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:55 am

Em total contraste com a revolta de poucas horas atrás.
- Eu é que vou decidir isso - exasperou-se Helmuth, agora ele, perdendo o controle.
Resmungou e tossiu.
Mas Campos não estava lá.
Levantou-se abruptamente e alcançou o filho que já dera dois ou três passos em direcção à saída.
- Não faça nada sem me consultar!
- Mas, pai, o senhor mesmo me demitiu há menos de cinco horas.
Há dias eu já havia sido sondado pelo pessoal “lá de cima” e penso que foi Deus que me respondeu...
- Deixe Deus fora disso, pois é sujeira que estão fazendo comigo.
Nunca isso poderia acontecer...
Ester informou pelo interfone que havia um telefone urgente para o presidente.
Helmuth, antes de atender, determinou que o filho voltasse.
- Alô, aqui é Helmuth.
Karl percebeu que o pai ficou lívido com o que ouvia, irritando-se com o interlocutor:
- Na TV?! Não confirmo nada.
Claro que já sabia... há dias meu filho me contou... mas não decidi, ou melhor, não decidimos ainda.
Logo mais terei resposta, na reunião que convoquei.
Passe bem.
- Esses fofoqueiros... imagine que querem saber se a reunião será para divulgar seu afastamento e qual a data da sua posse lá na Capital.
- Incrível, pai, como essas coisas se espalham.
Não disse uma única palavra para ninguém.
Nem para Cássia.
Do outro lado da linha telefónica, na casa de Karl, estavam Cássia e S. Meire.
Esta, convidada por aquela, viera até ali, para uma visita de amigas e “mais detalhes”.
Fora Cássia que sugerira à repórter que ligasse, dali mesmo, para o todo-poderoso presidente da “H&H” e confirmasse a veracidade da notícia, há pouco divulgada pela TV.
Cássia sabia, por Mirênio, que pai e filho estavam “em reunião” e assim o momento daquele telefonema era estrategicamente propício para seu plano.
Mais falsidades, difícil.
A irritação de Helmuth só fez aguçar a curiosidade da repórter social, dando-lhe convicção que realmente havia brasas embaixo das cinzas.
Às 17h o pátio fervia, com os directores, gerentes, chefes, encarregados e centenas de operários aguardando o que estava por vir.
Sem que ninguém conseguisse explicar, todos já sabiam que houvera discussão entre pai e filho, o pedido de demissão deste, bem como sua ida para a Capital, onde seria Ministro...
Mirênio estava a ponto de “entrar em órbita”, pois precisando agradar aos superiores, segundo seu manual secreto de sobrevivência profissional, não sabia como fazê-lo, estando em oposição pai e filho - presidente e vice-presidente.
E ambos dando-lhe ordens, opostas também.
Já tinha tomado três comprimidos calmantes, cada um acompanhado de meio litro de água com açúcar.
Alguns repórteres tentaram conseguir informações com os directores, outros com gerentes e outros ainda, com empregados, quanto ao que seria tratado.
De modo geral, todos souberam do que se tratava.
Sobre Karl...
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:56 am

- Senhoras e senhores - iniciou Helmuth, chegando com o filho -, a “H&H” tem a satisfação de acolhê-los, pois temos grandes notícias.
Pigarreou e resmungou.
Campos fez um sinal para alguém, distante.
Logo, três carros foram trazidos para a frente do palanque onde estavam os convidados especiais, directores e repórteres.
Houve uma salva de palmas, inaugurada, ou melhor, “puxada”, por um Mirênio quase à histeria.
- Desculpem esse pobre velho - brincou Helmuth, cujo gracejo só contou com o apoio de Mirênio, que se vendo isolado nisso, pegou um fósforo e quase riscou-o, contendo-se a tempo.
Helmuth prosseguiu.
- Nossa reunião é para informar a todos uma grande mudança que ocorrerá nesta empresa.
O “suspense” foi criado.
Helmuth continuou:
- Tão grandes serão as mudanças que muitos de vocês hoje entraram aqui com um cargo e quando saírem terão outro, mais elevado...
Os olhares concentraram-se em Karl.
Se fosse possível analisar os funcionários, um por um, seriam registados os maiores absurdos:
- Os directores, todos, viram-se guindados à vice-presidência;
- Os gerentes, sem excepção, viram-se directores;
- Os chefes tiveram “certeza” de que seriam gerentes;
- Os encarregados de sector julgaram-se os mais novos chefes;
- Os operários, esses, coitados, uns viram-se encarregados, outros, chefes, havendo até um que se julgava em condições de ser director.
Em todos esses devaneios havia um denominador comum:
euforia ante a elevação de “status” profissional.
Não poucos, fizeram as contas dos respectivos aumentos salariais e planearam, em segundos, viagem internacional, troca de casa, de carro, compra de lancha, de motocicleta, de bicicleta e por aí vai.
- Senhor presidente - aparteou um afoito repórter, como afoitos sabem ser todos eles - o que o senhor nos informa tem algo a ver com o cargo da vice-presidência?
Helmuth pigarreou e agrediu:
- Você quer vir para meu lugar e presidir a reunião?
Agora, sim, o riso foi geral.
Quando todos pararam de rir, aguardando o desfecho, Mirênio continuou gargalhando, pois percebera que o presidente apreciara o facto de a própria piadinha ter sido bem aceita pelos presentes.
Quando Mirênio deixou, Helmuth contemporizou, do alto do seu cargo, aliviando o repórter do constrangimento:
- A impetuosidade faz muita gente comer cru, meu jovem.
Já vamos atendê-lo, falando do meu filho querido.
Antes, temos um “furo” para todos.
Chamar Karl de “filho querido” não se coadunava com demissão.
Alguma coisa diferente estava no ar.
Helmuth olhou para Campos, que logo serviu-o água.
Tomou um gole.
Respirou fundo e soltou o “furo”:
- A “H&H” tem a prioridade da instalação de uma fábrica de ônibus e caminhões aqui mesmo neste país e estamos decidindo em que Estado será localizada.
- Senhor presidente...
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:56 am

- Senhor presidente...
- Senhor presidente...
Os repórteres, mesmo mantidos a distância pelos encarregados da segurança, atropelavam-se para poder inquirir Helmuth.
- Responderei a todas as perguntas.
Antes, deixem-me concluir a boa notícia:
já tenho em mente onde será instalada a nova fábrica.
Olhando para Karl prosseguiu:
- Só tenho uma dúvida:
quem será o presidente dessa nova unidade e quem nós poderemos levar daqui mesmo para nos ajudar na sua implantação.
Novamente a ambição percorreu as mentes.
Uns viram-se promovidos à presidência; outros, à directoria...
Helmuth aduziu:
- O presidente da nova fábrica irá estagiar por uns três meses na Europa e Estados Unidos para verificar detalhes de outras fábricas iguais à que implantaremos aqui.
Com ele, irão os assessores que julgar necessários.
O frenesi tomou conta de muitos.
Helmuth adoçou ainda mais a pílula:
- Os casados poderão levar as esposas...
Mirênio não se conteve:
irrompeu em enérgicos aplausos, seguidos de risos curtos e descontrolados.
Já se via, ele, com a mulher, em Paris... Viena... Roma... Nova York.
Pensou:
“em Miami e na Disneyworld não vou, pois qualquer um já pode ir, isso já está vulgar...”.
Nervosamente, riscou alguns fósforos e apagou-os antes mesmo da chama irromper por completo.
Helmuth jogou seu trunfo, levantou-se, aproximou-se do filho e disparou:
- Quem vocês acham que deve ser o presidente da nova fábrica?
A expressão corporal era clara.
Era uma ordem.
Mesmo assim, as pessoas não obedeceram de pronto.
Aguardavam uma notícia de demissão e ouviram um convite tácito para o “futuro demitido”.
Helmuth captou o clima e reagiu rápido:
olhou para Mirênio, tossiu e resmungou.
O gerente decifrou, no ato:
- Viva o novo presidente, o senhor Karl!
Batendo palmas sem parar, não houve como não ser acompanhado pelos presentes, a partir dos directores, embora não com o mesmo entusiasmo, mas a isso coagidos pelo duro olhar de Helmuth, fulminando-os, exigente.
- Vocês acham que meu filho deve ser o presidente?
- Sim - gritou Mirênio.
- Quem pensa diferente, levante as mãos...
Ninguém ousou.
Muitos, contudo, bem que gostariam.
- Bem... ouçamos o próprio...
Helmuth, num gesto de grande efeito psicológico, passou o microfone para o filho.
- Vocês sabem... - gaguejou Karl - que estou numa encruzilhada... a sorte me sorri duplamente neste momento... preciso pensar...
- Nada disso - atalhou Mirênio, perdendo a compostura - o senhor tem que ser o nosso presidente na nossa nova fábrica.
Os dois Heinrich adoraram a impetuosidade do adulador.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:57 am

- Mas o senhor não foi convidado para ser Ministro? - gritou um repórter.
- Na verdade, fui sondado para um alto cargo federal, mas agora...
Estava rendido.
Helmuth percebeu-o e decretou:
- Estamos decididos.
Prepare seu passaporte e o da minha nora.
Tímidos e esparsos aplausos deram conta da impopularidade de Karl.
- Senhor Karl - gritou outro repórter - o senhor não pediu demissão?
Ficamos sabendo que hoje de manhã houve uma discussão com seu pai...
- Para início de conversa, meu caro, aqui não existe “meu pai” e, sim, o senhor presidente.
“Pai”, só quando nós dois saímos das dependências da “H&H”.
Tivemos uma discussão, sim, pois quero localizar a fábrica num Estado e o senhor Helmuth em outro.
E, quanto à minha demissão, vocês todos têm razão:
como poderia ser presidente da nova fábrica, sem primeiro, pelo menos em termos internos, demitir-me da vice-presidência administrativa desta?
- E qual é o Estado onde ficará a nova fábrica?
- Bem... agora é você que quer me demitir da presidência lá, antes mesmo da minha chegada... se eu revelar esse segredo...
A gargalhada foi geral.
- Fiquem sabendo que só aceitei a presidência na nova fábrica porque impus a condição de que eu decidiria seu endereço.
Helmuth sentiu o inesperado golpe que seu filho acabava de desferir-lhe.
Não havia previsto isso, mas admirou-se da rapidez de raciocínio e esperteza de como o filho se valia daquela oportunidade para pregar-lhe semelhante peça.
Na verdade, uma nova fábrica estava na cogitação da “H&H”, mas nem o próprio Karl sabia a quantas andavam as negociações com congéneres internacionais.
Helmuth, por telefone, há dois dias, havia fechado contrato com elas, aguardando a redacção dos respectivos contractos.
Ficara acertado, em princípio, que forneceriam parte da tecnologia para a “H&H”, à troca de prioridade na comercialização na Europa e América do Norte.
O esperto arroubo de Karl, diante de toda a mídia, não possibilitava reversão daquele quadro.
Pelo menos, por enquanto...
Após o sorteio dos três carros, a reunião terminou.
Karl telefonou para Cássia e disse uma única palavra:
- “Touché”!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:57 am

3. RAZÃO À FORÇA, OU FORÇA PELA RAZÃO?
Saindo da reunião, uma sensação de vitória-derrota visitou a mente de Helmuth e também a dos directores em geral, do gerente de “RH” e de alguns outros gerentes, chefes e encarregados.
Na verdade, havia ficado no ar um clima de inúmeras promoções, contudo, a nem todos agradava a ideia de serem subordinados directos de Karl.
Além disso, como sempre, nesses casos, a expectativa gerada ultrapassava as futuras vagas.
Após algumas entrevistas, Karl retornou à sua sala.
Surpreso, ali encontrou Cássia.
- O que... você está fazendo aqui?!
- Após seu telefonema vim “dar uma força”, caso seja necessário.
- Como assim?!
Já resolvi tudo.
- É o que você pensa.
Seu pai não vai engolir sua escolha de local para a nova fábrica.
- Como é que você sabe da nova fábrica?
E do meu pai?
- Simples. Assim que cheguei aqui chamei o Mirênio e enquanto você era entrevistado por aqueles chatos, determinei-lhe que me contasse tudo o que tinha acontecido na reunião.
Sobre seu pai, é dedução minha.
- Aquele...
- ... óptimo aliado nosso!
Isso é o que o Mirênio é!
Temos que prestigiá-lo, talvez com uma promoção.
- Ele já chegou ao ponto máximo de um funcionário...
- Mas podemos criar um cargo intermediário, entre a gerência e a directoria, algo assim como subdirector.
O telefone tocou.
Helmuth convocava seu filho, agora mesmo.
- Eu não disse? - jactanciou-se Cássia.
- Não disse o quê?
- Que seu pai ia mudar sua escolha?
- Como você sabe que é isso que ele quer falar comigo?
- Pura intuição feminina.
Aposto cem contra um que é isso mesmo.
Aliás, adianto-lhe que, minutos antes de você chegar, telefonei à Heleninha, esposa do Governador do meu Estado e garanti a ela que a fábrica será lá, pois você gosta do casal e conta com o apoio do Governador quanto às facilidades tributárias estaduais que certamente ele concederá à nova “H&H”.
Para todos os efeitos, a escolha do local foi feita por você.
- Fez e prometeu tudo isso sem me consultar?!
Cássia envolveu o marido num abraço sensual e beijou-o, sussurrando:
- Olhe, meu bem, fiquei orgulhosa da sua inteligência, dizendo à imprensa que você escolheria o local da nova fábrica.
Você já pensou na paparicação que teremos, tendo a Heleninha como amiga?
Pense que finalmente “nosso” cargo e “nosso” poder vai aparecer.
Karl rendeu-se.
Quando Karl chegou ao gabinete do presidente, adentrou-o sem se anunciar e sem pedir permissão, contrariando seu costume.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:57 am

Campos estava de pé, ao lado de Helmuth.
Este tossiu e resmungou.
- Estamos mandando você sair - antecipou-se Karl, usando de uma desconhecida autoridade, pelo menos até ali jamais exercida.
O motorista, indeciso, olhou para o patrão, que também estava surpreso com a inédita postura do filho.
- Agora! - determinou Karl, elevando a voz.
A Campos não restou senão obedecer.
- O que o senhor quer? - indagou Karl a Helmuth.
- Essa história de você decidir o local da fábrica vai ser o seguinte:
eu escolho, como aliás já escolhi e nós dois confirmaremos que foi você mesmo quem decidiu.
“Cássia tem razão”, pensou Karl.
E remoeu uma frustração íntima:
“tanto ela quanto meu pai consideram-me um incapaz...”.
- Qual é o Estado, pai?
- No Nordeste.
- Pode parar!
Já decidi onde será e não é lá.
- E desde quando você manda aqui?
Ou manda em algum lugar?
- Não vamos iniciar nova discussão.
Se o senhor acha que eu não tenho capacidade para escolher o melhor local da nova fábrica, que aliás será onde eu terei que trabalhar e residir levando minha família, demita-me.
O lance foi forte.
Helmuth sentiu-se terrivelmente acuado pela lógica filial.
- Você está de cabeça quente.
Amanhã conversaremos.
Como Karl não se mexesse, Helmuth sugeriu:
- Pode voltar aos seus afazeres...
- Olhe aqui, pai... se o senhor pensa que manda em mim e pode manipular-me como um objecto, isso acabou.
Nesse jogo que o senhor mesmo me envolveu, quem tem as melhores cartas agora sou eu.
- Melhores cartas?
Desde quando, fedelho, você é melhor do que eu?
- Posso mesmo não ser igual ao senhor, mas não se esqueça de que nos separando não existe apenas seu cargo...
- E o que mais?
- Apenas trinta anos de diferença, o que lhe confere, além do cargo de presidente, o de velho e, como consequência, sério candidato à cova...
Helmuth sentiu uma fisgada no peito.
Karl prosseguiu:
- Há muito tempo quero dizer-lhe umas verdades e decidi que chegou a hora.
Helmuth sentiu ligeiro torpor e a vista escureceu.
Ficou meio tonto.
Karl não percebeu e continuou:
- O senhor é um ditador, sem sentimentos, egoísta e vaidoso.
Já estou cheio de suas poses e suas ordens malucas.
Considero que está na hora de o senhor ir tratar da esclerose.
Helmuth sentiu uma segunda fisgada.
Mais forte, dessa vez.
Teve a impressão que o braço esquerdo estava sendo electrocutado.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:57 am

Ainda Karl:
- Sabe por que o senhor ficou viúvo? Sabe?
Terceira fisgada.
- Porque mamãe cansou de ser maltratada pelo senhor e, para ela, a morte foi a liberdade.
Helmuth tombou, fulminado pelo infarto do miocárdio.
Vendo o pai “ensaiar” um desconforto qualquer, segundo imaginou, longe de se assustar ou compadecer-se, Karl elevou a voz:
- Ester!
- Pois, não - acorreu a secretária, adentrando, assustada.
- Veja se meu pai quer um copo d’água.
Ester aproximou-se tímida e tocou no ombro de Helmuth. Balbuciou:
- Ele ... não se mexe...
Karl, com displicência, rodeou a mesa e tocou no pai.
Só então percebeu que algo grave tinha acontecido.
- Chame o doutor Celso, já. Corra!
Quando o médico chegou, só restou-lhe atestar o óbito.
Karl assumiu a presidência da “H&H”, dispensando quaisquer formalidades.
A fábrica ficou parada por três dias, em luto pelo falecimento do presidente.
Por ordem de Karl, só o gerente de “RH” trabalhou e assim mesmo para providenciar duas demissões:
de Ester e de Campos.
Campos não se conformou com a demissão.
Até porque, cumprindo ordens de Karl, Mirênio pessoalmente executou-a, com indisfarçáveis cenas humilhantes para com o demitido.
Só pensava em vingança o prestigiado motorista do “número um”, como vaidosamente apelidara o luxuoso automóvel do senhor Helmuth, parafraseando o portentoso avião presidencial norte-americano.
Perder o emprego já tinha sido grave punição, contudo, ser humilhado, isso não aceitava de nenhum modo.
O orgulho exacerbado era-lhe companheiro há anos...
Aliás, é sabido que alguns, talvez quase a maioria dos motoristas de grandes autoridades ou personalidades importantes, com o tempo, passam a se julgar parelha com seus patrões.
É inevitável no ser humano essa auto-concessão, só explicada pela Psicologia, que a enquadra na categoria de devaneios, cuja repetição leva-os a uma enganosa certeza, abstraído o paradoxo.
Campos chefiava um grupo de várias pessoas, reunindo-se semanalmente em sua casa.
Ali, eram invocados poderes espirituais, para a consecução de objectivos nem sempre espiritualizados, e mais que isso, os componentes do grupo não pediam só para si, mas sob encomenda, para terceiros.
Tudo, mediante pagamento.
Quase sempre, obtinham o que solicitavam às “forças invisíveis”, como declaravam.
Aliás, Campos acreditava que seu emprego fora conquistado através de oferendas que ele fizera “aos génios”, por sete sextas-feiras seguidas.
Assim, não pensou duas vezes, de que forma iria vingar-se:
apelaria aos “amigos do além” e com a ajuda deles não tinha dúvidas que “faria justiça”.
Esteve por várias semanas fazendo os petitórios e as respectivas ofertas, mas nada de ser atendido.
Quase desanimando, julgando que os “amigos do lado de lá” tinham o abandonado, deixou de fazer as oferendas, pois o custo delas já tinha afectado suas economias.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 19, 2017 9:58 am

Quase todas as inúmeras pessoas que pagavam-lhe para ser o intermediário de seus pedidos aos Espíritos, deixaram de procurá-lo, até porque já nenhum desses pedidos vinha prosperando.
Aliás, o próprio Campos era prova disso, pois estava desempregado.
Assim, começou a procurar novo emprego.
Batalhou de agência em agência, de empresa em empresa, mas em todas sentia um intransponível muro à sua frente, muro esse que parecia ter sido construído “só para ele”.
Entregou-se à bebida.
Reunindo-se nos bares com outros invigilantes, em pouco tempo, era um alcoólatra a mais na face da Terra.
Era amasiado, sem filhos.
Sem tardança e sem contemplação, a companheira abandonou-o.
Sumiu. Contaram a Campos que “com outro”.
Se faltassem motivos ou argumentos, isso fez com que o ex-motorista bebesse mais, agora com tal “habeas-corpus”.
Numa das suas entregas ao álcool, começou a andar a esmo, ou melhor, dirigia-se cambaleante e em passos tortuosos, dizendo que ia “para lá”.
- Lá... aonde? - perguntou-lhe, certa vez, outro bêbado.
- Lá - e apontou para o céu.
- O que... você vai fazer... lá?
- Vou nadar...
- Ué... nadar... lá no céu?
- É!
E saiu, trôpego, caindo e levantando, resmungando:
- Meu chefe precisa de mim.
- Que chefe, meu chapa?
Que chefe? - perguntou o colega, gritando, pois Campos já estava distante.
- O... senhor... Helmuth.
Ele está me chamando.
Campos lamentou-se intimamente:
“se ele ainda fosse vivo... ou se ao menos os ingratos do outro mundo ainda fossem meus amigos...”.
Forte atracção de dois Espíritos infelizes que conheciam Campos.
Dialogaram entre si:
- Vamos ajudar esse bobão, pois é só o que nos resta... vamos aproveitar que está bêbado, pois quando não bebe é perigoso...
- Tem razão.
Por causa dele, que deixou de dar os presentes, perdemos o direito de continuar na equipe.
A “equipe” a que se referiam, era o grupo de desencarnados que atendia Campos, quando de suas equivocadas evocações, atraindo Espíritos inteiramente voltados para o conúbio com encarnados, mercantilistas das forças espirituais.
Empurraram Campos que caiu, ferindo-se na testa .
Essa, a “ajuda”.
Campos, caído na sarjeta, era uma figura patética:
fazendo desengonçados movimentos, simulava estar nadando.
Um carro da polícia passou por ali e os militares não conseguiram evitar o riso quando se acercaram do bêbado, no chão, com o corpo encharcado pelo filete de água que escorria junto à guia da calçada, balbuciando:
“estou quase chegando... estou quase chegando...”.
- Aonde? - perguntou-lhe um dos soldados.
- Lá...
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Ave sem Ninho

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:10 am

- Aonde?
- No céu... meu amigo precisa de mim.
Vendo que estava ferido, conduziram-no ao Pronto-Socorro (PS), onde o recepcionista determinou:
- O doutor só poderá examiná-lo depois de um banho e quando você trocar essa roupa, cheia de lama, com esse cheiro de esgoto...
Por coincidência, um dos militares ofertou a Campos roupas usadas, dele, que iria doar a alguma instituição de caridade.
Após se banhar, Campos foi atendido recebendo apenas um curativo porque o ferimento tinha sido superficial.
Passou a noite ali.
De manhã, pediu “suas roupas sujas”, sendo informado que estavam na lavandaria.
O atendente prontificou-se a ir buscá-las e logo voltou, acompanhado da funcionária encarregada de lavar as peças.
- Ester?!
- Campos?!
Sim. A elegante secretária de Helmuth agora era lavadeira no Pronto-Socorro.
- Não me diga que as roupas sujas... são suas...
- São, sim. Perdão.
- As peças estão secando.
O que você andou aprontando?
- Deixa prá lá...
- Quero saber.
- Outra hora, outra hora.
Ester retornou ao trabalho e Campos, duas horas depois, recebeu suas roupas, limpas e passadas, retirando-se a seguir, cabisbaixo.
Humilhadíssimo.
Trancou-se em casa o dia todo e ficou pensando.
À noite, completamente desorientado da vida, ainda pensando mil maneiras de sair do “fundo do poço” no qual “a vida o jogara”, recebeu inesperada visita:
- Ester! O que você veio fazer aqui?
- Quero saber aquela história do seu amigo “lá no céu”...
- Que amigo?
- Os enfermeiros me contaram que você passou a noite lá no PS dizendo que um amigo lá no céu, embora muito rico e poderoso, estava pedindo ajuda.
Será que esse amigo é... o senhor Helmuth?
- Não sei do que você está dizendo.
- Procure se lembrar... em quem você pensa quando olha para o céu?
- Deixe-me ver...
Meu Deus: penso, sim, no senhor Helmuth!
Mas ele está morto!
Como é que pode?!
- E por que então você pensa nele?
Do que se lembra?
- É complicado e não sei se você acredita em certas coisas...
- Tente me explicar.
Só vim aqui porque também não consigo evitar lembranças dele.
Com efeito, os dois Espíritos infelizes que perturbavam Campos não tiveram a menor dificuldade em envolver Ester em suas vibrações, conduzindo-a a um encontro com o ex-motorista.
Tinham planos...
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:10 am

- O senhor Helmuth - prosseguiu Ester - era tão bom para mim... e veja agora como estou:
de secretária-executiva à faxineira... de roupas imundas, de vagabundos...
Não conseguira impedir o desabafo e quando percebeu sua brutalidade para com Campos, já era tarde.
Este, abaixou a cabeça, como se acabasse de ser condenado à pena capital.
Arrependidíssima, ao perceber que o ferira psicologicamente, Ester acercou-se dele e passando-lhe suavemente a mão nos cabelos, mais suavemente ainda sobre o curativo, implorou:
- Perdoe-me... não pude evitar; não queria ofendê-lo, mas minha mágoa não tem limites.
Estou desesperada... só penso em me vingar... e agora estou maltratando a pessoa errada... Perdoe-me.
O momento era de singular fraternidade, posto que entre duas pessoas unidas pelo infeliz denominador comum do desejo de vingança.
Ainda e sempre pela lei de sintonia e atracção, Campos captou o vigoroso clamor psíquico daquela alma feminina, mais humilhada do que havia sido ele humilhado.
Pensou:
“eu era um simples motorista, mas ela, a secretária do presidente.
Quantas e quantas vezes o senhor Helmuth a incumbiu de assuntos particulares, de extrema importância?
Altamente competente, ela jamais decepcionou o patrão”.
Ester continuava junto dele, alisando-lhe os cabelos.
Sentiu o perfume e a delicadeza daquela mulher, que tantos e tantos homens, em vão, tentaram conquistar.
Ester era muito bonita.
Nela, a sensualidade aflorava pelos gestos delicados, pelo corpo de linhas perfeitas, pela voz aveludada e sempre segura.
Campos devaneou:
“tantos a desejaram e ela aqui com carinhos...”
Entrosavam-se as duas almas, agora pelo também singular calor vindo do mesmo ódio que os envolvia, qual explosivo vulcão que sobre eles derramava lava de sentimentos perturbados, logo derivando-se para a sensualidade.
Sentiu o calor feminino que lhe era transferido e que mentalmente passou a devolver.
Nesse tom, a infelicidade mútua, alimentada vigorosamente por frustrações, humilhações, desespero, planos vingativos e outros mais pensamentos infelizes, logo provocou combustão espontânea no sangue de ambos.
De início, a troca de calor era mental.
Logo, passou a ser epidérmica.
A dupla espiritual que os assessorava, incutindo-lhes mais e mais ideias de vingança, também aderiu ao incontrolável despertamento erótico que assaltou aos encarnados.
Com vigorosas inflexões mentais, induziram o homem e a mulher a um estado alucinado de sensualismo .
Energizados por fluidos deletérios, sexualizados, o que poderia ser amparo moral recíproco, explodiu em sensualidade indómita.
Vivendo de quedas em quedas, de infelicidades em infelicidades, os dois, num átimo de segundo, entregaram-se ao fulgor de um erotismo avassalador, que súbito lhe irrompeu incontrolável, exigente...
Dois destinos selavam ali enlace rígido, em moldes espirituais absolutamente contrários às respectivas programações reencarnatórias.
O sexo sem responsabilidade não oferta o sentimento de realização.
Nele, sexo, enquanto criação divina, corpos, almas e auras, formam um só conjunto.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:10 am

Já na paixão desenfreada, oriunda da libido, sem trânsito pelo amor, o sexo provoca o efeito de curto-circuito mental, cedo ou tarde.
Demonstrativo disso, Ester e Campos, esgotada a volúpia, nem sequer conseguiam se olhar.
O fulgor sexual que a revolta lhes imprimira na alma, teve rápida vazante física, assim que foram satisfeitos os anseios que visitaram seus corpos.
O ódio e o desejo de vingança permaneciam-lhes na mente.
Contudo, em ambos, nenhum vestígio de que a atracção física tivesse maior significado.
Ester despediu-se e dali foi à igreja, confessar-se.
Campos, para o bar, embriagar-se.
A frustração, agora, era-lhes maior:
nela, por “ter descido tanto”; nele, consciente de ter sido usado como simples objecto, descartável.
Mas as tramas da vida tecem poderosa malha, cujas faces, interna e externa, envolvem os seres que nelas se agasalham.
Uma semana após a imperdoável loucura que fizera, a de entregar-se a um reles motorista, segundo avaliava, Ester voltara à ruína psíquica.
Exercendo simples tarefas de faxina no PS, convivendo só com acontecimentos infelizes e com pessoas doentes e pobres, sua revolta crescia.
- Desde quando uma faxineira pode ler revista de rico?
Era o encarregado do plantão nocturno, que buscando uma surrada revista que só trazia fofocas da alta sociedade, flagrara Ester folheando-a, no meio da noite.
- Estou... só dando uma olhadinha...
- E o seu serviço?
Quem faz? Eu?
- Sempre dou conta das minhas obrigações...
- Vamos parar com essa folga, entendeu, mocinha?
Alimentando-se de revolta em revolta, ódio em ódio, desempenhando funções que jamais soubera sequer existirem, Ester não perdoava o destino por tê-la reduzido a uma simples “mulher de limpeza”.
Contudo, aquele foi o único emprego que conseguiu, naqueles tempos de recessão económica, com a avassaladora onda de desemprego que campeava por todo o país.
Fruto de tanto desgosto, explodiu:
- Olha aqui, chefinho de bêbados, fique com esses alcoólatras imundos que cada noite são trazidos para aqui.
Para mim, você e eles são iguais, aliás, eles são melhores, pois não me ofendem.
- O quê, meu amor?
A donzela está bravinha?
Eu é que sei bem do que você está precisando...
À insinuação, o encarregado acrescentou um gesto grosseiro.
Indignada, Ester não conseguiu dominar-se.
Sonora bofetada estalou no rosto do encarregado.
Em consequência, perdeu aquele emprego, “por justa causa”.
Bem que tentou, por dias e dias, arranjar outro.
Mas, debalde.
Duas semanas após, imaginou ser irrecorrível procurar a única pessoa que naquela cidade talvez a ajudasse:
- Campos... fui demitida, não tenho onde ficar, estou devendo na pensão e lá só poderei voltar quando pagar a dívida...
Dizendo essas palavras, entrecortadas de soluços, Ester estava, na verdade, propondo união com o ex-motorista.
Que a aceitou.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:11 am

Ester não estava sozinha, os dois Espíritos que não haviam se desligado de Campos, urdindo um plano para lucrarem, após subjugá-lo, eram os mesmos que, no PS haviam atiçado o encarregado contra Ester e ela para reagir.
Calcularam, com alguma base dedutiva que se ela não conseguisse trabalhar teria que procurar o ex-colega da “H&H”, o que acabou acontecendo.
Naquele momento, estavam exultantes:
- Agora podemos arranjar emprego para os dois...
Não por acaso foi que no dia seguinte uma vizinha comentou com Campos que havia uma vaga de empregada doméstica, numa residência luxuosa.
Ester tentou essa vaga e como referência profissional, deu o endereço da pensão, cuja dona concedeu em atestar bons antecedentes, mediante promessa de Ester de pagar a dívida, logo com o primeiro ordenado.
Senão...
Aquele “senão” foi pesada ameaça que Ester carregou por um mês, até quitar sua dívida, por conta da qual sofreu inimagináveis humilhações, receosa de perder esse novo emprego.
Ester estava no emprego há duas semanas quando soube que o motorista da família estava doente.
Convenceu Campos a se candidatar àquela vaga, mesmo que a exercesse por pouco tempo, até a volta do titular.
Campos aquiesceu e sem dificuldade, testado na prática, foi admitido.
No emprego, a empregada doméstica e o motorista ao menos se olhavam, não despertando quaisquer suspeitas nos patrões quanto ao facto de serem amantes.
Aliás, sua convivência fora do emprego era também apenas administrada por ambos, sob acomodação, inexistindo afeição.
Não se amavam, não se apreciavam, nada tinham em comum, a não ser um grande ódio pela perda do emprego na fábrica de automóveis, sob condições as mais humilhantes.
A vertiginosa derrocada dos dois, profissional e social, debitavam-na inteiramente a Karl, devotando-lhe ódio implacável, crescente a cada nova humilhação que lhes acontecia.
Voltando a ter algum dinheiro, Campos retornou também às actividades às quais requeria o concurso “das almas” e a primeira coisa que fez foi pedir a elas que afastassem definitivamente o motorista titular, para que ele fosse efectivado.
Coincidência ou não, o facto é que três dias após foi informado que fora aprovado no período experimental e que o motorista anterior havia se mudado para o interior, com a família, onde cuidariam de uma plantação.
Três meses após, um desses acontecimentos incríveis visitou a vida de Ester e Campos:
os filhos dos patrões entraram em férias escolares e toda a família foi passar quinze dias na casa que tinham junto ao mar.
Já há dez dias na praia, para onde levaram a empregada e o motorista, a família recebeu convidados para um churrasco.
Campos estava lustrando o veículo dos patrões, soberbamente estacionado no amplo gramado da residência, quando viu os convidados irem chegando.
Seu coração, por pouco, não parou, quando viu um casal chegar.
Disfarçou, abaixando-se, como quem estivesse limpando as rodas.
Com isso, não foi visto pelos visitantes.
Mil pensamentos desencontrados lhe visitaram a mente, deixando-o sem condições de concentrar-se para decidir qualquer acção.
Estava nesse torpor já há alguns minutos quando novo abalo o atingiu:
- Miseráveis, miseráveis, vocês hão de arder no inferno...
Era Ester que, aos gritos e em desabalada correria, deixava aquela mansão, ainda com o avental de serviçal.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:11 am

Os filhos dos patrões vieram até o gramado e com eles alguns visitantes, todos espantados.
- Você aqui, também?!
Era Karl, reconhecendo-o.
Não houve como responder.
Karl gritou, gesticulando nervoso:
- Esse aí foi motorista do meu pai e eu o despedi porque andou aprontando... e aquela dona, também era secretária lá na fábrica... deve estar envolvida com ele... será bom chamar a polícia e apurar o que estão tramando.
- Não há necessidade de chamar a polícia - contemporizou o dono da casa, acrescentando.
Eles têm cumprido bem suas obrigações.
- Chame, sim - insistiu Karl, maldosamente.
Serei testemunha, com prazer.
Dessa gente deve se esperar tudo de ruim.
- Se o senhor pensa que somos bandidos - reagiu, por fim, Campos - então é melhor mesmo chamar a polícia.
Eu e a Ester somos dois seres humanos que foram humilhados pelo filho do senhor Helmuth e agora estamos tentando reconstruir nossas vidas...
Moramos juntos, sim, e ninguém tem nada a ver com isso.
- O mesmo Campos de sempre, arrogante, de fala mansa e calma - debochou Karl, acrescentando.
Talvez seja mesmo bom a polícia fazer uma investigação nas actividades desses dois.
Alguma coisa devem estar tramando...
Como as suspeitas quase sempre têm mais força que os factos, Campos e Ester foram despedidos, no acto, sem maiores explicações.
Pela segunda vez foram humilhados sob acção directa de Karl.
Mas um terceiro ataque moral os alcançaria:
os grandes jornais da cidade onde moravam, por três dias, publicaram um anúncio, com título ambíguo, sob patrocínio ostensivo da poderosa “H&H”:
“DUPLA DESPEDIDA
A ‘H&H’ comunica que ALTIVAR P. CAMPOS e ESTER N. SILVA, amasiados e residentes nesta cidade, há meses não mais pertencem ao seu quadro de funcionários.
Infelizmente, não podemos emitir quaisquer referências sobre ambos.”
O “infelizmente” era arrasador:
dali em diante, quem se arriscaria a empregar a “dupla”?
Foi assim que, sem o menor remorso, e até com redobrada energia, Campos elegeu a vingança contra Karl como projecto máximo de sua vida.
Já não lhe importava nem mesmo morrer, só queria vingar-se.
Nesse avassalador propósito, recebeu o incenso de diversas fontes:
a primeira, de Ester, conjugando com ele a mesma cartilha de vingança; a segunda, de Espíritos obsessores que buscavam alguma brecha na existência de Karl para igualmente se vingarem e acertarem “contas pendentes”; a terceira, os pensamentos de ódio de outros desempregados que haviam sido demitidos da mesma indústria, como aliás é rotina de “turn-over” (substituições, renovações - de pessoal), nas grandes empresas; uma quarta fonte surgiu inesperada:
um fabricante de auto-peças, reprovado pela “H&H”, “por implicância do senhor Karl”, segundo ficou sabendo pela indiscrição de um funcionário, procurou Campos e Ester e ofertou-lhes emprego.
Esse homem mudara de ramo e agora comprara uma frota de táxis.
Houve mais um vector de apoio ao ódio de Ester e Campos a Karl...
Das trevas que o rodeavam, submetido a todo tipo de privação, Helmuth, sob angústias, aflições e dores inenarráveis, destilava fervente ódio contra o filho.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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